Será que ele é?

Adamastor Pitágoras (Pan em sua forma humana) e Heitor estavam na sala assistindo a uma transmissão do filme O Exorcista. Os dois estavam no apartamento de Heitor. Esse apartamento ficava em um prédio simples de apenas quatro andares. O bairro era popular e o prédio também. O apartamento ficava no último andar. Era pequeno, só tendo um quarto. Como Heitor morava sozinho ele não sentia muita necessidade de mais espaço.

A menina possuída do filme começou a girar a cabeça como se fosse uma coruja, nesse momento Adamastor ficou se contorcendo no seu acento, horrorizado. - Acho que vou pegar alguma coisa pra comer na cozinha. - Disse o fauno. Um pretexto para parar de ver aquelas imagens assustadoras. Algo que Heitor acabou percebendo. - Seu frouxo.

Adamastor pretendia enrolar o máximo possível. Na cozinha ficou abrindo e fechando gaveta procurando algo comestível. Por fim encontrou o presente que alguns meses atrás ele havia entregue a seu protegido.

- Heitor, você já usou um desses feijõezinhos que eu te dei? - Por causa de seu interesse em saber a resposta para aquele questionamento Adamastor até se esqueceu do filme terrível que tentava evitar.

- Na verdade não. Com meu trabalho corrido acabei não tendo tempo.

- É, mas agora tempo livre não é mais problema. - Adamastor se referia a licença médica que Heitor estava aproveitando. O médico deu um mês de folga a ele. Esse era o tempo mínimo de recuperação para alguém que sofrera um trauma como o que ele havia sofrido. Sequelas eram esperadas. Porém, o que o médico não sabia era que Heitor era um guardião. Seu corpo é mais preparado. Se curando bem mais rápido. Após duas semanas o detetive tinha apenas algumas dores na lombar e na perna esquerda. O pior já tinha passado.

- O que eu tenho que fazer mesmo? É só molhar e o quê? Um portal é aberto?

- Não. Na verdade o grão irá se transformar em um pé de feijão gigante que ao ser escalado leva o viajante até um outro mundo.

Heitor se lembrou de que quando ele havia ganho os feijõezinhos ele tentou comê-los, uma duvida então o acometeu. - O que aconteceria, hipoteticamente, se eu ingerisse um desses feijões?

- Nunca vi isso acontecer antes, mas... Acho que o grão iria se desenvolver se aproveitando da água de seu corpo e começaria a se crescer dentro de tu. Acho que não seria uma visão bonita. - Com as palavras do fauno Heitor imaginou várias plantas saindo de dentro do seu corpo até chegar a um ponto tal que ele estouraria.

A televisão para de transmitir o filme para dar uma notícia excepcional. O repórter estava a anunciar uma tragédia. Um garoto de 14 anos espanca o colega de classe até ele chegar a óbito. Uma discussão é feita. Procurasse algum culpado na família, na escola e nos filmes e jogos que o menino agressor gostava. Por fim o repórter mostrou um inalador exótico que havia sido encontrado em posse do garoto. Um inalador que Heitor conhecia bem.

- É ele! - Disse Heitor.

- Ele quem?

- O desgraçado que me jogou pela janela! Ele é responsável por essa desgraça!

Heitor pretendia aproveitar sua licença médica até o fim, mas não poderia ignorar suas responsabilidades como guardião. Não tinha sangue frio pra isso. Ver os outros serem feridos enquanto ele sabia que só ele podia deter os responsáveis. Heitor não podia ficar neutro. Naquela tarde o detetive voltou a DP. Seus colegas pareceram surpresos ao revê-lo.

- Cara, você já está bem? - Perguntou um deles.

- Claro. Levi está na sala dele?

Heitor foi direto para a sala do seu comandante, Levi Straus. Levi estava atrás de sua mesa, digitando algo em seu computador. Assim que notou a presença de seu subordinado Levi deixou de lado o que estava fazendo e foi falar com ele.

- Heitor? Não esperava te encontrar tão cedo.

- Já estou melhor, comandante. Obrigado pela sua preocupação e por ter me visitado no hospital.

- O que é isso? Se nós homens da lei não nos apoiarmos quem fará isso por nós?

- Senhor Straus, sobre o homem que me machucou. Vocês conseguiram alguma prova de seu paradeiro?

- Infelizmente não, mas acho que com você de volta isso vá mudar.

Heitor estava saindo da sala, iria até sua mesa conversar com Jeremias para se inteirar das novidades quando Levi o chamou de volta. Queria tratar agora de um assunto mais pessoal.

- Filho, já nos conhecemos a um bom tempo, certo?

- Sim. - Falou Heitor já temendo o que veria a seguir.

