Na Travessia

Os cavaleiros olhavam aquele limite que dividia os dois mundos. Estranhavam não ter ninguém ali para impedi-los de passar.

– Isso não está cheirando bem. – comentava Máscara para Kanon.

– Também vejo ter algo errado aí, mas não temos outra escolha. Devemos ir até o cosmo de Athena e salvá-la.

Nessa hora, Dohko foi à frente dos guerreiros atenienses para falar. Todos voltaram suas atenções a ele, desde os cavaleiros de bronze aos de ouro.

– Preparem-se cavaleiros, fiquem alertas! Iremos sair agora do nosso mundo e adentrar o dos deuses. Não se enganem com o que viram até agora, eles estão esperando por nós do outro lado. Aparentemente será fácil, pois ninguém nos impediu até o momento, mas ouçam quem já presenciou duas guerras santas, essa será uma das mais difíceis já enfrentadas. Muitos de vocês não retornaram então lhes dou uma última chance para decidirem se é isso mesmo que querem. – falava o ancião olhando especialmente para os novatos – Ninguém os julgará, quem quiser pode voltar, depois isso não será mais possível.

Alguns garotos e duas amazonas recém-formados decidiram retornar. Olharam com pesar todos, mas foram embora dali.

– Mais alguém? – continuou o libriano sem ver mais desistências– Então boa sorte a todos.

Os guerreiros atravessaram apressados o limite e em pouco tempo tinham chegado no outro lado. Cada vez mais o cosmo da deusa se tornava mais presente, mais forte, guiando-os. Eles iam seguindo atentos por um caminho rochoso, passando por uma espécie de templo abandonado. Sentiam o tempo passar de maneira diferente no lugar e quando observaram o céu, puderam notar o Sol e a Lua presentes no mesmo azul. A cada passo dado, notavam uma estranha cosmo energia se aproximando, fazendo-os parar.

– Por que pararam cavaleiros? Sua deusa os espera. – disse uma voz ecoando em todo o lugar. Alguns dali reconheceram imediatamente quem era.

– Ártemis! – disse Seiya que já enfrentou bem de perto a deusa em outra ocasião.

Ao dizer isso, uma espécie de vórtice temporal se abriu, engolindo todos.

– O que está acontecendo? – gritou Lavínia segurando o braço de Milo.

– Não sei, mas não se solte de mim.

Em pouco tempo aquele fenômeno causado pela deusa, os levou diretamente para a entrada do templo onde eram aguardados. Quando iniciaram sua caminhada, passando pelo portão principal, o caminho à frente ficou turvo e em seguida se dividiu em vários outros, como resultado de uma ilusão criada.

– Mas que porra! E agora? – esbravejou o canceriano.

– Temos que nos dividir, não podemos perder tempo. – disse Shura

– Não tem como vocês desfazerem essa ilusão? – perguntou Ikki aos gêmeos.

– Não, infelizmente. – respondeu Saga

– E por que não?

– Ikki, apenas podemos desfazer ilusões de inimigos que estão ao nosso alcance e quem fez isso não está presente.

– Pois eu não me importo de ter que percorrer todos os caminhos até achar o certo e salvar Athena. – falou Seiya de forma decidida e correndo em direção a um deles.

O seu gesto foi seguido por todos que se dividiram, porém alguns caminhos ficaram somente com cavaleiros de prata, sem nenhum de ouro junto para liderar. No céu que tinha a Lua e o Sol ao mesmo tempo, ficou sem esses dois astros, deixando uma profunda escuridão no lugar, dificultando a visão dos combatentes. Com receio e cuidado, iam avançando e à medida que faziam isso, cosmos se tornavam presentes. Sussurros e sombras passavam apressados por eles, deixando os menos experientes em batalhas assustados.

"Peguem todos" sussurrava uma sombra de maneira quase inaudível

"Morte aos cavaleiros de Athena" dizia um outro

– Quem está aí? Apareça! – dizia um dos recém-formados no Santuário junto de outros. Eles estavam logo atrás de Marin que os guiava pelo caminho, por ser uma amazona experiente.

Pressentindo um ataque, Marin elevou seu cosmo.

