Dois dias se passaram e Lisa continuou sem um e-mail de resposta. Apesar de estar em um lugar lindo e ao lado de seu namorado, ela não parava de pensar e se preocupar com Hugh, e constantemente verificava a caixa de e-mail na esperança de que ele a tivesse respondido. Eles sempre se falavam por telefone e por e-mail, mas desde que ela saiu da série, a freqüência de contato entre eles diminuiu bastante. Sempre que ficava sabendo de um show dele, Lisa mandava e-mail desejando-lhe boa viagem e uma boa apresentação. Às vezes trocavam ligações com assuntos frívolos, mas se evitavam ao máximo.

Era de conhecimento público que Lisa já tinha planos para um novo projeto desde que saiu de House. Ela havia comprado os direitos autorais de um livro e estava empolgadíssima com a idéia de escrever e produzir uma série sobre o mesmo. Ela sempre manteve em segredo do que se tratava o tal projeto, preferia não entrar em detalhes antes de tudo estar finalizado. Já tinha certo tempo que Lisa vinha se dedicando a isso e estava escrevendo bastante, mas nessa viagem, ela daria uma pausa.

Desde o dia em que estavam na piscina, RR notou que Lisa não largava o notebook, coisa que ela nunca fazia pois não tinha o vicio de internet, tirando o fato de estar escrevendo seu piloto. Mas foi justamente nesse mesmo dia que ela mandou e-mail para o Hugh, e desde então esperava retorno. As vezes ela até pensava em ligar para Hugh, mas RR não a deixava sozinha por muito tempo, ficando praticamente impossível fazer a ligação. Sentada na cama do quarto do hotel, Lisa resolve mandar um segundo e-mail cobrando a resposta do primeiro, e assim que conseguiu enviar com sucesso, RR saiu do banheiro caminhando em direção a cama. Ela imediatamente fechou a página para que ele não visse o que estava sendo feito, e em seguida, recebeu um beijo dele ao sentar a seu lado.

- Está fazendo o quê? Disse que não escreveria esses dias, mas não larga esse notebook – disse intrigado com o vicio repentino dela por internet.

- Nada de importante. - disfarçou com um sorriso.

Já era um pouco tarde, eles tinham transado praticamente a tarde toda. RR sentia um desejo intenso por ela, Lisa além de linda carregava a luxúria em seus olhos, gostava muito de sexo. Ele realmente era um cara de muita sorte, com uma mulher linda e fogosa do lado, vivia num verdadeiro paraíso. O cansaço estava propício ao sono, depois do dia agitado que tiveram o que eles mais queriam era dormir.

No dia seguinte eles acordaram cedo, tinham um passeio de barco marcado. Saíram do hotel rumo ao lugar, de mãos dadas. O casal era só sorriso. Lisa trajava short jeans e blusa preta, o lenço no cabelo ela não abandonava e um chapéu, dessa fez fazendo dupla a ele. RR trajava um short confortável e camisa, ambos pretos. Ele parecia não se importar muito com a própria aparência, sempre usava o mesmo estilo de roupa e a mesma cor, preta. Um verdadeiro contraste, pois Lisa era uma mulher extremamente elegante. Já no barco, Lisa parecia encantada com o lugar, a paisagem era extremamente linda, e ela, amante da natureza ia amando cada detalhe que via ao lado do namorado.
De volta ao hotel, RR teve que resolver algumas coisas na recepção e Lisa subiu para o quarto. Ela tomou um banho, sentou na cama e lá estava outra vez com o notebook nas mãos, ela não iria sossegar enquanto não recebesse um e-mail dele, e eis que ao abrir o mesmo, viu o tão e esperado e-mail:

'' Oi, Lisa! Estou bem, não tem motivos para se preocupar. Acho que você tem coisas mais importantes para fazer, como por exemplo, ir à praia com seu namorado e aproveitar bem a sua viagem. Não perca seu tempo se preocupando com besteiras, agradeço seu cuidado comigo, mas não preciso dele. ''

No primeiro momento Lisa sentiu raiva ao ler aquilo, afinal, ela esperou tanto, se preocupou tanto e ele a dispensa daquela forma fria, não dando um mínimo valor ao carinho que ela depositou no e-mail quando o mandou, deixando claro que não precisava dela. Mas aí ela respirou fundo. Ela o conhecia como ninguém, e sentiu que ali não era ele falando, e sim, o ciúme, o orgulho. '' Ele ainda sente ciúmes? '' pensou sorrindo involuntariamente. ''Será?'' de repente a dúvida tomou conta de seus pensamentos, que agora incertos provocavam uma confusão em sua mente. '' Não, não! '' ela sacode a cabeça na tentativa de afastar aquilo que estava começando a perturbá-la e antes que aquilo a deixasse inquieta, RR entrou no quarto e começou a tagarelar sobre as idéias que teve para pintar alguns quadros, fazendo-a deixar suas dúvidas de lado, ao menos naquele momento.

