A viagem até Las Vegas tinha sido feita no carro de Alex... e foi no carro de Alex que voltaram. Ele, claro, ao volante. Dianna, submersa no próprio mundo enquanto observava o clima árido do semi-deserto que atravessavam e que naquele fim de tarde daria um magnífico cenário para algumas de suas fotos, ponderou no quanto aquela situação se assemelhava à vida que Alex pensava levar. Desde muito cedo fora extremamente mimado. Sempre supostamente no comando, o verbo "contrariar" e seu nome nunca iam ser conjugados juntos. No mundinho dele? Nunca!

Dianna bufou, desconfortável no banco do carro que era caro demais para o gosto dela. Tudo era pomposo demais naquele cara para o gosto dela.

Alex a olhou de rabo de olho, sorrindo com pretensão antes de falar.

- Triste por ter que voltar?

"Triste por ter que aguentar você mais três horas inteiras. Será que eu morro se me jogar do carro em movimento?"

- Tão calada...

"Não estou calada, só não quero falar com você."

- Um pouco...

- Ah, Dianna, você tem que estar feliz, meu amor. Nós nos casamos!

"Que maravilha..."

- Que maravilha.

- Eu acho bom você começar a se animar com a ideia. Aliás, com a SUA ideia, não?

Dianna bufou outra vez, cruzando os braços ao redor do corpo. O desconforto psicológico chegando a se tornar físico agora. Viajar em geral não lhe fazia mal... mas tinham pouco mais de uma hora de estrada e ela já sentia o estomago dando sinais de que não estava bem. Afundou no banco do passageiro, deixando que o ar condicionado do veículo lhe trouxesse o mínimo que fosse de alívio, tentando não pensar no que realmente aconteceria assim que chegassem a Los Angeles.


- Groff, eu realmente preciso que você assine isso aqui para podermos dar seguimento ao inquérito que o senhor fez tanta questão para que começássemos o mais rápido possível.

A palavra "senhor" foi dita com desdém.

Jonathan se encolheu na cadeira, subitamente acuado.

Ele não sabia da onde vinha aquilo, aquele receio todo. Simplesmente sabia que não queria deixar que mexessem no apartamento de Lea. Não ainda.

Era a noite de domingo. Jonathan tinha deixado Lea debaixo dos cuidados de Heather e Amber, que se dispuseram a assumir o posto de Naya, quando esta se viu praticamente obrigada a ir para casa dormir um pouco e se preparar para as gravações do dia seguinte. Agora, na sala do detetive que assumira a ocorrência da noite de sexta-feira, discutiam sobre a possibilidade de embargarem o "local do crime".

- Eu não acho que seja eu quem deva tomar essa decisão.

- Da onde veio isso agora, Groff? – O senhor de meia idade, muito calvo, muito alto e muito magro se inclinou, cruzando as mãos enquanto apoiava os cotovelos sobre a mesa. – Você tomou a frente de tudo desde o começo. Algum problema com o apartamento? Alguma coisa que não possamos ver?

- Por Deus, não!

- Simplesmente não entendo então! – Ríspido, o homem se deixou relaxar contra a poltrona outra vez, enquanto olhava Jonathan. O farto bigode traia seu nervosismo.

Jonathan ponderou, levando a mão direita até a nuca. O cansaço das ultimas quarenta e oito horas caindo com peso excessivos nos ombros já cansados. Se permitiu fechar os olhos por alguns poucos segundos. Sabia que não estava sendo racional. Sabia que tudo aquilo não fazia sentido. É óbvio que eles precisavam entrar no apartamento e Lea... e sabia que fariam isso com ou sem sua autorização, tão logo o dia clareasse e um juiz qualquer assinasse uma daquelas malditas autorizações para que a polícia entre em sua casa e revire tudo.

- Olha... eu não sei. Só quero que nessa questão ela tome a frente.

- Ótimo! Então vamos falar com a senhorita Sarfati agora mesmo.

- Não.

- Como não?

- Não vão falar com ela. Tenho um laudo médico que a deixa resguardada de tudo que possa causar stress extremo. Como essa situação por acaso.

- Um laudo?

- Isso, um laudo.

- E como você conseguiu esse laudo, Groff?

- Conseguindo.

O agente bufou, cruzando as duas mãos sobre a mesa e voltando a se deixar recostar na cadeira.

- Isso tudo está muito estanho, Groff, muito estranho.

