Nota:(1) – Harry Potter e seus personagens não me pertencem. E sim a J.K. Rowling.
(2) – Essa é uma história Slash, ou seja, relacionamento Homem x Homem. Se não gosta ou se sente ofendido é muito simples: Não leia.

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Depois de seis anos como aluno da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, por incrível que pareça, Harry observava um ano letivo chegar ao fim sem oferecer qualquer ameaça iminente à sua saúde. Isto, é claro, devia-se à protetora e imponente presença do Lord das Trevas em Hogwarts, uma vez que nem mesmo Dumbledore seria tolo o bastante para atentar contra a vida do herdeiro de Voldemort na presença do mesmo. Dessa forma, em meio à última semana antes de regressarem à suas casas, o grupo das serpentes não poderia estar animado, pois em breve estariam cursando o último ano e, então, poderiam finalmente dar adeus àquela escola e aos seus professores inúteis.

No final daquela tarde, Harry e Theodore se encontravam na biblioteca terminando o último ensaio de Poções a ser entregue na última aula, enquanto Pansy e Blaise permaneciam no Salão Comunal Slytherin trocando mimos e olhares apaixonados e, segundo Harry, recuperando os dezesseis anos perdidos. E Draco, por sua vez, cumpria uma detenção com McGonagall, pois transformar Rony Weasley numa galinha d'angola na aula de Transfiguração – porque este olhara torto para Harry – não havia se mostrado uma brilhante idéia, por mais hilária que tenha sido na hora.

- Falta muito, Theo? – o pequeno Lord acabara de dobrar seu pergaminho com um ensaio duas vezes maior ao que Snape havia pedido.

- Apenas concluir o modo de preparo da Poção do Morto-Vivo.

- Não se esqueça que...

-... A vagem suporífera deve ser amassada com uma faca de prata e não cortada – completou as palavras do menor compartilhando um sorriso.

- Exato – os brilhantes olhos verdes o contemplavam com verdadeiro carinho.

- Pronto.

- Posso ler?

- É claro – sem pensar duas vezes, Theodore entregou-lhe o pergaminho. E após alguns minutos, Harry lhe devolveu com um sorriso divertido:

- Oh, está perfeito. Eu não poderia esperar menos do grande Theodore Nott.

- Sem dúvida alguma – Theodore afirmou com fingida arrogância, piscando para o menor. E quando pegou de volta seu pergaminho, não pôde evitar segurar delicadamente a mão fina de Harry e a levar aos lábios, sem desviar seus olhos das belas esmeraldas que o encaravam fixamente.

Ao beijar a mão suave, como um antigo cavalheiro medieval, Theo afirmou com a voz rouca:

- Todavia, eu já lhe disse uma vez e repito agora, sua presença é a única que me inspira a níveis inimagináveis, jovem senhor Riddle.

- Oh, monsieur Nott – Harry corou lindamente, mas sem afastar sua mão, continuou com a inocente brincadeira Sinto-me lisonjeado com suas palavras.

Os poucos alunos que circulavam pela biblioteca praticamente vazia permaneciam completamente alheios aos dois Slytherins do sexto ano sentados na mesinha mais afastada, onde nem mesmo Madame Prince se preocupava em lançar um olhar, e estes estavam imersos demais em seu jogo para notar qualquer pequeno movimento ao redor. Seus olhos estavam fixos um no outro e antes mesmo que Harry pudesse perceber, seu amigo estava inclinado em direção ao seu corpo, suas respirações quase se mesclando uma na outra.

- Minha intenção não é que você se sinta lisonjeado com estas meras palavras – Theodore sussurrou, seu hálito quente e refrescante roçando no pescoço alvo de Harry – Mas com meu olhar que apenas consegue seguir o seu, com meus escassos sorrisos que são dirigidos apenas a você, e com minha presença, a qual você sempre poderá contar para lhe servir e proteger.

- Theo... – murmurou, suas bochechas encantadoramente tingidas de vermelho. Ele não estava mais certo se continuavam apenas brincando.

