Os Sete.

2050 (34 anos depois)

Heitor Sacramento saiu do seu quarto e foi direto ao banheiro. Ainda era muito cedo, nem mesmo tinha amanhecido ainda, mesmo assim ele não conseguia mais ficar na cama. Estava sem sono. Em outras circunstâncias Heitor até aproveitaria a insônia com algo bem prazeroso, mas sua esposa dormia pesadamente e ele sentia pena em acordá-la.

No banheiro ele olha para o espelho após lavar o rosto. Heitor encara seu reflexo bem de perto em busca de algo que denunciasse a passagem do tempo. Ele faz várias caretas a procura de alguma ruga que fosse nova. Não encontra nada.

Heitor naquele dia estava completando sessenta e dois anos, mas olhando pro seu rosto ninguém diria isso. Desde que voltou dos mortos, graças ao coração artificial que Felícia havia lhe dado, seu relógio biológico começou a andar muito vagarosamente. Ele ainda mantinha a expressão jovem de trinta anos atrás, algo que lhe preocupava. Viver para sempre pra muitos pode parecer uma benção, mas Heitor não via isso com bons olhos. Era estranho. Seu filho mais velho, Martin, já tinha trinta e quatro anos e começava a se parecer com um irmão mais velho. Heitor temia o dia em que se veria obrigado a enterrar um dos seus filhos.

Heitor tira seu pijama e fica completamente nu. Ele se olha no espelho pra fazer um autoexame mais minucioso. Se seu corpo mudou alguma coisa ao longo dessas três décadas foi muito pouco, algo imperceptível. Heitor parecia um adulto jovem saudável, apesar de já estar entrando na terceira idade. A única coisa anormal em sua aparência era um circulo metálico no peito, o sistema artificial que havia substituído seu coração. Aquele coração artificial que deixava um resquício na área externa do peito era uma tecnologia imaginária, por isso as pessoas mundanas não conseguiam vê-lo.

Heitor se lembrou das amantes que teve e do fato de algumas comentarem que seu peito era gelado. Ele sorriu ao recordar daquilo. Como já estava pelado no banheiro Heitor decidiu tomar logo um banho. Após o banho vestiu uma roupa leve e foi até a sala.

A casa que Heitor morava ficava um pouco isolada, devido ao mato que tinha ao seu redor. Ele desde criança gostava de cidades pequenas e agora que estava casado resolveu ir morar em uma. A casa em que vivia era grande, com quatro quartos e dois andares.

Pra chegar até a sala Heitor teve que descer um lance de escadas. Em um dos degraus dormia um gato preto que por pouco Heitor não mete o pé. - Fígaro, dormindo na escada de novo? Quer morrer, é? - O gato nada respondeu, até porque este era um mundano, apenas deu um miado fino.

A sala de Heitor tinha uma televisão de tela plana presa a parede como um quadro que media cinquenta polegadas. O laptop ficava em uma pequena mesa que ficava no canto da sala. Se ele quisesse ele poderia ligar o seu computador a televisão pra ver tudo naquele telão. Porém Heitor não sentia muita vontade pra fazer aquilo agora.

Ao usar o seu laptop Heitor abre um navegador de internet. Rapidamente ele encontra o que procura, um vídeo mostrando o pronunciamento de um candidato a prefeitura de Gotham. Um candidato que era muito especial, pois era um dos seus filhos.

- A nossa cidade precisa de uma mentalidade nova que a guie para o progresso. Tenho um projeto em circulação que visa o...

Heitor mal ouvia o que seu filho dizia, só estava interessado em ver seu rosto. Algo que estava ficando cada vez mais difícil de se fazer ao vivo devido a correria da campanha eleitoral. Alexandre Belquior era o segundo filho de Heitor. Tinha trinta e dois anos e se interessou pela política ainda adolescente. Na faculdade entrou em um diretório acadêmico e daí pra se afiliar a um partido politico foi um pulo. Um ponto que ajudaria Alexandre em sua campanha era seu carisma. Era forte e atraente.

Alexandre é fruto de um sexo casual que Heitor teve em uma boate. O guardião só veio descobrir sua existência quando o menino já tinha doze anos. Foi uma época difícil, pois o menino o rejeitava bastante. Mas com o tempo as diferenças foram deixadas de lado e Heitor conseguiu até manter uma boa relação com a mãe do garoto, Roberta Belquior. Alexandre puxou mais a mãe. Puxou dela a pele clara e o cabelo louro, mas os olhos levemente puxados lembravam os de Heitor. Alexandre nasceu sem nenhum dom sobrenatural. Era 100% mundano. Convencer o garoto de que o sobrenatural existia foi uma tarefa difícil. Nem tanto por parte dele, mas da sua mãe. Roberta chegou até a pensar que Heitor fosse louco. Mas após alguns fatos estranhos que eles presenciaram passaram a dar crédito ao que Heitor dizia.

