Dois Caminhos – Parte 1
Na décima terceira Casa, uma mensagem chega aos semideuses, vinda de seus pais. Todos,exceto Eros, foram convocados a ir até o submundo. Féres, Abáris e Ana partiram logo que puderam, em um momento oportuno para não levantar suspeitas. Mesmo com a existência de uma trégua entre Athena e os demais, todo cuidado era necessário. Os três deixaram os cavaleiros saírem do Santuário, para irem ao mundo dos mortos. Chegando lá, Hades e Apolo os aguardavam. Ártemis não tinha comparecido, com receio de levantar suspeitas de Zeus.
– Nosso plano está perto de ser posto em prática. Todos no Olimpo estão distraídos com a ameaça de Ofion e na Terra as energias estão voltadas para Tifão. Ambas as partes estão extremamente vulneráveis, porém devemos dar o passo seguinte com cautela, para não arriscarmos nosso próprio domínio. – falou Apolo.
– Está na hora de erradicar de vez Athena e seus cavaleiros da face da Terra, mas dessa vez, eles não terão Zeus para ajudar. – falou Hades.
– Estão preparados? Não podemos ter falhas, nenhum deslize deverá ser cometido, senão tudo será perdido. Há muito em jogo, então se alguém aqui possui uma fraqueza humana, diga de uma vez! Mesmo sendo semideuses e tendo os dois lados, tanto o mortal como o imortal, apenas um deles poderão servir. Espero que não tenham dúvidas a essa altura, pois não seremos hesitantes em acabar com qualquer um de vocês.- falou Apolo olhando de forma penetrante os três, como na tentativa de ler a alma deles.
Todos assentiram que sim. Ana sentiu um aperto com a resposta, mas se demonstrasse qualquer coisa diferente, seria exterminada ali mesmo.
– Tem mais uma coisa. – falou Hades. – Ana e Abáris, nós temos planos pra vocês. Se unirão daqui a duas semanas, selando minha aliança com Apolo e sua irmã.
A notícia bateu de forma violenta nos ouvidos da semideusa. Ela já esperava de algo assim acontecer em breve, mesmo assim sentiu-se insegura com o fato. Abáris olhava para ela de forma vitoriosa, enquanto Ana permanecia olhando para seu pai, sentindo seu corpo estremecer de nervoso.
– Será muito importante essa união de vocês, pois nos representarão na Terra, tirando a nossa necessidade de ter um corpo mortal para atuar. Deverão ter um filho em breve, ele será uma ferramenta excelente para fechar nosso domínio. Ele será praticamente imortal, e poderá andar em qualquer reino. Façam-no o mais rápido! – completou Apolo.
– Sim senhor. – falou Abáris sorrindo maleficamente.
– Já podem ir. – disse Hades.
Os três se retiraram da presença dos deuses e voltaram à Terra. Ana sentia algo a sufocar por dentro, como se estivesse sendo asfixiada. Uma agonia invadia seu ser, como nunca antes aconteceu. Acabou de ouvir sua sentença e diferente do que pensava, não podia ir contra essa situação. Tinham coisas demais em risco e sua existência era pequena em relação a tudo. A imagem de Milo veio imediatamente a sua cabeça. O cavaleiro despertava seu lado humano, tirava as trevas do seu coração e pensamento. O odiava por isso e ao mesmo tempo o amava, sendo profundamente grata a ele. Desde o primeiro dia que o viu, naquele corredor antes da reunião, sentiu algo mudar. Ninguém se encontra por acaso, nada é coincidência. Ela soube disso quando o viu.
Os três voltaram ao Santuário, se reunindo em uma biblioteca imensa do lugar.
– Está perto de acontecer. Só espero que nenhum de vocês estrague os planos! – falou Féres de forma imperativa.
– Fique tranqüilo, agora as coisas estão indo para os eixos, não é mesmo Ana? – perguntou Abáris.
– Muita coisa está em jogo. Se eu perceber que algum de vocês vai dar pra trás, eu mesmo acabo com a vida de qualquer um dos dois. – falou Féres bem decidido.
– Não será preciso, temos tudo sobre o controle. – respondeu o filho de Apolo.
– Vou sair, pensar um pouco. – falou Féres se retirando do local e deixando os dois sozinhos.
– Viu minha cara? Não falei que seria minha de qualquer forma?
– Só terá meu corpo, nunca me terá por inteiro!
– Do que está falando?- gargalhou o semideus. - De amor? Está pensando que eu quero esse sentimento barato e inútil? Eu terei o necessário, então terei tudo!
– Você é um doente!
– Não, você que está ficando humana demais. – disse ele se aproximando dela e a pegando forte pela cintura.
– Não encoste em mim! - disse o empurrando.
– Não tenho pressa. Em breve será minha. Vou me deitar, boa noite, Ana.
A semideusa foi tomada por uma tremenda ira, derrubando assim vários livros, estante, deixando um verdadeiro caos no lugar. Em seguida desceu as escadas o mais rápido que pôde, pegando a sua moto e saindo do lugar em alta velocidade. Acelerava entre os carros, como se desafiasse a própria sorte. Se batesse contra alguma coisa, não se importaria. Tinha saído sem capacete, sentia assim o vento frio cortar sua face, enquanto seus cabelos negros voavam rebeldes. Sentia as lágrimas descendo de forma descontrolada pelo rosto, caindo em sua boca. Podia sentir o gosto da sua angústia, da sua própria derrota. Mesmo indo veloz pelas ruas, ultrapassando todos os sinais, ainda sim podia ver algumas pessoas andando pelas calçadas. Alguns casais de mãos dadas, amigos conversando. Pela primeira vez sentiu inveja desses simples mortais e um forte pesar sobre quem era. Ao longe viu uma boate, o lugar chamou sua atenção. Resolveu parar sua moto e entrar para beber um pouco e tentar anestesiar sua mente. A morena entrou no local, uma música eletrônica tocava e as pessoas pareciam estar em algum tipo de êxtase dançando aquilo. Via alguns casais se pegando de forma bem quente em alguns cantos. Ana usava uma calça jeans justa, uma bota de cano longo de couro preta e uma jaqueta justa que definia muito bem suas curvas. Sentiu vários olhares sobre si, mas ignorou a todos. Foi direto para o bar, sentando em um banco.