Jonathan engoliu em seco. Tentou dizer a si mesmo para se controlar... Mas no instante em que se deu conta do que fazia, já estava de pé, uma das mãos apoiadas no tampo da mesa, a outra a centímetros apenas dos bigodes de Hernandez, o policial.

- Em vez de ficar formulando esse tipo de teoria, você deveria estar tentando achar um jeito de manter aquele filho da puta pro resto da vida na cadeia. Pro resto da vida!

Falou perigosamente baixo. Hernandez não respondeu de imediato. Longos segundos se passaram até que o homem finalmente falou.

- Eu acho muito bom você se acalmar, se não quiser ir preso antes mesmo de seu amiguinho.

Jonathan engoliu em seco, apertando os dedos contra a palma da mão.

- Eu não vou assinar nada.

Hernandez novamente o encarou em silencio por algum tempo. Depois simplesmente assentiu, anotando alguma coisa que Jon não conseguiu ver enquanto se endireitava para sair dali.

- Não saia da cidade.

Foi a última coisa que Jonathan se permitiu ouvir antes de definitivamente dar as costas para o outro homem, ciente de que as coisas naquela investigação, andariam a passos mínimos.


- Então nós podemos negociar uns dias de folga com a minha produtora. O último filme foi um sucesso, tenho certeza que eles não negarão um descanso para o astro do momento. – Alex sorriu para si mesmo, presunçoso, e Dianna se perguntou se ele realmente acreditava naquilo que estava dizendo. Meneou a cabeça, resolvendo deixar pra lá a vontade de falar que a Fox com certeza não a liberaria por mais de um fim de semana e que a viagem para um dos países da América Central que ele estava planejando com certeza não sairia do papel. Não da parte dela pelo menos. Se ele quisesse ir sozinho, ela não se oporia nenhum pouco.

- Me leva pra casa.

- É óbvio que eu estou te levando para casa.

- Você entrou pela via errada então, Alex, porque eu moro do outro lado da cidade.

- Você mora? – Ele gargalhou com vontade antes de continuar – NÓS moramos no meu apartamento, docinho. Como deveria ter sido desde sempre.

- Eu não vou para a sua casa! É claro que não! – Ela se viro para Alex, franzindo o cenho, o choque ainda mantinha seus lábios ligeiramente entreabertos. Ele não podia estar falando sério.

- É claro que você vai. – O tom de voz usado a fez arrepiar. Pela primeira vez em pouco mais de um ano juntos, ela sentiu medo dele.

Limpou a garganta, voltando a olhar para frente, antes de falar.

- Eu... Eu não tenho roupas.

- Você compra outras.

- Comprar outras? Eu acho que você enlouqueceu. – Riu, extremamente nervosa, se encolhendo contra a porta do carro, assustada.

O transito chamou a atenção de Alex, impedindo-o de responder como gostaria. O veículo dobrou à direita. Mais meio quarteirão andado e chegariam ao seu prédio... Isso se o carro não tivesse sido rodeado pelo que Dianna chutou ser algumas dezenas de pessoas assim que dobrou a esquina. Alex manteve-se firme no volante... O sorriso presunçoso desenhando-se mais uma vez nos lábios vermelhos. Sorriso que morreu assim que conseguiu ouvir o que as ditas pessoas gritavam.

Não demorou a perceber os flashes. Os que ele antes pensara ser os tão esperados fãs enlouquecidos, insistiam em perguntar entre gritos onde Dianna estivera naquele fim de semana, se tinha sido ela realmente a primeira a achar Lea na noite de sexta, se seu depoimento já havia sido prestado.

Paparazzi.

Dianna, ainda encolhida contra o banco, sentia as próprias cores se esvaindo aos poucos. Achar Lea? Depoimento?

Engoliu em seco quando Alex arrancou com o carro. O ruído dos pneus contra o asfalto afastou a multidão e em alta velocidade, ele entrou na garagem do condomínio. Não se falaram enquanto ele estacionava o carro de qualquer jeito em uma das vagas dalí... Também não se falaram enquanto eles esperavam o elevador que o próprio Alex tinha acabado de chamar.

Alex extremamente irritado.

Dianna em estado de choque.

Lea? Depoimento? Polícia?

A campainha característica denunciou quando o elevador estacionou no andar subterrâneo. Alex não olhou para Dianna ao entrar... Só o fez ao apertar o botão do sétimo andar. Em silencio, se encararam. Alex dentro do elevador. Dianna ainda do lado de fora.

