De Trás pra Frente.

Agora.

O velório acontecia no principal cemitério de Gotham. Com todas as pompas que o policial merecia.

Um grupo de policiais uniformizados a caráter deram uma salva de tiros. Todos os conhecidos mais próximos estavam presentes. Jeremias Bolevar (seu colega mais próximo), Levi Straus (seu comandante), Manoela (sua mãe), Joaquim (seu pai), Sofia (sua "madrasta"), Adamastor Pitágoras (seu melhor amigo), Jacira (a amante de seu avô), Nestor (seu tio)... Até mesmo a mãe de seu filho, Felícia, estava presente. Ela carregava um bebê. Um bebê alegre que não sabia que seu pai estava sendo enterrado ali.

Dentre os mais desesperados estava Adamastor. A dor que sentia era maior, pois tinha como ingrediente um forte sentimento de culpa. Gallifrey, que também estava presente, foi falar com ele. Palavras que deveriam servir de consolo, mas que naquele momento não adiantaram muito.

- O futuro da humanidade está garantido. Você salvou o mundo.

Três dias antes.

O avô de Heitor Sacramento, Akira, viveu por um bom tempo no interior, em uma fazenda na região montanhosa próxima a cidade de Vila Verde. Nesse período Akira teve por vários anos uma empregada que trabalhava em sua casa, Jacira. Heitor só veio descobrir isso quando já era adulto. Jacira e Akira tinham um relacionamento amoroso. E desse amor nasceu Nestor. Apesar de ser tio de Heitor, Nestor não era muito mais velho que ele. A diferença de idade entre eles era apenas de sete anos.

Akira era um guardião, pessoa com o dom de ver criaturas fantásticas que são invisíveis aos "normais", os assim chamados mundanos. Esse dom é hereditário, mas ser filho de um guardião não é garantia de que você também seja. Joaquim, o filho de Akira e pai de Heitor, não nasceu guardião e por causa disso nunca soube da realidade sobrenatural que assola o mundo. Heitor, por outro lado, foi agraciado com esse dom. Com ele Heitor consegue solucionar boa parte dos crimes que investiga como detetive.

Nestor, assim como Joaquim, não herdou o dom de um guardião. É por definição um mundano. Mesmo assim ele está ciente de eventos sobrenaturais devido as histórias que Akira e Jacira contavam a ele quando este ainda era criança. Sua crença em criaturas imaginárias está calcada apenas na fé, pois nunca viu uma com os próprios olhos. Isso é, até pouco tempo atrás. Quando algo mudou.

Nestor estava hospedado no apartamento de Heitor. A ele foi dado uma missão. Uma missão que não pensou duas vezes em aceitar. Já que o prêmio que iria receber por tê-la cumprido era a realização de seu maior sonho. Por esse sonho ele faria qualquer coisa. Até mesmo o que antes seria impensável.

Heitor dormia na cama de seu quarto, estava cansado por causa do dia que havia sido cheio. O detetive abre os olhos repentinamente por causa de um barulho. Ele toma um susto ao ver Nestor em pé, parado ao lado de sua cama, olhando fixamente para ele. Heitor achou que fosse algum problema.

- Tudo bem? - Heitor achou estranho o fato de Nestor estar com a mão esquerda atrás das costas, como se tivesse escondendo algo. O seu instinto de guardião o alertou quanto a isso. Mas ele confiava naquele homem. Nestor era filho de Akira, por isso Heitor achava que ele nunca iria lhe fazer mau.

Heitor estava enganado.

Nestor tira a mão de trás de suas costas e revela uma enorme faca que havia escondido. O movimento foi rápido. A faca adentrou o peito de Heitor. Ela era afiada, foi enfiada de vez. Como ainda estava meio sonolento e não esperava por isso Heitor se tornou uma vítima fácil. A última coisa que passou em sua cabeça foi uma pergunta. - Por quê? - Depois disso não passou mais nada.

A hemorragia se alastrou pela cama e o coração perfurado parou de bater.

O espírito de Heitor não estava mais em seu corpo.

A visão do guardião escurece.

A morte chegou.

Quatro horas atrás.

Heitor está correndo. Heitor costuma correr. Ele faz isso por vários motivos, pratica de exercício por exemplo, mas nesse início de noite outra coisa o fazia se apressar. Heitor estava perseguindo um bandido. Devido a sua boa forma física era difícil encontrar alguém que conseguisse escapar dele. Mas esse bandido tinha algo de especial. Ele não era um humano.

Heitor perde o fôlego e seu rival continua no mesmo ritmo. Sem poder acompanhá-lo a pé, Heitor dá um telefonema. - Rápido, Nestor. Estou na rua Santa Clara. Não podemos perder esse vagabundo.

