Às vezes Myriara, nas histórias adultas, noutras Myri, nas nem tanto, como essa paródia – tão vinculada ao início de uma admiração e uma amizade que evoluíram para o surgimento do Tolkien Group - desavergonhadamente inspirada em VIDAS E ESPÍRITOS, de SADIE SIL

A FLOR DE GALEN

I - Assombrações

Morto

Era uma dádiva às avessas, era só em que podia refletir Legolas, preso em si mesmo.

Os Valar o haviam brindado com o dom do desentendimento eterno, a capacidade de despertar a verdadeira ira do Rei Thranduil.

Daquela vez, entretanto, fora pior, muito pior.

E agora estava morto.

Seu pai o matara.

Estava ao lado dos gêmeos, que voltavam para o Palácio de Elrond.

E também não estava.

- ... você...a fez chorar, Elrohir – ouviu as palavras pronunciadas por Elladan como se viessem de muito, muito longe.

- Ora, e você lhe serviu de ombro amigo, Dan.

- Um dia você será o ombro amigo, Elrohir, e aí vai me dizer se gosta da posição.

- Cabe a você transformar-se em algo mais – ria o gêmeo tentando conseguir na troça um sorriso do irmão, e acabando por obter algum sucesso.

Como gostaria de partilhar daquela alegria, pensou Legolas.


Estel aguardava nas sacadas do jardim pelo retorno dos irmãos...quisera ter ido também aos festejos, mas ficara preso às obrigações.

De repente, o sol brilhou em seu peito: Legolas!

Não, não podia ser Legolas. Apesar dos cabelos louros e dos trajes de Mirkwood, o cavaleiro que apontava no caminho não podia ser Legolas.

Os trajes do serviço ao Rei Thranduil. Quem era aquele elfo que chegava então e que missão o traria? - Imaginou Estel ao observar o elfo da Floresta aproximar-se. A semelhança era realmente profunda. Tudo lembrava o amigo.

Se não soubesse que Legolas era filho único, poderia até jurar tratar-se de um irmão – espantava-se o filho adotivo do senhor de Imladris ao ver o emissário desmontar, sem contudo conseguir ouvir as palavras trocadas pelo visitante com o ordenança de Rivendell que veio ao seu encontro e apontou-lhe a direção dos salões de Elrond antes de dirigir-se com o cavalo para as estrebarias.

Quase seu irmão, sim – a passagem do elfo em direção ao Palácio confirmou a impressão - tão belo quanto Legolas.

Não, não tão belo quanto Legolas.


O Mais Belo Elfo

Agora sim, deteve-se Estel, agora sim eram seus irmãos que apontavam.

E já vinham desmontando e correndo, Elrohir à frente já pronto a querer prendê-lo em algo que não se poderia dizer se era um abraço ou uma chave de braço.

- Da próxima vez não escapas de acompanhar-nos.

- E por aqui, quais as novidades?

- Novidade nenhuma, até agora, mas deve estar chegando uma, e provavelmente ruim: um emissário de Thranduil acaba de chegar a galope e entrou direto para falar com ada.

- Um emissário do Rei Thranduil? Tem certeza?

- Absoluta, vem com o uniforme da Floresta das Trevas, além de que é parecidíssimo com Legolas.

- Muitos elfos silvestres se parecem com Legolas.

- Não esse, esse é quase idêntico?

- Idêntico?

- Idêntico, poderia quase ser um irmão, isto é, por incrível que pareça...

- Por incrível que pareça o quê? Ainda tem mais? Não há nenhum elfo em Mirkwwod tão parecido com Legolas que chegue a poder ser tomado por um irmão – troçou Elrohir.

- Pois é – tentava explicar Estel – acontece que esse elfo parece exatamente com Legolas, só que...

- Só que o quê? Esses seus olhos humanos estão é a lhe pregar peças.

- Só que este é ainda mais bonito que Legolas, e tenho de admitir que Legolas é o elfo de seu gênero mais bonito que conheci.

- Uhh! Estel agora está reparando nos elfos bonitos de Mirkwood.

- Não é isso, seu bobalhão, é que é algo que não se pode deixar de reparar.

- Sim, seria algo que não se deixaria de reparar – apoiou Elladan pensativo.

- Parecido com Legolas?

- Galeneirien! – gritaram os elfos ao mesmo tempo, e dispararam para os salões de Elrond.


A Flor de Galen

- Maegovannem, Galeneirien. – saudou Elrond aproximando-se.

- Maegovannem, Lorde Elrond, Senhor de Imladris. O Rei Thranduil enviou-me para escoltar as armas que lhe foram prometidas.

- Mandou-me um tão belo emissário para lembrar-me de minha promessa? É um gesto hábil e ousado de diplomacia – aproximou-se mais Elrond, ficando frente a frente com a visita – Sê bem vinda, Flor de Galen - disse estendendo a mão para o seu rosto.

A jovem recuou quase imperceptivelmente do gesto de carinho, dura e firme sem contudo parecer impolida ou receosa.

Ali estava alguém que não poderia ser chamada de criança, percebeu Elrond, retendo a palavra na garganta.

- Galeneirien! Galeneirien! – adentraram os filhos de Elrond gritando.

- Maegovannem Elladan, maegovannem Elrohir – cumprimentou-os formalmente a elfa.

- Estel dos Edain – dirigiu-se por fim a Estel, em um tom que não se poderia dizer se era de cumprimento ou de acusação.

Os olhos de sua prima simplesmente passavam por ele, não o viam, encolheu-se Legolas por dentro.

Galeneirien ainda tentou voltar-se para Elrond, para insistir, mas aproveitando-se da chegada intempestiva dos filhos, o senhor de Imladris disse que como todos chegavam de viagem, deveriam recolher-se aos seus quartos para descansar e se recompor para o jantar, dispensando a todos.

A recepção da Flor de Galen aos jovens havia sido tão fria, tão formal, demonstrara um tal pouco caso, que só Elladan permaneceu no salão enquanto ela ainda tentava argumentar com Elrond, forçando-o a usar de toda a sua habilidade para finalmente esquivar-se.

- Há séculos não vem a Imladris, poderia se demorar um pouco conosco – dizia Elladan ao apontar no corredor com a jovem elfa.

- Estou aqui em missão, não a passeio, Elladan filho de Elrond – respondia ela.

Legolas estava no meio do corredor, entre Elrohir e Estel, ela teria de passar por ele.

Teria de passar por ele, Elrohir e Estel estavam postados de forma a impedir que se desviasse.

Teria de passar por ele.

- Aqueles que servem o Rei Thranduil encontram prazer é em cumprir o seu dever, Elladan.

No último momento Legolas desviou-se.


Fantasmas

Estel e Elrohir permaneciam mudos.

- Por que se desviou, Legolas? – a raiva e a incompreensão de Estel finalmente venceram o choque – Não pode permitir que ela o ignore!

