UM INTRÉPIDO JORNALISTA
Dezoito anos depois…
"Justiça
por Alexei Hyoga Yukida
Skyville foi, outrora, uma cidade justa, bela e majestosa. Infelizmente, ela se perdeu ao longo do tempo, tragada pela criminalidade aparentemente imbatível. Há dezoito anos, um assalto desastroso deu início à decadência de Skyville. Hoje, uma falha em sua legislação escancarou o quanto ela está longe de ser o que foi um dia.
Os assassinos dos Amamiya estão à solta. Depois de tantos anos foragidos e de um julgamento muito mais brando do que mereciam, eles simplesmente estão de volta às ruas, como se nada tivesse acontecido.
Pode-se dizer que cumpriram a parte necessária das penas que lhes foram impostas? Claro que sim e muitos poderão até mesmo pensar que oito anos em cárcere foi um castigo justo.
Entretanto, fica a pergunta: Foi feita a justiça?
A punição aplicada fez jus à morte cruel e desnecessária do casal Amamiya, à precoce orfandade de seus dois filhos e ao caos que Skyville se tornou após isso?
Em nome dos dois maiores benfeitores dessa cidade, foi feita a justiça?"
Não era bem isso que Alexei Hyoga Yukida pretendia escrever e ele fez essa constatação ao reler suas palavras. A ideia inicial, pelo menos o pedido que lhe foi feito pela revista em que trabalhava, era que escrevesse a respeito das diversas atitudes polêmicas de Ikki Amamiya e sua personalidade oposta à do irmão, Shun. Todavia, como bom jornalista recém-formado e ávido por mudar o mundo, ao mesmo tempo em que intentava provar não ser apenas um rosto bonito dentre tantos, Hyoga simplesmente deixou que as palavras viessem; o pequeno artigo que deveria ter escrito há mais de uma hora não saiu, a revolta que estava sentindo não diminuiu, mas se sentia um pouco mais útil.
Claro que a revista Fama, sua contratante, jamais publicaria o que havia escrito. Não era o primeiro artigo do gênero que escrevia, tampouco seria o último. Depois de várias tentativas de escrever sobre o que realmente lhe interessava, o loiro simplesmente parou de perguntar. Segundo sua editora, Miranda Castelli, a coluna que escrevia na revista não era o local ideal para esse tipo de combate. Não precisou ouvir isso duas vezes até chegar à conclusão de que estava trabalhando no lugar errado.
Praticamente todos os meios de comunicação em Skyville eram totalmente manipulados pelos criminosos da cidade; sendo assim, não lhe restava outra opção, a não ser se calar e escrever sobre o que seus chefes diziam que deveria.
Totalmente desanimado com seu atual momento profissional, Hyoga leu algumas matérias com os principais atos polêmicos de Ikki Amamiya e fez um apanhado deles em sua coluna, tentando parecer altamente neutro em sua análise, já que não conhecia pessoalmente o foco de sua matéria.
Seu trabalho ficou simples e raso, exatamente como a matéria deveria ser. Os leitores da Fama não estavam interessados em saber quem eram de fato os irmãos Amamiya, só queriam estar a par da última fofoca.
"É para isso que você se formou, Hyoga?" – pensou ele, imaginando o que seus pais diriam.
Também órfão, o jornalista compreendia a dor que os irmãos Amamiya sentiam. Não; ele não viu seus pais serem brutalmente assassinados, mas estava no carro quando sofreram o acidente fatal. Salvo pelo cinto de segurança, Hyoga lembrava-se claramente da noite que passou no hospital, aguardando numa sala de espera ao lado de uma assistente social. Seu pai havia morrido no momento da colisão, mas sua mãe lutava bravamente pela vida.
No momento em que o médico surgiu no cômodo para anunciar o óbito de Natássia, a TV anunciava o assassinato do casal Amamiya, duas figuras ilustres de Skyville. A assistente social também chorou, abraçada com o garotinho loiro. Cada um tinha seu próprio pesar ali, mas Hyoga se lembra até hoje das palavras dela:
"– O que será de nós, Alexei?"
Àquela altura, ele não sabia e nem compreendia o quanto as obras sociais e a figura imponente daqueles dois fariam falta. Eram apenas um homem e uma mulher, não? Como uma cidade inteira pode ter ruído, a partir do assassinato daqueles dois?
Seguindo esse pensamento e deixando sua paixão pela profissão fluir, Hyoga deu início a uma extensa investigação da vida e morte do casal Amamiya. Durante dias, reuniu o que foi possível e descobriu que Rikki e Shania Amamiya tinham muito mais controle sobre a cidade do que se pensava. O trabalho árduo dos dois era um fator crucial para a igualdade social de Skyville e, consequentemente, para a baixa criminalidade até então.
No fim de seu prazo para entregar a matéria sobre o primogênito dos Amamiya, Hyoga apresentou à sua editora não apenas o artigo sobre as festas, brigas e atitudes destrutivas de Ikki; mas também uma extensa matéria a respeito de seus pais, incluindo, ao final, aquele pequeno artigo que tinha escrito anteriormente, demonstrando sua indignação com a justiça de Skyville.
Miranda leu ambas as matérias, mas manteve o semblante bastante fechado durante a leitura daquela que não havia encomendado. Por fim, a editora deixou os dois artigos sobre a mesa e olhou para Hyoga, que aparentava uma calma absurda.
– Não foi isso o que eu pedi. – disse ela, mantendo uma expressão bizarra no rosto.
– Sei que não. Mas me cansei de bancar o fofoqueiro e resolvi exercer minha profissão, ao menos uma vez. – respondeu o loiro.
Tamborilando os dedos na suntuosa mesa de mármore, a editora simplesmente sorriu, já acostumada às respostas atravessadas daquele loiro sisudo.
– A matéria sobre o Ikki está boa, quero uma chamada na capa. – disse Miranda, separando o tal artigo numa pilha em sua mesa.
– E quanto à outra?
– Você é talentoso, ninguém falou tão bem a respeito dos Amamiya como você fez. Entretanto, essa matéria não interessa nem um pouco à nossa revista e duvido que interesse a qualquer outra. Publicar algo assim é sinônimo de problema, Hyoga.
– Não tenho medo.
– Percebi. – retrucou a mulher. – A matéria está perfeita, Hyoga. Digna de um ótimo profissional. Com ela, você conseguiria emprego em qualquer jornal fora de Skyville. Por isso mesmo, escute um conselho meu: queime isso!
Tomado pela revolta da passividade não apenas de Miranda, mas de toda uma população, Hyoga fez a única coisa que lhe veio à cabeça.
– Eu me demito.
Foi tudo o que ele disse antes de, calmamente, recolher a polêmica matéria de cima da mesa e sair da sala.
Cerca de um mês depois, a revista contendo a matéria sobre Ikki Amamiya chegou às bancas. Hyoga nada pôde fazer, já que, desempregado, precisava do bônus que ganharia com a publicação do artigo.
Um mês foi mais ou menos o tempo de o loiro conseguir um emprego. Havia procurado por vários jornais e revistas e, exatamente como sua antiga editora havia dito, ninguém lhe abrira as portas. Hyoga já estava desistindo quando, por intermédio de um amigo, descobrira o pequeno Skyville Post, cujo editor, Seiya Ogawara, era tão ou mais idealista quanto o próprio Hyoga.
O loiro tinha chegado ao prédio indicado, localizado numa região central da cidade, e tivera ali a certeza de que se tratava de um jornal totalmente independente. O antigo edifício de apenas dois andares tinha janelas quebradas, paredes descascando e várias pichações. Bem diferente da fachada totalmente espelhada do edifício da revista Fama.
Ao entrar, um novo indício de que estava no lugar certo: a escassez de funcionários e o ambiente improvisado. Dois ou três ventiladores velhos eram responsáveis por refrigerar a ampla sala, dividida entre recepção, redação e sala do editor. O loiro pudera ver também um pequeno banheiro ao fundo e uma singela cozinha no canto oposto.
Porém, nada disso o tinha desanimado; a oportunidade de exercer sua profissão tal qual havia sonhado, fazia toda aquela precariedade ser completamente ignorada. Logo que entrara, Hyoga tinha chamado a atenção de todos, provavelmente bastante desacostumados a receber visitas.
Com alguma desconfiança, foi encaminhado para a mesa do editor-chefe, o tal Seiya Ogawara do qual havia ouvido falar. A entrevista com Seiya não durou mais que dez minutos, exatamente o tempo que o editor levou para ler a matéria levada pelo loiro e explicar como funcionavam as coisas no jornal. No primeiro andar, todos os setores dividiam espaço; o segundo era ocupado pela prensa bastante antiga que possuíam.
– Então, Hyoga, como eu disse, o Skyville Post é pequeno. Cento e cinquenta exemplares vendidos em um dia é o nosso recorde. Não posso garantir um bom salário, entende? Só muito trabalho e pouco reconhecimento. – Seiya esclareceu os fatos. – Nós temos um ideal e fazemos de tudo para segui-lo, mas isso requer certos sacrifícios.
– Estou disposto a enfrentar todos esses desafios, Sr. Seiya.
– Ah, por favor, apenas Seiya.
– Isso quer dizer que estou contratado?
– Seja bem vindo, Alexei Hyoga Yukida. – disse o editor-chefe, estendendo a mão para o loiro.
ooOoo
– Hora de acordar, senhor.
A luz do sol, que entrou violentamente pela janela que acabava de ser descortinada, fez com que os olhos doessem brutalmente:
– Que droga, Shiryu! Fecha essa cortina! – falou o moreno, levando o travesseiro ao rosto para protegê-lo da luz que o importunava.
– Senhor, já são quase duas da tarde.
– Quem se importa? – resmungou Ikki, com a voz abafada pelo travesseiro que segurava contra a face.
