Paraísos Artificiais

Heitor Sacramento estava na DP na frente de seu computador digitando um relatório. Seu cansaço era tanto que ele mal tinha noção do que digitava, simplesmente redigia o que estava impresso no papel. Um trabalho que ele achava não ser digno de sua função, detetive. Mas como era muito tarde da noite para algum estagiário ainda estar de plantão sobrou pra ele.

Seu trabalho mecânico e monótono foi interrompido quando Jeremias Bolevar o surpreende com um tapão nas costas. O amigo havia pesado a mão, fazendo com que o gesto soasse mais agressivo do que amistoso.

- Desgraça, o que você quer agora? - Perguntou Heitor.

- Cara, você não soube?! Mário está no hospital. Levou uma surra homérica de um drogado.

- Sim, e daí?! - Disse Heitor de uma forma tão fria que assustou Jeremias. - Ainda não pegaram o vagabundo, não? - Heitor sabia que se o agressor desse o azar de ser pego ninguém da DP ia perdoar.

- Sim, mas você não vai acreditar. Nunca ninguém viu um sujeito tão louco. Precisou de cinco homens só pra algemar o infeliz.

- Ninguém usou uma taser não?

- Usou, mas acredite não surtiu efeito algum.

Essa Heitor tinha que ver com os próprios olhos. Ele perguntou ao amigo onde o meliante estava detido e foi na cela dele fazer uma "visita". O bandido ainda estava eufórico, andava de um lado para o outro e tinha olhos arregalados. Como se tivesse ligado na tomada, ele parecia não parar nunca. Heitor olhou mais de perto querendo ver se o agressor revelava ser alguma entidade sobrenatural. O detetive olhou fixamente por quase cinco minutos e nada, nenhuma transformação. O sujeito parecia ser cem por cento humano.

- O que diabos esse cara tomou?

- O pessoal da perícia está vendo isso agora.

Heitor e Jeremias deixaram o detido de lado e foram até o laboratório. Um sujeito de meia idade árabe de nome engraçado estava encarregado de analisar tudo o que encontraram com o bandido. Ele tinha novidades estranhas.

- Então, Abdul, encontrou alguma coisa interessante com o maluco? - Perguntou Jeremias.

Abdul pegou, com luvas, um objeto que parecia um inalador usado por asmáticos. - Seja lá o que for que o maniaco ingeriu ele o fez com essa bombinha aqui.

- E o que tem nela? - Perguntou Heitor.

- Aí é que está. A substância aqui contida é algo que eu nunca vi antes. Enviei uma amostra para um laboratório de Metropolis analisar. Eles irão mandar uma resposta amanhã.

- Era só o que me faltava. - Se queixou Heitor. - Uma nova droga nas ruas. - Apesar da revelação não muito agradável Heitor ficou aliviado. Esse parecia ser um caso a qual não haveria envolvimento de criaturas sobrenaturais, místicas ou imaginárias. Algo que estava ficando cada vez mais remoto.

- Jeremias, onde foi que aconteceu o crime?

- Perto do shopping Max, em uma casa de show badalada.

- Topa dar uma passadinha por lá?

Heitor e Jeremias acabaram descobrindo que teria show na noite seguinte. Ali rolava festa todas as noites e como a maioria dos pontos de encontros de jovens sempre rolava uma galerinha que era chegada em uns tóxicos. Heitor se vestiu da maneira mais descolada que achava possível, mas se sentia um peixe fora d´água. Alguma coisa nele gritava "sou policial". As pessoas o evitavam, principalmente quando estavam fumando ou inalando alguma coisa. Jeremias, por outro lado, conseguia se disfarçar bem. Em poucos minutos descobriu um sujeito que vendia entorpecentes.

- Está vendo aquele sujeito ali? - Perguntou Jeremias a Heitor enquanto apontava para um sujeito baixinho que usava sandálias. - Ouvi dizer que dá pra comprar tudo o que é bagulho com ele. - Heitor ouviu tudo, mas precisou se esforçar. O som alto da rave atrapalhava a comunicação. O empurra empurra dos jovens alucinados também. Heitor odiava aquele tipo de ambiente. Naquele momento ele sentia falta de seu tempo de policial em que fazia segurança em festas como aquela. Nesse tempo ele podia usar um cassetete pra descer a lenha nos folgados que tivessem o incomodando. - Bons tempos. - Pensou.

Os detetives tentaram ser discretos, mas o vendedor baixinho pareceu ter percebido que estavam atrás dele e que não eram simples consumidores. No momento de espanto o meliante acabou revelando sua verdadeira forma. Seu cabelo liso de repente ficou encaracolado. Suas orelhas, que antes eram normais, ficaram levemente pontudas. E seus pés se tornaram um pouco grandes demais além de bem peludos.

