Morto Andante.
Havia se passado quatro meses desde a morte de Heitor Sacramento. Uma tragédia inesperada. O detetive havia sido morto por alguém que ele havia dado abrigo. Os detetives que investigaram o caso não demoraram a descobrir que Nestor era o autor do crime. Foi uma investigação até fácil. Nestor se contradizia várias vezes e logo após descobriram que a arma do crime, uma faca estilizada, era de sua posse. Porém desvendar o crime não serviu de consolo. O suspeito logo após que teve sua prisão decretada simplesmente sumiu sem deixar nenhum vestígio.
As vezes uma tragédia serve para aproximar as pessoas. Manoela e Joaquim brigavam muito antes do ocorrido. Manoela não aceitava ser trocada por alguém muito mais nova e Joaquim a achava muito possessiva. Após a morte de Heitor todos esses problemas foram parecendo cada vez menores. Os dois passaram a se visitar muito para compartilharem a dor de ter perdido o único filho. Sofia, a nova namorada de Joaquim, percebeu que estava sobrando e resolveu se afastar. Sem brigas, sem mágoa.
Pan deixou de ser Adamastor Pitágoras. Ele se desfez de seu disfarce humano e voltou a ser apenas Pan, o fauno de madeira. A experiência na cidade grande foi péssima e por causa disso ele não queria mais repeti-la. Decidiu deixar tudo pra trás e voltar para o seu ambiente, a floresta. Nas montanhas que circulavam a região de Vila Verde. Ele voltou a viver com a companhia apenas das outras criaturas das matas. E desta vez se isolou até mesmo da fazenda. Não queria ficar próximo da casa de Akira, que lhe trazia muitas lembranças. A visão daquela casa o fazia lembrar do pedido que fez a Nestor. Um pedido que para Pan foi como uma traição a Akira. O fauno havia prometido que iria cuidar do neto de seu melhor amigo. Uma promessa que na sua concepção havia falhado miseravelmente.
Na casa da fazenda, onde Akira vivia, só morava agora Jacira. A solidão fez com que envelhecesse rápido. As vezes ela saia da realidade e agia como se Akira e seu filho, Nestor, ainda vivessem com ela. Jacira falava muito sozinha, imaginando conversar com seus entes queridos perdidos. Não irá demorar muito para ela ficar doente. Daqui a poucos meses encontrarão ela sentada no sofá da sala já sem vida.
Na DP onde Heitor trabalhava o clima ficou ruim por muitos dias. Mesmo que não soubesse Heitor era muito querido lá. Muitos o admiravam pelo seu "faro" em perseguir os criminosos certos.
Como de praxe quando alguém morre um novo sujeito é posto em seu lugar. A nova detetive da DP teve que enfrentar a rejeição de seus colegas. Principalmente do seu parceiro, Jeremias Bolevar. No entanto com o tempo ela foi mostrando o seu valor e vencendo essa rejeição.
A detetive que ficou no lugar de Heitor se chamava Ofélia Andrade. Uma mulher de trinta anos que havia sido transferida de Metropoles. Ela era negra, tinha um cabelo curto natural e era bem magrinha. Seus colegas não tinham como saber, pois Ofélia mantinha esse detalhe em segredo, ela não substituiu Heitor apenas na função de detetive. Mas também na de guardião.
Naquela manhã de segunda um telefone toca na DP pra fazer uma denúncia. Um roubo de lápide, algo que era até comum, por isso não deram muita importância. Porém, quando descobriram qual tumulo havia sido violado aquilo mudou. Levi Straus, Jeremias e Ofélia foram correndo até o local do crime. Um mutirão de policiais cercavam a área, fitas amarelas foram espalhadas. Algo que não era muito necessário já que não havia muita gente em um cemitério, mas eles quiseram fazer o máximo que podiam. Não iriam falhar com Heitor novamente.
Levi não conseguia acreditar na cena que via. O local onde o caixão de Heitor estava enterrado estava vazio. Um buraco havia sido cavado, mas não havia nada ali enterrado. Levaram o corpo com caixão e tudo. - Pobre, Heitor. Mas nem descansar em paz ele pode?!
