Um Dia de Fúria

Levi Straus geralmente não vai as ruas, mas nesse caso ele fez uma exceção. Um pedaço grande da rua estava fechado, linhas amarelas faziam um cerco na tentativa de afastar os curiosos para que estes não atrapalhassem a investigação. A vítima tinha chegado a óbito muito antes dos policiais chegarem. E pelo estado do corpo não foi um final bonito. Levi, como comandante, não precisava se envolver tanto, mas aquele caso era mais particular, quase pessoal. O morto fazia parte de sua congregação. Um conhecido de longa data.

Juntos na cena do crime estavam os detetives Jeremias Bolevar e Heitor Sacramento. Além dos dois mais alguns policiais faziam o perímetro e o legista Abdul checava o corpo ali mesmo, dando um resultado preliminar antes de examiná-lo com mais cuidado em um laboratório.

- Espancamento até a morte. - Disse o legista árabe. Ele estava agachado, tentando ficar o mais próximo possível do corpo jogado no chão. - Isso é até mais do que obvio, mas achei por bem oficializar do mesmo jeito.

- Seu amigo tinha algum inimigo? - Perguntou Heitor a Levi.

- Não sou muito intimo dele, mas acho muito improvável. Era um homem pacato cujo a rotina parecia ser só da casa ao trabalho e da casa a igreja.

Abdul afastou a blusa do morto pra poder ver melhor seu peito. O que viu não foi animador. - Parece que ele foi golpeado pelo corpo todo. Isso é meio difícil quando se tem só um agressor. Provavelmente ele foi linchado.

- Meu Deus! O que está acontecendo com minha Gotham?! - Se indagou Levi enquanto se lembrava de outros casos bizarros, como o da menina que foi esquartejada e guardada em uma geladeira.

Aquela noite já estava ruim, mas parecia que ainda ia piorar. Um policial veio correndo até Levi para dar uma notícia péssima. - Encontraram outro corpo jogado no chão. Parece que foi espancado também.

O rabecão ficou encarregado de levar o defunto enquanto Heitor, Jeremias, Levi e Abdul entraram em uma viatura para analisar a outra vítima. Eles não demoraram muito a chegar a outra cena do crime. Era distante apenas por alguns quarteirões. O que fez com que pensassem se tratar de outra vítima do mesmo agressor. Ou grupo de agressores como estava parecendo ser o caso.

A segunda vítima, ao contrário da primeira, era bem jovem. Parecia ser um adolescente ou alguém que tinha acabado de atingir a idade adulta. Assim como o outro seu rosto estava tão machucado que o crânio chegou a afundar. Não era algo bonito de se ver. A primeira coisa que Heitor fez ao ver o corpo foi procurar pela carteira no bolso. Além do documento de identidade encontrou algo interessante. Um pedaço de madeira fino pintado de preto, uma varinha, os outros, os mundanos, julgariam apenas aquilo como sendo um brinquedo. Heitor, porém, sabia muito bem o do que aquilo era capaz. Quase foi transformado em uma privada por causa de uma daquelas.

- O garoto é bem grandinho pra brincar com essas coisas, não acha? - Perguntou Jeremias.

- Sei lá, já vi fãs de todas as idades. - Disse Heitor, tentando despistar o real significado daquela varinha. - E também pode não ser dele. Talvez ele tenha comprado para alguém, um filho ou sobrinho, sei lá.

- Esse garoto é da sua igreja também? - Perguntou Jeremias a Levi.

- Acho que não. Nunca o vi.

Um policial se aproximou de Levi e falou para ele sobre uma possível testemunha. Apontou para um rapaz um pouco acima do peso que apesar de ser jovem, não mais do que vinte e cinco anos, já era quase todo calvo. Levi, Heitor e Jeremias foram falar com a testemunha. O jovem parecia nervoso, o que era até compreensível. Não é fácil testemunhar um crime, denunciá-lo pior ainda.

- Então, rapaz. Diga seu nome e o que viu. - Falou Levi, com sua voz mais calma possível.

- Me chamo Hancock. - A testemunha percebeu que os policiais fizeram cara de estranhamento ao ouvir o nome, talvez duvidando de sua veracidade. - Eu sei, o nome é diferente. Meus pais não são daqui.

- Pois não, Hancock, o que você viu? - Perguntou Jeremias.

- Eram muitos, uns quinze, estavam vestidos de preto e usavam máscaras de monstro. O garoto não provocou nem nada ,ele só estava andando pela rua. Assim que o viram partiram pra cima e fizeram o que vocês estão vendo ali. - No meio da explicação o rosto de Hancock mudou revelando a Heitor sua natureza não humana. Ele tinha a cabeça de uma coruja, mas não uma coruja convencional. Uma mecânica, daquelas feitas com engrenagem e roda dentada. Quase como um brinquedo do século XIX.

