Sentei na cama com um impulso só, olhando em volta. Aquele não era meu quarto. Não mesmo. Ou seria? Eu não lembrava da casa de Charlie ter algum ambiente como aquele. Duas camas e um armário completavam o local cheio de pôsteres de diversas bandas dos anos 70. Havia um abajur na mesinha de cabeceira, e um homem sem camisa parado na porta. Passei as mãos pelo rosto, tentando acordar enquanto Edward andava com calma até mim.
- Ai! – Levei uma mão até a testa, sentindo minha cabeça inteira latejar.
- Bem vinda à ressaca. – Ele disse, me entregando uma caneca de café puro. – Você volta a trabalhar às seis da tarde. Até lá, beba muita água. Banana também ajuda. O café tem efeito temporário... A dor de cabeça passará por um tempo, só.
Segurei a caneca no cabo, bebendo tudo em vários goles, sem parar para respirar. Meu namorado sentou na beirada da cama, observando. Ergui os olhos para ele, parando na metade da bebida.
- Ainda bravo? – Perguntei, cautelosamente.
- Eu deveria estar?
- Acho... Que não? – Mordi o lábio, transformando a frase em uma pergunta.
Edward balançou a cabeça, negando, e eu subi discretamente meu vestido tomara-que-caia.
- Bella, você não entende... Não posso fazê-la correr nenhum risco.
- Que tipo de risco eu corro saindo com Jacob?
Ele franziu a testa, e eu voltei a beber.
- Você... Você não se lembra?
Merda.
- O que eu deveria lembrar? – Perguntei, afastando a caneca da boca na hora.
- Nós viemos para casa, e você...
- Eu...? – Fiquei mais perto dele, ansiosa.
Edward ofegou, e então sorriu, indignado.
- Você vai lembrar as poucos.
- Me diga!
- Não. – Ele riu, me dando um rápido selinho. – Vou tomar um banho. Emmett não passou a noite em casa, meus pais já saíram, e Alice vai voltar logo com uma muda de roupa para você. Fique a vontade.
Dizendo isso, saiu do quarto. Eu respirei fundo, jogando meu corpo deitado mais uma vez. Droga, o que foi que eu fiz? Mas não deve ter sido grave... Ele estava rindo. Será que foi muito embaraçoso? Perto da família dele? Gemi, saindo da cama e andando descalça com a caneca na mão, tentando ignorar a dor de cabeça. Havia um imenso espelho no corredor, e eu ergui as sobrancelhas ao ver meu estado. Ao menos minha cara estava limpa. Mas, ainda assim, cansada. E acho que não preciso mencionar como estava meu cabelo. Continuei a andar, descendo as escadas. Foi quando uma lembrança me veio, de repente.
" - Edzinho! – Eu ria alto, me pendurando nele enquanto tentava me carregar para cima. A casa estava vazia, felizmente. Fui pega no colo, balançando as pernas enquanto meu namorado bufava, me levando para o quarto. "
Ai! Ai, ai, ai.
Andei pela sala com uma mão na testa, carregando a caneca na mão livre. Tomei mais um gole, sentando no sofá. A almofada caída no chão me pareceu familiar...
" Eu estava deitada no sofá, minha visão um pouco turva. Edward passou por mim, falando algo rápido no celular, e eu o puxei.
- Não, Bella! – Ele retrucou. Eu resmunguei alguma coisa, beijando-o e tirando sua camisa com pressa, enquanto ele tentava se esquivar. Minhas mãos desceram para sua calça, e mais uma vez ele me afastou, tentando parar nosso beijo e sair de meu abraço. "
Passei a mão livre pelo rosto, resmungando sozinha. Eu, bêbada, tentando fazer com que transássemos. Ele devia ter ficado furioso! Mais algumas imagens de nós dois nos beijando me veio à mente, e talvez algumas quedas por conta do salto. Ignorei, indo direto para a cozinha. Ainda havia algumas coisas que usaram no café da manhã. O pacote com pães de forma fechado, a embalagem de margarina, a garrafa térmica com o café ainda quente. Sentei em uma das cadeiras, enchendo minha caneca com um pouco mais de leite. Peguei um pão e, enquanto esparramava manteiga nele com uma faca, senti as mãos quentes apertando meus ombros com carinho. Virei um pouco o rosto, encontrando Edward ainda só com uma toalha amarrada na cintura.