Hugh queria ter realmente ignorado-a, mas a insistência dela não o deixou mais hesitar, e ele acabou respondendo-a, não da forma que ela merecia, mas ainda assim, a respondeu. Era notável que ele era um homem depressivo, infeliz. Apesar de ter bom senso de humor, era bastante introspectivo, as vezes chegava a ser um cara meio estranho. Casado há anos, parecia manter o relacionamento só por mera formalidade, era evidente que o sentimento que ele tinha por sua mulher era o de amizade, talvez até de gratidão. Aquele tipo de homem que zela pela família, que independente de existir amor ou não, continua na relação.

Ele parecia estar acostumado com a vida amargurada que levava, como se já não se importasse em carregar aquela tristeza o resto de sua vida. Talvez o comodismo tinha tomado conta dele, se algo bom acontecesse em sua vida ele aproveitava, mas se caso corresse o risco de perder aquela felicidade, ele não se empenhava em lutar para manter o que realmente o deixava feliz.

Lisa era totalmente o oposto dele. Extrovertida e espaçosa, bem humorada e de riso fácil. Carregava uma imensa felicidade em seu sorriso, uma vitalidade no olhar e em seus movimentos. Ela realmente o completava, em tudo. Era como se Hugh em seu interior vivesse em dias nublados, sem sol, sem estrelas. E Lisa quando chegava trazia o brilho do sol com seu sorriso, levando embora toda a chuva e com aquele seu olhar afastava todas as nuvens, fazendo-o enxergar as estrelas que ele ainda possuía em seu céu, estrelas essas que estavam mais escondidas que seus próprios sentimentos.

Lisa e Hugh tiveram o seu momento, se amaram por um tempo e acabaram vivendo esse amor. Foi uma relação bastante complicada, eles trabalhavam juntos há anos e sempre foram amigos, mas chegou um dia em que o sentimento falou mais alto. Hugh com uma tentativa de separação que já durava quase um ano, acabou convencendo Lisa de que eles poderiam tentar e que ambos precisavam e mereciam se dar uma chance. E assim eles viveram um romance secreto, evitaram a mídia com todo o cuidado, sempre negando qualquer tipo de envolvimento quando eram questionados nas entrevistas. Eles não queriam se expor. Preservavam ao máximo o relacionamento, mas isso foi ficando cada vez mais difícil de controlar. A esposa dele não queria uma separação definitiva, ela o amava e não desistiria dele só assim. A relação deles não durou muito, embora o pouco que durou tenha sido intenso, até porque nem sempre tempo significa intensidade e a história deles era um
exemplo disso. Ambos continuaram sendo amigos, talvez menos do que antes por motivos lógicos, mas com o sentimento intocável.

Ele foi a metade mais inteira da vida dela, no amor tinha seu inteiro, mas na vida apenas sua metade. E apesar de hoje em dia ela está com outro alguém, tendo-o por inteiro nos dois aspectos, esse inteiro que aparentemente poderia completá-la não chegava a preencher nem uma pequena parte do que aquela tal metade preenchia, mesmo sendo só uma humilde metade, mas que sempre foi verdadeira e intensa para ambos.

Ela foi o que de melhor aconteceu na vida dele. Lembrar da Lisa o fazia ter receio dos sentimentos que ela e tudo o que ela respirava podiam despertar nele, mas como qualquer misto de agridoce vicio, ele nunca conseguiu se despegar definitivamente dela. A miscelânea de fluidos e sentimentos partilhados criaram um vinculo magicamente construido de maneira a conduzir os seus pés, inadvertidamente, na direção dela. Ele estava entregue a algo em que nunca quis acreditar, um fado que não tinha pedido, uma vida que não havia sonhado e nunca nada soube melhor. Parecia viver de mãos atadas em relação ao que sentia, aqueles cujos novelos de arame farpado prendiam-lhe os pulsos e os rasgavam a visão deixando-o numa verdadeira cegueira. Aquela que apenas o fazia ver aquilo que ele queria ver, ouvir aquilo que queria ouvir, mas sentir tudo aquilo que não evitou sentir. Fazendo com
que todo e qualquer esboço de barreira fosse apenas o da irracionalidade.