- Dianna...

Ela não respondeu... Apenas o encarava enquanto dava um passo para trás.

- Dianna, entre no elevador.

Outro passo.

- DIANNA!

Alex gritou enquanto a porta do elevador fechava e Dianna se voltava na direção do portão de entrada. Ele se viu obrigado a voltar para dentro do elevador quando a porta não retrocedeu como deveria fazer quando enfiara o braço direito entre as duas partes que se fechavam. Ainda teve tempo de ver Dianna saindo pelo portão que havia sido aberto outra vez, ganhando um mar de gente que se espremia contra ela.


A noite já caia alta quando ela conseguiu chegar ao prédio que ela costumava chamar de seu. Engoliu com dificuldade ao se ver de frente à porta que ela conhecia tão bem... O silencio sepulcral lembrava-lhe a última vez que ela estivera ali, e Dianna por um segundo chegou a pensar que no momento em que abrisse aquela porta, encontraria Theo montado em Lea outra vez. Meio trêmula e lutando contra o enjoo que se tornava mais forte a cada segundo ali, naquele lugar, ela abriu a porta.

Uma pequena fresta de luz entrava pela janela da sala e Dianna se perguntou quantas vezes Lea não reclamara da luz daquele poste, exatamente de frente à janela e que a pequena dizia dar reflexo na televisão anti-reflexo. Dianna não conseguiu conter um sorriso... Ainda do lado de fora, ela arriscou um passo na direção da porta. O fato de estar destrancada a levou a crer que Lea talvez estivesse em casa. Teoria que foi posta abaixo tão logo a luz foi acesa.

O enjoo a maltratou ainda mais quando Dianna se deu conta do estado em que a sala estava.

A mesa de centro estava em pedaços. Pedaços dos inúmeros bibelôs que eram a paixão de Lea se espalhavam por todos os cantos. Peças de roupas jogadas por toda a parte e alguém derrubara algo no chão. Água talvez. E aquilo secara, formando uma mancha horrível no tapete tão bem cuidado por Dianna antes.

Engoliu com dificuldade, com muita dificuldade, o horror da cena ameaçando fechar-lhe a garganta. Olhou na direção dos quartos, ainda muito escuros e pela primeira vez em quase meia década naquele apartamento, ela teve medo de adentrar um pouco mais.

Os olhos cor de âmbar passearam receosos pela sala uma vez mais, enquanto ela se deixava apoiar contra a porta que fechava atrás de si. O que diabos estava acontecendo? Onde estava Lea? Porque aquela bagunça?

Alex lhe arrancara o telefone celular tão logo saíram de Los Angeles. Na hora, ela simplesmente não conseguiu reagir... Pagara um preço caro demais por isso. Conseguia ver agora.

Outra vez, vasculhou o caos à sua frente, passando pelos sofás, pela mesa destruída e por fim chegando à televisão desligada. Levou a mão direita aos cabelos, suspirando desolada. Respirava com dificuldade e temia que as pernas lhe faltassem quando ela se obrigasse a andar. E foi exatamente o que aconteceu quando um detalhe lhe chamou a atenção, exigindo que ela se aproximasse. Ao lado da televisão, no suporte próprio para o aparelho, jazia solitária uma câmera fotográfica, a lente estranhamente voltada para o lado do sofá maior.

Dianna se aproximou a passos lentos, a sensação de mau presságio aumentava mais a cada segundo naquela casa e ela desconfiava que em alguns minutos mais e a tensão do ar se tornaria palpável.

Trêmula, ela alcançou a máquina. Ligou-a e a primeira mensagem que recebeu do aparelho foi que a de bateria fraca. Tentou ignorar, acessando o arquivo do cartão de memória. Colocou o único filme para rodar.

Os primeiros segundos do filme, Theo aparecia falando alguma coisa que ela não conseguia entender em um outro lugar que ela não conseguia identificar. A casa dele talvez. Então ele sorriu do modo mais canalha possível e Dianna pensou que finalmente fosse vomitar.

Não aconteceu.

A cena então cortou para uma outra. Essa já naquele apartamento. Theo sem camisa, ajeitava o foco da câmera. Por alguns segundos ele saiu da frente da lente e Dianna pode ver a sala. A sensação de náusea voltou com força redobrada quando ela reconheceu a silhueta de Lea deitada em um ângulo estranho no sofá. Theo logo apareceu e sorriu para a câmera de novo. Se aproximou de Lea, que não reagiu. Pegou-a meio desajeitado... E Dianna teve outra vez a sensação de que ia vomitar quando ele a beijou, sem resposta.

