A Árvore da Vida.
Há um terreno em Gotham reservado ao treinamento das forças armadas. Os militares fazem teste de sobrevivência nessa área. Em um espaço de alguns hectares os aspirantes a soldados tem que testar sua pericia em sobreviver a um ambiente hostil e com poucos recursos. Como é uma área vedada ao público nunca houve problemas envolvendo civis. A floresta das forças armadas é cercada por um muro alto com arame farpado, por si só isso já garantia o afastamento da população. Pra completar se alguém fosse pego invadindo aquela área teria que arcar com problemas judiciais. Até mesmo prisão que poderia ser de um a quatro anos.
Aquela noite era atípica, pois policiais circulavam a área de treino. Geralmente transgressões militares eram resolvidas por militares, mas nesse caso havia vítimas civis envolvidas. Um aspirante de dezoito anos estava fazendo seu treino quando ele avistou um corpo. Imediatamente ele avisou aos seus superiores, que demoraram a acreditar no que dizia. Aquilo era muito absurdo, nunca tinha acontecido antes. Foram checar e ficaram surpresos ao perceberem que o "aspira" estava sendo verdadeiro.
O trabalho dos policiais era dificultado por causa do terreno irregular. A mata era um pouco fechada, cheia de árvores e o céu ameaçava chover. Entre os policiais que estavam envolvidos na investigação do caso estavam os detetives Heitor Sacramento e Jeremias Bolevar.
Jeremias estava agachado examinando o cadáver, um garoto que não deveria ter mais de vinte anos. Estava usando calças jeans, mas seu torso estava nu. Usava tênis, só no pé direito, o outro estava faltando. Jeremias chegou a cogitar em assalto, mas a carteira permanecia com a vítima. Com identidade, outros documentos e dinheiro. Jeremias se perguntava porque alguém se daria ao trabalho de desovar aquele defunto em um lugar que além de ser de difícil acesso tinha muita visibilidade. Se não tivesse sido esse aspirante, mais cedo ou mais tarde outro iria acabar encontrando. Gotham era uma cidade grande, tinha pontos de desovas mais fáceis, alguns deles com grande chance do corpo nunca ser descoberto.
Enquanto Jeremias examinava o corpo, Heitor ficava parado encarando uma árvore. A árvore em questão era sem graça. Um pouco pequena, com vários galhos retorcidos e sem uma única folha. Isso visto pelos mundanos, para Heitor, que era um guardião, a árvore brilhava. Uma forte luz verde saia de seu interior, como se fosse uma enorme lâmpada neon.
- Heitor, viu alguma coisa diferente?
- Não, meu amigo. - Mentiu Heitor. Algo que já havia virado costume. Afinal Heitor tinha que esconder sua função de guardião. Se a revelasse ninguém acreditaria e ainda teria que arcar com uma fama de maluco. Um problema que seu avô, o finado Akira, o havia alertado.
- Então vem me ajudar aqui.
Heitor foi pra de junto de Jeremias, ao contrário do colega ele fingia que estar examinando o cadáver. Ele não conseguia parar de pensar na árvore de luz e volta e meia olhava para ela. A árvore estava a apenas alguns metros da vítima fazendo com que o guardião começasse a suspeitar que ela tinha algo a ver com o caso. Uma duvida que ele teria que sanar com seu "consultor".
Mais tarde, ainda naquela noite, Heitor foi fazer uma visita ao apartamento de Adamastor Pitágoras (o fauno Pan na forma humana). O fauno estava dormindo fazendo com que ficasse muito irritado com aquela visita inesperada. Heitor não percebeu ou não se importou e foi logo entrando disparando suas duvidas. O apartamento de Adamastor estava ainda mais verde. Parecendo mais uma floresta do que uma casa. Cheio de animais correndo e plantas dos mais variados tipos. Alguns móveis foram substituídos. O sofá não existia mais. Em seu lugar o fauno colocou troncos de madeira que serviam como acento.
- Pan, estou trabalhando em um caso de assassinato.
- Sim, e o que isso tem de excepcional?
- Uma árvore. Eu nunca vi nada igual! Ela brilhava como se fosse mágica ou sei lá. Era linda, mas acredito tem algo a ver com a morte.
