Desajustados.
Heitor Sacramento não tinha nenhuma bagagem, nenhum dinheiro e todos os seus conhecidos não o reconheciam. Não possuía nada além da roupa do corpo. Ofélia se apiedou da situação adversa do agora ex-detetive e decidiu fazer sua parte para ajudá-lo. Ela entregou a Heitor um endereço. - Lá você vai encontrar pessoas que podem te ajudar. Inclusive lhe dando um teto para morar.
Sem outra opção, Heitor pegou o pedaço de papel e leu o endereço. Heitor conhecia aquela parte da cidade. Uma parte problemática, cheia de transtornos sociais. O ex-detetive saí da DP tentando não olhar para trás, mas não aguenta. Ele se vira para dar uma última olhada no seu antigo local de trabalho. Um emprego que lhe deu tantos problemas, mas também deu algumas alegrias e satisfações. Heitor sentiria saudades.
A rua dos Alfeneiros ficava em um bairro precário. Naquela rua havia uma casa de madeira que tinha uma cerca em volta. A área externa era mínima. O tamanho suficiente apenas para ter uma lavanderia e um varal de estender roupa. As janelas da casa deveriam ser de vidro, mas estavam todas quebradas. Improvisaram pregando lascas de madeira pra fechar o espaço aberto. Resumindo, não dava pra abrir e fechar as janelas. A casa tinha muitas frestas nas paredes, por isso o vento entrava muito. Era bastante "arejada". Heitor olhou pro teto e se perguntou se em dia de chuva haveria muita goteira ali. Se não fosse o tamanho da casa, que era considerável, dava até pra considerá-la como um barração. Nas paredes não haviam pintura muito menos decoração.
- Onde diabos eu fui me meter?
Heitor bate na porta da casa algumas vezes antes de alguém vir atender. O morador da casa que abriu a porta era um homem de trinta e poucos anos, branco e com cabelo comprido cheio de dreads. Ele usava cavanhaque e devido suas roupas que faziam referência a Jamaica e seu olhar de peixe morto Heitor ficou logo com preconceito com ele.
- Olá, Heitor. Quando você vai trazer seus filhos pra nos visitar de novo?
- O quê?! - Heitor deduziu que o maloqueiro já estava esperando por ele devido a Ofélia que provavelmente o tinha avisado. Só não entendeu essa referência a filhos ou o porque de tanta intimidade. Heitor olha novamente pro seu anfitrião e se perguntou se os entorpecentes não estariam confundindo sua mente.
- Não liga pro Zeca Sasci, não. Ele tem uma memória não linear, consegue se lembrar de coisas que ainda não aconteceram. Por isso as vezes ele meio que se confunde um pouco. - Heitor olhou por sobre o ombro do "Bob Marley branco" e viu uma mulher muito atraente. A moça deveria ter vinte e poucos anos e tinha o corpão mais chamativo que Heitor já viu na vida. Ela usava roupas provocantes e por causa disso Heitor ficou olhando pra ela meio com cara de bobo por alguns segundos.
- Me chamo Heitor, a detetive Ofélia disse que vocês poderiam me ajudar a... - Heitor nunca precisou pedir favor, por isso estava sem jeito. - A recomeçar a vida.
- Prazer Heitor, me chamo Carol Molinaro. - Carol era uma moça loura com pele clara, mas por alguns segundos Heitor conseguiu ver como era sua verdadeira aparência. O cabelo era rosa ao invés de louro, as orelhas eram meio pontiagudas e os olhos eram totalmente verdes. Nas costas da moça haviam enormes asas de borboleta.
- Você é uma fada?
- Prefiro o termo fae, fada soa muito...
Heitor olhou fixamente para o rosto de Zeca Sasci e como ele tinha previsto o homem também era uma criatura sobrenatural criada pela imaginação humana. A transformação de Zeca porém era mais medonha. Um terceiro olho havia aparecido em sua testa.
- E você, é o quê?
- Sou um mentalista. - Respondeu Zeca. - Por acaso é hoje que nós estamos nos conhecendo?
Heitor não entendeu onde Zeca queria chegar com aquela conversa, mesmo assim respondeu. - Sim.
- Ah tá, acho que nem todos os seus sete filhos nasceram ainda.
- O quê?!
- Deixa o Zeca pra lá. - Disse Carol puxando Heitor pelo braço. - Deixa eu te mostrar a casa. - aquela casa tinha três quartos, dois banheiros e uma sala. Não havia televisão nem telefone, muito menos computador. O sofá estava descascando e as camas dos quartos tinham colchões que há muito tempo estavam pedindo para serem trocados.
Heitor não se sentia bem naquele ambiente. Nem tanto pela pobreza, mas por que a moral dos seus colegas não batia com a dele. Sem querer Heitor acaba descobrindo que Zeca guardava algumas substâncias ilícitas em baixo da cama onde dormia. Mais tarde em uma conversa banal Zeca revela qual é a profissão de Carol. A família de Heitor lhe passou valores que seriam testados naquela casa. Apesar de não ser mais oficialmente um policial Heitor ainda se sentia como tal. Dividir o teto com uma prostituta e um viciado era quase insuportável.
