Disclaimer: personagens e lugares pertencem a JK Rowling e à Warner Brothers, excepto aqueles criados por mim. Fanfiction escrita sem fins lucrativos.
Baseada no filme de 1991 O Pai da Noiva, com Steve Martin e Diane Keaton. Quaisquer semelhanças com o argumento são mais que meras coincidências.
Produção: Agosto 2010 – Abril 2011
Avisos: fanfiction apropriada para todos
Spoilers: DH
Sumário: Rose Weasley regressa a casa com uma notícia surpreendente: ela vai casar! Mas a notícia, aparentemente feliz, promete fazer estragos no coração de uma das pessoas que ela mais ama…
N/A:a minha primeira aparição de 2012! :D Espero que tenham todos entrado com o pé direito no novo ano e que esteja tudo bem com vocês. Eu sei que já estamos quase em Março e que estou super atrasada mas, como já vem sendo hábito, a faculdade impede-me de fazer as coisas dentro do tempo desejado.
Queria agradecer-vos pelas reviews, pelos favoritos, até pelo simples facto de passarem por esta página – muito obrigado por todo o vosso apoio e pela fidelidade, mesmo que eu não a mereça. Espero que gostem daquele que é o penúltimo capítulo de uma fic que me deu muito gozo escrever e até à próxima, que eu espero que não demore muito tempo a acontecer!
Erros de digitação, pontuação, conjugação verbal e demais ofensas à língua portuguesa são culpa minha e peço perdão pelos mesmos. A minha beta tirou férias e eu fiz o meu melhor, mas às vezes isso não é suficiente!
O PAI DA NOIVA
CAPÍTULO VI: Aceitação
Ok, eu não sei o que é que a Alline fez à minha filha ontem à noite, mas coisa boa não foi, de certeza! Devia ter dado ouvidos ao seu último pedido à saída e não ter esperado por ela, mas (é compreensível, não é?) que tipo de pai vai dormir descansado quando a sua jovem filha sai à noite para um mundo infestado de gente louca e psicopata para comemorar a sua despedida de solteira?
Já passavam das cinco da manhã quando ouvi a porta de entrada abrir no andar de baixo. Com um olho aberto e outro fechado, fingindo estar profundamente adormecido na minha cama, tentando prestar atenção além da respiração de Hermione, que dorme de cabeça encostada ao meu peito (e que jura a pés juntos todas as manhãs que não ressona, apesar de este não ser exactamente o ritmo pacífico dos sons respiratórios), ouvi alguém subir as escadas com muitos risinhos e gargalhadinhas. Depois houve um barulho seco e a voz de Rose fez-se ouvir ("Cuidado, ainda acordas toda a gente!"), um pouco mais alto do que seria esperado para as horas tardias.
Numa outra altura, a minha sonolência iria deixar a sua bebedeira passar em branco. Mas depois alguém soprou um "Desculpa!", e seguiu-se uma nova sessão de gargalhadinhas, e nesse momento os meus olhos abriram-se de tal maneira que pensei que eles me iam saltar das órbitas.
Quem é que Rose trouxe para casa a estas horas?
Estava já prestes a atirar Hermione da cama abaixo e a levantar-me para saciar a minha terrível curiosidade quando um "Outcha, este degrau ia-me matando!" me fez suspirar de alívio e tornar a respirar descansado. Que eu saiba, a Alline é a única pessoa para quem Outcha faz parte do vocabulário, apesar de toda a gente lhe dizer desde pequena que Outcha nem sequer é uma palavra.
Assim, enquanto o meu coração retomava o seu ritmo normal, revirei-me na cama e tentei pegar no sono outra vez, tentando ignorar o estado em que elas estavam e preferindo aceitar que fora uma simples noite de diversão, não um hábito comum. Tal como, na manhã seguinte, preferi não reparar nas roupas espalhadas pelo chão à porta do meu quarto porque Alline achara que aquele era o local perfeito para mudar de roupa. E preferi encolher os ombros quando o Hugo saiu da casa de banho com o casaco e a carteira da irmã nas mãos e me perguntou o que raio estava aquilo a fazer na banheira.
