CAPÍTULO VIII

Na manhã seguinte, alguém puxou as cobertas e Lily sentiu o impacto do ar frio. Assustada, abriu os olhos e viu James totalmente vestido num terno escuro e bem cortado.

— Que horas são?

— Sete. E como uma boa esposa, vai levantar-se e tomar café comigo — ele avisou, tirando-a da cama e empurrando-a para a frente do espelho da penteadeira. — Penteie os cabelos, lave o rosto e desça.

Arrepiando-se de frio e atordoada com o despertar abrupto, Lily balançou a cabeça numa tentativa de clarear as idéias. Gostava de acordar lentamente, em silêncio e na penumbra.

— Não costuma sair da cama à esta hora, não é? — James sorriu, colocando a escova de cabelos em sua mão.

— Não tenho um robe.

— Use o meu — ele sugeriu, segurando a peça de roupa para que ela a vestisse. Dedicado, ele amarrou a faixa em torno de sua cintura e dobrou as mangas.

— Estou ridícula.

— Quem se importa?

Empurrada para o banheiro, Lily gemeu. Não dormira quase nada, e agora a tortura começava ao romper do dia. Qual era o problema com James? Haveria uma espécie de gene da insanidade entre os Potter? Já não havia lhe dado aquilo que ele dissera querer? Não o deixara em paz, não se colocara fora de seu caminho? A maioria dos maridos infiéis morreria por essa liberdade. Por que James começava subitamente a exigir que ela fizesse coisas típicas de uma esposa, como dividir a cama e a mesa do café?

— Não estarei em casa esta noite — ele informou.

Lily não se abalou. Na verdade, gostaria de saber por que ele estava tendo o trabalho de avisá-la.

— Estarei em Genebra até amanhã. O silêncio prolongou-se.

— Tem algum interesse em meus movimentos? — James perguntou em voz baixa.

Nenhum. Não se permitiria esse tipo de interesse. Queria pensar em James como o tio de Ed, não como seu marido. Na verdade, recusava-se a pensar nele nesse papel.

— Quer que eu tenha algum interesse? — ela devolveu, os olhos verdes inexpressivos.

James encarou-a por alguns instantes. Em seguida suspirou e balançou a cabeça.

— Até amanhã.

— James... — Lily chamou, disposta a fazer a pergunta que bailava em sua mente há dias. — Quando Damon pretende vir ver Nicky?

— Ele tem toda a liberdade para vir quando quiser — James respondeu, sem ocultar a surpresa. — Eu o convidei para uma visita no dia em que nos casamos.

— E por que ele não vem? Por minha causa?

— Não sei. É evidente que não será um encontro muito fácil para nenhum de vocês. De qualquer maneira, um pouco mais de honestidade de sua parte poderia simplificar a situação.

— De minha parte?

— Estou preparado para aceitar que não sabia sobre o casamento de Damon. Mas não acredito que ele tenha pedido a mão de sua irmã...

— Mas ele pediu!

— Ou — James prosseguiu — que a tenha deixado sem meios de sobrevivência.

— Pois foi o que ele fez.

— Não acredito. O dinheiro seria a maneira mais rápida e fácil dele apaziguar a própria consciência. Damon sabia que o cheque que eu assinei nunca foi descontado. Quando decidir reconhecer a verdade sobre esse caso, talvez eu comece a pensar que chegou o momento de encorajar uma visita de meu irmão.

— Não estou mentindo — Lily insistiu irritada, sabendo que não conseguiria convencê-lo de sua inocência sem apresentar provas. E por que isso a incomodava? Seria por que a opinião dele importava? A resposta afirmativa a abalou profundamente.

— Estou disposto a fazer certos sacrifícios pelo bem de Nicky.

— Sacrifícios? — ela repetiu sem entender.

— Sou obrigado a admitir que ama aquela criança de verdade, e reconheço que será uma mãe melhor do que qualquer outra mulher com quem eu pudesse ter me casado. Por isso, decidi fazer tudo que estiver ao meu alcance para fazer esse casamento dar certo.

— Posso imaginar. Você até jantou em casa ontem à noite! — Lily comentou com sarcasmo.

— Espero que contribua com o mesmo tipo de esforço — ele concluiu, ignorando a provocação.

— Não nos seus termos.

— É assim, ou não é.

Lily sabia que não sobreviveria às condições impostas por James. Ele estava dizendo que pretendia tê-la em sua cama definitivamente. Um gesto magnífico, um sacrifício incomensurável! Estava disposto a aceitá-la como sua esposa. Lily podia entender a raiva e indignação que a invadiam, mas... Por que a dor?

