Aproximadamente duas semanas tinham se passado desde a última vez que Ana e Milo se encontraram naquela noite. Faltavam apenas dois dias para o casamento da semideusa com Abáris e nesse meio tempo, ela ficou a maior parte dos dias ausente do Santuário, porém ainda presente na batalha contra os deuses Tifão e Ofion. As forças desse último deus estava bem reprimida no Olimpo, depois de muito sangue derramado em solo sagrado. Ainda faltava um pouco mais para definir de vez o resultado e o expulsar para o Tártaro. Ana ajudou a comandar uma parte das forças de Hades, para bloquear o recuo dos guerreiros de Ofion,evitando a chegada deles à Terra e sua união à Tifão e seus filhos semideuses. Aquela estratégia era eficiente e árdua, pois os cavaleiros do deus inimigo estavam investindo com todas as suas forças para retornarem à Terra. O primeiro motivo era o medo deles do castigo dos deuses do Olimpo a outra razão era porque o deus que eles serviam, teria adotado uma nova tática de guerra: ele arriscaria o que havia lhe restado, sem se importar com as conseqüências. Para conseguir esse feito, precisaria do apoio de Tifão. Este ainda estava em condições de ajudá-lo por não ter começado a atacar de forma incisiva. Em meio a tudo isso, a cerimônia de união entre os semideuses ainda assim era algo indispensável, para dar continuidade aos planos de seus pais. O momento era oportuno ao ver deles.

Milo nesse tempo estava pensativo e lembrava e relembrava a noite que tivera com Ana. Sentia-se impotente vendo o casamento se aproximar e sem poder fazer nada. Doía de forma angustiante o fato de vê-la se entregar ao desprezível do Abáris. O cavaleiro estava sentado na escadaria de sua casa quando Afrodite e Saga apareceram.

– Estou com dó de te ver assim, fofo. Tudo por causa daquela enviada dos infernos. – disse o pisciano sentando ao seu lado.

– Não fala assim dela, por favor. – respondeu o escorpião totalmente desanimado.

– Cruzes! Nem estou te reconhecendo! Nós te falamos na armação do plano para não se envolver com a fulaninha.

– Afrodite, nunca teve plano algum. Eu apenas não queria admitir na época o que sentia por ela.

– Ela irá se casar daqui a dois dias, não é mesmo? – perguntou Saga de pé na frente do amigo.

– Sim vai e aquele filho de chocadeira faz questão de ser aqui a cerimônia.

– Filho, se você gosta tanto da bruxa de Salém assim, por que não a rapta?Melhor acaba logo com a raça daquele infeliz do Abáris, ô cara nojento aquele. Você iria resolver vários probleminhas ao mesmo tempo. Olha que maravilha!

– Perdeu o juízo de vez? Isso aqui não é como as novelas que você assiste, Afrodite! Ele não pode fazer nada a respeito, infelizmente.

– Ah, não não e não! – falou o pisciano batendo nas próprias pernas. – Não podemos deixar nosso amiguinho de mãos vazias! A Lavínia vazou, então ele não vai poder ficar sozinho, de jeito nenhum! Não vai morrer na praia, pois Afrodite de Peixes, não vai...

– Dite, eu vou entrar. Obrigado pela força, mas não tem mesmo jeito. Boa noite pra vocês. – falou Milo se levantando e adentrando sua casa, deixando-os sozinhos.

– Coitado do escorpiãozinho. Tadinho! Nunca pensei de vê-lo assim por causa de uma mulher. Não é possível não ter nada que possamos fazer, Saga.

– Infelizmente não há. Sinto muito por ele, porém estou achando essa união dos dois nesse momento muito suspeita.

– Por quê?

– Eles não se amam, então não há motivo para tamanha pressa. Aí tem coisa.

– Vendo por esse lado. Será que Athena desconfia de algo?

– Provável, porém a única coisa a ser feita é aguardar e observar os passos seguintes. Não podemos nos precipitar.

– Pois eu não tenho paciência pra isso. Vocês são muito frios. Tem logo é que rasgar o verbo mesmo, colocar a desgraça daquele semideus contra parede e dar uns tapas. Que isso? Comigo não! Se eu fosse Milo daria um jeito nisso e se fosse Athena desceria logo do salto.

– Afrodite

– O quê?

– Se você fosse mestre desse Santuário por um dia, não consigo imaginar no caos que isso aqui ficaria.

– Caos? Tudo aqui seria lindo e perfeito e todos seriam bem sinceros com seus sentimentos.

– Ahan

– O que quer dizer com "ahan"?

– Boa noite, vou descendo, estou cansado.

– Não acabamos essa conversa! Saga!

O cavaleiro de gêmeos não se deu ao trabalho de continuar aquela discussão, apenas dando um aceno, enquanto descia em direção a sua casa.

