Eu saíra de Phoenix para subir na minha carreira. Acreditava em mim e sabia que tinha um grande talento na cozinha. Minha mãe também nunca mediu esforços para me ajudar.
Assim que coloquei os pés em Forks, fiquei crente de que cometera um erro.
Mas ganhei muito mais do que esperava. Muito mais do que merecia.
Quando me perguntarem, eu lhes direi com orgulho que experimentei a felicidade.

(...)

5 meses depois...

Não era o melhor ou maior apartamento do mundo. Mas era nosso. Era nosso lar. Eu acordava, e ele estava lá. Vivíamos em nossa bagunça organizada que ninguém mais seria capaz de entender. Eu desfilava pelos cômodos com meu pijama mais detonado e ligava o rádio no ultimo, tentando tirar a encarnação da preguiça da cama. Eu acreditava que tanta lerdeza tinha a ver com nossa vida sexual de repente ativa demais, ou com agora morar com uma cozinheira que adorava mimá-lo. Éramos como recém-casados, mas sem a parte chata de preparar cartões de agradecimento. Ele aparecia depois de muito enrolar e tomava seus remédios, não com a mesma tristeza de antes, mas com orgulho por estar lutando. Eu via a esperança em seus olhos toda vez que ele sorria pra mim.
Naquela manhã, nossa rotina foi a mesma. E eu não tinha como reclamar. Ele se aproximou, deu um beijo em minha nuca e sentou a pequena mesa no canto da cozinha enquanto eu servia nosso café da manhã.
– Esme ligou. – Eu disse a ele, enchendo meu copo com leite morno.
Eu sabia que minha sogra nunca diria, mas ela estava preocupada com Edward. Ele acabara de passar uma semana no hospital e, agora que voltara, eu o estava entupindo de comida, para ela não pensar que a culpa de sua recaída fora minha.
Edward passava menos tempo no The Cullen's. Ele finalmente decidira; seu futuro estava na música. Apesar disso, não aceitou a proposta de Aro. Seu segredo era seu – ou nosso – e nenhum dinheiro ou fama poderia compensar isso. Ele passava a maior parte do dia compondo - quando não estava no restaurante tentando, como sempre, organizar tudo.
Rosalie e Emmett estavam em lua de mel, há duas semanas, mais ou menos. Não davam notícias com muita freqüência e, quando resolviam ligar, era muito rápido. Esperávamos que em sua volta para Forks estivessem mais calmos. O relacionamento de Jacob e Leah parecia estar sério, mas não tanto como o de Jasper e Alice.
Já Charlie parecia triste sempre que eu o visitava. Devia se sentir sozinho demais. Ele normalmente saia com Billy ou Harry, e eu incentivava isso. Sempre tinha que passar na casa dele pegar algumas coisas; meses depois e ainda tínhamos muito faltando. Aos poucos, tudo ali estava ficando com a nossa cara.
Carlisle e Esme prometeram que almoçariam conosco naquele dia. Eles faziam isso em vários domingos. Agora o The Cullen's tinha outro gerente, eu não o conhecia muito bem, mas sabia o suficiente: Era bom. Perto das 11 da manhã pensei que deveria começar a preparar o almoço, mas meu namorado aparentemente achava que não fazíamos sexo há muitas horas.
– Não ouse. – Ele murmurou contra meu ombro quando tentei levantar da cama.
Soltei uma espécie de rosnado, virando no colchão até ficar por cima dele.
– Dois anos de abstinência, e agora terei que agüentar isso.
Ele riu alto no quarto escuro. Depositei um beijo em seu peito.
– Não me trate como o ninfomaníaco da relação. Você não é nenhuma santa.
– Alguém precisa levar a culpa.
– Hm...
Ele resmungou simplesmente, antes que seus lábios se colassem aos meus.

