Invasores Primitivos.
Na saída de Gotham, Heitor Sacramento e seu colega Jeremias Bolevar estão investigando mais uma cena de crime. Já era de noite. Vários policiais já começam a fazer o perímetro, enchendo o local com faixas amarelas de proibido ultrapassar.
O assassinato ocorreu perto da autoestrada. Não tinha muitas casas ao redor. Só muito mato e um posto de gasolina ao longe. Jeremias estava agachado em frente ao defunto para analisá-lo e chegar a uma conclusão preliminar sobre o que teria acontecido. Algo que naquela situação era difícil supor. O Cadáver tinha várias marcas estranhas que mais pareciam mordidas de algum predador do que algo feito por uma pessoa.
- Não sou perito nessas coisas. - Disse Jeremias. - Mas posso jurar que não é um caso de assassinato. Parece mais ataque de algum animal.
- Mas isso é estranho. - Respondeu Heitor. - Nessa área não tem nenhum predador capaz de fazer isso com uma pessoa. Ao menos não que eu saiba.
Um dos policiais que estavam fazendo o perímetro se aproximou da dupla de detetives. - Chegou um membro da guarda ambiental. Ela quer falar com vocês.
A mulher da guarda ambiental estava usando seu uniforme de patrulha. Uma roupa preta com listras amarelas que brilhavam no escuro. A moça era bonita, parecia ter uns vinte e poucos anos. Era loura e um pouco baixinha, não tinha mais do que um metro e sessenta. Seu quadril era largo e isso chamava a atenção. Mesmo naquele uniforme que disfarçava um pouco.
A guarda estendeu sua mão para apertar as de Heitor e Jeremias. Ela foi logo se apresentando. - Sou Berenice. Guarda ambiental de Gotham responsável por essa área.
- Ótimo. - Falou Heitor. - Você pode checar o corpo e dizer se esse caso é de polícia ou de controle de predadores?
- Claro.
A moça se aproximou do cadáver e após uma olhada rápida deu seu veredito. - Grandes felinos atacam mais pelo pescoço o que não é o caso aqui. O tamanho das marcas indicam um animal grande. O padrão do ataque é similar ao de aves, mas teria que ser uma incrivelmente grande.
- Ótimo, vamos perseguir uma galinha gigante. - Disse Jeremias em tom de desdém.
- Com toda certeza se trata de um ataque animal. Só não sei dizer exatamente qual é. Não bate com nenhum animal da fauna local. - Enquanto falava Heitor olhou atentamente o seu rosto. Por poucos segundos houve uma mudança. A cara humana de Berenice foi substituída por a de um felino com dentes enormes. Duas presas que mais pareciam espadas.
Heitor pegou Berenice pelo braço e foi conversar com ela em um canto afastado, para que mais ninguém ouvisse. - Ok, pelo jeito não se trata de um predador real. Talvez seja algum imaginário, não acha não?
Berenice ficou surpresa ao perceber que sua identidade havia sido revelada. - Você é um guardião?!
- Sim. E o que é você? - Perguntou Heitor.
- Uma Dentes-de-Sabre.
- Ótimo! Uma criatura carnívora, eu suponho. Quem me garante que não estamos vendo o que sobrou de um jantar noturno seu?
Berenice puxou seu braço do agarão de Heitor injuriada. Ela iria falar um ou dois desaforos quando um policial chamou a atenção de todos. - Esse rapaz aqui diz ter visto tudo. Quer dar seu depoimento.
O rapaz em questão usava roupas esfarrapadas e fedia muito. Um morador de rua. - Nunca vi nada tão amedrontador assim em minha vida. Era enorme! Parecia um lagarto saído de algum pesadelo.
- Ok, ok. Muito obrigado pela sua ajuda. - Disse Jeremias enquanto convidava o mendigo a se retirar. Depois disso ele foi ter uma conversa com o policial que indicou aquela testemunha. - Porra é essa?! Esse daí está com o juízo cheio de entorpecente e você ainda dá crédito?!
Heitor e Berenice deixaram as desavenças de lado e foram analisar as palavras do mendigo com mais privacidade.
- Você conhece algum lagarto gigante que poderia fazer isso? - Perguntou Berenice.
- Vários. Mas criaturas imaginárias são invisíveis aos olhos mundanos. Não era pro mendigo ter conseguido vê-lo.
- Será que ele é um guardião, mas não sabe disso?
- Duvido muito. Eu sentiria se esse fosse o caso.
- Então só nos resta acreditar que nosso predador não é nenhum ser sobrenatural.
- Mas como isso seria possível?
