SURGE UM HERÓI

Acordou sentindo-se bem mais disposto. Realmente, algumas boas horas de sono sempre lhe faziam bem. Espreguiçou-se e olhou no relógio. Logo seria hora de jantar. Normalmente, Ikki jantava em casa. Gostava de manter esse hábito que cultivava com seu irmão desde quando eram muito pequenos, desde quando seus pais ainda eram vivos. Levantou-se da enorme e confortável cama e se dirigiu ao banheiro, a fim de tomar uma ducha. Depois, vestiu-se de sua usual forma elegante, porque já pensava em sair após a refeição. Talvez, fosse para a mais nova boate de Skyville, da qual havia ouvido falar bem...

Sentindo-se mais bem humorado, desceu as escadas e rumou para o salão de jantar. Contudo, ao adentrar o aposento, o discreto sorriso que tinha no rosto, e que costumava oferecer apenas a Shun, desapareceu tão logo viu que o tal jornalista intrometido continuava ali.

– Por que está aqui? Já não devia ter ido embora? - indagou secamente, ainda parado à porta e com uma expressão de poucos-amigos.

– Seu irmão me convidou para o jantar, senhor. - o loiro disse calmamente, como se a razão de estar ali fosse óbvia demais e a pergunta de Ikki totalmente incabível. Por milésimos de segundo, antes de ser inquirido de forma nada amigável, Hyoga pôde vislumbrar um sorriso maravilhoso no rosto do moreno, provavelmente tão raro quanto o Ikki amoroso e carinhoso que Shun citou durante a entrevista. O jornalista lamentou internamente por ter sido a causa da morte de um sorriso tão lindo, além de estar se interpondo num momento entre os dois irmãos, mas não se deixou abalar; após a resposta dada a Ikki, voltou-se para Shun e continuou conversando com o jovem, como se a presença do Amamiya mais velho não fosse em nada ameaçadora.

Ikki não conseguiu responder de imediato, porque simplesmente não esperava por uma resposta tão segura daquele loiro. Era quase como se aquela situação houvesse se invertido e fosse ele, o dono daquela casa, que tivesse de pedir desculpas por haver se intrometido. Afinal, percebia claramente que interrompia uma amigável conversa. Shun parecia falar com um amigo de longa data e o moreno simplesmente não conseguiu compreender como, em apenas uma tarde, tal amizade pudesse ter começado. Observou a forma como o jornalista sorria e demonstrava interesse nas palavras de seu irmão. Normalmente, evitava olhar demais para os jornalistas que o perseguiam, até para que eles nunca conseguissem enxergar tantas coisas que ele escondia em seu denso olhar. Entretanto, agora, foi inevitável. O rapaz loiro sorria para Shun, demonstrando aprovação nas palavras que ouvia dele e, naqueles olhos azuis tão claros, Ikki via um brilho, algo tão bonito e atraente que logo se notou preso a eles. Talvez permanecesse assim por tempo indeterminado, mas despertou quando ouviu uma frase exageradamente animada de Shun:

– Sério, Hyoga? Você acha que me aceitariam para trabalhar no Skyville Post, mesmo eu ainda não tendo diploma de jornalista?

– Claro que sim! - o loiro confirmou. - O mais importante no nosso jornal é a disposição para trabalhar e a crença de que podemos mudar Skyville, o que você tem de sobra, pelo que vejo.

– Espera um pouco! - agora Ikki adiantava-se rápido, quase de forma ameaçadora, até onde o jornalista loiro estava sentado - Do que vocês estão falando? Como assim, trabalhar no Skyville Post? Você, Shun? Por que quer trabalhar? Você tem dinheiro de sobra e... - sacudiu a cabeça, nervoso - Além disso, você não deveria estar focado numa carreira mais administrativa, mais de acordo com o curso da sua faculdade?

