Disclaimer: personagens e lugares pertencem a JK Rowling e à Warner Brothers, excepto aqueles criados por mim. Fanfiction escrita sem fins lucrativos.

Baseada no filme de 1991 O Pai da Noiva, com Steve Martin e Diane Keaton. Quaisquer semelhanças com o argumento são mais que meras coincidências.

Produção: Agosto 2010 – Abril 2011

Avisos: fanfiction apropriada para todos

Spoilers: DH

Sumário: Rose Weasley regressa a casa com uma notícia surpreendente: ela vai casar! Mas a notícia, aparentemente feliz, promete fazer estragos no coração de uma das pessoas que ela mais ama…


N/A: mais uma vez, lamento imenso os mais de dois meses de espera. Como já toda a gente se deve ter apercebido, as minhas aulas já começaram e o tempo… nem vê-lo, não é? Queria agradecer as reviews e os favoritos, muito obrigado por todo o vosso apoio, e espero que esteja tudo bem com vocês. Até à próxima! ^^

Erros de digitação, pontuação, conjugação verbal e demais ofensas à língua portuguesa são culpa minha e peço perdão pelos mesmos. A minha beta tirou férias e eu fiz o meu melhor, mas às vezes isso não é suficiente.


O PAI DA NOIVA

CAPÍTULO IV: Os Malfoys

À medida que o tempo passava, os sintomas iam piorando. O nó na garganta apertava e não me deixava respirar. O peso no peito tornara-se um fiel companheiro de todos os dias. Tinha suores frios de cada vez que ouvia a palavra "casamento". Estava a entrar em pânico, tinha a certeza.

Ou, considerando que nas últimas noites sonho sempre com o momento em que levo a Rose ao altar e ela é raptada a meio por um monstruoso dragão, talvez esteja apenas a ficar maluco, não sei, nunca soube diferenciar muito bem os dois.

Enquanto isso, esta união torna-se cada vez mais real. As respostas dos convidados não se fizeram esperar e em breve a Rose já não tinha mãos a medir para todas as confirmações. Infelizmente, toda a família do Scorpius decidiu marcar presença, arruinando assim as minhas derradeiras esperanças de ter pelo menos um deles a boicotar com sucesso o casamento.

Depois de confirmado o número de pessoas, veio uma nova dor de cabeça: onde realizar o copo-de-água. Rose expôs as suas dúvidas durante o almoço de Domingo na Toca, onde teria muitas sugestões de muitas cabeças diferentes e, claro, os miúdos nunca mais se calaram, tão entusiasmados andam eles com a ideia de ela ir alterar o seu estado civil.

Assim:

- Hugo sugeriu que o casamento fosse feito em nossa casa, ao qual Hermione logo torceu o nariz, não por termos problemas de espaço (mas nós vivemos nalguma mansão ou quê?) mas porque não estava para juntar tantos feiticeiros debaixo do nariz de Mrs. Holloway;

- Albus ofereceu então a sua casa – Harry engasgou-se no seu brande ao ouvir esta parte – na qualidade de padrinho dedicado, mas Ginny imediatamente o fez ver que Grimmauld Place não era exactamente o lugar mais apropriado para uma festa de casamento (e a casa deles é maior do que a nossa, ouviste, Hermione?) e a questão acabou por morrer ali, deixando Albus amuado;

- James achou então o momento apropriado para dizer as suas piadinhas e perguntou-lhe porque é que não se casava em Hogwarts, porque se os campos da escola ainda hoje eram palco para grandes comemorações na certa não iria haver problemas para lá se realizar o casamento de dois dos melhores alunos dos últimos anos. Claro que ninguém se dignou a responder-lhe;

- Jayden, que também lá fora almoçar naquele dia, aproveitou a onda para perguntar à mãe se ela não estaria disposta a organizar mais um casamento, ao qual Hannah imediatamente respondeu que o Caldeirão Escoante estava interessado em continuar a apostar nas festas de família e que Rose e Scorpius seriam sempre muito bem-vindos ao seu bar. Do outro lado da mesa, eu só pensava no pobre do Neville a beber metade de uma garrafa de Whisky de Fogo sempre que havia festa, porque a verdade é que isto é tudo muito bonito mas Hannah não tem propriamente o sistema nervoso mais apropriado para lidar com estas situações regularmente;