– Preparem-se, vão nos atacar! – gritava ela chamando a atenção dos novatos. – Fiquem juntos, não se dispersem!

Mal acabou de falar e feixes de luz passaram por entre árvores ao redor do caminho, atingindo de forma certeira e fatal dois rapazes. Uma garota e outro novato entraram em pânico ao ver a cabeça de um deles rolar em sua direção ao se separar do corpo. Os dois ficaram em choque e começaram a correr para longe da amazona de águia, ficando totalmente vulneráveis naquela situação.

– Voltem! Voltem!

Não adiantou em nada ela gritar, pois outros feixes de luz os eliminaram de forma rápida e cruel. Marin apenas assistiu aquilo sem poder fazer mais nada. Restaram agora poucos junto dela. Risadas eram ouvidas por detrás das folhagens naquela imensidão negra sendo quebrada ora ou outra pela névoa branca que passava rasteira no chão. Com seu cosmo no máximo, Marin deu uma seqüência de golpes na direção de onde os feixes estavam vindo.

– Meteoro! – disparou fazendo o inimigo se mostrar

– Muito bom para uma amazona. Mulheres não costumam ter boa mira. – disse o espectro debochadamente.

– Quem é você?

– Sou Queen de Alraune, a estrela celeste demoníaca e vou me encarregar de acabar com todos vocês aqui mesmo. Essa estrada será seu túmulo e minhas rosas o adorno de seus corpos.

– Não nos renderemos fácil, fique sabendo!

– Não me faça rir amazona. Eu só vejo um bando de fedelhos que mal conseguem carregar suas próprias armaduras. Não terão chance alguma, irão morrer aqui! Agora irão receber meu golpe e prometo ser rápido não os fazendo sofrer muito. Guilhotina da Flor Sangrenta!

Com o cosmo elevado, sua energia criou uma espécie de guilhotina cósmica, os atingindo de raspão.

– Não irão escapar dessa vez!

Ao dizer isso, os golpeou novamente, ferindo um cavaleiro de prata. Umas flores de sangue foram na direção dele, amputando sua mão. Ele via seu sangue jorrar de maneira intensa, enquanto o espectro se colocava novamente em posição de ataque.

"Preciso pensar rápido ou morreremos todos aqui" observava Marin

– Guilhotina da Flor Sangrenta!

Gritou o espectro tendo seu golpe impedido pela águia que foi ferida na perna.

– Quanto tempo irá agüentar defender esses inúteis? Será a primeira a morrer!

– Jim, Grazi, Bruno, vão!

– E você? – perguntou Jim

– Eu cuido dele. Quero que sigam e fiquem juntos. Agora vão, vão!

Todos assentiram que sim, deixando-a para trás.

– Agora será só eu e você.

– Foi inteligente amazona, vencer com aqueles pesos mortos seria impossível. Bem pensado. Pena que logo à frente eles serão eliminados, trágico não? A conversa está boa, mas agora chegou seu fim.

– Não me subestime, espectro.

Com rápidos movimentos, a amazona aplicou seu Golpe Falso, criando ilusões no oponente, fazendo-o acreditar ter sido ferido fatalmente.

"Preciso ser rápida antes que ele se dê conta da ilusão"

– Meteoro!

Aproveitando a distração do espectro, a amazona de águia o golpeou diversas vezes por segundo, levando-o ao chão.

– Consegui. – disse ao vê-lo caído.

De repente, uma forte dor em suas costas lhe chamou atenção. Antes dele ser abatido, algumas de suas rosas caíram nela sem se dar conta, causando ferimentos profundos, além do da perna. O sangue não parava de cair, deixando sua vista turva.

– Eu não posso cair, preciso ajudá-los. – ao falar isso, caiu desacordada.

Os três guerreiros que seguiam sentiram o cosmo da amazona diminuir consideravelmente, fazendo-os parar em um breve instante.

– Não podemos perder tempo, andem! – disse Grazi, fazendo todos continuarem.

Os cavaleiros de ouro avançavam. Outros espectros tinham aparecido, porém foram derrotados com certa facilidade. Apesar de estarem sendo bem- sucedidos, tiveram muitas baixas. Uma quantidade considerável de guerreiros havia sido morta, já no início da batalha.