– Irmão, depois eu te deixo inteirado a respeito de tudo... mas, por enquanto, basta você saber que eu estou feliz, porque finalmente encontrei minha vocação! Aliás, minha vocação, um amigo e um lugar onde poderei me realizar como pessoa! - o caçula gesticulava animado, sorridente, ignorando a reação de Ikki.

O Amamiya mais velho, no mesmo instante, lançou um olhar aterrador para Hyoga, perguntando, sem necessidade de palavras, qual era a relação do loiro com tudo isso.

Hyoga compreendeu imediatamente a pergunta silenciosa de Ikki e, ao contrário do que qualquer pessoa gozando de plena sanidade mental faria, não se intimidou. O loiro retribuiu ao olhar ameaçador do outro e desfez o sorriso que mantinha até então. - Apenas ofereci um emprego a Shun, já que vi um grande potencial nele. Estou apenas o ajudando a buscar a própria realização profissional. - explicou-se para o imponente e elegante moreno.

Ikki arqueou uma sobrancelha. Esse jornalista não tinha noção do perigo? O moreno raramente precisava de algo mais que esse seu olhar, que intimidava facilmente. Contudo, o loiro parecia-lhe cada vez mais distinto das pessoas que costumavam rodeá-lo.

Encarou firmemente aqueles olhos azuis claros e frios como uma geleira. Curvou-se na direção de Hyoga, em uma atitude ainda mais altiva: - Quem te deu a liberdade de falar essas coisas para o meu irmão? - cada palavra foi pronunciada de forma pausada, mas carregada de ameaças.

Hyoga engoliu em seco, mas não desviou o olhar. - Shun é maior de idade, senhor. - mais uma vez, ele se pronunciou calmamente, como se a pergunta de Ikki, novamente, não tivesse cabimento.

Não saberia dizer se eram as palavras ou o tom de voz indiferente que aquele loiro usava. Mas sentia-se atingido pelas atitudes desse jornalista e isso o deixou furioso: - Saia daqui. Você não é bem-vindo a essa casa.

– Irmão, chega. - Shun levantou-se de sua cadeira e viu como Ikki lhe dirigiu aquele olhar que significava que conversariam depois - Não. - respondeu ao aviso mudo do mais velho - Dessa vez, vamos resolver as coisas aqui e agora. - o mais novo esboçou uma expressão como o moreno nunca vira até então - O Hyoga vai ficar para jantar. Eu o convidei. Ele é meu amigo. E se você insistir em colocá-lo para fora, eu vou junto com ele.

Ikki estreitou os olhos na direção de Shun - Vai junto com ele? Para onde?

– Não interessa, irmão. Eu estou cansado de viver e sentir que não faço nada de realmente útil com a minha vida. Eu sempre quis mais e agora eu sei que posso mais. O Hyoga está me ajudando a me descobrir, a encontrar meu caminho. Sei que você julga que esse sempre foi o seu papel, mas eu preciso dizer que você falhou nisso, Ikki. - sabia muito bem que essas palavras eram duras. Porém, era preciso mostrar ao mais velho que as coisas estavam mudando. E o primogênito só perceberia isso se sofresse um impacto desse tipo.

O golpe foi sofrido por Ikki exatamente como Shun previra. Mas o moreno não demonstrou. Por um instante, pensou em sair daquela sala e ir atrás de algo que fizesse aquela súbita dor desaparecer, mas foi mais forte. Algo que lhe dizia que precisava ficar e enfrentar o que estivesse acontecendo ali. Sentou-se à mesa, em silêncio. Tamborilou os dedos na superfície de madeira e, depois de alguns segundos reflexivo, voltou a falar, com os olhos fixos na própria mão: - Acha mesmo que meu irmão deve se tornar um jornalista como você, senhor Yukida?