Só não consegui fingir não ouvir comentários quando, já à mesa do pequeno-almoço, Hugo mencionou o facto de as duas se terem enganado no quarto e terem acabado a dormir na sua cama:
- Acordei e estavam ali as duas, agarradas a mim… – comentava ele com uma nota de desprezo na voz e a colher dos cereais no ar, a meio da sua travessia até à boca. – Argh!
- Bom, pelo menos tiveste sorte que o álcool não lhes deu volta ao estômago!
Estava a tentar ao máximo não pensar na minha própria filha a atingir o estado fisicamente lastimável que eu mesmo já atingira à custa da bebida. Hugo, no entanto, simplesmente encolheu os ombros:
- Eu tive foi sorte de o álcool não lhe dar volta à cabeça e ela acabar por me confundir com o Scorpius! – a colher atingiu por fim o seu destino e ele começou a mastigar, com o olhar fixo no nada. – Tive muita sorte…
Claro que depois desta imagem perdi toda a vontade das minhas torradas.
Assim que o Hugo saiu para os treinos, corri para o escritório, peguei numa pena e num pedaço de pergaminho que rasguei do esboço de um trabalho e escrevinhei uma pequena nota tão atabalhoadamente que salpiquei o nariz de tinta:
«O que é que a tua filha fez com a minha ontem à noite?»
Neville já estava acordado – e possivelmente já tinha dado todo o tratamento matinal usual aos seus gerânios e às suas mandrágoras – pois devolveu-me a coruja ao fim de uns minutos:
«Se a tua filha não te contou, porque é que a minha haveria de me contar?»
O que não ajudou em nada, obviamente, e me deixou a repensar o assunto até à hora de almoço, altura em que Rose desceu com Alline, as duas ainda ensonadas e a queixarem-se de dores de cabeça, mas ainda assim com um grande sorriso no rosto, comentando que haviam tido uma noite divertidíssima. Depois foi a vez de Hermione se lhes juntar, começando a partilhar as experiências da sua despedida de solteira, e foi nesta altura que achei melhor começar a levantar a mesa; ao fim de pouco tempo, já as ouvia falar de camisas de noite transparentes e cuecas de fio dental e tentei que o barulho da torneira aberta no máximo me fizesse perder os pormenores da sua conversa enquanto lavava a loiça.
Mas, mesmo tentando alienar-me do momento, não pude deixar de reparar no quanto as três se riam e no quão divertidas pareciam. Acabei por aceitar que tanto a Rose como a Alline são miúdas adultas e ajuizadas que sabem aquilo que fazem. E claro, não me posso esquecer do facto que na certa a Hannah não deixaria que a sua própria filha transformasse o seu bar num local de devassidão.
Portanto, tudo bem. Acho eu!
E depois de Rose dizer adeus à sua liberdade de solteira e boa rapariga, de a tenda de cerimónia ter sido montada e arranjada junto à Casa das Conchas e de Hermione ter ameaçado toda a gente cá em casa de nos arrancar os dedos à dentada se alguém amarrotasse as indumentárias do grande dia, percebi que era chegada a hora.
Chegara por fim o momento de casar a minha filha.
Na véspera do casamento fomos todos para Grimmauld Place. Bom, "todos" é uma maneira de dizer – a Rose foi chamada de urgência a casa da Victoire porque, sem se saber bem como, a Dora tinha ficado com o cabelo azul e ninguém a conseguia fazer regressar ao seu preto normal. De qualquer maneira, eu, a Hermione e o Hugo lá rumámos a casa do Harry e da Ginny para atacarmos os últimos preparativos em conjunto e partilharmos o stress da véspera, tal como era usual entre nós.
