Nimrodel Lorelin, tão talentosa quanto bissexta, nos traz este ano uma lição sobre liberdade
Livre para ser eu, livre para ser você.
Faramir percorreu caminhos familiares. Essa era Ithilien, seu lar! Inspirando o odor úmido e revigorante da manhã que apenas raiava, repreendeu-se novamente por perder de vista a passagem do tempo, entre pergaminhos e livros na velha Torre.
Vendo-se diante do pórtico que dava entrada para os estábulos, os cheiros do feno e dos cavalos invadiram suas narinas, conduzindo sua mente para manhãs mais remotas, em que passara grande parte da infância em Gondor, entre mestres e tutores aprendendo a montar e manejar a espada. Dias frios sob a sombra ameaçadora da fumaça que subia da Montanha Inominada.
Piscando para que os olhos se acostumassem a semiescuridão do estábulo, pôde distingui-la facilmente por entre baias e apetrechos, desemaranhando a crina de Brego com carinhosa diligência.
"Faramir!" A voz límpida da esposa se fez ouvir, mostrando que estava atenta da chegada dele.
"Minha querida senhora..." Ele se inclinou a guisa de cumprimento, perdendo-se em admirar a forma com que o sol, que furtivo surgia pelas madeiras do teto, lançava matizes cintilantes nos cachos que lhe desciam pelas costas. Era como contemplar um rio de ouro.
Infelizmente, equivocando o silencio dele como uma aparente censura, ela deixou de escovar o cavalo, o sorriso sumindo, e depositou nele um olhar intenso.
"Terá o senhor meu esposo, vindo aos estábulos, porque necessita de minha presença nos salões? Poderia ter enviando uma de minhas damas, sempre tão solícitas em me apresentar às maneiras da corte..." Havia em sua voz um tom de petulância, e Faramir sorriu. Éowyn podia se portar com brandura, mas lampejos de seu gênio aguerrido, vez por outra surgiam por entre os muros de seu espírito.
"De fato, senhora minha, os nobres salões de Emyn Arnen não necessitam de minha senhora tanto quanto o fiel Brego necessita de seu toque suave, ou seu esposo necessita de sua encantadora companhia..." ele disse seriamente.
"Estará, meu querido senhor, de fato zombando de mim?" A voz dela era seca e Faramir permitiu que seu sorriso se alargasse.
"De fato não, querida senhora." Ele se aproximou, notando então as manchas carmesins nas bochechas dela. "Éowyn..." Ele começou, confuso, mas ela fugiu de seu olhar, passando a guardar os apetrechos que até então utilizara.
"Meu senhor não precisa se dar ao trabalho de vir aos estábulos dizer-me que existem cavalariços o suficiente em Emyn Arnen... Já me foi dito o bastante e se não, já foi sussurrado o suficiente..." Ela informou, mantendo a voz fria e contida. "Talvez tenha de fato se casado com uma princesa vindo das estrebarias!"
Faramir franziu o cenho, intrigado com aquela fala. Nunca conhecera um Rohirrim que não se orgulhasse de seus cavalos, e de seus cuidados para com eles, muito menos sua esposa.
"Éowyn..." disse ele novamente, enquanto ela lhe dava as costas, rearranjando as escovas nas prateleiras.
"O senhor meu marido terá razão em me repreender, se não realizo, a contento, meus deveres como senhora..." ela disse com amargura. "Antigos hábitos são difíceis de abandonar..."
"Eu não vim para repreendê-la..." interrompeu-a suavemente. Como ela não respondesse, continuou. "Só desejava descobrir por que minha esposa não veio me repreender por perder mais uma refeição, perdido em meio a papeis como uma traça..." Como o silêncio dela se prolongasse, ele aproximou-se mais, tentando ver-lhe o rosto. "Se minha senhora me abandonar à própria sorte, morrerei eu, subnutrido em meio a velhos pergaminhos?"
"Não está zangado comigo?" ela indagou timidamente, virando-se para olhá-lo. "Emyn Arnen necessita de uma verdadeira dama e eu temo que uma Rohirrim nunca será tão requintada quanto qualquer senhora de Gondor..."