– Sim, eu acho. Seu irmão sonha em ser jornalista, tem boas ideias e realmente leva jeito para essa carreira. Não vejo razão para que ele não tente fazer o que sempre quis. - Hyoga foi sincero e firme, encarando o rosto tenso de Ikki durante todo o tempo. - Olha, não tenho a intenção de causar uma situação chata entre vocês, apenas fui honesto com Shun, da mesma forma que estou sendo com o senhor agora. - o loiro manteve os olhos em Ikki.

– Sua honestidade não me interessa. - foi direto e os olhos voltaram a encarar Hyoga - Eu só queria entender como você conseguiu colocar tanta bobagem na cabeça dele em tão pouco tempo. - percebeu que esse comentário foi incômodo para os dois, mas não se abalou - Essa é a verdade. Meu irmão está um pouco perdido agora, porque os malditos assassinos dos nossos pais estão saindo e, da mesma forma que já aconteceu antes, ele procura um rumo, quer se sentir útil à sociedade... da outra vez, disseram que ele seria útil se fizesse faculdade de Administração, para um dia ocupar o lugar que era dele, de direito. E agora vem você com essas ideias... - riu de forma cínica - Mas isso não vai durar. - olhou de relance para o mais novo - Se faz tanta questão disso, Shun... vá em frente. Eu não te impedi quando colocou na cabeça que alguém precisava seguir os passos dos nossos pais. Não vou te impedir agora, apesar de ser ridículo o que quer fazer. Mas quanto a você... - apontou com um dedo para Hyoga - Quando meu irmão desistir disso, por ver que não era o que ele esperava, por se magoar ao notar que não valeu a pena, por se ver frustrado porque as coisas não são como você prometeu a ele... - a voz se fez mais dura - Eu juro que vou acabar com você, loiro.

Hyoga estremeceu ante a ameaça. Ele havia apenas dado um incentivo ao Amamiya caçula, nada que pudesse ser considerado "encher a cabeça de Shun com bobagens". Porém, Ikki parecia realmente disposto a culpá-lo pelo que estava acontecendo e o loiro não podia fazer muita coisa a respeito, já que o moreno não acreditaria nele. - Não tenho medo de você. - o jornalista enfatizou o você, deixando claro que, naquele momento, não respeitava Ikki como alguém mais poderoso que ele, mas como um igual, alguém a quem não temia.

– Se tivesse amor à sua desprezível vida, deveria me temer, sim. - não disse mais nada porque, nesse momento, Shiryu entrava no salão, seguido de criados com os pratos a serem servidos. Ikki voltou seu olhar para o mordomo, sério - Pensei ter dito a você que não deixasse meu irmão ficar tagarelando perto desse jornalista.

– Eu não deixei. Disse claramente para ele não fazer isso. - Shiryu respondeu tranquilamente - Entretanto, senhor... seu irmão já é adulto o bastante para tomar decisões por si só. - finalizou, sem alterar o tom de voz, enquanto direcionava os criados para servirem os três.

Ikki calou-se. Sabia quando estava em desvantagem, como naquele momento. Decidiu então observar e ouvir o que o loiro tinha para dizer ao irmão e, embora se mantivesse quieto, o moreno sabia se fazer presente. Sua pessoa era imponente demais para passar despercebida. No entanto, Shun e o jornalista pareceram ignorá-lo de propósito e Ikki nada mais fez, a não ser ouvir como o assunto entre eles crescia, e o caçula ficava mais e mais animado para fazer parte do tal Skyville Post, desejoso de deixar sua marca, de fazer parte de alguma mudança que o loiro parecia enxergar em um futuro não muito distante. Ouviu também como Shun decidia mudar de curso na faculdade, assim como também tomava a decisão de começar a investir no jornal, uma vez que, segundo Hyoga, o fato de ser de pequeno porte impedia as notícias publicadas terem a visibilidade necessária. Ikki ouvia a tudo aquilo, muitas vezes soltando um riso sarcástico e lançando olhares ácidos para o jornalista, mas não falou mais nada. Se havia uma coisa que o Amamiya mais velho sabia fazer bem era cumprir sua palavra.