- Despiste os seus colegas, diga que a guarda ambiental vai tomar conta do caso. Depois venha me encontrar aqui pra resolvermos esse problema sozinhos.
Heitor voltou a DP com seus companheiros. Lá tentou despistar todos pra resolver o problema com Berenice. Porém, pro seu azar, havia um caso sem resolver que precisava de sua atenção. Heitor ficou "preso" no trabalho por um bom pedaço de tempo. Só podendo sair quando já estava quase chegando a meia noite. Levi Straus percebeu sua impaciência e perguntou o que estava lhe perturbando. O detetive desconversou usando uma desculpa qualquer.
Dirigindo seu corola Heitor seguia rumo ao local onde a vítima do lagarto gigante havia sido encontrada. Estava quase chegando lá quando recebe uma ligação. Era Berenice.
A guarda ambiental dentes-de-sabre pediu para que o guardião seguisse em direção a outro destino. Uma pequena propriedade agrária que ficava bem isolada. A moça mencionou um novo ataque do predador e Heitor já começou a imaginar que teria que encarar mais um defunto.
Aquilo não era uma fazenda, era tão pequena que mais parecia um rancho. Uma péssima estrada de barro era a única coisa que ligava aquela casa ao resto de Gotham. Pense em uma cabana de madeira circulada por uma cerca om poucos metros quadrados. Dentro daquele cercado havia apenas três cabras e algumas galinhas. Heitor estaciona próximo a porteira da cerca, ao lado de uma caminhonete da guarda ambiental. Devido a caminhonete Heitor deduziu que tinha chegado ao local certo e que Berenice já estava aí. O detetive sai de seu corola e vai entrando sem pedir licença. Pela janela da casa ele vê que Berenice estava lá dentro.
A iluminação não era muito boa, pois, pasmem, não tinha luz elétrica. O morador daquela cabana era um homem de sessenta anos que vivia naquele isolamento sem nada de tecnológico. Sem geladeira, fogão, luz elétrica e muito menos televisão. A fraca iluminação da casa era proporcionada por lampiões a gás. Uma relíquia, Heitor ficou até surpreso em descobrir que ainda existiam pessoas que viviam naquele jeito.
Heitor bate na porta da casa e Berenice atende. Assim que o detetive entra ela o apresenta ao dono da casa. - Senhor, esse é meu colega. Detetive Heitor. Nós iremos descobrir o que causou seu prejuízo.
O fazendeiro se levanta de sua poltrona para apertar a mão de Heitor. O detetive achou a calma dele estranha. Se houve mesmo um novo ataque e mais uma vítima como alguém poderia ficar tão sossegada sabendo que um animal feroz e assassino está a solta. Com mais alguns dedos de prosa Heitor finalmente entendeu. A vítima em questão era apenas uma cabra.
Apesar de mais sossegado por saber que ninguém mais morreu Heitor ficou chateado por terem o feito ficar apreensivo por uma coisa tão boba. O detetive chamou Berenice para um canto e tratou logo de lhe dar um corretivo.
- É esse o "novo ataque"?! Uma cabra?!
- Eu vi o corpo do animal, é o mesmo padrão de ataque do nosso defunto. O predador que estamos procurando vive perto daqui.
Heitor abriu um pouco a jaqueta de couro que estava vestindo pra mostrar a sua pistola presa no coldre de sua cintura. Isso resultou em uma enérgica reprimenda.
- Não! Sem arma de fogo! Estamos perseguindo um animal, não um criminoso.
- Ah é?! E se eu encontrar esse bicho eu me defendo com o quê?
- Com um equipamento mais apropriado para a situação. - Havia uma mochila colocada em cima de uma cadeira. Berenice abriu essa mochila e de lá de dentro pegou uma coisa que Heitor pensou se tratar de uma pistola. A animação inicial do detetive mingou quando ele percebeu que a tal pistola na verdade era um tipo de taser. Um no formato de pistola elétrica. Essa arma poderia atingir um alvo a cinco metros de distância, uma área de alcance bem menor que uma pistola tradicional. Não era fatal e, pra piorar, se errasse o tiro teria que recarregar. Heitor não achou aquilo muito confiável. Heitor aceitou a pistola elétrica, mas estava decidido que não iria pensar duas vezes em utilizar sua pistola "de verdade" se a situação exigisse.
Os dois saíram da fazenda. Berenice colocou sua mochila dentro da sua caminhonete e foi falar com seu parceiro de missão. - Através do corpo morto da cabra eu consegui pegar o cheiro do nosso predador. Seguindo seu rastro não deve ser difícil encontrá-lo. Fique atento.
