Suicide Club.
Algumas pessoas aparentam ter a vida perfeita, mesmo assim não é o bastante. Falta algo. O quê ninguém sabe, as vezes nem mesmo a própria pessoa. O senhor Mancini tinha quarenta anos, era um médico respeitado, casado, com dois filhos saldáveis, rico, bonito e com boa saúde. O que mais ele precisava pra ser feliz? A maioria dos policiais e peritos que circulavam a área do ocorrido faziam essa mesma pergunta mentalmente repetidas vezes. O pobre doutor foi encontrado morto dentro do seu carro. Uma Mercedes preta que estava com os vidros fechados e com uma mangueira que ligava a descarga do carro a porta do lado do motorista. Era obviamente um caso de suicídio, no entanto a polícia tinha que eliminar qualquer hipótese de que não fosse.
- Ao menos ele não sentiu dor. - Comentou Heitor Sacramento ao seu colega, Jeremias Bolevar. Ambos investigavam o incidente. Aquele parecia ser um caso simples com solução fácil.
- Não tenha tanta certeza. O médico vai conhecer o que é dor agora no outro lado.
- Credo, Jeremias. Que cruel! Não sabia que você acreditava nessas coisas.
- E você não?
Jeremias foi dar uma olhada nos outros cômodos da casa. Uma mansão enorme que tinha vários quartos e jardim com piscina. Heitor se prontificou a ficar com a tarefa mais difícil, conversar com os familiares. Os dois filhos da vítima eram muito novos por isso Heitor decidiu polpá-los. Resolveu fazer perguntas apenas a mãe.
A senhora Mancini parecia ter acabado de chegar aos vinte anos de idade. Como os seus filhos tinham sete e oito anos Heitor se perguntou se o médico morto havia "catado" ela ainda no colegial e se aquilo era legal. Antes de falar qualquer coisa o detetive pegou um guardanapo e entregou a moça. Ela enxugou as lágrimas enquanto ele começava a perguntar.
- O seu marido tinha algum inimigo?
- Não. Ele era um ótimo homem. Mas sempre acontecia de um paciente morrer e algum familiar ficar revoltado. É normal na profissão.
- Ele era cirurgião, certo? - a Sra Mancini acenou positivamente com a cabeça. - Ele tinha demonstrado algum comportamento estranho? Pensamentos ruins ou coisa do tipo?
- Ninguém além de mim sabia disso, mas meu marido era um pouco depressivo. Ele se automedicava. Pedi várias vezes que ele procurasse ajuda especializada, mas ele se negou. Seu orgulho de médico não deixava. Aí tá o resultado!
- Obrigado, acho que já terminamos por agora. Meus pêsames.
No final daquela noite os detetives Jeremias e Heitor fizeram um relatório que finalizava o caso. Aparentemente nunca mais ouviriam falar sobre a família Mancini. Estavam enganados. No dia seguinte a sra Mancini apareceu na DP procurando por Heitor. Ela tinha descoberto novidades e queria compartilhar com o detetive. No primeiro momento Heitor achava que não seriam relevantes e ele tentou desconversar, mas a medida que ficava mais inteirado das suspeitas da moça mais sua opinião mudava.
- Senhora, é duro ouvir isso, mas seu marido se matou. Não investigamos esse tipo de caso. Nos preocupamos com assassinos matando vítimas, que geralmente querem viver. - Depois que as palavras saíram de sua boca Heitor notou que havia sido duro demais. De qualquer modo era tarde pra voltar atrás.
- E se meu marido fosse induzido a cometer esse ato? Vocês prenderiam o responsável.
- Bom...
A sra Mancini entregou a Heitor um papel com um endereço eletrônico. O nome era tão absurdo que surpreendeu o detetive. Suicide Club ponto com. - Vale ao menos uma olhada. - Disse Heitor. - Mas vou logo avisando. Isso dificilmente vai levar alguém pra cadeia, já que ninguém forçou seu marido a tirar a própria vida. No máximo a gente consegue tirar o site do ar.
- Que seja! Já é alguma coisa! Não quero que mais ninguém passe pelo que eu passei.