- Diabo! - Heitor se irritou ao notar a natureza real do suspeito. Parecia que não havia mais crimes sendo cometidos por "pessoas normais".

O suspeito tentou correr, mas não conseguiu fugir por cinco metros, logo foi detido. Jeremias o agarrou pelo braço de maneira firme. O pobre diabo era franzino e muito pequeno pra representar algum perigo. Assim que foi pego suplicou. - Por favor sou só um halfling tentando ganhar a vida. - Jeremias não entendeu o que ele queria dizer com aquilo e até achou graça. Já Heitor entendeu e não achou graça nenhuma.

- Jeremias, vai interrogar aqueles drogados ali enquanto eu me encarrego desse infrator.

- Porra, Heitor, por que você sempre me deixa de fora da melhor parte. - Heitor não respondeu, apenas olhou para Jeremias com uma cara tão feia que o outro logo percebeu que havia falado um pouco demais. Jeremias deixou Heitor sozinho com o halfling, agora sem seu amigo por perto o guardião poderia falar o que quisesse sem revelar seu segredo.

- Um policial está entre a vida e a morte porque foi espancado por um viciado que tomou uma dessas porcarias que você está vendendo. O que diabos é isso.

O halfling começou a gaguejar, estava bem nervoso. Heitor apertou seus braços com mais força, forçando-o a encontrar coragem pra abrir a boca. - É só um composto feito com as ervas da minha terra, o condado, e mais umas coisinhas. É inofensivo, um trago não faz mal a ninguém.

- Quem é seu fornecedor?

- Não posso dizer. Ele é um homem perigoso.

Heitor teve vontade de rir. Se o fornecedor fosse também um hafling esse só seria perigoso para um banana como aquele. Não para um guardião. - Escuta aqui se você não me disser quem é ele e onde encontrá-lo vou dizer a todo policial de Gotham que você é o responsável pela quase morte de um deles. Acredite vão adorar machucar um pequenino como você.

A ameaça pareceu surtir efeito. O halfling deu nomes e endereços agora era fácil. Heitor pegou o saco da mão do baixinho e foi embora. Chamou Jeremias e disse ao amigo que tinha uma pista quente. Iriam fazer uma visitinha a um traficante ainda nessa mesma noite.

Ao contrário da maioria dos centro de operações de um traficante convencional a base de operações daquele grupo não ficava em um lugar afastado do centro em um bairro perigoso. Ficava em um bairro nobre em um prédio a vista de todos. Não muito longe da casa de show onde o halfling havia sido interrogado.

- Não é melhor chamar algum reforço? - Perguntou Jeremias a Heitor. - Esse tipo de apreensão não é função de um detetive.

- Que nada! - Disse Heitor. - Fique aí na viatura que vou resolver esse probleminha em dois tempos.

O apartamento era residencial. Parecia ser ocupado por pessoas de bem. Se fosse em outra situação Heitor teria posto em duvida a veracidade do depoimento do halfling, mas confiando em sua intuição, e na covardia do interrogado, ele sabia que estava perto. Heitor estava tão confiante que iria desmantelar uma organização criminosa sem enfrentar problema que nem se preocupou em empunhar uma arma. Halflings não são conhecidos por serem perigosos. Na verdade era até uma surpresa encontrar algum envolvido com aquele tipo de mercado. Halflings são seres pacatos que gostam de uma vida bucólica e simples. Não são amantes de emoções fortes e muito menos de violência.

Heitor chegou ao apartamento indicado e anunciou sua presença. - Polícia! Abram a porta. - Ninguém deu sinal de vida. O guardião perdeu a calma e meteu um pontapé na porta. A fechadura esmigalhou e como resultado ela abriu revelando um cenário que o detetive já imaginava. Uma sala com três halflings igualmente baixinhos trabalhando em uma espécie de laboratório improvisado. - Vai ser tão fácil quanto eu imaginava. - Pensou.

- Todo mundo pro chão! Vocês estão presos por produção e fornecimento de drogas ilícitas! - Os pequeninos obedeceram na mesma hora. Estavam tremendo, são um povo que se assusta fácil.

- QUEM ESTÁ AÍ?!

Agora foi a vez de Heitor tremer na base, uma voz gutural se fez presente. Os pequeninos não eram os únicos presentes na operação, havia um outro envolvido que pelo jeito parecia representar mais perigo que os demais.