- Calma, chefe. - Disse Jeremias. - Vamos descobrir quem fez isso.
Em outro mundo vive Felícia. A mulher que com Heitor teve um filho. Sua raça, os transhumanos, são conhecidos por serem racionais e até mesmo bem frios. A moça não sofreu pela perda de Heitor. Não derramou uma lágrima. Não porque fosse insensível, mas sim porque para ela não havia motivo pra dor.
A casa onde morava Felícia é o mais próximo que temos de apartamentos. Sua morada ficava em um negócio que parecia um prédio, porém além de ser verticalmente enorme, sua largura era tamanha que parecia uma muralha. Como se fosse um conjunto infindável de prédios colados um ao lado do outro. Apesar da altura, naquele prédio não havia escadas nem elevadores. Para chegar nos andares e apartamentos desejados os moradores usavam plataformas que ficavam do lado de fora e planavam até o destino desejado. As plataformas eram retangulares, mediam dois metros por quatro, não faziam barulho e possuíam uma cerca de segurança ao seu redor, para impedir qualquer acidente. Os quatro metros de largura da plataforma voadora encaixava perfeitamente com a largura dos apartamentos, que seguiam sempre o mesmo padrão. No instante da acoplagem da plataforma com o apartamento uma parte da cerca abria permitindo ao morador entrar no apartamento. A plataforma sempre se encaixava a varanda.
Felícia estava usando um desses planadores pra voltar pra casa. Era final da tarde, mais um dia de trabalho encerrado. Assim que sai do planador Felícia passa pela varanda pra em seguida ir até a sala. No sofá seu irmão, Heliote, usa um capacete de realidade virtual pra se distrair com um videogame que passava em sua mente. No canto da sala um bebê dormia em seu berço. Um bebê moreno que ao contrário dos outros moradores da casa tinha uma aparência humana. Felícia e Heliote não estavam mais no mundo mundano, por isso não precisavam usar disfarces. Os dois mostravam sua aparência transhumana para quem quisesse ver. Olhos totalmente negros, desenho de código de barra na testa e uma cabeça careca que possuía um desenho de um conjunto de traços que lembrava circuitos eletrônicos. Heitor só levou aquela mulher pra cama, pois no momento ela estava com sua forma humana. Com essa aparência provavelmente o guardião não a encararia. Se bem que Heitor estava a tanto tempo sozinho que vai saber...
O apartamento que Felícia dividia com o irmão para nossos padrões era grande e seria considerado de luxo. Tudo era informatizado, desde a geladeira até a janela. Havia três quartos, uma cozinha grande, uma sala e dois banheiros. Além de um cômodo cheio de aparelhos estranhos cuja função assemelhava-se a de uma oficina. Uma oficina bem estranha, principalmente devido ao que guardava naquele momento.
Na oficina, em uma mesa de operação um corpo humano morto estava ligado a vários tubos e aparelhos estranhos.
Mas esse corpo humano não iria ficar morto por muito tempo.
Manoela é de família católica, mas nunca levou a religião muito a sério. Joaquim passou grande parte da vida se afirmando como agnóstico, mas bem lá no fundo aquilo era só uma forma mais amena de dizer que não acreditava em Deus. Heitor nunca foi um homem de muita fé, ele basicamente só acreditava em algo que pudesse ver. Se não nascesse como um guardião ele provavelmente seria ateu. Mas o problema é que seu dom o permitia ver tudo. Pra não acreditar no sobrenatural Heitor teria que ignorar muita coisa que passou por sua vida. Mesmo assim vida após a morte pra ele ainda era uma incerta.
Heitor ao exercer sua função de guardião já viu dois ou três fantasmas, mas ele não tinha certeza se aquelas almas penadas eram de fato pessoas já mortas que teimavam em continuar existindo. Podiam ser muito bem apenas representações. Registros de pessoas que já não existiam mais. A vida após a morte a ele era uma incógnita. Uma incógnita que só foi sanada quando seu dia chegou. Uma facada no peito trouxe a resposta para aquela pergunta.
Heitor morreu.