Assim, o jantar transcorreu com os mais jovens discutindo propostas e ideias, enquanto Ikki permanecia ali, sem tomar verdadeiramente parte da conversa, mas atento a tudo que era dito. Shiryu também se manteve por lá, observador. Assim, quando finalmente o assunto entre aqueles dois pareceu se esgotar, pelo menos por então, Ikki fez questão de seguir atrás de Shun, que acompanhava Hyoga até a porta. Viu o mais jovem se despedir de seu mais novo e, pelo visto, já considerado melhor amigo - Ikki não compreendia essa facilidade do irmão de se apegar às pessoas - e, quando o loiro deu dois passos fora da residência, pareceu se lembrar de que havia chegado à mansão de carona, tendo deixado seu veículo na faculdade. O moreno então se adiantou: - Eu te levo até lá, pra você poder pegar o seu carro. - falou de forma impositiva, já com a chave de um de seus carros na mão.

Sem alternativa, Hyoga aceitou a carona. Em silêncio, seguiu Ikki até seu carro e se acomodou no banco do passageiro. O loiro estava satisfeito e não escondeu isso; o ingresso de Shun no Skyville Post seria de enorme ajuda ao jornal, não via a hora de conversar com Seiya sobre as novidades. Durante o trajeto, Hyoga olhou por várias vezes para Ikki, de relance. Era incrível como o homem conseguia ser lindo e antipático na mesma proporção, chegava a ser decepcionante, até. - Sua casa é linda. - puxou assunto, incomodado com a expressão carrancuda do moreno.

– É. - respondeu cortante - Decoração feita pelos meus pais. Nunca me interessei em mudar. - ficou quieto alguns instantes e depois completou, sem saber por quê - As poucas mudanças são feitas pelo Shun. - estranhou o próprio comentário feito. Era como se algo dentro dele o tivesse impelido a ter uma conversa civilizada com o loiro. Sentiu-se esquisito; parecia que, de tanto ouvir a conversa entre seu irmão e Hyoga, mesmo não participando ativamente dela... por ter ouvido tantas opiniões do jovem jornalista, por ouvi-lo falar com tanta paixão a respeito de tantos assuntos... por ter compartilhado de sua companhia, mesmo que indiretamente... era como se Ikki também houvesse se aproximado de Hyoga, apesar de não ter tomado plena consciência disso. Por esse motivo, encontrava alguma dificuldade em ser completamente hostil com o rapaz que, embora não admitisse, já não lhe era mais um total estranho.

– O bom gosto deve ser de família, então. - Hyoga elogiou, mas não sorriu. - Seu mordomo realmente fez um ótimo trabalho. - comentou displicentemente. O loiro pensou em agradecer, mas sabia muito bem que o interesse de Ikki em cuidar de seu ferimento era apenas para livrar a si mesmo de mais uma confusão.

Não respondeu qualquer coisa. Permaneceu quieto e continuaram em silêncio até chegar ao estacionamento da faculdade. Parou o carro e, sem olhar para o loiro, soltou friamente: - Eu vou ficar de olho em você.

– Fala como se eu fosse um criminoso. - Hyoga abriu a porta do carro, mas, antes de sair, acrescentou. - Infelizmente, não posso dizer que foi um imenso prazer conhecê-lo, senhor Amamiya. Mas posso dizer que foi, no mínimo, interessante. Obrigado pela carona e até um dia. - o loiro saiu do veículo e caminhou para seu carro.

ooOoo

Algumas semanas se passaram e a entrada de Shun no Skyville Post foi um marco para o pequeno jornal. Com o investimento do caçula dos Amamiya, as denúncias de Seiya, Hyoga e cia. tomaram certa notoriedade, passando a ser comentadas por toda a cidade. A matéria a respeito de Rikki e Shania Amamiya, inclusive, foi um grande sucesso, servindo para mostrar que a equipe do único jornal realmente comprometido com a cidade de Skyville não estava brincando.