– O que a dama vai querer? – perguntou o barman dando uma conferida nela.
– Qualquer coisa. Se for forte, pra mim já está bom. – respondeu de imediato.
O barman pegou uma garrafa de Devil Springs Vodka e serviu uma dose para a mulher. (gente essa bebida é a segunda mais forte do mundo, pior que absinto!) Ana virou tudo de uma vez e pediu outra.
– Vai com calma, isso é muito forte!
– Vai me dar outra ou não?
O barman logo trouxe outra dose para ela. A morena virou novamente o copo e em só fôlego tomou novamente tudo.
– Ei, me vê aí uma cerveja. – pediu um homem se aproximando do balcão. A voz era familiar e apesar de já estar alta com as duas doses, pôde reconhecer quem era. Involuntariamente se virou pousando seu olhar sobre Milo, chamando sua atenção.
– Ana? Oi, o que faz aqui? Está sozinha, não está? – perguntou o escorpião com cautela.
– Estou sim.
– Posso te fazer companhia?
– Não precisa, não quero problemas com a sua namorada, além do mais já vou indo.
– Eu não vim com a Lavínia e ela não é minha namorada, já disse. – falou o escorpião se sentando num banco do lado da morena.
– Por favor, não insulte minha inteligência.
– Está aborrecida?
– Com o fato de você tentar me enrolar?
– Também, mas não é isso. Está triste, o que aconteceu?
A pergunta do cavaleiro a pegou de surpresa, não só pelo fato dele ter notado seu sentimento, mas também por ele parecer se importar com ela.
– Isso faz alguma diferença pra você?
– Faz!
– Não vai me ganhar cavaleiro fingindo se importar comigo. – disse com certo pesar.
– Ana, sei que não está acostumada com delicadezas ou demonstrações de sentimentos...
– O que foi? Está com pena de mim agora?
– Pare de ficar tanto na defensiva, mulher! Nossa! Eu me importo com você, de verdade e pra ser sincero, nem sei por quê. – falou o escorpião dando uma golada em sua bebida. – Agora me diga, o que está te deixando assim? Peraí, tenho um palpite, deve ser aquele mala do Abáris, acertei?
Ana deu um meio sorriso e ficou com um semblante sério e triste em seguida. O cavaleiro notou sua expressão e viu percebeu da coisa ser mais séria do que aparentava.
– Eu vou me casar com ele daqui a duas semanas. – disse enfim.
– Bem, eu, não sei o que te dizer.
– Não tem mesmo o que ser dito.
– Você não tem mesmo escolha?
– Não.
– Mas por quê?
– Eu não posso te explicar, tem muita coisa envolvida Milo.
– Sinto muito.
– Sente?
– Sinto. – disse o cavaleiro com um olhar triste para ela.
Ana começou a chorar sendo abraçada por ele. O escorpião a envolvia de forma calorosa, cheia de carinho e também pesar. Também sentia triste com a notícia, gostaria de ter vivido algo com ela. Seria essa a sinceridade com ele mesmo que seu amigo Camus havia dito? Naquela hora, desejava e queria apenas ela, ninguém mais. Naquele abraço sentia o seu cheiro inebriante, seu calor, sua respiração, todo o seu ser e tudo isso seria tirado dele com o prazo de duas semanas.
– Ana, vamos sair daqui. – falou ele a pegando pela mão e em seguida a guiando entre as pessoas da pista.
Do outro lado da boate, Afrodite e Aiolia viram os dois saindo apressados.
– Você está vendo o que estou vendo? – perguntou Aiolia ao amigo.
– Ahan. – disse o pisciano de boca aberta.
– Afrodite, nosso amigo não estaria se envolvendo com o lado inimigo, estaria?
– Temo que sim! Pela deusa!
– Não vamos comentar nada com ninguém, ouviu?- disse enfático o leonino, pois sabia da língua grande do amigo.
– Minha boca é um túmulo!
– Sei.
Do lado de fora, Ana caminhou até a sua moto, levando o cavaleiro.
– Eu não vou andar nisso aí com você nesse estado.
– Você é um cavaleiro ou um frouxo? – desafiou a semideusa.
– Eu não sou burro, na primeira curva vai ser "adeus Milo".
A semideusa ignorou a advertência dele, achando até graça no que havia dito, subindo na moto e a ligando.
– Pra onde você vai com isso? Anda, desça logo daí.
– Pensei que gostasse de um pouco de adrenalina, escorpião. Se não gosta, já vou indo.
– Não espere! Eu vou com você. – falou subindo na parte de trás do veículo.
– Sabia! – falou vitoriosa.
– Você não me convenceu! Eu estou aqui pra tomar conta dessa sua maluquice.
– Tá bom. – disse a morena dando partida em seguida e já em alta velocidade. A partir desse momento, seus destinos estariam selados de vez, podendo ser a derrota ou a vitória, a dor ou a felicidade para ambos.