A inexistência porém não veio junto com a morte, ele passou por novas experiências e reencontrou entes queridos. Akira, seu finado avô, foi a melhor descoberta. Era reconfortante saber que ele estava existindo e, melhor, feliz. Heitor viveu em um paraíso e não se queixaria se tivesse que permanecer naquela realidade por toda a eternidade. Mas a vida de um guardião era incomum e o pós-vida também. O paraíso acabou, ele foi tirado de lá. Alguma coisa o estava obrigando a voltar a vida.
Heitor não conseguia ver direito, pois sua visão estava um pouco nublada por causa das fórmulas estranhas que passavam pelo seu corpo. Heitor sentia a superfície desconfortável daquela mesa fria de metal em suas costas, essas sensações desagradáveis revelaram que ele não estava mais no mundo maravilhoso do pós-vida. Heitor havia sido trazido contra sua vontade ao reino dos viventes. Pra piorar as memórias fantásticas do que vivenciou no outro lado do véu foram pouco a pouco evaporando de sua cabeça. Como se tudo não passasse de um sonho. Um sonho que lembramos fortemente assim que acordamos, mas que a medida que o dia passa vamos nos esquecendo dele até que no final não nos lembramos de nada.
Dor, uma sensação que há tempo ele não sentia. Heitor não conseguia ver o que estava provocando o incômodo, pois não conseguia levantar a cabeça, mas ao tatear o peito sentiu algo estranho. Um circulo metálico pequeno estava preso a sua carne.
Com o tempo a visão melhorou e Heitor pôde contemplar os vários cabos e aparelhos estranhos que estavam ligados a ele. A imagem era de se arrepiar. Heitor se sentia dentro de um filme de terror daqueles de tortura. - Será que estou no inferno? - Chegou a pensar. Por fim ele gritou. E um rosto familiar veio ao seu auxílio.
- Irmã, ele acordou! - Heliote ficou na frente de Heitor, mas ao invés de ajudar piorou as coisas. A cara de um transhumano não é a coisa mais agradável de se ver, principalmente naquele ambiente. O coração de Heitor reclamou e aquilo foi demais para ele. O guardião até conseguiu identificar o seu cunhado, mas a primeira emoção falou mais alto e no fim ele acabou perdendo os sentidos novamente.
Quando Heitor recobrou os sentidos ele estava sentado no sofá da sala. Sem mais nenhum cabo penetrando em sua pele. Um som de choro de bebê o despertou e ele se indagou de onde vinha. O guardião põe novamente as mãos sobre o peito e percebe que a coisa estranha metálica ainda estava grudada em sua carne. Agora podendo olhar para baixo ele pôde contemplar horrorizado. Um círculo metálico que emitia uma luz azul estava fincada em seu peito, bem no lugar de seu coração.
- O que é isso?
A resposta para a pergunta de Heitor veio da cozinha. Uma voz feminina familiar respondeu de lá. - O seu coração foi perfurado, não servia de nada. Tive que arranjar um novo, artificial. Pense nisso como um marcapasso ultramoderno. - Felícia entrou na sala carregando um bebê no colo. Não demorou muito pra Heitor entender que era seu filho. O guardião se levantou e foi olhar para o menino. Para o seu alívio ele tinha um aspecto bem humano. Era uma criança linda. E por ser sangue de seu sangue Heitor achava que era a mais maravilhosa do mundo. Do seu e de todos os outros.
- Ele é tão... - Heitor fez uma pequena pausa tentando achar as palavras certas. - Humano.
- Fisicamente ele puxou mais ao pai. Mas não duvido que ele tenha adquirido algumas habilidades transhumanas.
- Posso? - Felícia entregou o bebê para Heitor carregar. O guardião o pegou meio sem jeito, pois não estava acostumado com a paternidade. O pequeno Martin sorriu pra ele. Naquele instante ter saído do paraíso até pareceu ter valido a pena.
- Por que você nunca veio nos visitar? - Perguntou Felícia.
- Desculpe. Sinceramente não sei. - Heitor não queria contar a verdade para Felícia com medo de que pudesse ofender. Heitor nem ligou em visitá-la e ao seu filho, pois não fazia muita questão de ter uma família que não fosse humana no sentido mais tradicional. Naquele momento, porém, o guardião sentiu um pouco de remorso e se indagou se aquela atitude não foi um tanto quanto mesquinha.
