Dani de Rohan desta vez afastou-se de sua temática costumeira para refletir sobre o melhor lugar para se procurar pelo força, dentro dos corações.
Reflexões do Peregrino Cinzento
A noite caiu sobre homens, elfos, anões. Os sábios previram esse dia, mas em seu refúgio oravam para estar enganados.
Ele não acreditava na oração das palavras, para o Gandalf – o Cinzento, oração significava ação.
Mas aquela festa mudou tudo, eles eram amigos há muitos anos, e sua despedida havia chocado, debochado e com certeza cativaria a imaginação pelos próximos cem anos.
Aquele singular momento, quando Bilbo realizou sua última piada para os hobbits, Gandalf percebeu que não foi rápido o suficiente.
Sua oração estava atrasada e suas suspeitas cresceram em sua mente e em seu coração. Só havia uma saída: Minas Tirith, sua função era consultar os sábios do passado e seus depoimentos.
E que seus pensamentos estivessem errados. Ele não falaria até ter certeza, a própria palavra o fazia tremer, se fosse verdade a batalha seria tão longa e cruel, ceifaria tantas vidas.
Não! Ele estava errado! E a Cidade Branca provaria este fato.
Despediu-se de Frodo com carinho e repleto de temor, aquele jovem tão inocente e valoroso. Não, Minas Tirith o salvaria de seus próprios pesadelos.
Com pressa, percorreu o caminho mais rápido, e viu a relutância de Theoden em emprestar-lhe um cavalo, sentiu a tristeza agitar em seu ser mais uma vez, a noite caia sobre os homens, ou seus olhos não podiam ver como antes?
Avistou a Cidade Branca, linda e suntuosa, e sentiu um aperto no seu coração,
Denethor tinha o sangue do Poente nas veias, contudo o orgulho dominava a sua alma,
Exagerava ao receber os emissários de outras cidadelas, mostrando a opulência de sua cidade e com isso, acreditava defende-la.
A realidade era contraria a crença do Regente da Cidade Branca. Ao pedir para ver os documentos, percebeu seu descaso e insatisfação. E mais uma vez, Gandalf refletiu sobre os caminhos trilhados pelos homens, nunca gostara de fato de Denethor, mas este tinha a grandeza em seu caminho, por que se desviara dele?
Entrou na biblioteca silenciosa e sentiu o cheiro dos papiros, o espirro foi inevitável.
A biblioteca de Gondor era fantástica, extraordinária e bela, mas como um paraíso secreto e com os enganos dos cidadãos da cidade, a biblioteca estava abandonada como se aguardasse alguém, um alguém disposto a beber de suas fontes.
Em uma das estantes, papiros antigos guardavam o brilho de Númenor, seus olhos treinados buscaram o documento, quase um mito, sobre os dias antigos, um momento de esplendor transformado em desesperança. Isildur.
Gandalf afastou seus pensamentos negros, para o bem e para o mal, o passado não cabia mudança, apenas reparação.
Uma, duas, três, quatro horas – sua mente amante da leitura estava cansada pela busca.
-Um chá, meu amigo Gandalf? - a voz do jovem trouxe uma brisa em seu coração preocupado.
Faramir.
-como vai, meu jovem? Um chá cairia bem, muito bem – a jovem serva do filho de Denethor serviu chá para ambos e com uma mesura suave deixou a biblioteca.
- vim cumprimenta-lo. Boromir e eu vamos para Osgiliath. – Faramir silenciou, um oceano de palavras não ditas foram trocadas entre ambos.
Preocupações, esperança mesclada ao medo. Rostos de pessoas queridas em mundo que estava em transição, ambos sabiam disso e a beira de abismo, um temor que o Peregrino Cinzento e o filho de Denethor compartilhavam mas não ousavam confidenciar um ao outro.
- Agradeço a atenção, amigo.
Passos apressados ecoaram pela biblioteca.
E a voz forte e animada rompeu a conversa silenciosa de Faramir e Gandalf.
-Faramir, pelos poderosos guerreiros, seja breve, garoto. – Boromir estava com um excelente humor, ansioso por afastar os inimigos de Osgiliath e restaurar a grandeza de Gondor, em sua mente de guerreiro cabia às lutas e batalhas resgatar o passado áureo de sua amada Cidade Branca. – Oh, Gandalf, bem vindo à Cidade Branca – o capitão de Gondor fez uma mesura educada. Ele não tinha uma opinião formada sobre o Peregrino Cinzento, sabia que seu pai não gostava dele, mas para Boromir, o único problema era que Gandalf parecia ter uma admiração em particular por Faramir e esse fato irritava o pai. Como um sentimento bom como admiração podia aumentar a distância entre os dois, Boromir não sabia responder! Amava demais o pai para pensar qualquer coisa negativa sobre ele, e idolatrava o seu jovem irmão, seu confidente e que sabia de seus sonhos e o protegia de seus arroubos de humor.
Boromir sem esconder seu temor, pois não era homem de meias palavras ou desonesto olhou para Gandalf com olhos límpidos e transparentes.
O Peregrino Cinzento apenas sorriu, aquela característica era o que mais gostava no filho favorito de Denethor, ele lutaria contra duzentos homens e um balrog se fosse para defender o irmão. Um sinal de caráter importante, apesar de haver uma neblina no seu destino, Gandalf confiava suas impressões àquele sentimento de lealdade e amor ao irmão. Ele protegia Faramir inclusive da fúria do pai.
- Não pretendo atrasa-los, filhos de Gondor. E agradeço pelo chá, Faramir. Que Ilúvatar os abençoe.
Os filhos de Denethor sorriram:
-Espero que encontre o que procura, Peregrino Cinzento.
As vozes animadas se afastaram. O otimismo de Boromir contagiava o irmão. E por um momento, Gandalf esqueceu suas preocupações. Enquanto houvesse lealdade, havia esperança.
E ele finalmente encontrou: o papiro cedeu a delicadeza do seu toque, e a letra bem cuidada de Isildur.
E seus temores tornaram-se a constatação de uma realidade.
O Senhor do Escuro preparava a sua volta.
Frodo, Bilbo, Faramir, Theóden e especialmente Aragorn – sim Aragorn, de todos os seus amigos, seria Aragorn a carregar o peso maior. Com ele, haveria um amanhã ou as trevas dominariam. E as lágrimas marejaram seus olhos.
Como uma espada de força, Gandalf relembrou das risadas entre os dois irmãos de Gondor, do amor que fluía entre Arwen e Aragorn, e dos hobbits, sim, de seus amigos inocentes e cheios de vontade de comer e beber.
Sim, eles eram sua esperança, talvez, a esperança dos tolos, mas era a sua esperança. Oração era ação é a partir de agora cabia a ele relembrar a luz no meio da noite até eclipsar a toda escuridão. E a Quarta Era nascer.
Gandalf deixou a biblioteca, ele tinha muito trabalho a fazer.