- Eu me escondi naquele beco escuro, acho que só por isso que eu não sobrei.

- Conseguiu ver o rosto de algum deles? - Perguntou Heitor. Já esperando uma resposta negativa.

- Não.

Alguns policiais se prontificaram a dar uma carona a Hancock e o levá-lo até sua casa. Enquanto isso Heitor, Levi e Jeremias começaram a tecer teorias sobre o ocorrido. - E se as vitimas não tiverem nada em comum? E se foi só um grupo de valentões espancando quem quer que fosse que aparecesse pela frente? - Indagou Jeremias.

- Pode ser. - Heitor duvidava daquilo. Uma das vitimas era um bruxo e ele duvidava que seria aleatório. O detetive se perguntou se a outra vítima também era um ser místico ou imaginário. Mas aquilo era uma duvida que ele não podia dividir com seus colegas mundanos.

Heitor não podia identificar um ser sobrenatural olhando para um corpo morto. Por isso resolveu no dia seguinte dar uma passadinha na igreja de Levi, sem que esse soubesse, pra tirar essa duvida com a família do morto. A igreja se chamava Grão de Areia. A despeito do nome estranho tinha um tamanho até que considerável. Juntando pessoas de várias camadas sociais. Heitor não tinha muita paciência para religião então foi bem claro com o pastor que ao vê-lo cruzar os portões da igreja pensava se tratar de um fiel novo.

- Sou um detetive no meio de uma investigação policial. Preciso falar com alguém que conhecesse Rogério Dantas. Se for alguém da família melhor ainda.

O pastor ficou nervoso ao ouvir aquele nome. No sentido de demonstrar tristeza, não de que possuía alguma culpa. Quando sua serenidade passou seu rosto não havia mudado. - É, ao menos o pastor é mundano. - Pensou Heitor.

O pastor levou Heitor até uma senhora de quase noventa anos, a quem lhe foi apresentada como sendo a mãe do tal Rogério. A velhinha estava sentada em um dos bancos da igreja, no canto, próximo a parede. Assim que ela viu Heitor se descontrolou. Seu rosto mudou, a face humana foi substituída por uma que se assemelhava a uma ovelha. - Você já não fez o suficiente! Você matou o meu filho e agora veio me pegar! Vá pro inferno, maldito!

Heitor ficou sem saber o que fazer e o pastor ficou super sem graça. - Dona Dantas! Ele é só um detetive. Ele veio ajudar a pegar quem fez aquela atrocidade com seu filho.

- Mentira! Ele é um maldito guardião! Eles só pensam em uma coisa: livrar o mundo de pessoas como eu!

Dois outros fiéis, seguraram a senhora Dantas para que ela não se descontrolasse ainda mais e sofresse algum acidente ou um enfarto. - É melhor eu ir embora. - Disse Heitor ao pastor.

- Me desculpe. Ela é uma boa mulher, mas já está tão cansada e passou por tantas coisas.

- Não precisa se desculpar, eu entendo.

Após passar na igreja Heitor foi tirar algumas duvidas com seu confidente, o fauno Pan, que em sua forma humana é conhecido como Adamastor Pitágoras. O fauno vivia em um apartamento que ficava no mesmo prédio que Heitor fazendo com que pedir sua ajuda fosse algo extremamente fácil. Assim que Pan abriu a porta de seu apartamento Heitor ficou impressionado. Quanto mais tempo passava mais a morada do fauno se parecia com uma floresta. Pan deu um jeito de colocar ainda mais plantas e mais animais na sua pequena morada.

- O que foi agora? - Perguntou Adamastor. Fazendo com que Heitor voltasse a se concentrar no que era importante.

Heitor foi convidado a sentar no sofá da sala. Logo em seguida começou a falar. - Encontrei uma senhora que era um ser sobrenatural. Enfim, ela era uma ovelha, mas isso não vem ao caso. - Heitor continuaria, mas Pan o interrompeu.

- Ela estava em uma igreja?

- Sim.

- Deve ser uma cordeiro-fiel. São facilmente encontrados em igreja.

- Esse não é o ponto. É que quando ela me viu ela soube no mesmo instante que eu era um guardião. Como?

- Dá pra sentir. Não sei explicar bem como. É um tipo de frio diferente que sobe pela espinha. Quando te encontrei pela primeira vez, você era apenas um garotinho assustado, eu senti isso também.

