V de vingança
Era uma vez um halfling chamado Sawe Justa-Correia.
Em um mundo medieval vivia Sawe, em uma pequena comunidade agrária de halflings chamada de O Condado. Os halflings do condado levavam uma vida simples e regrada. Aventuras e atos inesperados não eram encorajados. O que levou aquela comunidade a ter muitos anos de paz e sossego. Porém, como toda sociedade, o condado também tinha seus problemas. Sem perceber, Sawe acabou se tornando um deles.
Entre as várias plantações cultivadas no condado havia uma especial que chamava a atenção dos estrangeiros. Um tipo de erva que comumente usavam como fumo e não trazia muitos malefícios se usada só dessa forma. Porém, descobriram que misturando a erva do condado com outros ingredientes podia se fazer um composto que provocava euforia e agressividade, além de ser muito viciante.
O interesse dos estrangeiros na erva do condado acabou se tornando a chance que Sawe queria para sair de sua terra natal. Conhecer outros mundos e ter aventuras era um desejo que ele nutria e escondia dos seus iguais por saber que poderia torná-lo impopular.
Um estrangeiro exótico, um gigante na perspectiva de alguém nascido com a estatura halfling, chamado Rasputin veio com uma proposta. Rasputin levou Sawe e mais alguns amigos dele para um mundo estranho, onde o verde das matas era substituído pelo cinza do asfalto e do concreto. Essa viagem veio com uma troca, Sawe e seus amigos iriam usar seus conhecimentos para produzir as fórmulas que Rasputin tanto queria vender.
Sawe não era muito bom na concepção das fórmulas por isso acabou sendo escalado por Rasputin para trabalhar como vendedor. O halfling foi obrigado a vender as mercadorias do gigante em um ambiente a qual não estava acostumado. Festas barulhentas em que as pessoas dançavam de modo frenético e faziam coisas que espantavam os olhos de Sawe, que era acostumado com a simplicidade do campo e não com a agressividade do mundo urbano.
Certa noite, Sawe estava cumprindo sua rotina de vendedor de substâncias ilícitas, quando um homem veio abordá-lo. Ele não era só mais um comprador, mas sim um homem que era capaz de ver através de seu disfarce de humano. Um guardião. Sawe ouviu várias histórias de guardiões quando era criança. Histórias que o deixaram aterrorizados. Naquele momento seu coração bateu tão forte que ele pensou que iria morrer.
O guardião perguntou sobre a procedência da mercadoria que Sawe estava vendendo. O halfling tentou despistar, mas foi inútil. Ele acabou revelando ao guardião o esconderijo de Rasputin. Acabou traindo a confiança do seu patrão.
Sawe sabia que esse tipo de traição feita a um homem tão perigoso como Rasputin não permaneceria impune. Sawe fugiu e tentou se esconder, mas aquele mundo era diferente do seu e ele não entendia suas regras nem como sobreviver nele. Acabou sendo descoberto.
Rasputin ficou possesso. Sawe pensou que sofreria uma morte terrível, mas seu destino foi pior. O corpo-fechado pôs correntes nele e o levou ao mercado Trasgo, uma feira que se situava em um outro mundo, um lugar em que a compra e venda de tudo era permitido. O halfling agora iria amargar uma vida de servidão. Uma vida de escravo.
O trabalho era incessante. Limpar estábulos, limpar a casa, aprontar a comida, vender os produtos do seu amo... Um sentimento até então desconhecido começou a brotar no coraçãozinho de Sawe. Pela primeira vez na vida ele sentia raiva. Pela primeira vez na vida sentia o desejo de vingança. Tal desejo, porém parecia mais um sonho distante. Era muito improvável que Sawe reencontrasse o guardião responsável pela sua desgraça.
No entanto as vezes o destino sorri para a gente.
Sawe estava na sua rotina de servidão atrás do balcão vendendo raios engarrafados. Aquele dia não estava tendo muita saída e ele já sabia o que isso significava. Seu mestre descontaria suas frustrações nele. O halfling estava triste, mas seu animo mudou completamente quando ele o viu andando calmamente pela feira. O maldito guardião estava a fazer compras no mercado Trasgo. Era uma oportunidade incrível para se ter uma vingança. Não dava pra ignorar essa.