- Hm... Oi. Já comeu?
- Já, sim.
Deu um beijo no topo da minha cabeça, e então sentou ao meu lado. Dei a primeira mordida em meu pão, sentindo ele acariciar meu cabelo.
- Quando Alice chegar, você pode tomar um banho, e então te levo para casa.
Assenti em silêncio, bebendo mais um gole de café. Ele franziu a testa.
- O que foi?
- Eu... Me lembrei.
- Ah.
Ele parecia desconfortável, de repente.
- Eu... – Deixei tudo em cima da mesa, ficando de frente para ele. – Me desculpe. Edward... Eu sei como você reage a isso.
- Não é culpa sua. – Ele sorriu, beijando diversas vezes meus lábios. – Você é fraca com a bebida. E eu nunca soube disso. Agora já posso me prevenir num próximo jantar nosso.
Fiquei em silêncio, assentindo devagar. Repeti a frase que gostaria de dizer diversas vezes, tomando coragem para finalmente lhe dirigir a palavra.
- Usando o preservativo, não correrei riscos...
Ele enrijeceu.
- Certo? – Completei, receosa.
- Certo. Mas não posso. Desculpe, Bella.
Ofeguei, mudando da cadeira para seu colo, sentando em suas coxas.
- Edward, nós estamos juntos já fazem três meses. – Disse, abraçando seu pescoço. – Eu confio em você. E, mais do que tudo, eu quero você.
Ele permaneceu em silêncio por algum tempo. Então, mostrou que não com a cabeça, me afastando de seu colo.
- Conversamos quando sua cabeça não estiver prestes a explodir.
Fiquei em pé, permanecendo imóvel ao seu lado enquanto ele levantava e saia da cozinha. Bufei, sentando na mesma cadeira de antes para terminar meu café.
Ouvi a porta da sala abrir, mas não precisei olhar para saber quem era.
- Bom dia! Eu trouxe só um jeans, duas camisetas... Eu peguei uma calcinha decente, porque a maioria por lá parece de vó! Hm, seus tênis... E a escova de dentes. Minha mãe disse que, se não estiver bem a noite, Lauren pode continuar por lá... – Alice disse, andando até mim enquanto mexia na sacola.
- Não. Não quero ela se metendo na minha cozinha mais do que o necessário.
Respondi, séria, tomando o ultimo gole de café antes de levantar e pegar a sacola de sua mão.
- Ah...
- Eu preciso... De um banho. – Disse, olhando para meu vestido amassado. Minha cunhada assentiu, beijando minha bochecha antes que eu subisse para o quarto.
O banheiro da casa era dividido entre os três irmãos; Carlisle e Esme tinham uma suíte. Edward já me contara sobre sua adolescência e as constantes brigas para tirar Alice do chuveiro – uma discussão que, às vezes, ainda acontecia. O lugar era enorme, todo branco, e eu podia ver claramente como era dividido. Perto da pia, havia um suporte com três escovas de dente, uma de cada cor. Dentro do Box, um shampoo para cabelos oleosos, que eu identifiquei sendo de Edward e Emmett. Do resto, a maior parte do ambiente continha somente produtos e acessórios femininos: Cremes para o corpo, desodorante, shampoos, condicionadores, cremes para hidratar o cabelo, máscara para alongar os cílios, pentes, sabonetes especiais para seu tipo de pele, creme depilatório, absorventes, delineador líquido, cera depilatória fria, batons e sombras de olho (de diversas cores), removedor de maquiagem, lápis de olho, sabonetes íntimos, secador de cabelo, pinça, pó compacto, um pacote de algodão colorido, rímel transparente, perfumes, band-aid, pincéis, solução para limpar lentes de contato e toalhas bordadas com um gigante "A".