– Eu me importo, pois é meu dever fazer com que as coisas aconteçam dentro do estipulado. – o mordomo respondeu, enquanto posicionava uma bandeja de prata ao lado da luxuosa e imponente cama, sobre o elegante criado-mudo – Coma seu desjejum. Depois da noite de ontem, deve estar precisando se alimentar decentemente. – na voz do criado, era facilmente notável um tom de repreensão.
– Shiryu, cale essa boca e guarde seus sermões para quem quiser ouvi-los. E me deixa dormir. – o Amamiya mais velho virou-se na cama, para o lado oposto em que o rapaz de longos cabelos negros se encontrava.
– O senhor me disse para não deixá-lo perder a hora, lembra-se? Ontem, antes de cair na cama, disse-me para despertá-lo a tempo de poder buscar seu irmão na faculdade. Pois bem; se ainda quiser buscá-lo, deve levantar-se agora. Do contrário, ele fará como da outra vez e acabará aceitando carona de algum amigo. Não preciso recordá-lo de como o senhor Shun gosta muito de fazer amigos...
Não foi preciso dizer mais nada. No mesmo instante, Ikki jogava o travesseiro e as cobertas para o lado, levantando-se de uma vez. Com isso, acabou despertando a jovem que estivera adormecida a seu lado até então:
– Já acordou? – a moça espreguiçou-se lentamente – Bom dia, querido... – a garota tentou alcançar o corpo moreno, mas Ikki já se levantava e vestia um robe de seda – Aonde você vai? – perguntou ela, dando-se conta de que o Amamiya mais velho encaminhava-se ao banheiro da suíte.
– Não é da sua conta. – Ikki respondeu, enquanto mordia uma torrada que acabava de pegar da bandeja.
– Como não? Vai sair assim, sem nem ao menos conversar comigo direito...?
O homem de cabelos negros voltou seus olhos, azuis como uma tempestade, para a jovem. Fez uma expressão cínica e perguntou:
– Quem é você mesmo?
Isso pareceu enfurecer a garota, que se sentou na cama e encarou nervosa o rapaz:
– Quem sou eu? Você dormiu comigo e nem se lembra do meu nome?
– Correção. – Ikki falava sem demonstrar nervosismo em sua voz, enquanto enchia uma xícara de café – Eu não perguntei seu nome; perguntei quem é você. – bebeu um gole do líquido negro, que logo lhe trouxe uma reconfortante sensação – Não é só do seu nome que não me lembro. Não me lembro de você como um todo.
Shiryu balançou a cabeça negativamente, em um gesto discreto. E a moça, revoltada, envolveu-se no lençol da cama e começou a procurar pelas suas roupas.
– Eu vou tomar um banho, Shiryu. – dito isso, Ikki foi para o banheiro, enquanto a garota se vestia apressada, sentindo-se algo humilhada.
– A senhorita deseja alguma coisa? Café da manhã...? – Shiryu falava em um tom neutro e sereno, para não constranger a pobre moça ainda mais.
– Não. – respondeu, terminando de se vestir desajeitadamente, pois buscava colocar o vestido preto por baixo do lençol que a encobria – Obrigada. Só quero ir embora. – calçou apressada os seus sapatos e Shiryu, não desejando prolongar a situação desconfortável da jovem, apenas seguiu em frente, para que ela fosse logo atrás, de modo a guiá-la até a saída da mansão.
Alguns minutos mais tarde, Shiryu regressava à suíte principal, que era o quarto de Ikki. Encontrou-o saindo do banho, com uma toalha azul-marinho enrolada em sua cintura.
– Sua amiga já foi embora.
– Ela não é minha amiga. – o moreno respondeu enquanto olhava a revista que o mordomo trouxera junto com o café da manhã – Estou na capa dessa droga de revista novamente? – perguntou retoricamente, enquanto mordia generosamente uma maçã.
– Sim. A revista Fama gosta muito do senhor. – Shiryu respondeu.
– O sentimento não é recíproco. – Ikki dirigiu-se às roupas sobre a cama, já separadas por Shiryu – Detesto esses jornalistas que ficam me perseguindo. Parece que eles não têm mais o que fazer.
– O que podemos esperar, senhor? – Shiryu olhava para Ikki, que folheava a revista desinteressadamente – Esse parece ser o único trabalho dos jornalistas dessa cidade. Noticiar a vida de pessoas importantes.
– E eu sou importante? – riu o herdeiro do império Amamiya, começando a se vestir.
– Deveria. Seus pais lhe deixaram um legado.
– Um legado que eu não faço a menor questão de ter.
– Curioso. Ao contrário do que diz, o senhor parece aproveitar bem tudo que seus pais lhe deixaram. Afinal, a festa que deu ontem não custou barato. – Shiryu tinha a incrível capacidade de falar com um tom imutável, de forma que conseguia repreender sem ser rude.
– Eu preciso disso, Shiryu. Você sabe muito bem que a minha vida é uma droga e eu faço essas coisas para esquecer um pouco esse mundo completamente errado em que vivemos. – o moreno falou essas palavras de forma vazia, como um discurso decorado e no qual nem ele acreditava de fato.
– Pare com essa auto-piedade ridícula, senhor. Sabe muito bem que não terá minha compaixão. – ajudou o moreno a terminar de vestir seu blazer, dando alguns retoques finais à vestimenta.
Ikki riu. Shiryu havia conseguido essa liberdade de ser-lhe inteiramente sincero. Mas era um dos poucos que podia usar esse tom de voz consigo. Na verdade, eram apenas duas as pessoas que tinham essa permissão. Shiryu e seu irmão Shun.
Tinha 28 anos e, embora o império Amamiya continuasse em franco crescimento, não era o primogênito da família que controlava os negócios referentes às empresas que seus pais deixaram-lhe de herança. Ikki sequer se interessara em fazer alguma faculdade.
Em um primeiro momento, algumas pessoas tentaram aconselhá-lo a seguir os passos do pai. Provavelmente, eram pessoas saudosas, que depositavam muitas esperanças nos filhos do casal que morreu precocemente e que deixara uma cidade inteira órfã de suas obras. Entretanto, aos poucos, foram todos percebendo que o mais velhos dos filhos não tinha interesse em corresponder a essas expectativas.
Ikki sempre fora rebelde. Mesmo quando os pais eram vivos, tinha um temperamento forte. Mas conseguia ser dócil, às vezes. Obedecia aos pais, sabia se mostrar bem educado. Contudo, a morte do casal mudou algo na criança. A rebeldia que lhe era inata encontrou terreno propício para desabrochar completamente e assim foi que esse menino virou um verdadeiro pesadelo a todos os tutores que apareceram para tentar cuidar do garoto e de seu irmão.
O menino, que na época contava dez anos, não queria um tutor. Encontrava sempre um meio de espantá-los, por não julgar qualquer deles digno de confiança. Acreditava que seu irmão Shun, que possuía apenas cinco anos, precisava apenas de si para estar protegido. Ikki era desconfiado de tudo e de todos e, mesmo quando apareciam pessoas realmente interessadas no bem-estar das duas crianças, Ikki mostrava-se duro com elas.
Dessa maneira, passaram por uma fila interminável de tutores que nunca duravam mais que um par de meses. E assim transcorreram oito anos, até que Ikki, então maior de idade, pôde se responsabilizar por si e por seu irmão.
No entanto, conforme já mencionado, as esperanças que alguns poucos ainda tinham em ver o rapaz amadurecer, morreram logo. Ikki parecia decidido a não querer seguir o caminho trilhado pelos pais e tudo o que fazia de sua vida, agora que era senhor de si e de seus bens, era mergulhar em um mundo supérfluo, rico em álcool, sexo e tudo o mais que pudesse ajudá-lo a dispersar-se do mundo em que fora criado.
Assim, um grupo de importantes e influentes homens se criou, originando um conselho formado para cuidar do império Amamiya. E Ikki não poderia se importar menos com isso.
E, como se fazia necessário que alguém cuidasse da mansão, um bem que o moreno fez questão de manter, foi preciso encontrar um mordomo que organizasse a vida daquele local.
As primeiras tentativas foram frustradas. Shun, na realidade, era receptivo com todos. Ikki, porém, odiava quando esses mordomos invadiam seu espaço pessoal – o que era inevitável acontecer.
Todos eles, de idade algo avançada, pareciam querer tratá-lo como uma criança mimada e davam-lhe constantemente sermões, lições de moral e todo tipo de coisa que Ikki não suportava.
Entretanto, quando o jovem Shiryu apareceu, Ikki logo o achou interessante. Estava cansado de mordomos que pareciam querer se valer da idade para impor respeito. Shiryu tinha praticamente sua idade. Seria, no mínimo, interessante ver como esse jovem se faria respeitar.
E, surpreendido, viu como Shiryu soube ganhar seu respeito devido à forma como lhe falava. Até hoje Ikki não compreendia bem como tudo havia ocorrido, mas o jovem mordomo, assim como os antigos, também o repreendia quando acreditava que ele estava errado. E Shiryu externava suas opiniões sem problemas; porém, ele o fazia de uma forma não agressiva, como se realmente desejasse ajudar, como se quisesse mesmo levar o Amamiya mais velho a refletir sobre suas ações. Mas Shiryu não costumava impor; ele dizia o que pensava e deixava a cargo de Ikki fazer ou não algo com o que falava.
– Eu não quero sua compaixão, Shiryu. Quero apenas que pare de tentar me mudar.
– Eu não desejo que o senhor mude. Sei que, no fundo, é uma boa pessoa.
– Ah, por favor. Não me venha com essa conversa de que, por ser filho de Rikki e Shania Amamiya, eu sou como eles. Estou cansado dessa ladainha! – já pronto, Ikki terminou de arrumar os cabelos negros, que agora vinham em um bonito e charmoso penteado com gel.
