Era feriado em Forks. Aniversário da cidade. Mas estava a mesma monotonia de sempre. Marquei de sair com Rosalie, então. Eu e minha prima nunca fomos muitos próximas; além dos três anos de diferença, ela viveu em Forks sua vida toda - e eu me recusava a ir para lá o máximo que podia. Nos últimos meses em que estive na faculdade, começamos a nos falar quase todo dia. Acompanhei todo o namoro com Emmett, desde sua inscrição na academia até lá, dois anos depois.
Estacionei minha picape em frente a grande casa branca, e minha tia saiu correndo ao ouvir o motor engasgado.
- Olá, Bella! Quanto tempo! Olha só pra você... - Sorriu, me abraçando antes que eu pudesse realmente sair do carro. Ela começou a tagarelar, como sempre. Era o contrário de seu irmão calado - ou melhor, Charlie. Tinha os mesmos cabelos pretos e cacheados, que seus filhos não herdaram. Jasper e Rosalie eram loiros como seu pai, e muitas vezes era difícil convencer as pessoas que éramos da mesma família. Ela falou mais alto e ainda mais animada quando o assunto chegou ao meu emprego, e eu agradeci com um sorriso sem graça, obedecendo quando me mandou subir. Bati na porta do quarto e abri, vendo minha prima de frente para o espelho se maquiando sem pressa.
- Oi, Bella. - Sorriu ao ver meu reflexo, destacando os cílios com um rímel preto cuidadosamente. - Já estou quase pronta.
- Onde vamos? - Perguntei, me segurando na maçaneta com um bico torto. Ela riu.
- Forks não é tão chata como parece. Podemos só dar uma volta.
Assenti, ficando em silêncio enquanto a observava passar batom. Ela não podia colocar os pés fora de casa sem estar absurdamente produzida. Alguém bateu em meu ombro, e eu virei, rindo ao ver Jasper somente com uma bermuda.
- Isso lá é roupa, Jasper? - Rosalie revirou os olhos, envergonhada pela maneira como seu irmão aparecia para as visitas.
- Estou em casa. - Ele franziu a testa, dando os ombros. Em seguida acenou para mim. - Oi, Bella!
Mordi meu lábio inferior, tendo uma idéia repentina. Peguei o celular da pequena bolsa que carregava, e ri baixinho ao erguer ele para meu primo.
- Faz uma pose, Jazz! - Rosalie soltou um grunhido de desgosto, e ele imitou um surfista, virando um pouco de lado (o suficiente para mostrar sua bunda de perfil). Alice me agradeceria por isso.
Escolhemos um banco na praça principal da cidade, próxima à escola. Estávamos comendo talvez o terceiro saquinho de pipoca. Estava frio, e eu me segurei para não comprar sorvete e voltar congelada para o restaurante. Em um momento de silêncio, me arrisquei a perguntar.
- Então... Você se dá bem com os Cullen? Quero dizer, todos eles?
- Sim. Eles gostam de mim, e isso é o que importa. - Ela sorriu de leve. Assenti, esperando um complemento, mas nada veio.
- E... Os irmãos dele? - Insisti. - É amiga deles?
- Alice é... Animada demais pro meu gosto. É meio adolescente, ainda. E Edward... - Me ajeitei no banco, mais atenta. - Bom, ele é um pouco estranho.
- Mesmo? Nunca notei nada. - Menti, franzindo a testa forçadamente.
- Quando conheci Emmett... Ele era tão diferente. Era animado, educado. E tinha uma namorada assim como ele. - Parei, tentando imaginar um Edward feliz, atendendo os clientes com um grande sorriso no rosto. - Mas, três meses depois, eles terminaram. E ele nunca mais foi o mesmo.
Ignorei a pontinha de ciúme que me veio ao imaginar Edward e uma garota qualquer. Ciúme? Não, era mais raiva. Agora quem teria que aguentar um Edward rabugento era eu!
- Talvez... Ele tenha ficado mal... Só isso. - Sorri de leve e dei os ombros. Ela balançou a cabeça, indicando que não.
- Fala sério, Bella! É normal ficar um pouco triste, mas não assim! Não depois de dois anos. Ele largou a música, que era o que mais gostava. Hoje em dia, toda vez que vou lá ou na casa deles, posso contar nos dedos as vezes que o vejo sorrir. Desde que essa garota sumiu, ele não se preocupa mais com nada. Aliás, por ser tão desocupado, ele concentra toda a sua paranóia na organização do restaurante. É bom se preparar. - Ri baixinho, um pouco nervosa de repente. - Ah, e ele começou a fumar também! Faz dois anos que fede absurdamente.