Sawe deixou seu balcão de lado, não mais se importando com quais punições sofreria por causa disso. O halfling se dirigiu até o dono do mercado, um trasgo com um nome quase impronunciável. Teve dificuldades só para passar pelos guardas, ninguém dava muito importância ao que um escravo dizia. Principalmente um tão pequenino. Após muito esforço, e agressões sofridas, Sawe conseguiu ser ouvido. - Há um guardião entre nós!
Heitor estava nervoso.
Heitor Sacramento correu através dos compradores e vendedores procurando freneticamente por uma pessoa, um fauno melhor dizer. Adamastor estava enchendo sua mochila com várias quinquilharias que havia acabado de comprar quando foi surpreendido pelo seu amigo humano.
- Pan, você tem que me contar a verdade!
- O que foi? Parece que viu um fantasma?
- É verdade?! É verdade que meu avô, Akira, conheceu Jacira nessa feira?!
- Sim. - O mundo de Heitor começou a ruir. Porém ele teimava em não acreditar. Lutava com todas as forças contra os fatos. Ainda nutria esperanças que tudo não passasse de um mal entendido. - É verdade que Jacira era sua escrava?!
Adamastor olhou para Heitor como se ele tivesse feito a pergunta mais estupida do mundo. Como se houvesse feito uma pergunta tão óbvia que não merecesse resposta. - Claro, ué. Vai me dizer que você nunca soube disso?!
Heitor pôs as mãos na cabeça e ficou andando de um lado a outro visivelmente transtornado. - E você me conta isso com essa cara lisa?!
- O que isso tem de mais?
- "O que isso tem de mais"?! Você ainda pergunta?!
- Heitor, se você quer ser um guardião melhor você se desligar da noção de moralidade mundana.
- Eu não ouvi isso!
Devido a discussão que estavam tendo no momento Adamastor e Heitor não perceberam que as pessoas que estavam próximas a eles começaram a se afastar. Em todos os mundos quando o povo começa a perceber que um tumulto irá acontecer sua tendência é se afastar. Não ficam tão próximos a ponto de se envolverem, nem ficam tão longe a ponto de não poderem assistir a tudo.
Finalmente Adamastor notou que havia algo estranho. - Heitor, acho que nós temos problemas mais urgentes. - Eram cinco homens. Estavam com o rosto coberto e vestiam roupas escuras. Lembrariam ninjas, mas não era esse o caso. Usavam cimitarras como arma. Eram bandidos a serviço do dono do mercado. - Talvez você estivesse certo, Heitor. Talvez não fosse uma boa ideia ter vindo pra cá.
Heitor sentiu vontade de esmurrar Pan. Talvez assim o fizesse se não tivesse que se ocupar com uma ameaça de morte. O guardião optou por pegar sua pistola de seu coldre. Apontou para os bandidos que se aproximavam e ordenou que parassem. Eles ignoraram e continuaram avançando. Heitor demorou a compreender o porque. Geralmente quando ameaçados por uma arma de fogo a tendência das pessoas era se afastar, mas eles não. - Será que são blindados como o corpo-fechado? - Pensou o Guardião. Então ele entendeu. Não é que não temessem um tiro, o problema é que aqueles assassinos nunca tinham visto uma pistola antes.
O primeiro bandido a alcançar Heitor quase o acerta com a espada, o guardião desviou e se não fosse pela mochila que estava usando sofreria um talo feio nas costas. Um chute bem dado e um golpe no pescoço foram o suficiente para deter esse aí. Agora vieram os outros quatro. Heitor atirou para cima na tentativa de assustá-los. Não surtiu o efeito esperado. Assassinos treinados não se assustariam apenas com barulho. Apesar de não ter gostado Heitor não teve alternativa. Mirou no bandido mais próximo e disparou. Ele caiu duro no chão, morto. Só assim os outros pararam. Atrás das máscaras dava pra ver suas expressões assustadas. - Que bruxaria é essa?! - Perguntou um deles.
Heitor aproveitou o medo dos seus adversários e pegou Pan pelo braço pra saírem logo dali. Os dois correram. A medida que fugiam as pessoas a sua volta iam abrindo espaço. Sem perceber eles estavam começando a criar uma fama. Estavam perto da saída da feira quando Heitor ouviu alguém gritar. - É ele! É ele! - o guardião se virou para ver quem o acusava e viu um ser pequenino de cabelos encaracolados, orelhas pontudas e pés peludos. Heitor olhou para o halfling e não conseguiu se lembrar de onde o tinha visto antes. A máxima era verdadeira. Quem bate esquece, quem apanha não.