- Ela está cumprindo a sentença do Rei Thranduil, Estel, não entende?

- A sentença de que você está morto? Pare com isso, Legolas, vou acabar acreditando que é mesmo um fantasma.

- Acho que a idéia é essa – respondeu tristemente Legolas.

- Não pode se entregar, Legolas – foi a vez de Elrohir intervir.

- Que queria que eu fizesse, Ro, que constrangesse minha prima a ter de admitir que ainda sou de carne e osso? Que a fizesse descumprir a ordem do Rei, que sentenciou para o conhecimento de todos os seus súditos que eu estou morto para o meu povo?

- Não aceito isso! – berrou Estel – Não aceito que o povo da Floresta das Trevas tenha lhe ignorado, seus amigos, fingindo que não o viam, não o escutavam! Não aceito que você aceite isso!

Legolas encheu o peito de ar para argumentar contra aquela fúria, mas acabou soltando-o lentamente, e, virando-se na direção do seu quarto, seguiu-a lento e cabisbaixo. Estava morto para o seu rei e o seu povo, e dessa vez não encontrava forças ou meios para desafiar a ordem de seu pai.


II - Aprontações

Humphrey

Estel quis ir atrás do amigo, pedir desculpas, mas Elrohir o impediu.

- Deixe, quanto mais insistimos, pior ele fica...tenta fingir que não, mas é assim. Vamos experimentar deixá-lo sozinho um pouco.

- E se decidir transformar o delírio de prepotência daquele pai insano em realidade?

- Não podemos vigiá-lo 24 horas, Estel, temos de confiar...Já há bastante tempo que vem se mantendo à tona.

- Até essa dona chegar, aliás, que criatura insuportável é essa?

- E que loucura de dizer que ela era um elfo foi essa sua? – riu Elrohir querendo desanuviar o ambiente.

- Com essa pose de quem está em plena guerra e as tranças de combatente...

- Ou com esses olhinhos ruins que você tem...

Estel e Elrohir logo estavam se socando, e o engraçado é que esta era a forma de fazerem um ao outro sentir melhor. A briga acabou em risos.

- Ela pode ser uma elfa, mas isso não a faz menos insuportável, nariz empinado...nossa, pior que Thranduil.

- Ele deve estar treinando-a pessoalmente, seu irmão, que era pai dela, morreu há muito tempo, e a mãe embarcou para as Terras Imortais quando a mãe de Legolas morreu, eram irmãs.

- Dois irmãos que casaram com duas irmãs?

- Exatamente.

- Puxa, precisamos encontrar duas gêmeas então, para você e Dan.

- Pare com isso: eu sou muito jovem para essas coisas...só daqui a uns dois mil anos.

Mas a conversa prosseguiu no quarto de Elrohir sobre como a prima de Legolas era intragável.

- E você viu como ousou se dirigir ao ada?

- E o pobre Dan, tentando ser gentil?

- Ela não precisava ter FALADO com Las, mas podia pelo menos tê-lo olhado nos olhos, um segundo que fosse...

- Cruel

- Insolente

- Metida

- Mentecapta

- Ela está se achando

- O quê? – Perguntou Estel

- Hum? Ah! É um modo de falar que ouvimos na vila dos homens outro dia, significa que a garota está se fazendo passar por uma coisa que não é, ou pior ainda, pensando que realmente é!

-Ah. – Fez Estel, mas sua expressão não era de muita sagacidade naquele momento.

- Ela está fazendo pose de soldado, de guerreiro, declarando toda séria que "está aqui como emissária de Thranduil", que "está voltada para seu dever com o Rei Thranduil" – imitava-a Elrohir – mas não é nada disso, eu conheci essa menina em Lórien, quando éramos crianças: um sapo a pôs para correr...

- ...

- Humphrey! – Disseram os dois ao mesmo tempo, sorrindo maleficamente um para o outro.

Humphrey era o sapo de estimação de Elrohir. Ele o treinara para assustar elfas distraídas, que então vinham correndo para os seus braços, quando ele muito valentemente enxotava o sapo que saltara para cima delas.

Pois iriam ver mais uma elfa sair gritando bem cedo no dia seguinte.

Estel ponderara que Elrond poderia não gostar, mas depois do jantar em que ela não dera ao pai deles um instante de trégua, obcecada em partir de volta para Mirkwood o quanto antes com as armas que Elrond devia a Thranduil, e principalmente depois do modo como ela ignorara Legolas o tempo todo e a cada vez que tentavam trazê-lo para a conversa...bem, depois disso ele é que instigara Elrohir.

Como se Elrohir precisasse.


Galeneirien estava na biblioteca. O lugar onde Elrond viria buscar refúgio seria exatamente o lugar em que ela estaria.

Estava sentada numa poltrona junto à lareira, profundamente concentrada no livro que escolhera para companheiro de campana.

Estel e Elrohir escondiam-se no frio da sacada, o elfo transmitindo ao sapo as últimas orientações.

Humphrey projetou-se em direção à vítima num salto tão potente que fincou-se em toda extensão da adaga élfica.

- Humphrey!

Galeneirien sentiu um nojo imortal daquela criatura verde e gosmenta que estrebuchava e rapidamente fê-la escorrer da lâmina para a lareira.

- Sua louca assassina! – berrava Elrohir, seguido por Estel.

- Seu garoto...estúpido – respondeu a dama gelada.

- Meu sapo, meu sapinho.

- Seu sapo? Que tipo de elfo cria sapos?

- Sua companhia era mais agradável e seu sangue menos frio do que o seu, sua...sua cobra. – O sapo chiava no fogo, e o sangue de Elrohir fervia a ponto dele avançar para Galeneirien.

A elfa apontou a adaga em sua direção:

- Estou aqui em missão, Elrohir, não me envolva num incidente diplomático.

- O quê, pelos Valar, está acontecendo aqui? – trovejou Elrond ao adentrar aquela cena, secundado por Legolas e Elladan.

- Ada! – sobressaltou-se Elrohir – É que ela, quer dizer, eu...nós, eu e Estel...quer dizer, Estel não, só eu...

A emissária de Thranduil já embainhara calmamente sua arma, e agora estava com os braços cruzados sobre o peito e as sobrancelhas erguidas em sarcasmo, fitando alternadamente o pai e o filho.


Sob seu comando

- Seu...inconseqüente!

Nenhum deles nunca vira Elrond assim, ninguém nunca o vira assim.

- Seus dois irresponsáveis!

- Ada, eles só estavam...- tentou Elladan.

- E você, pare de passar a mão na cabeça deles, fique sabendo que ainda sou o pai de vocês todos, portanto a prerrogativa desse erro é minha.

Elladan encolheu-se; o pai nunca havia admoestado a ele desde que se lembrava.

- Não conhecem o significado da palavra limite! E certamente o culpado sou eu!

Legolas não estava acreditando: achava que só Thranduil seria capaz de se dirigir a um filho daquela maneira.