Em um dos caminhos Máscara da Morte andava com apenas dois cavaleiros de bronze ao seu lado, um era Shun de Andrômeda e o outro, Ichi de Hydra . Eles tinham sinais de cansaço, porém se mantinham firmes. De repente, o cavaleiro de câncer parou, fazendo sinal para os outros dois fazerem o mesmo.

– O que foi? – perguntou Ichi

– Cala a boca! Shhiiii!

Ao longe, no escuro à frente, passos pesados viam na direção deles.

"Conheço esse maldito cosmo" pensava Máscara.

Eles permitiram o inimigo se aproximar bem de onde se encontravam, devida a falta de visibilidade. Em mais alguns poucos passos, uma figura familiar se mostrou. Era um dos juízes de Hades : Radamanthys de Wyvern.

– Então, nos encontramos de novo. – disse o juiz em um tom monótono.

– Infelizmente tenho que ver essa sua cara de cu de novo.

– Sempre grosseiro, Máscara da Morte. Vejo ter trazido outros para fazerem companhia na sua cova.

– Dessa vez, não serei derrotado. Eu te mandarei para o inferno sem volta e dessa vez.

– Quanta insolência! Não terei piedade cavaleiro, acabarei de uma vez só com vocês e ninguém sentirá falta das suas existências inúteis.

– Pare de falar e lute!

– Não o provoque Máscara. – dizia Ichi

– Se está com medo, vaza! Não preciso de você. – respondeu o canceriano para o Hydra. – Isso aqui é entre mim e esse merda. Andem! Athena precisa de vocês.

– Mas Máscara...

– Shun, está surdo? Anda logo, porra!

Os cavaleiros de bronze saíram dali rápido e sem olhar para trás.

– Agora sou eu e você. Vem me atacar, vem!

– Já que insiste ... Rugido Deslizante

Ao dizer isso, o juiz deu um salto nos ares, vindo em uma velocidade imensa atingindo em parte o dourado com uma seqüência de chutes.

– Está enferrujado, juro que esperava mais. – falou o limando um filete de sangue no canto da boca.

Radamanthys observava uma boa melhora no adversário desde a última Guerra Santa. Ele tinha ficado mais ágil e isso o dificultaria.

– Que tal um duelo à moda antiga? Será mais divertido poder socar essa sua cara, do que dar golpes à distância. O que me diz?

– Hum, não desejo tocar na sua armadura imunda, mas aceito. Acabarei contigo de uma forma ou de outra.

Os dois ficaram em posição de ataque, ainda mantendo uma linha de defesa. O juiz resolveu dar um primeiro passo, atacando velozmente seu oponente com chutes e socos coordenados, tendo um ou outro acertado o canceriano.

– Já cansou? É um mal acabado mesmo.

– Anda! Mostre-me o que você tem! – irritou-se o juiz

O cavaleiro de Athena, correu na direção dele, sumindo bem diante da sua vista, deixando-o surpreso. Subitamente ele sentiu uma forte energia ir na sua direção, porém era tarde para evitar um chute certeiro do inimigo. O juiz se dobrou com a investida de Máscara, mas mesmo assim, conseguiu evitar outros ataques. Novamente ficaram frente a frente, esperando a primeira abertura de guarda um do outro. Sem avisar, o juiz deu seu poderoso golpe Destruição Máxima, atingindo quase fatalmente o dourado.

– Chega de perder tempo com socos e pontapés. Darei meu golpe final e seguirei pra derrotar os outros.

O canceriano o olhava com o rosto coberto de sangue, atrapalhando sua visão. Lembrou-se da última guerra e sentiu uma energia enorme tomar conta de seu corpo. Não admitiria ser derrotado novamente, não se perdoaria nunca!

– Adeus, cavaleiro de câncer. – ao dizer isso com seu cosmo concentrado na palma de sua mão, Radamanthys foi pego desprevenido com um contra ataque de Máscara, recebendo um golpe ágil em suas pernas, o fazendo cair a uns metros dele.

– Não irei morrer, não aqui. – o canceriano elevou seu cosmo a um nível jamais experimentado por ele em toda sua vida como cavaleiro.

