CAPÍTULO VII
- Quem é o bebê mais lindo do mundo? — Lily sussurrou, deitada de bruços sobre o tapeie. Nicky agitava os bracinhos e retribuía o sorriso carinhoso. — Não vai crescer e beijar as garotas para depois fazê-las chorar, vai? Quero que seja sensível, amoroso e romântico. Só um homem de verdade é capaz de cultivar essas qualidades. Nunca dê ouvidos a quem tentar convencê-lo do contrário.
— A sessão de doutrina é privada, ou posso participar?
Lily virou-se e, horrorizada, reconheceu os sapatos italianos de James. Não havia percebido o tempo passar. Normalmente tomava a precaução de estar bem longe durante as visitas do grego ao quarto de Nicky, e nas últimas semanas conseguira passar até dois dias sem vê-lo. Não era difícil programar-se. James era uma criatura de hábitos constantes, e as horas que reservava para o sobrinho eram bastante regulares.
Embaraçada, Lily levantou-se e ajeitou a camiseta, ainda úmida do banho do bebê. Sabia que ela moldava seus seios nus com perfeição constrangedora.
— Se insistir nessa história de transformar o garoto num homem romântico e sensível, ele será presa fácil para todas as caçadoras de ouro da Europa.
— Não sei por quê. — Lily protestou embaraçada. — Esse tipo de personalidade não exclui inteligência e cautela.
— Está enganada. Olhe para mim...
Tremendo, Lily fitou aqueles olhos amendoados e sentiu o mundo girar à sua volta. Trabalhara duro para impedir esse tipo de reação, mas até agora não conseguira nenhum resultado. Cada vez que olhava para James, tinha a impressão de vê-lo ainda mais fascinante. E se conseguira transformá-la tão intensamente em uma única noite, que tipo de devastação poderia causar, caso a tocasse novamente?
Mas James já conseguira sua vingança. Possuíra seu corpo para provar que era o senhor absoluto de tudo que desejava. Por que haveria de tentar uma nova aproximação?
Notando que ele a fitava com um brilho estranho nos olhos, Lily abaixou a cabeça e, sentindo a atração sexual no ar, foi colocar Nicky no berço, usando o bebê como uma espécie de escudo.
— O que acha de jantarmos juntos? — James sugeriu.
— Já tomei um lanche. — ela respondeu apressada, sabendo qual seria o programa para depois do jantar.
Como James nunca voltava para casa a tempo de fazer a refeição em sua companhia, ela havia adquirido o hábito de comer alguma coisa no quarto, aproveitando a solidão para relaxar e escapar da atenção solícita dos criados, sempre tão dedicados à esposa solitária.
Na verdade, as relações com os empregados eram excelentes. Ela, que nunca lidara com um criado em toda sua vida, era tratada como uma rainha. Os pratos preferidos, as flores favoritas... Qualquer desejo que expressasse era rapidamente realizado. Não conseguia compreender por que as pessoas que James pagava a peso de ouro eram tão gentis com ela.
— Podia me fazer companhia — ele insistiu.
O canalha! Passara duas semanas tratando-a como se fosse invisível, e de repente decidia ser gentil só porque descobrira um súbito desejo por sexo. Era humilhante sentir-se atraída por um homem como James Potter! Sentia vontade de tomar um banho e esfregar-se até arrancar da pele a impressão deixada por aquelas mãos.
Pálida, Lily levou as mãos às têmporas e murmurou:
— Não estou me sentindo bem. — Ainda não havia levantando os olhos do carpete quando sentiu que ele a tomava nos braços. — O que está fazendo?
— Se não está bem, é melhor ir deitar-se.
— Não! Quando tenho dor de cabeça, prefiro caminhar ao ar livre e respirar ar puro.
James parou para fitá-la e Lily sentiu que estava perdida. Num minuto seu corpo estava rígido, e no outro sentia-se derreter como sorvete ao sol.
— Por favor, ponha-me no chão.
— Devia ter contratado outra babá, como eu sugeri. Está trabalhando demais.
A Sra. Brown permanecera exatamente três dias depois do casamento. James a demitira sumariamente no dia em que ela atrevera-se a dizer que ele estava interferindo em sua rotina por aparecer no quarto do bebê antes do café da manhã.
— Bobagem — Lily respondeu atordoada.
E de repente aconteceu. James resmungou alguma coisa e beijou-a com ardor, despertando seu corpo com uma intensidade assustadora. Como se tivessem vontade própria, as mãos dela encontraram os cabelos negros e espessos e os acariciaram. Pelo menos estava viva novamente depois de duas semanas de pesadelo.