- Elrohir não fez nada sozinho, ada – tentou Estel.

- Estão sempre juntos nos mal-feitos, eu sei disso! Não sou idiota, apesar de ter de me fazer constantemente passar por, fingindo que não vejo vocês se engalfinhando às minhas costas, me envergonhando na frente de todos os Senhores Élficos!

Elrond andava de um lado para o outro do salão, os dedos massageando as têmporas.

- Deram-lhe exatamente o que ela precisava para me colocar contra a parede. Insistir em que desfrute da cortesia de Imladris tornou-se uma piada de mau-gosto. Terei de entregar-lhe o armamento agora, e só teria soldados disponíveis para acompanhá-la daqui a quase um mês...

Elrohir sentiu um alívio imediato; não gostava de Mirkwood, nem muito menos de Galeneirien, mas facilmente vislumbrou naquela missão a forma de aplacar a cólera de seu pai. Ou pelo menos fugir dela.

- Podemos escoltá-la para o senhor, meu pai.

- Oh! Quão brilhante da sua parte, Elrohir – Será possível que proviessem de Elrond aquelas palavras cheias de ironia? – Acha que eu não pensei nisso antes? Por que será que é tudo que eu não queria? Será por que a situação da Floresta deve estar tenebrosa além de toda conta para Thranduil mandar sua única e adorada sobrinha, completamente só, como emissária? Será que é por causa da insistência obsessiva dela em partir quando mal chegou?

- O quê, meu senhor? – Adiantou-se Legolas subitamente, lembrando Elrond da presença que acabara passando despercebida à sua fúria – Sabe de alguma coisa? Galeneirien disse...

- Não, minha criança, claro que não – todos os alarmes soaram na cabeça de Elrond – sou só um pai que gostaria de dar umas palmadas nos filhos e descobriu que o tempo para isso já passou.

- Que tolice a minha perguntar – reagiu logo Legolas. - Ela não diria nada, não é mesmo, ainda que a situação fosse desesperadora? Por isso tem a confiança de meu pai, é tão altiva quanto ele.

- Não Legolas – Elrond precisava raciocinar rápido, suas saídas estavam todas se fechando – Galeneirien tem a confiança de seu pai por que é um soldado fiel e devotado...O mais devotado que já conheci, na verdade – ia arriscar tudo naquela aposta, e podia sentir em cada pelo da pele que, de um jeito ou de outro, acabaria perdendo alguma coisa, de alguma forma...- um exemplo a ser seguido...

O Lorde elfo voltou-se para os filhos, compreendendo da pior maneira um pouco mais a Thranduil.

- Colocaram-me nessa situação, talvez possam aprender algo com ela: vão acompanhar as armas que devo ao reino de Mirkwood.

Elrohir e Estel sorriram, até Elladan quase sorriu também, era o melhor castigo que poderiam esperar.

- Vão acompanhar as armas que devo ao Rei Thranduil, sob o comando de Galeneirien.


III – A Jornada para a Floresta das Trevas

Planos arruinados

Galeneirien não pareceu mais feliz com aquela situação do que os filhos de Elrond.

- Viajo no ritmo do serviço ao Rei Thranduil, senhor Elrond, não no do passeio dos rapazes da corte de Imladris.

Elrohir quase explodiu de raiva, mas Elrond o conteve sem um gesto, sem sequer voltar-se para o filho: havia-lhes deixado claro que o menor desacato à autoridade da Capitã seria um desacato a ele.

- Mais uma razão para que aceda em tê-los sob o seu comando, Galeneirien: ninguém melhor do que você para ensinar-lhes o significado da palavra serviço.

E os quatro cavalos partiram naquela mesma tarde, a galope apesar de absolutamente carregados da arte dos noldor.


- Aonde você pensa que vai, Legolas?

Legolas corou e seus olhos se encheram de lágrimas, como sempre, mas disse:

- Aonde mais eu poderia estar indo, Mestre?

Elrond levou os longos dedos às têmporas, a vida é feita de ciclos, e alguns ciclos pareciam-lhe repetir-se interminavelmente.

- Não quero que sofra mais, criança.

Legolas encostou sua cabeça na do cavalo, retendo o pranto no cheiro do animal, em sua pulsação tranqüila, sua presença vital.

- Não sofrerei mais lá do que estou sofrendo aqui.

- Não quero que o maltratem, Legolas.

- Não me maltratarão, Senhor, estou morto para eles, não podem me fazer mais mal algum, lembra-se?

- É uma viagem longa e perigosa, que ninguém deveria fazer sozinho.

- Mas ela o fez, não é mesmo? Em amor ao rei que tem como um pai Galeneirien o fez.

Oh não! – Pensou Elrond – aquilo se havia transformado numa competição no espírito desesperado de Legolas.

- E ademais eu logo os alcançarei seguindo sem tanto fardo – Legolas tentou acalmar Elrond.

O Lorde elfo ergueu as duas sobrancelhas, fitando-o com espanto.

- Pelos Valar, Legolas, não é possível que ignore que Galeneirien não vai admitir isso!

- Não se preocupe, Mestre, seguirei próximo mas apartado, velando pela segurança de meus irmãos de coração um pouco mais ao longe – procurou sorrir o elfo jovem.

- Legolas, seu tolo! – por um momento Elrond concordou com Thranduil: como Legolas podia ser tão infantil? – Não vê que isso não vai dar certo?

Legolas estava pasmo; naquele dia travara conhecimento com facetas de Elrond em que jamais teria acreditado.

- Minha criança, Galeneirien pode ser sua prima e vocês podem ter crescido juntos, mas basta olhá-la um segundo para compreender que é feita de um material totalmente diferente do seu: livrar-se-á da sua companhia da maneira que for preciso!

- Apesar do fato de eu estar morto? – teimou Legolas.

- Apesar do fato de você estar morto – confirmou Elrond.


Estel volta e meia perscrutava ao redor. Sabia que Elrond tentaria dissuadi-lo, mas sabia que Legolas viria de qualquer maneira: não precisavam de palavras para se entender.

Tirar os olhos do caminho, entretanto, era uma temeridade: Galeneirien impôs um ritmo extremamente puxado aos cavalos descansados, e trazia em sua mente o conhecimento de cada atalho que pudesse encurtar sua jornada, por mais inóspito que fosse: velhas trilhas agora cobertas de ervas daninhas, espinhos e urtigas que se lhe tocassem a pele o fariam jamais esquecê-las; despenhadeiros; labirintos de árvores que apenas elfos silvestres experimentados poderiam desvendar.

Legolas certamente seria capaz de fazê-lo, decidiu Estel, concentrando sua atenção no caminho que sumia ao entardecer.


- Pensei que não iria parar – nem mesmo Elrohir conseguia esconder o cansaço.

- Não posso seguir com vocês durante a noite – respondeu secamente a elfa, movendo-se na clareira como se sob a luz do dia, aliviando os cavalos de seu fardo para que pastassem.