- Como você me trouxe de volta? - Perguntou Heitor, tentando mudar de assunto.
- Muitos sonham com ressuscitar os mortos. Alguns de maneira milagrosa, outros por meios mais científicos. No meu mundo tudo o que é sonhado cientificamente de alguma forma é possível. Ressuscitar alguém é algo até trivial.
- Posso te fazer um pedido estranho?
- Sim.
- Quando eu for morrer novamente, me deixe morto. Me deixe seguir o curso natural da vida.
- Você não gostou de voltar a vida? - Perguntou Felícia, já mostrando irritação na voz.
- Não, não é bem isso. É que sinceramente não me atrai a ideia de ser imortal.
Felícia e Heitor conversaram por mais um tempo. Logo após o guardião começou a brincar com o filho. Fazia cócegas na barriga do bebê, fazia careta pro menino gargalhar... Esse tipo de coisa. Pratica do jeito que era, Felícia via a atitude do pai do seu filho e não podia deixar de achar meio boba.
No final daquela tarde Heitor foi até a varanda contemplar aquele mundo. A visão era fantástica. Além das várias plataformas que voavam quase coladas ao prédio, um pouco mais afastado haviam inúmeras naves pequenas que iam de um lado ao outro. Tomando boa parte do espaço aéreo. Não demorou muito pra Heitor perceber que elas eram como carros voadores. Um estranho trânsito funcionava bem a sua frente. No emaranhado de tantas naves cruzando o céu Heitor se perguntava como faziam pra se organizar. Não havia colisões, mas algumas passavam bem próximas a outras. Parecia perigoso, mas o povo de lá encarava com muita naturalidade.
Ao longe, Heitor viu o que pareciam ser montanhas voadoras. Pedaços enormes de terra que eram preenchidas com moradias ou até mesmo com alguma floresta. Essas montanhas ficavam em um espaço fixo, planando acima dos prédios da cidade. Heitor ficou maravilhado, se perguntando como elas não caiam.
- Quer dar uma volta? - Perguntou Heliote ao tocar em seu ombro.
- Boa ideia irmão. - Gritou Felícia na sala, enquanto trocava a frauda do pequeno Martin. - Mostre pra Heitor como é Tecnocracia.
Heliote levou Heitor para uma das plataformas. O apartamento de Felícia ficava há vários metros do chão por isso o guardião sentiu um pouco de vertigem ao olhar pra baixo. Não demorou muito para a plataforma estacionar na calçada. A dupla então começou a andar pela rua, Heliote sempre na frente guiando o caminho.
Tudo em Tecnocracia parecia ser exagerado, o outro lado daquela rua ficava há quase um quilômetro de distância. Ninguém ia pro outro lado a não ser com algum transporte. Se aquela imensidão toda era apenas uma rua Heitor se perguntou qual era exatamente o tamanho daquele mundo. A calçada também era bem ampla, grande o suficiente para uma multidão andar sem problema.
Heitor olhou os rostos das "pessoas" que andavam ao seu redor e não pôde deixar de notar que nenhuma delas atendia aos padrões de normal do mundo mundano. As que tinham aparência humana usavam acessórios estranhos ou tinham os cabelos coloridos demais ou a cor da pele em um tom muito diferente. Muitos lembravam androides, cheios de partes mecânicas espalhadas pelo corpo. Outros eram totalmente mecânicos, verdadeiros robôs. Haviam alguns transhumanos, seres similares a Felícia e Heliote, mas naquela rua havia uma variedade tamanha de raças e espécies diferentes que eles não chamavam a atenção. Alguns desses pedestres eram verdadeiros mutantes. Lembravam alienígenas ou pareciam ser algum cruzamento entre homem e animal.
Heliote levou Heitor até uma nave amarela com listras pretas na lateral. Não demorou muito para o guardião entender que aquilo era o equivalente a um táxi. Heliote falou com o motorista um nome que Heitor não entendeu. Era o destino a qual estavam indo.