O fauno se afastou do detetive, andou até outro cômodo da casa e retornou a sala só alguns minutos depois. Trazia consigo um livro que Heitor achou bem parecido com o diário de Akira, seu avô. Tal como aquele esse livro listava vários seres místicos. Só que ao invés de se centrar em criaturas era focado na flora sobrenatural. Adamastor abriu a página que procurava e mostrou ao seu protegido.
A página tinha um desenho a mão de uma árvore que Heitor reconheceu ser similar a árvore que ele havia encontrado na reserva militar.
- Essa é uma yggdrasil. - Disse o fauno. - Árvore rara que dizem ter as respostas para todas as perguntas.
- Então eu estava errado. Ela não tem nada a ver com a morte, certo?
- Talvez tenha. Pra responder qualquer indagação a yggdrasil exige um sacrifício.
- Esse "sacrifício" poderia ser um garoto jovem?
Antes de responder aquela pergunta Adamastor pensou um pouco. - Sim. Principalmente se o garoto em questão for virgem.
O celular de Heitor começou a tocar no meio da conversa. O detetive fez sinal com a mão para que o fauno esperasse. A ligação foi breve e logo os dois puderam voltar a conversar.
- Foi da DP, pegaram o suspeito.
- Então caso encerrado, certo?
- Ainda não. Preciso saber o motivo.
Em poucos minutos Heitor deixou o prédio em que morava e foi até a DP. Assim que chegou foi direto falar com Jeremias.
- Uma das câmeras de segurança da reserva pegou nosso homem. - Disse Jeremias. - Ele está na cela nesse exato momento.
- Ele disse qual foi o motivo? - Perguntou Heitor.
- Não.
Heitor foi até o corredor onde ficavam as celas dos detidos. Só havia um homem ali. Um sujeito de meia idade, bem feio e meio corcunda. Heitor olhou fixamente para ele e quase que imediatamente sua tese foi confirmada. Aquele homem era um ser sobrenatural. Heitor conseguiu ver a real fisionomia do suspeito. As orelhas eram diferentes e havia chifres em sua cabeça. Chifres de bode, daqueles bem grandes.
- O que é você? Um fauno?- Perguntou o guardião.
- Essa confusão é comum. Na verdade sou um phooka.
- Hmmm?
- Sou uma criatura da mitologia celta.
- Tá, ok, tudo bem. O que vim aqui é saber o motivo de você matar aquele garoto.
- Não contei nada aos outros policiais, pois são só mundanos. Não poderiam entender. Mas você é um guardião, pensei que pra você seria obvio.
- Foi por causa da árvore, não foi? Por causa da Yggdrasil.
O phooka não respondeu, apenas acenou positivamente com a cabeça. - Quando é que eu posso ir embora? Já não chega dessa palhaçada?
- Embora?! Você matou um homem! Você será julgado e pode esperar por alguns anos atrás das grades. Por isso se acostume a elas.
- Que bobagem é essa que está falando?! Eu pedi autorização!
- Como assim?
- Pra fazer o sacrifício eu fui pedir autorização ao rei de Gotham, como deve ser feito.
- Rei de Gotham? Que bobagem é essa?
Ao ouvir aquela pergunta o phooka riu, como se com aquela indagação o detetive tivesse revelado uma grande ignorância. Isso o deixou irritado, ninguém gostava de ser ridicularizado. - Volte pra sua vidinha de detetive. Antes do dia terminar eu volto pra casa. - Heitor virou as costas ao assassino e deixou o corredor das celas, ainda ouvindo as gargalhadas feitas a sua custa.
Talvez aquele ser imaginário estivesse certo e seria inevitável sua soltura, mas Heitor havia decidido que se não pudesse prender o responsável por aquele ritual macabro iria ao menos garantir que mais desses não aconteceriam em sua cidade.
Heitor estava em posse de um machado, mas para não chamar atenção o guardou em uma mochila de violão que carregava nas costas. O detetive estava decidido em invadir a reserva militar. Algo que se mostrou fácil. No meio do mato encontrar a árvore foi mais fácil ainda. Já que perante seus olhos ela brilhava intensa na escuridão da noite.