- Foi então que falou a Rose, agradecendo imenso a toda a gente e pedindo imensas desculpas, confessando que, uma vez que o casamento ia acontecer no Verão, preferia um local ao ar livre, onde as pessoas pudessem andar à vontade sem estarem fechadas dentro de quatro paredes;

- Nesse momento, Lucy lembrou-se de sugerir a Toca porque, afinal, não seriam os primeiros a casar aqui (e eu bem sei que os miúdos adorariam ver a casa dos avós arranjada para a festa, só espero que eles se divirtam tanto a limpá-la como eu me diverti na altura!). Mas aí interrompeu o meu pai, dizendo que já não tinha cabeça para fandangos na sua própria casa, quando eu sabia perfeitamente que o que ele queria mesmo dizer é que só por cima do seu cadáver é que teria o Lucius Malfoy a transpor a soleira da sua porta sem uma varinha apontada ao meio dos olhos em tom de ameaça;

- Depois foi a vez de Roxanne perguntar se o Scorpius não teria voto na matéria, afinal ele é que vivia numa mansão (numa mansão! Percebeste agora ou queres que te faça um desenho, Hermione?), podia querer fazer o casamento na casa dele. Desta vez fui eu quem lhe cortou as bases, argumentando muito simplesmente que não me parecia uma boa ideia – e lá foi escorrido mais um copo de vinho. Roxanne ainda olhou para mim, talvez à espera que eu me explicasse melhor, mas não valia a pena assustá-los com as coisas horrorosas que aconteceram naquela casa. Ela acabou por olhar para o pai, que rodou um dedo contra a têmpora direita, encolheu os ombros e juntou-se ao clube de renegados.

Então, o ambiente não era dos melhores, com a Rose sem saber onde casar, os miúdos amuados por não a terem podido ajudar e a Hermione a dar-me cotoveladas e a fazer-me sinais, apesar de eu não compreender o que é que ela queria.

E depois Louis falou lá do seu canto, perguntando à minha filha se ela já considerara um casamento na praia e comentando que a Casa das Conchas estava situada num local muito bonito e apropriado. Nesse momento apareceu Victoire, que estivera lá para cima a adormecer a filha, e só ouviu as últimas palavras. Abraçou-se logo à prima com palavras de encorajamento – "Oh Rosie, vais casar na nossa praia? Que sítio tão lindo para um dia tão maravilhoso!" – que a deixaram muito mais animada.

Quando regressámos a casa estava decidido: Rose e Scorpius vão casar nos arredores de Tinworth, junto à Casa das Conchas, e Bill e Fleur voluntariaram-se para ajudar em tudo o que for preciso.

Só dois dias depois é que Hermione voltou a tocar no assunto que tínhamos deixado pendente na Toca:

- Olha lá, afinal qual era o teu problema com a ideia de o casamento da Rose ser na Mansão Malfoy?

- Hermione!

Estávamos em plena Sarjas e Rendas à procura de uma gravata para eu levar ao casamento, a loja estava apinhada de gente, uma velhota atrevida não parava de nos piscar o olho por entre as prateleiras de camisolas de lã e ela põe-se a comentar em alto e bom som o facto de a nossa filha ir casar. Com o filho do Malfoy, nem mais!

- Estás louca, mulher? – bichanei eu, rezando com todas as minhas forças para que ninguém a tivesse ouvido. – A comentar esse assunto assim em público… se a notícia chega aos jornais, vai ser o furo do ano!

- Oh! – ela encolheu os ombros e continuou a revirar gravatas. Ao fim de todos estes anos ainda não se conseguiu habituar ao lado negro da fama, e em especial à perseguição que alguns fanáticos ainda fazem aos miúdos. – Não me respondeste!

Pus de lado uma gravata horrorosa com luzinhas intermitentes.

- A minha filha não se vai casar na Mansão Malfoy – resmunguei entredentes, passando ao lado de uma outra castanho-avermelhada. – Era só o que faltava!

- Bem, problemas de espaço não teríamos nós, não era isso que te estava a deixar mais incomodado?

- Sim, o que importam os pesadelos quando temos todo o espaço do mundo? Oh, eu cá estou ansioso por voltar a entrar naqueles calabouços…

- Tu sabes muito bem que eles remodelaram a cave antes de devolverem a casa aos Malfoys!