— Não posso aceitar seus termos — ela sussurrou.

Partilhar de sua cama e entregar-se ao desejo sem amor, respeito ou fidelidade acabaria com o respeito que tinha por si mesma. A humilhação não seria aplacada nem por uma possível gravidez. A amargura e o ressentimento acabariam triunfando, e nenhum dos dois poderia ser feliz em tais circunstâncias.

— Se não aceitar meus termos, pedirei o divórcio. Lily o encarou arrasada. James encarou-a de volta, impassível. — E tomarei todas as providências para que Nicky fique comigo — ele completou.

— Não pode fazer isso!

— Como você mesma disse certa vez, o dinheiro fala alto. E de acordo com o acordo pré-nupcial que assinou, não terá direito a absolutamente nada.

Jamais sonhara que James pudesse ser tão cruel, e estava realmente perplexa com o emprego de táticas tão baixas. Ele atacava sua maior fraqueza sem nenhum remorso! Sabia o quanto amava Nicky, e estava usando esse sentimento como uma marreta para esmagar uma noz. Tentando entender o motivo de tanta insistência para tê-la em sua cama, Lily lembrou-se do que ele dissera sobre o futuro.

— Se quer ter filhos, podemos usar um método de inseminação artificial.

— Está tentando me dizer que devo usar um laboratório para engravidá-la?

— Seria uma solução para conservarmos os termos originais de nosso casamento.

— Deve estar maluca para sugerir esse tipo de coisa!

— James... Se pudesse abrir mão desse machismo e discutir o assunto com um mínimo de bom senso, compreenderia que essa é a melhor solução para o problema.

James adiantou-se e segurou-a pelos ombros como se pretendesse sacudi-la.

— Meus filhos não serão concebidos num tubo de ensaio, e isso não tem nada a ver com meu machismo. Quando abordou esse assunto, pensei que estivesse brincando.

Temendo que ele partisse para a agressão física, Lily encarou-o com aparente frieza, apesar da agitação que crescia em seu interior.

— Não quero dormir com você — ela afirmou. — Não estou preparada para esse sacrifício.

— Sua... Víbora! — James explodiu, fitando-a com um brilho furioso nos olhos.

— Não sei por que tem de encarar tudo isso de maneira tão pessoal. Não nutrimos sentimentos um pelo outro. Não somos como outros casais.

— Pois eu tenho sentimentos muito fortes por você! — ele exclamou, arrastando-a de volta à cama. — Somos casados. Você é minha esposa, e quero fazer amor agora!

— Tenha certeza de que, se alguma coisa acontecer nesta cama, será estupro!

James abriu o robe que ela vestira sobre a camisola como se não a escutasse.

— Jamais o perdoarei se fizer isso, James!

— Não... — ele sorriu. — Não perdoará a si mesma. As únicas coisas entre nós são seu orgulho e sua necessidade de manter o controle. E em minha cama você perde o controle.

Assustada com seu poder de percepção, Lily encarou-o com olhos brilhantes.

— Odeio você!

Ele empurrou o robe sobre seus ombros.

— Não acredito. Acho que está assustada com a intensidade do seu desejo por mim.

— Isso é o que gostaria de acreditar...

— Essa é a verdade — James insistiu, tirando o paletó e jogando-o no chão antes de afrouxar a gravata. — Você me excita, Lily. Não pode esperar que eu não tenha percebido que também me quer.

— Não quero!

— Nossa noite de núpcias foi inesquecivelmente erótica — James lembrou enquanto despia a camisa. — Não consegui pensar em outra coisa durante as duas semanas seguintes. Na verdade, só preciso pensar em como é estar dentro de você e...

— Cale a boca!

James sorriu, a irritação banida pela luxúria.

— E a surpresa de encontrar uma mulher de sua idade tão tímida e inocente foi encantadora. Por que ainda era virgem?

— Porque tomei o cuidado de manter-me longe de suínos como você!

— Acho que estava esperando por mim. Sabia que eu faria parte de seu futuro.

— Se eu soubesse, teria entrado em seu escritório com uma metralhadora.

— E eu teria me sentido ainda mais atraído. Durante toda minha vida, as mulheres não pouparam esforços para agradar-me. Fui perseguido, encorajado e adulado por todas as garotas que conheci, desde os quinze anos de idade.

— Seu porco convencido!

— Então você apareceu e fui desafiado pela primeira vez. Acredite, foi um grande desafio manter minhas mãos longe de você até a noite de núpcias. Não queria que desistisse. Por isso desapareci nas três semanas que antecederam o casamento. Passei noites imaginando como seria possuí-la, mas a realidade superou todas as fantasias.