- Bem, ela me acusou de ter matado seu filho. É possível que o assassino fosse um guardião? Mas nossa missão não é proteger os inocentes?

Pan riu, como um adulto faria ao ouvir uma visão de mundo inocente de uma criança. - Proteger o mundo mundano de seres sobrenaturais e imaginários pode ser interpretado de várias formas. Talvez esse guardião ache que o melhor modo de proteção é matar toda criatura mística que encontrar pela frente.

- Foi um linchamento. Um grupo de quinze pessoas mataram duas pessoas noite passada, os dois seres sobrenaturais. Será que não é só uma coincidência? Em toda a minha vida nunca vi um outro guardião, a não ser o meu avô. E agora quinze de uma vez?!

- Guardiões são raros. É quase impossível ver um grupo tão grande. - Disse Pan. Ao ouvir aquelas palavras Heitor estava descartando a ideia do criminoso ser um guardião. Começou a cogitar que talvez tivesse sido coincidência o fato das duas vítimas serem criaturas imaginárias. Quando Pan veio com uma nova teoria. - Não é preciso quinze guardiões para se caçar seres imaginários. Só é necessário um guardião os liderando para apontar os alvos. Um cabeça e os outros quatorze apenas peões.

Sabe quando você tem um amigo e ele lhe pede um favor que soa exagerado? Como se estivesse forçando a amizade? Pan estava nessa situação.

Enquanto vagueava pelas ruas escuras de Gotham de madrugada o fauno se perguntava se foi certo aceitar o pedido de ajuda de Heitor. O guardião pediu para que ele servisse de isca. - Não há perigo real. - Disse Heitor. - Ficarei te vigiando de longe. - Pan não sentia força naquelas promessas. Lhe soavam vazias.

Adamastor andava próximo a área onde os dois defuntos foram encontrados. Ele estava com um comunicador da polícia preso ao cinto. Caso algo estranho ocorresse (como um grupo de jovens vestidos de preto e usando máscaras de monstro) bastava ele ligar para seu amigo que ele apareceria como um raio. Ao menos esse era o plano.

Adamastor estava andando de um lado para o outro por quase duas horas. Chegou um momento que sua paciência acabou e ele chegou a desistir do plano. - Pra mim já chega, Heitor, tenho mais o que fazer. - Disse ele pelo comunicador.

- Calma, Pan! A madrugada nem começou direito. - Adamastor não estava com paciência de ouvir a ladainha de Heitor pelo comunicador. Sendo assim desligou o aparelho e se dirigiu até seu apartamento. Um caminho longo, mas que ele não se importava de fazer a pé. Meia hora depois, ao cruzar o shopping Max, Adamastor se treme todo ao ver um grupo de esquisitos espancando um mendigo. O fauno se escondeu atrás de um poste a uma boa distância e tentou contatar Heitor. O guardião não respondeu e pra piorar, no silêncio da noite, o barulhinho que o comunicador fazia ao ser ligado era muito evidente. Os vândalos voltaram sua atenção na direção do fauno. Seu coração só faltou saltar pela boca. Mesmo assim ele ficou imóvel. Na esperança que o ignorassem e voltassem a se "distrair" com o pobre mendigo.

Adamastor se agachou na tentativa de se tornar o mais invisível possível. No escuro, sozinho, ele começou a fazer uma prece silenciosa aos deuses de sua cultura. O fauno, com cuidado, olhou para os criminosos, eles continuaram a socar o mendigo derrubado no chão. Adamastor se sentiu aliviado com aquilo. Apesar de soar estranho, aquilo significava que não tinham percebido ele. Ao menos era isso que imaginava.

Adamastor sentiu um puxão em seu ombro, alguém o ergueu no ar e o jogou pra longe com certa facilidade. Antes mesmo de se levantar o fauno consegue ver o seu agressor, mas não seu rosto. Ele usava uma máscara. Um homem forte, alto, vestido de preto e usando um capuz. Sua máscara parecia ter saído de um carnaval de Veneza. Com algo que parecia um nariz pontudo ou um bico comprido.

O homem alto assoviou chamando a atenção dos seus outros colegas, que deixaram o mendigo em paz e foram se aproximando. O mendigo, por outro lado, não parecia ter muitos motivos pra se sentir aliviado. Parecia que já tinha feito a passagem.

Adamastor olhou pra aqueles homens todos fazendo um cerco em torno dele e ele pensou que tudo iria acabar aquela noite. Seus 236 anos iriam chegar ao fim assim. Em uma rua escura do mundo mundano linchado como um animal.