O detetive e a guarda ambiental foram se embrenhando no mato. Heitor não gostava disso, preferia um ambiente mais urbano. Nunca caçou na vida e não gostava de acampamento. Desbravar um matagal a noite não era algo que ele apreciasse muito. O luar dava certa iluminação, mas mesmo assim estava muito escuro. Por isso Heitor tirou do bolso uma pequena lanterna e a ligou.
- O que está fazendo?! Desliga isso! Quer alertar nosso alvo?!
- Sou apenas um humano, lembra? Não tenho sua visão noturna de felino.
- Ah, é. Desculpa.
A dupla foi caminhando mato a dentro por um bom pedaço. Chegou uma parte do trajeto que Berenice mirou uma encosta. O espaço não era muito estreito, mesmo assim, por causa da péssima condição de visibilidade, Heitor tropeçou e saiu rolando encosta abaixo. A altura não era elevada, estava longe de ser uma queda fatal. Mas isso não significava que não seria doloroso. Heitor chega lá embaixo todo machucado. Mas por sorte não quebrou nada. Ele ainda estava deitado quando Berenice chega até ele. A moça desceu a encosta com muito mais leveza. Meio que deslizando nas partes mais engrimes.
- Você está bem?! - Heitor nem respondeu aquela pergunta, só ficou olhando para Berenice com cara de raiva. - Ok, ok. Eu te ajudo a levantar. - Heitor já estava quase de pé quando um som de rugido se fez presente.
Heitor apontou a lanterna para a mata e viu exatamente o que procurava. Um lagarto de dois metros de altura. Os dentes da criatura pareciam afiados e, Heitor notou, que em seus pés havia uma garra em forma de gancho que se destacava das demais. O detetive se sentiria no meio do filme Jurassic Park se sua vida não estivesse em perigo. Ele pegou sua pistola do coldre e apontou para a fera. Ele atirou, mas errou o disparo. O motivo daquilo era porque Berenice havia empurrado seu braço. O dinossauro aproveitou o momento pra fugir. Sumiu de vista.
- O que diabos você fez?!
- Eu falei sem arma de fogo! - Berenice toma a pistola da mão do detetive e a arremessa longe.
- Sua maluca!
- Quer saber, foi um erro te chamar para essa busca! Estaria muito melhor se eu estivesse sozinha. Você só atrapalha!
Heitor iria retrucar se Berenice não tivesse lhe dado as costas e ido embora. O deixando sozinho pra reclamar com as árvores. - Maluca! - O detetive tenta recuperar sua arma, mas não consegue a encontrar mesmo após tentar por quase quarenta minutos. Chega um momento em que Heitor decide jogar tudo pra cima e se preocupar apenas em dar um jeito de sair dali e voltar para a "civilização". - Tomara que aquela lagartixa gigante engula essa dentes-de-sabre de merda!
Heitor tentou subir a encosta, mas não conseguiu. O jeito era se embrenhar por um caminho que não conhecia e rezar pra encontrar a estrada logo. Heitor escolheu uma rota e ficou se perguntando se estava saindo da mata ou adentrando cada vez mais nela. Por fim a sorte pareceu sorrir para o guardião. Ele não demora a encontrar a estrada. Alguns metros a frente ele acha um posto de gasolina.
A sorte sorriu para o guardião, mas não muito. O posto estava fechado. Não havia nenhum funcionário ali para ajudá-lo. Mas pelo menos o posto era um ponto de luz, já que havia algumas lâmpadas fotossensíveis penduradas em postes.
Heitor estava raciocinando para descobrir qual era o caminho mais próximo da fazenda e, consequentemente, do seu corola. Ele havia terminado de escolher um quando ouve um rugido. Era o maldito dinossauro. Ele estava em seu encalço.
Sem sua pistola, Heitor só podia se defender com a pistola elétrica. Que ele carinhosamente apelida de pistola de brinquedo. O bicho pré-histórico sai da mata há alguns metros de distância do detetive. No impulso ele acaba disparando logo sua arma. A pontaria estava certa, mas a fera estava fora do alcance da arma. Achando que não daria tempo pra recarregá-la Heitor a joga no chão e sai correndo. O velociraptor não pudia ignorar o impulso de correr atrás de uma presa em fuga e vai atrás.
Colado ao posto de gasolina havia uma loja de conveniência. Por sorte escalar até o teto era fácil, pois havia muito ponto de apoio. Uma janela na altura certa e uma calha. Heitor sobe na telha e julga ter se livrado do perigo. No entanto ele calculou mal o seu peso. O telhado não aguenta e o guardião despenca de lá de cima. Heitor cai de forma ruidosa em cima de algumas estantes quebrando vários produtos.