Lea não correspondia em nada.

O braço caia pesado ao lado do corpo, Theo a segurava sem jeito algum... Por várias vezes em alguns segundos apenas, Dianna o viu puxando-a para cima, como se estivesse difícil de sustenta-la no alto.

Então ele tirou a blusa delicada dela.

Dianna se agarrou ao móvel da televisão para se obrigar a continuar vendo.

Theo passou a beijar-lhe o colo... E só quando Lea caiu no sofá pelo que Dianna julgou ser a décima vez, ela entendeu o que estava acontecendo realmente ali. Lea estava inconsciente.

Alguns segundos a mais se passaram até que Theodore tirou a própria camisa. O nojo que sentia dele contorcia as feições de Dianna numa careta estranha, que ela nem se dava conta de fazia.

O filme continuou por mais alguns segundos antes da câmera apitar em sinal de falta de energia e desligar. Dianna voltou a liga-la. O filme continuou do mesmo ponto.

O exato ponto em que Theo se afastara de Lea por alguns segundos, olhando na direção da porta. O ouviu falando. O murmúrio que ela conseguia ouvir pela câmera fotográfica, eram palavras extremamente conhecidas e foi única e exclusivamente por conta disso que ela conseguiu entender. "Você quer brincar também?"

O filme seguiu e Dianna se obrigou a continuar vendo, tentando controlar o tremor violento que deixava a imagem um tanto quanto tremida. Jonathan entrou em cena e ela pode ver como a mesinha da sala fora quebrada.

Jonathan a quebrara. Jogando Theodore ali.

A força da raiva de Jon mesmo por vídeo chegava a ser quase palpável, mesmo pelo vídeo.

Dianna não conseguiu ter ciência do que aconteceu em seguida. Por fim, a máquina digital cedeu à debilidade dos dedos que a seguravam, ganhou o chão. E Dianna teria caído também, se não se obrigasse a sentar no sofá enorme. Os cotovelos apoiados nas mãos, que se enfiavam entre os cabelos loiros.

Não tinha certeza quanto tempo ficou ali, daquele jeito. O mal estar ameaçando roubar-lhe os sentidos.

Quando por fim ergueu a cabeça, decidida a ir até o próprio apartamento em busca de algum dinheiro para o taxi, uma vez que a bolsa ficara no carro de Alex e que os poucos trocados que tinha, já tinham sido gastos na viagem até ali, o que viu fez com que Dianna tivesse certeza de que tinha um bom coração. Se não tivesse, com certeza já teria enfartado.

Alex a olhava, recostado na porta de entrada. Os braços cruzados sobre o peito e uma expressão indecifrável no rosto de traços bem feitos.

Dianna engoliu em seco, se obrigando a levantar ainda o olhando.

- Eu preciso que você me leve...

- Pra onde?

- Eu... Eu não sei. Preciso do meu telefone celular também.

Ele sorriu. Um sorriso horrível.

- Pra que?

- Eu preciso, Alex. Não tenho tempo para brincar agora. Se não quer me ajudar, sai da frente que eu vou sozinha.

O desespero na voz de Dianna a traía enquanto ela cruzava a sala e levava a mão para a maçaneta da porta. Porta que Alex mantinha fechada usando o próprio corpo.

-Você vai sair daqui sim, Dianna. Mas não para onde você acha que vai.

O tom que ele usou fez a moça recuar, olhando para ele em um estado de quase-choque.

- Sabe, meu amor... Eu estou cansado dessa mulher entre nós dois. Sempre foi assim, sempre. - Ele se aproximava de Dianna enquanto ela recuava. – Desde o começo. Trocado por uma mulher! Tem cabimento? Não, não tem. Você não gosta de mulheres. Você gosta de mim. Tanto quanto eu de você. Ela é só uma amiga. Mesmo que você tenha me deixado esperando dezenas de vezes por causa dela. Mesmo que você preferia ficar em casa vendo um filme qualquer com essazinha do que ficar comigo. Mesmo que você tenha jogado tudo o que eu dei pra você no lixo por causa de uma aventura hormonal.

- Alex...

