O Que Sinto
Mais tarde na décima terceira casa, Abáris discute com Féres.
– Abáris, acorda! Se você continuar com esse seu ciúme idiota, vai colocar tudo a perder.
– Eu não posso ficar de braços cruzados, enquanto aquele verme dá em cima da Ana.
– Como se a sua querida quisesse alguma coisa com você.
– Não me interessa se ela quer ou não, ela é minha e aquele maldito não ficará no meu caminho.
– Você quem sabe. Portanto que não estrague nossos planos por puro capricho.
– Aonde vai? – perguntou Abáris vendo Féres se retirar.
– Dar uma volta, colocar os pensamentos em ordem. Agora Abáris, se você arrumar mais algum problema, terei que contar para Hades e seu pai. Espero não ter mais incidentes. – disse o semideus saindo deixando o outro bem irritado.
Féres pegou seu casaco preto e foi caminhar perto da vila das amazonas. Parou quando ouviu barulhos atrás das árvores. Em um único movimento, pegou o "espião" e imprensou contra uma árvore. Quando chegou bem perto, viu quem era.
– Shina?
– Me larga, seu doido. – falou a amazona empurrando o semideus.
– Não é bonito espiar as pessoas. Eu podia ter te ferido.
– Eu não perderia meu tempo te espiando.
– Então o que fazia atrás das árvores?
– E o que você faz aqui?
– Até onde sei não lhe devo satisfações.
– Qualquer um que esteja na área das amazonas, deve sim satisfações. – respondeu a amazona vermelha de raiva. Féres apesar de estar bastante irritado com aquela mulher a sua frente, não podia deixar de notar seus traços. Ela era bela e a sua personalidade forte a deixava mais interessante. – Está me ouvindo?
– Tem como eu não te ouvir? Está gritando.
– E por que ainda não foi embora?
– Você sabe com quem está falando?
– Claro que sei. E daí?
Aquela resposta o pegou de surpresa. Ela realmente não se importava ou se intimidava com quem ele era.
– Está bem. Eu sairei daqui.
– Acho bom! E da próxima vez terei que comunicar Athena sobre o ocorrido.
– Não será preciso. – falou o semideus dando as costas. – Agora, Shina, tente ser mais educada ao falar, mesmo sendo uma guerreira, antes de tudo é uma mulher e muito bonita por sinal. Pense nisso. – disse se retirando enfim.
Shina ficou irada e ao mesmo tempo intrigada com o homem. Apesar de o considerar prepotente, não conseguiu ignorar o fato dele ser muito atraente. Ele era diferente dos homens que conhecia. Mesmo com seu ar de vilão, era educado e racional. Estava pronta para ele desrespeitar suas ordens ou a tratá-la como inferior, porém foi diferente. Ao contrário, ela mesma foi muito mal educada e irritante até. Encontrava-se na defensiva e acabou sendo rude, na verdade estava acostumada a ser assim, naquele lugar onde a vontade masculina prevalece, tinha que ser sempre ríspida e grossa, para poder ser ouvida. No fundo, não gostava de ser assim, somente havia se acostumado com o seu próprio jeito. Às vezes se esquecia ser uma mulher por tentar sempre estar no nível dos outros guerreiros do Santuário. Tinha pupilos e coordenava outros cavaleiros, especialmente na segurança do local. Esse respeito imposto, foi difícil de alcançar e teve um preço alto. Por tanto tempo usou sua máscara que parte da sua personalidade, seu lado feminino havia sido perdido, coberto por aquele objeto. Agora não precisava mais usá-lo, somente nas batalhas, contudo isso talvez tenha acontecido tarde demais. A última vez que seu lado feminino e sem defesas foi mostrado, aconteceu quando o cavaleiro de Pégasus a viu em um momento distraído quando tinha acabado de treinar. Lembra de ter ficado sem jeito e depois furiosa com aquele garoto. Na época, tentava ainda construir seu respeito no lugar e aquilo poderia arruinar tudo. Teve vontade de matá-lo, até porque a regra era bem clara, mas o contrário acabou o amando. O amou profundamente, se expôs diante de todos, mas para quê? No fim das contas tudo foi em vão, o coração dele já pertencia à outra. Então, essa foi a última vez em que seu lado mulher existiu. Se fechou completamente para o amor, se enterrando por inteiro às suas obrigações de amazona. Possuía desejos e vez ou outra, tinha seu prazer saciado por uma noite, com algum desconhecido e nada mais. Pensava estar já bem resolvida com sua situação até aquele momento. Féres não havia dito nada demais, mas de alguma forma reabriu a ferida fechada há muito tempo. Ficou mexida, de fato e teria seus pensamentos torturando-a naquela noite novamente.