Após assistir o vídeo Heitor foi procurar por notícias de outra pessoa conhecida. Antes de fazer isso ele se certificou de tirar o volume do seu micro e checar se sua esposa estava realmente dormindo. Carol Molinaro tinha vários vídeos espalhados pela net. Em um deles a moça estava andando pelada nas ruas de Gotham. Heitor sorriu ao lembrar do envolvimento que tiveram. Carol era uma fae, por causa disso tinha uma vida muito longa e consequentemente podia trabalhar no ramo pornográfico por muito mais tempo que uma mundana. Heitor não fazia ideia de quantos anos ela tinha, mas desde que a conheceu ela não envelheceu um dia sequer. Zeca Sasci, o eterno parceiro de Carol, falou sobre algumas centenas de anos, mas Heitor achava que era exagero.

Heitor e Carol começaram com pé esquerdo, mas depois que superaram as diferenças passaram a curtir uma boa relação de amizade. Uma amizade que muitas vezes era bem colorida. Desses encontros mais amorosos nasceu uma criança. Carol jurou que sua gravidez foi acidental, mas Heitor teve boas razões para duvidar disso. Antônio Molinaro foi criado no mundo da mãe, por causa disso não teve muito contato com seu pai. Antônio tinha vinte e cinco anos. Fisicamente lembrava o pai. Pele morena e cabelo preto liso. No entanto tinha nascido um fae, não humano. Quando deixava o disfarce de lado Antônio mostrava orelhas pontudas e asas de borboleta. Apesar de soar feminino demais contado desse jeito, a aparência real dele na verdade era até um pouco monstruosa. Isso graças aos seus olhos que eram enormes e lembravam os de uma mosca.

Heitor nunca contou pra ninguém, mas bem lá no fundo ele sentia um pouco de repudio por Antônio.

- Ver o marido assistindo um vídeo em que sua ex aparece nua não é a melhor coisa do mundo. Já vi gente terminar relacionamento por muito menos.

No vídeo Carol estava atravessando uma rua como veio ao mundo, sem se importar com os vários pedestres e carros que passavam por ela. Heitor estava assistindo ao vídeo com tanto afinco que não notou a aproximação de sua esposa. Assim que ouviu a voz dela desligou o navegador rápido, mas já era tarde. Ela tinha visto tudo.

- Eu só estava procurando notícias de alguns amigos meus. Entrei na página desse vídeo quase que sem querer.

- Sei.

Heitor poderia se considerar com sorte. Emme Sacramento não era de sentir ciúmes com muita facilidade. Ela era até um pouco fria nesse sentido (e em muitos outros). Algo que dava pra entender já que ela era uma rainha-do-gelo. Criatura que surgiu na mitologia nórdica e tem a habilidade de controlar baixas temperaturas. Se você olhasse pra ela com um olhar mundano veria uma jovem com aparência bem escandinava. Pele bem clara e cabelo bem louro. Heitor, porém, como guardião, conseguia ver sua real aparência. Emme tinha um cabelo totalmente branco e sua pele brilhava como se tivessem passado pó brilhante nela.

Heitor esta casado com ela há doze anos e o relacionamento rendeu um filho. O pequeno Matias Sacramento é o caçula de Heitor, tem apenas quatro anos de idade. Com esse menino Heitor tenta sanar uma falha que cometeu com todos os seus filhos anteriores. Que era o fato de não ter participado mais intensamente de suas infâncias. Matias estava dormindo em seu quarto. Era um garoto rosado e gordinho. Puxou a pele morena do pai, mas os olhos claros se assemelhavam mais com os da mãe.

Martias herdou o controle do gelo da mãe. A versão masculina de uma rainha-do-gelo é um joão-gelado. Heitor descobriu a habilidade do filho no mês passado. Quando o lençol da cama do menino apareceu duro, congelado. Na hora Emme ficou tão alegre que assustou Heitor. Ela não costumava demonstrar tanta emoção, principalmente alegria.