– Não o estou comparando a seus pais, senhor. – Shiryu pegou a bandeja de prata nas mãos, compreendendo que Ikki estava pronto para sair – Não os conheci, não sei dizer exatamente que tipo de pessoas eram, embora toda essa cidade pareça saber tanto sobre eles. – Shiryu dirigiu-se para fora do quarto – Mas eu o conheço. E sei que está muito aquém de tudo que é, de fato. E está, principalmente, muito abaixo do que deveria ser. – tendo dito isso, o mordomo deixou o aposento.
Ikki bufou. Odiava quando o rapaz de longos cabelos negros conseguia afetá-lo desse modo. Sacudiu a cabeça, não querendo pensar. E, a passos rápidos, deixou o quarto, para sair logo da mansão. Pegou um dos carros de sua coleção e, rápido, ganhou a pista que o levaria à faculdade de Shun.
ooOoo
Hyoga arrumou melhor a mochila nos ombros e repassou mais uma vez a história que havia criado. Ele precisaria ser bem convincente, se quisesse entrar na faculdade onde Shun Amamiya estudava.
Atendendo a um pedido de Seiya, o loiro estava tentando acrescentar algumas palavras de Shun e Ikki Amamiya ao seu artigo. Depois de várias tentativas de contato na mansão onde os dois viviam – todas elas barradas pelo mordomo de Ikki, um tal de Shiryu Suiyama, Hyoga precisou usar de um artifício drástico; resolveu se infiltrar na faculdade de Administração onde o Amamiya mais novo estudava e, com sorte, arrancar algumas palavras dele.
Por sorte, a portaria estava sendo vigiada por uma mulher, no momento em que o loiro entrou. Algumas piscadelas e um pouco de charme a mais e Hyoga teve sua entrada liberada, sem que fosse preciso disfarçar o fato de ser um jornalista.
Uma vez lá dentro, depois de perder algum tempo procurando a turma de Shun, o loiro novamente pôde contar com a sorte de encontrar o jovem num dos jardins externos, quando já estava desistindo da procura.
Com cautela, aproximou-se de Shun e se sentou ao seu lado na fonte.
– Oi. – cumprimentou, perguntando-se como deveria abordar o assunto que queria.
– Olá. – Shun foi simpático, mas sua surpresa ficou bastante clara em sua feição. – Posso ajudar em algo?
Hyoga pensou em mentir. Na verdade, ele chegou até ali com uma mentira pronta. Mas não conseguiu ir em frente. Fingir-se um estudante, amigo do garoto apenas para obter sua história, não era de seu feitio. Portanto, optou pela honestidade que, embora nem sempre resolvesse, continuava sendo o melhor caminho a ser seguido.
– Sr. Amamiya, eu me chamo Alexei Hyoga Yukida, trabalho no Skyville Post e estou escrevendo uma matéria sobre a libertação dos assassinos de seus pais. Gostaria de obter alguma declaração sua a respeito do assunto, para que a população de nossa cidade possa ter uma noção de como o senhor se sente em relação a tudo o que ocorreu.
Shun ficou lívido. Não acreditou na ousadia do jornalista e não soube o que responder. Encarou os belos olhos azuis de Hyoga e tentou encontrar a forma mais educada de lhe dizer que aquele assunto era delicado demais para ser tratado assim, com tanta objetividade. Entretanto, o jovem Amamiya não precisou pensar muito, já que, quando abriu a boca para dizer algo, a presença de Ikki atraiu total atenção de ambos.
– Quem é você? - a pergunta de Ikki veio seca; curta e grossa. Os olhos azuis inspecionaram rapidamente a figura do loiro, enquanto se adiantava na direção dele, para se posicionar à frente do irmão. Em seu rosto, nem seria possível notar a ressaca da véspera. Ikki já havia alcançado boa resistência e parecia até mesmo ter tido uma boa e agradável noite de sono.
Os cabelos penteados com gel, dando um aspecto molhado e jovial, a barba bem-feita, o blazer azul-marinho, a camisa branca e a calça creme compunham o quadro perfeito do herdeiro de um grande império. Quem olhasse para ele dessa maneira, não seria capaz de enxergar ali a imagem do desordeiro polêmico Ikki Amamiya, que vivia ganhando as páginas de revistas e jornais da cidade.
O tom da pergunta deixou clara a instantânea antipatia do homem por Hyoga. O loiro conhecia o mais velho dos Amamiya, ou melhor, já o tinha visto em fotos e sabia muito bem da fama que ele tinha de ser tão rude quanto era belo. Engolindo em seco, o jornalista hesitou por um momento, mas, vendo que não tinha saída, encarou os olhos do homem e estendeu-lhe a mão. - Sou Alexei Hyoga Yukida.
Não era de prestar tanta atenção nos nomes desses jornalistas que tanto desprezava, os quais costumava encarar como se fossem abutres que se alimentam de carniça ou, melhor dizendo, da desgraça alheia. Entretanto, o fato de ter visto esse nome na reportagem de capa da revista Fama, minutos antes de deixar a mansão, fez com que a recordação fosse instantânea:
– Espera um pouco. Você é o tal jornalista que escreveu uma matéria sobre mim naquela revista Fama? - falou demonstrando toda a sua conhecida hostilidade em cada uma dessas palavras, enquanto o olhar perscrutador apenas se intensificava sobre Hyoga.
– Sim, fui eu. - admitiu o loiro. - Mas já não trabalho na revista Fama, eu me cansei de publicar fofocas sobre os famosos de Skyville. - apressou-se em explicar, com o tom de voz brando. - Eu estava dizendo ao seu irmão que estou escrevendo uma matéria sobre seus pais e gostaria de obter uma declaração de vocês a respeito deles e da liberdade de seus assassinos.
Ikki ficou alguns segundos em silêncio, como se analisasse o loiro à sua frente. Tentava enxergar o que poderia ser verdade naquelas palavras, porque o tal Hyoga parecia sincero. Contudo, não se deixava enganar. Não confiava nas pessoas, especialmente em jornalistas. Certamente, havia outras intenções escondidas. Só não estava conseguindo encontrá-las ainda, mas não se deixaria enganar. - Olha, eu vou dizer só uma vez. Fique longe de mim e do meu irmão. Nenhum de nós tem qualquer declaração a fazer pra você, não interessa para que revista ou jornal trabalhe. - os olhos azuis escuros tornaram-se mais ameaçadores - Estou cansado de lidar com gente como você, que se alimenta das fatalidades que ocorrem na vida dos outros. Então, espero que tenha prestado atenção. Nunca mais cruze o nosso caminho. Eu não gosto de me repetir. Fui claro?
Hyoga se ofendeu no mesmo instante, afinal, suas intenções eram boas. - Não sou como pensa, senhor. Trabalho no Skyville Post, não quero me alimentar das fatalidades dos outros. Quero ser útil em alguma coisa e ajudar a limpar as ruas de Skyville! Vocês dois, mais do que todos os outros nessa cidade, podem ajudar a fazê-lo, então porque se recusam? Digam o que sentem, sejam a voz que representa essa população tão sofrida... - discursou o loiro.
– É que esse é um assunto difícil para a gente... - Shun se manifestou, em um tom suave, mas parecendo disposto a dialogar com o jornalista - Para muitos dessa cidade, nossos pais foram as pessoas que fizeram tanta caridade, que ajudaram tanta gente... Mas, para nós, eles eram apenas os nossos pais, entende? E isso dói, porque lembrar o que aconteceu é...
– Shun. Não diga mais nada. - Ikki interrompeu o irmão duramente, lançando a ele um olhar fortemente repreensivo - Vá para o carro. Está estacionado no lugar de sempre. - o moreno percebeu que o caçula relutava, como se não quisesse deixar a conversa desse modo - Shun, eu vou não me repetir. - o tom foi ainda mais duro. O mais novo, em resposta, apenas suspirou e, lançando um olhar triste para Hyoga, despediu-se com um gesto de cabeça discreto e saiu, deixando o irmão ali. Ikki agora olhava fixamente para Hyoga, com um olhar imponente que assustava sem necessidade de dizer qualquer coisa. Porém, o jornalista não parecia se intimidar: - Qual foi a parte do "Nenhum de nós tem qualquer declaração a fazer" que você não entendeu? - indagou muito sério - Nós não temos nada a dizer. E, mesmo que eu tivesse, não diria a você, só para ajudá-lo a vender seu jornalzinho. - menosprezou propositalmente o Skyville Post, que sequer conhecia - Eu só acho muita patifaria da sua parte vir com essa cara-de-pau me perguntar sobre algo do tipo e dizer que seu interesse é limpar essas ruas. Não tem noção do quanto isso é ridículo? Primeiro, porque uma informação tão pessoal na mão de qualquer jornalista jamais viraria algo produtivo e positivo. E, em segundo lugar... Onde é que você vive? Quer "limpar" as ruas de Skyville? Então, pegue uma vassoura e comece a varrer, literalmente. Porque essa é a única limpeza que se pode operar nessa cidade. Todos sabem disso, só os ingênuos ainda permanecem sonhando com o impossível. - finalizou secamente.
– O Skyville Post é um jornal pequeno e nós podemos até parecer ingênuos, senhor Amamiya. Mas temos um sonho em comum e sua arrogância não me fará desistir. Estou me arriscando absurdamente ao escrever um artigo como esse, sabia? Mas não tenho medo, porque sei que é a coisa certa a se fazer. Não estou aqui, remoendo velhas feridas suas e de seu irmão, apenas pelo prazer de arrancar informações pessoais de vocês dois. Quero realmente fazer algo de positivo com isso, porém, como fez questão de demonstrar, não acho que seja possível conseguir algo produtivo vindo do senhor. Posso ser um rapaz sonhando com o impossível, mas, pelo menos, estou sonhando; ou melhor, não estou de braços cruzados, vendo essa cidade ruir. E quanto ao senhor? Tem feito algo útil? Tem honrado a memória de seus pais? Não, acho que não. Você deve estar muito ocupado humilhando os ingênuos e sonhadores, não é? - decepcionado, Hyoga ajeitou a mochila carteiro no ombro, prendeu sua franja atrás da orelha e se afastou.