Aquilo era pior que qualquer castigo que pudesse imaginar, sufocava de indignação o mais jovem dos gêmeos; o pai certamente não desejaria que eles suportassem aquele tratamento calados.

- O primeiro turno de guarda é seu, o segundo de Elladan.

- E Estel?

- Começou a roncar assim que os pés tocaram o solo, e não vai se recuperar para partir antes do amanhecer se tiver de fazer guarda também.

- Antes do amanhecer?

- Antes da primeira luz da alvorada: usem bem seu tempo de descanso – sentenciou Galeneirien dando-lhe as costas, no que foi prontamente seguida por Elladan, que não pretendia desperdiçar um minuto de sono.

Como aquele cardo poderia ostentar um nome de flor?


Elrohir despertou com uma lagartixa dentro de sua roupa.

- Ahhh! Urgh! Quem foi? Vocês se acham muito engraçados é?

Mas o gêmeo não teve tempo de avaliar as faces que montavam praticamente ainda em meio à escuridão, apenas de subir ao cavalo já carregado e alcançar o fim da fila.


Aquela noite ele não desfaleceria de cansaço, prometia-se Estel. Sabia que Legolas não podia estar longe, sentia sua presença seguindo-os.

E realmente conseguiu, pois Galeneirien não pode mais sacrificar os cavalos além do anoitecer.

Dessa vez comeram seu lembas sentados em volta da fogueira que ela concordou em acender, e não cavalgando como no dia anterior. Agora era só esperar que ela adormecesse.

Não foi preciso esperar muito: sem suspeitar de nada, a jovem de Mirkwood até facilitou as coisas, determinando que dessa vez Estel e ela cumpririam os turnos de guarda, respectivamente, e recolhendo-se em seguida.

Estel abraçou o amigo cerca de um quilômetro abaixo do rio que estavam seguindo, logo seguido pelos gêmeos.

- Procurem saber dela o que se passa – pediu Legolas – Galeneirien está viajando com as esporas da urgência, e quem está cada vez mais sem paz sou eu.

- Pode deixar – sorriu Elrohir – Dan nunca foi muito bom com elfas, e Estel então nem pensar.

Aquilo sem dúvida seria um desafio, adormeceu com um quê de diversão o elfo, para acordar na mesma correria do dia anterior, junto com os irmãos.


Os cavalos voavam, pareciam mais leves.

Estavam. Galeneirien rebocava agora mais um cavalo, com o qual a carga dos demais fora repartida.

Boa parte do caminho só permitia a passagem de um cavaleiro de cada vez, mas ainda quando não era o caso, no desespero de não saber se o amigo ainda os seguia Elrohir acabou entregando os pontos.

- É impressionante, de cada dez palavras dela, nove são Thranduil...Meu Senhor Thranduil, grande Rei Thranduil...é uma lavagem cerebral, o único assunto que interessa a ela, não dá para entender.

- Falou o especialista em elfas – dessa vez foi Elladan quem sorriu.

Legolas não desistiria, mesmo sem cavalo e sem suprimentos, conforme a presença do alforje extra com Galeneirien denunciava, ele não desistiria, sabia Estel deixando a porção de lembas onde pudesse ser encontrada.

- Vamos logo! Ande! – A elfa veio admoestá-lo em seu cavalo até vê-lo montado e partindo, deixando para trás o pão élfico totalmente pisoteado.


A marcha forçada

- Não a suporto! Não a suporto! Dias seguindo o rio sem nem uma pausa para um banho. As flores do caminho não lhe importam, nem o canto dos pássaros parece chegar aos seus ouvidos, estou farto, só fala em dever, dever!

- Suas palavras logo chegarão aos ouvidos dela se não se calar – alertou-o Elladan.

- Não me importo! Quero mesmo que ouça – redargüiu Elrohir com mal-criação.

- Estamos sob seu comando, e terá de acatá-la se o penalizar, lembre-se do que ada nos falou.

- Não podia estar se referindo a essa tortura, ada não faria isso conosco.

- Realmente não faria, Ro, e talvez por isso tenha nos colocado nas mãos de quem o fizesse...

- Como pode defendê-la, Dan? Não compartilha comigo e Estel a revolta e a preocupação pelo tormento que está infringindo a Legolas? Confiscou nossos alforjes e racionou nossa comida. Nos dá de comer apenas quando estamos montados, e desembrulha o pão antes de nos passar, para que nem uma migalha possamos deixar pelo caminho; para certificar-se de que Legolas absolutamente não poderá nos seguir!

- Ou então para certificar-se se nos seguirá de qualquer maneira – respondeu Elladan enigmático.

Elrohir se ressentiu mais ainda. Sempre conseguira estabelecer uma sintonia absoluta com seu gêmeo: uma compreensão de espírito total. Sentia-se perdido sem este apoio agora, não entendia o que estava acontecendo: Elladan parecia ter prazer no calvário daquela companhia, demonstrava muita atenção àquela elfa insuportável que os comandava, suportava horas de sua conversa irritante. Era como se Elrohir se houvesse desconectado do irmão.

Fosse a antipatia mútua, fosse o eco de suas palavras de revolta não poder ter deixado de reverberar nos tímpanos sensíveis, Galeneirien simplesmente isolou Elrohir. Penetrando cada vez mais na floresta, ela revelava aos filhos de Elrond os talans escondidos pelo caminho na copa das árvores, próximos à lua e às estrelas, mas era sempre no chão que deixava o gêmeo, responsável pelos cavalos e pelo armamento.

Nem a Estel permitia que descesse na noite escura sob a copa cerrada para fazer-lhe companhia junto à vegetação densa onde não se poderia arriscar uma fogueira. E após cada vigília solitária, meio dormindo meio acordado, ainda tinha de ouvir de Elladan que era o humor dele, e não o dela, que o estava impedindo de aproveitar a viagem.


- Já deu aos cavalos de beber?

- ...

- Elrohir?

- Ahn? Já? O quê?

- Está sonhando acordado com o conforto da casa de seu pai, rapaz da corte?

- Não, estou sonhando com elfas suaves e delicadas, que ainda não esqueceram que somos uma raça civilizada, cortês.

- Oh! Esqueci que os Eldar trouxeram consigo a luz de Valinor para iluminar com seu saber essa pobre Terra Média. Só não entendo porque então tiveram de se valer da caridade dos Silvan para sobreviver quando aportaram aqui: será que é porque chegaram em desgraça, após haver despertado a ira dos Valar com o pecado de uma revolta fraticida?

Elrohir espumava, iria cometer um fraticídio, matar alguém de seu povo, naquele momento.

- Você...é uma ignorante...impertinente...sabe com quem está falando? Eu sou o neto de Earëndil! A estrela que guia o caminho!

- Eu sei, meio-elfo...a estrela dos que abandonam a terra que não conseguem mais defender – Galeneirien não se alterava, acariciando os cavalos que conduzira à beira do riacho.

