Dianna engoliu em seco, fingindo prestar extrema atenção no movimento dos dedos. Ela os entrelaçava e desfazia o movimento, brincava com os dedos ao que parecia para quem olhava de fora, sem preocupação nenhuma. Mas não era lá exatamente essa a realidade... mas ninguém precisava saber.
Acontece que a máscara de fingida distração que Dianna adotara enquanto estava sozinha com Mark na sala do apartamento de Naya, caiu no mesmo momento em que ficou a sós com a latina.
- Você perdeu a cabeça, Dianna? – Naya ainda estava de pé, no meio exato da sala, Dianna sentada no sofá maior, também no meio. Encolheu-se perante o tom de acusação da outra moça, que mantinha os braços cruzados e um olhar que mesclava curiosidade e descrença.
- Eu... eu...
- Você se casou.
Dianna não suspirou, só baixou a cabeça, os dedos se enfiando entre os fios loiros e indo se apoiar um pouco acima da nuca.
- Dianna, o que por Deus você estava pensando? Será possível que você não percebeu nada?
O tom de voz de Naya não amoleceu e ela tampouco mudou de posição.
Dianna sentiu o ar faltando outra vez, quando o já conhecido nó na garganta voltou a apertar. Fungou quando a vontade de chorar ficou insuportável. Secou as bochechas com irritação, quando não soube exatamente o que responder.
- Di... Você tem alguma noção do que aconteceu?
Naya por fim suspirou, se aproximando de Dianna e se agachando à sua frente. Apoiou as mãos nos joelhos da amiga, observando Dianna, que ainda estava cabisbaixa. Não voltou a falar... Esperou que a outra moça tomasse a iniciativa dessa vez. E esperou pacientemente pelo que Dianna pensou ser a eternidade até que a coragem retornou.
- Eu... Eu achei que... Eu tinha um pesadelo e...
Não conseguiu terminar de falar. O choro que antes era contido, veio copioso, extremamente sentido. Naya a abraçou, acomodando a cabeça de Dianna contra o próprio corpo. Não falou. Só a abraçou e a deixou chorar. Nenhuma das duas teve noção do tempo que se passou até que os soluços pararam de sacudir o corpo pequeno. Naya ainda a segurou nos braços por alguns instantes... Então se afastou o suficiente para conseguir olha-la nos olhos, enquanto afastava os cabelos que se grudavam à pele molhada das bochechas.
- Vai ficar tudo bem... Tá? Vai ficar tudo bem...
Foi o suficiente para que Dianna voltasse a chorar. E outra vez, Naya a amparou, suspirando. Não tão certa assim do que acabara de afirmar.
O dia amanheceu preguiçoso demais para uma segunda feira. O sol meio cinzento denunciava que o período de frio estava longe de acabar. Dianna se encolheu no sofá, quando os primeiros raios de sol começaram a incomodar.
Levou a mão direita até os olhos doloridos, certa de que a dor de cabeça que sentia naquele momento a acompanharia pelo resto do dia. Não demorou até que a movimentação no quarto ao lado da sala denunciasse que ela não era a única filha de Deus acordada naquela casa.
Se manteve debaixo das cobertas, ignorando o vai-e-vem de Naya e Mark, que aparentemente se preparavam pra sair.
Um pouco antes das nove, Naya se abaixou ao lado do sofá. Acariciou os cabelos loiros de uma Dianna que fingia dormir com uma técnica que passava longe daquela que lhe rendera tantos elogios à sua capacidade de encenação.
- Eu sei que você está me ouvindo. Nós temos que ir gravar... Mas eu vou falar pro Ryan que você não está se sentindo muito bem. Tem certeza que você vai ficar bem sozinha?
Dianna não respondeu, ensaiando um ressonar. Naya revirou os olhos e Dianna mesmo com o os seus fechados, pode visualizar a cena.
- Eu estou dormindo.
- E eu estou indo trabalhar. Vou trancar a porta pelo lado de fora, tá?
Dianna franziu o cenho ao sentir Naya se levantar e percebendo que a latina falava muito sério. Se sentou muito rápido no sofá e tentou conter um gemido quando a pontada de dor teve uma intensidade um pouco maior do que a que ela supôs que teria.