- CALA A BOCA! – Dianna prendeu a respiração quando o medo ameaçou esmagar-lhe os pulmões. Alex agarrou-lhe o rosto com uma única mão, espremendo ambas as bochechas com força enquanto a segurava pela mandíbula. – Mas agora, Dianna, agora, meu amor, você é minha. Única e exclusivamente minha. E sabe o que é melhor? Foi sua ideia. Não foi? Não foi você que me ligou e me fez viajar centenas de quilômetros só para que a gente se casasse? Não foi você? Se isso não for amor, eu não sei o que é. Então, você vai honrar esse amor, sabe? Vai honrar sim... Eu não vou tolerar outra vez o que aconteceu hoje. Que fique bem claro, tá? Não vou tolerar.

Dianna fechou os olhos com força. Uma única e solitária lágrima traiu o desespero e o medo que tomavam conta de si. Alex ainda se aproximou dela, beijou os lábios delicados com dureza, antes de se afastar, soltando-a com rispidez e fazendo com que Dianna precisasse se agarrar ao móvel da televisão outra vez, para não cair.

Ela engoliu em seco, abrindo os olhos com vagar. Respirou muito fundo, juntando todo e qualquer resquício de coragem para enfrenta-lo ali, daquele jeito.

- Aquele casamento foi um erro...

Ela falou muito baixo, a voz era apenas um fio.

Alex riu. Gargalhou, na verdade, jogando a cabeça para trás, antes de se virar para ela outra vez. A encarou em silencio, ainda sorrindo. Dianna o olhava com receio, reconhecendo o brilho da insanidade naquele sorriso torto que ele ainda tinha nos lábios. E então ele ergueu a mão.

A única coisa que Dianna conseguiu sentir foi o golpe forte, na bochecha direita. Cambaleou outra vez e por uma fração de segundos chegou a pensar que ganharia o chão. A estante impediu que caísse.

Olhou para Alex com perplexidade, o queixo caído enquanto ela meneava a cabeça numa expressão de choque.

- Eu acho que você não me entendeu... – Alex agarrou-lhe a mandíbula outra vez, antes que ela conseguisse fazer qualquer outra coisa para se proteger. – Eu acho que você não me entendeu... – Ele repetiu, dessa vez perigosamente muito mais baixo, apenas para que ela ouvisse. – Você é minha. Só minha, Dianna. E não vai ser de mais ninguém. – Ele aumentou a força da mão que usava para segurá-la e Dianna chegou a sentir o gosto de sangue vindo da parte de dentro das bochechas, que agora eram maltratadas pelos dentes – Você já reparou, Dianna, no quão fácil foi para aquele acéfalo do Stockman chegar até sua amada amiguinha? Já reparou? Já pensou no que eu, que sou algumas infinitas vezes mais inteligente que ele posso fazer sem esforço nenhum, Dianna? Eu não vou matar só você. Mato ela também, meu amor. Mato ela sem piedade nenhuma. – Dianna sentiu a onda de adrenalina vindo com muita força. O estomago gelou de uma maneira quase insuportável ao mesmo tempo em que um calafrio horrendo lhe subia pela espinha.

Com a mesma brutalidade que Alex veio, se afastou. O fato de que Alex estava informado demais para alguém que estivera fora da cidade por quase dois dias inteiros passou batido pela mulher que se agarrara outra vez ao móvel de apoio da televisão.

Alex caminhou a passos firmes para a porta. Abriu-a sem pressa, sem correria e então indicou a saída para Dianna, completamente dono de si.

Ela assentiu, engolindo em seco e sentindo o rosto arder onde ele tinha batido. Saiu do apartamento de Lea, o peso do mundo todo nas costas delicadas.


Lea se encolheu na cama enorme do quarto que Jonathan tinha arrumado para ela, puxando a coberta um pouco mais para si. A dor de cabeça tinha melhorado consideravelmente desde a manhã, quando lhe parecera insuportável e ela se perguntava agora se a dor realmente era tão forte ou era o stress que os amigos, mesmo que estivessem bem intencionados, a tinham submetido. Ela não queria parecer mal agradecida ou coisas do tipo, mas a questão era que nem todo mundo entendia que talvez ficar falando e falando e falando, ou que seja ouvindo a mesma coisa, ouvindo como Jonathan a tinha encontrado, como ela tinha acordado no hospital e o fato de não se lembrar de absolutamente nada, era extremamente desagradável.