- Você me inspira, Harry, porque você é doce – afirmou, acariciando suavemente a bochecha corada –, inteligente – com cuidado retirou alguns fios de cabelo rebelde dos olhos esmeraldas –, perspicaz e ao mesmo tempo, inocente e amável.

Harry encarou fixamente os belos olhos azuis que, naquele momento, encontravam-se escurecidos levemente, o rosto bonito e aristocrático, que raramente demonstrava sentimentos, atestava visivelmente uma paixão oculta. Os cabelos negros, mais maleáveis e curtos que os seus, levemente arrepiados nas pontas, em conjunto com as feições másculas, o corpo incrivelmente definido e os olhos azuis sombrios fariam qualquer um conter a respiração e por mais que Harry amasse seu noivo, ele não era uma exceção.

- Theo, eu...

- Não, você não precisa dizer nada, Harry. Nós dois não precisamos de palavras – sorriu com carinho, colocando um beijo suave na famosa cicatriz em forma de raio. E Harry, inconscientemente, viu-se correspondendo ao sorriso, os olhos cerrados em deleite.

Afastando-se apenas levemente, seus olhares se encontraram, mas antes que pudessem pronunciar qualquer palavra, uma voz dura os interrompeu:

- O que você está fazendo aqui com esse perdedor, Harry?

Draco Malfoy havia saído mais cedo de sua detenção e ao perguntar para Pansy e Blaise, no salão comunal, onde seu noivo estava, o último lhe indicara a biblioteca, não sem antes lhe oferecer um sorriso cheio de burla e malícia, e agora Draco entendia o porquê do estúpido sorrisinho de Zabini.

- Não fale assim, Dray – o pequeno Lord repreendeu duramente, esquecendo-se de que há poucos minutos seu espaço pessoal estava sendo intimamente compartilhado com Theodore – Nós estávamos terminando o último ensaio de Poções que, inclusive, você não se preocupou sequer em começar.

O loiro, porém, apenas revirou os olhos e se aproximou do amado, lançando um olhar venenoso ao herdeiro da fortuna Nott que, por sua vez, encarava-o um verdadeiro ódio mascarado de indiferente frieza.

- Essa é a segunda vez que eu pego vocês dois de sussurros e sorrisinhos...

- Theo é meu amigo, para o seu próprio bem, supere isso Draco – o moreno de olhos esmeraldas replicou duramente, levantando-se após arrumar sua mochila.

Theodore, que acabara de se levantar também, precisou conter um suspiro resignado ao ouvir a palavra "amigo" proferida pelos doces lábios que tanto desejava saborear.

- Eu só estava comentando que... – ao ver o olhar de advertência do pequeno Lord, Draco achou melhor mudar de assunto, aproveitando para abraçar a estreita cintura de seu noivo enquanto lançava um olhar superior a Theodore – Bom, vamos para o Salão Principal, meu amor? Eu estou morrendo de fome. Hum, agüentar uma detenção com aquela velha chata é demais para minha aristocrática e nobre beleza.

- Você é impossível, Dray – Harry sorriu, deixando-se guiar pelo amado – Você vem, Theo?

- Pode ir na frente, vou passar nos dormitórios para deixar alguns livros primeiro.

- Ok – oferecendo um doce sorriso ao amigo, o pequeno Lord acenou, vendo-se praticamente arrastado para fora da biblioteca. E Theodore, com um suspiro resignado, deixou-se cair na cadeira, cabisbaixo, enquanto pensava no por que não poderia ser ele a segurar Harry possessivamente, saborear seus lábios e lhe levar ao altar, ao invés do mimado e irresponsável Draco Malfoy.

- A vida é injusta – murmurou consigo, seus olhos fixados no caminho pelo qual Harry acabara de desaparecer, arrastado pelo ciumento noivo – mas um dia, talvez, ela o traga para mim.