- Trancar? Lado de fora?
- Você não espera mesmo que eu te deixe aqui sozinha com um psicopata atrás de você e a porta aberta, né? – A história havia lhe sido contada durante a madrugada. Dianna não escondeu nenhum detalhe. Desde os pesadelos que lhe assombravam até o modo como tinha escapado de Alex, passando inclusive pelas ameaças do rapaz.
- Mas...
- Tá louca?
- VOCÊ está louca. Ele não vai vir. Ele não sabe pra onde eu fui.
- Ah sim... como se procurar na casa da melhor amiga não fosse o mais óbvio.
Dianna coçou a cabeça, desviando o olhar.
- O que? – Naya franziu o cenho.
- Teoricamente...
Naya revirou os olhos outra vez.
- Você nunca falou sobre mim pra ele.
Dianna mordeu o lábio inferior. Os olhos amendoados numa expressão de criança abandonada.
- Ok. Eu quase estou magoada agora. Tem certeza que vai ficar bem?
A loira concordou, meneando a cabeça. Ensaiou um sorriso que foi correspondido e deu lugar a um beijo soprado, enquanto Naya desaparecia porta a fora.
Dianna suspirou, enterrando a cabeça nas mãos outra vez.
"Bom dia, mundo. Eu odeio você."
Lea levou um dos inúmeros pedaços das frutas que se espalhavam na mesa à sua frente aos lábios sem vontade. Comeu com vagar, temendo o regresso da náusea forte que tinha lhe feito companhia durante o fim de semana todo e que havia indo embora na madrugada anterior.
Jonathan andava de um lado para o outro do apart, falava ao celular e embora Lea não conseguisse definir o que estava sendo dito, o tom que ele usava não deixava dúvida nenhuma de que naquele momento, ele estava transbordando irritação.
Perdida em si, só voltou ao mundo real quando Jonathan se sentou à sua frente. Os olhos muito fixos em um único ponto da mesa enquanto ele apoiava o telefone.
Lea ergueu os olhos para um Jon desolado que parecia extremamente empenhado em não deixar a irritabilidade transparecer pelos olhos acinzentados. Só o olhou, mordendo outro pedaço da fruta que lhe serviria como almoço, uma vez que a refeição principal havia sido dispensada quase intocada havia mais de duas horas.
Passava um pouco das cinco da tarde agora.
Quando o celular de Jonathan tocou outra vez, ele simplesmente desligou o aparelho, sem cerimonia nenhuma. Lea continuava olhando-o, começando a achar graça da situação.
- Desculpa...
- Eu não estou em um tipo de estágio terminal, você sabe né?
- É... É essa agência inútil que não está conseguindo resolver um problema babaca com o meu visto. Nós vamos pra Londres semana que vem pra acertar os detalhes de um filme que tá no gatilho faz quase dois anos e agora eles não conseguem acertar a droga do passaporte pra poder tirar o visto. – Jonathan despejou de uma única vez, apoiando a cabeça nas duas mãos. Lea se permitiu rir, muito baixinho.
- Deixa eu adivinhar... eles precisam de você pra tirar o passaporte e o visto. Estou enganada?
- Não... É, é isso mesmo.
Lea riu outra vez, buscando outra fruta na mesa posta para o café da tarde.
- E porque você está tão irritado?
- Porque eu não posso ir!
- Como não?
- Não, oras!
- Jon, eu já falei que não estou morrendo ou nada do tipo. Acho que eu posso ficar um ou duas horas sozinha.
- Nem pensar, Lea.
- Você não está sendo racional, sabe?
- Eu não vou te deixar sozinha.
Lea suspirou, o coração apertadinho de tanto amor, de tanta gratidão. Alcançou a mão dele sobre a mesa ainda, acariciando as costas da mão grande com o polegar, sem pressa nenhuma.
- Você é o meu anjo de guarda. Mas eu não poderia conviver com a ideia de que atrapalhei sua vida profissional. Eu não sou um bebê e eu vou ficar bem. Aliás, já estou bem.
- Não.
- Jon...