Heitor e Pan são surpreendidos por um golpe forte o suficiente para mandá-los para longe. A dupla caiu de modo estrondoso. Em cima de algumas barracas. Um pouso desengonçado que espalhou lascas de madeira e quinquilharias pelo chão. Com o golpe a pistola do detetive voou longe e parou nos pés do agressor. Por sorte ele não sabia como manuseá-la. Se não era bem provável que os dois tivessem encontrado seu fim.
A criatura tinha um pouco mais de dois metros, sua pele era azul e ele era muito forte. Era careca e sua orelha tinha um formato engraçado, parecendo um funil. Esse era o dono do mercado. - Quem é esse? - Perguntou Heitor. Pan prontamente respondeu. - Essa feira se chama mercado Trasgo por causa dele. Ele é o dono da área. Só não me peça pra dizer seu nome. Acho que não conseguiria.
- Me chamo Myzklnpkl.- Disse o trasgo. - É verdade que você é um guardião? - Perguntou apontando para Heitor.
- Sim. - O guardião respondeu e na mesma hora se arrependeu de sua sinceridade. Pan deu um soco em seu ombro. Comprovando que ele havia acabado de fazer uma besteira.
- Os guardiões são lendários em sua missão de defender o mundo mundano das crias da imaginação humana. Seria muito lucrativo ter um de vocês na coleira.
- Você está querendo que eu seja seu...
- Escravo!
Pela segunda vez naquele dia Heitor sentiu um frio que lhe percorreu a espinha. Ele pensou no que Akira fazia com Jacira e temeu que o trasgo lhe obrigasse a fazer o mesmo. Heitor tateou o seu coldre só até se lembrar que não estava em posse de sua arma. Ela estava na mão do trasgo.
Como o trasgo não fazia nem ideia de como atirar, Heitor se sentiu confiante para se levantar e tentar iniciar uma briga com mãos limpas. O guardião prepara seu melhor chute. Infelizmente o trasgo consegue bloqueá-lo apenas com a palma da mão direita. Sem demonstrar muito esforço o trasgo joga a perna de Heitor pra cima o forçando a dar uma cambalhota pra trás.
- Pan, pelo amor de Deus diga que você comprou algo útil!
O fauno ficou vasculhando sua mochila enquanto Heitor tentava sem sucesso fazer algum estrago no trasgo. A calma de Pan deixava Heitor furioso. Algo compreensível. Enquanto Heitor tomava vários tapas o fauno agia como se nada demais estivesse acontecendo.
No final o trasgo tomou uma decisão errada. Resolveu experimentar a arma que havia roubado do guardião. Ele a pegou de mal jeito e acabou pressionando o gatilho antes do tempo. A pistola estava apontada para baixo fazendo com que a única coisa que fosse atingida fosse o pé da criatura. O trasgo grunhiu de dor e quase chorou. Heitor no primeiro momento ficou sem saber o que fazer, depois teve que conter os risos.
- Pan, esquece. Vamos embora!
Heitor já estava andando rumo ao pé de feijão quando sentiu alguma coisa chutando sua canela. Ele olhou pra baixo e viu um pequenino tentando agredi-lo. Parecia uma criança revoltada. Não oferecia perigo assim deixou Heitor curioso.
- Calma aí, menino. Qual o seu problema?
- Não sou nenhum menino! Pelo menos tenha respeito!
Heitor olhou atentamente e percebeu se tratar de um halfling, não uma criança. - Ops, desculpe.
- Você arruinou tudo! Você acabou com minha vida! Se não posso ter minha vingança ao menos tenha a decência de terminar comigo!
- Espera, eu não entendo. - Heitor olhou mais atentamente para o rosto de Sawe e finalmente o reconheceu. - Você era o vendedor de entorpecentes naquela boate! O que faz aqui?! - Sawe contou sua história, aquela que se encontra no início desse capítulo, deixando Heitor com um sentimento de culpa.
- E agora, Pan, o que posso fazer por ele?