Nestor aparece poucos segundos depois. Tendo em vista a velocidade do fugitivo talvez Nestor tivesse chegado tarde demais. Nestor estava dirigindo o corola de Heitor. O detetive estava impressionado como o seu tio conseguia dirigir tão bem. Se estivesse na polícia seria certamente encaminhado para o time de motoristas de viatura. Essa equipe era a utilizada em grandes perseguições. Algo que comumente acontecia em Gotham. O que não era comum é o bandido fujão fazer isso a pé e ser necessário um carro para alcançá-lo.

O bandido era bem magro e se vestia todo de azul. Até parecia um maratonista, mesmo correndo tanto quanto um carro as pessoas não davam muita bola ao vê-lo passar. Heitor estava bem atrás dele, em seu encalço. O guardião se perguntava como ninguém se espantava pelo fato do bandido ser tão rápido. Na certa isso era efeito de sua constituição fantástica. O fugitivo deveria ficar invisível aos olhos mundanos enquanto corria. Heitor chegou a cogitar isso, mas se esse fosse o caso como Nestor conseguia acompanhá-lo?

Em um cruzamento Nestor chega perto do meliante o suficiente pra jogar o carro encima dele. Heitor desaprovou aquela atitude. Mas ele tinha que convir que se não fosse isso talvez tivessem perdido o sujeito.

O corola joga o bandido pra cima do capô e após uma freada brusca o meliante saí rolando até cair pesadamente no asfalto. Esse estava rendido. Heitor sai do carro e força o bandido a ficar de pé, não se importando para as reclamações de dor que ele urrava. Heitor algema o suspeito e o coloca no banco de trás do carro.

- Pronto. Obrigado, Nestor. Acho que não teria conseguido sem você.

- Estou as ordens.

Nestor dirigiu o carro até a DP e ficou do lado de fora esperando Heitor entregar o marginal a detenção. Heitor pessoalmente o colocou atrás das grades de uma cela. Quando fez isso ouviu o sujeito reclamar.

- Já não basta um guardião em Gotham? Agora nós temos que sofrer com dois?

- O que está falando?

O rosto do bandido mudou revelando sua real forma. Era uma criatura pássaro, tinha penas azuis no lugar de cabelo e ao invés de ter nariz e boca tinha um bico fino e comprido. - Como assim? Seu novo amiguinho.

- Nestor não é um guardião.

- É sim.

Heitor não deu ouvidos ao preso e voltou para o corola, onde Nestor o esperava. - Vamos voltar pra casa? - Sugeriu Heitor. - Estou farto de trabalhar por hoje. Tenho uns DVD pra assistir e depois cama.

- Pra mim tudo bem.

Uma horas atrás.

- Onde você estava a manhã inteira?! - Jeremi Straus estava do outro lado da linha. Possesso. A raiva que sentia era devido a ausência de Heitor no trabalho aquela manhã. Por causa daquilo o detetive estava recebendo um sabão por telefone.

- Desculpe, tive que resolver um problema em família. Devia ter avisado.

- Devia mesmo!

- Já estou indo pra aí.

- Espere, vá encontrar com Jeremias no restaurante Akido, ele está prestes a fazer uma prisão lá.

- Entendido.

Heitor desliga o celular e já ia se arrumar pro trabalho quando de repente a campainha toca. O detetive vai atender e é surpreendido quando encontra alguém que há muito tempo ele não via. - Nestor! - O tio de Heitor estava vestido bem ao estilo do interior e carregava uma mochila nas costas. Parecia que pretendia ficar ali por alguns dias. Heitor tentou despistá-lo, mas por fim não conseguiu dizer não e aceitou hospedar Nestor.

Heitor olhou para Nestor e sentiu um comichão na espinha. Como se estivesse na presença de outro guardião, uma sensação que ele descobriu quando enfrentou o guardião rebelde chamado Wagner. No entanto Heitor ignorou aquele sinal.

- A casa da fazenda está passando por uma dedetização e eu vou precisar ficar aqui alguns dias. Tudo bem?

- Mas você não tinha uma casa em Vila Verde também?

- Sim, mas ela também vai ser dedetizada.

- Que praga de insetos é essa?

- Do tipo sobrenatural, mortal e invisível a mundanos como eu.

- Claro. - Heitor convida seu tio pra entrar. Nestor colocar sua mochila no chão e vai sentar no sofá. Ele começou a falar sobre Jacira, mas Heitor não deu ouvidos, estava com pressa. - Desculpe, vou ter que sair porque o trabalho me chama. Vou prender uns filhos da puta. Tem comida na geladeira. Fique a vontade.