No final daquela tarde Heitor cogitou a hipótese de largar aquele muquifo, mas aí ele pensou de novo e percebeu que não tinha pra onde ir. Era aguentar a companhia daqueles dois ou ir viver na rua como mendigo. Heitor nunca foi muito fresco, ou amante do luxo, mas viver as privações da vida na rua era algo que ele achava que não conseguiria suportar. Principalmente por ele ser o que ele é. Como guardião ele já viu várias maravilhas. Viver como mendigo seria um destino por demais mundano.
No dia seguinte a resistência que Heitor sentia por seus colegas começou a diminuir. Sem que ele pedisse Zeca e Carol compraram algumas roupas e objetos de higiene pessoal. Para quem estava apenas com a roupa do corpo aquele gesto significava muito. Heitor ficou um pouco balançado e passou a tentar encarar os dois com outros olhos. Isso sem falar que ele tinha comida no prato. Heitor começou até a se sentir mal por julgar os dois sendo que eles davam tanto pra ele sem pedirem nada em troca.
De banho tomado e roupa trocada, Heitor foi dar um passeio na rua. Não era uma caminhada aleatória, ele queria visitar o prédio onde morava. Como não tinha muito dinheiro pegou só um ônibus dos dois que seriam necessários. Um bom pedaço ele foi andando. Heitor, porém, não reclamou da caminhada. Ele gostava de andar.
Heitor chegou na portaria e como ele temia o porteiro não o reconheceu. Heitor perguntou por Adamastor e foi lhe informado que ele não mais morava ali. Heitor sente uma tristeza, pois seu amigo poderia ser muito útil naquele perrengue em que estava passando.
Com o fauno indisponível Heitor se lembra de outro ser místico que poderia ser de alguma ajuda. Sem se importar por estar no meio da rua Heitor repete três vezes o nome Rhiatama. O nome do seu servo monstro. Nada acontece. Heitor tenta mais algumas vezes, mas acaba parando. Desiste assim que nota os olhares de reprovação das pessoas que passavam por ele. - Ótimo, como se já não bastasse agora vou ter fama de maluco. - O seu servo sobrenatural que era tão solicito havia ignorado seu chamado. Ao pensar um pouco no assunto Heitor chegou a uma conclusão. Assim como Rhiatama passou a servir Heitor quando ele matou Sheng Lee agora Rhiatama deve estar seguindo os comandos de quem havia matado Heitor.
Pensar em sua morte fez com que uma pergunta martelasse sua cabeça. - Quem provocou minha morte? - Heitor lembra da facada, lembra da expressão fria de Nestor ao usar a faca. Mas isso não fazia sentido. Nestor não seria capaz de fazer algo assim, era o que Heitor achava. O espírito investigativo do guardião começou a tecer hipóteses. - Será que Nestor estava sendo controlado? Como por algum feitiço ou algo do tipo?
Heitor estava voltando pra sua nova casa, na rua dos Alfeneiros, quando no meio do percurso encontra duas pessoas que ele não esperava. Joaquim, seu pai, estava caminhando de mãos dadas com Manoela, sua mãe. O guardião não pôde conter a felicidade de ver os dois novamente juntos e foi falar com eles. Ao chegar perto dos seus pais eles não o reconheceram, Joaquim se colocou na frente de Manoela pra protegê-la. O gesto foi suficiente pra Heitor perceber que era visto como uma ameaça e não como um filho querido. Apesar da rejeição Heitor queria falar com os dois, nem que fosse uma besteira qualquer. Heitor perguntou as horas e Joaquim respondeu. Em seguida ele agarrou com força o braço de Manoela e os dois apertaram o passo. Se distanciando.
De volta a sua nova morada Heitor se enfiou em seu quarto e ficou deitado na cama. Não chegou a chorar, mas estava quase lá. Seu coração estava pesado devido a uma forte angustia. Heitor toca no peito e sente o frio do seu coração artificial. Ali mesmo deitado ele começa a agarrar a peça metálica meio que em uma tentativa de arrancá-la a força. - Por que desgraça Felícia me trouxe de volta? Maldita! Não seria bem melhor se tudo tivesse acabado?
Sem perceber que Heitor estava passando por um momento difícil Zeca entra no quarto com um saco plástico. - Arranjamos RG, CPF, titulo de eleitor... Problema com documentação você não vai ter não. - Aquele não era o momento pra aquilo, Heitor sentiu vontade de mandar o maloqueiro a merda, mas se conteve.
Zeca deixa o saco com os documentos em cima da cama e vai embora. Deixando o guardião sozinho com suas lamentações. Mais tarde quem aparece no quarto é Carol. Heitor só percebe a presença de moça quando ela o chama alisando seu calcanhar.
