De manhã bem cedo, praticamente todos os cavaleiros de Athena e semideuses estavam no local de treinamento. Ana, Abáris e Shaka não estavam presentes, mas mesmo assim o treino se iniciou sem eles.
Na décima terceira Casa, Athena estava na presença de Shaka e contava a ele o que havia acontecido.
– Shaka, uma batalha há de acontecer. O filho de Tifão, o cão Cérbero, deixou de servir a Hades e partiu do submundo para lançar o terror aqui na Terra, em uma das tentativas do deus, seu pai, de nos pressionar a desistir.
– E o que tem em mente?
– Como tinha dito anteriormente, essas bestas descendentes desse deus, são diferentes de outros inimigos já enfrentados. Não possuem sentimentos ou medo. São ferozes e muito poderosas. Shaka, vou precisar de alguns de vocês para deter o Cérbero antes que muitas vidas inocentes paguem.
– Quem a senhorita deseja convocar?
– Não posso convocar um número grande de guerreiros, pois pode ter outro ataque simultâneo a esse e também o Santuário precisa de proteção. Para essa tarefa vou chamar Ana, pois ela conhece muito bem esse inimigo.
– E de cavaleiros? Quais seriam mais apropriados?
– Aldebaran e Milo. – disse a deusa deixando uma expressão de interrogação no cavaleiro de virgem.- Eu escolho os dois, porque o primeiro é o mais forte fisicamente entre vocês e esse será um atributo muito importante para essa tarefa e o escorpião por sua agilidade combinada com sua agulha escarlate que será útil para paralisar o inimigo a uma certa distância, permitindo um ataque mais eficaz.
A deusa e o cavaleiro continuaram a conversar enquanto Abáris e Ana discutiam em um cômodo do lugar.
– Meu pai, Apolo, está acertando tudo com o seu. Creio que Hades já deve ter conversado contigo.
– Sim, já conversou. – respondeu Ana secamente.
– Então já sabe que em breve estaremos juntos antes mesmo disso tudo acabar. –falou o semideus acariciando o rosto de Ana.
– Abáris, eu posso até vir a me casar com você, mas nunca serei sua. – respondeu tirando a mão dele de seu rosto e se afastando.
– É aquele cavaleiro, não é? – disse ele a deixando gelada. – Imaginei. Quando isso tudo acabar, darei um jeito nele.
Batidas na porta foram ouvidas. Era uma serva chamando os semideuses a pedido da deusa. Os dois se dirigiram para o salão onde se encontravam Athena e Shaka.
–Abáris, Ana, os ataques já começaram.- disse a deusa.
– Eu já senti Athena. É o Cérbero, não é? – falou Ana
– Sim. – fez- se uma pausa. – Nós vamos agir imediatamente antes que os ataques aos inocentes comecem. Cérbero acaba de deixar o submundo, vindo aqui para a Terra. A nossa sorte é que ele está se direcionando para um lugar inabitado e que nessa época do ano, não recebe muitos turistas e está fechado pelo mal tempo. O local é o Monte Lykavittos, porém essa área é totalmente cercada pela cidade. Por favor, não permitam que ele chegue até a área habitada.
– Já poderemos partir então? – disse o filho de Apolo.
– Sim, já podem, mas eu vou precisar de você aqui Abáris. Eu enviarei Ana e mais dois cavaleiros meus.
– E quem serão? – perguntou a semideusa.
– Aldebaran e Milo.
Quando a deusa citou o último nome uma fúria tomou conta de todo o ser do filho de Apolo, mas logo se conteve por ter tido uma idéia, por essa idéia ser uma oportunidade perfeita para seus planos.
– Athena, com todo respeito à sua decisão eu gostaria de ir no lugar do cavaleiro de touro.
– Posso saber o motivo?
– Athena, assim como Ana eu conheço muito bem o inimigo, creio estar mais bem preparado do que seus cavaleiros. Apenas não concordo de enviar dois cavaleiros que desconhecessem o poder e os pontos fracos do inimigo, além do mais um semideus é mais forte do que um cavaleiro, mesmo sendo este de ouro. – disse olhando para Shaka que estava fazendo o possível para não se alterar com Abáris.
Athena ficou pensativa por um momento. Tinha fundamento, mas estava hesitante de haver algo por trás das intenções de seu sobrinho.
– Está bem, Abáris. Você irá no lugar de Aldebaran.
Shaka ficou preocupado com a decisão da deusa, pois sabia do ciúmes do semideus com Ana e Milo. O virginiano tentou passar pelo cosmo sua preocupação, mas no momento Milo entrou no salão, fazendo a deusa voltar sua atenção a ele.
– Athena. – disse Milo fazendo uma reverência à deusa, enquanto era observado por Abáris.
– Milo, vou precisar de você para enfrentar Cérbero.
– Ele já chegou à Terra?