"Maldito" – pensou dando um murro em uma árvore. Sentiu um vazio tomar conta de si e sem poder conter, uma lágrima desceu em seu rosto. Não sabia se era o fato de não ter vivido seu amor com Seiya, se era raiva das palavras daquele homem ou simplesmente pelo fato de ter sido covarde tanto tempo. Nunca se permitiu chorar, falhar. Tudo isso era sinal de fraqueza e agora notou que era tudo máscara, atos que a impediam de se encarar de verdade, de confrontar seus desejos e sentimentos. Nesse momento, não usava mais o objeto em seu rosto, mas mesmo assim, sentiu como se o semideus tivesse o arrancado de sua face. Não queria sentir isso mais uma vez, se machucou e agora via não ter se recuperado por completo. Olhou para o céu e viu como a noite estava bela. Um sentimento de tranqüilidade percorreu seu corpo, mesmo sentindo angústia. Respirou fundo, voltando para sua casa. Sentia como se algo fosse acontecer e não importava o que seria, dessa vez, enfrentaria tudo de frente, não usaria mais nenhuma máscara daquele dia em diante.
Na Casa de Escorpião
– Até que não foi tão difícil assim essa batalha contra o Cérbero.- falou Lavínia fazendo um carinho na cabeça do escorpião, que estava deitado em seu colo.
– Mais ou menos, confesso ter pensado que seria mais difícil.
– Se os outros desafios forem assim, logo isso tudo estará resolvido.
– Não sei não. Athena não é de ficar tão preocupada à toa. Acho que a verdadeira batalha ainda está por vir. Isso foi apenas um contratempo.
– Cruzes, Milo, você falando sério desse jeito me dá até medo.
– Por quê? Não sou um rapaz sério?
– Não.
– Cara de pau.- respondeu o cavaleiro se sentando.
– Desculpe meu amor, mas pra mim sério é o Camus, o Saga, Mu, Shaka... – falava enquanto enumerava com os dedos.
– Eu sou muito responsável com meus deveres. – falou amarrando a cara.
– Eu sei disso. Não foi o que eu quis dizer. Eu apenas não estou acostumada a ouvir você falando assim tão preocupado.
– Hum, tá.
– Não fica magoado comigo. – dizia enquanto beijava o pescoço do namorado. – Por que não vamos lá pra dentro e fazemos as pazes?
Milo acabou dando um sorriso para a garota, pegando-a no colo. Chegando no quarto a colocou na cama, deitando com cuidado em cima da loir beijando ternamente. Em um dado momento, abriu os olhos e viu a figura de Ana a sua frente. Fechou os olhos de novo, abrindo rapidamente, fazendo a imagem sumir e voltando para a de Lavínia. Continuou os beijos, agora de forma mais intensa. As mãos hábeis percorriam todo o corpo da garota, fazendo-a dizer seu nome. Milo resolveu olhar novamente para ela, pois gostava de ver o prazer estampado em seu rosto, porém novamente viu Ana e dessa vez a imagem não sumia.
"O que é isso? É alguma peça? Ana você é tão bonita. Não seu idiota, isso é imaginação. Você está com a Lavínia!" pensava o cavaleiro sem se dar conta de ter parado com as carícias.
– Milo está tudo bem?
– O quê?
– Eu perguntei se você está bem.
– Sim estou. – respondeu aliviado quando sua mente parou de brincar com ele, vendo sua namorada novamente à sua frente.
– Deve estar cansado. Podemos deixar isso pra outra hora.
– É melhor. Não fica aborrecida?
– Claro que não. Apesar de ser um cavaleiro de ouro, não é de ferro. – disse a garota dando um sorriso. – Vem . – chamou a loira o aconchegando em seus braços .
Milo não conseguia ficar confortável apesar de estar se sentindo muito bem ali com sua garota. Seu corpo estava presente, porém sua mente não. Ana não saía da sua cabeça, por mais que se esforçasse em pensar em outras coisas era inevitável. Nunca passou por tal situação com nenhuma outra e agora, justo agora que tinha sossegado com alguém bacana, isso estava acontecendo. Com muito custo pegou no sono, no dia seguinte conversaria com a única pessoa capaz de dar um bom conselho: seu amigo Camus.
Bem cedo pela manhã, Milo se arrumou para ir até a Casa de Aquário. Deixou um bilhete no travesseiro dizendo que teria ido falar com o amigo e de lá iria direto para o treino. O cavaleiro subiu rapidamente até chegar na décima primeira casa. Bateu na porta com uma mão, enquanto a outra tocava a campainha.
