O quão longe nós viemos

James apressava os passos sob a luz do meio dia. Ele precisava terminar de arrumar suas coisas para saírem de Boston, mas foi interrompido por um pedido por mensagem de Kendall dizendo para encontrá-lo em um endereço qualquer.

O endereço estava certo e James havia achado o numero do local, mas algo parecia errado. As ruas por onde estava andando, estavam desertas e o prédio que deveria ir, parecia abandonado e vazio. James não conseguia entender, Kendall costumava arranjar lugares onde eles pudessem ficar a sós, mas dessa vez ele havia exagerado.

O prédio era pequeno e possuía uma placa danificada que parecia ser a de um cinema antigo. James estava desconfiado, mas ele já havia feito todo aquele caminho e seria estupidez voltar agora. James se irritava com o fato de confiar tão cegamente em Kendall, sem questioná-lo ou negar um pedido dele toda vez que ele lançava aquele olhar pidão feito de esmeraldas. Aquilo pegava James todas às vezes.

James bateu na porta do antigo cinema, mas ninguém atendeu, ele a empurrou lentamente e percebeu que estava aberta.

- Eu atravessei Boston por sua causa Kendall, é melhor valer à pena – Ele pensou em voz alta.

Estava tudo escuro e seria o mesmo que ficar de olhos fechados se não fossem por pequenas luzinhas formando uma trilha no chão. James as seguiu antes que tropeçasse em alguma coisa naquela escuridão. Ele pode sentir cortinas tocarem suas mãos que estavam estendidas para evitar dar de cara com alguma coisa. James agarrou as cortinas e pode perceber que algo brilhava atrás das mesmas. Ele as atravessou e não pode acreditar no que viu.

Aquilo com certeza valeu a travessia da cidade.

James se encontrou numa sala de cinema enorme iluminada por velas e luzes. As paredes listradas estavam repletas de pequenas luzes que também se encontravam no teto e nas costas de vários acentos da sala. Havia pétalas de rosa nas laterais da sala levando a plataforma abaixo do telão. Ali havia centenas de velas e todas elas rodeavam uma mesa de dois lugares com um candelabro em seu centro e dois pratos correspondentes aos lugares vazios.

- Desculpe por todo o mistério – Kendall saiu de uma parte não iluminada a esquerda do telão – Eu queria que fosse especial.

James estava fascinado e seus olhos brilhavam mais do que todas as luzes daquele lugar juntas, assim como os olhos de Kendall brilhavam de orgulho.

- C-como? – Foi a única palavra que James conseguia pronunciar naquele momento.

- Digamos que tinha dividas para cobrar por aqui.

- Eu imaginei que você não conseguiria fazer isso sozinho. – James brincou.

Kendall riu e se aproximou do mais velho.

- E então? O que achou?

- Está tudo tão... – James respirou fundo e olhou para as luzes acima dele – Mágico.

O loiro abaixou o rosto de James segurando em seu queixo para que seus olhos pudessem se encontrar.

- Essa era a intenção, é nosso aniversário afinal.

James olhou para baixo e sorriu – Você lembrou.

- É claro que eu lembrei.

O fato de ele ter sorrido ao ouvir aquilo de Kendall era mais para rir dele mesmo, ou pelo menos seus pensamentos em relação ao aniversario deles. Mesmo depois da noite passada onde Kendall se declarou para ele, James não podia deixar de carregar a duvida consigo. Era impossível se livrar daquele sentimento de "é bom de mais para ser verdade", mas ele já se sentia mais tranquilo em relação aquilo. James riu dos pensamentos que acordaram com ele aquela manhã. Ele estava certo que Kendall não lembraria, pois afinal eles nunca chamaram o relacionamento deles de namoro. Quatro de março do ano anterior, onde as escapadas e os encontros começaram, quando no começo era apenas diversão e um habito que eles não tinham forças para largar. De habito ao vicio; de vicio, á... Um almoço num cinema iluminado.

Na noite em que Kendall disse tudo o que estava preso em sua garganta, os dois não conversaram mais. Eles apenas se deitaram na cama outra vez e puxaram as cobertas, Kendall abraçou a cintura do mais velho deixando seus corpos compartilharem calor outra vez, beijou o pescoço de James e adormeceu junto a ele, com sua respiração, agora tranquila, alcançando a nuca de James.

- Eu sei que não podemos ter um encontro de verdade em um encontro. Então fiz o máximo pra te recompensar

Kendall o guiou a mesa e puxou a cadeira para que James pudesse se sentar. Ele nunca se imaginou fazendo tamanha surpresa para nenhuma de suas ex. James era especial, por isso ele merecia algo assim. Ok, talvez seja um pouco de culpa restante em seu coração por tirar lagrimas de James na ultima noite em que os dois estiveram juntos. Tudo ficou bem no final, mas pedir desculpas não era o suficiente para Kendall, não nessa situação. Ele precisava colocar um sorriso no rosto do mais velho. Aquele sorriso, naquele momento. O jeito como os olhos de James brilhavam e seu sorriso aparentava ser sincero e feliz – Feliz porque Kendall o fez feliz – era isso que o loiro queria. Era isso que ele precisava.

Porque a realidade era que James de alguma forma virou o centro do seu mundo, a razão das suas escolhas e motivo do seu sorriso. Passara-se um ano e Kendall podia jurar que foram séculos. Deveria ser impossível se importar tanto com alguém em tão pouco tempo, com tanta facilidade. E Kendall sabia agora, tudo o que sentia se resumia a um só sentimento. O único que podia te fazer sofrer e alegrar seu coração ao mesmo tempo. Se Kendall estivesse errado, ele não se importava, pois já cometeu vários erros e pela primeira vez parecia certo afirmar que...

- Eu te amo – Kendall interrompeu a frase de James.

Silencio pairou na sala de cinema. Kendall roubou as palavras e o fôlego de James. O loiro ofegava, não foi planejado dizer assim, de repente. E mesmo já ouvido James falar que o amava antes, Kendall acabara de admitir que o amasse pra James e para si mesmo.

- Eu te amo também – James sorriu com toda a certeza da sinceridade na voz do loiro. Ele se levantou de sua cadeira, foi até Kendall e estendeu a mão. O loiro segurou a mão de James, se levantou e foi puxado para um beijo. Um beijo suave e apaixonado.

Foi a primeira vez que eles tinham dito aquelas palavras propriamente. Havia amor e ao mesmo tempo medo naquele beijo. Pois tudo podia desmoronar, ou dar errado, machucá-los ou machucar as pessoas ao redor deles. Tudo era incerto naquele relacionamento. Mas eles não se afastavam, pois tudo foi longe de mais; Luzes de velas os iluminavam, rosas rodeavam seus pés e havia musica tocando no fundo, mas isso pouco importava no final. Eles se beijavam com medo de não haver um amanhã para os dois, mesmo sabendo que iriam lutar por um novo amanhecer.