A nave-táxi ganhou as alturas e imediatamente Heitor tentou fincar seu corpo o máximo possível ao banco ao qual estava sentado. Heliote riu do desconforto do cunhado. - É melhor deixar que eu fale com as pessoas. Podem achar você meio...
- Tabaréu?
O táxi aéreo levou os dois tripulantes até uma das montanhas voadoras. Heliote encostou o polegar em uma tela que estava atrás do banco do motorista. Heitor não sabia, mas Heliote ali estava pagando a corrida. Não havia necessidade de dinheiro em papel ou documentos em Tecnocracia. Tudo podia ser resolvido com um polegar. Praticamente tudo era resolvido virtualmente.
Heitor e Heliote estavam andando em um tipo de estacionamento de naves que ficava no pé daquela montanha. Heitor se encostou da beirada e olhou pra baixo, na mesma hora se arrependeu de sua atitude. A distância da montanha para o chão da rua era enorme. Quase como a distância de um avião pro chão. Após a vertigem passar Heitor ficou com uma curiosidade.
- Se estamos em uma altura tão elevada como é que aqui o vento e o clima são iguais que lá embaixo?
- Em Tecnocracia o ar, o vento, a pressão, a gravidade... Tudo é controlado artificialmente. Olhe pra cima, ainda há várias coisas mais elevadas do que onde estamos.
Heitor olhou pro céu e apertou a vista. Ao longe ele viu um pontinho que após alguma reflexão percebeu ser na verdade outra montanha flutuante. Uma bem mais longe do chão do que a qual eles estavam agora. - Que diabo de mundo maluco é esse?
Heliote tirou Heitor daquele momento de espanto para seguirem com o passeio. Os dois saíram do estacionamento e passaram a andar em um ambiente com muito verde, mas cheio de estradas de asfalto por onde passavam vários outros pedestres. - Onde estamos? - Perguntou Heitor.
- Aqui é mais ou menos um zoológico.
Heitor pensou nas pessoas estranhas que via andando de um lado para o outro naquelas estradinhas no meio do mato e tentou imaginar o quão estranhas deveriam ser as criaturas da fauna local. Um lagarto enorme emergiu da mata fechada rosnando. A criatura parecia caminhar na direção de Heitor, assim que viu o monstro o guardião deu um grito e caiu no chão.
- O que diabos está fazendo?! - Perguntou Heliote ao levantá-lo do chão. Mais calmo, vendo que ninguém estava em pânico a não ser ele, Heitor notou que o dinossauro não pisava na estrada onde os pedestres caminhavam, se reservando a ficar apenas no ambiente de terra natural. - Enquanto estivermos na estrada nenhum animal do zoológico nos atacará. Não há motivo pra medo.
Heitor olhou para as estradas e percebeu que não havia nenhuma cerca impedindo que alguém saísse da área demarcada. Ele perguntou se aquilo não podia ser perigoso, a resposta que obteve foi bem inusitada. - As pessoas daqui vivem por 400, 600, 1000 anos. Não dá pra viver tanto sem ter um pouco de perigo pra deixar as coisas mais interessantes.
Heliote e Heitor foram caminhando pela estrada, em algumas partes haviam bifurcações e Heliote escolhia qual caminho tomar. Não havia placa, nem sinal de indicação, por causa disso o guardião se perguntava se seu cunhado saberia acertar o caminho de volta. Olhando para a floresta ao seu redor Heitor viu uma variada gama de animais pré-históricos. Vários dinossauros e animais bem estranhos como insetos gigantes e elefantes peludos. Aquilo era como uma arca. Preservando vários espécimes que a evolução deixou pra trás.
No meio do caminho Heitor viu um senhor de idade azul com pele transparente. O guardião deixou a esquisitice da aparência do idoso de lado ao perceber que ele estava passando mal. Pra piorar ninguém acudia o velhinho. Heitor já começava a achar que o excesso de tecnologia daquele mundo deixou todos insensíveis.
O velhinho tócia muito e estava com as mãos segurando o peito. Heitor correu em sua direção e o segurou pelo braço. - O senhor está bem? Precisa de alguma ajuda?
- Heitor, o que está fazendo? - Perguntou Heliote. - Deixa o homem em paz.