Ela terminou fazendo uma careta. Realmente era um cheiro péssimo.
O que acontecera com ele, afinal? Qual era a importância dessa garota para ele acabar assim?
Respirei fundo ao parar em frente ao balcão, arrumando a bolsa em meu ombro. Edward olhou para mim sem realmente erguer a cabeça, observando enquanto eu tentava recuperar o fôlego.
- Desculpe o atraso...
- O restaurante abre as 10. Já avisaram você? - Ele perguntou todo irônico, anotando qualquer coisa num pequeno bloco. Suspirei.
- Já, sim.
Ergui parte do balcão para passar, mas ele colocou o braço na minha frente, como um pedágio.
- São 10:40! - Ergui a voz, olhando seu rosto, igualmente séria. Só então reparei que estava com um avental e uma touca na mão erguida, bloqueando minha passagem. Ele abaixou, me entregando.
- Não entra mais na cozinha sem isso. - Ele disse, monótono, abaixando o olhar novamente para o papel enquanto andava pelo restaurante vazio. Contei até 10 e, depois de colocar a bolsa perto da caixa registradora, arrumei o avental em mim. Fiz uma pequena careta ao ver a touca que deveria usar, e ele pareceu perceber.
- Estava achando o quê? Que mora num programa de televisão e usaria chapéus encrementados? Higiene em primeiro lugar. - Ele parou, me encarando pelo canto dos olhos enquanto checava se todas as cadeiras em uma mesa redonda estavam firmes. Qual era o problema dele com organização? Arrumei a touca em meu cabelo, prendendo ele todo com certa dificuldade. Quando ergui os olhos, ele estava a minha frente, analisando minha expressão.
- Onde passou a noite? - Ele perguntou como se tentasse se controlar.
- Como disse? - Franzi a testa, cruzando os braços no peito ao me aproximar. Tentei encará-lo, mas meu queixo mal chegava a seu maxilar.
- Onde. Passou. A. Noite? - Ele deu longas pausas entre as palavras e arregalou os olhos, como se eu fosse retardada.
- O que está insinuando? - Ergui uma sobrancelha, pasma com a acusação.
- É divertido andar de moto com aquele garoto, é? - Ergueu as sobrancelhas, irônico.
Parei por algum tempo, processando o que ele dissera.
- Que tipo de mulher acha que sou? - Ergui o tom de voz e, automaticamente, subi nas pontas dos pés para encarar seu rosto mais de perto. Não era tão fácil brigar sabendo que estava ridícula com aquela coisa na cabeça.
Ele revirou os olhos, se afastando.
- Você é típica, não é? - Perguntou quase tão alto quanto eu, voltando a arrumar tudo. - Se passa por santa, mas no fundo é a mesma vagabunda de sempre. - Disse num tom casual, e eu senti o fogo saindo por minhas narinas. Antes que pudesse abrir a boca para responder, ele começou a falar novamente, e eu vi de relance a cabecinha de Alice aparecendo na janela em intervalos de segundos.
- É a primeira vez que chega atrasada, ou melhor, que não chega duas horas antes do horário. Coincidentemente, noite retrasada você pegou carona com seu mais novo amiguinho. - Agora ele estava a centímetros de mim, mais uma vez. - Se tivesse sido só uma noite, teria descansado ontem o dia todo. Mas não! Aproveitou todas as horas que podia. Você está com essas olheiras gigantescas, e bafo de coca-cola, o que quer dizer que tomou a única coisa que achou para ficar mais alerta. Se estivesse sozinha, teria feito café. Porque é a única coisa em que é boa, não é? Cozinhar. - Ele fez silêncio enquanto me olhava, e ergueu o braço para o computador ao lado, apertando enter para um programa qualquer que aparecera. - Não, espere. Deve existir algo em que é muito melhor... - Ele colocou o dedo do meio dentro da boca, fazendo um gesto obsceno antes de entrar pela porta da cozinha. Fiquei parada, respirando fundo enquanto observava a porta ir e voltar várias vezes depois que ele passara. Arranquei a touca do cabelo rasgando-a um pouco, e gritei sozinha, seguindo ele com passos firmes. Eu passara a noite toda pesquisando, era isso que havia feito! Diversas doenças mentais, todos os tipos e graus de depressão e bipolaridade, e até as coisas mais bizarras possíveis. Eu precisava saber o que ele tinha. Eu precisava, porque me importava demais com aquele cara, por mais insuportável que fosse! Andei como se tivesse rodinhas nos pés, encontrando a cozinha vazia, exceto por ele e Alice. Meu cabelo foi para a frente do meu rosto enquanto eu ficava parada a frente dele, socando seu peito com toda a força que podia.
