Uma Linda Mulher
Já fazia um bom tempo que Heitor não via sua mãe, Manoela. Como ela não havia aparecido no enterro de Akira, Heitor resolveu aproveitar um tempo livre no seu trabalho e dar uma passadinha na casa dela. Manoela, após o divórcio, voltou a morar com sua mãe em um apartamento bem simples da periferia.
- Então, mãe. Como a senhora está?
- Não muito bem, meu filho. Mas vai melhorar. - Os dois começaram a conversar e Heitor tentou o máximo possível evitar falar de Joaquim e sua nova namorada, mas ele não soube dizer como o assunto apareceu no meio da conversa sem ser convidado. - E seu pai, em? Que merda ele foi fazer! Trocou nossos anos juntos por uma quenga. A menina é até mais jovem que você! - Ser trocada por uma mulher com quase a metade da idade não deve ser uma experiência muito boa, por isso Heitor até compreendia a insatisfação de Manoela. Mesmo assim não conseguia sentir raiva de seu pai.
- Por que não faz como ele e arranja um garotão também?
- Você bem que podia me apresentar um dos seus colegas. Lá na DP não tem policial bonito não? - Heitor já começou a se arrepender de ter feito aquela sugestão a sua mãe. Ter um colega de trabalho ou um amigo traçando sua mãe também não deve ser uma boa experiência.
Aquele dia foi reservado para reencontros familiares. A noite Heitor havia prometido ao seu pai que iria em sua casa conhecer a sua nova namorada. Joaquim morava em uma boa casa que ficava situada em um condomínio de renome. Heitor aperta a campainha e quem atende a porta é uma linda moça loura de vinte e quatro anos. Assim que Heitor pôs os olhos na mulher teve alguns pensamentos luxuriosos. Ele só se conteve quando a ficha caiu. Estava pensando em um sacrilégio, aquela era a mulher de seu pai.
- Boa noite! Você deve ser a...
- Sofia. Você deve ser Heitor, filho de Joaquim, certo? - Heitor acenou positivamente com a cabeça. Os dois trocaram beijinhos na bochecha e Heitor foi entrando na casa.
Assim que viu seu pai Heitor o abraçou. Prestando atenção para ter certeza que Sofia não estava ouvindo foi comentar baixinho no ouvido dele. - Pai! Parabéns! Que gostosa!
- Hehe. Sabia que você ia gostar dela! Mas é minha, tira o olho! - Comentou Joaquim em tom jocoso.
O jantar estava servido. Sofia havia o preparado. Além de bonita era uma excelente dona de casa. Tudo o que um homem como Joaquim sonharia em uma mulher. Enquanto comiam os três conversavam. Sofia tinha curiosidade sobre o tipo de trabalho que um detetive em uma cidade como Gotham realizava. Heitor contou de modo superficial, tendo cuidado de evitar as piores partes.
Quando terminaram de comer Joaquim se ofereceu para recolher e lavar os pratos. Enquanto ele estava fora, na cozinha, Sofia e Heitor continuaram o papo. - Então você gosta de homens mais velhos, é?
- Seu pai só tem quarenta e quatro. Não é tão "mais velho" assim.
Heitor perguntou mais duas ou três coisas que ele esqueceu imediatamente assim que percebeu quem realmente Sofia era. Por alguns segundos o rosto dela havia mudado o cabelo loiro deu lugar a um ruivo e sua pele branca ficou verde. Ela não era humana. Sofia também havia percebido que havia sido notada.
- Você é um guardião?
- E você o que é?! Você quer o quê com meu pai?!
- Sou uma ninfa. Só quero amar Joaquim, como qualquer namorada.
Heitor apertaria mais Sofia se seu pai não tivesse voltado da cozinha. O trio conversou mais um pouco só que o clima na casa tinha mudado. Estava mais pesado. Por fim Joaquim levou seu filho até a saída. Na porta da casa ele é surpreendido por uma reação não esperada de Heitor.
- Pai, você tem certeza que essa moça é mesmo o que você quer?
- Ôxe, por que dessa sua desconfiança agora? Já sei, é sua mãe, não é?
- Não, pai, não é isso é só que... Tenha cuidado.
- Pode deixar que não sou mais nenhum menino.
Na DP, em sua mesa. Heitor verificava no computador se a nova namorada de Joaquim tinha alguma ficha criminal. Não encontrou nada demais, só algumas multas por excesso de velocidade. - Quem é essa? - Perguntou Jeremias Bolevar, seu parceiro de trabalho.