Radamanthys se assustou com a grandeza de seu poder, indo para trás uns passos, ao se levantar.

– Até nunca mais, espectro. Ondas do Inferno!

Máscara criou uma onda cósmica gigantesca, envolvendo o corpo do juiz, separando-o da sua alma. Ele levou a alma dele até a fronteira que separa o mundo dos vivos e dos mortos.

– Eu podia te jogar simplesmente no mundo dos mortos, mas já está acostumado com ele. Seu castigo será outro.

Ao dar um sorriso sádico, o canceriano invoca fantasmas para devorarem o espírito do juiz, acabando de vez com sua existência.

– Agora ninguém mais vai te trazer de volta. – disse vitorioso ao vê-lo devorado.

Voltando para a realidade dos vivos, Máscara mesmo ferido, correu para alcançar Shun e Ichi.

Em outro caminho Shina ia sozinha, pois seus companheiros haviam morrido há alguns momentos atrás devido a ataques. A amazona resolveu não correr, mas ir a passos seguros, pois a escuridão já tinha lhe pregado peças. Fez um bom percurso, sentindo que breve sairia dali. Quando mais um passo a frente ia ser dado, a amazona de cobra foi surpreendida por uma risada de um inimigo a diante.

– Quem está aí? Apareça!

– Tem pressa de morrer, amazona? – falou o inimigo aparecendo

– Um juiz?

– Surpresa? Não é uma mulher de sorte, escolheu justamente o caminho que tinha um juiz. Sou Mino de Grifon, a Estrela Celeste da Nobreza e irei matá-la e julgar a sua alma pecaminosa. Chegou o seu fim!

– Não ferra! Venha Cobra. – a amazona partiu com tudo para cima do adversário sem causar dano algum.

– É só isso que sabe fazer, amazona de prata. – falou dando uma gargalhada – Patética.

"Como pode ser? Ele absorveu meu golpe sem esforço algum"

– Fique pronta, pois irá dançar pra mim agora. Marionete Cósmica.

Minos com seu cosmo prendeu facilmente a amazona em fios invisíveis a ela, fazendo com que cada parte do seu corpo ficasse sob o controle do inimigo. Sadicamente, o juiz manipulou de forma dolorosa e agonizante os membros de Shina, rindo ao observar seu sofrimento.

– Isso, dance pra mim. Está no seu limite amazona? Quer morrer?

Shina não conseguia responder nada, sentia uma imensa dor em todo o corpo.

– Acabou pra você. Darei meu golpe final.

Ao falar essa frase, uma flecha atravessou suas costas, matando imediatamente o juiz, sem a chance dele ver quem o acertou. Shina foi liberta do sofrimento, mas permanecia caída no chão. Quando levantou a cabeça viu quem a tinha salvo. Era Féres, com seu arco e flecha parado diante dela. A amazona não acreditou no que aconteceu, pois o semideus e o juiz pertenciam ao mesmo lado e ela era sua inimiga. Shina se levantou ficando cara a cara com ele.

– Obrigada. – foi tudo o que pôde dizer.

Féres ao ouvir isso, virou de costas e disse:

– Não agradeça, eu não fiz nada, ouviu? Agora suma daqui antes que eu precise te enfrentar.

A amazona entendeu o recado, passando por ele apressada sem o olhar, ao contrário do semideus que a observava atentamente sumir na escuridão.

No caminho onde estavam Milo e Lavínia, uma difícil batalha tinha acabado de ocorrer. Alguns espectros cercaram o grupo dos guerreiros de Athena, atacando-os de forma desavisada, matando e ferindo muitos de uma só vez, inclusive Shiryu de dragão. Ele vinha sendo carregado pelo escorpião, pois tinha ficado gravemente ferido.

– Ele vai sobreviver? – perguntou Lavínia a Milo observando o estado do cavaleiro de bronze.

– Ah, vai. Esses cavaleiros de bronze não morrem fácil.

Ao olhar para frente, estreitando as vistas, o cavaleiro de ouro percebeu bolas de fogo vindo em uma incrível velocidade na direção deles.

– Cuidado! – gritou ele jogando seu corpo sobre o da amazona, a livrando da morte certeira.