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No final daquela semana, enfim, chegara a noite do jantar de encerramento do ano letivo, pois no dia seguinte, os estudantes embarcariam logo cedo no Expresso Hogwarts para voltarem às suas casas. A presença do diretor Alvo Dumbledore naquela noite consistia num verdadeiro marco histórico, pois desde o ingresso de Harry Riddle na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, era comum o ancião, em tal época do ano, encontrar-se em St. Mungus enquanto a vice-diretora assumia suas funções. A sombria e elegante presença do Lord das Trevas logo ao seu lado, porém, deixava claro que este ano o velho diretor fora inteligente o bastante para saber que se tentasse algo, não seria levado em estado grave para St. Mungus, mas diretamente para o cemitério onde se encontrava sua família.

- Mais um ano que passou... – Dumbledore começou seu discurso alegremente, e Tom e Harry reviraram os olhos, preparando-se para um longo e desnecessário falatório -... E que ano maravilhoso tivemos! Oh, eu gostaria de aproveitar, então, para agradecer à presença do professor Riddle, que tão gentilmente se ofereceu para ocupar o cargo de professor de Defesa Contra as Artes Obscuras este ano.

Inúmeros aplausos inundaram o Salão Principal e não apenas dos Slytherins, que aplaudiam de pé, mas da maioria dos membros das outras casas. Tom, porém, apenas piscou agradavelmente para seu filho e ignorou o diretor.

- Er... Bem... – o velho diretor murmurou desconfortável ao ser deixado no vácuo pelo Dark Lord – Continuando, então, vamos à entrega da Taça das Casas. Pelo que eu sei a contagem de pontos é a seguinte: em quarto lugar Gryffindor, com menos duzentos pontos... Er... Parece que é a primeira vez que encerramos o ano com uma casa dispondo de pontuação negativa – ao seu lado, Tom deixou um sorrisinho malicioso adornar seu belo rosto, enquanto os Slytherins deixavam escapar risadinhas maliciosas – Hufflepuff com cento e noventa pontos; Ravenclaw com trezentos e dez pontos; e finalmente, Slytherin, com quatrocentos e oitenta pontos.

Uma tempestade de aplausos interrompeu da mesa das serpentes e a contragosto, Dumbledore continuou:

- Sim, parabéns Slytherins, parece que além da Taça de Quadribol vocês ganharam também a Taça das Casas pelo sexto ano consecutivo – para diversão ainda maior de Tom e do grupo das serpentes era evidente o desgosto na voz do diretor. E este, então, viu-se entregando a Taça para um sorridente Harry, que logo foi rodeado pelos braços de seus amigos e companheiros de casa.

Ao final do jantar, quando os estudantes regressaram finalmente aos seus aposentos, o Salão Principal se viu abrigando apenas duas pessoas, num momento, no mínimo, épico. Tom Riddle, ou melhor, Lord Voldemort se encontrava no meio do Salão Principal, prestes a regressar aos seus aposentos, quando uma tranqüila voz o deteve:

- Aproveite enquanto você pode, meu caro Tom, pois ano que vem, depois do aniversário de dezessete anos de Harry, segundo a profecia, você não será mais imortal.

Com os olhos azuis brilhando friamente por trás dos óculos em formato de meia-lua, Dumbledore comentou com maldade. Mas Tom replicou a altura:

- E o Tratado de Paz irá deixar de vigorar, então, por fim, eu terei o Mundo Mágico e a sua cabeça aos meus pés.

- Não esteja tão confiante, o destino de todos dependerá da escolha do menino.

- É claro, mas me diga uma coisa, velhote, você ainda tem dúvida de qual lado o meu filho irá escolher? – com um sorriso de escárnio desenhado em suas feições aristocráticas, Tom se afastou, deixando um enfurecido Dumbledore para trás.

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Ao ver-se novamente rodeado pelas elegantes paredes de mármore escovado da Mansão Riddle, Harry não pôde conter um radiante sorriso. Estava em casa. Estava na segurança e no conforto do seu lar outra vez. Não obstante, para aumentar ainda mais a alegria do pequeno Lord, seu pai havia permitido que Draco passasse duas semanas com ele na mansão antes que saíssem de viajem para os EUA, onde se encontrariam com Pansy e Blaise em Miami.

