Era uma noite comum. Sábado, 5 de Dezembro, The Cullen's fechando às 2:00 da manhã, minha picape quebrada e uma discussão com Edward no meio da neve. Nada fora da rotina.
- Caso não tenha reparado, senhor Cullen, eu não posso fazer nada para tirar um carro quebrado do caminho. Manobre o seu!
- Caso não tenha reparado, senhorita Swan, sua lata velha está estacionada bem no meio da passagem!
Ele andou até mim com passos firmes, e eu fiz o mesmo. Ergui o queixo, tentando compensar minha pouca altura com uma cara de durona.
- Se o seu carro fizer um único arranhão na minha lata velha...
-
O que? Vai me bater com uma frigideira, chef? – Ele sorriu, irônico.
- Você não vai gostar nada de onde eu vou bater. Eu estou avisando. Vai pra casa, Edward.
Com o mesmo sorriso irritante no rosto, ele andou pelo estacionamento em direção a seu carro. Entrou e ligou o veículo. Estava realmente apertado demais para sair da vaga, com a minha picape atrás. Então, ele fez. O desgraçado deu ré, amassando um pouco a lataria do meu carro. Seu Volvo não teve nenhum arranhão.
Abri a boca, sentindo o sangue subir. Antes que pudesse lhe dizer todos os insultos que planejava, ele parou o carro na rua, bem na minha frente, e abaixou o vidro.
- Quer carona?
- Isso é alguma piada? Vai acelerar pra longe quando eu concordar?
Ele riu, destravando a porta do passageiro.
- Não há como chegar na sua casa, Bella. A rua está cheia de neve. Você pode passar a noite com Alice.
Mordi o lábio, segurando minha bolsa mais junto ao corpo. Dormir num quarto bem na frente do de Edward. Dormir sabendo que ele estava a poucos metros de mim. Eu não sabia como meu coração reagiria a isso; eu ainda estava aprendendo a conviver com ele sem que minhas mãos suassem.
- É pegar ou largar. – Ele completou. Eu suspirei e concordei, me sentando ao seu lado no carro. O ar quente era aconchegante. Edward acelerou em direção a casa dos Cullen, deixando o rádio ligado numa estação de música clássica.
- Chopin. – Observei, deixando a bolsa em meu colo.
- Eu me inspirava muito nele para compor.
Ergui as sobrancelhas ao olhá-lo.
- Você tem composições próprias?
Ele sorriu consigo mesmo.
- Não vou me gabar. Sabe como sou bom em falar de mim. – Riu, estranhamente animado. – Eu sempre fui um bom pianista; você já me ouviu tocar. Eu cheguei a me apresentar para públicos enormes, em teatros, mas...
- Mas desistiu. – Completei.
Seu sorriso diminui subitamente.
- Desisti. – Ele parou um pouco, pensando em como continuar. – Preferi ficar em um emprego estável como gerente, trabalhando com minha mãe, do que estudar música sem saber o que seria do futuro. Sem saber se teria um futuro.
O silêncio que veio a seguir foi constrangedor; eu não tirei os olhos de seu rosto sério. Edward, por sua vez, manteve o olhar na estrada – nunca em mim.
- Eu estive pensando no que me disse. – Ele puxou assuntou depois de bastante tempo.
- Sobre...?
- Sobre Deus. – Edward falou quase por cima de mim.
- Mudou sua opinião? – Minha voz saiu divertida.
- Não. Eu tenho uma pergunta, na verdade. – Ele parou um pouco, me olhando de canto para ter certeza de que eu estava interessada. – Você acredita em anjos?
- Anjos... – Saiu mais como uma afirmação.
- Anjos. – Ele concordou.
- Por que, exatamente, quer saber?
- Gosto de suas observações sobre esse tipo de coisa.
Sorri, cruzando as pernas em cima do banco. Ele pareceu não gostar muito dos meus tênis tocando o couro, mas ignorou.
- Não acredito em anjos com asas, ou tocando harpas no paraíso. – Disse a ele. – Acho que... Cada pessoa é o anjo da outra. Cada um de nós tem alguém certo para nos ajudar em cada momento da vida.
- Então, quando alguém não precisa mais de ajuda, seu "anjo" pode ir embora?
- Não. Não exatamente. Quero dizer, nós damos adeus às pessoas quando temos certeza de que elas ficarão bem sozinhas. É normal sentir saudades, mas... Quando dois anjos precisam ficar juntos e se separam, não será simplesmente "saudade". Tudo dá errado.
- Entendo. – Ele quase me cortou.
Dei os ombros, olhando pela janela.
- Você é o meu anjo. – Edward completou como se estivesse falando sobre o tempo.
Virei a cabeça para ele, totalmente surpresa.
- Eu... Sou. – Murmurei.
Ele estacionou com facilidade na garagem, ao lado do carro de Carlisle.
- Amanhã cuidaremos da sua picape. – Edward disse enquanto saia do carro. Eu o imitei, seguindo meu ex-namorado para dentro da casa ainda um pouco tonta, tentando descobrir o propósito daquela conversa. Lembrar da frase que ele acabara de dizer fazia eu me perguntar por que exatamente ele era um ex. Havia tantas coisas mal resolvidas entre nós, tantas coisas pelas quais ainda poderíamos lutar, e estávamos desistindo por teimosia.
Edward desapareceu escada acima. O andar de baixo estava vazio. Eu subi e me deparei com Alice já deitada, lendo um romance – levando em conta seus olhos vermelhos. Ela ficou feliz em arrumar a bicama e me emprestar um pijama.
- Você viu o que Emmett está planejando? – Ela riu, sentada com o travesseiro no colo. – Ele pediu ajuda das crianças para procurar a aliança de Rosalie aqui em casa. Esme não vai ficar muito contente... Mas, bem... Por isso ele está dormindo na casa de Rosalie hoje. Para ela não vir aqui amanhã, e... Hm, para procurar por lá também. Nunca se sabe.
Alice deu os ombros, se ajeitando em sua cama. Eu fiquei embaixo das cobertas na minha, aconchegada. Nossa conversa durou pouco tempo; ela logo adormeceu.
Eu virei de barriga para cima, e tentei dormir.
Realmente tentei.