Ikki ficou atônito ao ouvir aquelas palavras tão descaradas. Não era a primeira vez que alguém lhe dizia algo do tipo, mas era a primeira vez que alguém lhe confrontava daquela forma. Esse jornalista lhe repreendia de uma forma completamente distinta do modo como Shiryu ou os outros mordomos já fizeram. Não soube dizer muito bem o que sentiu, mas soube que não havia gostado nem um pouco. Por isso, acabou reagindo rápido. Adiantou-se dois passos e segurou o loiro pelo braço, com mais força que o necessário: - Nunca mais ouse falar de mim ou dos meus pais, está me ouvindo? - a voz vinha um pouco trêmula, devido ao nervosismo que transbordava - Você não me conhece, não tem ideia do que foi ou do que é a minha vida! Não sabe o fardo que eu tenho de carregar, não sabe o que é ser filho dos meus pais! Então, não venha me julgar sem me conhecer! - respondeu zangado. A pergunta que Hyoga fizera, sobre a questão de Ikki estar honrando ou não a memória de seus pais ferira o moreno profundamente, embora ele não quisesse admitir isso nem para si mesmo.
Hyoga puxou seu braço, tentando se desvencilhar do moreno. - Você é filho de duas pessoas incríveis, que só fizeram o bem durante toda a sua vida. Se realmente acha isso um fardo, não merece os pais que teve! Agora me solte, senhor Amamiya, pois está me machucando! - o loiro não se alterou um só momento; sua voz permaneceu serena, acobertando a insegurança que fervilhava dentro dele.
Acabou apertando o braço de Hyoga ainda mais forte, inconscientemente. Aquelas palavras estavam reabrindo uma gigantesca ferida dentro de si, que talvez nem soubesse que possuía: - Eu não mereço os pais que eu tive? Você realmente disse isso? - os olhos escuros demonstraram uma fúria crescente, despertando um lado seu que sabia existir, mas que normalmente conseguia deixar adormecido, buscando meios que o deixassem anestesiado a maior parte do tempo - Você não sabe quem eu sou, está bem? Você não sabe o que é a minha vida! - repetia, como se o mesmo argumento, dito mais de uma vez, pudesse se fortalecer assim - Nem todo mundo teve uma vida perfeita, como parece ser o seu caso! Aliás, deve ser por isso que acha fácil julgar os outros! Acontece que, se você não está no meu lugar, não pode saber a merda que é a minha vida, tá bem?
– Eu não tive uma vida perfeita, senhor Amamiya; mas não acho que isso realmente interesse a você. Entretanto, devo dizer que compreendo sua dor e lamento por tudo o que você viu e viveu. Mesmo assim, isso não te faz um coitado. Ao contrário do senhor, eu não te vejo como alguém digno de pena. - o loiro continuou puxando o seu braço, agora com um pouco mais de força. - O senhor está me machucando! - repetiu.
Percebendo que as pessoas ao redor já haviam parado para não só ouvir aquela discussão, mas também já começavam a usar seus aparelhos celulares para gravar e fotografar a conversa, Ikki agiu de forma instintiva, como estava acostumado a fazer, e começou a caminhar apressado, a passadas largas, para longe da pequena multidão que se formava. Saiu puxando Hyoga consigo, ainda preso ao seu firme agarre, e entrou em um dos prédios da faculdade. Como ainda chamava a atenção assim, entrou direto na primeira sala vazia que viu e, assim que fechou a porta, finalmente largou o braço do jornalista: - Eu não quero pena de ninguém. - falou rispidamente. Então pareceu pensar rápido em algo que cogitava fazer. Parecia ainda ter dúvidas, mas estava impaciente demais para refletir apropriadamente: - Está bem. Pergunte. - cruzou os braços sobre o peito, como se, com esse gesto, conseguisse se recompor, embora ainda se sentisse tenso.
Preocupado com a dor e o vergão que se formou em seu braço, Hyoga não compreendeu de imediato as palavras de Ikki. Porém, quando seu cérebro enfim processou o que o outro havia dito, o jornalista não foi capaz de conter um sorriso. Havia procurado por Shun justamente porque foi aconselhado a não buscar pelo Amamiya mais velho que, como lhe disseram, não somente se recusaria a falar, como também o humilharia como poucos. O irmão caçula era mais fácil de ser dobrado, foi o que soube, mas, por sorte, acaso ou por sua própria arrogância, tão grande quanto a de Ikki, estava prestes a obter o depoimento do temido homem. - Obrigado. - foi quase um sussurro, mas seu olhar demonstrou toda a sinceridade dessa única palavra. Hyoga abriu sua mochila e retirou dela um gravador, sentou-se em uma das carteiras, tomou fôlego e perguntou:
– Eu não quero abusar, explorando excessivamente sua dor, senhor Amamiya. Mas já sabemos o impacto que a ausência de seus pais causou a Skyville; será que pode falar um pouco do impacto que ocorreu em sua vida?
Ikki ouviu aquela pergunta e ficou em silêncio alguns segundos. Era uma pergunta dolorosa e difícil de responder. Mas não iria voltar atrás. - Bom, os meus pais foram assassinados na minha frente quando eu tinha apenas dez anos. O que você acha que isso faz com a cabeça de uma criança? - acabou dizendo de forma bastante agressiva, devolvendo a pergunta porque, em parte, tinha receio de trazer essa parte de sua vida à tona. Sua vida inteira fugira de si mesmo, das lembranças, dos pesadelos, de todos os sentimentos que a recordação daquela noite suscitava. Por isso, respondeu com uma pergunta pois, dessa maneira, evitava confrontar seu passado e tinha grandes chances de dar essa conversa por finalizada. Afinal, o que o loiro poderia dizer? Ele não teria como saber o que sentiu. Talvez, desse jeito, o jornalista ficasse constrangido o bastante e resolvesse dar por encerrada a entrevista.
É claro que Hyoga havia se animado rápido demais. O fato de ter aceitado a entrevista não significava que Ikki seria simpático em suas respostas. O loiro resolveu ignorar a provocação na pergunta do outro e prosseguiu com seu trabalho. - Sei que isso causa um trauma para a vida toda. - respondeu, com total conhecimento do que dizia. - Muitos acreditam que boa parte de suas atitudes são fruto dessa situação traumática. Concorda?
– Que sorte a minha. - disse em um tom bastante sarcástico - Pelo visto, não me deparei apenas com um jornalista intransigente. Você também é metido a psicólogo. - Ikki mantinha os braços cruzados. Lançou um olhar nada amigável para o loiro e apoiou as costas na parede - Eu não sou uma equação matemática, senhor Yukida. - falou friamente, colocando um acento de desprezo no modo como tratou o jornalista - Nem tudo o que eu faço é simples consequência do que já vivi. Então, não. Eu não concordo com você.
Hyoga sentiu vontade de encerrar a entrevista naquele exato momento. Ikki era o sujeito mais intragável que já tinha conhecido, os boatos a respeito dele eram todos verdadeiros. - Acredita que agiria da mesma forma se seus pais estivessem aqui? - Assim que as palavras deixaram sua boca, o loiro procurou se corrigir: - Desculpe, eu disse que tentaria não explorar sua dor e não vou fazê-lo. Vou reformular a pergunta: Seus pais eram conhecidos pelas obras sociais, o bom tino para os negócios. Rikki Amamiya era um grande conselheiro dos governantes de seu tempo, inclusive. Acredita que o assassinato de seus pais tem alguma relação com a atual situação de Skyville?
Por mais que não quisesse, não conseguiu se manter inteiramente frio ao comentário de Hyoga. Talvez por esse motivo, tivesse ignorado o fato de o jornalista ter habilmente reformulado à pergunta e terminou respondendo ao primeiro questionamento feito: - Se meus pais estivessem aqui, eles certamente reprovariam muito do que eu faço. - soltou de forma introspectiva, como se falasse consigo mesmo. Os olhos, que antes encaravam o loiro, desviaram-se dele para focar algum ponto invisível na parede - Na verdade, tenho certeza de que seria uma grande decepção para eles. - riu de si mesmo e, depois de manter esses olhos perdidos por algum tempo, voltou a fixá-los em Hyoga - E eu acho que seria do mesmo modo como você me vê. Eu sou assim. Não é um fato externo que me transformou no que sou. Sempre fui assim e vou continuar sendo. Sabe... você, da mesma maneira que todas as outras pessoas dessa maldita cidade, fica querendo encontrar uma salvação para Skyville. E, como todos, fica pensando se as coisas seriam diferentes se meus pais ainda estivessem aqui. Sim, senhor Yukida. Eu reconheço que, quando meus pais eram vivos, esse lugar era muito melhor. Mas eles morreram. Por que todos insistem em não aceitar? Eles se foram e não vão voltar. E eu não sou como eles. Não sou, nunca fui, nunca vou ser. E detesto que fiquem tentando me transformar na figura do meu falecido pai. Parem de esperar que eu seja o salvador de Skyville. Eu não tenho o menor interesse em fazer qualquer coisa, porque sou prático e mais realista. Não há nada que se possa fazer. Essa cidade nunca mais voltará a ser o que era; ela está corrompida demais. Nada se salva. Como fazer justiça, quando a própria justiça de Skyville está comprometida? - suspirou, parecendo desabafar - Não, senhor Yukida. Não pretendo gastar minha vida em uma causa inútil. Não tenho qualquer intenção de jogar minha vida fora tentando algo que sei ser impossível de alcançar.