- Siga a estrela de seu avô, filho de Elrond, vá para Valinor, lá os caminhos são suaves, próprios para elfos delicados.


- Galeneirien, Elrohir está esgotado – pediu Elladan pelo irmão que não se curvaria.

- Mais do que um elfo deveria estar, Elladan, mais do que um guerreiro poderia se permitir.

- Elrohir é um bom guerreiro, mas você o está forçando demais.

- Elrohir um bom guerreiro? Para mim ele parece um garoto mimado resmungando pelo conforto de sua casa, não tem a mesma fibra que você.

- Não está me submetendo às mesmas provações, deixe que a luz das estrelas ilumine o descanso dele, enquanto eu fico junto aos cavalos.


Seus olhos viam o céu de uma forma diferente agora, quase como se o vissem pela primeira vez, como brilhava!

O vento frio, um bálsamo, podia-lhe sentir a textura suave, em oposição ao ar quente e denso de junto ao solo.

Se não estivesse tão cansado...precisaria...ser capaz de suplantar a si mesmo...para não desmaiar de exaustão agora...mesmo sob a beleza da noite.


Galeneirien emparelhava com cada um deles, entregava o pão da viagem desembrulhado, e não se afastava enquanto não os visse comê-lo todo.

- Pare de enrolar Estel!

- Não estou com fome, vou guardar para mais tarde.

- Coma ou devolva.

Não via porque ela ainda se importava, era elficamente impossível que Legolas ainda os estivesse seguindo.

- Está melhor hoje, rapaz da corte?

- ...

- Esqueceu-se de sua cortesia eldar?

- ...

- Não quer comer?

- Quero sim – respondeu o estômago de Elrohir.

- Quero sim o quê, soldado?

- Quero sim...senhora.

- Tarefa árdua essa que o seu pai me delegou – suspirou Galeneirien – ensinar príncipes a servir.

- Ora, escute aqui, sua "grande capitã" – Estel não agüentou ao ver que Elrohir capitulara – essa sandice já foi longe demais! Quer me dizer como iria conduzir essas armas sozinha, se somos tamanho estorvo?

- Está vivendo numa redoma em Imladris, Ara...Estel, Elrond acha que isso é sábio, mas eu acho que teria muito que aprender com seu próprio povo

- O que quer dizer?

- Eu ouvi deles um ditado.

- Qual?

- Quem quer, sempre encontra uma maneira, quem não quer, sempre encontra uma desculpa.

- Ora...- Estel sabia que aquelas eram palavras simplórias e injustas, mas por alguma razão não quis contradizer o que era considerado sabedoria entre seu próprio povo, de quem conhecia tão pouco afinal.

- Coma, Elladan.

- Só se você comer também.

Galeneirien olhou-o e Elladan retribuiu aquele olhar com firmeza.

- Come menos que qualquer outro, está dando sua parte aos cavalos.

- É deles o verdadeiro esforço, precisam mais do que nós.

- Precisa comer, Galeneirien.

- Preciso chegar a Mirkwood logo – disse a elfa apressando a montaria.


Foi a vez de Estel passar a noite com os cavalos. E Ro deitou sua cabeça próxima a de Dan para compartilhar de suas visões. Olhavam para a Lua em frente a Galeneirien enquanto adormeciam, e o espírito sedento de alívio de Elrohir lembrou-se de como a prima de Legolas era bonita.

Odiosa sim. Fria, dura.

Mas sua pele refletia a Lua, e seus cabelos brilhavam mais do que as estrelas.

E sob a luz da lua, muito ao longe, Elrohir divisou um outro reflexo, e seu coração deu uma batida a mais...e sentiu que precisava...precisava prender a atenção dela para si.

Elrohir despertou por completo, e pensou em alguma coisa para dizer:

- Seu nome não lhe faz justiça, Galeneirien.

A elfa franziu o sobrolho, mas não se voltou para ele.

- É mais bela que qualquer flor – ele sentou-se do outro lado dela, orando aos Valar que o inspirassem.

- Não é de flores que o Rei Thranduil precisa – foi a resposta que ela deu num suspiro. – Não agora.

Mais profundo ainda foi o suspiro do gêmeo buscando uma maneira...

- É realmente impressionante...a devoção que o Rei Thranduil desperta em seu povo.

- O Meu Senhor Thranduil é o esteio de seu povo, a âncora que nos mantêm firmes em nossa terra, o rochedo que desafia o mar – os olhos de Galeneirien começaram a se iluminar. - Meu rei é como minha terra, tão profunda e intensa que assusta...mas depois que se é tomado pelo amor dela, toda a beleza suave que se vê por aí parece um quadro pálido, um mero ensaio dos Valar ante a magnificência tenebrosa do Reino de Mirkwood, ante seus mistérios e sua fascinação, por isso essa devoção tem de ser completa, e é destinada apenas aos fortes, aqueles dispostos a se entregar por inteiro.

Elrohir nem piscava, ante o arrebatamento que testemunhava em frente aos seus olhos. Não acreditava que a pudesse ter julgado fria.

A Flor de Galen era só coração enquanto prosseguia cantando seu louvor pela Floresta Tenebrosa.


O território das Aranhas

Toda coração. Era isso que sustentava o corpo que ela mal alimentava, que parecia jamais precisar de descanso, o amor pelo Reino de Thranduil.

À medida em que se aproximavam da terra dela, Elrohir percebia que até a respiração de Galeneirien se fazia mais profunda, como se seus pulmões ansiassem pelo ar denso e verde do solo negro tão próximo.

Ela se debruçava sobre o cavalo, como se quisesse voar por sobre a montaria para a casa que se aproximava. Dois dias de viagem e estariam lá.

- Arcos! – ordenou Galeneirien, retesando o seu.

Os irmãos obedeceram sem compreender direito.

- O quê ...

- Acima à direita! – comandou a Flor de Galen antes que as aranhas sequer surgissem.

- Estel à retaguarda! Elladan à frente! Disparar! – A elfa orientava os arqueiros ao mesmo tempo em que disparava em todas as direções sem nem mexer a cabeça – Acima! Acima! Acima! Elrohir à direita! Acima à direita todos os arcos! Disparar! Disparar! Disparar!

Poucos segundos e uma infinidade de aranhas depois, haviam aprendido que a obediência cega, imediata e absoluta numa batalha podia garantir tanto a vitória quanto a vida.

Seu pai certamente não desejaria que tal ensinamento lhes fosse ministrado daquela forma, mas aquela lição não seria mais esquecida enquanto existissem.

Galeneirien, contudo, hesitou.

- Há mais aranhas? – perguntou Elladan.

- Não agora – respondeu a elfa acalmando o cavalo.

Não agora, mas mais tarde sim.

E a ela também os reflexos da Lua não passavam desapercebidos.

Qualquer decisão que tomasse agora teria conseqüências graves e definitivas.