- Sem discussão e sem argumentação, Lea Michele.
- E se...
- Sem "e se".
- A Naya...
- Naya está gravando hoje e você sabe disso.
- Mas ela ia gravar de manhã. Talvez já esteja liberada. E são só uma ou duas horas.
Jonathan suspirou de novo. Esfregou os olhos cansados com a mão livre pra só então erguer os olhos de novo para Lea.
- Eu não sei...
- Liga pra ela.
- Eu deveria ter deixado meu celular desligado, como estava antes.
- Ninguém te procurou?
- Tinha alguns milhões de ligações... eu nem olhei. Certeza que eram da minha agente. Ô mulherzinha chata, viu? Seu pai não quer me agenciar também não?
Lea riu outra vez, soltando a mão dele e batendo-lhe no ombro, enquanto mordia o lábio inferior.
- Sem essas ideias de roubar meus agentes, Groff.
- Tem certeza que vai ficar bem?
- Tenho. Liga pra ela.
Jonathan por fim, concordou com um gesto de cabeça, o olhar baixando para o telefone celular de novo, enquanto ele discava o número da outra amiga.
- O que você está fazendo não é nem um pouco justo.
- Claro... Porque justo é se casar sem avisar nem a sua namorada.
- Ela não é minha namorada.
- Então não tem porque você querer ir ver ela.
- Naya!
- Dianna!
Dianna bufou, exasperada. Levou as mãos pros cabelos, puxando a franja para trás num gesto cheio de irritação.
- Eu não acredito nisso.
- Meu amor... Veja bem, vai ser melhor assim. As coisas ainda estão muito confusas e...
- Eu já devia estar lá!
- Dianna, você não está sendo racional.
- É ÓBVIO QUE NÃO!
- Eu já falei pra você que eu não sei onde a Lea está. Jonathan não me falou.
- Desde quando você mente pra mim?
Naya enrubesceu com violência.
- Eu...
- Viu? Naya, eu preciso ver ela. PRECISO! Não é uma questão de querer. É uma necessidade.
- Mas...
- Olha... – Dianna cruzou a sala a passos largos e segurou Naya pelos ombros antes de continuar. – Eu devia estar lá. Eu cometi o pior erro da minha vida. Eu sei. Você não precisa me lembrar. Mas eu preciso ver essa mulher. Eu preciso ter certeza de que ela está viva, de que está respirando. Preciso ter certeza que ela está viva para que eu mesma possa continuar vivendo.
Naya suspirou, sustentando o olhar de Dianna, que se fixava no seu.
- Eu não tinha me dado conta do quanto você a ama. – Foi a vez de Dianna enrubescer. – Desde quando isso? Eu achei que fosse um tipo de paixão passageira, ou algo assim.
- Eu... Eu sempre amei Lea. Ela é minha amiga, não é?
- Você sabe muito bem do que eu estou falando e está se esquivando.
- Não, não estou.
- Não é o mesmo tipo de amor, Dianna.
- Naya... por favor... eu só preciso saber onde ela está.
- Mas eu já falei que não... – A frase de Naya foi interrompida pelo toque do telefone celular. Ela o pegou no bolso de trás da calça jeans e Dianna pode observar as cores se esvaindo antes de ela atender com um "alô" um tanto quanto vacilante. As respostas monossilábicas fizeram Dianna envergar as sobrancelhas, com desconfiança. Quando a ficha de quem provavelmente estaria do outro lado da linha caiu, Dianna pode sentir os próprios olhos dobrando de tamanho e Naya se encolhendo, um tanto quanto assustada.
O que aconteceu depois, durou menos de dois segundos e nenhuma das duas teve realmente certeza de como Dianna conseguira vencer a luta pelo aparelho celular. Agora, ela tinha o celular de Naya ao ouvido direito e lutava para manter-se afastada da latina que voltara a lutar pela posse do telefone.
- ... xar a chave do quarto na portaria, você sa... – Dianna não conseguiu ouvir o resto do que Jonathan falou porque finalmente Naya conseguiu pegar o telefone celular de volta. Ela se deixou afastar com mais um dos inúmeros empurrões da outra moça, em um estado meio catatônico. Esperou que Naya desligasse o telefone antes de finalmente falar.