Hyoga olhava atentamente para Ikki. Estava estudando aquele homem tão complexo, tentando entender a que ponto ele mesmo acreditava naquelas palavras. Sem obter muito sucesso em sua análise, o loiro passou a mão nos cabelos, retirando a franja dos olhos, e suspirou, dando-se por vencido. Bom, se não conseguiu ouvir o que queria de Ikki, pelo menos conseguiu uma declaração. - Última pergunta, senhor Amamiya. Como se sente com a libertação dos assassinos de seus pais? Pode resumir esse sentimento em uma palavra?
– Ódio. - respondeu antes que pudesse se conter. Mas não se arrependeu - Aqueles homens assassinaram os meus pais. E aqui eu não estou entrando no mérito da questão que mais interessa a você, Yukida. Como eu disse, não poderia me importar menos com o que acontece com essa cidade. Entretanto, mesmo que meus pais não fossem os famosos benfeitores que tanto dedicaram suas vidas a Skyville, ainda penso que suas vidas eram valiosas demais. Libertar os assassinos deles apenas oito anos depois de terem sido presos? - bufou - Isso só é a prova de que, nessa cidade, não existe justiça. Aliás, mais um motivo para eu não mover um dedo sequer para ajudar Skyville. É assim que tratam a memória dos meus pais? Muito bem. Sofram com as consequências de seus atos. Eu lavo as minhas mãos.
– Obrigado pela entrevista, senhor. Sei o quanto deve ser difícil falar desse assunto. - Hyoga falou baixo e calmamente, como se quisesse aplacar a ira de Ikki. O jornalista desligou o gravador e, calmamente, guardou-o em sua mochila carteiro. - Não vou tomar mais o seu tempo. Obrigado, mais uma vez. - instintivamente, antes de se levantar, o loiro deu uma boa olhada em seu braço, onde a marca roxa deixada por Ikki ainda ardia.
Ikki estava pensativo nesse momento, parecendo refletir sobre as próprias palavras. Não tinha atentado para as últimas palavras do loiro e só pareceu despertar de seus devaneios quando ele moveu-se na carteira em que estava sentado, prestes a levantar.
Hyoga estava olhando para o braço e só então Ikki notou a marca que deixara ali. Não tinha feito de propósito, não tivera a intenção de machucar o rapaz. Mas havia ficado fora de si. Por isso, terminara sendo mais rude e violento do que gostaria. Infelizmente, sabia que agia assim, às vezes. Não era algo de que se orgulhava, mas, vez ou outra, perdia a cabeça e, nessas horas, era perfeitamente capaz de ferir - Eu sinto muito pelo seu braço. - adiantou-se olhando para a marca roxa - Eu não tive a intenção. - pensou então que isso poderia se somar às tantas críticas feitas a ele. O tal jornalista poderia muito bem noticiar em seu jornal ter sido vítima de agressão. Podia até dar queixa na polícia. Claro, isso não iria longe. Ikki tinha dinheiro, conseguiria se livrar facilmente de qualquer acusação. Entretanto, já até conseguia ouvir as vozes de Shiryu e Shun repreendendo-lhe por mais essa falta. Não que ele se importasse; para Ikki, era apenas mais uma imagem negativa a se juntar às que ele já colecionava. Mas, acreditando que devia isso ao irmão e ao mordomo, resolveu perguntar: - Pretende alardear a respeito disso? Vai falar nos jornais que eu agredi você?
– Não se preocupe, de minha boca ninguém ouvirá nada. Entretanto, não posso evitar os boatos que toda aquela gente lá fora com certeza espalhará. - o loiro se levantou, ajeitou sua mochila no ombro e estendeu a mão para o moreno. - Obrigado mais uma vez, senhor. Adeus.
Ikki estreitou os olhos na direção do loiro, parecendo pesar rapidamente várias questões em sua mente atribulada. Então, antes que Hyoga pudesse alcançar a porta, tocou-lhe o braço, mas, dessa vez, tomando o cuidado de não segurá-lo contra a vontade - Por favor. Permita-me levá-lo para a minha mansão. Tenho uma pessoa talentosa para lidar com esse tipo de marca. Ele sabe inclusive cuidar de ferimentos de um modo tão especial que consegue desaparecer com marcas como essas.
Hyoga encarou os olhos do outro e quase se perdeu neles. Por um momento, o loiro acreditou que aquele homem a sua frente não era absolutamente nada daquilo que lhe haviam dito. Entretanto, um único pensamento fez com que sua racionalidade voltasse: Ikki apenas queria evitar problemas por tê-lo machucado, só poderia ser isso. Um tanto quanto indignado, o jornalista se afastou do outro. - Já lhe disse que não pretendo denunciá-lo por agressão, muito menos irei acrescentar essa informação em minha matéria. Não preciso de cuidados, senhor.
Ikki estranhou a recusa. Sabia muito bem do quanto qualquer jornalista adoraria um convite para entrar em sua mansão. - Talvez eu não tenha me feito tão claro. Eu quero que venha comigo, senhor Yukida. Meu mordomo é excelente para cuidar desse tipo de marca. E não aceito um "não" como resposta. - certo; não era o objetivo de Ikki parecer tão rude nesse momento. Entretanto, foi o que ocorreu.
– Eu não sou homem de acatar pedidos assim vindo de estranhos, senhor. Por que tanto interesse em cuidar de um ferimento tão simples? - o jornalista se manteve firme.
– Agora eu sou um estranho? - sorriu de canto - Até poucos minutos atrás, você falava como se me conhecesse melhor do que eu mesmo. Mas, muito bem. Vamos deixar tudo claro aqui. Eu quero que venha comigo, para que meu mordomo possa dar um jeito nessa marca. Não quero que fique andando por aí com esse vergão. As pessoas vão perguntar e, mesmo que você não fale, como disse, elas poderão ligar os pontos. Sem contar que eu não te conheço e não confio na sua palavra. Ou seja, no final das contas, a notícia de que eu agredi um jornalista vai se espalhar e isso não pegaria bem para a minha imagem, concorda? - falava demonstrando impaciência - Então, o negócio é simples. Ou você vem comigo e deixa meu mordomo cuidar desse roxo no seu braço, ou você não tem minha permissão para publicar minhas palavras no seu jornalzinho. E, se o fizer sem minha permissão, eu prometo que processo vocês. E, em dois tempos, eu fecho esse tal de Skyville Post. - finalizou categórico, com um provocante sorriso no rosto.
Hyoga estava encurralado. Esforçou-se tanto para conseguir aquela entrevista, não poderia deixar de publicá-la. Porém, se a publicasse sem o consentimento de Ikki, o Skyville Post não sobreviveria, caso fosse processado pelo moreno. Desse modo, o loiro se viu obrigado a aceitar o "convite" do Amamiya. - Eu vou. - disse, mantendo a feição impassível.
– Ótimo. - apenas um breve sorriso e o moreno caminhou até a porta - Vamos no meu carro. E melhore esse rosto. Não quero que os curiosos aí fora pensem que você está vindo obrigado. - havia certo tom irônico na voz de Ikki.
– Obrigado? Como poderiam pensar algo assim, não é? - o loiro abusou do sarcasmo, enquanto seguiu o moreno até seu carro.
Como já caminhavam pelo pátio, Ikki achou melhor não responder nada. Quando finalmente chegaram ao veículo, encontrou um Shun que parecia bastante zangado com a demora do irmão. Porém, ao se dar conta de que o mais velho vinha acompanhado, a expressão do caçula mudou instantaneamente. Ikki, ignorando a surpresa estampada na face de Shun, apenas entrou no carro, assumindo a posição de motorista, enquanto Hyoga tomava o banco traseiro, já que Shun estava sentado ao lado de Ikki: - O que está havendo aqui? Por que esse jornalista está no nosso carro, Ikki? - a forma como o mais novo indagava demonstrava sua confusão.
– Eu dei uma entrevista ao senhor Yukida. - Ikki deu a partida no carro e então olhou para o loiro pelo espelho retrovisor - E, como retorno, ele deixará que Shiryu cuide de um ferimento que ele tem no braço.
– E por que o Shiryu precisa cuidar do ferimento dele? - Shun continuava sem compreender.
– Porque eu causei esse ferimento e o Shiryu sabe dar um jeito de certos hematomas desaparecerem como se nunca houvessem existido.
Shun, estupefato, voltou-se para trás: - Meu irmão machucou você? - a voz do mais jovem já vinha em tom de quem pede desculpas.
– Não se preocupe, não foi nada de mais. - Hyoga esboçou um sorriso para o Amamiya mais jovem. - O seu irmão só está sendo precavido. - completou.
– Posso ver a tal ferida? - Shun perguntou, mas em um tom que demonstrava compreender se Hyoga se recusasse.
Prontamente, Hyoga ajeitou-se no banco e estendeu seu braço ao Shun. - Vê? Não é nada de mais. O seu irmão só está fazendo isso por julgar que não sou de confiança. - disse ele, olhando de relance para Ikki.
Shun viu que não era nada realmente grave, mas também não era qualquer coisa. Ikki tinha segurado o braço do jornalista com força. - Meu irmão não confia em ninguém. - falou como se Ikki não estivesse presente, ouvindo-o - Ele tem essa mania de perseguição, sabe? Fica achando que o mundo inteiro está contra ele. - era verdade que o caçula dos Amamiya era bastante crédulo e dado a conversar com qualquer um, mas o motivo de falar sobre tais intimidades tinha a ver com o fato de haver se enervado com a situação. Estava já mais que cansado das atitudes autodestrutivas de Ikki. Porque, sim. Essas atitudes eram destrutivas. Somente o irmão não percebia e Shun já não sabia mais como ajudar. Havia muita raiva e dor no moreno e o mais novo não tinha ideia de como arrancá-lo das trevas em que ele se obrigava a viver, levando até ele um pouco de luz. Por isso, nesse momento, não falava aquelas coisas por não ter noção do que fazia. Falava porque a frustração tomava conta de si, sem que pudesse se segurar.