Mais para o lado, quase na porta, estavam dois desodorantes masculinos.
Eu tomei meu banho rapidamente (tomando a liberdade de usar o shampoo de Alice) e me troquei ali mesmo. Não vi necessidade de ficar desfilando pela casa do meu namorado só de toalha. Optei pela camiseta roxa que Alice trouxera, para usar a preta (mais bonita) a noite. Voltei para o quarto de Edward com a sacola no ombro e o vestido sujo em mãos. Parei por um breve momento, observando-o em silêncio. Estava de costas para a porta, usando somente uma calça jeans. Meus olhos subiram por seu corpo, analisando enquanto vestia uma camiseta cinza por cima da cabeça e suspirava, arrumando ela no corpo. A barra da camiseta caiu, e eu não pude deixar de reparar em sua bunda quando a mesma parou lá perto.
Meu riso baixo chamou sua atenção, e ele virou, me encarando com os olhos verdes realmente atentos.
- Planos para hoje?
Perguntei ao dar os ombros, colocando a sacola com o vestido num canto e a camiseta limpa no guarda roupa. Eu provavelmente vestiria a peça com seu cheiro, mais tarde.
- Eu gostaria de... Conversar com você. – Ele respondeu.
Uma sensação que há muito tempo não sentia tomou conta de mim; meu coração acelerou, minhas mãos suaram, e eu senti todo o meu corpo arrepiar. Uma ansiedade horrível, típica de quem vai se dar mal. Aquele assunto realmente o incomodava.
Ele esticou a mão para a minha, e eu obedeci, andando até ele e hesitando ao abraçá-lo. Sentamos na beirada de sua cama, um de frente para o outro, e ele suspirou, acariciando meu cabelo.
- Eu nunca lhe contei... Sobre como fiquei doente.
Fiz que não com a cabeça num gesto automático. Ele assentiu e mordeu o lábio inferior, olhando para meu cabelo, mais especificamente para a mecha que se ocupava em enrolar no dedo indicador.
- Quando conheci Tanya... – Ele parou, engolindo seco antes de continuar, como se quisesse ficar livre do gosto que a pronuncia do nome o trazia. – Foi tudo de repente. Eu não era do tipo que saia sempre, ou qualquer coisa assim, mas eu me divertia. Emmett me acompanhava. E quando a conheci... Sim, eu fui irresponsável. Mas ela era mais. E como eu podia saber disso? Ela não era do tipo que... Namorava. Se é que me entende. Ela era bonita, e qualquer homem iria querê-la.
Fiz uma careta, evitando pronunciar o adjetivo que veio à minha mente.
- Eu a conheci, nós conversamos um pouco, e acabamos na cama. – Deu os ombros. – Sem nos prevenir de nada. Eu nunca pensei que acabaríamos tendo algo mais.
Ele segurou minhas mãos em meu joelho, olhando para elas.
- Ela também não sabia da doença. O vírus demora um tempo para se manifestar, você sabe. Mas está lá, e pode ser transmitido. Ela continha o HIV há muito tempo, e quando estávamos quase completando quatro meses de namoro, ela descobriu que tinha a doença. Eu, por causa daquela vez em que transamos sem preservativo, fiz o teste também. E descobri que tinha o vírus.
Finalmente, seus olhos encontraram os meus.
- Tanya ficou muito abalada. E foi embora. Mas eu a amava...
Enrijeci por um momento, tentando absorver a idéia do meu namorado ter sido apaixonado por outra – e ela ser, como ele mesmo dissera, linda.