Shun, que realmente possuía um grande talento para o jornalismo, aprendeu rápido o ofício e, ao lado de Hyoga, escreveu ótimas matérias. Contudo, se por um lado tanto alarde foi uma vitória para o agora já não tão pequeno jornal; por outro, os problemas começaram a surgir. As constantes denúncias de corrupção começaram a incomodar os grandes crimonosos, responsáveis por toda a podridão de Skyville e chefes diretos ou indiretos de cada bandido que havia ali.

Como esperado, a primeira coisa que tentaram fazer a respeito do crescimento do Skyville Post foi silenciar seus funcionários. Uma bomba foi colocada no prédio, num horário fora do expediente. O artefato não era tão potente, deveria apenas fazer um pequeno estrago e amedrontar os atrevidos jornalistas. Infelizmente, o plano foi mal executado e, na noite escolhida para a explosão, Shun ainda estava no prédio, envolto com o texto de estreia de sua nova coluna.

A explosão foi no andar de cima, prejudicando a prensa e a estrutura daquele andar. O piso cedeu, soterrando um assustado Shun que, por conta do susto com o barulho, já estava correndo em direção à saída.

A equipe de resgate, chamada às pressas por alguma testemunha do acidente, agiu rápido e bem. Retiraram o jovem Amamiya ainda com vida dos escombros e o levaram a tempo para o hospital. Depois da primeira noite em estado grave, Shun demonstrou uma enorme força de espírito e sobreviveu, conseguindo uma recuperação milagrosa. Entretanto, o estrago já estava feito. A estrutura do Skyville Post estava irremediavelmente comprometida e a maior parte dos funcionários que ali trabalhavam ficou com medo de continuar com as denúncias.

Hyoga, porém, foi afetado de uma forma diferente. Destemido e profundamente arrogante, o loiro resolveu continuar sozinho. Chamou para si a responsabilidade de escancarar a realidade para a população e, como não poderia ser diferente, começaria descobrindo os responsáveis pelo atentado à vida de Shun.

Após conversar com alguns contatos e depois de muitas investigações, descobriu uma pista numa área notoriamente perigosa da cidade, onde havia muitos galpões abandonados. Chamado ali pela denúncia anônima de alguém que já havia lhe dado várias dicas certeiras e queria finalmente encontrá-lo pessoalmente para ceder uma chocante entrevista, o loiro foi até o local na hora marcada, faltando quinze minutos para a meia noite.

Quando chegou ao local combinado, percebeu a besteira que havia feito, mas não poderia desistir; continuou caminhando pelo local deserto, buscando por sua fonte desconhecida. Foi então que ouviu algumas risadas atrás de si e, ao se virar, deparou-se com quatro homens bastante conhecidos por ele. Eram os quatro assassinos do casal Amamiya.

– Não é que ele veio? - um deles gargalhou. - Não sabia que o tal Yukida era tão idiota assim. - provocou.

– Bom, parece que é idiota o suficiente para vir ao encontro da morte, sem pestanejar. - outro concordou, também aos risos.

– Quer dizer que é você a bichinha que insiste tanto que devemos voltar para a cadeia? - o primeiro voltou a dizer. - Você deveria tomar cuidado com o que escreve, seu otário! Tem ideia do que faremos com você, agora que não pode se esconder atrás daquele jornalzinho de merda?

Hyoga olhou para os lados, buscando uma rota de fuga. Infelizmente, os homens o haviam rodeado. Resignado, ele armou uma posição de ataque, com os dois punhos fechados acima de seu rosto e disse: - Façam o seu pior!

Era uma luta injusta, não havia como um jovem magro e sem experiência em brigas apresentar o mínimo que fosse de resistência. O primeiro golpe veio do mais alto dos quatro homens e atingiu o lado esquerdo da cabeça do loiro. Muitos outros golpes se seguiram e, quando viu, Hyoga não conseguiu se manter de pé. Ele caiu, zonzo, e a única coisa que pôde pensar naquele momento era em proteger sua cabeça com os braços.