– Shun. Fique quieto. - a voz de Ikki era autoritária.
– Não. Estou cansado de ver você fazendo essas coisas. Aliás, toda essa cidade já está cansada disso... - respondeu o jovem cujos olhos esmeralda viam-se tristes agora. Então virou-se para trás - Você é jornalista, não é? Por favor, pode me dizer a imagem que Skyville tem do meu irmão?
Hyoga realmente não queria se intrometer no assunto deles, mas não soube se esquivar da pergunta de Shun. - Todos pensam que seu irmão é um playboy irresponsável, promíscuo, encrenqueiro e extremamente grosseiro. - foi direto.
– Pois é. - Shun voltou a se recostar em seu assento – Ouviu, Ikki? Essa é a imagem que você passa. É a imagem que todos têm de você. Escutou bem, irmão? - suspirou chateado, com os olhos verdes presos à pista - Meu irmão não é essa pessoa horrível que a mídia noticia, senhor Yukida. Muito pelo contrário, ele é...
– SHUN! - Ikki cortou o caçula, com uma voz bem mais imperativa que o normal. Olhava para ele com o canto dos olhos, mas isso foi o bastante. O mais novo se calou e apenas cruzou os braços, em silêncio, permanecendo assim o restante do caminho.
– Não precisa falar assim com ele, senhor Amamiya. Não vou publicar o que ele está dizendo. A sua entrevista me é suficiente, não sou do tipo inescrupuloso e me incomoda que pensem isso de mim. Exatamente por isso penso que, se você não é como todos pensam, deveria demonstrar, não acha? - disse Hyoga, bastante incomodado por ser, de certa forma, o estopim de uma briga entre os dois irmãos. O loiro havia crescido sozinho e sabia muito bem o valor de um laço sanguíneo como o que aqueles dois tinham.
– Eu não tenho nada a mostrar para ninguém. - Ikki falou em um tom que mostrava estar aquela conversa finalizada. E assim logo chegaram à mansão. O moreno estacionou nervoso, freando bruscamente. Saiu do carro e abriu a porta traseira - Vamos. Quanto antes cuidarmos disso, antes você pode ir embora. – falou de forma indiferente para Hyoga e, sem esperar resposta, começou a seguir rápido para a entrada da monumental casa.
Shun, que saiu em seguida, aproximou-se do loiro momentaneamente - Meu irmão não é essa pessoa que vocês, jornalistas, gostam de pintar. Pelo contrário, ele é muito bom. A morte de nossos pais mexeu muito com ele. Eu me recordo de algumas coisas, vagamente. Ikki certamente lembra-se de bem mais e é por isso que ele vive se punindo. Acho que ele pensa ter tido culpa ou... - o caçula sussurrava rapidamente. Por algum motivo, tinha simpatizado com aquele jovem jornalista. Ou era só a necessidade de desabafar que o fazia agir assim. De qualquer modo, não pôde dizer mais, pois logo o Amamiya mais velho olhou para trás, chamando Shun com os olhos, como se mandasse o mais novo se afastar de Hyoga.
– Eu entendo, sei bem como vocês dois devem ter sofrido. Ao contrário dos outros, eu não julgo o seu irmão. - o loiro sussurrou, antes que Shun acatasse a ordem silenciosa de Ikki e se afastasse de si. Hyoga seguiu os dois irmãos e, uma vez que estava dentro da mansão, deixou-se deslumbrar tanto pelo tamanho quanto pela beleza daquela casa. No entanto, não fez qualquer elogio, somente ficou observando, estupefato, o local. - Então, onde está o tal milagreiro que irá cuidar do meu braço e me liberar da sua chantagem? - o loiro se dirigiu a Ikki.
O primogênito dos Amamiya lançou um olhar aterrador para Hyoga, mas novamente o loiro não se intimidava. Olhou então ao redor, como se buscasse por algo ou alguém: - Shiryu! - chamou em voz alta - Preciso da sua ajuda aqui! - dito isso, foi olhar a correspondência sobre um aparador que ficava ali perto. Passava as cartas diante de olhos frios e inexpressivos.
Shun, que novamente se aproximava do loiro, sorriu amigável: - Você é diferente da maioria dos jornalistas que eu já conheci. Parece muito sincero em tudo o que diz.
– Não se deixe enganar, Shun. Eles são todos iguais. Alguns apenas sabem disfarçar melhor, como o senhor Yukida. - Ikki intrometeu-se, sem tirar os olhos da correspondência, que parecia analisar sem dar grande importância a nenhum daqueles envelopes.
– Sou bem mais do que julga, senhor. - era realmente estranho chamar de senhor alguém apenas cinco anos mais velho, mas Hyoga fazia questão de ser educado e o moreno, em momento algum, demonstrou se irritar com a formalidade. Aliás, ele também o tratava por senhor, como se desejasse fortalecer assim o distanciamento e a impessoalidade entre eles - Entendo que vocês tenham conhecido jornalistas ruins, mas não deveria generalizar.
– Conhecemos jornalistas do pior tipo. Parecem que querem apenas encontrar algum escândalo para noticiarem. – Shun suspirou triste - Sabe, houve uma época em que eu quis ser jornalista. Tive muitas dúvidas, porque, se por um lado, eu desejava fazer algo para mudar o mundo... por outro lado, essa carreira já não me parecia tão bonita. E aí, muita gente começou a me dizer que era melhor eu fazer o curso de Administração na faculdade, para um dia, talvez, cuidar do império que nossos pais nos deixaram... - riu um pouco nervoso - Eu tremo só de pensar nisso. Não fui feito para viver uma vida tão cheia de burocracias, mas a cidade inteira espera algo assim de nós e não quero decepcionar... Enfim, é por isso que acabei entrando na faculdade já mais velho. Era para eu já estar formado a essa altura...
– Shun, você não precisa falar como se devesse algo a alguém. - Ikki finalmente depositava os envelopes sobre o aparador, depois de passar o olhos pelas cartas - Eu já cansei de te dizer que você não precisa se preocupar tanto com o que pensam de você.
– Não é que eu me preocupe. Mas as pessoas esperam que façamos algo, irmão. Esperam uma posição de nós! Não acha que a mamãe e o papai gostariam que agíssemos assim? Não acha que...
A conversa entre os dois irmãos foi interrompida quando o mordomo adentrou a sala, com sua expressão serena de sempre:
– Chamou-me, senhor Ikki?
– Sim. Faça aquela sua mágica e suma com um hematoma que deixei no braço desse jornalista intrometido. - apontou para Hyoga com descaso – Senhor Yukida, esse é o meu mordomo, Shiryu Suiyama. Ele é o tal milagreiro, como você mencionou. – dito isso, começou a caminhar em direção à longa escadaria - Estou com uma dor de cabeça terrível. Eu vou me deitar e não quero ser incomodado, está bem? - quando alcançou os primeiro degraus, olhou para trás uma última vez - Ah, sim. E não deixe o Shun ficar tagarelando perto desse loiro. – falou para Shiryu e subiu apressadamente, desaparecendo logo da visão dos três que permaneciam onde estavam.
Hyoga olhou Ikki subindo as escadas e se perguntou se ele era realmente tão intragável ou apenas se esforçava para isso. Sem esperar que o Amamiya mais velho sumisse de vista, o loiro olhou para o empregado e sorriu de forma contida. - Muito prazer, eu me chamo Hyoga. Não queria te incomodar, mas o seu chefe pensa que você pode cuidar disso aqui. - o loiro estendeu o braço machucado para o outro homem e logo voltou sua atenção para Shun. - Se você realmente sonha em ser jornalista, deveria seguir esse sonho. Não pense no que os outros esperam de você, apenas no que você realmente quer ser. - aconselhou.
Shiryu analisou rapidamente o braço de Hyoga e balançou a cabeça. - Seu irmão precisa aprender a se controlar. - disse, dirigindo-se a Shun - Um dia, ele vai acabar se metendo em algum problema de verdade. - voltou a olhar para o loiro, com um sorriso gentil - Por favor, acompanhe-me para que eu possa cuidar disso. - fez um gesto para que o outro o seguisse até uma outra sala.
Shun, que por enquanto apenas observava, resolveu seguir os dois - Acha mesmo que eu deveria? Quero dizer... eu já estou com 23 anos agora. Não seria meio tarde para mudar o rumo que eu tomei? Além disso... ser jornalista... justo em Skyville... Eu não sei, o jornalismo me parece tão deturpado atualmente... - o mais novo desatava a falar porque, como era de seu feitio, confiava nas pessoas até demais, ingenuamente. E, nesse caso, o que o levava a agir assim era uma necessidade absurda de se abrir, de falar. Era como se, nos últimos dias, buscasse com quem desabafar. Nunca tivera amigos de fato, sempre vivera em uma gaiola de ouro, mantida pelo irmão, que não deixava que qualquer pessoa se aproximasse dele. Além disso, Ikki costumava estar certo. A maioria das pessoas que se aproximavam eram interesseiras. Por isso, o jovem de alma tão receptiva teve de permanecer confinado. Contudo, com a notícia de que os assassinos de seus pais estavam soltos, Shun sentiu, como nunca, vontade de conversar com alguém.