Quero cá saber! Se pedissem a minha opinião, aquela mansão devia ter sido demolida e um orfanato devia ter sido construído no seu lugar. Mas não, porque o pobre do Draco não podia ficar a dormir na rua que nem um sem-abrigo…

- Agora a sério, Hermione – levantei a cabeça do molhe de gravatas, para as quais já nem prestava atenção, e procurei o olhar dela. – Ias mesmo querer casar a tua filha naquele sítio? Depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo o que a sádica da Bellatrix te fez? Ali?

Ela não responde enquanto avança até mim e passa uma gravata azul-escura em torno do meu pescoço. Finge-se despreocupada quando eu sei que por dentro ela está a tremer e quase posso jurar que o braço onde a cicatriz daquele Sangue de Lama ainda permanece perde um pouco a mobilidade enquanto faz o nó. (*)

- Só acho que – diz Hermione após um período de silêncio. – seria uma boa oportunidade para superar o que aconteceu.

- E se eu não quiser superá-lo?

Nunca me irei conseguir esquecer dos gritos dela a ecoar nos calabouços. Ou do facto que os Malfoys estavam lá e nada fizeram para o evitar. Ainda tenho a marca das suas unhas cravadas no meu braço de quando fugimos daquele Inferno. Portanto ela que não me venha com palavrinhas bonitas… eu nunca irei superar o que aconteceu naquela casa.

- Isto não é sobre aquilo que tu queres, é sobre aquilo que a Rose quer! E ela só quer ser feliz com o Scorpius!

- E então? Até parece que a estou a impedir de fazer alguma coisa! Estou a esforçar-me para lhe dar aquilo que ela quer…

- Pois esforça-te mais, Ron, porque não estás a ser nada bem sucedido! – as últimas palavras saíram-lhe quase num sopro. Se estivéssemos em casa já estaríamos a atirar pratos um ao outro, mas a última coisa que queríamos era fazer um escândalo em público. – E não gosto de nenhuma gravata!

- Pois, eu também não! – que era a nossa maneira de dizer "vamos mas é parar por aqui antes que as coisas fiquem feias" e ir cada um para seu lado acalmar-se.

Hermione nem espera por mim para sair da loja. Não percebo porque está ela tão zangada com tudo isto. Também estou a tentar protegê-la a ela, não sei se já reparou nesse pequeno pormenor! Que raio… vá eu alguma vez entender as mulheres!

A velhota que nos perseguia desde que entrámos na Sarjas e Rendas acenou-me entusiasticamente enquanto me dirigia para a saída mas, pela primeira vez, não senti o impulso de lhe responder de volta.

Não sou nenhum herói.

Pelo menos não agora.


Nunca tinha visto tanta gente junta na Casa das Conchas! No início ainda tentei contar cabeças mas desisti aos vinte e cinco. E não vieram todos os convidados do casamento. Imagino quando chegar o dia…

Realmente, não percebo por que tanto discutiu a Rose com a mãe e as avós porque queria uma coisa pequena. Não vejo nada de "pequeno" nisto!

De qualquer maneira, ela por aí anda, de sorriso no rosto e em alegre galhofa com toda a gente. Ainda bem que já lhe passou a neura desta manhã – eu sei que é frustrante fazer sol toda a semana e estar nevoeiro no dia do ensaio mas a culpa não é minha, bolas! – porque hoje não teria paciência para aturar as suas más-disposições, que têm sido frequentes nos últimos dias. Parece que adorou o feiticeiro que vai celebrar a boda e está farta de gabar toda a gente.

Por outras palavras, está feliz.

Bom, pelo menos mais feliz do que o Scorpius anda de certeza! Ele parece estar por fim a compreender as implicâncias de se casar com uma Weasley porque hoje não me tem só a mim para o manter debaixo de olho: o Bill não se afasta mais de dois metros dele, o Harry está farto de discursar bem alto sobre as maravilhas da abstinência e quase posso jurar que foi o George quem "acidentalmente" deixou o Scorpius cor de laranja, apesar de ele ter culpado o próprio filho (que entretanto, "acidentalmente", deixou cair duas colheres de pimenta no seu jantar). O Percy não estava propriamente dentro do nosso pacto de irmãos, mas uma vez que ficou três horas a falar sobre o vazamento de caldeirões após o Scorpius lhe perguntar como estava o trabalho penso que também cumpriu a sua parte.