- Você vai me levar lá de qualquer maneira. Ou eu acho esse maldito hotel do meu próprio jeito e não falo mais com você.
Dianna encarou a porta branca à sua frente sentindo como se nunca estivera tão insegura quanto agora.
Bater?
Entrar?
Suspirou, engolindo em seco logo em seguida, optando pela primeira alternativa.
Duas batidas discretas contra a madeira e ela se endireitou outra vez.
A viagem até o apart-hotel tinha sido feita num clima horrível, com uma Naya absurdamente mal humorada ao volante do carro. Dianna não a culpava e tinha certeza de que estaria agindo da mesma maneira se os papéis estivessem invertidos. Quando chegaram ao destino final, Jonathan já não estava na recepção, como Naya falara que ele estaria. Dianna sabia que nada no mundo o faria se afastar de Lea naquele instante e imaginara que tipo de compromisso o faria sair assim, tão apressado. O tão querido Jon... Ela sentiu pelo que ela imaginou ser a quinquagésima vez extremamente agradecida e sem ter nem a mínima ideia de como o recompensaria.
Ninguém atendeu aos apelos da porta... A solução foi apelar para a segunda alternativa.
Dianna inseriu o cartão magnético no leitor ao lado da porta de entrada.
Aí o leitor pediu uma senha.
Senha? Isso é mesmo necessário?
Franzindo o cenho, ela retirou o cartão e inseriu-o outra vez.
E novamente a máquina pediu a senha de entrada.
Dianna suspirou, esfregando os olhos com irritação. Máquinas malditas.
Ainda irritada, sacou o celular no bolso de trás da calça jeans. Ligou o aparelho que estivera desligado desde quando fugira da casa se Alex e a primeira coisa que recebeu tão logo obteve o sinal da companhia telefônica, foram algumas dezenas de mensagens de ligações perdidas. Todas ignoradas, enquanto Lea discava o número de Naya.
- Eu preciso da senha pra entrar. Desde quando essas portas tem essas frescuras?
Dianna ouviu Naya reclamando mais um pouco quanto à metodologia que ela utilizara para conseguir chegar ao hotel antes de finalmente conseguir a senha de três números.
Voltou a inserir o cartão... e usando o teclado numérico ao lado direito da fechadura eletrônica, digitou os números passados por Naya e com um "clic" suave, o visor anunciou que a porta estava destrancada.
Dianna a abriu com delicadeza, com medo até de respirar e alguma força desconhecida a expulsar do quarto.
Entrou e fechou a porta, apoiando as costas na madeira, enquanto olhava o interior do flat. A televisão enorme estava ligada em uma série qualquer da década de noventa.
- Eu falei pro Jon que não precisava, Nay. Mas você conhece ele. "Exagerado" é apelido. Eu espero que não tenha te atrapalhado.
Dianna reconheceu a voz tão familiar... A voz que implorara aos céus incontáveis vezes pra ouvir desde a madrugada de sexta feira. O corpo reagiu e ela pode sentir quando a dose extremamente forte de adrenalina gelou seu estomago. A voz para se denunciar, para falar que ela era quem estava ali, falhou... Ela não conseguiu responder.
- Eu estou assistindo Dawson's Creek. Você quer assistir comigo? – Ainda sem resposta.
Estranhando o silencio do quarto, Lea finalmente se ergueu no sofá, até então de costas para a porta e virou-se. Dianna com um aperto no coração acompanhou cada uma das mudanças no rosto tão expressivo. Passando de extrema surpresa para um quase alívio e finalmente chegando à mágoa profunda. Ela engoliu em seco, dando um passo, estendendo as duas mãos num pedido mudo e indo na direção de Lea que se levantara do sofá e agora estava parada no meio da sala. Lea respondeu com um passo para trás, meneando a cabeça em negação.
- Não... – a voz de Lea era fraca, extremamente fraca. Apenas um fio.
Dianna engoliu em seco ao vê-la recuando mais um passo, mesmo que a própria Dianna tivesse parado perante o pedido.
- Lea...