Agora, faltando apenas dois dias para a esperada viagem, Harry aproveitava para desfrutar da companhia do seu noivo:

- Pansy me mandou uma coruja ontem dizendo que não havia lugar melhor para fazer comprar do que Miami, a não ser Paris, é claro.

- Pobre Blaise... – Draco sorriu divertido acariciando as costas nuas do menor. Os dois haviam acabado de sair do banho, após algumas deliciosas horas de intenso amor, aproveitando a ausência do Lord e o fato de Nagini e Morgana estarem de guarda na porta do quarto –... Posso até imaginar a expressão do pobre coitado enquanto segue de uma loja para a outra carregando as sacolas que não caberiam no seu bolso nem com um feitiço de redução, enquanto ouve uma extasiada Pansy tagarelar sobre qual sapado ela deveria levar, para no final ela decidir levar todos.

- Ele não poderia estar mais feliz.

- Com certeza – o loiro suspirou, abraçando o amado pelas costas – o amor é algo interessante e completamente sem nexo, não é mesmo?

- Sem dúvida – Harry sorriu, recostando no peito forte e ligeiramente molhado de seu noivo.

Draco, então, começou a distribuir pequenos beijos pelo pescoço do menor, que, por sua vez, estremecia em satisfação. Todavia, antes que os dois pudessem seguir ao tão esperado segundo round, seus estômagos protestaram em busca de atenção. Afinal, depois de tanto exercício os dois Slytherins se encontravam famintos.

- Que tal chamar um elfo doméstico, mon amour? – o loiro perguntou com a voz rouca, ainda sem soltar a estreita cintura do amado.

- Sim... – murmurou Harry, mas, então, sentiu uma conhecida presença regressar à mansão.

Era seu pai.

E a julgar pela conexão de suas mentes, o menino podia afirmar que o Lord das Trevas não se encontrava nada feliz. Era melhor, então, vê-lo, antes que o pobre Comensal da Morte que o acompanhava sofresse com as conseqüências, Harry constatou com um pequeno sorriso divertido.

- Na verdade, é melhor eu descer e ordenar aos elfos o preparo de uma deliciosa refeição para nós dois.

- Mas... – Draco protestou, vendo o menor se afastar e começar a cobrir seu fino corpo com a elegante túnica azul-marinho – Você vai me deixar aqui sozinho?

- Oh, não se preocupe, Nagini e Morgana lhe farão companhia.

O herdeiro da nobre família Malfoy, no entanto, apenas arqueou uma sobrancelha com um ar de poucos amigos para o sorridente moreno de olhos verdes, que, agora, tentava inutilmente colocar seus rebeldes cabelos negros no lugar.

- A não ser, é claro, que você queira me acompanhar ao escritório do meu pai para tentar impedir que ele destrua tudo ao seu redor, porque, provavelmente, seus últimos planos não saíram conforme ele desejava.

- Er... – o loiro empalideceu – Bem, deixa para lá... Quero dizer, é melhor eu esperar por você aqui, meu amor.

- Imaginei mesmo que sim – sorriu divertido, dando uma última olhada no espelho de corpo inteiro situado no canto do seu quarto e, satisfeito com a imaculada imagem que contemplara, Harry seguiu em direção ao escritório de seu pai.

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Enquanto isso, no mencionado escritório pessoal do Lord das Trevas, este se encontrava furioso com o fato de sua negociação com os Gigantes Nórdicos não terem surtido o efeito desejado. Pelo visto, a insuportável Ordem da Fênix chegara primeiro e os convencera a lutar pelo estúpido "bem-maior" de Dumbledore.

- Eu não devia ter mandado Avery fazer o primeiro contato.

- É uma perda insignificante, Mi Lord – Lucius Malfoy assegurou solenemente, acomodado na poltrona de couro em frente à mesa de mogno, a qual Tom presidia – O senhor, afinal, conta com o apoio de todos os Gigantes da Grã-Bretanha e do leste europeu.

- Aliados poderosos nunca são o bastante, Lucius! Ainda mais agora com a proximidade eminente da guerra – grunhiu a última parte, evidentemente inquieto com a mencionada proximidade da batalha.