- Nada demais, só uma quenga que acho que quer se aproveitar de meu pai.
- Aff, você já está muito velho pra ter esse tipo de ciúmes. Deixa seu velho se divertir.
A conversa de Jeremias e Heitor teria que ser deixada pra depois um policial apareceu a eles acompanhado de uma mulher de trinta e poucos anos. Mais uma vitima dando queixa de algo. O assunto da vez porém era pesado. Tinha relação com o desaparecimento de uma criança. Uma menina de oito anos.
Jeremias e Heitor pegaram uma viatura e foram até onde a mãe da menina desaparecida morava. Um apartamento que ficava próximo a uma grande área verde. Um local ótimo pra se esconder ou pra esconder um corpo. Isso não era bom.
- Minha filha só estava indo para a escola que é aqui perto. Ela tinha começado a fazer o caminho sozinha a poucos meses e eu... - A mãe não conseguiu mais continuar, pois caiu no pranto. Um policial ficou consolando-a enquanto Heitor e Jeremias se afastavam para terem uma conversa mais particular.
- Quais as chances da menina simplesmente ter decidido fugir de casa? - Perguntou Jeremias.
- Com uma mãe carinhosa dessas e um bairro bom como esse? Diria mínimas.
- Sequestro?
- Temo que sim.
Perguntaram para a mãe se o pai, eram um casal divorciado, teria coragem de fugir com a menina. A mulher achava que não, mas nesse tipo de situação não dava pra descartar nada. Heitor pegou um endereço e foi fazer uma visitinha ao ex-marido.
O ex-marido morava em uma casa cujo a garagem havia sido ampliada e servia como oficina. Era um contraste, enquanto a mãe vivia em um bairro tão bom o dele era bem humilde. - Senhor Arnaldo. - Disse Jeremias. - Posso fazer uma pergunta?
- Sim, pois não?
- Onde estava na manhã de hoje?
- Trabalhando. Onde mais eu estaria?
Heitor contou a ele sobre o desaparecimento de sua filha e ele ficou tão nervoso que, se não fosse fingimento, deixou evidente sua inocência no caso. No meio do desespero uma coisa estranha aconteceu. O rosto de Arnaldo mudou. Um bico surgiu no lugar de seu nariz e ao invés de cabelos ele tinha penas douradas.
Heitor revirou os olhos. - Será que esses seres místicos vão invadir toda a porcaria da minha vida? - Se perguntou. O detetive pediu para que seu parceiro fosse checar uma coisa na viatura, um pretexto para que Jeremias deixasse que Arnaldo conversasse a sós com Heitor. - Muito bem, o que diabos é você?
- Como assim? Sou um mecânico.
- Não estou com paciência pra... - Arnaldo finalmente pareceu perceber o que Heitor queria dizer. - Sou um bicudo.
- Sua mulher sabe disso?
- Claro que não, ela é apenas uma humana normal.
- Ok. E o que diabos é um bicudo?
- Homem-pássaro, faço parte da crença dos povos indígenas da região. Somos inofensivos. Juro! - Arnaldo estendeu as mãos em uma demonstração de rendição. Heitor percebeu que seu suspeito tinha medo dele. Por isso resolveu maneirar no tom de voz. Não queria soar tão agressivo.
- Você consegue imaginar quem poderia querer sequestrar um bicudo como a sua filha?
- Tenho uma suspeita, mas tremo só em pensar nisso.
- Por favor, prossiga.
- Um bicudo tem um inimigo natural. Um predador. Eles são os agourentos. Também são um tipo de homens-pássaro. Só que suas penas são escuras e seu bico é bem maior.
Heitor deixou Arnaldo em paz e voltou a sua viatura. Lá ele conversou um pouco com Jeremias. - Então, o que acha do homem?
- Ele é inocente. Com quase toda certeza.
- Te ajudou em alguma coisa?
- Não. - Mentiu Heitor.
Pode parecer insensibilidade da parte de Heitor, mas ele não estava com seu pensamento muito voltado ao desaparecimento da menina. Principalmente depois de descobrir que ela não era totalmente humana. Sua preocupação era outra. Como a investigação do sequestro parecia não andar ele se voltou para seus problemas familiares. Heitor ligou pra sua mãe e teve uma conversa séria com ela.