Claro que falar é sempre mais fácil e mais bonito do que viver a realidade. A Lily não podia ter escolhido melhor dia para ter uma crise existencial e acabar trancada na casa de banho, gritando para quem a quisesse ouvir que só punha os pés no casamento se lhe garantissem que não era obrigada a ir de vestido. A Ginny e a Hermione estão há horas do lado de fora a tentar convencê-la a ser razoável e a sair sem levantar mais ondas. O Hugo subiu para o andar de cima com o James a comentar o quão excitado está com a ideia de privar (outra vez) com o seu ídolo, Adrian "O Grifo" Pucey (só eu é que continuo a achar uma adorável ironia ele ter recebido esta alcunha, considerando que estudou na Slytherin? Sim… tudo bem!), ao qual o primo respondeu que preferia privar com a filha dele, o que levou Hugo a perguntar-lhe se a sua namorada não ficaria ciumenta, deixando James de trombas, a sua reacção normal quando Emma Wood é trazida à baila.
Já eu e o Harry abancámos nos cadeirões da sala de estar, de ar desfeito e expressões apagadas, bebericando inocentemente os nossos brandes enquanto por cima de nós se parecia desencadear o fim do mundo.
- Pela Varinha de Sabugueiro! – suspirou o meu melhor amigo quando ("Lily, sai daí, olha que eu mando esta porta abaixo e tu não me queres ver chateada hoje!") se deu nova explosão. – Sabes, Ron, ser pai é difícil… muito difícil!
Diz o impávido e sereno Harry Potter ao tipo que amanhã vai casar a filha com o único herdeiro dos Malfoy.
E falando no Diabo…
Um rebuliço na escadaria fez-nos esticar os pescoços para ter ampla visão do que estava a acontecer. Confesso que por momentos pensei que ia ver o Hugo e o James engalfinhados, rebolando pelos degraus abaixo no meio de murros e pontapés. Mas afinal eram apenas Albus e Scorpius, que estacaram surpresos assim que chegaram à porta de entrada da sala e se depararam comigo.
- Tio Ron! – Albus olhou de esguelha para o seu melhor amigo, como se estivesse subitamente receoso pela sua segurança, e depois, espetando uma sobrancelha de dúvida, desviou o assunto da conversa: – A Rose veio contigo? Porque se ela está aqui a experimentar o vestido, espero que não se ande a passear por aí com ele nos corredores, dizem que dá azar se o noivo o vir antes da cerimónia…
- Não, ela não veio – entreguei rapidamente o copo a Harry e avancei até aos dois rapazes. – Mas já que aqui estás… Scorpius, importas-te que te dê uma palavrinha antes de saíres?
Talvez se ele fosse um pouco mais rosado pudesse dizer que Scorpius ficou sem pinga de sangue perante o meu pedido; mas como é pálido por natureza, acho que não dei pela diferença. Os olhos verdes do meu sobrinho, contudo, arregalaram-se de espanto e horror:
- Er… tio Ron! – chamou Albus, com a coragem de quem se prepara para entrar na arena e enfrentar um dragão esfomeado. – Tens noção que matar o noivo antes da cerimónia também não é propriamente um evento que gere muita sorte?
- Ora, se eu o quisesse matar já o teria feito há muito tempo!
Albus fingiu uma gargalhada, Scorpius foi atrás e os dois permaneceram parados, a olhar pouco à vontade um para o outro e para mim, antes de eu fazer sinal ao meu futuro genro para me acompanhar e Albus avançar a medo para junto do pai, ocupando o cadeirão que eu deixara vazio. Conseguia sentir os olhares de ambos cravados nas minhas costas, algo curiosos, algo receosos, mas tentei não ligar à medida que abandonava a sala lado a lado com ele.
- Está a ser difícil! – comentou Scorpius, sorrindo nervosamente e acenando para o topo da escadaria, de onde provinham os gritos de Lily a pedir à mãe e à tia para a deixarem em paz.