E apesar de estar certa de que poderiam vencer o território das aranhas montados antes do anoitecer, dessa vez ela ordenou que retrocedessem.


Legolas só percebeu que chegara no meio do acampamento quando acordou nos braços de Estel, enquanto Elladan o fazia beber alguma coisa. Nem se lembraria de não se aproximar tanto na verdade. Não se lembrava quem era. Não se lembrava do próprio nome. Não se lembrava de cansaço, fome ou sede. Não podia se lembrar de que tinha pernas, coração ou pulmões se nem os sentia mais. Há um tempo incomensurável que só se lembrava de que precisava prosseguir. Apenas. E era só do que poderia saber.

Galeneirien não o via, mas os cavalos foram carregados ao alvorecer de forma que um deles comportasse dois cavaleiros: Estel e uma sombra desacordada.

Legolas pouco a pouco começou a recordar como era estar vivo e como era estar morto, e balbuciou alguma coisa.

- Parece que o poço louro está voltando à ativa – tentou animá-los Elrohir, passando a Estel o seu cantil.

O sorriso foi débil, e mais de agradecimento do que qualquer outra coisa, mas o elfo louro sorriu...era bom para ele, era uma sede tão sensível quanto a sede de água, a sede de entes queridos ao seu redor.

O Sol raio naquele sorriso para os filhos de Elrond, e por um instante a sensação de acolhimento aqueceu-os todos, mesmo quando o ritmo alucinado da marcha fez com que os cavalos não pudessem se manter emparelhados.

Até que o frio da angústia, até então afastado pela exaustão, soprasse sobre Legolas novamente.

- O que foi, muindor? – perguntou Estel ao sentir o arrepio daquele que era mais que seu irmão.

E Legolas ainda não se lembrara de fazer-se forte.

- A absoluta indiferença dos que eu amo é tudo que posso esperar à frente.

- Não é bem assim – tentou animá-lo o caçula de Elrond – foi de sua prima a decisão de buscá-lo.

- O que você está me dizendo, Estel?

- Isso mesmo, ela ontem fez que retrocedêssemos a metade do caminho para aguardar você.

E justamente naquele momento os cavalos se aproximaram.

- Galeneirien...prima minha...obrigado.

Galeneirien podia tê-lo ignorado completamente. Podia ter olhado através dele, como se não o visse, como vinha fazendo. Foi o que ela tentou fazer, na verdade, mas por um segundo uma frieza tão grande de desprezo reluziu nos olhos dela, que Legolas se arrependeu de sentir-se vivo.

Eram os olhos de seu pai, e o coração do príncipe tentou parar de bater.

Um morto simplesmente não deveria incomodar as pessoas.

E ao sentir o que estava acontecendo em seus braços, o coração de Estel virou pedra.

E ao compreender toda a cena, o coração de Elrohir se lhe despejou para a boca.

- Legolas está vivo e é seu primo, não pode tratá-lo como morto agora que superou todas as provações que você lhe impingiu! Legolas está vivo! Vivo! – ribombava o gêmeo mais novo emparelhado com as orelhas da elfa.

Se a frieza pode ser cortante, a voz de Galeneirien era uma lâmina de gelo.

- Meu primo Legolas está morto. Há um túmulo para ele em Lasgalen, sobre o qual alguns chegam a chorar...Mas não eu. Não quando vejo meu rei tão só, abandonado por um filho indigno que se matou.

Seja pelo quanto continham de absurdo, seja pelo quanto continham de verdade; seja pelo quanto continham de frieza, seja pelo quanto continham de ardor, nenhum deles encontrou resposta para aquelas palavras...

- Eu não entendo...acredite em mim, Legolas, do ponto em que ela retrocedeu, só pode ter sido para que você não atravessasse sozinho o território das aranhas... – continuou tentando consolá-lo Estel, temeroso de estar realmente carregando um cadáver em seus braços.

Aranhas – pensava Legolas – a vida e a morte são fios indistintos de uma mesma teia de aranha...

E o fio de vida e de morte do seu arco zuniu em uníssono com os outros quando as aranhas atacaram: maiores, mais ferozes e em maior número que no dia anterior.

Mas de um dia para o outro, os filhos de Elrond tinham se tornado melhores soldados. As ordens transmitiam-se diretamente para seus membros, sem precisar passar pela avaliação de suas mentes, e o instinto aguçado e a estratégia experiente de seu líder aumentaram em proficiência.

Como comandante, confiavam cegamente nela agora.

Menos Legolas.

O único que percebeu que as setas que concentravam-se nas últimas aranhas que atacavam o grupo por cima deixaram espaço para a única que vinha por baixo, a tempo somente de atingí-la antes que derrubasse Galeneirien de seu cavalo.

Às vezes a vida muda em segundos, e por um segundo Elrohir sentiu que alguma coisa mudara em sua vida.

Talvez tenha sido até menos que um segundo, mas logo Galeneirien se levantou ajeitando o casaco, e ele percebeu, com alívio, que nada havia mudado dentro dele: era o mesmo Elrohir de sempre, e estava alegre de reencontrar pelo menos a si mesmo, e cheio de adrenalina, pronto para qualquer combate, para troçar de qualquer inimigo.

- E agora, Galeneirien – dirigiu-se arrogantemente à sobrinha de Thranduil – que me diz? Mortos não salvam vidas!

- Você tem razão, Elrohir – respondeu a jovem capitã montando rapidamente. – Mas eu ainda tenho uma missão a cumprir para com o Meu Rei.

E toda a jornada anterior pareceu um passeio aprazível em comparação com o ritmo alucinado que Galeneirien lhes impôs a partir daquele momento.

A água acabou, e o lembas restante foi posto na boca dos cavalos que galoparam sem parar por toda noite, até amanhecer em Lasgalen.


- Elladan, prenda a rédea do cavalo de Estel à sua garupa. Ele deve aguardar aqui, os de sua raça não entram na cidade do Rei sem sua permissão expressa.

Não houve chance de argumentação, e mesmo Legolas fez-lhes um sinal para que não tentassem. Não sabia em que pensara todos esses dias, não podia simplesmente impingir sua presença ao pai daquela maneira. Não para ser olhado como um morto que voltou da tumba para perturbar os vivos.


IV – A Teia da Vida

Os filhos mortos

Nem mesmo dentro da cidade Galeneirien afrouxou o galope, não até que estivessem às portas do Palácio.

Às últimas milhas haviam exaurido a todos. Até a elfa se mostrava cansada, pela primeira vez, pálida e abatida, embora nem um fio de ouro claro escapasse da severa trança.

- Galeneirien! – sorriu Thranduil para a sobrinha que era a filha que lhe restava, algo que era a primeira vez que os gêmeos o viam fazer. Algo inesperado, e que inesperadamente ressaltava ainda mais a beleza de Thranduil: se Legolas era belo, era porque sua semente provinha da árvore mais imponente, dourada e forte da floresta.