- Mãe, a senhora estava certa. - Disse Heitor ao telefone. - Essa mulher não serve pra ele.
- Viu! Eu disse que essa moça é uma quenga!
- Sim, mas o que a gente pode fazer a respeito?
- Não sei, armar um flagrante. Qualquer coisa do tipo.
Após terminar a ligação com sua mãe Heitor foi correndo até um colega policial fazer a ele um pedido incomum. - Leleco, você pode fazer um favor pra mim?
- Estou ouvindo.
- Vai rolar uma graninha. Você aceitaria dar em cima da mulher de meu pai? - Leleco arregalou os olhos quando ouviu o que Heitor disse. Porém, aos poucos foi se acostumando com a ideia e no fim acabou gostando dela. Aceitando-a sem pensar muito a respeito. Nem seria pelo dinheiro, que era uma ninharia, só a chance de queixar uma moça bonita já o deixava animado.
Como um bom detetive Heitor descobriu todos os hábitos de seu alvo, Sofia. O esquema estava armado. Leleco iria pra mesma acadêmia em que ela malhava e tentaria a todo custo convidá-la pra sair. A primeira semana foi infrutífera, mas aos poucos Sofia parecia estar se abrindo. Quando Leleco comentou isso pra Heitor ele ficou feliz. O plano de separar aquela "criatura" de perto de seu pai parecia que iria dar certo.
Sábado, um cerco foi armado em uma casa. Vários policiais armados. - O que está acontecendo aqui? - Perguntou Heitor.
- Uma testemunha disse ter visto a menina desaparecida nessa casa. - Respondeu Jeremias.
- Estamos esperando o quê? Vamos invadir.
A polícia entrou arrombando porta e preparada para uma troca de tiro. Havia um sujeito na sala assistindo tevê. A primeira reação que teve ao ver tanta gente entrando em sua casa foi se levantar do sofá. O que acabou resultando em resposta enérgica de um dos policiais. - Pro chão! Pro chão!
Começaram a fazer a busca pela menina, os policiais reviraram todos os cômodos. Não encontraram nada. Heitor ficou na sala olhando para o rosto do suspeito algemado. De repente ele mudou. Seu rosto humano deu lugar a uma cabeça de pássaro. Um pássaro de penas escuras e de um bico bem comprido. Heitor lembrou das palavras de Arnaldo e começou a temer o pior. O detetive abriu a porta da geladeira. O que viu lá dentro iria o assombrar pelo mês inteiro.
A moral na DP estava baixa. Conseguiram prender o sequestrador, mas não salvar a vítima. A conversa era mínima, nada de papo furado e nem piadinhas, que era normal naquele ambiente. Arnaldo, o pai da menina encontrada morta, entrou pela DP desesperado. Tiveram que contê-lo, pois ele parecia querer espancar o detetive encarregado do caso, Heitor.
- Sabia que isso ia acontecer a minha pequena! Ela não vale nada pra você não é?! Ela nem mesmo era humana! - Ninguém entendeu o que Arnaldo queria dizer com aquilo. Desconsideraram tudo, resolveram entender que era apenas o ato de um pai desesperado que havia perdido a filha em um crime tão brutal. - Vocês guardiões não dão a mínima pra nós! Só querem saber de cuidar dos seus!
Heitor escondeu bem, mas quem fosse próximo a ele saberia que naquele momento o detetive queria chorar. Não tinha filhos, mas não era insensível ao ponto de não poder imaginar pelo que aquele homem passava.
Aquele momento serviu pra uma coisa. Serviu pra mudar algumas concepções que Heitor mantinha.
Heitor ligou para o seu amigo, Leleco, e pediu para que ele desistisse de dar em cima de Sofia. O policial fez muxoxo e falou que não iria parar. Só mudou de ideia quando Heitor fez duas boas ameaças com uma voz mais grossa. Naquele dia Heitor se reencontrou com Sofia, em uma rua movimentada. Uma conversa rápida.
- Estou te dando um voto de confiança. Se suas intenções com meu pai forem sinceras eu não irei atrapalhar e farei de tudo para que sejam felizes. - Sofia começou a sorrir, achando aquele depoimento meigo. Porém ela desmanchou logo o sorriso ao ouvir o que vinha a seguir. - Se você aprontar alguma ou machucar meu pai de qualquer forma você irá se ver comigo. Não como policial, mas como guardião. Está me entendendo? - Ela apenas balançou a cabeça assustada.