- Eu... Eu não quero ver você. – O tom da voz não mudou em nada. A sensação de sufocamento voltando a incomodar Lea. Com a certeza de que pararia de respirar a qualquer segundo, ela recuou mais um passo. – Sai daqui.
- Não... – Dianna forçou-se a ir na direção de Lea, a culpa a atacando com uma adaga afiada, cravada bem no meio das costas. – Eu não vou a lugar nenhum.
- Eu... não... Eu não quero ver você, Dianna. – Lea insistiu, recuando um pouco mais conforme Dianna se aproximava.
- Eu não devia ter ido a lugar nenhum...
- Sai daqui...
- Não! – A primeira das lágrimas que já haviam se anunciado no primeiro contato visual com Lea escorreu pela bochecha direita. Dianna deu um passo a mais na direção de Lea, que recuou dois e finalmente se viu encurralada contra a parede. – Eu não vou a lugar nenhum. Nunca mais...
- Sai daqui... – Os olhos absurdamente arregalados e o tom de voz de Lea faziam Dianna se lembrar de uma criança acuada, enquanto ela continuava andando em sua direção. – Eu não preciso de você! Sai daqui!
Outra lágrima que foi ignorada. Lea foi enlaçada pelo pescoço e puxada de encontro ao corpo de Dianna, que afundou o rosto nos cabelos castanhos, ignorando os esforços de Lea para se livrar do abraço que chegava a ser quase obrigado.
Os pulsos cerrados golpeavam o colo de Dianna enquanto Lea por fim dava vazão ao choro que ela pensara que já estava esgotado, mas que viera agora mais sentido do que nunca. Nenhuma das duas teve certeza de por quanto tempo Lea ainda lutou, até que por fim os golpes foram se tornando mais espaçados, mais fracos... E então Lea se agarrou à cintura de Dianna sabendo muito bem que nunca o conforto que aquele calor lhe proporcionava nunca fora tão necessário quanto se fazia agora. Soluçava em pranto de choro, molhando-lhe a camiseta branca e ciente do subir e baixar violento do tronco de Dianna.
- Eu te amo... – a voz apenas um fio... uma confissão feita em meio a lágrimas e cabelos castanhos. Lea se sentiu arrepiar com força. Um calafrio forte subindo-lhe pela espinha a fez encolher e ela teve medo de que Dianna entendesse errado os sinais involuntários que o corpo mandava. A loira enfiou os dedos nos cabelos que antes amparavam suas lágrimas... a vez erguer o rosto molhado. Beijou os dois olhos sem pressa, passando então para o nariz e só então para os lábios. – Eu te amo... – murmurou outra vez, os lábios ainda contra os de Lea. Apoiou sua testa na dela. Ambas de olhos fechados... ambas ainda soluçantes. – Eu não vou a lugar nenhum... Não mais...
Foi Lea quem deu o próximo passo.
Buscou os lábios delicados com verdadeiro desespero, numa tentativa de aplacar a vontade quase incontrolável de chorar que voltava com uma força horrenda.
Beijou Dianna em quase desespero, querendo se afogar naquele corpo adorado, querendo que o resto do mundo explodisse em milhões de pedaços, querendo que o passado recente não existisse... Querendo Dianna. Só Dianna.
Dianna então sentiu alguma coisa vibrando em uma parte do corpo que lhe parecia estar anestesiada. Sim, anestesia. Era exatamente o poder que Lea tinha sobre ela: o poder de anestesiar toda e qualquer sensação quanto aos eventos que não estivessem dentro daquele mundo que as duas e só as duas habitavam.
A razão gritou por atenção quando a voz de Adele se fez ouvir. Lea conhecia aquele toque... Tentou se afastar. Dianna não permitiu. Segurou-a pela cabeça com a mão direita, enquanto tomava as rédeas do beijo. A mão esquerda alcançou o bolso de trás da calça e o aparelho celular foi arremessado com violência no chão. O telefone desmontou, calando todo e qualquer som que não fosse o da televisão e o fôlego quase faltante das duas, que se misturavam em um único som praticamente.