– Vamos Camus, abre logo isso. – falava Milo consigo mesmo.
Não demorou muito e o aquariano abriu a porta de roupão e com uma expressão bem séria.
– Milo, viu que horas são? – disse Camus tentando manter a calma.- São quatro e meia da manhã.- respirou fundo- Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu.- respondeu o escorpião invadindo a casa do amigo.
Camus fechou a porta e em seguida sentou no sofá, pois sabia que mais uma seção de aconselhamento iria começar, só que dessa vez mais cedo.
– Então me diga, o que houve?
– Camus você sabe a Ana?
– Sei.
– E sabe que ela nem faz muito meu tipo, diferente da Lavínia.
– Milo, por favor seja direto. – falou o aquariano cruzando os braços.
– Tá, tá. Eu adoro minha namorada em tudo e até parei de sair com os caras.
– É eu percebi.
– Então... agora aparece a Ana, ela não faz meu tipo, mas chamou muito minha atenção.
– Sim, ela é bonita.
– Ela mexe muito comigo. Nós não trocamos muitas palavras, mas outras coisas. Não me olha com essa cara não. Ainda não fiz tudo com ela.
– Mas vejo que pretende.
– Aí é que está. Eu quero, mas não quero. Quando estou com ela, não precisamos dizer nada, simplesmente acontece. Ela tem estado em meus pensamentos constantemente. Estou confuso, a Lavínia é uma ótima garota e não merecia ser traída. Ontem eu estava com ela, dando uns amassos e a imagem da Ana vinha na minha cabeça. Eu olhava a Lavínia e via a Ana. – falou sentando ao lado do amigo com cara de frustrado. – E o pior... Afrodite propôs que eu me envolvesse com a semideusa para conseguir informações de uma possível armação deles e agora me sinto como se tivesse a traindo também. Me sinto horrível, por isso precisava falar com você antes do treino. Camus estou te esperando, não vai me dizer nada?
– O que posso te dizer a essa altura?
– Não acredito que não tem nenhum conselho pra me dar. Então fodeu de vez mesmo.
– Milo, isso está virando uma bola de neve e somente você pode resolver.
– Ah, sim, obrigado por me dizer o óbvio.
– Precisa ser sincero com as duas, por pior que seja.
– Pirou de vez? Está com o cérebro congelado? Se eu falar a verdade as duas me arrebentam.
– Não há outra saída, infelizmente.
– Beleza, madruguei aqui crente que iria sair com uma solução e você me vem com mais problemas. Valeu mesmo, iceberg. Vou indo.
– De nada. Agora só mais uma coisa: antes de ser sincero com elas, terá que ser sincero com você e com os seus sentimentos.
– Até mais, cara. – disse o escorpião contrariado fechando a porta e saindo.
Assim que virou, deu de cara com Abáris. Milo sentiu seu sangue ferver, pois no dia anterior ele tinha tentado matá-lo. O cavaleiro fechou a mão, pronto para socá-lo ali mesmo. Porém o semideus prossegui seu caminho, o ignorando por completo. Quando Milo ia atrás dele, Camus apareceu o segurando pelo braço.
– Deixe-o ir.
– Mas Camus, esse infeliz tentou me matar ontem. Não posso simplesmente ignorar.
– Milo, agora não é o momento. Não vá, por Athena.
– Está bem, mas não pense que eu engoli isso.
– Eu sei.
Passou um tempo e o dia amanheceu. Todos foram para mais um dia de treinamento. Apesar de tudo, a convivência não era mais insuportável. Na verdade estava tendo um certo entrosamento entre eles. Era sexta- feira e após o treinamento, os cavaleiros combinavam de sair naquele mesmo dia.
– Quem vai? – perguntou Kanon.
– Os de sempre.- respondeu Shura.
– Você vem com a gente, Milo, ou vai continuar de molho com a namorada? – falou Afrodite.
– Você pode chamar a Lavínia. – disse Deba.
– Só se ele for muito imbecil mesmo. Se for pra levar a adestradora, é melhor ficar em casa mesmo. – falou Máscara da Morte.
– Vai à merda, caranguejo. Pelo menos eu tenho alguém, não sou sozinho como você.
– Não vou nem dormir essa noite. – falou o canceriano acendendo um cigarro.
– Ok, meninos. Às dez e meia está bom pra todos?- perguntou Afrodite. Todos assentiram que sim. – Combinado então. Essa noite vamos tirar o estresse.
Todos foram para suas casas para mais tarde saírem. Será que só eles vão querer tirar o estresse? Hein?