- Posso ir junto?

- Não acho que seja uma boa ideia, não é um passeio. - Nestor insistiu mais algumas vezes e novamente Heitor foi vencido. - Tudo bem, mas você só dirige o carro. Nem pensar em se intrometer. - Nestor sorriu e junto do sobrinho foi até a garagem do prédio. Heitor entregou a ele a chave do carro e os dois partiram rumo ao encontro com Jeremias.

O restaurante Akido ficava em uma rua movimentada. Nestor estacionou o corola na calçada do outro lado da rua. Heitor saiu do carro e falou algumas palavras pra Nestor. Após isso ele se dirigiu ao restaurante. Como o nome sugeria era um restaurante de comida asiática. A decoração lembrava um templo samurai. Heitor não chegou nem a entrar pra falar com o colega. Só ouviu Jeremias gritando "pega ladrão" e um sujeito vestido todo de azul correr porta fora do restaurante. Heitor nem pensou duas vezes. Ao ver o "azulão" fugindo deduziu que este era um bandido e foi atrás.

Durante a corrida Heitor notou que o fujão era veloz em excesso. Olhando para ele atentamente percebeu que era um ser imaginário. Um papa-léguas. - Ótimo! - Pensou Heitor em tom de ironia. O guardião perseguia uma criatura famosa por ser difícil de capturar.

Sete horas atrás.

Aquela manhã Heitor acordou de supetão. Algo que era compreensível já que havia um monstro no pé da sua cama. O guardião logo relaxa, pois o monstro em questão era conhecido e não lhe faria nenhum mau.

- Rhiatama! Isso são modos de aparecer?!

- Sinto muito. É que eu fiquei de mostrar seus bens mais tarde só que o senhor demorou tanto de me chamar que resolvi me adiantar.

Heitor olhou para o relógio, ainda era muito cedo, talvez ainda desse tempo pra fazer o que aquele monstrinho queria e voltar a tempo pro trabalho. - Tudo bem. Deixe eu me arrumar primeiro. - Heitor tomou banho e trocou de roupa. Tirou seu pijama pra colocar sua roupa mais tradicional. Incluindo a jaqueta preta de couro que praticamente não largava. Heitor não tomou café da manhã. Não sentia muita fome e estava com pressa.

- Muito bem. Podemos ir. - Disse Rhiatama.

Rhiatama tocou no ombro de Heitor e antes que o guardião percebesse não estavam mais no seu apartamento. Eles agora estavam em um castelo. Um castelo bem ao estilo medieval. Só que esse era mais bem construído e muito mais confortável. O guardião estava na entrada e viu vários jovens de sete a dezoito anos andando pra lá e pra cá. Isso fez com que tivesse a impressão que estava em um ambiente escolar. As roupas que aqueles estudantes usavam eram exóticas, nada mundanas. Pareceriam até monges, se seus mantos não fossem tão coloridos.

- Que lugar é esse? - Perguntou Heitor.

O seu criado monstro não respondeu no mesmo instante, primeiro fez com que Heitor entrasse no castelo e de dentro contemplasse toda a grandiosidade do lugar. O hall de entrada era enorme e logo adiante tinha várias escadas que levavam a centenas de portas. O lugar parecia ter mais andares do lado de dentro do que visto pelo lado de fora.

- Muitos mundanos, jovens principalmente, sonham com um ambiente como esse. Um lugar para aprender coisas mágicas e fantásticas. Um lugar totalmente a parte da realidade. Que muitas vezes é dura, triste e cruel.

Heitor ficou um tempo parado pensando na resposta do seu servo orelhudo e completou o raciocínio. - Está dizendo que aqui é uma espécie de Hogwarts?

- Na verdade essa tal Hogwarts é que é uma espécie dessa escola aqui. Nova Avalon representa o imaginário mundano em relação a escolas de magia.

Heitor viu todos aqueles rostos entrando e saindo do castelo e a ficha caiu, eram todos bruxos. Heitor lembrou das suas experiências passadas com feiticeiros e sentiu um forte calafrio. Como se o tivessem enfiado em um ninho de cobras. - Por que está me mostrando isso?

- Sheng Lee era dono de parte desse empreendimento. Como seus bens passaram para você agora parte dessa escola é sua.

- O quê?! - Heitor iria falar algo, mas novamente Rhiatama colocou a mão sobre seu ombro e o teletransportou. Dessa vez não haviam se materializado em um castelo, mas sim em um ambiente aparentemente mais normal. Estavam agora em um corredor que parecia ser de alguma empresa. Rhiatama guiou Heitor por vários caminhos. No trajeto o guardião reconheceu vários rostos conhecidos. Atores e artistas famosos andavam pra lá e pra cá. Heitor também viu câmeras sendo transportadas, além de outros equipamentos que ele sabia serem de estúdio.