A mão voltou para os cabelos de Lea, enquanto Dianna os puxava para baixo e ela pedia cada vez mais passagem naquela boca adorada. Precisava daquela mulher. Precisava. Era uma necessidade quase física, como se não fosse capaz de respirar longe de Lea. A beijou com fome, tentando aplacar um pouco o vazio imenso que ela mesmo abrira nos dias anteriores... Quando o fôlego finalmente se fez faltar, Dianna escondeu o rosto na curva do pescoço de Lea, puxando-a para si com força outra vez. A pulsação de Lea estava tão descompensada quanto a sua e Dianna sorriu achando graça, de olhos fechados e meio ofegante, perante a ideia de uma das duas tendo um ataque do coração ali, naquele exato momento.
Talvez fosse possível sim que alguém morresse de amor, afinal.
Naya secou as mãos no avental que tinha amarrado à cintura delgada.
O molho do macarrão borbulhava no fogão e ela olhou o relógio, para se certificar de que o jantar não estava atrasado e que não era Mark quem já tinha chego enquanto se dirigia para o interfone.
O porteiro anunciou o visitante inesperado... e ela se sentiu enrijecer perante o nome dele, enquanto tirava o avental e ajeitava os cabelos atrás da orelha esquerda.
Da melhor maneira que conseguiu, ela tentou ajeitar a sala que Dianna não estava lá muito animada para arrumar de manhã, pelo que se notava.
Exatos quatro minutos depois da ligação, a campainha do apartamento tocava. Ela atendeu a porta com um sorriso nervoso. Cumprimentou o homem de cabelos prateados muito curtos e olhos extremamente azuis, que sempre lhe davam a impressão de que estava tendo a alma revistada. Ryan sem dúvida nenhuma, era uma presença muito imponente. O apartamento pareceu ficar ainda menor quando ela finalmente deu passagem para que ele entrasse.
Estranhou o fato de que ele estava sozinho, o que geralmente não acontecia em hipótese alguma.
Se sentou no sofá da sala, parecendo extremamente confortável e sem constrangimento algum. Ela o acompanhou, mas ao contrário do chefe, não estava nenhum pouco à vontade na própria sala.
- Sabe, Naya... Nós já estamos juntos há pouco mais de três anos. Eu vi vocês crescerem na vida profissional e na vida pessoal e você não sabe o quanto me orgulho de ter podido acompanhar de perto essa evolução toda. Eu não vou mentir pra você, a relação das duas, você sabe bem de quem eu falo, não me foi surpresa nenhuma e eu creio que pra você também não. Eu as conheço, assim como conheço você. E depois da tragédia do último fim de semana, seria duvidar da minha capacidade de raciocínio se você me pedisse pra acreditar que Dianna está realmente doente. Eu já desconfiei quando foi o Jon quem me procurou para pedir uns dias de folga para a Lea. Agora Dianna está estampada na primeira capa de toda e qualquer revista vagabunda com a manchete de um suposto casamento relâmpago. Esperava que fosse a própria Dianna quem estivesse aqui para me esclarecer essa história toda. Mas como pelo jeito ela não está, você vai ter que me contar. Não espere que eu me mova desse sofá até que tudo esteja muito claro. Tin-tin por tin-tin.
Ryan falou de um único fôlego e Naya por fim se obrigou a fechar a boca que ela não tinha visto que se abrira em algum ponto do discurso dele. Piscou alguns pares de vezes, tentando processar a onda de informações que ele tinha lhe jogado em alguns poucos segundos de conversa. Ryan só a observava, calado, esperando.
- Eu... Eu posso desligar o fogo primeiro? – Foi a única coisa que ela conseguiu responder de imediato. Ryan sorriu, concordando com um gesto de cabeça.
É, Rivera... vai ser uma conversa muito longa.
Eu corri o máximo que pude, pra não deixar vocês esperanto tanto assim por esse capitulo. Desculpem se demorei demais.
Vocês me perguntavam se Dianna amava a Lea. Eu morria de vontade de responder, mas não podia. Respondo agora, do meu jeitinho.
Eu sinto muito se excedi na melação dessa vez também... acho que vocês entendem que era necessário, né?
With love,
Liv