– Ainda não, porém está para chegar. Ele aparecerá aqui perto no Monte Lykavittos e quero que ele seja contido lá, antes de chegar à civilização. Milo, você irá com Ana e Abáris para essa missão.
O escorpião olhou para o virginiano. Deveria tomar cuidado, ele sabia. O semideus não era de confiança e também detestava o fato do cavaleiro chamar a atenção da filha de Hades.
– Vamos? – perguntou Ana quebrando o silêncio.
– Boa sorte, acredito que sairão vitoriosos dessa batalha. Agora vão.
Os três saíram da presença da deusa, deixando apenas ela e Shaka.
– Shaka eu sei o motivo da sua preocupação. Não estou enviando meu cavaleiro para o perigo.
– Mas Athena...
– Shaka, tem situações inevitáveis em nossa existência, apenas aguardando o momento certo para se manifestar. Não se pode adiar o inevitável, pode-se no máximo amenizar aquilo que é certo acontecer. Mesmo eu como deusa não posso intervir diretamente no destino dos seres humanos. Por favor, não se preocupe.
O virginiano sabia o que a deusa estava dizendo ser correto, mas mesmo assim temia pelo amigo.
Os três se dirigiram para a entrada do Santuário onde tinham duas motos. O cavaleiro olhou para os veículos e para os semideuses, enquanto esses colocavam os capacetes.
– Vocês vão de moto?
– Não esperava que fôssemos correndo, não é? Vem, você vai comigo. – disse Ana recebendo um olhar fulminante do semideus.
Milo montou atrás da moto da semideusa e em seguida partiram para o local. Resolveram pegar uma estrada pouco usada para poder irem a uma velocidade maior. O cavaleiro de escorpião se prendia a cintura de Ana, sendo que podia estar segurando na parte de trás da moto. Abáris tentava ignorar aquilo, mas estava fervendo por dentro. Quando eles ficaram lado a lado, o semideus deu um sorriso maldoso para o cavaleiro. O escorpião então abraçou Ana apertado, dando um sorriso vitorioso em troca. Os três iam bem rápido, em uma velocidade absurda, chegando em pouco tempo no Monte. Assim que chegaram, Ana pôde sentir o cosmo da besta.
– Ele já chegou. – disse a semideusa.
Os três se direcionaram para o alto do lugar. Milo tinha colocado sua armadura, Ana levava consigo suas adagas e Abáris carregava a espada de Apolo. Subiram rápido por uma trilha até alcançarem o topo. A região tinha uma grama verde, agora coberta por uma fina camada de neve. O vento era bem frio naquela altura e a névoa atrapalhava um pouco a visão de toda a região. Não demoraram e logo avistaram Cérbero. O inimigo era um cão gigante, possuía três cabeças e tinha como calda, uma serpente. A besta ficou a encarar os três diante dele. Seus olhos eram vermelhos e estavam fixos na direção dos inimigos. Babava e estava com o pêlo ouriçado. A serpente em sua calda, balançava de um lado para o outro como se estivesse pronta para atacar. Uma névoa passou entre eles, tapando o campo de visão de ambas as partes. De repente só se pôde ouvir um grunhido e sentir o chão estremecer debaixo de seus pés. Quando deram por si, o cão havia se aproximado muito, numa distância perigosa. A besta soltou outro grunhido ensurdecedor e foi correndo muito rápido para cima deles. Os três se separaram correndo em direções opostas, deixando a besta sem saber quem atacar primeiro.
"Milo, Abáris eu distraio o Cérbero" – dizia Ana pelo cosmo – "Enquanto Milo o paralisa com sua agulha escarlate e você Abáris o golpeia com a sua espada. Só um aviso: não deixem que ele sinta o cheiro de sangue de vocês, caso venham se machucar. Cérbero é um devorador de corpos e o cheiro do fluido o faz ficar mais voraz, ficando quase impossível fugir do seu ataque. Agora vamos!"
Ana com suas duas adagas, se pôs bem diante da besta. A serpente tentava atingi-la a qualquer custo enquanto a semideusa desviava habilmente dos ataques. Ana mantinha o cão concentrado apenas nela, para que os ataques dos outros dois fossem mais certeiros. Milo se posicionou na lateral do animal e o atingiu em cheio com sua agulha escarlate. O animal sentiu muita dor, ficando mais raivoso. Sua pata direita havia ficado paralisada, mas ao invés de ter se enfraquecido, ficou ainda mais violento, desferindo um golpe na filha de Hades, arremessando-a a metros de distância.
– Ana! – gritou o cavaleiro de ouro correndo em sua direção. – Ana, você está bem?
– Está tudo bem, não se preocupe. – dizia Ana quase desmaiada enquanto um filete de sangue escorria pela sua boca.
– Você está sangrando. Limpe logo isso, ele não pode sentir o cheiro do seu sangue.