Não consegui resistir:
- É melhor habituares-te! A Rose pode ser muito diferente da prima, mas continua a ser uma mulher com sangue Weasley e quando uma mulher com sangue Weasley perde a cabeça…
O urro da minha irmã a atirar-se contra a porta foi a cereja no topo do bolo que era o meu comentário. Sorri inocentemente para Scorpius, que apenas abanou a cabeça para contrariar a minha afirmação:
- Oh, não se preocupe, já estou habituado! O meu primo Terry também tem pancadas parecidas e ele não tem sangue Weasley, nem sequer é mulher! O avô Lucius costuma dizer que a minha tia deve ter experimentado poções esquisitas quando estava grávida dele…
O que portanto confirma a minha teoria em como aquele Terrence Bletchley é um tresloucado e deve ser mantido afastado – bem afastado – da Roxanne, que até é uma miúda ajuizadinha e não precisa de um trambolho daqueles a importunar-lhe a vida.
- Bom, de qualquer maneira – agarrei Scorpius por uma manga do seu manto de viagem e comecei a arrastá-lo pelo corredor fora, para longe do barulho. – queria falar contigo e não era por causa disto. Na verdade, eu…
Parámos à porta da sala de jantar, a mesma sala onde, há já tantos anos, a Ordem da Fénix se reunia para as suas discussões de trabalho. Era estranho estar ali com ele – duvido até que Scorpius soubesse o que ali se tinha passado – mas dava-nos a distância necessária e isso era aquilo que mais me importava.
- Eu queria…
Suspirei fundo. Seria assim tão difícil pedir-lhe desculpas por tudo aquilo que tinha dito e pensado sobre ele e a sua família?
- Eu queria pedir-te…
- Para tomar conta da Rose?
Concentrei toda a minha atenção nos olhos dele. Engraçado como todo ele é Draco Malfoy da cabeça aos pés excepto nos olhos – talvez os tenha herdado da mãe, não sei, nunca me preocupei muito com os pormenores. E é exactamente essa mínima diferença que me prende agora: este miúdo não é Draco Malfoy.
Nunca foi.
Nunca será.
Acenei afirmativamente com a cabeça, mesmo sem saber bem a quê.
- Claro! – Scorpius encolheu os ombros, parecendo divertido com o meu pouco à vontade. – Mas duvido que isso seja necessário. A Rose sabe tomar conta dela própria. O senhor educou-a bem. E Mrs. Weasley também, claro…
Tinha razão. Mais uma vez.
- Sabes, tu… – enfiei as mãos nos bolsos das calças, rolei os olhos nas órbitas, passei a língua pelos lábios. Só espero que daqui por momentos ele e o pai não estejam repimpados no salão da Mansão Malfoy a rir a bandeiras despregadas à custa das minhas figuras ridículas! – Tu não és mau rapaz. Eu sei que tivemos os nossos problemas no passado... – novo rolar de olhos. – Bom, as nossas famílias tiveram problemas! Mas tu não és nada daquilo que seria de esperar de um Malfoy. És melhor do que isso. E, vamos a ser sinceros, eu confio na minha filha: se ela te escolheu a ti de entre todas as possibilidades, é porque tu és a escolha certa para ela!
Scorpius devolveu-me o olhar. Não o conhecia assim tão bem para saber o que é que lhe estava a passar pela cabeça por detrás daquela expressão impávida e serena, mas quase podia jurar que vi um flash de surpresa no seu rosto.
- Então… isso significa que…
Coloquei-lhe as mãos nos ombros e até me atrevo a sorrir ao confirmar-lhe:
- Significa que amanhã, quando estiverem ambos naquele altar… terão a minha bênção na altura do "sim"!