- Eu tive todo o apoio de minha família. – Continuou. – Mas Tanya não. Culpavam-na por ter contraído o HIV, por ser irresponsável, por estar sempre com muitos homens diferentes. Ela provavelmente pensou que eu fosse culpá-la, também... E nosso namoro acabou. Eu me isolei. O que mais eu poderia fazer? Parei com minha música, de sair com Emmett, de falar com meus amigos. Comecei a fumar e me focalizar totalmente no meu trabalho. Você não sabe como é, Bella. As pessoas nunca te dão uma chance. Você sempre será a aberração, o irresponsável. Sempre pensam que até mesmo respirar o mesmo ar que você é perigoso. Muitas vezes nem sabem o que a Aids faz, ou como se pega, mas te tratam como alguém que não é digno de estar com eles.
Uma lágrima desceu por seu rosto, e eu me aproximei, acariciando suas bochechas.
- Eu abandonei tudo. Eu estava estudando música. Eu não era gerente em tempo integral antes disso. Eu não sei o que aconteceria se descobrissem isso, quero dizer, é muito capaz das pessoas pararem de frequentar o The Cullen's. Eu perdi minha saúde, os planos da minha vida e a mulher que amava, tudo ao mesmo tempo. Eu vivi por dois anos sem nenhuma esperança... E então você apareceu. Você foi a única pessoa, além da minha família, que continuou por perto para me ajudar. Na verdade, a única que soube. Eu tinha amigos, sim, Bella. – Senti um aperto no coração, absurdamente culpada ao lembrar do que lhe dissera. – Eu tinha muitos. Eu não era... Mal-educado, como você pensa, provavelmente.
Mais uma vez, tive aquela visão de um Edward feliz, trabalhando com uma animação desnecessária. Tudo por causa de uma bela moça ao seu lado.
- Entende isso? – Ele perguntou, sério, passando as mãos por meu rosto. – Entende por que não posso fazer isso com você?
- E se eu quiser isso?
- Não é a questão!
- É, sim. Eu escolho o que é melhor para mim. E eu escolho você. Se vamos enfrentar isso, será juntos.
- Não é um estilo de vida, Bella. – Ele retrucou, entredentes. – É uma doença. Destrói seu corpo, sua vida, seus sonhos, e o que todos pensam sobre você. Não se trata de nós, se trata de toda uma sociedade. Não vou simplesmente te passar a doença e nos isolar, é muito mais complexo, há muito mais preconceito do que p...
- E o que você espera que eu faça? – Eu quase gritei. – Quer que eu seja apenas 'a namorada', a figurante da historia? Que esteja só parada ao seu lado enquanto você enfrenta tudo sozinho?
- E no que você ficar doente também ajudaria? Só deixaria tudo mais difícil!
- Não estou querendo ficar doente, Edward, eu simplesmente sei no que implica o uso ou não de preservativo, sei que as chances da camisinha estourar ou qualquer coisa assim são mínimas, e quero que você tenha uma vida normal, como muitos soros-positivos têm! Tantas pessoas têm uma vida sexual normal, mesmo com a doença, sabe disso! Você diz que as pessoas têm preconceito com você, mas você mesmo está fazendo isso.
Acho que, pela primeira vez em quase um ano, ele ficou sem resposta.
- Não se baseia somente em... Algo físico. Eu quero você, de todas as formas, e quero que pare de agir o tempo todo como alguém que não merece viver.
Eu estava quase o beijando, segurando seu queixo para que olhasse diretamente em meus olhos.
Alice chamou do corredor, e poucos segundos depois apareceu na porta. Eu afastei a mão de seu rosto, e Edward me abraçou, olhando para sua irmã também.
- Jacob está... Está na porta. Quer falar com você, Bella.
Virei para Edward, pronta para pedir que ficasse ali. Ele já estava em pé, bufando enquanto ia em direção à escada. A dor de cabeça de repente ficou mais forte.
N.A.: Postagem dupla em homenagem as minhas fiéis comentadoras do FF Ana Krol, Kaah – c2 e a Ginny M. W. Potter ^^
Beijos, espero que tenham gostados. Obrigada a todos que acompanham a fic ^^