— James, não... — ela murmurou, vendo-o deslizar o zíper da calça.

O telefone começou a tocar e ele tirou o fone do gancho sem soltá-la.

— Tire as mãos de mim!

— Precisei de algumas semanas para habituar-me à idéia do casamento — ele prosseguiu, como se não a escutasse. — Algumas semanas para perceber que minha esposa era a amante perfeita. Alguns ajustes mentais... E aqui estou eu. Descobri que não suporto ser ignorado, sabe?

Lily não sabia sobre o que ele estava falando. Parecia estar sugerindo que evitá-lo havia sido parte de um plano bem traçado para atraí-lo. Prestes a esclarecer mais esse mal entendido, ela entreabriu os lábios e James aproveitou o momento para beijá-la.

O beijo provocou uma reação intensa que Lily tentou ignorar, agarrando-se à imagem dela grávida e infeliz, enquanto ele era perseguido, adulado e encorajado por outras mulheres.

Virando a cabeça, ela disparou:

— Não quero ficar grávida!

— Concordo — ele sorriu. — Pelo menos por um ano. Não quero ter de interromper... Isto — e beijou-a novamente, desta vez de forma ainda mais íntima e provocante.

Lily estremeceu, invadida por um calor incontrolável. Se fosse capaz de ficar inerte como uma boneca, James a deixaria em paz. E queria que ele a deixasse em paz, não?

Uma das mãos estava em seus cabelos, a outra sobre um ombro musculoso, e não sabia como elas haviam ido parar onde estavam. Queria tocá-lo, queria tanto estar em seus braços, que a idéia de afastar-se era como uma dor física.

James despiu-se completamente, deitou-se de costas e abriu os braços.

— Venha — chamou.

E Lily obedeceu.

James esperava rendição incondicional. Sabia disso, odiava seu tom autoritário, mas sentia-se incapaz de lutar. As mãos dele viajavam por seu corpo numa exploração lenta e audaciosa, e os lábios a atormentavam com o tipo de experiência erótica contra a qual era indefesa.

As necessidades de seu próprio corpo a empurraram por um caminho sem volta, uma estrada cujo final guardava a mais rica e completa das experiências. E Lily entregou-se às deliciosas sensações despertadas pelas mãos de James, embriagada pela paixão.

Ele fazia amor como se não houvesse amanhã, e cada vez que encontrava o clímax, a satisfação era ainda maior e mais completa...

Lily acordou sem saber sequer que dia era. Cinco horas na cama com James eram suficientes para acabar com suas certezas. Tinha uma vaga lembrança de tê-lo visto vestindo-se antes de adormecer. Vestira-se apressado, mas reservara alguns instantes para apreciar a fêmea satisfeita deitada em sua cama.

Lily encolheu-se. James saíra do quarto com passos firmes, revigorado pela sessão de amor, e ela retribuíra seu sorriso com a certeza de ser a mais feliz e abençoada dentre todas as mulheres.

O desejo destruíra sua inteligência. E não podia mais atribuir sua reação intensa a uma experiência de adolescente. Não era tão simples. Estava apaixonando-se por James, e tão rapidamente que já podia ver a devastação e a infelicidade no fim do caminho.

Agora sabia por que se sentira tão ferida quando ele a chamara de mentirosa. Sabia por que não fora capaz de combatê-lo. Num nível profundo e inconsciente, já o queria a ponto de aceitar qualquer coisa. Quando e como havia acontecido? Como pudera apaixonar-se por um homem como James Potter, a antítese de tudo que admirava no sexo oposto?

Mas ele era fantástico na cama, e agora Lily teria de conviver com essa nova e desconhecida faceta de sua personalidade, esse lado sexualmente intenso que era despertado pela simples presença de James. Talvez não fosse amor, mas uma simples atração física. O que sabia sobre o amor? Nada. Uma intensa paixão aos dezesseis anos, e depois o mais completo deserto emocional. Não, não era amor. Apenas seus hormônios entrando em erupção após um longo período de dormência.

Lily levantou-se da cama e sentiu o corpo todo doer. James era um maníaco, e a tratava como uma dessas garotas loucas por sexo. Casara-se com ela contra sua vontade e depois a informara de que seria a amante perfeita! Cada movimento que fazia era distorcido por seu ego super desenvolvido. James era tão primitivo, tão elementar, que devia estar extinto!