Ele sorri em resposta e depois, pegando-me de surpresa, lança-se sobre mim num abraço apertado. Por uma fracção de segundos pensei na maneira mais eficaz de me libertar e fugir para longe dele, mas havia uma certa humildade e simpatia no gesto que inspirava a minha confiança. Acabei por desistir do meu plano original e dei-lhe umas palmadinhas desajeitadas nas costas.
Espero não estar enganado no meu juízo de valor, mas talvez Scorpius Malfoy até se venha a revelar o melhor genro que poderia encontrar.
- Então, só para confirmar, posso ficar descansado amanhã? – questiona-me ele assim que se afasta de mim, com os olhos escuros a brilhar de excitação. – Não se vai levantar a meio para nos impedir de casar?
- Bom, é claro que se a cerimónia for interrompida por alguma jovem em fúria que te acuse de seres o pai dos seus três filhos…
Nesse caso, não só vos impeço de casar como me certifico que só regressas a casa numa caixa de fósforos.
Scorpius ri comigo e acabamos por regressar à sala de estar em grande galhofa, como amigos de longa data. Era-me estranho agir assim para com ele, fazendo um esforço para não pensar coisas depreciativas sobre a sua pessoa. Mas era por Rose e era nela que eu tinha de me concentrar. Scorpius era praticamente o seu marido, possivelmente seria o pai dos seus futuros filhos (a ideia ainda faz um arrepio percorrer-me a espinha), e estava a menos de vinte e quatro horas de jurar ficar a seu lado até que a morte os separasse.
Scorpius fora a sua escolha.
E Rose nunca antes fizera uma escolha errada.
Dormimos na Casa das Conchas nessa noite. Eu e Hermione partilhámos o sofá da sala, apesar de o Bill e a Fleur nos terem oferecido o seu quarto, com a desculpa de que teríamos de ser os primeiros a levantar e poderíamos deixar tudo arrumado ainda antes de eles acordarem. Mal queria acreditar quando ela me deu uma cotovelada para me despertar – a relógio da parede marcava apenas seis horas da manhã – e pior me senti quando espreitei pela janela o tempo lá fora: apesar de ser cedo, não gostei nada daquele céu cinzento.
Para meu espanto, Rose estava já levantada também. Encontrámo-la na cozinha a fazer ovos mexidos e à procura da torradeira em todos os armários, a qual obviamente não iria encontrar uma vez que os seus tios não simpatizavam tanto com electrodomésticos Muggle como nós.
- Não consegui dormir nada! – explicou ela enquanto colocava chávenas sobre a mesa para nós, o que me pareceu justificar as olheiras profundas e a pele pálida e translúcida como a de um fantasma.
Claro que Hermione começou logo a refilar, que assim não podia ser, que ela ia ter um dia muito comprido, que ela devia ter reposto baterias e blá blá blá, mas eu só lhe encolhi os ombros e continuei a comer os meus ovos mexidos com pão. A verdade é que eu também não dormira nada no dia do meu casamento (e duvido muito que o contrário tenha acontecido com ela) e não foi por isso que as coisas não se fizeram.
Ainda não tínhamos terminado de comer quando chegou a minha mãe, via pó de Floo, trazendo consigo uma maravilhosa tarte de amêndoa e um cesto de pãezinhos caseiros para o pequeno-almoço. Informou-nos logo – ou melhor, berrou-nos logo, desde que começou a ficar surda que fala cada vez mais alto – que o meu pai ficara em casa a arranjar-se (uma aposta em como isso significa que ainda está refastelado na cama a dormir) e depois agarrou-se à Rose e encheu-a de beijos, choramingando que nunca pensara viver para ver outra neta casar.
Bolas, mãe, não podias esperar até ao final da cerimónia, pois não?