E então ele afastou-se com a mesma rapidez com que a beijara. Parecia ultrajado, frustrado, furioso!
— Que diabos está fazendo comigo? — perguntou, colocando-a no chão.
— Eu? — Lily espantou-se.
Possuído por uma força que nenhum dos dois compreendia, James a puxou pela camiseta, os olhos fixos em seus seios.
— Trate de usar um sutiã quando sair do quarto. E quando for nadar ou tomar banho de sol, não esqueça de vestir um maio. Fui claro?
Lily afirmou com a cabeça. Sempre ouvira dizer que não se deve contrariar um homem desequilibrado, e esse não era o melhor momento para dizer que nem sabia nadar, e que ainda não tivera tempo para pensar em banhos de sol.
— Não quero mais vê-la exibindo-se por aí desse jeito. E agora vá para cama, antes que sua dor de cabeça piore.
Lily afastou-se devagar, passo a passo, temendo que um movimento súbito pudesse precipitar um ataque violento. De que diabos ele estava falando? Usava o mínimo possível de roupas para dar banho no sobrinho porque, sem a prática das babás, acabava sempre molhada e morta de calor, uma vez que o aquecimento era ligado no banheiro de Nicky para evitar que ele contraísse um resfriado.
No corredor, Lily olhou para trás e constatou que James voltara para o quarto do bebê. Gostaria de ouvir o que ele dizia ao sobrinho quando via-se a sós com ele. Teria a mesma falta de discernimento que demonstrava com os brinquedos que enviava diariamente? Acreditava realmente que Nicky logo estaria brincando com o trem elétrico, ou com a bicicleta? E quanto ao urso falante com aquela risada histérica que sempre fazia o pobrezinho chorar desesperado?
Lily suspirou e foi deitar-se, sabendo que estava sendo injusta. A verdade era que não estava preparada para o interesse de James pelo sobrinho, e por isso agarrava-se à idéia dele percorrendo lojas de brinquedos e ignorando os estágios mais óbvios do desenvolvimento infantil. Alguma coisa acontecia em seu coração quando tentava imaginá-lo numa loja de brinquedos, arrogante demais para pedir conselhos, mas disposto a acertar pelo bem de Nicky.
Já estava estendida sobre a cama quando lembrou que havia deixado o livro que estava lendo na sala. Podia ir buscá-lo sem preocupar-se com encontros desagradáveis, porque James ainda estava no quarto do bebê.
Mas Lily logo percebeu que se enganara. Estava terminando de descer a escada quando ouviu a voz de Vivien, estridente e furiosa, além da porta da biblioteca.
—... Como não é da minha conta? Você tem uma esposa e um filho! Se acha que vou ficar quieta enquanto humilha aquela garota, James...
— Não sabe do que está falando — James respondeu com tom frio.
— Seu pai sempre foi discreto. Jamais embaraçou-me em público...
— O que já não se pode dizer a seu respeito.
— Sinto muito — Vivien respondeu perturbada. — Lamento que ainda se lembre disso.
Atenta, Lily aguçou os ouvidos, mas não conseguiu ouvir o que James disse em seguida. Por que Vivien estava interferindo? Sem dúvida era uma pessoa bem intencionada, e só queria contribuir para o sucesso do casamento do enteado, mas não percebia que James se ressentiria com isso?
Lily voltou para o quarto levando o livro. O que James estava fazendo para humilhá-la? E por que importava-se com isso? O que ele fazia além das portas do castelo não era de sua conta. Mas, por mais que a razão tentasse convencê-la disso, os sentimentos gritavam o contrário.
James mudara as regras do casamento, tornado o relacionamento sexualmente íntimo. Por mais que tentasse, não conseguia mais pensar em James desfrutando de sua liberdade sem sentir um nó no estômago, e nem todo o bom senso do mundo era suficiente para aplacar o impacto dessa terrível realidade.
Noite após noite, James voltava para casa e saía novamente, sem nunca dizer onde ia ou o que fazia. E Lily não fazia perguntas, temendo que ele repetisse as coisas que dissera na noite do casamento. De uma coisa tinha certeza: a reação de Vivien à infidelidade do finado marido fizera toda a família sofrer. James já havia enumerado todos os defeitos da madrasta, entre eles o fato de ser possessiva e ciumenta, e de criar cenas desagradáveis.
Vivien não tivera o bom senso de manter os problemas conjugais longe dos olhos e ouvidos dos enteados.