Mas ele a queria... Sim, ele a desejava, e a desejaria enquanto não percebesse que deixara de ser um desafio. Se deixasse de fazer oposição às suas investidas, perderia o sabor de novidade e passaria a fazer parte da interminável lista de conquistas do passado. Ser casada com James, agora percebia, era como ter um caso.

Estava saindo do quarto de Nicky quando Claudine e Henri, o valete inexpressivo de James, surgiram.

— Encomenda especial, madame — ele informou, estendendo um pacote em sua direção.

— Para mim? — Lily estranhou, rasgando o papel dourado que escondia uma caixa de veludo negro. Ela abriu o fecho brilhante, arregalando os olhos ao ler o cartão preenchido pela inconfundível letra de James. "Pelas cinco horas mais fantásticas que já vivi... Também posso ser romântico."

Sob o cartão havia um lindo colar de diamantes. Lily sentiu os olhos queimarem. Também podia ser romântico... O diabo que podia, ela pensou com amargura e ressentimento. O que havia de romântico em ser recompensada por tê-lo satisfeito na cama? Ele não sabia ser romântico, simplesmente porque nunca tivera de preocu par-se com isso.

Consciente dos olhares curiosos e dos pescoços esticados, Lily guardou o cartão no bolso e virou a caixa para que os criados pudessem admirar a jóia.

— Oh! — Claudine murmurou extasiada.

— Magnífica! — Henri comentou com ar impressionado.

— Deixe-me ajudá-la, madame — Claudine ofereceu.

Um minuto depois Lily tinha os diamantes em torno do pescoço. Tudo pelas aparências. Felizmente a audiência cansou-se rapidamente de admirá-la e, aliviada, ela voltou para perto do berço de Nicky.

— Ele não só é incapaz de ser romântico, como também é insensível. E como se estivesse pagando, entende? James devia ter mandado flores, ou um bilhete com algumas palavras doces...

Meia hora mais tarde, Lily havia terminado de retocar a maquiagem borrada pelas lágrimas quando Henri anunciou uma visita. Madame du Pré.

A mulher que atravessou o salão em sua direção a fez perder o fôlego. Muito alta e esguia, os cabelos negros presos à moda das bailarinas, as roupas elegantes... Não só era bonita, como evidentemente requintada. Um sorriso polido distendeu seus lábios finos quando ela estendeu a mão pálida.

— Sou Elise. Espero poder chamá-la de Lily.

— Elise—Lily repetiu perturbada. — Por favor, sente-se.

— Vejo que não se sente em condições de receber visitas. Lamento incomodá-la num momento tão inoportuno.

— Oh, eu almocei há horas — Lily respondeu, incapaz de compreender por que não estaria em condições de receber uma visita.

— Nós duas sabemos que não estou me referindo à hora do dia. Conheço James há tanto tempo que considero-me uma amiga da família — ela suspirou, acomodan do-se numa das poltronas. — Não fosse por isso, não teria vindo até aqui para oferecer ajuda.

— Desculpe... — Lily respondeu confusa, sentando-se diante dela. — Sua ajuda?

— Odiaria que considerasse esta minha visita um ato de invasão.

— Oh, não, você é muito bem-vinda.

— Obrigada. Se ao menos houvéssemos nos conhecido em circunstâncias mais amenas... Desculpe se sou rude, mas sei a que tipo de tratamento James a está submetendo. Deve estar se sentindo sozinha, isolada, humilhada...

— Devo?

— Lily — Elise sorriu com ar piedoso. — Paris inteira está lendo a notícia ultrajante nas colunas sociais. Não precisa fingir para salvar as aparências, querida. Estou aqui para oferecer minha amizade e ajudar no que for possível. Os jornais têm se comportado de forma atroz, mas James procurou toda essa publicidade quando desonrou o nome da família.

Lily não tinha idéia do que Elise estava dizendo. Jornais? Não havia lido um deles desde o dia do casamento. Normalmente preferia os noticiários da televisão, e por isso não percebera a ausência de um informativo diário. James procurara publicidade... notícia ultrajante?

— Sim, acho que tem razão — ela sorriu, tentando esconder a própria ignorância.

— Ele devia ter sido mais discreto. Sei que oferecer conselhos pode parecer arrogante...

— Não, eu adoraria contar com seus conselhos.

— Diga a James que não vai suportar esse tipo de comportamento. Ele pode ter preferido manter o casamento fora dos noticiários, mas é evidente que toda a sociedade sabe sobre o enlace. Aparecer com uma variedade de mulheres diferentes em locais públicos é o mesmo que pedir a atenção da mídia.