A figura estava no banheiro, ele entrou na sala fazendo um estrondo. Ao contrário dos halflings era um sujeito alto e incrivelmente musculoso. Daqueles que teriam músculos até nos olhos se assim fosse possível. Heitor empunhou sua pistola e gritou "parado". O grandão ignorou. Continuou a caminhar a passos vagarosos na direção do detetive. Parecia gostar do medo que estava produzindo, estava calmo e confiante. Nem parecia que estava na mira de uma arma.

Como seu aviso foi ignorado Heitor efetuou disparos. BLAM! BLAM! O guardião tinha certeza que havia acertado, a distância entre os dois era mínima, mas o bandido não recuou. - Que porcaria é você?

Quando o gigante se aproximou de Heitor o suficiente para agarrar a pistola e tirá-la da mão do detetive, Heitor pôde ver qual era a real imagem dele. Sua pele não era feita de carne, mas sim de algo de cor dourada e de material muito rígido.

- Me chamo Rasputin. Lembre-se desse nome quando você chegar no mundo dos mortos, pois é o nome do homem que pôs fim a sua patética existência.

Rasputin agarrou Heitor pela cintura e como se ele fosse uma bola de papel sem peso algum o arremessou pela janela. O detetive atravessou vidro e levou uma queda de quatro andares. O baque com a calçada foi horrível. Heitor sentiu uma dor sem igual. Por poucos instantes ele chegou a ver seu amigo, Jeremias, correndo em sua direção, provavelmente para acudi-lo, depois fechou os olhos e não viu mais nada.

- Estou morto? - Heitor até chegou a cogitar isso, mas logo percebeu que a luz que vinha de cima na verdade era uma lampada de teto. O ambiente era muito branco, mas não tinha nada de angelical. Alguns minutos após ter recobrado a consciência Heitor entendeu que estava em um leito de hospital.

O braço estava engessado e o olho esquerdo não queria abrir direito, provavelmente inchado. Heitor não conseguia se ver, mas não era burro ao ponto de não entender que estava um caco. O guardião olhou para os lados e finalmente pareceu perceber a presença de um homem estranho. Que pelo jeito que se vestia, com roupas coloridas demais, não devia ser o médico e nem nada do tipo.

Assim que notou que havia sido percebido o estranho reagiu de maneira inesperada. Como se estivesse reencontrando um amigo de longa data. O problema é que Heitor nem imaginava aonde teria o visto antes.

- Desculpe, eu te conheço? - Perguntou Heitor por fim.

- Ôxe, não está me reconhecendo? Olhe mais atentamente! - Heitor assim o fez e por alguns segundos o rosto humano daquele sujeito deu lugar a um outro bestial, mas que era muito mais familiar. A pele branca e o cabelo liso foram substituídos por um rosto de bode. Um bode peculiar com chifres bem compridos e feito de madeira.

- Pan?!

- Esse é meu nome real, como estou usando esse disfarce de humano tive que escolher um novo nome. Me chame de Adamastor Pitágoras.

- Foi você que escolheu esse nome? - Perguntou Heitor achando graça.

- Era a identidade que estava disponível na loja. Algum problema?

- Não, imagina. É bom te ver, mas não me entenda errado. O que uma criatura da floresta vem fazer aqui, na cidade grande?

- Soube que você se machucou muito então decidi passar um tempo em Gotham, cuidando de sua saúde. Agora me responda uma duvida. Como vocês humanos conseguem viver em um ambiente tão barulhento? O solo é horrível, não dá pra sentir a terra nos pés e quase não há brisa.

- Leva um tempinho pra se acostumar, mas depois que se pega o jeito da cidade grande não se quer mais largar.

- Duvido! Nunca irei preferir o concreto a uma boa mata.

O fauno e o guardião conversaram outras trivialidades por um bom tempo até que Heitor finalmente tocou no assunto importante. - Disparei minha pistola duas vezes contra aquela coisa e ele nem se mexeu. Parecia ter uma pele feita de aço. O que diabos era aquilo?

- Hmmm. - Pan, ou Adamastor, fez uma pose pensativa, com a mão direita segurando o queixo. - Pela descrição parece se tratar de um corpo-fechado.

- Nunca ouvi falar.

- O diário do seu pai os descreve como "impossíveis de se ferir pelo lado de fora".

- Nossa! Isso ajuda muito! - Disse Heitor em tom de ironia.

Mais tarde os colegas de profissão de Heitor apareceram para uma visita. Jeremias, claro, estava entre eles. O comandante Levi Straus também. Levi, por sua vez, trazia novidades não muito boas. - Não encontramos seu suspeito. O apartamento foi esvaziado antes que pudêssemos fazer alguma coisa. Mas não se preocupe. Com certeza iremos encontrar esse filho da mãe! - Heitor ouviu aquelas palavras e sorriu, meio sem graça. Aquela última declaração trazia mais temor do que conforto.