- Não quero entrar em sua vida, mas não consigo ficar ausente quando vejo um irmão saindo do rumo. - Levi tinha uma faceta religiosa que ele tentava disfarçar, mas que volta e meia vinha à tona. Heitor odiava quando isso acontecia. - Heitor, você está precisando encontrar Jesus em sua vida. - Levi entregou ao detetive um cartão com um endereço de uma igreja. Heitor aceitou aquele gesto com um sorriso meio sem jeito. Ele estava sem entender porque aquele surto religioso agora.

Após sair da sala do comandante Heitor sentou-se a sua mesa, como ele previra seu amigo, Jeremias Bolevar, estava sentado na mesa ao lado. Heitor não sabia o motivo, mas sentia que seu amigo o olhava de um jeito estranho.

- Heitor, que bom te ver. - Disse Mário, que anunciou sua presença dando tapinhas nas costas do detetive. Tendo cuidado para não ser ouvido pelos outros Mário foi falar com Heitor baixinho, para que ninguém mais ouvisse. - Força, campeão. Nós temos que nos unir! As primeiras semanas depois da aceitação são as mais difíceis.

- Sobre o que está falando? - Mário saiu sem dizer mais nada. Deixando Heitor cheio de duvidas.

- Jeremias, o que diabos está acontecendo com todo mundo? Estão me tratando estranho.

- Estão é?

- Que desgraça! Até você?!

- Heitor, me responde uma coisa. Você é...? - Heitor arregalou os olhos, já sabendo o que Jeremias queria perguntar, mas não entendendo o motivo disso. - É que o pessoal está sabendo que tem um homem morando contigo no seu apartamento e... Sabe como é, junta isso com o fato de você ser solteiro e não ter namorada... - Heitor entendeu que seu amigo se referia a Adamastor. Como seus colegas de trabalho ficaram sabendo que ele estava hospedado em sua casa era um mistério.

- Que absurdo! Mente podre do pessoal daqui!

- Mas é verdade ou não que...?

- Eu estou hospedando um parente lá em casa, um primo. Ele é do interior e não tem onde ficar aqui. Só isso.

Jeremias respirou mais tranquilo, visivelmente aliviado. - Ufa! Por um momento pensei que...

- Pensou o quê?!

- Nada! Nada! - Jeremias ficou quieto por alguns minutos e depois voltou a falar. - Mas também não tenho nada contra, se você fosse eu...

- Quieto! - Jeremias começou a achar graça do desconforto do amigo.

Heitor podia agradecer aos céus, um policial se aproximou trazendo uma notícia que interrompeu aquele momento constrangedor. - Encontraram um traficante que bate com sua descrição do homem que te jogou da janela. - Na mesma hora Heitor se levantou. Foi correndo pegar sua arma e estava pronto pra ação. Ele ainda não tinha chegado a um bom plano pra deter aquela ameaça. Porém acreditava que poderia pensar em algo no caminho.

Desta vez não era um prédio no centro, mas sim uma espelunca em uma área muito ruim da cidade. Os policiais tiveram que entrar em vários becos e descer lances de escadas bem estreitos e sem corrimão. Quando Heitor chegou no lugar os policiais já tinham invadido. Se fosse um caso comum o meliante já estaria detido, mas tendo em vista quem era o meliante em questão Heitor duvidava muito. O detetive entrou na casa e não encontrou o que procurava, um sujeito de quase dois metros e com cara de marginal. Encontrou apenas um grupo de sete policiais bem treinados espalhados pelo chão. Heitor assim que viu a cena pegou o seu rádio e pediu por ajuda médica. A central custou a entender o ocorrido. Ter tantos policiais feridos de uma vez em uma ação relativamente simples como aquela não era algo comum.

- Só pode ser obra de satanás! - Um dos policiais caídos ainda estava consciente. Heitor caminhou até ele, tendo cuidado pra não pisar em outro policial tombado, e se agachou para ter uma conversa. - O que aconteceu aqui?

- Um homem enorme! Descarregamos nossas armas nele, mas não serviu de nada. Nem se nossas pistolas fossem de festim era pra ter um resultado desse. Como pode? Como pode uma pessoa ser "blindada"?

- Quando aconteceu isso?

- Não tem nem quinze minutos. - Era o que Heitor precisava ouvir, talvez seu algoz não estivesse muito longe. O detetive deixou os policiais moribundos para trás e partiu em disparada rumo ao que ele acreditava ser a rota de fuga usada pelo corpo-fechado.

Ali estava ele, caminhando calmamente, como Heitor havia visto no diário do seu avô aquelas criaturas tinham uma fraqueza. Eram incapazes de correr. Talvez por causa do peso do aço em seus corpos.

- Polícia! - Grita Heitor. Rasputin se vira para encarar seu adversário. Não consegue disfarçar um sorriso malicioso.