Heitor ignorou o pedido de Heliote e continuou perto do velhinho. Até que algo absurdo aconteceu. Após uma toci o idoso transparente se transformou em um garoto que parecia não ter mais de quinze anos. Um garoto que aparentava ser saudável, apesar de ainda ser azul e transparente.
- O que é isso?! - Perguntou Heitor.
- Obrigado pela preocupação, amigo. - Disse o garoto azul. - Mas eu sou um jellyfish.
- O que é isso?
- Um homem água-viva. - Respondeu Heliote. - Quando chegam a uma certa idade um jellyfish reinicia seu relógio biológico voltando a ser um pólipo. Um garoto.
Aquilo foi o bastante pra que Heitor se fartasse das bizarrices daquele mundo. Que de longe era o mais estranho que ele já havia visitado. Heitor pediu para Heliote para voltar pra casa de Felícia e assim o fizeram. No apartamento da moça ele foi logo disparando seu descontentamento com aquele mundo. Em suma, Heitor queria voltar a sua terra. Ao mundo mundano.
- Por que você não fica morando comigo? - Perguntou Felícia. - Venha morar comigo e seu filho. Martin vai sentir saudades.
Heitor olhou para o seu bebê que estava no berço. O sorriso que a criança fez ao olhar pra ele chegou até a balançá-lo um pouco. Mas Heitor estava decidido. - Quero voltar. Esse não é o meu lugar.
- Ter certeza?
- Sim. Vamos ser sinceros, nunca iremos dar certo juntos.
- Se você quiser sair com outras garotas eu não me importo.
Aquilo ao invés de atrair Heitor só o fez ficar ainda mais com vontade de sair dali. Tecnocracia era avançada demais pra ele. Em todos os sentidos.
- Está decidido. Quero voltar.
- Você que sabe. - Felícia tapou os olhos de Heitor com suas mãos e quando o guardião pôde ver novamente não estava mais naquele apartamento nem naquele mundo futurista. Heitor estava em uma rua mundana, em um ambiente que ele conhecia muito bem. Era Gorham. Heitor tinha voltado.
O detetive planejou visitar os pais, mas estava muito mais perto da DP onde trabalhava. Por isso resolveu passar por lá primeiro. Heitor esperava encontrar rostos assustados ou felizes pelo seu milagroso retorno. Ao invés disso ao cruzar a porta da DP se deparou apenas com apatia. Os policiais, colegas que trabalharam com ele por um bom tempo, olharam pra sua cara, mas não reagiam. Como se ele fosse um total estranho.
- Jeremias, amigo, eu voltei! - Heitor foi direto até a mesa de Jeremias e ele estava lá, trabalhando em alguma coisa no computador. O olhar do seu ex-parceiro foi gelado. Sem nenhuma emoção.
- Desculpa, mas eu te conheço?
- Como assim?! Sou eu, seu amigo, Heitor.
Jeremias olhou para Heitor com cara de espanto, não por tê-lo reconhecido, mas por ter achado estranho a menção do nome do seu amigo que ele julgava como falecido. - O que sabe sobre a morte de Heitor?
- Que morte?! Eu estou aqui, em sua frente.
Ofélia pega Heitor pelo braço e o leva pra longe dali. - Me larga, o que está fazendo?
- Calma, guardião. Precisamos conversar. - Em um canto discreto Ofélia se apresentou, contou sua história como guardiã e trouxe uma dura verdade. - Não sei como você voltou a vida, mas isso não vem sem consequência.
- O que está dizendo?
- Um homem ressuscitar dos mortos não faz parte da realidade mundana. Como mundanos eles não conseguem ver o fantástico logo não conseguem ver você como você é. Não podem reconhecê-lo. Eles conseguem olhar para o seu rosto, mas não conseguem relacioná-lo a você, pois você está morto. No máximo acham que você é alguém parecido.
- Não, não, não! - Heitor pôs a mão na cabeça e começou a andar em círculos, chamando atenção dos policiais que estavam perto dele. Ofélia agarrou seu braço com força fazendo com que voltasse a si. - Quer dizer que me transformei em uma criatura imaginária?
A resposta de Ofélia foi seca.
- Sim. Você não é mais um ser humano.