Matias puxou isso da mãe. Ele é muito calado e na dele. Pra piorar não gostava muito de se socializar. Heitor até temeu que ele tivesse algo de autismo, mas Emme discordou. - Com o tempo ele muda. - Dizia ela. - Quando começar a se interessar por garotas ele vai ficar mais esperto. Garanto.

Pra tapear Emme, Heitor começou a abraçá-la e a dar beijinhos. Parecia não estar dando muito certo, pois ela não estava muito empolgada. - O que você viu nessa piranha?

- Foi só uma fase. Já passou.

- Pior do que essa fada prostituta só mesmo aquela bruxa nojenta. Mas você tinha um gosto péssimo pra mulher, viu!

- Espero que você não esteja falando da minha mãe. - Emme deu um pulo ao ouvir uma voz estranha vinda da cozinha. Heitor já estava em posição de combate esperando que fosse algum ataque de um dos vários inimigos que colecionava. Só relaxou quando o homem misterioso se revelou. Em uma de suas aventuras pregressas Heitor se envolveu com uma feiticeira de um mundo estranho. Do seu envolvimento com aquela mulher nasceu um menino bonito que Heitor pôs muita expectativa. Porém, com o passar dos anos o garoto foi se revelando um imã de problemas. Eric Vlastok se interessou por magia negra ainda na infância, desde então se afundou cada vez mais nas artes obscuras. Chegando até a se tornar um adversário do seu pai. Hoje Eric está "reabilitado", porém ele ainda tem um afinco com a arte das trevas. Um tipo de vício que era difícil de largar.

Eric tem vinte e três anos. É totalmente careca e sua pele de tão branca as vezes parece um pouco cinza. É alto e forte. Pra completar ele sempre se veste de preto. O tipo de gente que a maioria das pessoas evita passar por perto na rua.

- Como você entrou? - Perguntou Emme.

- Eu posso caminhar pelas sombras, esqueceu?

- Filho, eu já falei pra não fazer isso. - Repreendeu Heitor. - É falta de educação.

Ignorando a reclamação de seu pai Eric foi dar um abraço nele. - Parabéns, pai. Feliz aniversário. Cheguei muito cedo pra festa? - Assim que falou a última frase Emme fez uma cara de raiva. O feiticeiro acabou de estragar a surpresa.

- Vocês estão planejando uma festa?!

- Obrigado por estragar a surpresa! - Emme falou em sentido irônico. Ela ficou ainda mais emputecida com Eric por ele ter tido a cara de pau de responder: - Não há de quê.

- Por favor, Heitor, quando você chegar na festa você pode fingir surpresa?

- Tá. - Respondeu Heitor, não vendo muita utilidade pra aquilo.

Como não podia ver a festa sendo arrumada Heitor foi praticamente obrigado por Emme a dar um passeio por Gotham enquanto os preparativos eram feitos. Ele não tinha muito o que fazer, o resultado disso foi que o passeio se tornou um pé no saco.

De dentro do seu carro Heitor dá uma volta em partes da cidade que lhe eram importantes. Enquanto dirigia Heitor pensava do quanto um pedal de embreagem fazia falta. Acostumado com carros manuais, ele tinha muitas queixas por esse tipo de automóvel ter saído de linha. Em 2050 até os carros populares eram automáticos. Também emitiam menos poluentes, boa parte nem usava mais combustível fóssil. Carros elétricos já eram bem difundidos.

Heitor estaciona no shopping Max e faz uma visita a algumas lojas. Como tinha tempo de sobra resolveu assistir um filme. O filme era 3D, mas não havia necessidade de óculos. A película era uma releitura de um personagem em quadrinhos. Heitor assisti com um pouco de nostalgia. Se lembrando que na adolescência assistiu a primeira adaptação daquele herói para a tela grande. No final da sessão ele reclama achando que a versão original era bem melhor que essa nova. Apesar dos efeitos especiais melhorados.

Heitor volta pra sua casa no horário marcado por Emme, seis horas da noite. Do lado de fora já conseguia ouvir o barulho que o pessoal estava fazendo lá dentro. Ao abrir a porta da casa Heitor nem precisou fingir espanto. Contemplar aquele mundo de gente a sua espera já foi surpresa o suficiente.

Assim que Heitor acendeu a luz da sala os convidados da festa gritaram "surpresa". Foram tantos amigos e familiares presentes que dava a impressão que a casa não comportava todos. E Heitor morava em uma casa grande. Ex-colegas de emprego e conhecidos há muito tempo "desaparecidos" foram até o guardião apertar sua mão. Alguém ligou um aparelho de som e a casa que já estava barulhenta ficou mais ainda.