O patriarca da família Malfoy, porém, replicou com convicção:

- O senhor não tem com o que se preocupar Mi Lord, esta guerra está praticamente ganha.

- Eu sei – suspirou, convocando um generoso corpo de Whisky de Fogo para ele e outro para Lucius, que aceitou com uma pequena reverência.

- Harry é um dos magos mais poderosos do mundo, meu senhor, e com ele ao nosso lado, Dumbledore não terá a mínima chance.

- Sem dúvida, Lucius – um olhar orgulhoso se desenhara no aristocrático rosto de Tom ao pensar nas habilidades de seu filho. No entanto, como o bom pai que ele nunca imaginara que um dia chegaria a ser, sua maior preocupação era com a remota possibilidade de Harry se ferir em meio à batalha.

- Ele não irá se machucar, meu senhor, isto é, pelo o que o senhor nos contou, a profecia garante sua posição decisiva nesta guerra, mas não menciona qualquer risco – Lucius afirmou, como se soubesse o que afligia os pensamentos do Lord – Assim, nada poderá separá-los, meu senhor, tenho absoluta certeza.

- Oh, é mesmo? – perguntou por entre os dentes cerrados, num intento de esconder a angústia que o tomava – Você está mesmo certo disso, Lucius?

- Estou, Mi Lord.

- Bem, você se esquece de um pequeno, mas crucial detalhe, meu caro – retorquiu com ódio. Ódio, porém, da situação em que se encontrava – E se ele vier a descobrir a verdade?

O coração de Tom, que poucos sabiam que existia, apertava dolorosamente ao pensar nesta remota possibilidade. Por incrível que pareça, sua preocupação não era com a possibilidade de perder o ponto chave que, segundo a antiga profecia, garantiria sua vitória na guerra. Não, sua preocupação não era perder a guerra, mas perder seu único e amado filho.

- Descobrir o que, meu senhor? Harry o adora e nada poderá...

- Lucius – o Lord das Trevas o interrompeu, irritado – parece que você se esquece que fui eu quem matou seus pais!

- Eu sei, Mi Lord, mas...

- Fui eu, Lucius! Eu matei Lily e James Potter! Eu o enganei a vida inteira...!

Do outro lado da porta, belos olhos esmeraldas se arregalaram em choque.

Não. Aquilo não podia ser verdade. Aquilo ia de encontro a tudo o que lhe fora dito a vida toda. Não, não podia ser verdade! Mas ele acabara de ouvir as palavras proferidas pelo seu próprio pai. Este homem havia matado Lily e James Potter, este homem havia matado seus pais! No entanto, o mais incrível era que este não era o ponto que mais lhe doía, mas sim o fato de estar sendo enganado há dezesseis anos! Esse tempo todo Dumbledore estivera certo, Black e o professor Lupin também – depois de tanto tempo, Harry finalmente lançava um pensamento ao homem que se dizia seu padrinho –, eles haviam lhe contado a verdade, mas ele cegamente se recusara a acreditar. E, Merlin, agora tudo fazia sentido, mesmo Peter Pettigrew não poderia ter sido ameaçado por um bando de muggles para entregar seus pais, ele fora ameaçado, porém, pelo próprio Lord das Trevas!

O Lord das Trevas...

Céus, este homem havia mentido para ele sua vida inteira apenas com o objetivo de possuir sua cega lealdade, porque esta, a julgar pelo que acabara de ouvir sobre essa tal profecia, seria o que iria garantir a vitória do Dark Lord na guerra. E isso fora o que, de fato, esmagara seu coração.

Tudo havia sido uma mentira.

As risadas sinceras que compartilharam... Mentira.

As palavras de incentivo e carinho... Mentira.

Os conselhos paternos... Mentira.

Toda a preocupação... Mentira.

O amor...

...Mentira.

Era tudo mentira!