A Hermione acaba de passar por mim. Diz-me "Está a ser muito bom, não está?" e depois, quando já se está a afastar, "E por favor, diz aos teus irmãos para deixarem o miúdo em paz!", o que me leva a concluir que nenhum plano secreto é suficientemente secreto quando Mrs. Hermione Weasley está presente. Sorri-lhe em resposta ("Claro, amor!") e depois olhei para George, que estava parado com as mãos atrás das costas a uns passos de distância. Ele devolveu-me o olhar como que à espera de novas ordens.

Polegar para cima ("Continuem, estão a fazer um óptimo trabalho!").

Ele encolheu-me os ombros com uma expressão sonhadora ("Farias o mesmo por mim, maninho!")

Tenho de confessar, contudo, que o ensaio até podia estar a correr pior. Aliás, para ser sincero, acho até que está a correr muito bem. É verdade que o Bill e o Percy já tiveram de pescar o tal primo do Scorpius que é filho do Bletchley do mar, mas foi o único momento inquietante do dia. Aparentemente, segundo a conversa que ouvi entre o James e o Freddie, o rapaz – que parece ser oficialmente o membro da família que já nasceu sem quaisquer parafusos naquela cabeça – atirou-se às ondas sem saber nadar para se armar à Roxanne, o que entretanto me levou a pedir a Merlin que a minha sobrinha tenha mais juízo que a prima.

Ok, pronto, foram dois momentos inquietantes.

De resto… bom, a Narcissa Malfoy mima tanto o Scorpius como o Draco. O Lucius não veio; a desculpa foi que não se estava a sentir muito bem (imagino o porquê!) e quase posso jurar que a urgência do meu pai em ir à casa de banho ao ouvir a notícia foi para ir dar dois pulos de alegria à cozinha do Bill e da Fleur. Descobrimos que o Scorpius é primo em segundo grau do Adrian Pucey, uma das antigas estrelas dos Puddlemere United, e, não estão a perceber, os miúdos deliraram com a presença dele: fartaram-se de lhe pedir autógrafos, o Hugo até se andou a exibir na velha vassoura do Bill que anda aos solavancos, e agora ele e a Angelina estão para ali sentados há horas a discutir tácticas de jogo (a antiga equipa dela perdeu na última vez que jogou contra a dele e a Angelina nunca foi pessoa de aceitar uma derrota sem perceber os erros por detrás dela). A filha dele também veio e trouxe o pequeno dela atrelado, o mesmo bebé que está neste momento a fazer festas na cara da Dora – a qual, já agora, quase comeu as alianças de brincar que era suposto levar ao altar – bem debaixo do nariz do Teddy, que está farto de lhes tirar fotografias enquanto se gaba dos encantos da sua cria, cena que acaba de completar o meu pódio de momentos inquietantes.

E eu por ali andava, meio afastado de tudo, a observar os acontecimentos ao de longe, de mão enfiada no bolso das calças, copo de bebida na outra, pés descalços a arranhar a areia molhada da praia, e a pensar como, apesar de tudo, esta até foi uma escolha bem bonita e diferente para fazer o casamento.

Uns passos para a frente («Será que as tendas de casamento serão facilmente montadas na areia?»)… Uns passos para o lado («Bom, lá teremos nós de invadir a casa do Bill se for impossível estar na praia à noite!»)…

De repente bati em alguém e logo balbuciei um "desculpe", ainda antes de olhar bem para a pessoa com quem chocara. Para meu grande desagrado, deparei-me com Draco Malfoy a olhar-me de cima a baixo na companhia do cunhado, Miles Bletchley.

Oh não! O momento inquietante do dia!

- Ora, ora, ora! – murmurou ele, esboçando um sorriso. – Weasley!

É a primeira vez que o encontro desde que os nossos filhos anunciaram o noivado e é-me impossível não reparar que as entradas no seu cabelo estão bem mais acentuadas do que da última vez que o vi. Por dentro rejubilei de vitória e fiz figas para que ele ficasse completamente careca até ao dia do casamento.

- Malfoy! – que mais é suposto dizer ao homem que tenho evitado todo o dia?

- Sabes, estava aqui a comentar com o meu cunhado que devíamos estar muito felizes por não termos filhas – pisca o olho a Bletchley e depois ri-se antes de dizer: - Elas inibem completamente a virilidade de um homem!

Bom, se ele está a fazer referências ao facto de me ter contorcido todo no momento em que vi a Rose e o Scorpius frente ao padre, eu não estava emocionado – estava simplesmente a pensar que a cabeça empalhada do filho dele ficaria muito bem como peça decorativa na minha sala de estar!