Milo pegou um pouco de neve e passou no local, limpando e anestesiando. Abáris estava vendo a cena, enquanto a fera voltava a atacar. O semideus pegou a sua espada, atacando e defendo das mordidas frustradas do animal. Apesar de grande e por usar a princípio o instinto e não a inteligência, o cão era rápido e tentava atingir pontos vitais do filho de Apolo. Milo se levantou e correu em direção a cena da luta, para ajudar o semideus. Atingiu novamente o cão com mais algumas agulhas escarlates, o paralisando quase por inteiro, além de ter provocado uma hemorragia. O animal já agonizava, e ainda assim tinha forças para atacar. Abáris e Milo estavam na mesma direção.
– Ele está praticamente paralisado, ataque-o com sua espada Abáris. É a nossa chance.
– Não, Milo, é a minha chance. – disse o semideus deixando o escorpião sem reação.
Em um segundo, o semideus com um movimento rápido, fez um pequeno corte no braço do cavaleiro, fazendo-o sangrar. Cérbero pareceu despertar da sua dor e ficou com uma energia e força maiores que antes da batalha começar. Milo olhou para Abáris enquanto esse sorria vitorioso por ter condenado o cavaleiro à morte. Ana viu a cena, apesar dos olhos ainda estarem embaçados e esforçava-se para levantar. Abáris se afastou no momento em que a fera com sua força total, atacava o cavaleiro. Milo desviava das investidas da besta. Enquanto isso, Abáris ia em direção a Ana que estava ficando de pé.
– Vamos embora daqui. Nosso trabalho terminou. – disse ajudando a semideusa a acabar de levantar.
– Não, Abáris, meu trabalho aqui ainda não terminou. Pode ir se quiser.
– Pare de ser tola, irá morrer se continuar aqui.
Ana não disse mais nada, somente se soltou do semideus, dando-lhe as costas. Pegou suas adagas e foi em direção ao cavaleiro para ajudá-lo, deixando Abáris sem ação.
– Restrição! – golpeava o escorpião, liberando ondas de energia paralisando o sitema nervoso central e paralisando todas as suas funções.
O animal havia sido domado e nessa oportunidade, Ana golpeou em uma rápida seqüência, as gargantas das três cabeças e por fim o coração, enfiando suas adagas nesse ponto. O sangue da fera escorria em suas mãos, seus olhos estavam fixos no da semideusa. Ana sentia a vida do cão o abandonar, pois conseguia sentir o enfraquecer das batidas cardíacas na sua adaga. Ela puxou suas armas de dentro da fera e nesse momento, o Cérbero caiu aos seus pés derrotado.
– Milo, você está bem? – perguntava a semideusa preocupada.
– Não foi nada demais, apenas alguns ferimentos.
– Milo, me desculpa eu não sabia.
– Eu sei. – falou o cavaleiro passando o dedo nos lábios dela. – Agora, vamos sair daqui. Estou congelando.
Ana e Milo desceram o monte, deixando o corpo da fera caído sem vida. Abáris já tinha ido embora em sua moto. Milo retirou sua armadura e a pôs de volta na caixa de ouro, colocando-a nas costas. Os dois subiram no veículo e foram em direção ao Santuário. Ao contrário da ida em que eles estavam em alta velocidade, agora eles iam em uma velocidade, como se estivessem curtindo a paisagem e o momento. O escorpião apertava o corpo da semideusa contra o dele e acariciando sua barriga. Ana sentia o corpo esquentar com cada toque do cavaleiro, mas não relaxava porque precisava manter a atenção na estrada. Na chegada ao portão do Santuário os dois desceram e se olharam. Não havia ninguém ali. Milo se aproximou e tirou o capacete dela. A observou por um segundo e a beijou com intensidade, sendo correspondido. O escorpião a segurava forte pela cintura, enquanto as mãos dela percorriam seus cabelos. Estavam ofegantes quando ouviram um barulho, se separando rapidamente. Era Lavínia que havia sentido o cosmo do namorado.
– Milo! – disse a amazona correndo e dando um abraço apertado nele. – Você já voltou!Estava preocupada. Nós soubemos que vocês tinham ido quando estávamos no fim do treinamento.
– Está tudo bem. Derrotamos o cãozinho. – disse em um tom brincalhão, porém com um sorriso amarelo.
Sem perceber, Ana tinha ido embora.
– Ué? Cadê a Ana? – perguntou Lavínia.
– Deve ter ido descansar. - respondeu meio cabisbaixo.
– Ela é estranha, não acha?
– Eu também quero descansar. Na verdade estou precisando de um banho.- disse o escorpião mudando a direção da conversa. Sem a namorada perceber, virou para trás a procurando em vão. Sentia-se mal por minutos atrás estar beijando-a e logo depois estar nos braços de outra, que na verdade era sua namorada, não outra. Tinha sentimentos confusos dentro de si , mas agora pareciam estar se decidindo. Em breve teria que ser sincero consigo mesmo e com as duas, antes da situação se complicar.