Assim que encontrou a árvore ele se preparou. Heitor tirou o machado da mochila e começou a golpear o tronco da árvore. Heitor chegou a temer que a árvore fosse indestrutível ou incrivelmente resistente, já que era uma mística. Contrariando seus temores a árvore se mostrou até fácil de ser derrubada. Sua madeira tinha uma resistência normal e como aquela yggdrasil era relativamente pequena com alguns golpes Heitor conseguiu pô-la abaixo.
Assim que foi derrubada o brilho da árvore sumiu. A árvore mística perdeu a essência que a transformava em algo sobrenatural. A yggdrasil foi reduzida apenas a um tronco derrubado qualquer sem importância. Por um momento Heitor sentiu até remorso e pena por ter acabado com uma coisa maravilhosa como aquela. Mas ele rapidamente venceu aquele pensamento. Evitar novos crimes era mais importante.
- Ei, você, parado!
Heitor já ouviu aquela palavra várias vezes, mas sendo proferidas por ele quando caçava algum criminoso, não estava acostumado a ouvi-la sendo usada contra ele. Por isso demorou um pouco de reagir. Heitor olhou para trás e viu um militar segurando uma lanterna. Não era nenhum aspirante, era um soldado formado. E se ele quisesse ele poderia prender Heitor. Estava em seu direito, já que o guardião pelos olhos da lei era o errado. Já que ele ali era o invasor.
Heitor correu tentando se embrenhar na mata, mas para seu infortúnio o soldado foi mais rápido. O soldado havia sido treinado naquele terreno e estava acostumado a trabalhar nele.
O soldado agarra Heitor pelo braço, mas esse consegue se desvencilhar. Como não conseguiu despistá-lo a única opção do guardião era nocautear o soldado. Com três golpes bem dados o soldado veio ao chão. Heitor pensou que ele estava desacordado por isso o deixou ali jogado e se despreocupou com ele. Pro seu azar o soldado ainda não havia desmaiado. Heitor ouve o som de um apito forte, o soldado estava pedindo reforço.
Heitor corre e pula o muro, como não tinha mais sua mochila (nem seu machado, que ele abandonou no local) pra servir de proteção ao encarar o arame farpado ele acaba se ferindo. Nos braços e na perna. Nada muito grave, mas ainda assim...
De volta ao seu apartamento a adrenalina estava a mil. Heitor começa a dar risada. Mais de nervoso do que por ter achado aquela fuga divertida. Foi por pouco.
No dia seguinte Heitor foi trabalhar na DP, como faria na maioria dos dias da semana. Assim que sentou em sua mesa ouviu um comentário proferido por seu colega, Jeremias.
- Os soldados da reserva voltaram a ligar. Você acredita? A reserva foi invadida ontem a noite de novo!
Com a maior cara de pau Heitor pergunta como se não soubesse nada do ocorrido. - Não desovaram outro corpo não, né?
- Não, graças a Deus não. Mas isso fez com que reabrissem o caso.
- Como assim?
- O comandante Levi acha que o assassino que pegamos ontem tem parceiros. O comandante teme que mais mortes ocorram naquela área.
Naquele momento Heitor sentiu vontade de contar tudo o que sabia. De contar ao comandante que não havia motivo para ter aquele receio. Pelo contrário, após a noite anterior mais ninguém seria morto perto daquela árvore maldita. Mas, infelizmente, Heitor tinha que manter seu disfarce.
- Onde começamos?
- O invasor de ontem conseguiu fugir, mas deixou uma mochila de violão e um machado na reserva. O pessoal da pericia já está examinando.
O coração de Heitor só faltou parar. Como ele pode esquecer daquilo?! O guardião começou a soar frio. Jeremias percebeu e perguntou o que era, Heitor desconfiou.
- Acho que minha pressão baixou. Vou dar uma volta e já volto.
- Ok.
Heitor foi até o laboratório da pericia. O perito estava trabalhando sozinho na coleta das digitais do machado. Ele havia chegado a uma conclusão. Ele pegou as digitais em uma placa de petri e a colocou em uma máquina que jogava a digital no computador, a digitalizando. Essa digital digitalizada iria ser conferida com todas as digitais do banco de dados através de um programa de computador. Se a digital for conhecida o resultado é dado na tela.