A essa altura, com tais pensamentos o inundando vertiginosamente, Harry havia caído de joelhos, as trêmulas mãos sobre os lábios num intento de conter os desesperados soluços. Seus olhos estavam fixados num ponto vazio do chão, completamente banhados de lágrimas, lágrimas estas que corriam pelo seu rosto em abundância sem que ele sequer percebesse.

Era tudo mentira!

Esse tempo todo...

Seu pai havia mentido.

Lucius, seu padrinho, havia mentido.

Draco... Oh, Merlin, Draco havia mentido!

Afinal, dentre todos os defeitos da família Malfoy, a deslealdade e o manter segredos para com a própria família não era um deles. Lucius, então, havia certamente partilhado esta informação com Draco e Narcisa. E Draco, mesmo o ouvindo professar seu ódio para com os muggles, pois esta raça fora a que matara seus pais, havia se mantido em silêncio ostentando um olhar encorajador e compreensivo... O dresgraçado!

Todos eles!

Todos eles, desgraçados!

Ele fora um mero instrumento...

Um pião num tabuleiro de xadrez...

Uma arma a ser utilizada na hora certa...

- Como ele pôde? Meu próprio pai, como pôde...? – perguntou-se em voz baixa e soluçante. Todas as imagens dos maravilhosos momentos que partilhara com seu pai inundando sua mente. Havia sido tudo mentira. Apenas um jogo. Uma estratégia para mantê-lo na direção que ele desejava.

Ele era seu pai.

Como pôde traí-lo desta forma?

Ele era sua família, sua única família, seu porto-seguro.

Ele era... Não, ele não era mais nada, ou melhor, nunca havia sido.

Era tudo mentira.

Em meio a esses pensamentos, Harry se viu mergulhado numa onda de fúria, tristeza, agonia e decepção tão grande que sua aura mágica se agitou violentamente a sua volta. Ele estava apenas tão perdido... Tão ressentido... Tão decepcionado... Sentindo-se usado, descartável, miserável, traído... Eram tantos sentimentos que quase o sufocavam. Mas, cambaleante, ele conseguiu ficar de pé a tempo de ver a porta do escritório se abrir e oferecer os semblantes, no mínimo, consternados de Lucius e Voldemort.

Segundos antes, pois, o Lord das Trevas havia sentido pela conexão toda a onda de sentimentos que havia inundado seu filho e a proximidade furiosa de sua aura mágica. Ele, então, não pôde acreditar no que isso significava. E fazendo um abrupto sinal para Lucius se calar, levantou-se de sua escrivaninha depressa e com apenas um movimento de sua mão direita, abriu a porta do escritório – amaldiçoando-se por ter se esquecido de colocar feitiços silenciadores ao redor do local.

A imagem que viu, contudo, limpou todos os seus pensamentos, deixando-o em choque.

Ele nunca imaginara ver tamanha tristeza, ódio e decepção naquelas belas esmeraldas que sempre o haviam encarado com admiração e imensurável amor.

- Harry... – murmurou com a voz fraca.

O menino não escutou, ou o ignorou, encarando-o com um olhar vazio:

- Como você pôde? – a voz trêmula tão vazia quanto seus olhos – Como pôde olhar para mim e sustentar essa mentira por dezesseis anos?

- Harry, não é o que você está pensando, eu...

- Você se divertiu? Você e seu círculo interno de Comensais se divertiram? – lançou um breve e gélido olhar a um pálido Lucius Malfoy que parecia estar contemplando um show de horrores, ou pior, a vitória de Dumbledore – Vocês se divertiram vendo o estúpido menino acreditar em tudo o que vocês diziam?

- Harry, por favor...

- Foi tudo mentira, não foi? – a voz chorosa, mas isenta de sentimentos parecia um punhal se cravando no coração do Lord – Esses anos todos eu vivi numa mentira?

- É claro que não, Harry, meu filho...!

- Filho?

Os olhos esmeraldas finalmente professaram sentimentos: ódio, mágoa e incredulidade.

- Como você ousa?

- Meu filho, deixe-me explicar o que está acontecendo, por favor.