Sawe guiou Pan e Heitor até a morada do seu mestre. Um homem de quarenta e poucos anos com aparência oriental. Ele se chamava Sheng Lee. Assim que viu seu escravo sumido se aproximando ele pegou uma bengala comprida e tentou bater no pobre Sawe. Ainda bem Heitor o impediu.
- Com que direito você interfere na educação que eu dou a meus criados?
- Quanto você quer pelo halfling? - Perguntou de vez Heitor, sem mais rodeios.
O chinês fez pose pensativa. Ele percebeu que o pequenino significava muito pro guardião e tentou se aproveitar da situação pedindo um preço muito acima do mercado.
- Heitor, sinto informar, mas eu não tenho essa quantidade de dinheiro comigo. - Disse Pan.
- Você aceita outra forma de pagamento? - Aquelas palavras custaram a sair da boca de Heitor. Ele temia o que poderia vir com isso. Principalmente depois de ver o sorriso malicioso que o dono de escravos fez.
- Heitor?! - A expressão de medo de Pan só fez com que a sensação desagradável de Heitor aumentasse ainda mais. - Você sabe o que está fazendo?!
- Sinceramente não.
Sheng Lee olhou atentamente para Heitor e finalmente deu seu preço. - Quero o nome do seu primeiro filho. - Heitor chegou a rir aliviado, não compreendendo a extensão daquele pedido. O guardião acenou positivamente e quando o chinês estendeu sua mão ele a apertou. Pan e Sawe tentaram impedi-lo, mas já era tarde demais.
Ao saírem do mercado Sawe não conseguia conter a emoção. - Muito obrigado! - Outrora enfurecido o halfling agora era só abraços. - Você deu o nome do seu filho por mim! Nunca imaginei que um guardião seria capaz disso! - O halfling foi embora todo serelepe. Heitor tinha um sorriso no rosto devido a sensação de trabalho bem resolvido. Já Pan não. Estava sério, quase com raiva. Heitor notou isso e achou estranho. Não era fácil um fauno perder a calma.
- O que você tem?
- Você deveria deixar o pequenino com seus problemas, você tem noção do que fez?
- Acho que sim. Só vou avisar ao mercador qual será o nome do meu primeiro filho. Grande coisa. - O tom de ironia na voz de Heitor deixou o fauno ainda mais impaciente.
- Esse tal de Sheng Lee deve ser um bruxo. - Disse Pan. - Só pode ser isso. Quem mais iria dar tanto valor a um nome? Você tem noção do quanto um bruxo pode fazer com uma pessoa só por saber seu nome?
- Deixa pra lá. - Disse Heitor em tom de desdém. - Além do mais, do jeito que as coisas vão, duvido muito que eu vá ter um filho algum dia.
De volta ao mundo mundano Heitor pegou seu corola e foi fazer uma visita a Jacira. Como visto anteriormente ela agora morava na antiga casa de Akira. Heitor foi recebido por ela que não conseguia disfarçar nem a surpresa nem a alegria.
- Heitor, que bom te ver!
- Jacira, eu vim aqui porque eu preciso saber.
- Diga.
- É verdade que Akira era seu dono? - Heitor ficou meio sem jeito só em fazer aquela pergunta. Ela soava estranho.
- Eu fiquei com ele por todos esses anos porque o amava.
- Então Akira não te "comprou"? - Mais uma vez Heitor se sentiu envergonhado. Mesmo assim tentou superar o desconforto. Aquela verdade sobre o seu avô ele precisava descobrir.
- Eu nasci escrava, se é isso que você quer saber. Não sou desse mundo. - Essa notícia o surpreendeu. Nunca Heitor iria imaginar isso mesmo após tantos anos de convivência. - Seu avô era um homem honrado, espero que você não esteja pondo isso em duvida.
- Como um dono de escravos pode ser honrado?
- Ele não me "comprou", ele pagou um preço pela minha liberdade. Um preço que mais tarde lhe custaria a vida. - Heitor arregalou os olhos visivelmente interessado naquela história. - Mesmo com cem anos Akira nunca seria derrotado por um simples ceifador. Seu avô morreu porque ele teve que entregar o próprio nome. Seu avô morreu porque ele entregou o próprio nome pra me libertar.
Heitor começou a tremer, Jacira pensou que era pelo baque das revelações, mas não era isso.
Finalmente Heitor tinha compreendido a besteira que tinha feito.