– O que foi isso? – perguntou a loira assustada percebendo outro ataque.

Milo ainda carregando o dragão, conseguiu defendê-los mais uma vez. Feito isso, os ataques cessaram e passos começaram a ser ouvidos, cada vez mais alto. Era Aiacos de Garuda, o terceiro juiz.

– Escorpião vá adiante, não irá me enfrentar. Seu oponente o aguarda. – disse o juiz ao se aproximar.

–Eu não vou sair daqui!

– Idiota!

– Ah, vai pro inferno.

No momento em que o escorpião ia se preparar para dar um golpe, foi interrompido por Eros que surgiu como se viesse dos céus e não do caminho percorrido.

– Pode seguir, Milo. Essa não é sua luta, eu assumo a partir de agora.

Lavínia olhava o semideus sentindo uma enorme felicidade dentro dela ao tê-lo ali e em sua forma original, com asas. O escorpião sentiu segurança em Eros, resolvendo assim seguir em frente deixando todos para trás inclusive Shiryu.

– Foi para o lado do inimigo, Eros? – perguntou o juiz sem obter resposta. -Agora pensando bem, não deveria estar preso numa das prisões do submundo? Quem te tirou de lá?

– Em breve irá descobrir.

O juiz não gostou nada de ter ouvido tal declaração, pois isso podia significar o aparecimento de uma nova ajuda a Athena e um grande problema para eles.

– Hum, não me interessa quem seja, estou preparado. – falou elevando seu cosmo e disparando novamente o golpe Conquistador de Indra, fazendo chover chamas para cima deles.

Com agilidade, Eros salva Shiryu enquanto Lavínia desviava.

– Mas você só tem esse golpe? – disse a garota, tapando a própria boca em seguida.

– Quer conhecer os outros, eu te mostro. Vôo de Garuda.

O juiz elevou a amazona aos céus a uma velocidade absurda, invertendo momentaneamente a gravidade, deixando-a confusa diante de tamanha pressão. Ele perversamente, marcou um x no chão onde o corpo da loira caíra em um grande impacto.

– Lavínia! – gritou Eros ao perdê-la de vista.

Aiacos olhava pra cima, esperando-a cair diante de si, porém não percebeu que Eros havia sumido na escuridão também, voando em direção à amazona. O juiz não entendeu a demora da queda e quando olhou novamente para cima, recebeu uma série de golpes certeiros do semideus, tendo sua Sapuris estilhaçada.

– Não pode ser. – olhava o juiz, vendo os pedaços da sua armadura caindo como cacos de vidro. – Ele não me parecia tão forte assim.

– Acabou pra você Aiacos, renda-se e eu não vou matá-lo. – falou Eros ainda segurando a amazona em seus braços.

– Não admito ter sido derrotado tão facilmente por você. – dizia o espectro em choque e se levantando. Ficando de pé, enquanto olhava firmemente para o semideus,deu si um golpe fatal, tirando a própria vida, envergonhado por ter perdido a luta de maneira desastrosa.

Com a morte do terceiro juiz, a ilusão dos caminhos foi desfeita e todos se transformaram em um só. Quando isso aconteceu, pode-se observar uma pilha de corpos em todo o lugar, tanto de companheiros quanto de inimigos. Enfim, os guerreiros de Athena estavam juntos de novo e percebendo ter chegado no templo. Entrando com cautela no salão de entrada, os guerreiros da deusa ouviram um som que parecia ser de soldados marchando, fazendo-os parar. Em seguida, o barulho de dezenas de pés parou diante deles. Eram os cavaleiros celestiais de Apolo e Ártemis. Ambos os lados fizeram uma fileira, respirando fundo e observando o oponente. Uma corrente gelada passou no espaço que separava os lados e de repente, o silêncio foi quebrado com os gritos roucos dos guerreiros celestiais que avançavam em alta velocidade para cima dos de Athena, fazendo o chão tremer.

– Cacete! – foi a única coisa que Máscara da morte disse, antes do combate corpo a corpo.

Logo, ambas as partes se misturaram, sem saber onde uma começava e onde a outra terminava, num combate feroz. Vidas e mais vidas eram perdidas a cada minuto, em um cenário triste onde humanos lutavam contra humanos, pelos interesses de seus deuses.