BLAM! O grupo se afastou ao ouvir o tiro. Adamastor se sentiu aliviado. A cavalaria tinha chegado. - Todo mundo parado! - Heitor se aproximava com sua pistola apontada para os vândalos. - É a polícia! Todo mundo com as mãos pra cima e pra trás!

Heitor teve a impressão que o líder do bando estava dando um sorriso de desdém, Heitor não achava possível alguém ter esse tipo de reação com uma arma apontada pra cara. Só sendo um psicopata.

O líder, o mais forte entre todos, o que agrediu primeiro o fauno, tirou sua máscara, revelando um rosto cheio de cicatrizes. - Nós estamos fazendo o seu trabalho. Você devia estar nos ajudando.

- Calado! Vocês estão presos! - De repente Heitor sentiu um frio na espinha diferente e entendeu qual era a sensação que Pan estava tentando descrever a ele horas antes. Naquele instante Heitor descobriu que o homem a sua frente era, assim como ele, um guardião. Heitor nunca tinha sentido aquela sensação com Akira, pois ele conhecia seu avô desde sempre. Desde que era um bebê. Talvez até sentiu o frio da espinha ao ver seu avô pela primeira vez, mas era muito novinho pra se lembrar disso.

O momento de duvida de Heitor foi tudo o que o outro guardião, o do mau, precisava. Com um impulso rápido ele desarmou Heitor e o jogou para trás com um potente soco no peito. - Ninguém interrompe. - Gritou o líder para seus subordinados. - Isso é entre eu e ele.

Uma luta começou, socos e chutes foram trocados. A disputa era acirrada, os dois pareciam ser muito bem treinados e não davam folga. Apesar de Heitor ser menor e menos musculoso ele não demonstrava estar em muita desvantagem. Sua falta de força bruta era amenizada com muita técnica. Heitor apostava em golpes de Kung Fu e Karatê. Seu avô havia o ensinado bem. Técnicas que ele não deixou de aprimorar em acadêmias e com mestres não mundanos ao longo de sua vida. Por fim o guardião do mau foi detido quando deixou seu pescoço desprotegido. Não importa o quão gigante você seja um golpe bem dado ali desarma qualquer um. O grandalhão desaba, ajoelhado, com dificuldade pra respirar. Heitor pegou de volta sua pistola e ninguém o impediu.

Os outros membros do bando, na sua maioria garotos menores de idade, se ajoelharam e retiraram suas máscaras. Heitor não esperava por aquilo. Será que pensavam que seriam espancados ou estavam apenas pedindo clemência pra não serem jogados na cadeia? A verdade era ainda mais surpreendente.

- Você derrotou nosso líder. - Disse o mais velho entre eles, que não deveria ter mais do que vinte anos. - Ganhou o direito de nos comandar.

- Que maluquice é essa?!

Pelo rádio Heitor chamou reforço e em poucos minutos várias viaturas se juntaram ao local. Todos os vândalos foram algemados, principalmente o líder deles. Que já era bem grandinho e iria responder por várias acusações. Assassinato e coerção de menores estavam entre elas.

- Conheço esse homem. - Disse Jeremias a Heitor. - O prendi no ano passado por espancar um bêbado. Seu nome é Edmond Wagner. Infelizmente não consegui mantê-lo atrás das grades. Poderia ter evitado tudo isso.

- Não se preocupe. Depois dessa ele não fará mais vítimas.

No dia seguinte Heitor tentou ligar para Adamastor, mas ele não respondeu suas ligações. No fim da tarde Heitor foi lhe fazer uma visita. O fauno atendeu a porta com uma cara enorme. - O que quer agora? Outro "favor especial"?

Heitor percebeu que seu amigo estava magoado, por isso tentou se redimir com ele. No final da conversa Adamastor confessou que não conseguia ficar revoltado contra ele, mas que nunca mais faria aquele papel de isca. - Minha raça gosta da vida pacata do campo, não fomos feitos pra esse tipo de emoção. - Heitor terminou aquela conversa com um abraço selando a amizade entre os dois.

Enquanto isso, na cadeia, Edmond fica estalando os punhos pensando em quais vinganças gostaria de aplicar ao que ele considerava ser um falso guardião. Edmond odiava Heitor, não tanto por ele tê-lo jogado na cadeia. Mas por ele ser um guardião e ter a cara de pau de fazer amizade com seres sobrenaturais. Aquilo Edmond achava imperdoável. Uma verdadeira traição. Ao seu lado na cela um homem tremia de medo. Edmond conseguiu ver o rosto do medroso mudar. Revelando uma cabeça de lagarto no lugar da humana. O homem-lagarto tinha motivos para temer. Edmond achava que todo ser místico e imaginário merecia o túmulo. E a cadeia não mudaria isso.