O primeiro dos seus filhos a cumprimentá-lo foi Martin. Martin era seu primogênito. Tinha trinta e quatro anos e Heitor se lembrava do sufoco que aquele garoto trouxe quando veio ao mundo. Da confusão que antes mesmo de nascer o rapaz se envolveu com um feiticeiro chinês. Martin já estava começando a parecer mais velho que Heitor. Grande parte disso por causa de uma barriguinha que estava se tornando saliente. Martin se tornou técnico em TI a serviço do governo brasileiro. Ganhava bem e parte do seu sucesso se devia a sua facilidade com tecnologia, algo que herdou da mãe. Felícia, que é uma transhumana. Uma raça meio futurista hibrida de homem com máquina.

- Tenho uma novidade pra te contar, pai. - Disse Martin. - Você vai virar avô. - A notícia pegou Heitor de surpresa. Martin havia se casado antes que seu pai. Um neto era uma promessa antiga, mas foi custoso de chegar. Martin e sua esposa tiveram problemas. Ele até pensou que sua natureza sobrenatural estava atrapalhando na gestação. Mas no fim tudo deu certo e sua mulher finalmente engravidou. - Parabéns! - Disse Heitor enquanto abraçava seu filho.

A esposa de Martin estava presente na festa e falou com Heitor algumas vezes. Era ainda pequena, mas Heitor já notava uma barriguinha se formando. Felícia estava presente com um novo namorado. O irmão dela, Heliote, também compareceu a festa. E pra surpresa de todos que o conheciam, acompanhado de uma namorada.

Carol veio com seu filho, Antônio. Heitor conversou um pouco com Antônio, mas gastou mais tempo conversando com Carol. Emme espiava a conversa dos dois a distância. Naquele momento até mesmo ela que não era muito chegada a ciúmes começou a sentir um pouco.

Alexandre chegou tarde, veio acompanhado da esposa. Sua mulher não sabia da realidade sobrenatural do mundo e ele esperava que continuasse assim. Como Heitor aparentava ter a mesma idade dos seus filhos mais velhos para ela foi contado que Heitor era só um primo distante.

Heitor cumprimentou Alexandre e sua mulher e perguntou sobre a campanha dele. Alexandre foi cortes na resposta. Mentindo sobre quão ruim ia sua candidatura.

Acenderam as velas do bolo e começaram a cantar os parabéns. No meio do bate palmas chegaram os últimos filhos de Heitor que estavam faltando. A menina veio acompanhada da mãe. O garoto nunca teve uma. Pronto, todas as mulheres importantes da vida de Heitor assim como todas as suas "crianças" estavam presentes. Heitor achou um milagre ainda não ter surgido uma briga dali.

- Oi, Regina. Não esperava te ver aqui.

- Só vim porque minha menina insistiu.

Regina Joel também não envelhecia. Heitor ouviu falar que ela tinha nascido já fazia eras. Algo que ele não acreditava totalmente, mas também não duvidava. Tendo em vista o mundo louco em que vivia. Regina era uma alienígena de uma realidade alternativa. Sua raça se chamava saiyan, seres com poderes quase ilimitados. Poderes esses que eram influenciados por vários fatores como gravidade ou tipo de sol a qual o saiyan está exposto.

Regina era negra e alta. Uma deusa de ébano em todos os sentidos. Dos seres místicos que Heitor conheceu durante sua vida, e foram muitos, Regina era o mais perto de uma divindade que ele encontrou. Apesar de macia, tiros e facas não perfuravam sua pele. Ela podia voar e atingir uma velocidade tão estupida que os olhos humanos não conseguiam acompanhar. Fora isso Regina tinha várias outras habilidades especiais. Heitor agradecia aos céus por aquela mulher não ser uma inimiga. Se assim o fosse Heitor achava que não teria a mínima chance.

Heitor conheceu Regina em uma aventura numa terra paralela. O namoro dos dois foi breve, mas rendeu uma filha. Ariane Joel tinha quinze anos. Era a única filha mulher de Heitor, por isso ele a considerava como sendo sua princesinha. Ariane era muito parecida com a mãe, herdando dela além da beleza alguns de seus poderes. A medida que Ariane crescia novas habilidades iam aparecendo. Heitor se perguntava se ela seria tão poderosa quanto a mãe e se isso seria bom pra ela.

Ariane era morena e tinha cabelos ondulados compridos. Ela usava uma camisa azul com uma estrela branca no meio. Sobre a camisa ela usava uma jaqueta vermelha. A saia era curta a ponto de mostrar as pernas, mas não tanto a ponto de ser devassa.