A sra Mancini deixou a DP e Heitor ficou alguns segundos olhando para o pedaço de papel com o endereço. Achou que seria interessante dar ao menos uma olhada pra ver se realmente tinha algo a ver com a morte do doutor. Heitor duvidava. Ele achava que talvez o nome não significasse realmente o que o grupo desejava. Como muitos sites com nomes pesados, mas que se revelam como sendo apenas um ponto de encontro de aficionados por filmes de terror ou algo do gênero.
Infelizmente Heitor estava errado. O site era um fórum em que os participantes trocavam ideias de como, nas palavras deles, "dar um fim a dor da existência". O detetive ficou horrorizado.
- Heitor, você não ganha pra ficar navegando em redes sociais no seu horário de trabalho. - Disse Levi Straus, o comandante de Heitor, que naquele momento havia passado pela mesa dele.
- Não é isso, Levi. Se lembra sobre o caso do médico suicida?
- Sim, você já o finalizou, não?
- Surgiu novidades, parece que vamos ter que reabrir. - Heitor saiu da frente da tela do computador e pediu para que seu chefe se aproximasse e visse do que se tratava. Enquanto isso, Jeremias Bolevar, que estava em sua mesa que ficava ao lado da de Heitor, se contorcia de raiva ao ouvir que teria que trabalhar novamente em um caso que ele tinha como encerrado.
- Isso não pode ser sério!
- Parece que é.
- Isso é falta de Deus no coração! Fale com o pessoal de informática. Quero que eles descubram tudo o que for possível dessa imundice.
Heitor ao invés de telefonar para o setor de TI resolveu ir andando falar com os peritos pessoalmente. Durante seu breve percurso ele lembrou da mãe de seu filho. Felícia trabalhava naquele setor e foi por causa disso que eles se conheceram. Sua mente racional sabia que seria tão improvável que era praticamente impossível, mas bem lá no fundo ele torcia para que milagrosamente Felícia ainda estivesse na sala. Ainda trabalhando perto dele.
Havia um novo funcionário na TI, um garoto meio gordo e com aparência de ser meio desajeitado. Heitor logo que o viu o julgou como sendo um belo exemplar de nerd. Porém, as aparências enganavam, o sujeito era muito mais do que isso. Heitor o encarou por alguns segundos e o rosto do garoto mudou. Revelando uma cabeça careca cheia de tatuagens que lembravam desenhos de circuitos. Os olhos do garoto eram totalmente negros e ele tinha um código de barra estampado na testa. Tal como Felícia. Era outro da mesma raça.
- Será possível que todos os técnicos de Gotham são transhumanos?!
O técnico começou a falar meio que gaguejando. Traquejo social não era seu forte. - Sou irmão de Felícia. Ela me pediu pra ficar aqui pra te ajudar em qualquer problema. Me chamo Heliote. - O transhumano estendeu a mão para Heitor e este a apertou. Por alguns momentos o detetive deixou de se preocupar com o caso e indagou pela sua família.
- E Felícia como ela está?
- Muito bem. Já se recuperou.
- E o bebê?
- Fofinho, saudável, alegre... Um pequenino perfeito. - Ao ouvir aquelas palavras Heitor sorriu e quase teve vontade de chorar.
- Ele é como você?
- Um transhumano? Aparentemente não. Mas isso a gente só vai ter certeza quando ele tiver mais crescidinho.
Heitor não sabia como era a infância e adolescência de seres imaginários. Pra falar a verdade ele nem tinha certeza se eles tinham alguma. Após alguns minutos Heitor finalmente volta para o assunto que o levou até aquele setor.
- Tenho um site que quero que você dê uma olhada. - Heitor entregou o pedaço de papel com o nome do endereço eletrônico para o transhumano. Heliote digitou alguma coisa no seu computador e deu seu parecer.
- Me dê meia hora e eu descubro tudo o que for preciso desse site. Usuários, administradores, há quanto tempo está online, frequência de atualização...
- Ótimo. Volto em breve.
Heitor estava na sua mesa se preocupando com outro caso. Era comum detetives em Gotham trabalharem em mais de um caso por vez. Heitor estava escrevendo sobre uma criança desaparecida quando Heliote apareceu ao seu lado. O garoto quase tropeça na lata de lixo fazendo com que alguns policiais dessem risada e fizessem comentários sarcásticos. O resultado veio dez minutos antes do prazo. Heitor começou a gostar do cdf só pela sua eficiência.
