O QUE FOR

Capítulo 3. Epílogo

Sentado em um dos bancos do parque, o rapaz de piercings e cabelos coloridos observava o lago e as aves que desfrutavam daquele sol e da água fresca. Seus olhos estavam perdidos, mirando o vazio.

Na realidade, sentia-se vazio por dentro. Não havia mais motivos para se sentir de outra forma. Não tinha desejos, não queria nada, absolutamente nada.

Não queria mais cantar. Não via sentido em subir nos palcos e sorrir para milhares de pessoas quando a única que importava naquele momento não estava mais ali. Não podia cantar sem alma, e perdera a sua quando ele se fora.

Daria tudo para que o tempo voltasse para não estar passando por isso. Se não o tivesse deixado sozinho naquela noite... se ao menos tivesse o abraçado forte... dito uma palavra de carinho e não aquelas acusações... poderia ter mudado o rumo das coisas?

Ao menos agora sabia que ele não sofria mais. Saber disso lhe dava uma sensação de alívio, mesmo que isso significasse seu próprio sofrimento. Amava-o suficiente para não querer que ele sofresse.

Naquela madrugada em que entrara em seu quarto, tinha um propósito bem definido. Fazer com que tudo aquilo acabasse, libertá-lo de toda a dor que poderia sentir.

Sentou ao seu lado, pegou sua mão. Não queria mais sentir o seu calor. Queria apenas passar um pouco de seu calor a ele.

– Kai... eu pensei muito... sei que está sofrendo, e está aqui só por minha ter feito você passar por tudo isso, não sabia que estava te fazendo mal.

A voz tornou-se rouca. Sua garganta doía como se quisessem sufocá-lo. Cada palavra era dolorosa demais, mas precisava dizê-las por mais que lhe custasse. Cada uma delas significava muito.

Significava perder tudo, todos os sonhos, esperanças, sua fé. Negar tudo o que acreditava.

Mas também significavam a liberdade da pessoa que mais amava no mundo.

– Gomen... eu não queria que você sofresse. Eu te amo, Kai. Te amo tanto que agora eu sei que o melhor que posso fazer por você é te deixar partir.

Kai morreu algumas horas depois. Sua respiração tornou-se exangue, quase imperceptível. Uma febre baixa e repentina tomou-lhe o restante das forças, levando-o sem resistência. Rápido, suave e sem dor. Ele se libertara, finalmente.

Naquela noite, Miyavi colocou-o em seus braços, aninhando seu corpo já sem vida e abraçando-o com força. Queria senti-lo mais perto, pela última vez. Queria aquecê-lo, estava tão frio! Queria protegê-lo, como deveria ter feito há mais tempo.

Sussurrou pedidos de perdão, inúteis àquela altura. Sussurrou também as palavras de amor que estavam presas em sua garganta naqueles mais de três meses.

Molhou-lhe o rosto com suas lágrimas quentes. Beijou seus lábios frios sem esperar qualquer coisa a mais. Contemplou seu rosto pálido sentindo a falta daquele sorriso alegre. Últimos atos para não deixar que tudo se esvaísse.

Último gesto antes que restassem apenas as lembranças.

Lembranças não faltariam nunca, mas tudo parecia ter valor ínfimo. Suas fotos, os vídeos, as músicas, suas cinzas, as lágrimas dos outros, derramadas em sua memória... para Miyavi nada que fizesse jus ao que ele significava.

Ver suas fotos, não refletiam em nada a dimensão de seu sorriso. Os vídeos pouco mostravam sua alegria, sua generosidade. Nada do que lesse poderia chegar perto da lembrança de sua expressão sem graça de quando esquecia alguma coisa, ou sobre como ele se esmerava em cuidar dos que estavam a sua volta.

O pranto sincero dos seus companheiros de banda, abraçados numa tentativa inútil de consolo, o choro efêmero dos fãs e o pesar extremo de sua família não refletiam um décimo do amor que aquelas pessoas lhe dedicavam. Seus pais, seus amigos, os fãs: a família que costumava dizer: escolhera para si.

Aqueles objetos eram apenas estopins para despertar as recordações. Necessários porque tinha medo de esquecer. Sabia que o tempo e a memória pregavam peças e não queria ser pego desprevenido.

Doía lembrar dele, mas ainda assim era uma dor boa e que buscava todos os dias. As lágrimas vinham fáceis e Miyavi não fazia qualquer esforço para contê-las. Eram tanto o remédio amargo quanto o bálsamo, porque significavam seu afeto, o seu amor... e Kai merecia qualquer demonstração que pudesse oferecer.

Kai merecia tudo e Miyavi sentia-se como se não tivesse lhe oferecido qualquer coisa. Dera a ele o ínfimo enquanto Kai lhe dera o mundo, a razão e tudo o que havia de bom. Já de sua parte, dera a ele sentimentos ruins, tristeza, cobranças... nada do que ele precisava. Pensou nisso enquanto o abraçava pela última vez, pensou nisso em seu funeral, pensava nisso todos os dias.

Não tinha razão em estar ali, vivo se não tinha mais alma. Perdera a razão e o estímulo ao deixar que ele se fosse. Restava o alívio, por saber que não estava mais sofrendo. Não suportaria mais vê-lo como naqueles sonhos. Preferia que ele estivesse bem, mesmo que significasse sua tristeza.

Aliás, poderia esquecer essa tristeza se levasse a cabo a idéia que tinha de ir para junto dele. Por várias vezes estivera muito perto disso, fosse com uma lâmina de barbear, ou um vidro de calmantes ou olhando pela janela de seu apartamento mas sempre algo o impedia de continuar. Era como se na hora derradeira acabasse caindo em si. Não era capaz de acabar com a própria vida.

Por que, Kai? Por que me abandonou? Por que eu não posso ir com você?

A resposta vinha através da voz de Kai, em tom suave e conciliador de como sempre se lembrava. Não sabia se era sonho ou fruto da sua mente solitária, mas de qualquer forma, acreditava.

– Eu disse que ia partir, mas não que ia te abandonar. Nós vamos nos encontrar, mas na hora certa. Vou te esperar, Myv... você vai me esperar também?

Não se sentia capaz de esperar, mas no fim Miyavi esperava. Cada sonho, visão ou palavra era um pequeno estímulo para suportar a mesmice de seus dias, o arrastar das horas.

A cada noite, mesmo que fria, sentia-se aquecido. Protegido ainda que estivesse sozinho. Encontrava paz, embalado por lembranças de tempos doces.

Era como se ele estivesse ali, protegendo-o, consolando-o, incentivando-o aos poucos a retomar sua vida, sussurrando conselhos e dando-lhe novos desejos, despertando novas vontades.

Não sabia o que era, se a verdade ou sua imaginação tentando protegê-lo da dor... mas se era Kai quem lhe dizia, era essa voz que seguiria. Esqueceria a pressa. Esperaria o tempo que fosse preciso.

Até que a hora certa chegasse. Até o dia em que ficariam juntos novamente. Nesse dia, dariam as mãos e caminhariam rumo a eternidade.

Por esse dia esperaria até o fim. Um novo começo.

Fim