- Seu filho? – um sorriso quebrado, doído e cheio de tristeza se desenhou nos lábios molhados de lágrimas – Oh, não, Lord Voldemort – cuspiu o nome com ódio – Eu jamais seria filho de um maldito mentiroso!

- Harry, eu sei que eu menti, mas...

- EU JAMAIS SERIA FILHO DE UM ASSASSINO!

Cegado pela dor e pelo desespero, Harry gritou com todas as suas forças e então correu para a saída da mansão, esbarrando com um atordoado Draco no corredor:

- Harry, amor, o que...?

- FIQUE LONGE DE MIM, MALFOY! VOCÊ E SEU MALDITO PAI SEMPRE SOUBERAM... VOCÊS SEMPRE SOBEURAM, SEU DESGRAÇADO, MENTIROSO!

- O que? Do que você está falando, Harry? Espere! Harry, por favor, espere, eu não...! – mas o pobre loiro sequer pôde terminar a frase, pois, no instante seguinte, Harry se transformou num furioso Puma Negro e correu para fora da mansão.

- Draco, impeça-o!

O aludido, porém, não teve nem tempo de puxar a varinha para seguir as ordens de seu pai e deter aquela impensada fuga de seu amado, pois Harry já havia deixado a Mansão Riddle em direção ao obscuro bosque que a rodeava. E o Lord das Trevas, e ambos os Malfoy, não pensaram duas vezes antes de esquecer toda a dignidade Slytherin e correr, desesperados, para o bosque, tentando segui-lo – Draco chegando até mesmo a esquecer que era um animago também –, mas para o seu completo terror, antes que Tom pudesse chegar a ele, Harry havia cruzado os limites de segurança do bosque da mansão e, em sua forma animago, fizera algo que sequer sabia que era capaz. Ele aparatou.

E Tom ignorando o mundo a sua volta, olhando o espaço vazio no qual seu filho havia desaparecido, caiu de joelhos nas folhagens do boque.

- Harry... – foi seu único murmúrio.

Ele havia perdido seu filho.

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Ignorando completamente o fato de ter aparatado há poucos segundos, ao realizar algo que só poderia ser descrito como magia acidental, Harry continuou a correr em sua forma animaga como se sua vida dependesse disso. Ele correu cegado de ódio, lembrando-se a todo o momento das cruéis palavras de seu... Não, do Lord das Trevas:

"Eu matei Lily e James Potter".

"Eu o enganei a vida inteira".

"... A vida inteira...".

"Enganei...".

"Matei...".

Depois de horas, ou dias talvez, Harry chegou ao local que buscava e sentiu uma conhecida presença. Assim, transformando-se de volta em sua forma humana, deixou-se cair exausto nos braços da atordoada pessoa que o havia segurado.

- Por favor, eu não tenho para onde ir.

- Harry...

Continua...

Próximo Capítulo:

- Você tem certeza?

- Não – Harry suspirou – Mas eu preciso fazer isso.

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N/A:Olá pessoal, como vocês estão? Bom, dessa vez eu demorei um pouquinho menos, não é mesmo? Afinal, este capítulo tão "tenso" é nada menos que um importante marco em toda a história. Para onde será que o Harry foi? O que será que ele vai fazer agora? E como o Lord das Trevas irá lidar com a repentina ausência de seu filho? Estará a guerra pedida para o Lado Obscuro? E a pergunta mais importante: estará esta relação pai-e-filho perdida para sempre? São inúmeras perguntas a ser respondidas ainda... Espero que vocês tenham apreciado o capítulo e continuem apreciando a história! Estou ansiosa pelas REVIEWS!

Qualquer comentário, críticas, elogios ou sugestões...

São sempre bem vindos!

Meus sinceros agradecimentos e grandes beijos para:

IsabelleBezarius... Percy'Malfoy... KaroolEvansMalfoy... DehIsaacs... InesGrangerBlack... IsysSkeeter... NickyEvans... PandoraBeaumont... LariSL... MilaB... e ABFeta!

Em breve, o próximo capítulo de Estocolmo estará online para vocês conferirem!
Um grande beijo e até a próxima!