Edward desligou o celular, sentado em uma cadeira e apoiando os pés na outra. Eu estava em pé perto dele, mexendo no fogão.
– Já estão chegando. – Anunciou e se levantou. – Vá se trocar, eu cuido disso.
Ele se aproximou e tentou pegar a colher da minha mão. Franzi a testa, medindo-o de cima a baixo.
– Você? Cozinhando? – Zombei.
– Certo. Continue você. Meus pais vão adorar que os receba assim.
Dei um passo para o lado. Ele assumiu enquanto eu me analisava. Usava sua camisa, que estava completamente amarrotada. Apesar de comprida, estava mal abotoada e um pouco transparente, deixando minha calcinha roxa à mostra. Passei a mão pelo meu cabelo, sentindo o coque mal feito se desfazer ao meu toque. Ergui o rosto e vi sua expressão divertida.
– Você está sempre linda. – Disse, me mandando um beijo no ar. Apertei sua bunda antes de disparar pelo corredor.
Nosso quarto sempre me parecia o lugar mais aconchegante do mundo, até mesmo quando ele não estava lá. Mas eu gostava particularmente quando tinha seu perfume. Joguei a camisa no chão e vesti uma calça jeans, combinando com uma blusa que achei decente o bastante. Tentei pentear meu cabelo e, enquanto o fazia, ouvi a campainha.
"Olá, querido!" Ouvi Esme dizer na entrada do apartamento. Apressei-me para sair do quarto, abrindo um imenso sorriso que os faria ignorar qualquer erro em minha aparência. Eu já era íntima de meus sogros, não precisava impressioná-los.
– O que temos pra hoje, chef? – Carlisle perguntou, beijando minha bochecha.
– Espaguete! – Respondi, rindo.
– Não podem faltar...
– As almôndegas, eu sei. – Cortei o que ele dizia, puxando Esme para a mesa de jantar já arrumada.
Comer – ou, melhor ainda, conversar – com eles era fácil. Fluía. Éramos como velhos amigos. Eu sempre me dera bem com pessoas mais velhas, e Edward dificilmente falava ou pensava como um jovem adulto. Naquele dia, em especial, estava ansiosa para que o almoço acabasse e pudesse conversar a sós com Carlisle. Ou, como muitas vezes ele precisou ser para mim, Dr. Cullen.
Nosso apartamento contava com uma pequena sacada – mal cabia a mesa e as cadeiras que compramos para colocar ali. Assim que terminamos de comer, tive sorte o suficiente para que Esme e seu filho se afastassem para a cozinha, me deixando a sós com meu sogro.
– Podemos conversar um instante? – Pedi, indicando a sacada. Ele assentiu e sorriu.
Saímos e fechamos a porta de vidro. Ele sentou a minha frente, interessado. Mexi minhas mãos uma na outra, procurando as palavras certas.
– Eu gostaria de saber... – Fiz uma pausa, franzindo o cenho. – Carlisle, eu gostaria de saber no que implica eu e Edward termos filhos.
Ele ergueu as sobrancelhas, provavelmente surpreso.
– Vocês andaram pensando nisso? – Perguntou.
– Não... – Olhei para minhas mãos. – Não, fui eu. Ainda não falei com ele. Não quero que ele se anime com a idéia, e então saiba que é impossível.
– Nada é impossível, Bella. Não mesmo.
Ele respirou fundo, arrumando-se na cadeira.
– Como posso lhe dizer isso? É arriscado. Hoje em dia existem técnicas para que a criança tenha bem menos chances de nascer com o vírus. Mas quanto a gestante... Ao entrar em contato com o sêmen infectado, é praticamente certo que você também irá contrair o HIV.
Esperei em silêncio, cruzando as pernas e mantendo as mãos em meu colo.
– Você e eu conhecemos Edward muito bem. Ele nunca colocaria sua saúde em risco se houver outras opções. – Carlisle balançou a cabeça numa negação e riu baixinho. – Certo, acho que ainda não respondi sua pergunta.