Em meio à confusão, Abáris surge entre as pilastras deixando Milo o ver, fazendo a imagem de Ana tomar sua mente. O escorpião com dificuldade, desvia de alguns golpes e sai da confusão, seguindo o cosmo do semideus pelos corredores do lugar. Já bem afastado, Milo sem perceber é conduzido para dentro de um salão, cercado de rochas e portões, ficando no centro do lugar, olhando para cada canto a procura do inimigo.

– Eu sei que está aí, por que não se mostra de uma vez para acertarmos nossas contas?

Nessa hora, todas as grades dos portões desceram, trancando-o ali. Em seguida, duas adagas foram atiradas contra o cavaleiro, pegando de raspão em seu rosto.

– Vai ficar me atacando de forma covarde por quanto tempo?

– Por nem mais um segundo. – respondeu Abáris investindo sua espada contra o peito de Milo, ferindo-o. – Finalmente chegou o dia em que eu posso acabar com você, seu verme.

– Também estou muito feliz de poder socar à vontade essa sua CARA! – gritou Milo, dando golpes cheios de raiva em direção ao semideus, sem se importar com a arma em sua mão.

Quase todos os golpes foram desviados pelo semideus, se afastando cada um para uma direção depois da seqüência. Ao pegar um fôlego, os dois voltam a se confrontar em uma velocidade incrível, dando a impressão deles usarem a técnica de teletransporte algumas vezes.

– É um perdedor Milo, aceite esse fato. Perdeu sua deusa, perdeu Ana e em breve perderá mais, pena não ficar vivo para saber! – dizia o semideus atacando com sua espada.

Aquela declaração mexeu com o cavaleiro, não entendendo a última parte.

– Não sou eu quem vai morrer é você. Tempestade Escarlate!

O escorpião aplicou sua técnica pela segunda vez em sua vida como cavaleiro. Ele criou uma tempestade cósmica, atingindo em cheio o semideus. A espada de Apolo usada por ele, se partiu em vários pedaços, caindo ao lado de seu dono.

"Mas que fraco" pensou o cavaleiro dando as costas para Abáris. Quando procurava uma saída, ouviu uma voz feminina gritar seu nome, chamando sua atenção.

– Ana! – ele disse olhando para uma das saídas, atrás da grade.

– Milo, cuidado!

Não deu tempo de virar para se defender. Abáris o golpeou forte na cabeça fazendo-o praticamente perder os sentidos.

– Fico feliz que esteja presente minha querida, para ver o sofrimento desse maldito. – dizia enquanto dava chutes no rosto do escorpião. Com um sorriso maléfico, pegou-o pelo cabelo, puxando a cabeça dele para trás e mostrando a Ana o rosto ensangüentado de Milo. – Olha Ana, seu cavaleiro, veja seus últimos momentos de vida.

– Não Abáris eu te peço, deixe-o ir, eu faço tudo o que quiser, mas deixe-o. – dizia a semideusa ajoelhada do outro lado, segurando nas barras de ferro. Com toda a sua força, tentava arrancá-las em vão, pois eram reforçadas para prender todo o tipo de guerreiro.

– Ana vai embora daqui, fuja enquanto pode. – dizia Milo com dificuldade.

– Não, eu não vou deixá-lo sozinho.- falou esticando a mão para dentro do local como se quisesse alcançá-lo.

– Vamos acabar com isso de uma vez, estou farto de você. Desde que apareceu no meu caminho só me trouxe problemas. – falou atirando o escorpião para longe e indo para sua direção para continuar seus ataques.

Elevando seu cosmo, Abáris concentrou uma enorme quantidade de energia em seu punho para o atacar, porém Milo absorveu com uma mão o tremendo impacto, surpreendendo o semideus.

– Chega! Não serei mais seu saco de pancadas, isso já foi longe de mais. – se levantando, explodiu seu cosmo com violência, arremessando o adversário longe. – Irá provar das minhas agulhas e todo o meu veneno. Agulha escarlate!

Milo golpeou Abáris com várias agulhas de uma só vez, causando intensa dor e hemorragia no mesmo instante.