- Galeneirien, minha mais valorosa, levante-se! – a moça ajoelhara-se à aproximação do rei, que a ergueu num abraço – E veio acompanhada da mais fina escolta – disse o Lorde de Mirkwood cumprimentando os filhos de Elrond, dos quais não deixava de gostar – é por isso que nela confio e nela me apoio, sempre supera minhas expectativas – Thranduil praticamente sobraçava nos braços a sobrinha, como a exibir um tesouro para os visitantes.

Mas nem a adoração nos olhos de Galeneirien mitigava o cansaço ao qual eles finalmente teriam de se render.

- A jornada foi árdua, posso ver em seus rostos, agora é hora de descanso. Vão se recostar um pouco, soldados. Mostre-lhes os aposentos de hóspedes, Flor de meu Reino. Ainda que os tempos que correm sejam estes, não desejo que a cortesia que recebam aqui esteja abaixo de sua dignidade.

A Flor de Galen desprendeu-se lentamente dos braços do rei e se lhe curvou para retirar-se em cumprimento às novas ordens.

- Podem ir, já alcanço vocês – disse Elladan. Não sabia como abordar com o rei a presença de Legolas na Floresta das Trevas, mas pareceu-lhe melhor fazer isso longe tanto de Elrohir quanto de Galeneirien, se possível aproveitando-se do humor radiante de Thranduil ante o retorno bem sucedido da sobrinha.

O Rei acedeu e fez sinal para que os outros jovens se fossem. Galeneirien então apoiou suas mãos no ombro e no braço de Elrohir, encaminhando-se para fora da sala do trono.

Valar! Valar! Valar! As coisas estavam saindo melhor do que ele podia esperar: Thranduil estava de bom humor, e Dan certamente acabaria fazendo-o ponderar que a Terra Média inteira sentia-se afrontada com aquela história do pai fazer do filho um morto-vivo. Se alguém podia fazer isso, esse alguém era Dan, o especialista em ponderação, sensatez e diplomacia.

Ele era especialista em outro assunto, e sentia que uma jovem elfa estava apertando agradavelmente o seu braço naquele momento. Quem sabe agora que aquela missão terminara, ela tivesse tempo para outra coisa que não fosse dever, dever e dever.

Elrohir voltou-se sorrindo para Galeneirien.

A elfa desabou sobre ele, branca e sem brilho.

- Galeneirien! O que foi?

- Mortos não salvam vidas, lembra-se? – e a moça desmaiou de vez, sem vida nos braços do elfo moreno, o corpo mole, os braços pendentes, o casaco e a camisa levantados revelando a picada infeccionada no ventre.

- Socorro! – implorou Elrohir ao voltar à sala do trono sobraçando Galeneirien.


Morte. Morte de todos que lhe eram caros. Morte de seu pai. Morte de seu irmão. Morte de sua esposa. E agora morte de seus filhos...a Thranduil parecia que a vida era feita de ciclos, e alguns ciclos pareciam-lhe repetir-se interminavelmente.

- Há pouco o que fazer, Senhor – disse o curador de Mirkwood que examinara Galeneirien juntamente com Elladan. – Ela é muito forte, mas não tem sangue suficiente para derrotar esse volume de veneno.

Elladan e Elrohir olhavam para o corpo deitado na cama, que agora lhes parecia tão frágil.

De certa forma ainda mais parecida com Legolas.

- Quer dizer que, se o volume de sangue fosse maior, poderia fazer frente ao veneno? – perguntou Elladan.

- Sim – respondeu o curador – a ferroada foi superficial, e a quantidade de veneno que inoculou não mataria alguém maior.

- E se lhe fizéssemos uma transfusão de sangue? – insistiu o primogênito de Elrond.

O curador suspirou

- É algo que eu gostaria de tentar...

- E o que está esperando? – foi a vez de Thranduil questioná-lo.

- Infelizmente nada, Meu Senhor, entre os elfos, só parentes muito próximos, como irmãos de pai e mãe, podem trocar seu sangue. Acredito que a única pessoa que poderia salvar Galeneirien esteja muito distante...morta.

- Legolas?

- Sim, Meu Senhor.

- Fora do nosso mundo – respondeu Thranduil soltando lentamente o ar dos pulmões.

- E se eu dissesse que Legolas se encontra às portas do seu mundo, senhor? – adiantou-se Elladan.


A ressurreição

Legolas sentiu a presença de Thranduil antes mesmo de distinguir o tropel do cavalo do Rei. A sensação terrível que a presença grandiosa de seu pai emanava.

- Parece que estou vendo um fantasma – desapeou Thranduil em frente a Legolas antes que Estel pudesse se interpor entre eles.

E realmente, Legolas se sentia um fantasma, um morto, a língua petrificada na boca, incapaz de emitir um som, uma saudação, um lamento.

Thranduil esfregou o rosto com as mãos, nada era fácil entre ele e o filho.

- Quem é você? – tentou por fim o Rei.

- Um fantasma – balbuciou Legolas.

Nada era fácil entre ele e o pai.

- O fantasma de um seu filho, Meu Senhor – encontrou coragem o príncipe – cuja morte não aplacou a ânsia de servi-lo.

- Filhos costumam ter mais utilidade para os pais vivos do que mortos – declarou Thranduil.

Aquilo era uma queixa? Uma constatação? Uma oferta?

- E se a vida de um deles me for hoje devolvida, a do outro também o será – assumiu as rédeas do destino nas mãos novamente Thranduil, como só ele ousava.

- Venha! – ordenou o rei estendendo a mão para Legolas ao mesmo tempo em que montava em seu cavalo.

O filho voava nos braços do pai em direção à sua cidade, e Legolas quis acreditar que a crina do cavalo era segura com tanta força pelo rei e seu corpo se inclinava tanto para frente numa forma de abraçá-lo, de preencher aquele longo tempo de distancia.

Aquela era a forma que Thranduil tinha de amá-lo, galopando contra o tempo e saltando a cavalo a sacada do quarto de Galeneirien.

- Pode ir buscar o adan, Elrohir – disse Thranduil entregando a encomenda do curador e partindo para a guerra que não esperava.

Sua vida nunca esperava.


- Água – falou Galeneirien semiconsciente.

- Parece que agora são dois poços loi..unf – o cotovelo de Elrohir veio de onde este estava ajoelhado junto à cama diretamente para as costelas do irmão caçula que se debruçava sobre ele.

Se alguém algum dia a quisera menos que bem, Elrohir não conhecia essa pessoa.


Morrera. Era isso, estava morta e um anjo de Mandos a estava chamando.

- Flor de meu reino?

Galeneirien abriu os olhos, nunca imaginou que a morte pudesse ser tão maravilhosa, sentia-se como se estivesse nos braços do Rei Thranduil.

- Meu Senhor! – tentou ela se levantar imediatamente ao perceber que não estava morta, estava viva, viva nos braços do Seu Rei.