- Que lugar é esse?

- A sede da rede Global. Estamos em seu mundo.

- Você está me dizendo que...

- Sim, Sheng Lee era dono de parte dela.

- Incrível! - Heitor se lembrou das teorias da conspiração que diziam que a mídia era dominada por interesses secretos de donos sinistros. O detetive sempre achou aquelas histórias loucas, mas agora havia percebido que talvez tivessem algum fundo de verdade.

Rhiatama leva Heitor até uma sala onde funcionava uma central de comando. Havia várias telas, um painel enorme cheio de botões e três homens operando a máquina. Na tela Heitor reconheceu várias séries e filmes que já havia assistido.

- Olha só, Esquadrão do Poder! Eu gostava desse seriado. - Heitor aponta para uma tela em que mostrava um seriado japonês em que cinco heróis coloridos lutam contra monstros.

- A maioria das séries e filmes são histórias reais que ocorreram em outros mundos e realidades paralelas.

- Não brinca! Você está dizendo que o Sr. Hayata é real?

Rhiatama novamente toca no ombro de Heitor. Mais uma vez eles são teletransportados para outro lugar. E mais outro. E mais outro. O detetive perde a noção do tempo devido a tanta maravilha que o seu servo o mostrava. Heitor estava tão impressionado que seu trabalho como policial pareceu pequeno diante de tanta coisa nova. Os dois gastaram a manhã inteira nessa viagem. Quando voltaram ao apartamento de Heitor já passava do meio dia. Apesar da hora avançada Heitor não estava nem um pouco preocupado. Se despediu de seu criado monstro com um sorriso no rosto. Ainda o agradecendo pelo passeio.

Heitor só voltou a si devido a uma chamada do seu celular. Levi estava no outro lado da linha e estava puto da vida.

Um dia antes.

Adamastor Pitágoras, o Pan na forma humana, não sabia dirigir. Por isso teve que ir para Vila Verde de ônibus. Um caminho demorado e custoso. Mas ele não reclamou. A demora do percurso era até vista como algo positivo. Ele teria tempo para pensar bem e ganhar coragem.

Ao voltar para a fazenda de Akira, Adamastor sentiu uma forte nostalgia. Por muitos anos viveu ali. Um dos seus lares favoritos. Nessa casa viu seu companheiro treinar uma criança e mais tarde se tornou o maior amigo dessa criança, que agora já era um adulto. Porém algo terrível teria que ser feito. O destino do mundo dependia disso.

Adamastor bateu palmas, Nestor atendeu a porta. Agora era ele e sua mãe, Jacira, que moravam na casa da fazenda. Akira antes de morrer passou sua casa pra eles. Um gesto de amor. Adamastor se perguntava se Akira sentiria esse mesmo amor se soubesse que Nestor seria responsável pela morte de seu neto.

Nestor disse que estava sozinho em casa. - Ótimo. - Pensou Adamastor. Se Jacira estivesse presente poderia querer causar algum problema. Adamastor foi direto. Disse algo que Nestor gostou de ouvir. - O que acha de receber o dom de um guardião?

- O que é você?! - Nestor ficou tão assustado com a pergunta que se levantou da cadeira de supetão.

- Calma, sou apenas um homem com uma proposta a oferecer.

- Eu já fui avisado sobre pessoas do seu tipo! Não sou burro a ponto de vender minha alma!

- Calma, não sou um demônio.

- O que você é, então?

- Sou um fauno.

Adamastor contou sua história e principalmente sobre o destino da humanidade que seria prejudicado por Heitor. O fauno não sabia se o jovem a sua frente estava acreditando nele. Porém, Adamastor entendeu que isso pouco importava. Nestor sonhou com o dom de guardião sua vida inteira. Faria tudo para ser presenteado com ele, menos entregar a própria alma. Pois ele era esperto o suficiente pra saber que nada valia perder a liberdade. Mesmo que por um curto período de tempo.

- O que eu tenho que fazer? - Perguntou Nestor.

- Matar Heitor.

- Como vou saber que não está me enganando? - Adamastor se levantou e pôs a mão direita sobre os olhos de Nestor. O gesto durou apenas alguns segundos, mas Nestor ficou meio cabreiro. Será que o fauno tinha lhe rogado alguma mandinga? Nestor olha para Adamastor e de repente ele começa a ver a real natureza do sujeito. O rosto do fauno de madeira apareceu para ele.o

Nestor riu.

Seu sonho havia se realizado.