- EU ODEIO VOCÊ! ODEIO! – Berrei, me rebatendo para tentar machucá-lo de alguma maneira. Mesmo assim, tudo foi em vão. Eu ainda gritava quando ele segurou meus pulsos com firmeza, me colocando contra o balcão.
- PÁRA COM ISSO! – Ele gritou de volta, pressionando meu corpo contra o mármore para tentar me controlar.
- ODEIO VOCÊ! – Curvei meu corpo para a frente, demorando na última palavra.
- Você não me conhece. – Ele pareceu controlar sua voz, entredentes, mas os dedos estavam apertando demais meus pulsos.
- Conheço o suficiente pra saber como é mal educado, arrogante, e não tem o mínimo de respeito pelas pessoas! – Respondi chorosa, tentando me esquivar dele. – ME SOLTA!
Eu deveria parecer uma louca com meu cabelo bagunçado daquele jeito. Ao ver meu movimento com a cabeça para afastar os fios do meu olho, ele se tocou.
- Não pode entrar aqui sem touca! – Ele disse, me soltando, bravo ao mudar totalmente de assunto.
- POIS EU QUERO QUE SE FODA! – Berrei, ignorando a cabeça de Emmett aparecer na janela do lado de fora da cozinha. Ele estava se divertindo, é claro. – VOCÊ TAMBÉM NÃO ME CONHECE! Não sabe nada sobre mim. Pensa muito bem antes de abrir essa boca fedendo a nicotina pra falar do que eu faço ou deixo de fazer! – Apontei um dedo para o rosto dele, e ele segurou minha mão com uma força desnecessária para abaixá-la. Eu tentei resistir, mas ele foi mais forte, colando meus pulsos nas laterais do meu corpo.
- EU QUERO QUE VOCÊ MORRA! – Berrei com os olhos fechados, e os abri no mesmo segundo em que acabei a frase. Ele havia soltado minhas mãos, e o silêncio ali parecia que não iria acabar mais. Eu nunca o vira daquela maneira; Alice prendera a respiração e Emmett, já do lado de dentro, parecia fazer o mesmo.
Os segundos mais longos que eu poderia imaginar procederam ali, nossos olhos sustentando uns aos outros, até que Esme apareceu com sua costumeira roupa de chef, colocando o chapéu por cima da touca. Parecia não saber muito bem o que acontecera, mas reparou que havia algo errado ao ver meu cabelo bagunçado e as mãos de Edward em meus pulsos.
- O que... – Parou, analisando a cena. – Há algo errado?
O homem a minha frente se afastou com uma ultima olhada para mim, mal respirando. Fiquei parada enquanto Esme falava algo com seus outros filhos; mil coisas se misturavam em minha mente. Por que todos tiveram aquela reação com minha frase? Era óbvio que não era sincera. Bom, nem tanto assim. E, mesmo que fosse, Edward e eu nem mesmo éramos amigos. O que eu queria para ele não deveria ter a mínima importância, pelo menos em sua concepção. Esme se aproximou, colocando a mão em meu ombro para chamar minha atenção.
- Pegue outra touca na despensa, certo? Precisamos começar o trabalho.
Assenti processando sua ordem várias vezes até realmente entender.
N/A: Então né, o clima esquentou meeeeeeeeeeesmo AHUHUAHUAHUA. MUITO obrigada pelas primeiras reviews e faço questão de responder aqui *-*
Ana Krol: Muito obrigada meeeeeeesmo, que bom que está gostando e a Carol agradece pela parte do "bem escrita" AUHAHUUAHHUA. Por que pra quem não sabe funciona assim: Eu crio as confusões e ela aprimora, narrando de um jeito que eu adoro, digo que sou a primeira fã dela *-*
dudinka: Ow...obrigada, espero que goste desse capítulo também *-*
CaroldoubleS: HAHUAHUAHUAHU, essa também foi a parte que eu mais gostei, bela mostrando pro Ed o que ele ta perdendo. Espero que goste deste capítulo também.
Bom, por hoje é só. Mais e mais confusões virão. Um grande beijo a todas e continuem acompanhando ;*