- Pensei que você estivesse morto. Pelo visto guardiões são tão resistentes quanto baratas! - Heitor apanhou sua pistola e a apontou na direção do corpo-fechado. Só fazendo com que ele achasse ainda mais graça naquilo. - Você pode atirar em qualquer parte do meu corpo que eu...

Blam! Aproveitando a tagarelice de Rasputin Heitor dá um tiro ousado. Não atingindo nenhuma parte externa do corpo do seu oponente. Mas sim dentro de sua boca. Algo digno de um guardião (que por si só já tem reflexos melhorados) que treina manuseio de armas de fogo desde a tenra idade.

- O que você fez comigo? - Rasputin tentava andar, mas alguma coisa o impedia. De repente ramos de folha começaram a sair por todos os seus orifícios. Uma secreção verde começava a ser vomitada. Pela primeira vez na vida o corpo-fechado estava aterrorizado. - O que você fez?! O que você feeeez?!

Agora era a vez de Heitor se sentir por sima. Ele pegou do bolso um feijãozinho colorido e o mostrou pro seu oponente. - Não sei se você conhece essa belezinha aqui. Já ouviu falar de feijão mágico? Pois bem, fazem milagres quando são molhados. Extremamente perigosos se forem ingeridos.

- Como? O que isso tem a ver com...?

- Antes de vir te caçar precisei pensar em uma forma de matá-lo. Assim que saí da DP passei no meu apartamento e peguei um dos meus feijões. O amassei e preenchi uma das balas da minha pistola com ele. A bala que você acabou engolindo agora.

- Filho da...!

Rasputin quebra, estilhaços de aço voam para todos os lados em uma explosão verde. Heitor por pouco não é atingido. Galhos e ramas colossais são expelidas do corpo já caído do homem de aço e crescem até tomarem medidas impossíveis. Crescem até alcançarem o céu.

- Nossa!

O pé de feijão monstruoso era tão grande que poderia ser visto de qualquer parte da cidade. Isso é, se ele fosse visível para as pessoas normais. Heitor se distanciou um pouco a ponto de entrar em uma viela mais ou menos movimentada. Os transeuntes andavam como se nada tivesse acontecido. Ignorando a coisa fantástica que ganhava os céus.

Heitor até pensou em escalar aquele pé de feijão. Fazer como o personagem famoso de um conto de fadas que seu avô lhe contou quando era criança. No fim ele decidiu deixar isso pra lá e voltar pra casa. Durante todo o caminho ele olhava para cima e via que o pé de feijão continuava lá.

- Vejo que você já fez bom uso do meu presente. - Disse Adamastor. Assim que viu Heitor passar pela porta do apartamento.

- E agora? Ele vai ficar lá até quando?

- Um pé de feijão mágico fica ativo por uma semana. Depois disso ele encolhe e vira um grão de feijão comum. O que estamos esperando? Já até arrumei minha mochila. Vamos dar um passeio em outro mundo!

- Espera! Não sei se isso é uma boa ideia!

Apesar da desconfiança de Heitor o fauno conseguiu convencê-lo com dois ou três argumentos fortes. No fim daquela tarde os dois já estavam de volta ao beco na frente do pé de feijão. Os dois com mochilas nas costas, preparados para uma viagem ou aventura. Apesar de ter concordado com a ideia o guardião ainda se mostrava um pouco receoso.

- Não sou bom nem em escalar uma árvore. Como vou subir isso tudo?

- Não se preocupe. É um feijão mágico. Escalá-lo é mais fácil do que parece.

No meio do caminho, apesar de temer olhar pra baixo e cair na calçada (uma queda no mês já basta), Heitor começou a discutir um assunto com Adamastor que ele acreditava ser importante.

- Pan, não é que eu queira me desfazer de sua companhia, mas é que os meus conhecidos já estão maldando sua estadia lá em casa. Dois homens solteiros morando junto parece chamar muita atenção.

- Isso seria resolvido se você arranjasse uma namorada. - Constatou o fauno. - Por que não arranja uma?

- Sei lá, acho que trabalhar como detetive e guardião toma muito do meu tempo.

- Faremos assim, vou te ajudar a arrumar uma boa companheira.

- Sério?! Obrigado. Do jeito que estou a perigo é capaz de aceitar ficar com a primeira mulher que aparecer pela minha frente.

Como Adamastor tinha previsto escalar o pé de feijão era mais simples do que aparentava. Em poucos minutos os dois conseguiram chegar ao topo. Apesar da altura, o vento forte e outros contratempos não foram empecilhos. Uma lógica que só objetos mágicos podem proporcionar.