Suspirou, se virando para o lado da parede. Não tinha certeza de que horas seriam, ela dormira o dia todo, mas pelo barulho na rua que diminuíra consideravelmente, o palpite que ela daria era que já era madrugada... a hora exata, nunca saberia dizer. As horas da madrugada são todas iguais. Seu celular jazia sobre o criado mudo, obviamente desligado.

Jonathan suspirou, ao seu lado na cama e ela o sentiu se mover, pelo jeito, também se virando para a beirada da cama. Jon originalmente planejara dormir na sala. Estava decidido a dormir na sala, na verdade. Mas Lea se negara veementemente a se soltar da jaqueta jeans que ele usava quando ele ameaçou se levantar para ir dormir.

Lea sabia que nunca poderia agradecer tudo o que ele estava fazendo por ela. Cuidara desde sua entrada no hospital até o isolamento total em que ela se encontrava agora.

O quarto não tinha televisão, a recepção instruída a não dar nenhuma pista sobre seu paradeiro e principalmente: sem telefones no quarto. Nem mesmo o dele, que havia sido desligado logo após a infeliz tentativa de contato com Dianna.

Dianna...

Lea se encolheu ainda mais, a já comum ardência nos olhos voltando a incomodar.

Desta vez, ela não lutou contra as lágrimas que pareciam não ter fim. Chorou sem alarde, calada. Choro sentido e calado.

Contrariando todas as leis da autopreservação e do amor próprio, tudo o que Lea parecia precisar agora era da voz de Dianna dizendo que tudo voltaria a ficar bem. Que as coisas voltariam a ser como eram antes.

Mas não, nem sua voz Dianna emprestara para lhe dar ao menos um pouco de paz.

A única coisa que Lea podia ver agora, embora fechasse os olhos com todas as forças para não enxergar, era que definitivamente Dianna não lhe parecia tão preocupada assim...

Do outro lado da cidade, era Dianna quem se encolhia, tentando se desvencilhar dos braços que pareciam não ter fim de Alex e que lhe circundavam pela cintura.

As náuseas eram suas companheiras desde o momento em que colocara o primeiro pé no apartamento de Lea e o asco só servia para aumentar a sensação de que queria vomitar.

A única coisa que Dianna queria na verdade, era uma noticia sequer. A tentativa de pegar seu celular nas coisas de Alex lhe tinham rendido uma bofetada a mais e somente isso.

Alex roncou em suas costas, tão asqueroso quanto parecia.

Dianna tentou se livrar dos braços dele uma vez mais... e novamente ele a apertou contra si, murmurando alguma coisa que ela não conseguiu entender, provavelmente sonhando.

Ela tentou uma vez mais... e ele afrouxou o abraço. Mais uma tentativa e ele se virou para o outro lado, resmungando outra coisa que ela também não entendeu e por um segundo, o frio no estomago aliviou os enjoos.

Dianna não pensou. Simplesmente não pensou.

Quando deu por si, estava na porta do quarto, abrindo-a com todo o cuidado possível.

A última coisa que Dianna fez antes de sair para a sala e por fim ganhar a rua,foi vasculhar os bolsos de Alex. Seu celular e a carteira dele.

Dianna por fim se permitiu sorrir para si enquanto descia as escadas do prédio pulando dois degraus de cada vez, um sorriso de puro nervosismo, pensando que talvez a inteligência não fosse lá um dos dotes de Alex.

O porteiro do prédio não parecia lá tão interessado assim no que se passava ali, na entrada do prédio. Ela conseguiu sair sem dificuldade alguma, apenas se espreitando quando ele espiou o lado de fora da guarita no intervalo do que ela pensou parecer uma novela mexicana qualquer.

Nenhum dos paparazzi que definitivamente estavam de plantão, ela pensou, pareceu estar preparado para uma fuga assim, no meio da noite. Quando notaram por fim que alguém saindo àquela hora de um prédio supostamente familiar não era lá uma coisa muito comum, Dianna já tinha ganhado uma das ruas anexas, o celular em mão enquanto literalmente corria, na tentativa de conseguir um taxi.

Dianna suspirou, se deixando recostar no banco traseiro do carro amarelo que andava a ermo por LA. Mais uma vez, o taxista lançou-lhe um olhar meio estranho através do retrovisor. Estavam rodando há pelo menos quarenta minutos... Quarenta minutos que Dianna tentara em vão falar com Lea. O primeiro número da lista era o dela mesmo, seu celular. Depois de pelo menos vinte tentativas sem êxito, Dianna passara então para o celular de Jonathan e ainda assim, não tinha obtido sucesso ainda.

