Ela é Demais.

Sabe quando você está digitando um trabalho que levou um bom tempo e quando você estava quase no final de repente seu pc dá pau? Heitor estava passando por essa dificuldade. O detetive não estava usando nada pesado, só um editor de texto básico. Mesmo assim o computador deu uma travada feia, daquelas em que nem o mouse se mexia. Revoltado, Heitor desconta sua frustração na máquina. Um esforço obviamente inútil.

- Assim você vai lenhar com o HD. - Avisou Jeremias, que não era perito em informática, mas podia se gabar de ter mais conhecimento do que seu colega.

- Estava quase terminando meu relatório e essa merda quebra! Chama o estagiário da informática pra mim? Sempre esqueço qual é o ramal.

Jeremias pegou o telefone de sua mesa e fez a ligação. A conversa foi rápida, ele apenas falou vagamente sobre o defeito. O estagiário deveria vir logo em seguida, porém ele estava demorando. Dez minutos de espera era muito para quem como Heitor estava prestes a terminar um serviço.

- Diabo! Esse menino está aonde?!

- Heitor, Ferdinando não está mais aqui. O estagiário agora é outro.

- É mesmo? Quem?

- Uma menina de descendência sueca.

- Hmmm! Que chique! É bonitinha?

- Ela é meio difícil de se gostar, pois é muito diferente.

- Em que sentido?

- Em todos.

Heitor ficou curioso, pois nunca havia visto ou ouvido falar sobre essa tal nova estagiária. O que até era fácil de entender. O setor de informática ficava no fundo da DP, numa sala escondida que quase não fazia falta. O setor só era acionado basicamente quando algum computador dava problema. Naquela delegacia a informática não era usada de maneira proativa, era usada apenas para "apagar incêndio".

A moça da informática finalmente apareceu. Assim que pôs os olhos na menina Heitor notou que realmente ela não era convencional, ele só não tinha ainda ideia do quanto. A garota era bem magrinha e sua pele era bem clara. Em contraste, seu cabelo era bem escuro. Ela se vestia toda de preto, da cabeça aos pés. Deveria ter mais de dezoito, do contrário não poderia ser contratada. Mas seu corpo era tão mirrado que parecia ter uns quinze.

- Meio gótica, né? - Comentou Heitor baixinho, para que só Jeremias ouvisse.

- É, mas não vá brincar com ela sobre isso não que a moça é brava. Semana passada Leleco chamou ela de Morticia. A garota deu uma resposta tão dura que o abusado só faltou enfiar a cara no chão.

- Haha. Isso eu queria ter visto. Qual é o nome dela?

- Pergunta pra ela, ué.

Heitor deixou os cochichos e falou em alto e bom som, para que a menina ouvisse. - Garota, qual é seu nome?

- Felícia. - Disse a moça de modo bem seco. Deixando claro que não queria conversa. Ela apenas estava concentrada em seu trabalho. Sentou em frente a máquina e começou a fazer a manutenção ali mesmo. O ideal era levar pra sala, mas ela não tinha paciência pra isso. E também não gostava de levar peso.

Após reiniciar o computador Felícia mexeu em algumas funções a quais Heitor não compreendia. E, como em um passe de mágica, o PC voltou a funcionar. - Você é realmente boa! - Heitor não soltou aquela frase com malícia, mas a garota pareceu ter interpretado errado. Felícia o encara com um olhar fulminante e o detetive chegou a temer que ela fosse mordê-lo. Ao invés disso uma coisa ainda mais surpreendente ocorre. O rosto de Felícia muda, revelando que ela era uma criatura sobrenatural. Por poucos segundos Felícia mostrou a Heitor sua real aparência. A moça era totalmente careca, na superfície lisa de sua cabeça havia várias tatuagens que lembravam circuitos. Seus olhos eram totalmente negros. E pra completar o visual bizarro em sua testa havia um código de barra estampado.

Os dois ficaram se encarando por um momento, sem trocarem uma palavra, Heitor não sabia o que fazer com essa nova descoberta e Felícia tentava bolar uma boa resposta para deixá-lo no chão. De repente a moça mudou de ideia quando percebeu que estava sendo notada. - Você é um guardião?!

Jeremias ouviu aquilo e achou graça, pra ele não fazia o menor sentido. Felícia saiu correndo dali reforçando a ideia de que não batia bem da cabeça. Ela não voltou ao seu setor, apenas cruzou a porta e foi embora.

- Você entendeu alguma coisa? - Perguntou Jeremias.

- Não.- Mentiu Heitor.

Quando teve uma pausa no trabalho Heitor aproveitou para fazer uma visita a casa de Felícia para tentar esclarecer as coisas. Pra amenizar o clima, pra mostrar a ela que não precisava ter medo. Para conseguir o endereço da moça ele fez algo que não é totalmente legal. Puxou uma cópia de sua fixa de cadastro no RH.

A casa era bem pequena, quase um barracão. Em uma rua da periferia que era cheia de becos. Foi difícil encontrar, mas nada que duas ou três tentativas não dessem jeito. Heitor bateu na porta. Ninguém atendeu. Em um primeiro momento o detetive não soube se tinha errado a casa ou se Felícia simplesmente não queria atender. Por sorte um menino de rua passou por perto e deu uma valiosa dica.