Ele jogou o tronco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e entrelaçando as mãos.
– Vamos supor que decidam suspender o uso do preservativo para você engravidar. Eu estaria mentindo para mim mesmo se esperasse que você se mantivesse saudável, mesmo que, com o tratamento, a carga viral de Edward esteja baixa. Nos primeiros três meses de gravidez – considerando que você contraiu a doença quando houve a fecundação – o teste para HIV teria um falso-negativo. A partir do terceiro mês, você realizaria o teste, e daria positivo. Começaria a tomar os mesmos medicamentos de Edward, para diminuir sua carga viral. Está acompanhando?
Assenti. Ele sorriu, mas só um pouquinho.
– Entenda que é de certa forma... Raro a criança contrair o vírus durante a gestação. O verdadeiro problema está no parto. Quando seu sangue infectado entra em contato com o sangue do bebê, o vírus passa pra ele. É por isso que, quando a gestante é aidética, optamos por uma cesariana. O rompimento da bolsa e as contrações podem facilitar a troca de fluidos entre mãe e bebê, portanto os médicos preferem evitá-los sempre que possível. Ainda assim, você receberia um medicamento na veia pouco antes do parto, para diminuir ainda mais a chances de contaminar seu filho.
Ele parou um pouco e suspirou.
– Não sei, Bella. É arriscado, mas não impossivel. Apesar disso... Eu não aconselharia. Há muitos riscos de complicações na gravidez. Um recém-nascido é frágil demais e, além disso, ele guardará seus anticorpos por algum tempo, inclusive o do HIV. Desde a primeira semana de vida a criança já tomaria remédios, mesmo que só seja possível detectar o vírus em seu corpo no segundo mês. Seria realmente muito fácil para a criança contrair alguma infecção. E você não poderia amamentar.
Ele me encarou, e ambos ficamos em silêncio.
– Eu entendo sua vontade de ser mãe. – Completou. – Mas planejar uma gravidez nessas condições seria um sacrifício, de muitas maneiras.
– Sei disso. – Respondi quase em um murmúrio.
– Não cabe a mim decidir. – Deu os ombros. – Uma criança nunca é um erro, e eu vou apoiá-los se decidirem. – Ele franziu levemente o cenho, pensativo. – E... Bem, talvez não se interessem muito por causa do alto custo, mas ainda assim... Existe uma técnica... Até que nova. Chama-se lavagem de esperma. Veja bem, o vírus não está no espermatozóide, e sim no liquido seminal. Eles separam, e então fazem uma inseminação artificial. As chances de contaminar a gestante são mínimas, mas ainda existem.
Carlisle se remexeu na cadeira, me analisando com um olhar paternal.
– Expliquei bem? – Ri baixinho, assentindo. – A teoria é muito mais fácil do que a prática. Ao engravidar, você estaria se jogando de cabeça numa vida que vem acompanhando de perto. E, mesmo que esteja pronta para enfrentar isso, deveria pensar na saúde que seu filho teria. Você se lembra das crianças que conheceu no hospital, não é? Me dói dizer isso, Bella, mas... Levando em conta que o sistema imunológico infantil é muito diferente do nosso, devo lhe informar que seu bebê – caso venha ao mundo com a doença – não teria uma infância muito diferente da delas. É claro que, com o tratamento avançado de hoje em dia, posso dizer que ele seria saudável quase com a mesma certeza que digo que você não. Mas, novamente, não cabe a mim decidir.
Abaixei a cabeça e encarei meus dedos, sem saber o que dizer ou pensar. A porta se abriu, e logo senti a mão de Edward em meu ombro. Rapidamente mudamos de assunto.