Ikki, a pessoa que poderia compreendê-lo, parecia ainda mais fechado diante disso. E Shiryu não era exatamente a pessoa com quem se sentia mais à vontade para conversar. O mordomo era justo e bom ouvinte, mas muito discreto e evitava opinar demais. O jovem de longos cabelos negros parecia preferir que a pessoa encontrasse seu próprio caminho e, por vezes, falava de forma enigmática. Isso era o que Ikki provavelmente mais gostava em Shiryu, mas era o que deixava o caçula ainda mais necessitado de alguma amizade. Ele não queria alguém que respeitasse seu espaço, ele queria um amigo, alguém que lhe fosse sincero, independente do que dissesse. E que se intrometesse, se achasse necessário. Talvez por desespero, tinha visto alguém assim na figura do jornalista. Por esse motivo, não hesitava em falar. Shiryu compreendia tudo isso muito bem. Entretanto, sempre seguia as ordens que Ikki lhe passava. Ou melhor, seguia-as a seu modo:
– Senhor Shun, seu irmão disse que não deveria tagarelar na frente do convidado. - o mordomo começou a falar enquanto abria uma caixa que possuía alguns medicamentos. Sentado diante do loiro, começou a massagear o hematoma, mas com um semblante tranquilo, como quem dizia que, se Shun continuasse a falar, não haveria nada que pudesse realmente fazer.
– Se é a sua vontade, Shun, você deveria tentar. Mas não devo enganá-lo, exercer o jornalismo em Skyville é bem complicado. Hoje em dia, os profissionais daqui estão divididos em dois grupos: aqueles que são vergonhosamente subornados e os que continuam honrados, mas não têm ganho algum e ainda há muita insegurança. - Hyoga foi bastante sincero.
– E você, imagino, faz parte do segundo grupo. - Shiryu comentou com a voz em tom indiferente, mas, ao mesmo tempo, parecendo interessado na resposta do loiro. Enquanto isso, começava a espalhar uma pasta sobre o braço de Hyoga, que não provinha de nenhum frasco industrial. Pelo visto, era algum remédio caseiro.
– Tenho a mesma impressão que o Shiryu. Como disse, você me parece muito sincero e diferente dos jornalistas que já tive a oportunidade de conhecer. Então, diga-me... se é esse o caso, e você é honesto e tem boas intenções... por que queria uma entrevista comigo e com meu irmão?
Súbito, como se essa informação revelasse algo, Shiryu levantou os olhos verdes escuros para Hyoga: - Espere um minuto... Seu sobrenome é Yukida? - o mordomo parou de passar a pasta no braço do loiro, deixando entrever em seu rosto uma expressão não tão amigável - Por acaso, não é você o tal jornalista que fez a última matéria de capa da revista Fama? - inquiriu Shiryu. O mordomo era discreto, não costumava se intrometer na vida dos seus patrões, mas havia criado um laço de amizade com eles, a seu modo. E, embora seus gestos comedidos fossem sua marca, sabia demonstrar bem quando se via insatisfeito com algo. Talvez, não mostrasse por meio de palavras grosseiras ou atitudes desagradáveis, mas sabia defender aqueles a quem queria bem.
– Eu escrevi aquela matéria, sim. Mas já não trabalho na revista Fama, saí de lá justamente por não mais suportar as matérias sensacionalistas que me forçavam a escrever. Hoje, posso dizer que realmente faço parte do segundo grupo de jornalistas que citei. Trabalho num jornal pequeno, mas sou cercado de pessoas tão idealistas quanto eu. - o loiro se explicou, fazendo questão de olhar profundamente nos olhos de Shiryu, para que o moreno comprovasse sua sinceridade.
Shiryu encarou seriamente os olhos de Hyoga. E, após se assegurar do que parecia buscar, voltou ao seu semblante tranquilo e recomeçou a passar o medicamento. Nisso, Shun, que tinha os olhos brilhantes, como se estivesse animado diante do que ouvia, voltou a falar:
– Quer dizer que você está escrevendo sobre o que acredita, mesmo que isso contrarie pessoas importantes em Skyville? E não tem medo? Não fica preocupado de virem atrás de você? E quanto ao salário, não se preocupa com o fato de trabalhar num lugar pequeno? Porque a revista Fama é renomada, imagino que pagasse bem... E por que queria uma entrevista comigo? O que queria me perguntar?
– Senhor Shun, não se esqueça do que seu irmão disse sobre tagarelar na frente do convidado... - Shiryu novamente chamou-lhe a atenção, mas, uma vez mais, sem parecer realmente repreendê-lo.
Hyoga riu da empolgação do jovem Amamiya. Um pouco sem graça por receber tanta atenção, o loiro pôs-se a responder as perguntas de Shun. - É claro que tenho medo, assim como todos os meus colegas de trabalho também têm. Mas sinto necessidade de seguir meus ideais, o que faz com que tanto o medo quanto o salário sejam menos importantes. Quanto à entrevista... - o jornalista ficou sem graça, pois temia entristecer Shun, que se mostrava tão animado. - Seu irmão já respondeu por você, não há necessidade de entrarmos nesse assunto.
– Ah... - Shun mostrou-se frustrado, porque subitamente sentiu que poderia fazer algo. Começava a acreditar que, quem sabe, poderia enfim fazer alguma diferença. Não tinha seguido seu sonho de ser jornalista, mas agora poderia ajudar um desses profissionais que um dia tanto admirara, mas que julgara não mais existir. - Olha... é Hyoga, não é mesmo? Posso chamá-lo assim? - perguntou com um sorriso - Entendo que meu irmão já tenha respondido por mim; aliás, ele é especialista em fazer isso... Mas, acredite-me. Se eu o conheço bem, duvido muito que ele tenha falado a verdade. - sorriu triste - Nem se quisesse, meu irmão conseguiria. Ele está muito perdido e confuso; duvido que reconheceria a verdade, mesmo que batesse de cara com ela... Então, se não for pedir muito... Você poderia ignorar a entrevista que ele lhe deu? Literalmente, jogá-la fora? - percebeu que Hyoga ficou incomodado com esse pedido - Em troca, eu lhe dou uma entrevista sincera. Deixo-lhe, inclusive, perguntar-me o que quiser. - notou que o loiro ainda titubeava - Pode me perguntar sobre Ikki também, se for do seu interesse.
Shiryu olhou de soslaio para Shun. Não disse nada, mas sua expressão corporal demonstrou certa curiosidade. O Amamiya mais jovem não tinha o costume de se abrir consigo. Desde a notícia de que os assassinos do casal Amamiya foram soltos, Shiryu imaginara que o caçula talvez quisesse conversar, mas o jovem nunca veio procurá-lo e o mordomo sabia respeitar o espaço de seus patrões. Mas permanecera atento, esperando ver se os irmão precisariam de si.
Hyoga se sentiu tentado com a proposta. Era tudo o que ele queria, mas havia grande possibilidade de enfrentar um problema sério com Ikki, caso expusesse Shun dessa forma. - Claro que pode me chamar de Hyoga, Shun. - o loiro deixou de lado a formalidade. - Eu realmente adoraria entrevistá-lo, mas não sei como o seu irmão reagiria a isso e a última coisa que o Skyville Post precisa é de problemas com Ikki Amamiya.
– Ah, meu irmão ameaçou o seu jornal? - Shun comentou com enfado, como se essa atitude do mais velho não o surpreendesse - Escute, Hyoga... você não precisa se preocupar com o Ikki, está bem? Eu prometo que você pode fazer essa entrevista e que nada de mal acontecerá com o Skyville Post. - o próprio caçula se surpreendia com suas palavras. Não estava acostumado a enfrentar o irmão, mas a forma como Hyoga se posicionava frente ao mundo lhe inspirou confiança e coragem. De fato, era o que o jovem Amamiya buscava já há algum tempo. Ele queria um amigo, alguém que lhe passasse esse desejo de quebrar barreiras, de deixar sua gaiola de ouro, de enfrentar o mundo. Muito bem; como ele poderia enfrentar o mundo se nem o fazia com o próprio irmão? Por isso ele decidiu que era hora de se autoafirmar perante Ikki. Shiryu notou que alguma mudança ocorria dentro do caçula, mas nada disse. Até porque, de certa forma, parecia aprovar aquela atitude.
– Se é assim, eu aceito a sua proposta, Shun. - Hyoga não poderia estar mais satisfeito; perderia a entrevista de Ikki com essa barganha, mas talvez as palavras de Shun servissem até melhor para seu propósito. - Entretanto, eu espero não criar alguma situação desagradável entre você e seu irmão. Vocês me pareceram bastante unidos, na verdade.
– Nós somos. E justamente por isso, pode ficar tranquilo. Seria preciso muito mais que uma entrevista sincera para abalar o que temos. - Shun olhou para Shiryu e percebeu que o mordomo parecia se demorar um pouco mais no que fazia. Compreendeu que ele poderia estar um pouco curioso e não viu qualquer problema nisso. Sentou-se em uma posição confortável em uma grande poltrona, cruzando as pernas sobre o assento - Estou pronto! Pode disparar as perguntas. - o mais novo falava animado.
Hyoga sorriu e novamente lançou mão de seu gravador, achando engraçado como Shun não despertava qualquer nervosismo nele, como Ikki fazia. - Está bem. Você se lembra da morte de seus pais? Lembra-se da reação que você e seu irmão tiveram nos dias que se seguiram à tragédia?
Shun tomou um ar pensativo e coçou o queixo. Shiryu ergueu os olhos verdes discretamente, para observar as feições do Amamiya mais novo - Eu me lembro... mais ou menos. - suspirou - Eu tinha cinco anos. Mas me lembro de algumas coisas. Era véspera de Natal... eu me lembro de estar em casa, brincando com Ikki o dia inteiro. - sorriu com a lembrança - Meus pais eram muito ocupados e nem sempre podiam ficar conosco todo o tempo que gostariam. E o Ikki sempre me fazia companhia, para que eu nunca me sentisse só. Mas, nesse dia, os nossos pais chegaram e, em vez de irem descansar, disseram que nos levariam para passear. Fomos a uma loja de brinquedos que tinha ficado aberta só para a gente. E, lá dentro, eu e Ikki corremos pelos corredores, procurando por um presente de Natal. Foi muito bom, um dos momentos de que me recordo com mais carinho... Só que, depois, veio aquela tragédia... - os olhos esmeralda ficaram úmidos, mas Shun não parecia se incomodar com isso - Essa parte eu não consigo lembrar direito. Eu acho que estava correndo para o carro, no estacionamento, ansioso para chegar logo em casa... O Ikki vinha atrás de mim; ele sempre foi muito protetor, desde aquela época. E aí... eu me lembro de vozes desconhecidas... eu me lembro de tiros... eu me lembro do susto, do medo... eu me lembro de não entender... - enquanto falava, Shun mantinha um olhar perdido no nada. Silenciou por uns breves instantes e então piscou os olhos e sorriu - Desculpa, acho que não estou fazendo muito sentido, não é?