– Não sou eu o perdedor aqui, Abáris, o único derrotado sempre foi você. – disse Milo olhando com desprezo e se preparando para dar os golpes finais.

Nessa hora, um tremor começou a abalar as estruturas do lugar, fazendo todas as grades se levantarem, enquanto pedaços do teto caíam sobre eles. Uma rocha enorme se desprendia do teto, sem a semideusa notar, fazendo Milo desistir de acabar com Abáris e ir salvá-la.

– Vamos sair daqui. – falou ele pegando-a pelo braço enquanto eram observados pelo filho de Apolo caído no chão.

Os dois correram, fugindo de serem soterrados naquele lugar. Mesmo naquela situação terrível, os dois se sentiam bem por estarem juntos. Minutos depois, o tremor passou e um feixe de luz fez-se presente para todos. Eram os cavaleiros de Zeus que iriam intervir naquele massacre desnecessário. O líder deles, não parecia ser um humano, havia algo divino nele. Vestindo uma Kamui branca, o enviado de Zeus falou:

– Zeus, o deus todo poderoso nos enviou para acabar com essa batalha inútil e para libertar Athena. Quem se opuser a obedecer, será punido pela eternidade.

Todos se olharam visivelmente surpresos.

– Ordeno que soltem Athena e deixem seus cavaleiros partirem para a Terra.

– Nunca, jamais! – gritou um cavaleiro celestial de Ártemis.

Com apenas um olhar, o general de Zeus, pulverizou tanto a armadura quanto o cavaleiro desobediente. Ninguém mais ousou dizer nada, abrindo espaço para os guerreiros da deusa passarem e se aproximarem dos do deus patrono.

– Eros, traga Athena até aqui.

O semideus se curvou e saiu pelo lugar em busca da deusa. Antes de ir, o general deu uma espada de Zeus, para soltar as correntes da filha. Andando no subsolo do lugar, Eros visualizou Athena.

– Eros!

– Está tudo bem agora, vamos, seus cavaleiros a espera. – falou quebrando as correntes com facilidade e ajudando a deusa a caminhar, por estar um pouco debilitada.

Quando o filho de Afrodite retornou com a deusa, a entregou a Saga, deixando-a aos cuidados dele.

– Agora podem ir. – falou o general que com um movimento, abriu uma espécie de dimensão, tirando todos dali e os conduzindo de volta ao Santuário.

Ana estava nos braços de Milo nessa hora,porém não foi com ele, sendo deixada ali. Ele desapareceu diante dela, contra sua vontade.

– Os que ficaram aqui serão julgados na presença de Zeus. – falou enfim.

No Santuário todos chegaram aliviados por ter acabado tudo bem, apesar das perdas. Muitos comemoravam se abraçando, enchendo o lugar antes vazio, com palavras de vitória. Em meio a tudo aquilo, Milo sentia um aperto dentro de si, por ter deixado Ana para trás. Lavínia o olhou arrasado e foi em sua direção.

– Milo, não foi culpa sua ela ter ficado pra trás. – dizia a loira tentando consolá-lo.

– Ela corre perigo eu sei e não posso fazer nada.

– Fez o que pôde.

– Mesmo assim não foi o suficiente.

– Milo...

– Me deixe sozinho Lavínia, por favor. – ao dizer tal frase, o escorpião se retirou do local sob os olhos da loira, de Camus e da própria deusa.

Dois dias se passaram e o julgamento de todos se iniciava no Olimpo. Em seu trono Zeus analisava diante de si, Apolo, Ártemis, Hades e os semideuses.O julgamento durava horas e muitos prós e contras foram postos em questão. Zeus preparava sua sentença quando Apolo o interrompeu.

– Acho injusto Athena não ser julgada também, assim como nós.

– Como pode falar de justiça depois da traição de vocês? Se no momento em que permitiram deixar o cosmo de Athena ser localizado por seus cavaleiros, eu não estivesse atento, vocês teriam a executado de forma covarde. Percebi a tempo de acabar com o plano sujo de vocês e também libertar Eros e Afrodite. Como puderam agir pelas minhas costas? Enlouqueceram? Agora vem você- disse o deus apontando para Apolo – me falar de justiça.