- Ei, aqui a gente não tem tempo pra ficar deprimido, não. É melhor ajudar começando a fazer algo de útil.
- A única coisa que eu sei fazer é ser policial e não posso mais fazer isso. - Disse Heitor, se afundando no travesseiro logo em seguida.
- Estou indo trabalhar. Acho que talvez você pudesse vir comigo.
Heitor olhou pra Carol meio torto, desconfiado. A moça estava usando um vestido preto bem justinho e pelo que o guardião havia notado ela não usava mais nada por baixo. - O que quer que eu faça?
- Tente se divertir.
Heitor já foi pra boates antes, mas sempre fazendo batidas policiais. Ir pra uma só pra se divertir pra ele era novidade. Havia uma fila enorme na porta esperando para entrar, mas Carol nem precisou passar por ela. Foi falar com o segurança e ele deixou que ela entrasse. Heitor estava acompanhando Carol e por causa disso ele entrou junto. A boate tocava música eletrônica e muita gente já estava eufórica. Heitor olha pras próprias roupas e passou a se sentir um peixe fora d´água. Sua roupa era muito humilde, não combinava com aquele ambiente.
Carol leva Heitor até o barman e pede pra que sirvam um chope pro amigo. Heitor ficou lá bebendo enquanto Carol foi pro andar de cima, pra área VIP. Iria ganhar a vida, deduziu o guardião. Por um bom tempo Heitor ficou sem fazer nada, apenas sentado naquele banco olhando os outros se divertirem. Heitor procurava alguma oportunidade pra sair dali, não estava aproveitando a noite. Eis que uma moça foi procurar puxar conversa com ele. A moça não era tão deslumbrante quanto Carol, mas ainda assim tinha seu charme. Heitor notou que ela estava interessada, mas ele achava que não tinha como atender o pedido da moça. Estava morando em uma casa que era um lixo, não tinha dinheiro pra motel, não tinha carro... Apesar disso as coisas desenrolaram. O clima foi esquentando e antes que o dia amanhecesse Heitor já tinha feito relações com a moça. Nem precisou sair da boate, aconteceu em um canto escuro.
A noite acabou e Heitor se despediu da sua ficante, ela talvez tivesse contado seu nome a ele, mas Heitor não conseguia se lembrar. Nem fazia questão, pra falar a verdade.
De volta a casa da rua dos Alfeneiros, Heitor tomou banho e comeu pão com manteiga no café. Era sete da manhã e não tinha dormido na noite anterior, mesmo assim ele não se sentia muito cansado. Carol estava no quarto dela roncando. Heitor já havia percebido que aquilo era comum na rotina da moça. "Trabalhar" a noite e dormir pela manhã.
Zeca tomava café junto com Heitor. O guardião tentava puxar assunto, mas era muito difícil trocar uma ideia com Zeca, no meio da conversa ele costumava falar algumas coisas que pareciam não ter muito sentido.
- Como foi a viagem ao Japão? - Perguntou Zeca.
Heitor respirou fundo. - Eu nunca fui pro Japão. Ontem eu fui a boate com Carol.
Zeca fez uma cara pensativa e emendou uma pergunta meio óbvia. - Ah, tá. Espera um pouco. Ontem foi quando você saiu pra boate com Carol, é? - Heitor balançou a cabeça positivamente. - Você já teve a briga com ela?
Heitor riu, achando graça dos comentários nada a ver do sujeito. - Por que eu iria brigar com Carol? Ele me ajudou e tanto.
- Ah é, isso é verdade. Não é toda amiga que arranja um sexo sem compromisso.
- O que está dizendo?
- Estou falando sobre o dom fae de Carol. Ela pode fazer com que as pessoas extravasem suas vontades sem se importarem com as consequências. Ela pode, por exemplo, influenciar um casal tímido que devido suas inibições teriam poucas chances de envolvimento a consumar o ato.
Heitor lembrou de sua atitude na boate e chegou a conclusão que era bem capaz de ele estar sobre alguma influência externa. Transar em um espaço cheio de gente sem se importar com nada estava longe de ser do seu feitio. Irritado Heitor dá um murro na mesa. Não gostava de ser manipulado. O guardião corre até o quarto de Carol e a acorda aos berros.
A cara que Carol fez ao confirmar as suspeitas de Heitor o fez ficar ainda mais possesso. Era como se o que ela tivesse feito não fosse nada demais. Uma brincadeira apenas. Os dois trocaram acusações e ofensas. Mas no fim não deu em nada. Heitor foi embora da casa, mas no fim do dia voltou. Engoliu seu orgulho pra continuar tendo uma moradia. E, além disso, mesmo que não gostasse de pensar nisso, gostou muito da noite anterior.
Aquela noite porém traria consequências.
Depois de nove meses você vê o resultado.