O barulho atraiu Fleur, que se levanta sempre bem-disposta e com uma força nada natural, e cinco minutos depois já estavam as três fechadas no antigo quarto de Victoire para ajudarem Rose a arranjar-se, deixando-me para trás a arrumar sozinho a cozinha (claro!). Porque é que têm de ir as três ajudar a noiva a vestir-se não sei, mas que seja, não estou para me chatear por causa disto. Bill também já estava levantado e prontificou-se para me ajudar com as arrumações depois de acordarmos os rapazes, porque o pessoal do "karting" (*) – ou lá como a Fleur lhes chama – estava quase a chegar e ninguém estava interessado em tê-los por aí a passear só de cuecas.
Rose levou mais de duas horas a arranjar-se, penteado e maquilhagem incluídos. Nesse espaço de tempo já todos os empregados tinham começado a trabalhar, o Hugo já me tinha dado dores de cabeça por causa de uma nódoa na gravata vinda de sabe-se lá onde e praticamente todos os Weasley já tinham dado o ar da sua graça.
Harry e Ginny foram os primeiros, com um James sonolento e uma Lily trombuda (e de vestido) atrás. Albus, por aquilo que entendi das suas palavras, encontrava-se já na Mansão Malfoy a cumprir os seus deveres de padrinho. Seguiram-se Teddy (graças a Merlin com o cabelo do mesmo tom achocolatado da noiva e não roxo, turquesa ou azul às bolinhas amarelas, como já havia ameaçado) e Victoire, com uma Dora muito maldisposta e ainda de pijama ao colo, quase ao mesmo tempo que a dama de honor Alline, que galgou as escadas em três tempos antes sequer de os pais darem os bons dias e Jayden desaparecer com Louis e Hugo. Percy e George chegaram depois com as respectivas famílias, pouco antes da chegada dos meus sogros, cuja presença foi um alívio para Audrey, que se sente sempre bastante desconfortável na presença de muitos feiticeiros.
E quando Rose surge no topo da escadaria, tão bonita no vestido de noiva da mãe, com os caracóis apanhados num elegante nó atrás da cabeça e decorados com uma flor branca à esquerda, é toda uma grande família que se aproxima para a aplaudir. Incluindo o meu pai, que abanava a cabeça em aprovação para Andromeda. E Dominique, cuja única excentricidade na indumentária eram os colares largos ao pescoço. E Luna, na companhia do marido e dos seus gémeos adolescentes, que se destacam sempre na multidão com as cores garridas das suas roupas. Até Hagrid, que não cabia dentro da casa, quis marcar presença, gritando lá fora bem alto pelo nome dela.
Estava a aproximar-se o momento…
Não faltou muito para começarem a chegar os outros. Narcissa foi a única que entrou no vestíbulo, ouvi-a dizer para Fleur que tinha uma casa muito bonita. Os restantes ficaram na praia, ocupando os seus lugares para a cerimónia. Contudo, como os nossos se começavam a sentar também, não fazia sentido ver a sua atitude como acção de má-fé. Houve um momento particularmente tenso em que o meu pai se cruzou com Lucius Malfoy, mas acabaram por acenar um ao outro e depois sentaram-se ao lado das suas esposas em cantos opostos. O primo maluco de Scorpius estava sentado entre os pais mas vi-o levantar-se para cumprimentar Roxanne quando esta passou por ele. Infelizmente, foi neste preciso momento que Charlie apareceu e formou-se um grande alarido com a festa que foi vê-lo outra vez e os gritos da mãe por ele chegar tão em cima da hora, por isso não sei se ela o mandou bugiar ou não.
E depois senti um puxão na manga no manto de cerimónia:
- Ron! – Hermione estava agora a meu lado, simplesmente deslumbrante no seu vestido salmão. – Está na hora!
Acenei-lhe em resposta e enquanto ela avançava para junto dos convidados, mandando-os sentar para receberem a noiva, eu regressei a casa, onde Rose ajeitava o bouquet das flores com a ajuda de Victoire e sob o olhar muito atento da pequena Dora, já devidamente vestida e muito surpreendida com tudo o que estava a acontecer à sua volta.