– Sim justiça! – enfrentou o deus sol. – Por muito tempo agüentamos os cavaleiros de Athena se levantando contra nós com completa falta de respeito e arrogância. Como podem atacar um deus? Como ousam? Ainda assim, senhor meu pai, permitiu Athena ressuscitar a todos. É muita humilhação! Como criaturas podem se voltar contra seus criadores e saírem ilesos de tal situação? Peço a presença dela antes de qualquer sentença.

Zeus analisou aquilo e via uma certa lógica. Pelo cosmo, convocou a presença da filha que apareceu em pouco tempo. A deusa fez uma reverência em sinal de respeito e se pôs a escutar.

– Foi exigida a sua presença nesse julgamento pois pretendo ser justo com todos.

– Aceito sua justiça papai.

– Athena – começou Apolo – Nega dos seus cavaleiros terem atacado Hades desde os tempos antigos até aqui?

– Não.

– Nega de terem se voltado contra Poseidon em outra ocasião e de terem matado Abel e Éris?

– Não. – respondia novamente a deusa com a cabeça erguida.

– Na última Guerra Santa, invadiram os Elíseos, derramando sangue em solo sagrado exterminando Thanatos e Hypnos. Não demorou muito e quase mataram Ártemis, além de você pessoalmente me enfrentar ao lado de Pégasus. Nega isso?

– Não, não nego.

– Então por que, eu pergunto, eu tenho que ser punido? Se você Athena é a maior traidora de todas.

– Pode me chamar do que quiser, não me importo. Tudo o que fiz foi para proteger os humanos da destruição de vocês.

– Para quê? Por que defende os humanos? Eles são seres de capacidade limitada e breve existência. Com toda a sua condição desfavorável, lutam entre si, são cruéis uns com os outros, destroem o planeta Terra de maneira destemida e egoísta, planeta este herdado para nós, os deuses. Guerreiam desde seus primeiros suspiros, subjugam uns aos outros com uma crueldade jamais vista. Criam doenças para exterminar, fabricam armas potentes capazes de acabar de uma só vez com todo o planeta. Eu apenas gostaria de entender Athena,o por quê de tamanha misericórdia com eles.

A deusa abaixou a cabeça triste com a verdade exposta pelo irmão, contudo resolveu falar.

– Tem razão meu irmão em tudo o que disse, não discordo de nada. Na verdade, eu mesma me questionei algumas vezes sobre isso e quando pensava em desistir de tudo me lembrava do quanto era difícil a vida dos humanos. Dia pós dia, eles lutam para sobreviver, sentem fome, medo, sofrem de doenças e morrem, algumas vezes sozinhos. Não existem apenas seres humanos ruins, têm também os altruístas que dedicam suas vidas em prol de todos, movidos pelo amor. Assim são meus cavaleiros, que arriscam sem pensar duas vezes suas vidas para me salvar e para manter a paz e a tranqüilidade no planeta. Somos deuses Apolo e possuímos maior compreensão sobre todos os fatores da existência. É nosso papel ensiná-los a serem melhores e perdoar sua ignorância. Massacrá-los não nos farão melhores, mas piores que eles. Se mesmo assim me julgar culpada, aceito todo e qualquer tipo de castigo.

Todos ouviram aquilo atentamente e sem poder negar a verdade naquelas palavras. Zeus então se levantou.

– Ninguém será punido! Ambas as partes têm razão em seus pontos de vista. De hoje em diante quero que respeitem o espaço um do outro, mas fique bem claro. Quem ousar desrespeitar essa trégua não terá perdão e nem chance de julgamento. Será punido da pior maneira possível para todo o sempre. Vão, vivam suas existências em paz!

Ao dizer essas palavras, os deuses foram cada um para seu domínio enquanto os semideuses retornaram à Terra, sem dar tempo para Athena ajudar Ana em meio àquilo tudo.

Abáris ao retornar, ficaria com Ana em uma de suas casas na Grécia. Era um lugar escondido, bem reservado, longe da vista de todos. Lá passariam o restante dos meses até o nascimento do filho de Milo, para desespero da semideusa.