- Pai, eu aprendi a voar! - Disse Ariane praticamente pulando no pescoço de Heitor pra lhe dar um abraço. - Posso mostrar?

- É melhor não, querida. - A menina fez cara de muxoxo ao ouvir aquilo. - Há gente aqui que não entenderia ver uma menina voando. É melhor você mostrar pra mim mais tarde.

Por fim Heitor foi falar com o último filho que faltava. Júnior não era bem um filho, pois não nasceu de uma relação amorosa entre Heitor e alguma mulher. Aquele Júnior foi criado por acidente em uma missão do passado. Olhando para a cara daquele garoto, Heitor se sentia olhando para uma foto antiga sua. Júnior tinha dezoito anos e era exatamente igual a Heitor quando ele tinha essa idade. Isso porque Júnior era um clone seu.

Júnior era tão parecido com Heitor que ele se assustava. A aparência ia além do físico, mas também no temperamento. Os dois trocaram algumas palavras. A conversa era desconfortável pros dois e logo Júnior procurou um pretexto pra se afastar. - Desculpe, acho que Alexandre está me chamando. - Júnior era muito independente. Viveu com pais adotivos até os treze anos, quando fugiu de casa e começou a se virar sozinho. Ele teve uma infância difícil e Heitor se culpava por isso. O guardião achava que se soubesse de sua existência antes tudo poderia ter sido diferente.

Heitor pegou um pedaço do bolo de chocolate e começou a comer. O sabor era bom, mas Heitor não conseguia aproveitar direito. Tinha que fingir alegria e esquecer os sentimentos ruins que aquela festa sem querer trazia. O mais forte deles era o remorso. Heitor gostaria de voltar no tempo e refazer sua história com seus filhos. Tirando o mais novinho os outros não o viam como uma figura paterna. Ele foi muito distante na criação deles. Certa vez Martin comentou algo que doeu fundo em seu peito e que volta e meia o assombrava. - Heitor não é bem um pai. Na pratica ele é como se fosse um tio, que aparece pra fazer visitas de vez em quando.

Heitor estava perdido em autopiedade quando de repente ao olhar para a janela vê uma figura que tentava se ocultar da mata. Um sujeito que assistia a festa a uma certa distância. Heitor assim que pôs os olhos em cima dele o reconheceu. Heitor deixou seu bolo pela metade em cima de uma mesa e foi correndo porta a fora. Se embrenhou na mata até encontrar quem procurava.

- Pan! Pan! Não me ignore, eu sei que você está aqui!

O fauno de madeira sai de trás de uma árvore. No escuro seu corpo de madeira no meio da floresta era uma boa camuflagem.

- Oi, Heitor. - Disse Pan com uma voz não muito animada.

- Por que você está aí fora, todo sinistrão?! Vem pra festa!

- Me poupe, Heitor. Eu não mereço participar de sua família. Não depois do que eu fiz. Só vim ver se você está bem.

- Por favor, Pan. Eu já te perdoei. Quando você fará o mesmo?

- Eu tentei te matar! Eu consegui na verdade e... - Heitor não deixou que Pan continuasse com sua lamentação e deu um abraço no velho amigo. O fauno não aguentou e chorou ali mesmo.

- Vem.

Pan aceitou o convite. Heitor voltou pra casa acompanhando ele. Nem todos os convidados viam o fauno já que ele era invisível aos mundanos quando não estava usando um disfarce de humano. A maior parte da festa ele ficou em um canto qualquer apenas assistindo. Heitor não se importou muito com isso, só queria que Pan soubesse que mesmo depois de tudo o que ocorreu ele ainda era alguém importante em sua vida.

Os sete filhos de Heitor são:

Martin: raça - meio guardião, meio transhumano, idade - 34 anos, filho de Heitor com Felícia.

Alexandre Belquior: raça - mundano, idade - 32 anos, filho de Heitor com Roberta Belquior.

Antônio Molinaro: raça - fae, idade - 25 anos, filho de Heitor com Carol Molinaro.

Eric Vlastok: raça – bruxo, idade – 23 anos, filho de Heitor com Baba Yaga.

Júnior: raça – clone, idade – 18 anos.

Ariane Joel: raça – saiyan, idade – 15 anos, filho de Heitor com Regina Joel.

Matias Sacramento: raça – joão-gelado, idade - 4 anos, filho de Heitor com Emme Sacramento.