( Oswaldo Montenegro – Figura louca .com/mp3/Z6Rh/oswaldo-montenegro-figura-louca/ )

Seria mais fácil dormir sem todos aqueles pensamentos inundando minha mente. Sem a dúvida, a confusão, a vontade de colocar todos os meus sentimentos as claras.
Seria mais fácil dormir sem saber que Edward estava a poucos metros de mim.
"Por isso ele está dormindo na casa de Rosalie hoje..." Emmett dormira fora. Edward estava sozinho no quarto. Eu podia ir até lá e falar com ele. Eu podia... Não!
Gemi e coloquei o travesseiro contra o rosto, contando até 10. Respira, Bella, você não vai sair dessa cama. Ele não quer falar com você. Ele te odeia. E você... Você o ama.

Edward's POV.

Acalme-se, Edward. Ela está dormindo. Nem mesmo lembra de você. O que você quer fazer lá? Calma, calma, calma! Droga. Sempre soubemos que isso seria um problema, não é? Bella, Bella que deveria ser sua, a alguns passos de distância. Como isso poderia acabar bem? Talvez se você fosse até lá com alguma desculpa... Qualquer coisa. Mas a essa hora da madrugada? Não, é errado. É impossível. Fique bem aí, e tente dormir. Fique. Não vá. Vá...

Bella's POV.

Só alguns passos. Uma simples fresta da porta e você passaria. Alice não iria perceber, ninguém ouviria. Nem mesmo Edward. Você poderia ir e dar uma olhada nele... Lembra-se de como ele fica lindo dormindo? Não! Não, não, não. Fique bem aí.
Fique.
Não vá.
Vá.
Levantei-me da cama e andei até a porta. Nenhum barulho. Ninguém percebe o que estou fazendo, o erro que estou cometendo. Não há motivo para se preocupar. Só mais alguns passos. Vá...

Edward's POV.

Fiquei em pé. Isso é errado, tão errado. Devo continuar arriscando? Abra a porta, meu coração implora. Obedeço.

Bella's POV.