James planejara o futuro ao lado de uma mulher que fosse o oposto da madrasta. Fria, contida, sem emoções... Esse era seu ideal de esposa. Para ele, o casamento seria apenas uma forma de dar prosseguimento à dinastia sem abrir mão da liberdade, um relacionamento distante no qual apenas as necessidades mais básicas fossem partilhadas. Lily estremeceu, certa de que ele era capaz de sustentar esse tipo de relação.
Agora sua cabeça doía de verdade. Deitada, sentia-se subitamente triste, prestes a chorar. Qual era o problema com ela? Estava envolvida com James como jamais pretendera estar com homem nenhum, e a culpa era toda dele. Se a houvesse deixado em paz, o casamento não teria passado de uma encenação vazia, e agora não estaria se importando com o que ele fazia fora de casa.
Ou estaria? Por quanto tempo teria sido capaz de viver perto de James sem admitir a poderosa atração que sentia por ele?
James não precisava deitar-se com dezenas de mulheres para humilhá-la. Já era suficientemente humilhada pelos sentimentos que ele despertara nela, necessidades que, dia a dia, a empurravam para uma espécie de abismo emocional.
Cerca de uma hora mais tarde as batidas na porta precederam a entrada de James. Lily puxou as cobertas até o queixo, furiosa com o sorriso sarcástico que bailava em seus olhos. Potter deixou um copo sobre o criado-mudo e encarou-a.
— O que é isso? — ela perguntou, como se pudesse estar diante de um veneno letal.
— Algo para melhorar sua dor de cabeça.
— Está brincando!
— Não sei por que tanta incredulidade! — ele irritou-se. — Posso ser tão sensível e atencioso quanto qualquer outro homem.
Vivien havia deixado sua marca. James estava visivelmente exasperado e, temendo servir de válvula de escape, Lily apanhou o copo e bebeu alguns goles do líquido dourado e aromático, tossindo violentamente ao sentir o ardor na garganta. Conhaque, o suficiente para derrubar um elefante! Era como se uma língua de fogo se espalhasse desde a garganta até o estômago, e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— É excelente para a tensão menstrual. Lily encarou-o com o rosto vermelho.
— Por que o espanto? Sei mais sobre TPM que qualquer outro homem. Vivien me obrigou a estudar o assunto.
— Eu não sofro de TPM. Só estou com dor de cabeça.
James encolheu os ombros, os traços perfeitos impassíveis, o temperamento novamente sob controle. Depois de fitá-la por alguns instantes, aproximou-se da janela e abriu uma das cortinas.
— Está muito abafado aqui. Lily não respondeu.
— Acho que devemos ter uma festa.
— Uma... festa? — ela repetiu atônita.
— É hora de ser apresentada à família e aos amigos.
Vivien estivera inventando compromissos. Lily engoliu em seco, tentando esconder o desgosto provocado pela sugestão.
— Não pensei que pretendesse me apresentar a alguém. E, francamente, não acho que seja uma boa idéia. É melhor deixarmos as coisas como estão, deixar as pessoas pensarem que sou uma espécie de esposa maluca trancada no sótão, jamais vista, jamais mencionada...
— Do que está falando? Eu não a tranquei em lugar nenhum!
— O que não significa que queira me exibir por aí.
— Não me envergonho de você.
— James, por que não podemos ser honestos? Sei que está odiando a idéia de aparecer em público em minha companhia e...
— Bobagem! — ele cortou irritado. — Está dizendo um amontoado de... — James completou a frase com um impropério e Lily respirou fundo, tentando conter a revolta provocada por seu vocabulário. — Desculpe. É que não me lembro de ter lho dado motivos para me acusar disso.
Lily riu com amargura.
— Nós nos casamos no início da manhã, num cartório perdido numa esquina da periferia de Londres, e você atravessou o saguão do aeroporto dez passos na minha frente!
— Há duas semanas, ainda estava furioso. Queria ter certeza de que não apreciaria o dia de seu casamento.
— Pois saiba que conseguiu o que queria — ela confessou, disposta a ser honesta. — Escute, sei usar os talheres corretamente porque trabalhei como garçonete num hotel de luxo. Também limpei casas elegantes e restaurantes requintados. Na verdade, todos os empregos que tive exigiram algum tipo de habilidade doméstica. Estou satisfeita com minha prisão no sótão, desde que possa ficar perto de Nicky. Não quero que respire fundo e tente sorrir cada vez que eu o embaraçar. Isso seria terrível.
— Você não me embaraça. Uma mulher com sua beleza jamais poderia embaraçar-me.