Mesmo com o loiro caído, os quatro homens impiedosos pareciam ainda interessados em feri-lo o máximo que pudessem, como se, assim, eles pudessem descarregar no jovem jornalista a raiva de terem ficado na prisão por todos aqueles anos. Um deles se aproximou com um sorriso maníaco no rosto e disse, em um tom sádico: - Agora você vai aprender por que não deve se intrometer onde não foi chamado... - o homem preparou-se para desferir um chute contra o rosto de Hyoga, mas, antes que seu sapato pudesse encostar na face do loiro, o bandido foi arremessado longe. Foi muito rápido e os outros três homens apenas viram como um vulto subitamente havia aparecido das sombras, interpondo-se entre o jornalista e o criminoso. E, assim como havia aparecido muito rapidamente, também tinha desaparecido nas sombras de mesmo modo. O local era escuro, pouco iluminado. Era difícil enxergar e o desconhecido parecia saber usar as sombras a seu favor.

– Quem é você? - um dos bandidos gritou, olhando ao redor, sem conseguir detectar onde estava o inimigo. Os outros dois ajudavam o que estava caído a se erguer, enquanto Hyoga permanecia onde estava, provavelmente tão confuso quanto os quatro homens que lhe armaram aquela cilada.

Nenhuma resposta. O silêncio pode ser uma excelente forma de intimidar. E, sem conhecer o agressor, os quatro pareceram um pouco tensos, quando um deles bradou para o nada:

– É tão covarde que precisa ficar se escondendo? Se quer algo, por que não aparece? - falava alto, enquanto os outros engatilhavam suas armas.

– Vai ver, ele foi embora. - um dos que mantinha a arma carregada na direção do nada sugeriu.

– Pode ser. - o homem que havia caído voltava a falar, parecendo contrariado - Ou ele está apenas esperando que fiquemos desatentos para nos atingir de novo. Mas isso não vai acontecer. - fez um gesto para os outros três manterem-se alertas - Escuta bem, cara! Estamos esperando que apareça. E, se estiver com medo de mostrar sua cara enquanto estamos preparados, então o seu amiguinho aqui vai sofrer as consequências. - o homem imaginava que o surgimento do desconhecido que o atacou tinha a ver com o fato de Hyoga estar ali e esperava atraí-lo assim. Por isso abaixou-se e puxou os cabelos loiros com força.

– Solte-o. - de repente, uma voz bastante sombria se fez notar no ambiente. Os três homens rapidamente se viraram na mesma direção e conseguiram distinguir, em meio às sombras, a figura de um homem alto e forte, vestido com botas coturno e sobretudo preto. Usava óculos escuros, embora fosse noite e seus cabelos negros eram revoltos, dando um aspecto selvagem a esse desconhecido. Em ambas as mãos, carregava pistolas automáticas.

– Ah, resolveu aparecer? - o homem puxou com mais força os cabelos loiros, forçando Hyoga a esboçar uma careta de dor - Está preocupado com seu amigo?

O homem apenas olhou para Hyoga, não demonstrando qualquer expressão em seu rosto. Depois voltou a olhar para o homem que infligia dor ao jornalista: - Ele não é meu amigo. Mas é melhor soltá-lo agora. - a voz era fria, seca, cortante.

– Quem é você? - um dos homens perguntou. Não haviam atirado ainda, porque, embora não fossem tão espertos quanto os homens que lhes haviam sugerido plantar uma bomba no Skyville Post, sabiam bem que, antes de eliminar o inimigo, era importante conhecê-lo. E sendo o desconhecido apenas um e eles, quatro, tinham considerável vantagem, o que lhes permitia um breve diálogo.

