O QUE FOR

CAPITULO 2. Pesadelo e Revelação

– Miyavi? – chamou o rapaz loiro, novamente.

– Hã?

– Tome, eu trouxe café. – estendeu-lhe um copinho - Está aqui há horas. Não pode ficar aqui sem tomar nada.

Ele aceitou, agradecendo em silêncio, meneando a cabeça. Tomou um gole, mas logo voltou sua atenção a ele.

– No que está pensando? – perguntou-lhe, temeroso, vigiando o modo com que ele olhava para Kai.

– Não estou pensando em nada. Só lembrando... de tudo que passamos juntos.

– Eu me lembro todos os dias. – completou, parecendo desafiador, mas sua voz estava levemente embargada. Ultimamente, isso acontecia com alguma freqüência. – Nem dá pra acreditar que está acontecendo... nem parece que já tem tanto tempo!

– Mais de três meses... o tempo passa muito depressa.

– Sim, três meses, mas ele vai acordar. Eu sei que vai. – começou a falar, como se devesse já espantar qualquer argumento que ele quisesse usar.

– Eu não estou aqui para falar nada sobre isso. Imagino como está se sentindo, deve ser muito difícil.

– Realmente deve ser muito difícil quando se é um obstáculo. Vocês querem matá-lo.

– Que idéia absurda é essa?! Ninguém quer matar o Kai! De onde tirou essa idéia?

– Querem desligar os aparelhos! Droga... ele não é responsabilidade de vocês. Kai está custando muito caro, não é? Eu pago o tratamento. Posso custear tudo sozinho.

– Ninguém disse nada, Miyavi! Está louco? – o loiro arregalou os olhos, indignado com o que acabara de ouvir - Ele significa muito pra nós. Ele não é só o líder do The Gazette, é o nosso amigo! É o cara que sempre esqueceu dele mesmo pra cuidar da gente. Ele é a minha família! A de todo mundo! Nós pagaríamos qualquer preço se houvesse algo a ser feito... mas não há! Está sendo tão difícil pra gente quanto pra você.

– Não, você não faz idéia, Reita. – mais uma vez sentiu a garganta doer e a voz embargar, mas escondeu isso através de uma agressividade já usual – Eu amo o Kai! Eu nunca me achei capaz de amar alguém como eu o amo! Ele é a minha vida inteira! Você não pode saber como estou me sentindo. O Ruki está lá fora, acordado, trabalhando do seu lado. Não é ele quem está nessa cama há três meses.

Reita ficou impressionado com aquela agressividade, a fúria latente... mas não se incomodou porque compreendia.

– Eu apenas disse que imagino. – disse, pacientemente – Imagino porque não sei como reagiria se algo acontecesse com Takanori. Tenho medo só de pensar. Eu sei que morreria. Talvez estivesse como você está agora... sempre na cabeceira da cama, tentando protegê-lo de tudo e de todos, e disposto a qualquer coisa para tê-lo de volta... – hesitou, pronto para conter um soluço de choro. – Mas talvez eu pensasse em Ruki... no quanto ele está sofrendo... e no quanto eu posso estar sendo egoísta em mantê-lo assim, mesmo sofrendo.

Ele se levantou, rápido, sem aviso. Os olhos o acompanharam silenciosamente até a porta, onde passou como se fosse um jato. Não deixou que ele visse as lágrimas, mas Miyavi sabia que havia. Reita realmente imaginara Ruki naquela situação. Talvez fosse mais do que ele pudesse suportar.

Foi quando sentiu todo o cansaço da vigília bater. Seu corpo parecia tão pesado! Desse modo, decidiu atender ao apelo de seu corpo permitindo que seus olhos se fechassem. Antes, buscou a mão de Kai, segurando-a delicadamente. Sentia-se melhor assim, como se desse modo pudesse protegê-lo.

ooOooOooO

– Myv! Myv, onegai ! Não deixa! Faz parar! Faz parar!

O som ecoava pelo lugar. A voz... aquela voz que tanto queria ouvir! Seria possível!

Kai!

Olhou para o lado. Não sabia a razão, mas estava distante de sua cama, viu-se praticamente do outro lado do quarto. Tentou se aproximar, mas não foi nada fácil. Era como se algo não deixasse que ele chegasse mais perto. Havia várias pessoas em volta, todas de branco. Eram médicos e enfermeiras em mais um exame. No leito, o rapaz se debatia, gritava a plenos pulmões, implorava, mas ninguém lhe dava atenção.

Kai...?

– Myv! Myv, onegai! Não deixa! Onegai!

Seus olhos estavam vermelhos, assim como parte do seu rosto, pelo esforço de gritar. Seu rosto estava molhado pelas lágrimas abundantes e a respiração falha. Estava coberto por um suor frio. O choro era alto. Parecia um cenário de filmes de terror.

– Calma, é pro seu bem! – Miyavi tentou acalmá-lo, pensando que ele não deveria se esforçar tanto nesse primeiro momento. Isso poderia lhe fazer mal.

– Isso dói muito...! Onegai, Myv... eu não agüento mais!

E veio um grito de dor.

A expressão de quem estava em volta era indiferente. O exame prosseguia. As várias agulhas em suas veias. Medições constantes e palavras cujo significado não conseguia entender enquanto Kai, mortalmente pálido se encolhia, desesperado. Em seus lábios, ainda ouvia o seu nome, implorando por ajuda, só que ninguém mais parecia ouvir. A respiração entrecortada de quem estava quase desistindo, de quem não restava mais a quem apelar senão às preces sem garantias de realização.