- A mulher dessa casa é louca, moço. Não perde seu tempo não. - O sexto sentido de Heitor, que era um sexto sentido de um guardião logo era bem mais apurado que a média, dizia que o moleque estava se referindo a Felícia. Por isso ele bateu na porta mais algumas vezes. Por fim pareceu que ele havia vencido pelo cansaço.

Felícia atendeu a porta com olhos arregalados e segurando uma faca. - Você não irá me matar assim tão fácil! Vou logo avisando sou perigosa! - Apesar da ameaça Heitor não se sentia em perigo. Já tinha passado por situações semelhantes antes.

- Calma, não vim brigar. Só conversar. - Felícia abaixou a faca e ficou o encarando com uma expressão de quem não estava entendendo alguma coisa. Heitor deduziu que a atitude que tomara não era o que ela esperava de um guardião.

- Tá bom, pode entrar. - Como se nada de mais tivesse ocorrido Felícia deu as costas para Heitor e o convidou. Apesar de entender que ela fazia parte de outro mundo o detetive começou a se indagar se ela era totalmente sã.

A casa de Felícia por dentro ainda era pior do que por fora. As paredes não tinham pintura e havia pouquíssimos móveis. Só o essencial. Apesar disso a sala fazia contraste. Vários monitores modernos presos a parede, no chão várias CPUs. Se não fosse os teclados postos em cima de simples mesas de plásticos até que aquilo pareceria alguma central de comando. Heitor olhou para o emaranhado de fios e aparelhos da sala e se perguntou se aquele material era roubado. No mínimo a internet e a rede elétrica eram gato. Apostava Heitor. Na sala não havia sofá por isso Heitor se sentou em uma das várias cadeiras plásticas que estavam empilhadas ali.

- O que é você?

- Sou uma transhumana.

Heitor ainda continuava a não entender. - O que é isso? Nunca vi nada igual.

- Os humanos não imaginam apenas criaturas místicas e seres da floresta, eles também sonham com o futuro. Minha raça nasceu desse sonho. Somos o futuro da imaginação humana. Com o progresso, penso eu, os humanos não irão imaginar mais deuses nem seres mágicos. Irão imaginar quais maravilhas a tecnologia pode proporcionar.

- A imaginação da humanidade é grande, tem espaço pra todos. - Heitor parou um pouco para olhar o que os monitores mostravam e não pôde conter sua curiosidade. - O que é isso tudo?

- Nessas máquinas eu guardo minha vida virtual, por assim dizer. Basicamente softwares imaginários, que nem viraram projeto ainda. Alguns deles a humanidade levará anos, décadas, até mesmo séculos para desenvolver.

Heitor não podia conter o fascínio. Estava estampado em seu rosto. Felícia notou, mas não expressou nenhuma reação a isso. - Com tudo isso você poderia, sei lá, "dominar o mundo". Por que se conter em ser apenas uma simples técnica de manutenção?

- Se eu fizesse o que está sugerindo eu acabaria causando algum problema e entraria na lista negra de você ou de algum outro guardião. - Heitor sorriu sem jeito, ele não podia negar aquilo. Já que sua função e a da sua gente é controlar os seres imaginários que saem da linha.

Os dois conversaram por um bom tempo. Com o decorrer da conversa Felícia foi se soltando e até chegou a dar um sorriso. Heitor contou a ela sobre as dificuldades da sua profissão (de detetive e de guardião) e Felícia contou sobre as habilidades de um transhumano. Controlar qualquer máquina digital, navegar na internet com a mente, fazer downloads direto ao cérebro... Heitor mentiria se dissesse que não estava impressionado. O futuro realmente era fascinante. A conversa estava tão boa que Heitor havia perdido a hora. Estava atrasado. Ele se despediu as pressas e voltou a DP. Jeremias foi o primeiro a vê-lo e a perguntar onde ele havia se metido. Heitor mentiu, claro. Ele até achou graça em imaginar qual seria a reação de seus colegas se descobrissem que ele havia passado seu tempo livre com a nova estagiária. Com certeza iriam maldar.

Os dias da semana foram se passando. Nesse meio tempo Heitor e seu parceiro, Jeremias, resolveram alguns casos e não saíram da rotina. Heitor, se dando ao trabalho de disfarçar, de vez em quando tentava dar uma escapulida até o setor de informática. Das vezes que foi não encontrou quem procurava, Felícia, no seu lugar viu apenas um rapaz gordo. Ele perguntou por onde ela andava, mas o novo estagiário não soube responder. Heitor havia então entendido. Era uma pena, mas Felícia não estava mais no quadro de funcionários da DP.

Naquele fim de semana Heitor passou na casa de Felícia. Bateu na porta várias vezes, ninguém atendeu. Ele ficaria tentando a tarde toda se um dos meninos que brincavam na rua não lhe contasse a novidade. - A moça que morava aí, nunca mais apareceu. A doidinha sumiu!