Naquela mesma noite, Lavínia foi se encontrar com Eros debaixo da árvore, perto da vila das amazonas. Faziam isso com certa freqüência, pois tinham se tornados amigos desde o dia da separação dela com o escorpião. O semideus sempre chegava primeiro ao local do encontro, pois a garota sempre conseguia se atrasar. Era já um hábito, afinal seu ex nunca fora pontual, ela sempre ficava esperando um bom tempo todas as vezes. Aqueles encontros com o filho da Afrodite, faziam muito bem a ela. Tudo ainda estava muito recente, porém quando ficava com ele seu sentimento de mágoa ficava um pouco de lado e ela conseguia sorrir. Eros era diferente de Milo e dos outros rapazes. Ele possuía uma inocência jamais vista por ela e tudo nele era muito sincero. Outra coisa que a impressionava muito, era o fato dele sempre estar disposto a ouvi-la, isso é muito, mas muito difícil um homem fazer. Seu ex normalmente ouvia o início da conversa com boa vontade, porém chegava a uma certa altura que era visível ele estar pensando em outras coisas, sendo sexo na maioria das vezes. A loira se aproximava do semideus, enquanto pensava em várias coisas, quando parou ao vê-lo. Eros provavelmente estava conversando naquele momento com sua mãe, pois sentia um cosmo extremamente bondoso vindo dali, além de um perfume de rosas tomando conta do lugar. Esse cheiro era marca registrada da deusa. Porém, o que mais chamou a atenção da garota foi sem dúvida o fato dele ter asas! O semideus estava em sua forma original, pode parecer estranho pensar em um homem com asas, porém era a imagem mais bonita que ela havia visto. O loiro tinha suas asas brancas postas para trás, enquanto permanecia de olhos fechados como se estivesse orando. Uma energia dourada o circulava, enquanto a lua permanecia prateada bem no alto, iluminando todo o lugar. Quando a garota deu mais um passo, pisou em um galho seco, quebrando-o. Eros voltou a sua atenção para a origem do barulho,se deparando com Lavínia. O semideus ficou completamente transtornado por ela tê-lo visto na sua forma normal. Os dois se olhavam firmemente, até ela resolver se aproximar. Eros deu dois passos para trás, nervoso com a reação dela. Nunca mortal alguma o tinha visto daquele jeito. A loira ficou frente a frente com ele, acariciando em seguida sua face, estando ainda vislumbrada com aquela visão. Ele ainda permanecia hesitante, porém foi relaxando ao toque macio de suas mãos. A garota deu um sorriso sem conseguir esconder tamanha admiração.

– Lavínia você não deveria ter me visto assim.

– Você é muito egoísta, senhor Eros.

– Egoísta?

– Como poderia querer me privar de tal visão? É muito egoísmo seu querer esconder isso de mim! – falou dando um sorriso e o abraçando.

Eros sentia todo o seu corpo reagir com aquilo, retribuindo de forma calorosa aquele abraço. Logo a garota levantou a cabeça, encarando seus olhos azuis profundos e sem pensar, deu-lhe um beijo. Tal atitude o pegou de surpresa, porém retribuiu aquilo. O beijo do semideus não era carregado de desejo, era algo puro e sua boca era macia como se nunca tivesse sido tocada. As suas asas a envolveram, como se a protegesse do mundo e de todo o sofrimento. A partir daquele momento, ele cuidaria dela, não permitindo que mal algum a atingisse mais.

Na vila das amazonas, na casa da amazona de cobra, Féres a observava dormir depois de terem tido um momento juntos. Ele começava a questionar se era viável aquele tipo de envolvimento. Não poderia aceitar qualquer tipo de sentimento tomar conta da sua razão, porém parecia impossível a ele mesmo dizer que aquela mulher não era necessária, somente um passatempo. Os dias corriam de maneira assustadora, fazendo o plano se aproximar cada vez mais. Logo aquela amazona seria sua inimiga novamente e a mataria se fosse necessário. O semideus sentou ao seu lado na cama, tirando o cabelo do rosto de Shina, o permitindo ver toda a sua beleza em seu sono tranqüilo. Começou a se questionar se teria coragem de feri-la, de acabar com a vida da única pessoa que o conhecia de fato. Acostumado ao caos e falta de humanidade, a presença da amazona em sua existência o levava a questionar suas atitudes. Uma súbita ira tomou conta dele, quando se deu conta que aquela mulher o amolecia, aquilo poderia colocar tudo a perder. Sentiu uma vontade de acabar com ela ali mesmo. Suas mãos hesitaram por um momento, mas logo pegaram forte no pescoço da amazona a fazendo despertar bruscamente. Ele apertava com força,cortando o ar dela, porém Shina resolveu não reagir. Apenas fechou os olhos como se aceitasse seu destino. Novamente um homem a feria. Preferia morrer mesmo ao ter que encarar esse tipo de sofrimento novamente. A amazona já estava prestes a perder os sentidos, quando Féres a largou. O semideus se levantou subitamente, enquanto ela recuperava o fôlego.

– Por que não acabou comigo, Féres?

O semideus não conseguiu responder a pergunta. Ele a olhou atordoado, saindo imediatamente do lugar. Féres correu muito rápido, chegando a ficar exausto em certo ponto. Foi direto para seu quarto, assim que chegou na décima terceira casa. Uma raiva de si mesmo o dominava. Sentia-se o tolo dos tolos, por se encontrar em tal situação. Lembrou-se de Ana e Abáris, ambos eram repreendidos por ele, pois estes colocavam sua razão a serviço dos seus desejos. Agora, ele, Féres estava na mesma situação. Que peça pregada pelo destino! O semideus ainda sentia o cheiro dela em seu corpo, resolvendo então tomar imediatamente um bom banho. Tomava um banho gelado, apesar do inverno grego. Talvez o fizesse para esfriar a cabeça com a raiva que sentia, talvez fosse para tentar em vão adormecer seus sentimentos em relação a ela, contudo era parecia apenas um paliativo e mais cedo ou mais tarde, encararia tudo isso de frente, tendo de escolher o caminho a seguir: ou ela e uma vida mais preenchida ou seus deveres e a razão, que o levava a uma solitária existência.