Heitor recebeu várias folhas de papel ofício da mão do técnico de TI. O detetive iria agradecer, mas não conseguia entender o que aqueles dados desconexos significavam.
- Fiz o relatório completo. Como você pediu.
- Isso é coisa demais! Não sei nem por onde começar! - Heitor devolveu o relatório a Heliote e pediu que ele o refizesse. - Quero apenas saber quem é o criador desse site e as mensagens do médico Mancini. Se é que dá pra saber qual era o nome virtual que ele usava.
- Tinha um usuário chamado Mancini. - Disse Heliote. - Ele se logava com seu nome verdadeiro?! Que imprudente!
- Ótimo! Dá pra saber suas últimas mensagens?
- Volto já. - Heliote regressou ao setor de TI e dez minutos depois voltou com a resposta. Enquanto isso Jeremias dava sua opinião sobre o pobre diabo. - Mas qual o problema com essa galera de informática? Primeiro foi a garota gótica e agora esse aí. - Heitor começou a achar graça, mas deteu sua risada quando percebeu que seu amigo estava falando mal das pessoas que, por causa do seu filho, se tornaram parte de sua família.
Heliote trouxe o que Heitor pediu. O detetive ficou impressionado. Na última conversa que o médico teve naquele site o administrador estava ensinando como se sufocar usando o escapamento do carro. Algo que como visto foi posto em pratica.
- Puta que pariu! Nós temos que acusar esse filho da puta de alguma coisa. - Heitor mostrou a conversa para Jeremias. Que não ficou impressionado. - Você mesmo já disse. O máximo que dá pra fazer é tirar o site do ar. Não dá pra responsabilizar ninguém por dar sua opinião. Por mais escrota que seja.
- Incitar pratica de crime é um crime.
- Suicídio não é crime.
Por mais que não quisesse admitir Heitor sabia que Jeremias tinha razão. Apesar disso não queria deixar o caso por isso mesmo. Heitor achava que o dono do site era responsável e que deveria pagar por isso. Nem que seja por meios alternativos ao da lei.
Lendo o relatório de Heliote, Heitor descobriu de onde era o administrador do site. Era um endereço de Gotham, uma boa notícia. Dava pra se descobrir esse tipo de informação porque cada placa de rede de um computador tem um número único. Algo mais confiável para se obter uma localização do que um endereço IP, que pode variar na mesma máquina.
O dono do site operava em uma lanhouse, Heitor descobriu isso ao visitar o endereço descrito no relatório de Heliote. Algo que iria dificultar um pouco a procura. Era bem mais fácil se o meliante operasse de sua própria casa. Porém, se o criminoso fosse esperto saberia que aquilo seria um vacilo.
Heitor entrou na lanhouse e iria perguntar ao funcionário pela lista dos clientes. Ele mostrou suas credenciais de detetive. Oficialmente Heitor precisaria de um mandato pra isso, mas como o funcionário era apenas um garoto de dezesseis anos ele se mostrou facilmente intimidado e foi muito solicito.
Pra sorte do detetive ele nem precisou examinar aquela lista, em frente a um dos computadores um homem de trinta e poucos anos ficou o encarando. Isso chamou sua atenção. Ao prestar atenção naquele sujeito Heitor teve uma visão. O rosto do cliente em questão se transformou em uma caveira. Ele também usava um manto. Era um ceifador. O sexto sentido de guardião de Heitor gritava. Esse era o homem que procurava.
- Você! Parado!
Como de costume, nenhum bandido respeita esse pedido da polícia. O ceifador levantou da cadeira e saiu correndo. Só que ele percebeu que não tinha saída, a não ser pela porta que Heitor obstruía. Não tinha pra onde correr. O ceifador ergueu as mãos, rendido. - Por favor, não me mate!
Heitor nem deu ouvidos, o empurrou com violência contra a parede e pôs nele um par de algemas. - Você vem comigo!
Heitor levou o ceifador para a prisão e o colocou atrás das grades. - Quem é esse? - Perguntou Jeremias.