Mas onde é que anda a Hermione quando é precisa? Olhei em redor e lá a descobri, em grande risota com a mãe do Scorpius – que tem um nome demasiado invulgar para me lembrar dele –, sem ligar nenhuma ao facto de eu ter sido encurralado pelo estúpido do Malfoy e do seu novo amigo.

- Ah, ah, ah! – ri falsamente. Costuma-se dizer que se não os podemos vencer devemos juntar-nos a eles, certo? – Sempre tão engraçado…

Um gole na bebida antes de partir para a batalha:

- Então, Malfoy… vieste!

- Obrigado pela informação, Weasley, ainda não me tinha apercebido disso sozinho! – Bletchley abanou a cabeça em desaprovação perante as palavras de Malfoy. – Não perdia isto por nada deste mundo!

- Estás a preparar-te para o grande dia? – piquei-o. – Vais levantar a mão no momento do "que fale agora ou se cale para sempre"?

- Claro que não… mas aposto que tu vais!

- Eu? – bufei após a sua insinuação. – Prepara os galeões, Malfoy!

- Ora, Weasley, admite: estás ansioso por qualquer coisinha que impeça este casamento de acontecer!

- Pff… mas tu não, queres ver…

- Não, aparentemente ainda estou em dívida para com a tua mulher! – confesso que me surpreendi com estas palavras, mas o rolar de olhos e a expressão desgostosa não me passaram despercebidos. – E segundo a Astoria (ah, é isso, Astoria! Que raio de nome é Astoria?), posso saldar grande parte dela se não levantar ondas neste casamento!

- Ah, claro! – nem sei de deva rir ou chorar da sua atitude. – É verdade, como vão os elfos domésticos?

Foi mais forte do que eu, não o consegui evitar. Imaginar Draco Malfoy trancado no antigo gabinete de Hermione a lutar pelos direitos dos elfos domésticos, depois de tudo o que fez ao último que teve, já me rendeu muitos momentos de boa-disposição.

Malfoy arreganha o lábio superior antes de me responder e imediatamente percebo que dali não vai sair coisa boa:

- Estão óptimos! – diz ele, e noto um estranho brilho no seu olhar. – Acho engraçado como o tom agudo das suas vozes e a sua mania de não conjugarem verbos não me conseguem irritar tanto quanto o som da tua voz, Weasley!

- Sabes, Malfoy – dei um gole na minha bebida e torci o nariz ao seu acre sabor. – já avisei o teu filho e agora aviso-te a ti também: à primeira vez que um de vocês pisar o risco com a minha filha, vão ter de se haver comigo!

Bletchley assobiou um "Uuuh!" baixinho, mas o outro apenas continuou a sorrir enigmaticamente perante as minhas ameaças.

- E porque é que nós é que somos os vilões? Porque somos os homens? Ou porque somos Malfoys? – nem me dignei a responder-lhe. Apetecia-me esmurrar aquela cara estúpida e sorridente! – Não te preocupes, Weasley, a tua princesinha está a salvo. Mas tu…

Começou a avançar para mim. Num ápice levei a mão livre à varinha.

- Tu vais estar em muito maus lençóis – anunciou Draco num tom de voz tão gélido quanto a cinza do seu olhar. – se te atreveres a levantar um dedo que seja contra o meu filho!

Ele não me mete medo! Os pêlos eriçados na minha nuca devem-se a uma estúpida corrente de ar!

- Eu levanto-me contra ele no momento em que ele se atrever a magoar a minha filha! – franzi a sobrancelha direita, em tom de dúvida. – Estás a dizer-me que é isso que vai acontecer?

- Oh, eu não sei, Weasley, o Scorpius não gosta que brinquem com ele. E se a tua filha anda a brincar com o seu coração…

- A Rose não anda a brincar com o coração de ninguém, o teu filho é que se quer divertir um bocado!

- O Scorpius não precisa de uma rapariga para se divertir! Mas se forem essas as intenções da tua princesa… espero que lhe tenhas ensinado que quem brinca com o fogo queima-se!

Ok, esta foi a gota de água que fez transbordar o copo: NINGUÉM ameaça a minha filha à minha frente e sobrevive para contar a história!

Puxei a varinha do bolso do manto e apontei-a ao seu delgado pescoço numa fracção de segundo, táctica na qual me especializara durante os meus trinta anos de serviço como Auror. Só não contava que Draco Malfoy tivesse tão excelentes reflexos. Engoli em seco ao sentir a ponta da sua varinha pressionar a minha maçã-de-adão.