Apenas Miyavi podia ouvi-lo. Apenas ele poderia se importar. Só ele podia fazer com que a dor parasse... Mas ele não podia fazer nada, Miyavi não entendia.

– Onegai... – foi uma última tentativa sussurrada antes que se sentisse fraco demais e fechasse novamente os olhos.

– NÃÃÃÕOO!

ooOooOooO

– Miyavi! Miyavi, acorda!

– Hã? O que? O que houve, Reita?

– Eu não sei! Você estava dormindo... se mexendo que nem um doido!

Os olhos foram direto para Kai, que continuava na mesma.

– Kai? – nervoso, levantou rapidamente tocando-lhe o rosto e seu pulso. – O que houve? O que fizeram com ele?

– Não fizeram nada! Ninguém entrou aqui.

– Ele... – ia falar sobre o que vira, mas hesitou ao ver o rosto de Akira. Ele não entenderia. Nunca acreditaria. Engoliu as palavras. Tentou controlar a respiração ofegante.

– Foi só um pesadelo. Não aconteceu nada. Ninguém fez nada com ele.

Akira tinha razão. Devia ter sido um pesadelo. Sim, não podia ser outra coisa. Passou a mão sobre os cabelos, e concordou meneando a cabeça.

– Você devia sair e descansar um pouco. Já está aqui há muito tempo.

– É... talvez. Daqui a pouco eu saio pra dar uma volta.

Reita concordou e saiu do quarto, deixando-os novamente a sós. Rapidamente, Miyavi se despiu daquela tranqüilidade que demonstrara a Akira e voltou seus olhos para Kai, num exame minucioso.

Nenhuma mudança. Nenhuma marca. Sua pele estava pálida, mas não havia sinal de gritos ou choro.

Sim. Aquilo só podia ter sido um pesadelo. Só um pesadelo.

Mas, por que mesmo sabendo disso, não conseguia ficar calmo?

ooOooOooO

Dias se passaram. Miyavi não dormia mais. Tinham medo. A cada cochilo, ainda que mínimo vinham as imagens de terror. Em todos os seus sonhos, Kai surgia da mesma forma: aos gritos, desesperado, implorando por algo que não conseguia compreender. Mas bastava abrir os olhos para encontrá-lo do mesmo jeito, naquele sono profundo. Maldito sono.

Todos os dias, sentava ao seu lado procurando alguma evidência de que aquilo era apenas um pesadelo. De fato, nunca havia marcas que indicassem ser outra coisa. No seu rosto nenhum indício do desespero que via enquanto sonhava.

Por que está fazendo isso comigo, Kai? O que você quer me dizer? Por favor me deixe entender!

Não houve trégua. Os sonhos eram nítidos e se sobrepunham às lembranças boas que tentava buscar como fuga. Ele sempre aparecia chorando, encolhido, em pânico. Era horrível vê-lo daquela forma.

Myv... – sua voz não passava de um fraco sussurro depois dos gritos – Isso é mais do que eu posso suportar... – seu corpo inteiro tremia. – Gomen... me perdoa... onegai... me deixa ir.

Então era isso? Era um pedido?

– Isso é mais do que eu posso suportar... gomen... isso dói muito. Eu não agüento mais!

Então entendeu: Kai estava sofrendo. Mesmo que não pudesse demonstrar, ele sentia dores terríveis. A cada sonho era um pedido de socorro. Não agüentava mais.

– Mas... é pro seu bem...! Nós precisamos fazer isso pra que você possa voltar pra gente!

– Myv, eu não vou voltar. Não vou mais acordar. Estou preso aqui, mas você não me deixa ir.

– Não! – protestou. Isso era um absurdo! Não podia deixá-lo falar desse jeito - Você está vivo! Está respirando! Você vai acordar, eu sei disso!

Kai apenas balançava a cabeça, ainda encolhido, tentando se proteger de uma ameaça invisível. Miyavi tentava tocá-lo, consolá-lo, mas não podia.

– Estou morto, Myv. Não pode querer lutar contra isso. Estou preso aqui porque você não me deixa ir. Só estou aqui ainda por sua causa. Eu te amo, mas isso é muito mais do que posso aguentar.

As lágrimas rolavam. Cada palavra que ouvia de Kai feria profundamente. Então era isso? Uma batalha perdida? Ele era culpado? Mesmo querendo protegê-lo, achando que demonstrava o seu amor ainda conseguia machucá-lo?

Kai estava morto, e ao não aceitar isso, apenas fazia com que ele sofresse. Reita tinha razão. Estava sendo egoísta. Seu egoísmo ainda fazia mal a última pessoa a quem desejava qualquer coisa de ruim.

Então percebeu que só havia uma coisa a ser feita. Por mais que lhe doesse.

ooOooOooO

Foi numa madrugada que voltou ao hospital. Ninguém que o tenha visto naquela hora estranhou sua presença ou sua expressão carregada. Os funcionários já estavam acostumados com a figura do cantor de cabelos coloridos circulando pelos corredores.

Abriu a porta devagar e entrou sem fazer barulho, como sempre. Aproximou-se do leito. Tocou os cabelos de Kai, inerte, indiferente ao seu toque. Miyavi não se impacientou, apenas sorriu tentando manter uma serenidade que lhe custava muito. Sempre soube que ele não era indiferente a sua presença. Agora tinha a certeza.

As lágrimas rolaram por seu rosto. Impiedosas. A verdade podia ser cruel, mas era o único caminho.