- Galeneirien mais valorosa – sorriu-lhe o rei, impedindo-a.

Abraçava-lhe e sorria para ela, seu rei parecia satisfeito e completo como há muito tempo...

- As armas, a fronteira?

- A guerra dessa vez não esperou por você, flor bravia.

- Oh!- lamentou Galeneirien

- Mas graças ao que você me trouxe, seu velho rei deu conta mais uma vez de proteger nossa floresta.

Definitivamente ela morrera, aquilo só podia ser o paraíso.

- Vitória é o nome de sua espada, Meu Senhor.

- Valor é o nome de minha filha, agora realmente minha – Thranduil beijou-lhe a testa – e felicidade é o nome do dia que me trouxe dois filhos de sangue para ocupar o lugar de um.

- Não estou entendendo, Meu Senhor? – riu Galeneirien; se aquilo era um sonho, ela não queria acordar nunca mais, em tempo algum jamais vira o Seu Rei tão carinhoso, tão galante...

- Você, que sempre foi filha em meu coração, agora o é também no sangue, e a transfusão deu nova vida a vocês dois.

Galeneirien seguiu os fios que saiam das agulhas em seu braço pelos olhos que agora via se acercarem dela e do seu rei.

Até deparar-se com o sorriso de Legolas na cama ao lado, ligado a ela por aqueles fios.

- NÃO! – Gritou Galeneirien arrancando as agulhas do corpo.

Era um pesadelo.


Ombro amigo

A alegria do rei refletia-se em todo seu povo na noite de festa com que Thranduil celebrou o retorno de seus dois filhos da morte.

O coração de Elrohir batia descompassado.

Como algum dia pudera achá-la parecida com Legolas?

Era a elfa mais linda que jamais vira, coroada de folhas verdes e frutinhas vermelhas, a própria imagem da floresta.

Senão fosse também a imagem da tristeza.

- O que foi, Legolas? – aproximou-se Estel – Não parece feliz.

- Não sou o único – respondeu o príncipe festejado pelo povo de seu pai.

- Seu pai está tão feliz como jamais sonharia que pudesse – achegou-se também Elladan.

- Mas a filha como ele sempre quis, a personificação do Valor como ele a chama, está achando alto demais o preço que pagou para continuar a servi-lo: seu desprezo por mim é tão absoluto que demonstra claramente que preferia estar morta a voltar à vida com seu sangue misturado ao meu.

- E talvez preferisse...

- É uma conspiração? – Elrohir juntou-se ao grupo - Alguém tem alguma idéia de porque a elfa mais bela da Terra Média também parece a mais triste?

Elladan riu um meio riso, talvez um riso triste, e baixou os olhos sacudindo a cabeça.

- O que foi? Qual é a graça? Não consigo mais saber o que se passa na sua cabeça – reclamou Elrohir.

- Você, o grande especialista...vocês dois...como podem ser tão cegos?

- Do que você está falando, Dan? – Legolas implorava por uma explicação que o aliviasse, o redimisse.

- Não entende mesmo Legolas? Destruiu as esperanças dela.

Legolas não entendia. Não entendia nada. Há séculos que era espicaçado pelas comparações com a prima, mas da mesma forma como fora sempre para o pai uma filha, fora sempre para ele uma irmã querida.

Jamais lhe faria algum mal. Como poderia lhe tirar a esperança? Qual fora o erro que cometera agora?

- Pare de falar por enigmas, está pior que ada – impacientou-se Elrohir.

- Será que não vêem...a devoção dela pelo Rei Thranduil, nunca foi uma devoção de filha: é absolutamente tudo que ela nunca quis ser para ele!

Então ela não o desprezava? Não o odiava? Sua devoção é que era motivada por um amor diferente? Então o problema não era que agora carregasse no corpo o sangue dele Legolas, mas sim que carregasse no corpo um sangue que a fazia filha de Thranduil, e apenas isso para o Rei até o fim de seus dias.

Legolas não deixou de se compadecer de Galeneirien.

Mas ao entender finalmente o que acontecera, parou de compadecer-se de si mesmo.


Ela amava Thranduil? Galeneirien amava o rei Thranduil?

Thranduil era um velho! Um velho!

Podia ser seu pai, era seu pai agora! Aquilo era uma fantasia de menina. Ah Galeneirien! Pobre menina boba, ele ia consolá-la, ia consolá-la num instante, mal podia esperar.

Galeneirien sempre tão séria, menina boba querida.

Mas ao encontrá-la sozinha na sacada, Elrohir descobriu que não tinha idéia do que fazer.

Queria abraçá-la, beijá-la, mostrar-lhe que não havia razão para se entristecer pela impossibilidade de nenhum amor quando tinha o seu.

Apenas debruçou-se na balaustrada por um longo tempo ao lado dela, sem sequer ter coragem de olhá-la, sentindo a tristeza infinita que emanava, o veneno da nostalgia de algo que jamais fora espalhado na alma.

Era assim que começava, a estrada para Valinor.

- Não pense nisso! – gritou de repente, voltando-se para ela.

O verde do mar lavado voltou-se para ele.

- Galeneirien...eu – seus braços a envolveram

- Não sei pensar em outra coisa, nunca soube...desde que posso me lembrar...não sei existir de outra maneira.

Não estavam falando da mesma coisa.

Com a graça dos Valar, não estavam falando da mesma coisa – Elrohir quase riu, estreitando-a um pouco mais contra si.

- Galeneirien, Th...O Rei Thranduil a viu sempre como uma filha, é assim que a veria sempre.

- Não precisava ser assim, não precisava...preferia ter morrido.

- Não diga isso Galeneirien...todos nós já perdemos gente demais.

- Preferia sim, preferia.

- Como pode dizer isso, menina boba, quando há um amor tão grande destinado à sua vida?

- Se não é o amor do Meu Rei Thranduil, não me interessa.

- Galeneirien! Mesmo que nada disso houvesse acontecido, mesmo assim, a única elfa que Thranduil amou foi a mãe de Legolas, que poderia dar ele a você?

- Ele não precisaria me dar nada, bastaria que me deixasse dar a ele.

- Ele ainda ama a esposa morta, não vê que a luta contra essa tristeza ele nunca conseguirá vencer!

- Que me deixasse consolá-lo em meus braços então, é só o que eu queria.

-...

- Tudo que eu quero agora então, é que você me deixe consolá-la nos meus, flor mais densa.

E Elrohir obteve o que queria.

Pois Galeneirien estava chorando em seus braços, o rosto enterrado em seu ombro.

Em seu ombro amigo.

Chorando por outro.

Era o que lhe permitia ser para ela, um ombro amigo.

Elrohir não gostou nem um pouco da posição.

Entretanto...bem, cabia a ele transformar-se em algo mais.

E o filho de Elrond decidiu que não retornaria para seu pai.

Não agora.