Ele estava lá. Eu abri minha porta, e ele estava lá. Parado, me encarando ainda dentro de seu quarto. Usava somente uma calça de moletom. Saímos para o corredor e fechamos a porta atrás de nós, num movimento espelhado. Nossos olhos nunca largavam uns dos outros, nossas mãos permaneceram nas maçanetas. Eu poderia voltar para a cama e fingir que aquele momento não acontecera. Poderia. Edward deu um passo a frente e parou com os braços ao lado do corpo. E então, avançou. Eu fiz o mesmo. Não houve tempo para pensar, respirar, ou lembrar todos os motivos que eu tinha para não estar fazendo aquilo. Nossas bocas estavam unidas. Bocas? Lábios, línguas, braços. Eu era ele e ele era eu. Nenhuma força poderia nos separar, nenhum pensamento me faria desejá-lo menos. A Terra parou de girar. A última coisa que tínhamos era pressa. Seus lábios deslizavam por meu pescoço e eu, mantendo os olhos fechados, o esticava para deixá-lo mais a mostra. Suas mãos deslizaram por minhas costas, erguendo e puxando minha blusa. As minhas foram para sua calça, tentando abaixá-la. Ele me ergueu, e eu subitamente levei meus dedos até seus ombros, arranhando-os como se precisasse me agarrar a sua pele, como se minha vida dependesse de estar presa a ele. Minhas pernas enroscaram-se ao redor de sua cintura. Ele me carregou para seu quarto e trancou a porta. Minha blusa ficou perdida em algum lugar pelo chão. Ele me deitou na cama. Suas mãos eram suaves em meu corpo ao mesmo tempo que sua boca estava faminta na minha. Minha calça também se foi. Eu não sentia frio. Meu corpo estremecia, mas não tinha a ver com a temperatura do quarto. A nevasca do lado de fora da casa poderia entrar e eu continuaria fervendo por dentro.
A urgência foi embora aos poucos. Eu sentia cada detalhe de seus lábios nos meus, cada centímetro de sua pele em minhas mãos. Não havia pressa. A calça dele foi jogada longe. Nossas roupas íntimas tampouco continuaram por perto. Suas mãos exploravam meu corpo, e então sua boca. Tombei a cabeça para trás e respirei fundo. Sua respiração quente se aproximou de meu pescoço, e logo senti o hálito de menta buscando minha boca outra vez. Ele me beijou. Com pressa, com calma, com carinho, com urgência. Todas as sensações ao mesmo tempo. Não ousei abrir os olhos para tatear seu abdômen perfeito. Não ousei me mexer quando seus dedos estudaram a curva da minha cintura. Edward esticou um pouco o braço e pegou um preservativo na gaveta do criado-mudo. Eu fiquei imóvel, olhando seu rosto tranquilo. Seu corpo se colou ao meu mais uma vez, e eu voltei a fechar os olhos com um longo suspiro. Sorri; não pude evitar. Senti-o dentro de mim encaixando-se perfeitamente, como se fossemos feitos sob medida um para o outro. Ambos ofegamos, e nossos gemidos se misturaram no quarto escuro. Não havia mais nada do lado de fora. O mundo se resumia a nós. Ele era meu, eu era dele, mas não sabíamos mais quem era quem. A verdade talvez era que só havia um corpo sob a cama.
Eu poderia morrer. Ou talvez já estivesse morta. Não era exatamente o céu, não era exatamente o inferno. Era só a própria loucura, o próprio desejo, arrebatando o pouco de sanidade que nos restava. Não era exatamente a morte. Não era exatamente a vida.
E nunca teria que acabar.

Edward deitou por cima de mim. Nossos corpos nus enroscados, nossas respirações aceleradas. Agora eu sabia. Sabia que ele me desejava tanto quanto eu a ele; sabia como eu dependia dele – de sua atenção, de seu amor, de seus carinhos. Eu me sentia completa. Subi uma de minhas mãos pelas suas costas até seu ombro, analisando sua pele. Então, encontrei seus olhos. Aqueles olhos... Tinham muitos sentimentos ao mesmo tempo. E o problema era que todo o desejo e o amor estava sobrepostos pela reprovação. De mim e de si mesmo. De nós dois. Ambos havíamos enlouquecido.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa e eu neguei com a cabeça num simples movimento. Meu dedo indicador o calou; meus olhos nunca deixavam os dele. Eu podia ver sua silhueta pela fraca luz que vinha do jardim e iluminava a janela. Como ele era lindo. Meus dedos enroscavam-se em seu cabelo macio num carinho lento, deixando ele repousar a cabeça em meu peito que subia e descia com a respiração levemente ofegante. Eu podia sentir seus olhos em meu rosto; seu olhar era quase como de uma criança. Edward nos virou na cama, deixando ambos deitados de lado, e me abraçou por trás. Fechei os olhos, sentindo-o arrumar o cobertor até nossos ombros. Sua respiração estava perto de meu ouvido, seu corpo colado ao meu e sua mão fazendo carinho em minha barriga.
- Eu amo você. – Ele sussurrou devagar, fazendo as palavras soarem verdadeiras como nunca.
Sorri em silêncio, adormecendo nos braços do meu anjo.