Heitor começou a se preocupar. Será que sua nova amizade havia se transformado em mais um dos seus casos de policia? No DP, entre um trabalho e outro, Heitor pesquisava nos sites da prefeitura se houve alguma ocorrência médica ou policial em Gotham envolvendo alguém cuja descrição batesse com a de Felícia. Não encontrou nada. O que até era um alívio, mas não tanto.

Quando ele menos esperava chegou uma resposta. Heitor tentava terminar um relatório quando uma janela do messenger insistentemente aparecia em sua tela. O detetive a fechava diversas vezes e começou a achar que se tratava de algum vírus. Por fim, após o messenger aparecer tantas vezes ele finalmente o leu. Quem estava tentando se comunicar era Felícia. A primeira frase que Heitor leu foi: "está me procurando?"

Heitor mal podia acreditar. Sua felicidade ficou estampada em seu rosto, algo que não deixou de ser percebido por seu colega, Jeremias. Indiscretamente Jeremias disfarça e dá uma olhada por sobre o ombro de Heitor e lê aquela conversa. Jeremias ri. - Hmmm! Tá comendo a esquisitinha, em? - Heitor não ouviu ou não se dignou a responder. Apenas continuou no bate-papo e confirmou um encontro. O primeiro em muito tempo. Ele realmente estava precisando daquilo.

Na noite seguinte, após o expediente, Heitor esperava por Felícia na porta de uma pizzaria. Quando ela apareceu Heitor ficou impressionado com a diferença de seu visual. O preto ainda estava dominante, mas as roupas meio largadas foram trocados por um vestido comprido. Sem o visual carregado meio gótico Felícia se mostrou uma garota com mais atrativos.

Heitor e Felícia entraram e pediram uma mesa para dois, acabaram sentando perto de uma das janelas. Foram dividir uma pizza meio peperoni, meio calabresa e começaram a conversar. O papo estava tão bom que o casal não havia percebido que a pizzaria começou a esvaziar. No fim só ficaram eles e os funcionários. Felícia foi a primeira a notar que algo ia errado.

Heitor olhou para os garçons, todos eles pararam de fazer os seus serviços e ficaram encarando o detetive. Em poucos instantes Heitor conseguiu ver a real natureza deles. Um teve o rosto convertido em o de um urso branco, outro revelou uma face verde e cheia de espinhos, um terceiro tinha dentes afiados que chegavam até o queixo, um tipo bizarro de homem morsa.

Os garçons começaram o ataque, usando facas e utensílios de cozinha como arma. Se ele não estivesse acompanhado e tentando se dar bem Heitor até acharia interessante aquela intervenção. Dois cruzados e um gancho deram fim ao homem-urso-polar. O homem-morsa também encontrou seu fim com a mesma facilidade. Já o homem verde de rosto cheio de espinhos se mostrou ser um adversário um pouco mais difícil de ser derrubado. Heitor se viu surpreendido quando o "espinhudo" o derrubou em cima de uma mesa e o imobilizou. Em seguida tentou enfiar-lhe uma faca. Heitor impediu a mão de seu inimigo descer usando seu único braço livre. Era um confronto de força. Heitor, como guardião, provavelmente venceria, mas ele não precisou descobrir qual seria o resultado do embate. Felícia toca na testa do sósia do hellraiser e imediatamente ele se contorce e cai duro no chão. Aquela menina tinha algo similar a um taser nas mãos. Era uma garota cheia de surpresas.

Heitor julgou Felícia como sendo uma garota moderna e devido a esse julgamento fez um pedido meio descarado. Ela ouviu a sugestão com um sorriso no rosto, Heitor tinha conseguido o que queria. Aquela noite os dois passariam no apartamento dele.

Heitor acordou na manhã seguinte super relaxado. Ainda com os olhos fechados ele estende seu braço procurando pela amante em sua cama, ela não estava lá. O detetive não demora a perceber que sua companhia havia discretamente saído da casa no meio da noite. - Que menina doida! - Pensou.

Ela não havia deixado telefone, endereço ou nenhuma outra forma de contato. Heitor ficou meio desapontado com aquilo, parecia que Felícia era moderninha até demais. Só solicitando a presença de Heitor para um sexo casual, sem compromisso. Isso deixou o detetive meio desapontado. De qualquer modo ele acreditava que um relacionamento mais sério entre os dois não iria dar certo, apesar de querer tentar engatar um assim mesmo. No julgamento de Heitor eles eram muito diferentes. Ele muito careta enquanto ela era muito pra frente.

Enquanto isso em outro mundo.

No mercado trasgo um bruxo chinês chamado Sheng Lee usa uma espécie de bola de cristal pra descobrir algumas novidades. Uma delas era muito boa. Seu investimento parecia que iria começar a render. Vender um escravo em troca do nome de um filho ainda não nascido de um guardião. Aquela venda era uma aposta um pouco arriscada já que o guardião em questão poderia nunca vir a ter um herdeiro. Porém o bruxo havia apostado certo.

Dentro da barriga de uma mulher pouco tradicional o filho do guardião começava a se formar.