Heitor sofre um forte impacto no piso. Ele sente uma dor intensa, mas estava decidido a se recuperar logo, não queria virar um jantar jurássico. Ele levanta um pouco a cabeça pra enxergar a entrada da loja. Por sorte a porta de vidro era resistente o suficiente para protegê-lo do predador que se encontrava do lado de fora. Os olhos de Heitor e do velociraptor se cruzam e de repente a vista do guardião começa a ficar turva. Não demora muito pra tudo escurecer e ele perder os sentidos.
O guardião recobra os sentidos em um lugar estranho. Estava deitado em cima de uma cama de solteiro em uma casa que ele não conhecia. O quarto a qual ele se encontrava tinha paredes laranja claro e pela decoração era evidente que pertencia a alguma menina.
- Finalmente acordou. - Berenice entra pela porta do quarto. Heitor deduziu que estava usando a cama dela.
- O que aconteceu?
- Eu te encontrei desmaiado e te trouxe aqui pra casa. Bem a tempo de impedir que o dono da loja chegasse e descobrisse o que você fez. - Berenice se referia a destruição do teto da loja assim como as duas estantes derrubadas e os vários produtos quebrados.
- E o dinossauro?
- Eu o capturei e o levei até um viajante do tempo. Deve estar em casa agora. - O "em casa" a qual Berenice se referia era na verdade o mesmo terreno em que o bicho causou os problemas só que milhões de anos no passado.
- Como ele chegou aqui? - Perguntou Heitor.
- Isso provavelmente nunca saberemos. - Respondeu Berenice. - Não conheço ninguém que consiga viajar no tempo que seja tão imprudente a ponto de trazer um dinossauro pra cá. - Heitor pensou um pouco no que a dentes-de-sabre disse e se lembrou de um certo circo e de seu diretor esquisito. Ele se lembrou também que o tal diretor dizia ser capaz de olhar para o futuro.
Enquanto isso, no Cirque du Macabre.
Adamastor estava novamente na sala do diretor. Gallifrey havia lhe chamado para mostrar algo importante. Um incentivo para a missão que lhe foi entregue dias antes. - Você não acredita que seu protegido será o responsável por tanto mal, certo? Pois vou mostrar a você como ficou o futuro. - Na parede atrás da mesa do escritório de Gallifrey havia um quadro com uma pintura abstrata. O primordial mexeu um pouco o quadro e de repente a parede do fundo começou a abrir, revelando uma passagem secreta.
O fauno ficou receoso em entrar, mas Gallifrey insistiu. Aquela porta secreta escondia uma sala pequena. Sem nenhum móvel. A única coisa ali dentro era uma cabine telefônica azul dos anos 1960. Adamastor não sabia o que era, pois nunca havia visto uma antes. Aquela era uma cabine usada pela polícia britânica.
- O que é isso?
- É minha máquina do tempo.
Gallifrey entra na falsa cabine e pede para que Adamastor entre também. O fauno fica maravilhado ao perceber que o lado de dentro era maior do que o de fora.
Do lado de dentro a "cabine" não tinha nada de cabine. Parecia mais uma nave. Cheia de aparelhos futurísticos e com um centro de controle estranho.
- Só vai desculpando o fedor. Estacionei minha nave na rua e um bêbado pensou que aqui era um banheiro químico. Ainda não lavei a sujeira que ele fez. - O fauno estava tão maravilhado com a nave do primordial que nem deu atenção ao que dizia. - Pois bem, vamos logo para o futuro de uma vez. - Gallifrey apertou alguns botões e ficou parado por alguns minutos. Aparentemente nada mudou, mas ele pediu para que Adamastor abrisse a porta da nave.
Adamastor abriu a porta esperando encontrar a mesma sala vazia que havia deixado pra trás. Ao invés disso seus olhos viram um amplo deserto. O fauno ficaria encarando a visão maravilhado se uma criatura estranha não estivesse correndo em sua direção. O monstro era quadrupede e tinha o tamanho de um leão, mas sua cara lembrava a de um morcego. Antes que o bicho feio chegasse perto o bastante Adamastor fecha logo a porta de uma vez.
- Você viu a Terra daqui a cinco bilhões de anos. A linhagem humana está perdida, não há mais seres imaginários, pois não há mais ninguém para imaginá-los. Essa é a visão mais próxima do apocalipse. Só você pode deter esse futuro. Só você pode recuperar o paraíso perdido.
- Eu não posso! Não me peça isso! - Disse o fauno quase em prantos. - Eu amo aquele garoto como se fosse meu filho!
- A decisão é sua. A vida de Heitor ou do mundo?