Shun limpou as lágrimas que começavam a se formar.
– Sobre como ficamos nos dias seguintes... Foi tudo muito corrido. Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mal compreendia que nunca mais veríamos nossos pais... e, no meio disso tudo, houve uma briga sobre quem teria nossa guarda, como ficaria o império que meus pais deixavam, essas coisas. Tudo isso eu só fui entender direito muito tempo depois. Mas o Ikki... é engraçado, mas ele parecia entender tudo. Ele só tinha dez anos, mas, na minha cabeça, quando me lembro dele naquela época, eu consigo enxergá-lo exatamente como ele é hoje, sabe? As mesmas feições duras, preocupadas, que observam e analisam tudo. Ele não saía de perto de mim; Ikki sabia que eu estava apavorado e me confortava, mesmo que apenas com sua presença próxima. Eu chorava, ele me consolava. Eu perguntava onde estavam os nossos pais e... - nesse instante, Shun precisou se calar um momento, por parecer se emocionar um pouco mais - Desculpe; eu sempre penso que vou conseguir falar dessas coisas sem me comover assim, mas... - riu de leve, em meio às lágrimas que rolavam na face pálida - É que quando eu perguntava dos nossos pais, o Ikki sempre me olhava daquele modo que só ele consegue e aí... meu irmão me dizia que o papai e a mamãe precisaram ir embora, mas que o haviam deixado para tomar conta de mim. Eu sei que não há nada de mais nessas palavras, mas é que a forma como ele disse, a voz dele, os olhos dele... Eu nunca me senti tão perdido e tão seguro em toda minha vida. Será que estou me fazendo entender, Hyoga?
– Sim, você está. Compreendo perfeitamente o que quer dizer, Shun. - a forma como aquele jovem falava trazia ao loiro uma sensação muito familiar; Hyoga conhecia muito bem aquela dor, a emoção provocada pela lembrança, a sensação de estar completamente perdido... - Continue, por favor. Depois que seus pais faleceram, você e seu irmão passaram por vários tutores, certo? Como foi isso?
– Ah, sim. Nossa, essa parte foi... divertida. - o comentário de Shun foi tão inusitado que até mesmo chamou a atenção de Shiryu, que levantou o rosto, com o cenho franzido - Recebemos alguns tutores, que variavam entre pessoas indicadas por amigos, empresários, professores de escola... enfim, as recomendações vinham de todos os cantos, como você pode imaginar. Entretanto, nenhum deles durava muito. O Ikki sempre encontrava uma forma de afugentá-los em menos de uma semana. - Shun riu, divertido - Era quase um desafio para ele. Teve uma vez que ele olhou para mim, quando o tutor entrou aqui na mansão, e cochichou no meu ouvido que faria o coitado desistir de nós em menos de um dia. Foi o recorde dele. - o caçula falava em meio a risadas com essas lembranças, como se, dessa parte, não lhe houvesse ficado qualquer trauma - O Ikki não machucava ninguém, mas sabia se fazer... como posso dizer... insuportável. Era o objetivo dele. E eu me divertia ajudando-o, apesar de não ter nada contra nenhuma daquelas pessoas. Mas o meu irmão era mais importante; então se ele me dizia para fazer isso ou aquilo, eu fazia, mesmo sem entender que, muitas vezes, estava criando verdadeiras armadilhas travessas para expulsar nossos tutores daqui.
Hyoga riu; não tinha qualquer dúvida de que Ikki realmente sabia se fazer insuportável. Ocorreu-lhe, inclusive, que o moreno poderia continuar usando dessa mesma tática, quando se via acuado por alguma situação ou, digamos, um repórter arrogante. - Você acha que superou a tragédia de uma forma melhor do que seu irmão?
– Acho que sim. Mas também, poderia ser diferente? O Ikki já tinha dez anos e desde aquela época, meu irmão já era muito maduro. Ele entendeu bem tudo o que aconteceu e fez o possível para que eu não fosse atingido por todas aquelas coisas. Eu pude continuar sendo criança, na medida do possível... o meu irmão, não. Na verdade, às vezes, eu me pergunto se alguma vez o Ikki foi criança. Como nossos pais ficavam muito tempo fora de casa, o Ikki tomou para ele essa coisa de cuidar de mim. Não acho que nossos pais pedissem isso dele; ele simplesmente era assim. Protetor, carinhoso, gentil... - Shun falava e, como sempre, parecia não perceber o quanto essas palavras que utilizava para caracterizar o mais velho causava estranhamento nas outras pessoas.
– A impressão que tenho é de que estamos falando de duas pessoas distintas, Shun. Seu irmão sempre se mostrou de uma forma nada gentil ou carinhosa, fez exatamente o contrário. Diga-me uma coisa: a má fama de Ikki já lhe rendeu algum problema? Ou ele te protegeu disso também? - para o loiro, era realmente difícil de acreditar na bondade do Amamiya mais velho.
– Se me rendeu algum problema? Não... não que eu tenha notado. - o caçula fez um ar pensativo – Sabe, o nome dos nossos pais até hoje pesa muito; nos protege muito... Então, acho difícil que qualquer coisa que o meu irmão faça consiga me atingir, de fato... Eu sei que o Ikki já fez algumas besteiras... - Shun percebeu o ar de descrença tanto de Shiryu quanto de Hyoga - Certo; ele já fez muitas besteiras. Mas é engraçado; quando eu paro pra pensar, chego a acreditar que ele faz de propósito, como se estivesse determinado a destruir o nome que os nossos pais nos deixaram. Quero dizer, não me entenda errado, Hyoga. Tenho certeza de que o Ikki valoriza tudo o que nossos pais fizeram, mas ele não gosta de se sentir pressionado e, desde aquela fatídica noite, todo o mundo parece querer dizer a ele o que fazer, como agir, o quanto o peso do nome Amamiya deve ser considerado...
Embora quisesse se focar no assassinato do casal Amamiya e na opinião de Shun sobre a situação atual da cidade, Hyoga estava tendo dificuldades para avançar no assunto. O perfil que o irmão caçula de Ikki estava traçando do mesmo era tão interessante e pouco crível, que despertou imensamente a curiosidade do jornalista. O moreno era o assunto do momento, com suas brigas, extravagâncias e casos amorosos altamente condenáveis; o loiro se viu, portanto, desejoso de perguntar mais, descobrir mais sobre a personalidade do homem que o havia chantageado para que fosse até ali. No entanto, Hyoga considerou que seria pouco ético descobrir os segredos de Ikki assim, sem que fosse o próprio Amamiya a confessá-los; não gostaria que alguém descortinasse sua alma dessa forma, então não o faria com os outros. - Shun, você se lembra do julgamento dos assassinos dos seus pais? Depois de serem condenados a vinte e sete anos, esperava que saíssem em liberdade em tão pouco tempo?
– Eu acho um absurdo. Eu não entendo como puderam permitir isso, mas essa cidade está tão suja que... - o mais jovem soltou um profundo suspiro - Eu ainda não consegui assimilar isso muito bem. Eu só sei que dói. E... - Shun parecia encontrar dificuldades para se expressar. Nesse instante, Shiryu finalizou a massagem que fazia no braço de Hyoga e se levantou - Terminei por aqui, senhor Shun. Precisa de mim para mais alguma coisa? - Shun continuava com um olhar um pouco perdido, então o mordomo foi mais enfático - Talvez, deseje que eu dê ordens para os criados prepararem, mais tarde, um jantar para três pessoas, considerando que nosso convidado ficará ainda um bom tempo aqui, devido à entrevista...? - Shiryu sabia ser sugestivo.
– Ah! - Shun pareceu despertar de pensamentos interiores - Claro! Sim; avise os criados de que teremos um convidado para o jantar. - lançou um amigável sorriso para Hyoga.
– Não sei se é uma boa ideia, não quero incomodar e trazer um clima ruim. - Hyoga imaginou que Ikki não gostaria nada de jantar em sua companhia.
–Não é incômodo nenhum. Desse modo, você não vai precisar correr com a entrevista. - no fundo, Shun queria que o jornalista continuasse ali porque era a primeira vez, em tanto tempo, que conseguia se sentir inspirado a realmente fazer algo de sua vida. Sabia que sempre fora protegido demais e sabia que já passava do momento de tentar ser alguém mais que apenas o filho dos Amamiya, ou que o irmão do problemático primogênito dos Amamiya.
Shun não parecia apenas disposto a ajudar; o jovem Amamiya mal escondia sua empolgação pela possibilidade de lutar contra a podridão de Skyville. Hyoga conhecia bem a sensação de ser útil e rapidamente se reconheceu em Shun, lembrando-se de quando descobriu sua vocação para o jornalismo. Comovido com o desperdício de talento e empenho que ocorreria caso o caçula dos Amamiya seguisse estudando Administração, Hyoga decidiu não apenas ficar para o jantar, mas também guiar seu mais novo amigo para o caminho que, aparentemente, lhe traria mais felicidade e realização. – Está bem, Shun; adoraria ficar para o jantar. - sorriu.
Shun abriu um amplo sorriso. Sabia que aquela tarde prometia ser importante. Não se tratava de uma mera entrevista. Era quase como se, a partir daquele momento, sua vida estivesse prestes a mudar, finalmente.
Continua...