- Hey, o que é que se passa ali?

- Ron!

- Draco!

Bletchley aproveitou a confusão para fugir para o meio da multidão que entretanto se aglomerara em nosso redor. Hermione e a tal Astoria corriam para nós, simplesmente furiosas. Draco ainda cerrou os dentes mas acabou por se recompor, afastando a varinha e deixando-me respirar livremente.

- Mas vocês são parvos ou fazem-se? – gritava Hermione para mim.

- Parecem duas criancinhas! – gritava Astoria para ele.

- Ele é que começou! – resmunguei entredentes e quase posso jurar que é a mesma desculpa que Malfoy está a usar no seu canto para acalmar a fúria da mulher.

Passei em revista os rostos que seguiam a cena com toda a atenção. O James e o Freddie riam a bom rir, a minha mãe parecia estar a invocar bom senso a todos os seus santos e Harry arrastava o queixo pelo chão.

E depois vi-a: Rose olhava para mim com uma expressão fechada e nada simpática. Pareceu-me mágoa. Pareceu-me decepção. Depois, sem mais nem menos, virou costas e atravessou a multidão, passando sem uma palavra por entre Angelina e a tia do Scorpius, desaparecendo do meu campo de visão.

Claro que o regresso a casa não foi pacífico…

- Rose! – chamei eu, correndo pelo vestíbulo até à escadaria atrás dela. – Rose! Espera aí, filha…

Ela estacou a meio, de costas para mim, durante dois segundos que pareceram uma eternidade. Depois decidiu encarar-me, virando-se com tal fúria que a cabeleira de caracóis esvoaçou e teimou em assentar na sua posição natural. Fiquei destroçado quando reparei que os seus olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas.

- Tinhas de o fazer, não tinhas? – acusou ela com a voz a tremer. – Não podias comportar-te como qualquer outra pessoa, não, tinhas de partir para cima do pai dele…

- O quê? – mas agora ela está a defendê-lo a ele? – Rose, ele passou das marcas! Não sabes as coisas nojentas que disse…

- Nem quero saber! Pára com isso, pai, pára de acusar os outros! Pensas que não sei que estás ansioso para que algo corra mal nestes preparativos? Que passas os dias na esperança que alguém faça aquilo que não tens coragem de fazer?

- Eu…

- Pai, eu vou casar com o Scorpius e vamos ser muito felizes. Nós somos muito felizes! – Rose mordeu o lábio inferior, sem se preocupar em limpar as lágrimas que escorriam agora pelo seu rosto. – Só queria que ficasses um bocadinho feliz por mim também!

E foi assim que ela terminou o seu caso, subindo o resto dos degraus como uma flecha e refugiando-se no seu quarto, como era hábito. Ainda a ouvi soluçar antes de atirar com a porta.

Voltei atrás, com as palavras dela a martelar na minha cabeça, sem saber o que fazer. Hugo estava calado a um canto, de mãos enfiadas nos bolsos dos jeans e de cabeça baixa, talvez tão perdido quanto eu. Hermione olhava fixamente para mim, com uma expressão neutra que não fui capaz de decifrar. Esperava que ela começasse aos berros, me chamasse nomes, me apontasse a varinha, me atirasse com alguma coisa à cabeça, me obrigasse a ir atrás dela para lhe pedir desculpas, qualquer coisa… Mas ela só desviou o olhar e seguiu o mesmo caminho de Rose, passando por mim como se eu fosse um ser invisível, sem me dirigir uma única palavra ou olhar assassino.

E por qualquer motivo, o seu desprezo fez-me sentir ainda pior.

Continua…


(*): estou ciente que o Sangue de Lama escrito no braço da Hermione durante a sua tortura na Mansão Malfoy foi uma daquelas cenas acrescentadas aos filmes que nunca aconteceram nos livros, mas foi uma que me marcou e chocou tanto que, sinceramente, gosto muito de considerar como tendo realmente acontecido. Espero que não se importem! ^^'

E já agora, é óbvio que trinta convidados é pouco para um casamento, mas não acho que o Ron fosse da mesma opinião... XD

No próximo capítulo:

«E quando vejo os olhos de Rose – os meus olhos – brilhar devido às lágrimas, sei que ela compreende. E quando a vejo sorrir – o sorriso de Hermione, sempre – sei que também está agradecida…»