Heitor e Adamastor se viram em um ambiente bem verde. A primeira vista parecia uma floresta, mas ao longe era possível ver uma vila. Um aglomerado de casas de madeira que se assemelhava a algo medieval. Ao chegar mais perto os dois constataram que não era bem uma vila, mas sim uma feira a céu aberto. Muita gente andava de um lado para o outro. Vendedores e compradores procuravam a chance de um bom negócio.

- Que lugar é esse? - Perguntou Heitor.

- Você é cego? É uma feira, ué? Que legal! Talvez eu encontre algo interessante para comprar. Seu presente eu comprei em um lugar como esse.

Pan resolveu se separar. Heitor não gostou muito daquela ideia, mas não conseguia contrariar seu amigo. Era um ambiente estranho e ele não queria andar sozinho por ali. Se sentia inseguro. As pessoas que andavam por ali em sua maioria se vestiam com roupas coloridas. Como em algum festival burlesco. Isso é, aqueles que vestiam alguma coisa, até nudez era aceitável. Heitor ficaria envergonhado se não tivesse sido adivertido sobre os costumes estranhos dos povos de outros mundos. A maioria dos participantes da feira eram humanos, ou ao menos pareciam humanos, mas também havia criaturas exóticas. Seres com cara de animal ou rosto monstruoso. Como não estavam no mundo mundano não tinham necessidade de se disfarçar e, por isso, não escondiam sua forma bizarra com uma aparência humana.

- Hei, amigo! Posso ajudá-lo?! - Devido a aglomeração de gente Heitor teve dificuldade em encontrar quem havia falado com ele. Por fim Heitor acaba descobrindo, foi uma senhora que estava sentada no chão e mostrava seus produtos em uma bancada improvisada, quase rente ao chão. A velha parecia ter uns oitenta anos e se vestia como uma cigana. Mas como estava em um mundo estranho Heitor não podia saber com certeza se ela era realmente o que parecia.

- Desculpe, mas não tenho dinheiro. - A desculpa de Heitor não era totalmente mentirosa. Ele duvidava que o dinheiro do mundo mundano tinha algum valor por ali. E pra terminar os produtos mostrados da velha não lhe despertavam nenhum interesse. Uma jarra cheia de olhos que se mexiam, colares com símbolos exóticos, estatuetas de divindades que Heitor desconhecia... Enfim, nada para qual ele visse alguma serventia.

- Eu aceito outras formas de pagamento.

Heitor sentiu um frio na espinha ao ouvir aquelas palavras. - Não, tudo bem, senhora. Não tenho interesse.

- Espere, tenho outros produtos a disposição. - A cigana velha se levantou e apontou para umas moças bonitas que estavam atrás dela. Todas possuiam o mesmo tipo fisico. Morenas com um corpão. Usavam roupas minimas, como se estivessem indo para a praia. Devido a vista interessante Heitor demorou a perceber que aquelas mulheres estavam ali como se fossem mais "produtos" a disposição. Seres vivos vendidos como se fossem objetos. Como policial Heitor ficou enojado com a ideia. Por causa disso ele se arrependera de ter expressado um olhar de cobiça.

- Não, senhora. Sou contra escravidão.

A cigana riu, entendendo uma ironia que Heitor não havia percebido. - Seu rosto me é familiar. Sabe, eu tenho uma memória muito boa. Nunca esqueço uma fisionomia.

- Impossível minha senhora. É a primeira vez que venho aqui. - Heitor completou em pensamento. - E espero que seja a última.

- Conheci alguém de sua família. Seu pai? Alias não, ele era muito velho pra ser isso. Acho que era seu avô talvez?

Como Akira também era um guardião Heitor achou possível que ele pudesse ter visitado um lugar como aquele. Mesmo assim era muito improvável que aquela cigana tivesse o conhecido. Seria muita coincidência. - Ele se chamava Akira, certo? - Heitor quase caiu pra trás quando ouviu o nome do seu falecido avô sair da boca daquela velha.

- Como? Como você sabe sobre o meu avô?

- Sabia! Como eu disse antes nunca me esqueço de uma fisionomia! Consigo identificar parentes de longe! Seu avô foi um dos meus clientes mais assíduos. Ele comprou alguns dos meus melhores produtos. - Quando se referiu aos seus "melhores produtos" a cigana apontou para as escravas a venda. Heitor não queria acreditar. Ele praticamente idolatrava seu avô. Não aceitava a ideia de que ele fosse esse tipo de gente.

- Não pode ser! - Heitor olhou para as meninas em exposição e constatou algo terrível. Todas elas eram muito parecidas com Jacira, só que como se fossem versões trinta ou quarenta anos mais novas. Heitor pensou e se lembrou que Jacira não era apenas empregada de seu avô, mas também sua amante. A decepção acabou fazendo com que as lágrimas começassem a brotar de seus olhos. Será possível? Será possível que Akira havia comprado Jacira como um tipo de escrava sexual?