Mulheres diferentes... Locais públicos... Atenção da mí dia... As frases chaves brilhavam na escuridão de sua perplexidade.

— Estou surpresa. Não imaginava que James pudesse descer tanto.

— Pois eu não me surpreendo — Lily respondeu subitamente firme.

Elise encarou-a com ar preocupado.

— Estou disposta a conversar com ele em seu nome e chamá-lo à razão.

— E muita gentileza sua, mas não preciso desse tipo de ajuda. — Lily levantou-se e ofereceu um sorriso frio. — Foi um prazer conhecê-la, Elise. Vivien havia dito que eu ficaria impressionada, e devo admitir que ela estava certa.

Elise levantou-se, a pele pálida tingida por um intenso rubor.

— Mas eu...

— Henri! — Lily chamou, certa de que ele estava em algum lugar próximo.

— Receio tê-la ofendido — Elise comentou, parecendo desanimada.

— Ah, Henri! Por favor, acompanhe Madame du Pré até a porta.

— James ficará furioso quando souber disso...

— Acho que não.

Tremendo violentamente, Lily viu Elise sair de cabeça erguida, a imagem da dignidade ofendida. Assim que Henri retornou, ela exigiu:

— Quero ver os jornais das duas últimas semanas. O valete empalideceu.

— Todos, madame?

— Acho que sabe quais são os mais importantes — ela respondeu, virando-se para esconder a perturbação que sabia estar estampada em seu rosto.

Todos sabiam... Todos, menos ela. Por isso Vivien gritara com James. E James supunha que ela também soubesse. Agora entendia o que ele tentara dizer com aquela his tória de sentir-se desafiado, de não suportar ser ignorado.

Claudine trouxe os jornais e saiu em seguida. Todos os empregados lamentavam a sorte da pobre noiva, traída menos de vinte e quatro horas depois do casamento!

A primeira foto mostrava James jantando com uma loira; na segunda ele dançava com uma morena. Lily parou, incapaz de olhar as fotos seguintes. Estava ultrajada, tomada pela dor. James a forçara a entregar-se na noite de núpcias e depois a expusera ao ridículo saindo com outras mulheres. Prevenira-a sobre a necessidade de ser humilde para permanecer casada com ele, e não havia exagerado.

Atônita, ficou sentada com os olhos perdidos na distância, invadida por um sentimento de traição tão poderoso que era como se nada mais existisse.

Henri aproximou-se alguns minutos depois para avisar que havia um telefonema para ela. Era Vivien. Sentia-se sozinha em seu apartamento e adoraria recebê-la para jantar.

— Ótima idéia — Lily respondeu atordoada.

Uma hora mais tarde Henri apareceu novamente, e desta vez estendeu o telefone como se fosse uma arma ofensiva.

— O senhor Potter — disse.

Lily apanhou o aparelho com um gesto brusco, tomada pelo ódio.

— Como vai? — James perguntou com tom íntimo.

— Pior impossível!

— Não sei se entendi...

— Esta tarde vi meu primeiro jornal em treze dias. Foi realmente... Impressionante!

— Então não sabia? — James perguntou surpreso.

— Parece que eu era a única a ignorar, não?

— Posso explicar.

— O que Vivien fez com seu pai não foi nada comparado ao que sou capaz de fazer!

— Estou indo para casa...

— Não estarei aqui — ela avisou. — Esta noite irei à cidade. Se quer guerra, vai ter guerra. Você pode dançar ate a madrugada? Eu também posso! Pode dormir em camas variadas? Eu também. Não há nada que possa fazer que eu não seja capaz de retribuir, seu... Seu... O nome Potter será um apelido para as mulheres da noite. Estará de joelhos, implorando pelo divórcio, antes de eu terminar o que pretendo fazer!

— Se for à cidade... Se tiver a ousadia de sair...

Lily desligou. Jantar com a sogra... Não era um programa adorável? Especialmente se, durante a sobremesa, pudesse ter certeza do desespero de James.

E então ela surpreendeu-se com as próprias lágrimas, o ódio dando lugar à mais profunda infelicidade que jamais experimentara. Deus, por que havia dito todas aquelas coisas idiotas e infantis? Por que descera ao nível dele? Porque quisera feri-lo... porque amava o cretino! E como podia amar alguém assim? Como uma mulher em sã consciência podia amar um monstro?


N/A: Ooi pessoas! E então, o que estão achando? James é um cafajeste, não é? Mas que cafajeste lindo, amagad.

Espero que estejam gostando!

xoxo AdlaPoynter ;*