Heitor gelou ao ver sua foto estampada na tela do computador. A busca pela digital compatível havia encontrado um resultado.
O perito olhou para a tela e para a cara de Heitor. O detetive estava na porta do laboratório, tentando formular alguma desculpa que fosse convincente.
- Vou ter que relatar isso ao comandante.
- Zebediah, se você fizer isso eu posso ter minha carreira arruinada.
Zebediah, o perito, trabalhava na DP já fazia vários anos. Com cinquenta anos de idade, vinte de profissão. O seu trabalho no laboratório fez com que vários criminosos fossem pegos. Ele, por ser mais velho, acompanhou a trajetória de Heitor. Como policial até ele se tornar detetive.
- Vou dizer que não encontrei nenhuma digital e que você contaminou a prova tocando nelas. Você receberá uma advertência, mas é melhor do que a outra opção.
- Obrigado! Deus lhe pague.
- Só entre nós. - Disse Zebediah. - O que diabos você foi fazer com um machado na reserva?
Heitor ficou contra a parede, se contasse a verdade seria taxado de louco e era bem capaz de Zebediah acabar o entregando a seu comandante. Ele precisava inventar uma desculpa, mas nenhuma convincente veio em sua mente. Sem opção, Heitor optou por ser evasivo.
- Estava garantindo que mais ninguém morresse pelo mesmo motivo que a outra vítima. É só isso que posso revelar. Desculpa.
Zebediah deu um olhar torto pra Heitor. O guardião ficou incomodado, mas nada fez a respeito disso. Deu mais um obrigado e saiu do laboratório. Naquele dia Heitor não conseguiu pensar em outra coisa. Estava temendo ter seu segredo revelado. Eis que na noite Levi o chamou pra conversar em seu escritório. Heitor ouviu uma dura, mas ao invés de ficar chateado com ela se sentiu aliviado. Zebediah havia cumprido com sua palavra.
- Que erro amador foi esse?! Você pode ter colocado a investigação no lixo! - Levi estava tão irritado que quase gritava. Ele não gostava ter um caso não resolvido. Ter um não resolvido por causa de negligência ou descuido pior ainda.
Heitor deixou a DP aliviado por ter tirado o peso de uma acusação sobre as costas. Ao voltar pra sua casa, um apartamento em um prédio num bairro popular, o detetive se jogou no sofá e respirou fundo. Tentando relaxar e tirar o aperto no seu peito.
Heitor pensava que seus problemas com a árvore yggdrasil tinham terminado, mas não. Estavam apenas começando. O guardião liga a TV na tentativa de assistir algo que o distraísse quando é surpreendido ao ouvir o apresentador falando com ele. Aquilo era tão absurdo que Heitor demorou pra aceitar.
- É, estou falando com você mesmo, bobão. - Dizia o apresentador do programa que estava passando na TV. Um programa de auditório. O apresentador em questão era um sujeito gordo de meia idade. - Heitor Sacramento, detetive da polícia de Gotham e também guardião da cidade.
- Como isso é possível.
- Tudo é possível para os reis de Gotham. Você está sendo intimado, sobre a acusação de destruir uma árvore sagrada. Fique onde está, homens já foram enviados pra te buscar.
Algo bate com força na porta, Heitor toma um susto e chega a pular do sofá. Outra batida, agora ritmada. Seja lá quem fosse estava com pressa em ser atendido.
- Não vai abrir?!
Heitor se aproxima da porta com passos vagarosos temendo o que fosse encontrar do outro lado. O detetive abre a porta lentamente, um homem de terno e gravata forte o esperava. Heitor ficou o encarando. Não era um ser sobrenatural, para o seu espanto era um humano mundano.
- Você foi convocado pelo rei de Gotham, - Disse o segurança armário. - Vim te escoltar até o castelo. Qualquer resistência será punida. - O fortão abriu o paletó revelando uma pistola em sua cintura.
- Ok. Estou mesmo querendo conhecer esse tal "rei".