"Se Emyn Arnen necessita de requintes, do que necessitarei eu?" ele perguntou gravemente. "Eu cresci na corte e se necessitasse de uma senhora que me repreendesse por ter modos de soldado à mesa, teria me casado com minha velha ama..."
Ela sorriu e ele alcançou suas mãos, entrelaçando seus dedos, enquanto ela voltava a ficar séria.
"Mas você teria razão por se zangar..."
"Razão quando você sai para cuidar do que lhe é caro, pois não sois Éowyn, a amiga dos cavalos? E não teríamos, nós dois, querida senhora, feito apenas o que os outros esperavam de nós, por tempo demais? Nossos desejam ainda não contam?" ele indagou com seriedade e ela baixou os olhos.
"Não desejo que os sussurros lhe envergonhem... de que passo meu tempo como uma moça de estrebaria..."
"E o que os sussurros dirão de mim, em minha torre empoeirada?" Ele perguntou, com um sorriso torto. "Uma vez pupilo do mago..." Quando isso arrancou outro sorriso dela, ele continuou. "Minha senhora não me repreenderá então, por me manter na Torre, negligenciando meus deveres de Senhor?"
"Não o repreenderia, quando faz algo que lhe apraz." ela afirmou suavemente. "E gosto que me encante com belas poesias..."
Faramir ergueu suas mãos entrelaçadas e depositou um beijo nos dedos de Éowyn.
"Pois se estamos de acordo, tornemos tais anseios em fatos!" ele proclamou, parecendo contente consigo mesmo e ela franziu o cenho, sem compreender ao certo as intenções dele. Todavia Faramir apenas fitou com profunda reverência nos olhos cinzentos da esposa.
"Eu..." ele começou, impedindo-a de lhe questionar. "... Faramir, senhor de Ithilien, a desobrigo, Éowyn dos cavalos, dos deveres que a aprisionam nos salões de minha casa e concedo-lhe, a partir de então e para sempre, a liberdade de ser apenas você." Ao término da proclamação, como ela nada dissesse e vendo que seus olhos começaram a se tornar suspeitosamente úmidos, beijou-lhe novamente as mãos. "E como tal, concedo-lhe o nobre título de Princesa das Estrebarias."
Éowyn riu alto, fazendo Brego bufar, antes que Faramir, sorrindo exultante, a incitasse com um ligeiro apertão nas mãos, indicando-lhe sua vez. Recompondo-se, ela fitou em seus olhos profundos.
"E eu, Éowyn, senhora de Ithilien, liberto-o, Faramir dos guardiões, de toda obrigação que o mantenha longe de seus livros e da biblioteca e concedo-lhe a partir de então e para sempre, a liberdade de ser apenas você... concedendo-lhe o nobre título de Pupilo do Mago."
Ele riu, com os olhos cintilando.
"Agradeço-lhe, senhora, por tão inquestionável honraria." Ele acariciou a face dela, contemplando a mulher que já era o mundo dele, antes de se inclinar para depositar um beijo àqueles lábios macios. "De posse de tal liberdade, me acompanhará em cavalgada pelos jardins de Ithilien?"
"Foi por isso que veio me procurar?" Ela adivinhou.
Ele assentiu.
"Queria me desculpar por me enfurnar tão cedo na Torre e perder nosso desjejum..."
"Está perdoado, madrugador, somente se me acompanhar no desjejum que também perdi, entretida que estava cuidando de Brego."
Faramir gargalhou.
"Eu acho que então, fazemos um belo par?"
"Feitos um para o outro..." ela respondeu, colando seus lábios aos dele num beijo longo.
Fim
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Notas:
Éowyn: O significado do nome de Éowyn é exatamente este, amiga dos cavalos.
Emyn Arnen: As vastas e impressionantes colinas das Emyn Arnen estavam situadas em Ithilien, lar de Faramir e Éowyn, após a Guerra do Anel.