***

Vi uma criança em minha mente, um menino, com os cabelos de Edward. Ele se virou e sorriu para mim, mostrando os olhos do pai. Na verdade, havia muito pouco de mim em suas feições. Só havia nós dois numa imensidão branca; poderia parecer assustador, mas me trazia uma paz indescritível. A criança acenou, estendendo a mão para mim e se aproximando. Eu estava quase a alcançando, quando meus pés pararam de me obedecer. Não estávamos mais perdidos no nada; tudo a nossa volta começou a se transformar. Ele parou de sorrir, e eu reconheci a expressão – era a mesma de seu pai quando contrariado. Tudo ficou preto, como se eu tivesse piscado rapidamente. Então, todas as cenas começaram a passar como flashes, sendo interrompidas pelo mesmo cenário preto. Primeiramente, vi um quarto de hospital vazio, arrumado para o próximo paciente. Pisquei, e o ambiente estava cheio de brinquedos. Mais uma vez pisquei, e a criança havia voltado. Estava sentada na cama, trajando a camisola branca dos internos. Encarava o chão.
"Quero ir embora." O garoto reclamou. Edward passou ao meu lado, sem me ver.
"Não podemos ir." Seu pai disse, abaixando um pouco. "Tenha paciência, está bem?"
"Eu quero a mamãe." Pediu, abraçando Edward.
"Eu também." Respondeu, depositando um beijo no topo da cabeça de nosso filho.
Suas vozes faziam eco em minha cabeça. Era um pouco desnorteador. Quando eu falei, minha voz saiu clara.
– Edward! – Chamei, me aproximando. Ele não se moveu. – Estou aqui. Edward!
Toquei sua mão, mas meus dedos atravessaram sua pele. Ergui as sobrancelhas. Eu estava invisível para eles.
– Estou aqui, meu amor... – Tentei mais uma vez, em vão.
Mais uma vez, tudo ficou escuro. E eu estava sozinha. Ouvia o choro de uma criança, mas parecia estar dentro da minha cabeça. Uma luz acendeu ao longe, no final do que parecia ser um corredor. Resolvi segui-la. O choro ficou cada vez mais alto.
Havia muitas portas. Realmente muitas. A maioria nem mesmo fazia sentido; estavam colocadas uma por cima da outra, soltas da parede ou de ponta cabeça. Uma delas estava sozinha, quase na curva do corredor. Abri-a, e vi o mesmo garoto sentado sozinho próximo a parede. O choro pertencia a ele, e ainda usava a mesma camisola. Abraçava suas pernas, encarando o outro lado do quarto vazio. Virei a cabeça, tentando descobrir o que estava vendo. Assim que entendi, desviei o rosto e fechei os olhos com força. Tomei coragem e olhei mais uma vez. Era Edward. Estava sentado próximo a parede, com as pernas esticadas e o corpo caído de lado, parecendo mais uma boneca de pano sem sustentação. Seus olhos estavam arregalados; metade de seu rosto estava pálido e deformado, a outra metade era somente seu esqueleto. A pele de seu braço estava entrando em decomposição, com a ajuda de vários insetos. O menino não se moveu mais, e não tirou os olhos do corpo de seu pai.
"Não se preocupe com ele." Virei a cabeça num sobressalto. Edward estava ao meu lado, completamente normal outra vez. Seu corpo continuava jogado no mesmo lugar. Ele segurou minha mão, e sorriu, sombrio. "Logo se juntará a nós."
Senti um puxão estranho em meu umbigo. Tudo começou a se mover, ou talvez éramos nós que mudávamos de lugar. Eu só tinha noção dos dedos de Edward segurando os meus. Fui impulsionada pra frente quando finalmente paramos no gramado imenso. Uma lápide com meu nome estava a nossa frente. Ofeguei.
"Surpresa?" Ele perguntou, franzindo a testa. Puxou minha mão pra cima e beijou as costas dela. "Não se preocupe, Bella." Repetiu. "Ele logo virá..."

Gritei com todo o ar que consegui reunir. Estava na escuridão novamente. Não era possível! Precisava despertar, precisava sair dali. Uma luz se acendeu ao meu lado, um pouco distante, e eu pulei no lugar onde estava sentada. Reconheci Edward ao meu lado, com a mão no abajur. Aos poucos, reconheci todo o quarto. Ele me abraçou, e eu retribuí. Havia despertado. Graças à Deus, eu havia despertado.