- O dono desse suicide club ponto com.
- Cara, você é maluco!
- Como assim?!
- Você não pode prendê-lo! Ele não cometeu crime algum.
- A porra que não cometeu!
O ceifador estava atrás de uma cela, mas como a conversa estava ocorrendo a poucos metros dele ele a ouviu sem problema. - Haha. Vocês não podem me manter aqui!
- Me deixa falar com ele a sós, por um instante. - Pediu Heitor a Jeremias.
- Heitor, olha lá o que você vai fazer. - Jeremias saiu do corredor onde ficavam as celas, deixando que Heitor tivesse sua conversa particular com o suspeito.
- O que você ganha com isso?! O que você ganha incentivando pessoas desesperadas a cometer bobagens?!
- Achei que você já tivesse descoberto isso, "detetive". - O ceifador desfez sua forma humana mostrando sua real natureza monstruosa. Uma caveira vestida com um manto. O monstro abriu sua vestimenta mostrando que ao invés de corpo haviam vários rostos fantasmagóricos presos em sua roupa. Um efeito que Heitor já tinha visto antes quando enfrentou o ceifador que matou seu avô, Akira.
- Todos os que eu mato, mesmo que indiretamente, acabam se tornando meus escravos. Quer saber, dane-se! Pode me deixar preso, se quiser eu até confesso algum crime. Isso não vai mudar o fato que essas pobres almas condenadas permanecerão comigo.
- Liberte-os!
- Há um modo dessas almas se verem livres de mim e você até já deve saber qual é. Pena que fique feio um policial executar um prisioneiro desarmado e indefeso.
Heitor deu uma bicuda na sela e saiu dali. O ceifador riu, achando que de qualquer forma estaria por cima nessa situação. Ele estava errado. O guardião tinha outras cartas na manga.
O ceifador estava dormindo na cela quando uma mulher que ele não conhecia ficou diante dele. A mulher era jovem e assim que o ceifador pôs os olhos nela demonstrou logo interesse através de um olhar cheio de luxúria. Isso deixou a moça enojada. A moça em questão era uma viúva. A viúva de um médico. A sra Mancini.
A sra Mancini tirou uma arma da bolsa e no mesmo instante o sorriso malicioso do ceifador sumiu de sua cara.
- Espera! Espera! - Suplicou o ceifador em vão.
O som dos disparos se fez ouvir por toda a DP, os policiais correram e detiveram a mulher, mas não a tempo de salvar o criminoso. Não que eles fizessem muita questão disso. Após limparem a cela e derem um destino ao cadáver, Levi Straus marcou uma reunião. Estava puto da vida e queria uma bela explicação. Uma que ninguém era capaz, ou queria, dar.
- Como pode! Uma mulher entra armada na DP e mata um suspeito!
- Vamos convir que não foi nenhuma grande perda. - Disse Leleco, um dos policiais que estava ouvindo o esbregue. A cara de Levi ao ouvir aquilo foi tão assustadora que Leleco imediatamente se arrependeu de tê-las proferido.
- Esse não é o ponto! Aquele filho da mãe não vale a bosta que caga! O problema é que isso fica mal pra mim! Sou o responsável por aqui, como vou ficar quando o prefeito chegar aqui e souber disso?! Vocês querem que eu perca a porcaria do meu emprego?! É isso?!
Levi fez um discurso que demorou quase duas horas. No final todos foram dispensados e ninguém foi punido, já que não foi revelado a identidade do responsável por aquela falha de segurança. Os únicos que sabiam como a sra Mancini entrou armada na cela eram Heitor e Jeremias. Eles tinham arquitetado tudo.
- A pobre menina vai amargar problemas com a justiça. Será que valeu a pena? - Perguntou Jeremias a Heitor.
- Nem se pergunte isso. O sacana influenciaria mais várias mortes. Dezenas, centenas quem sabe. Não sinto um pingo de remorso.
Jeremias se afastou do seu amigo chegando a conclusão que ele tinha algumas facetas desconhecidas. Jeremias ficou com a impressão que uma parte da personalidade de Heitor era uma total incognita. Aquilo era uma verdade.
Jeremias só não tinha como imaginar o quanto.