- Senhora...

- Senhorita! – Dianna corrigiu mais que depressa. Rápido demais, inclusive. O taxista franziu o cenho, estranhando aquela situação cada vez mais.

- Senhorita... – ele pigarreou, constrangido, antes de continuar – Nós estamos andando faz tempo... Não me leve a mal, mas não é bom ficar simplesmente andando por aí... Não às duas e meia da manhã. Sabe, não tem ninguém na rua a essa hora e eu tenho um filho. É uma criança adorável, sabe? Ele acabou de fazer cinco e...

Dianna pode sentir quando se desligou do que o homem realmente falava.

Porque diabos ninguém atendia o celular?

Jonathan tinha ligado pela tarde, não tinha?

E Alex tinha atendido.

Lea tinha pedido notícias depois de ter sofrido o pior tipo possível de violência para uma mulher e Alex quem tinha atendido o celular. O SEU celular. Porque ela tinha se casado com ele.

Lea tinha sido violentada, Dianna tinha sido a primeira a ver o que estava acontecendo e em vez de ajudar, ela fugira e se casara com o primeiro idiota que encontrada.

Um idiota que agora ameaçava Lea por sua causa.

A sua Lea.

Dianna sentiu a culpa apertando-lhe a garganta. Sabia que podia sufocar a qualquer instante se não conseguisse notícias, se não conseguisse ver Lea, se não conseguisse qualquer coisa, o mínimo que fosse.

Engoliu o nó apertado com muita dificuldade, voltando a discar o número de Jonathan. Uma última vez.

E quando essa última chamada também caiu na caixa de mensagens, ela sentiu a mais atrevidas das lágrimas que ela tentava a todo custo engolir escorrendo pela bochecha direita. Secou-a com raiva, encarando o celular com o pior humor do mundo... O taxista continuava a tagarelar, alguma coisa relacionada à escola do pequeno taxista que ele tinha em casa e que se orgulhava muito.

Dianna suspirou... outra lágrima foi secada com irritação... e então o celular vibrou.

Ela olhou sem vontade para a tela que mostrava uma outra mensagem da companhia de telefonia. Perdera as contas de quantas daquela tinha recebido desde que ligara o celular. Jonathan tinha lhe ligado inúmeras vezes. Jonathan tinha lhe ligado inúmeras fucking vezes e ela não tinha atendido nenhuma! Ela merecia o que estava acontecendo, com certeza merecia.

Teve vontade de mandar o motorista calar a boca.

Que diferença faria?

Ela era com certeza a pior pessoa da face da Terra naquele momento.

Leu a mensagem que acabara de receber sem animação.

Leu por ler, no modo automático... Mas então um detalhe chamou-lhe a atenção.

Franzindo o cenho, ela leu a mensagem de novo... Como por Deus ela não tinha pensado naquilo antes? Quantas mensagens como aquela, ela tinha recebido e simplesmente não notou?

É óbvio que Lea não estaria sozinha naquele momento. Tampouco Jon estaria sozinho para cuidar dela. Mas é óbvio!

Dianna não era só a pior pessoa do mundo, era também a mais tapada, ela pensava enquanto discava o número que também tinha lhe chamado inúmeras as vezes enquanto Alex mantinha o seu celular naquelas mãos sujas.

Diferente dos outros números que davam direto na caixa de mensagem ou que chamavam até ter o mesmo final, o celular chamado foi atendido no terceiro toque por uma voz extremamente sonolenta.

- Eu acho bom você tirar as mãos de Mark da sua bunda e ir me buscar na portaria, porque eu estou indo pro seu prédio agora.

Dianna sentiu o rosto molhado uma vez mais, mas dessa vez, não se secou... sorriu apenas. Um sorriso genuíno, cheio de alívio.

Ela ia ter suas tão necessárias notícias.


Semana dificil... Perdoem-me se deixei a desejar na qualidade desse capitulo.
Estava num vale de criação terrível... simplesmente não conseguia escrever, mesmo que esse capitulo já estivesse me tirando o sono.
Precisava escrever mas não conseguia.
Conseguem me entender?
Eu sinto muito pela demora. Sério.

Muito obrigada pelos reviews... vocês não tem noção do quanto eles ajudam.

Dudewearelost, eu não vou desistir da Numb NUNCA ;)