- Está na hora! – repeti eu, torcendo as mãos atrás das costas. Lentamente, parecia que o nervoso estava a tomar conta de mim.
- Eu sei – murmurou ela, sorrindo da mesma maneira que a sua mãe costumava sorrir nos momentos de tensão. – Ele já cá está, não está?
Ora aí estava, o pior receio de quem se casa: ser abandonado no altar à última hora. Relembrei a figura de Scorpius lá à frente, balançando o corpo para a frente e para trás, sem ligar nenhuma aos disparates que Albus lhe dizia.
- Já, querida, podes ficar descansada!
- E está todo bonitão, se me permites! – brincou Victoire, dando a mão à filha e começando a avançar para a porta. – Vou indo lá para fora com ela. Vocês vêm também?
Ambos acenámos afirmativamente antes de ela sair.
- É agora!
Dei-lhe o meu braço, o qual ela aceita prontamente, enrolando o seu ao meu. A pouco e pouco, tudo se começava a compor: Rose parecia muito mais vívida e desperta do que de manhã, o sol tinha despontado no céu, Dora já não estava birrenta, ainda ninguém se tinha pegado na assistência e eu ainda não sentira os meus habituais instintos assassinos. Pousei a minha mão direita no seu braço e sorri:
- Estamos prontos?
Ela sorri em resposta:
- Sempre!
Já estamos à porta de casa quando ela me pára uma última vez.
- Papá? – ouço-a chamar, diminutivo que ela não utiliza desde os tempos de infância. – Obrigado. Por tudo.
Aceno em aceitação e com o polegar limpo a lágrima teimosa que brilha no canto do seu olho, antes que ela borre a maquilhagem e se desencadeie uma tempestade de fúria humana.
- Não tens de quê.
Depois é só seguir a passadeira vermelha pela praia. Com Rose, claro. Sempre com Rose.
Como quando entrei em casa com ela nos braços pela primeira vez, no dia em que regressámos da clínica depois do seu nascimento. Ou quando entrei na plataforma nove e três quartos com ela pela mão, no seu primeiro ano lectivo em Hogwarts. Ou quando chegámos juntos ao Ministério da Magia no seu primeiro dia de trabalho. Chama-se crescer, é uma travessia que faz parte da vida.
Claro que não é exactamente a mesma coisa. Agora tenho público – os inúmeros rostos conhecidos que se levantam à nossa passagem (e a minha mãe a chorar algures na segunda fila), a alegre banda que toca os seus instrumentos para fazer soar a banda sonora deste momento. E do outro lado não está um lar, uma escola, um emprego. Mas quando nos aproximamos do altar, Scorpius só tem olhos para ela. Sorri abertamente e todo o seu rosto brilha de uma maneira especial. E depois olha para mim e acena respeitosamente com a sua cabeça loira.
Com toda a confiança do mundo, paro junto a ele, viro-me para Rose e, numa fracção de segundo que eu queria que durasse para toda a eternidade, beijo-a no rosto. Depois foi simplesmente abrir a mão e deixá-la voar para os braços dele.
Segura.
Livre.
E enquanto eles nos viram costas e avançam juntos para o feiticeiro que vai celebrar o casamento, eu regresso, sozinho, ao meu lugar. Para junto de Hermione, que me recebe com os olhos rasos de lágrimas. Para junto de Harry, que me sorri em solidariedade.
Ainda assim, não consigo evitar olhar por cima do ombro uma última vez.
"Entreguei-te o meu coração, Scorpius", pensei. "Trata dele com cuidado!"
Continua…
(*): evidentemente, a palavra correcta é "catering". Não sei se é o termo que existe no mundo da feitiçaria, mas aposto que o Ron também não é muito conhecedor do assunto... XD
No próximo capítulo:
«Foi durante o casamento que eu (por fim) entendi o quão idiota tinha sido ao longo dos últimos meses…»