— James, pare com isso. Nós dois sabemos que pertencemos a mundos diferentes e jamais teríamos nos encontrado, não fosse pelo bebê.
— Mas nos encontramos e nos casamos.
— Você pode ter um divórcio quando quiser, nos termos que preferir...
— E você adoraria, não? — ele cortou com súbita hostilidade.
Lily sentiu a cabeça latejar novamente. Cansada, desistiu de tentar convencê-lo com argumentos lógicos. Conversar com James não era como falar com qualquer outra pessoa. Um simples diálogo assumia as proporções de um enorme exercício mental temperado por obstáculos quase intransponíveis e incompreensíveis explosões temperamentais.
— Por que não nos separamos? — ela suspirou. — Posso morar perto daqui, e você iria visitar Nicky sempre que quisesse.
— Não.
— Por que não? Essa casa é tão grande que já vivemos como se estivéssemos separados!
— Uma situação que pretendo retificar. Na verdade, acho que vai sentir-se menos perturbada quando tiver seu próprio filho.
— Meu... Filho?
— Por que não?
— Posso pensar em centenas de razões!
— Pois eu não consigo imaginar nenhuma. Está obcecada por Nicky, e isso não é saudável. Para você, o mundo não existe além da porta do quarto dele.
— E por que isso o incomoda tanto?
James suspirou com impaciência e aproximou-se determinado, puxando as cobertas de sobre seu corpo.
— James! — ela assustou-se.
Mãos poderosas a ergueram do colchão.
— Esta noite você vai cuidar de sua dor de cabeça em minha cama. E é melhor acostumar-se, porque vai passar a dormir lá.
— Ponha-me no chão! — Lily exigiu furiosa. — Você enlouqueceu?
James seguiu em frente, sem sequer dar-se ao trabalho de responder. Lily debatia-se, tentando obrigá-lo a soltá-la.
— Você é maluco! Ofereço a possibilidade de livrar-se de mim através de um divórcio e você enlouquece!
— Então reparou? Ótimo! Já está começando a me conhecer. — ele riu, abrindo a porta do quarto com o pé.
James a colocou sobre a cama e ela levantou-se imediatamente, mas sua tentativa de fuga foi bloqueada por um peito musculoso.
— Saia do meu caminho — Lily exigiu assustada, ajeitando a alça da camisola fina e transparente.
O movimento foi um engano. Atraído pelo gesto, James fitou-a com interesse e retrocedeu um passo para trancar a porta.
— Como pode ser tão infantil? — ela irritou-se.
— Não tenho a menor intenção de divertir nossos empregados perseguindo-a pelo castelo. Por que não vai para a cama?
— Porque me recuso a dormir com você!
— Já disse que vai passar a dormir em minha cama a partir de hoje.
Lily ergueu os ombros. Reconhecer a atração não a obrigava a curvar-se diante do vergonhoso desejo. Prometera a si mesma que jamais o deixaria usá-la novamente, e pretendia cumprir a promessa.
— Não sou o tipo de mulher que atende a um estalar de dedos.
— Então permita-me explicar qual é sua posição — James respondeu com tom perigosamente contido. — Se não for para a cama imediatamente, arrancarei sua camisola e farei exatamente o que estou ardendo por fazer... E repetirei tantas vezes, que não terá forças para levantar-se por pelo menos vinte e quatro horas. Por outro lado, se for deitar-se, tentarei respeitar sua dor de cabeça.
Lily meteu-se entre as cobertas sem dizer mais nada. Dócil como um cordeiro, reconheceu furiosa, sabendo que o heroísmo não teria trazido consequências favoráveis. Teria sofrido mais uma humilhação. Sexo sem afeto era uma prática que não pretendia adotar em bases regulares.
James tocou-a alguns minutos depois.
— Não faça isso! — ela protestou encolhendo-se.
— Se não calar a boca, juro que esquecerei o que prometi — ele sussurrou, puxando-a de encontro ao corpo excitado.
Lily parou de respirar, certa de que ele não estava brincando. Quente como se estivesse cercada pelo fogo do inferno, ela deixou-se envolver pelos braços musculosos e buscou consolo na escuridão.
— Se não parar de se mexer, é melhor começar a rezar...
Imóvel, quase sem respirar, Lily tentou lutar contra o calor que corria por suas veias. Não conseguia compreender James Potter. E, para uma mulher que fazia questão de saber sempre em que terreno estava pisando, esta era uma admissão assustadora.
N/A: Oooooi pessoas! Aqui está mais um cap fresquinho pra vocês :D
Espero que gostem!
xx
AdlaPoynter ;*