– Alguém que vai lhes dar muita dor de cabeça se não fizerem o que estou mandando. - o tom autoritário fez com que o homem que puxava os cabelos de Hyoga sorrisse. Como se quisesse provar que não se sentia intimidado, puxou ainda mais fortemente os cabelos, a ponto de arrancar vários fios e um gemido de dor da parte do loiro.

Em seguida, o homem posicionou sua própria arma na cabeça de Hyoga: - Quer nos fazer acreditar que tem algum poder aqui? Até onde podemos ver, você é apenas um. E, mesmo que não diga que esse cara é seu amigo, está nos pedindo que o liberte. Pois bem, pela minha perspectiva, você não está numa posição muito boa. Estamos em maioria e estamos com seu colega em nossas mãos! - riu alto - Então pare de falar como se pudesse mandar em algo aqui. E se não quiser me ver explodindo os miolos dele, jogue suas pistolas no chão. Agora!

O homem começou então a levantar as mãos, lentamente: - Ei! Eu disse para jogar as armas no chão!

– Eu vou jogar. - o desconhecido respondeu com calma. E, então, quando estava com as mãos ao alto, o bandido gritou que largasse as armas de uma vez. O semblante desse homem era tão indiferente e impassível que amedrontava.

A expectativa, tensão e ansiedade eram grandes. Os quatro homens olhavam já impacientes para o desconhecido homem que permanecia sem demonstrar qualquer sentimento no rosto. Foi nesse instante que um leve sorriso começou a despontar naquela face. Um sorriso de canto, com certo ar de desprezo. Os homens franziram o cenho e estreitaram os olhos na direção do homem de sobretudo, mas não puderam mais enxergar nada, pois, nesse momento, o homem que estava com os braços levantados atirava nas poucas lâmpadas que estavam funcionando e iluminavam o local. Ele nem mesmo precisou olhar para ver onde atirava; era como se já houvesse examinado bem o local para saber exatamente onde queria atingir.

A súbita escuridão causou uma confusão de vozes e tiros. Entretanto, alguns sons abafados de golpes e gritos logo se fizeram ouvir enquanto as vozes iam diminuindo. Mais sons de tiros e então o barulho de corpos caindo ao chão.

Hyoga, definitivamente, não pôde acompanhar o que se passava. Isso ocorreu não apenas porque estava escuro, mas também por conta do fato de, tão logo as luzes se apagarem, ele sentir que o homem que o mantinha preso ser alçado para longe de si. Compreendendo o perigo da situação, o jornalista tratou de se afastar de onde os sons de tiros vinham, buscando abrigo. E ali permaneceu até que os barulhos de luta, tiros, gritos pararam. O silêncio que se deu foi tão intenso que Hyoga, provavelmente interessado em saber o que havia ocorrido, buscou seu celular no bolso e acionou o modo lanterna do aparelho.

Direcionando-o para onde imaginava estarem os assassinos do casal Amamiya, encontrou quatro corpos sobre o chão, com tiros certeiros no peito ou na cabeça. O loiro pareceu assustar-se com essa imagem, mas sobressaltou-se ainda mais quando, ao tentar iluminar outras partes do local, em busca do homem de sobretudo, percebeu-o parado ao seu lado. O jornalista conseguia vê-lo parcamente, devido à pouca iluminação fornecida pelo celular, mas era possível enxergar seu rosto impassível, com alguns ferimentos. E o loiro parecia capaz de sentir o duro olhar desse homem sobre si, muito embora ele mantivesse os óculos escuros. A imagem desse homem poderia ser comparada a uma estátua, uma vez que ele permanecia imóvel, mas Hyoga devia sentir que, por trás daquelas lentes escuras, esse desconhecido o examinava. Finalmente, ele falou:

– Não devia estar aqui. - o homem de cabelos negros e ainda mais revoltos limitou-se a dizer.

– Eu quis fazer justiça por um amigo e acabei caindo numa cilada. - disse ele, bastante trêmulo. - Obrigado... - hesitou. - Como devo chamá-lo?

– Não devia tentar fazer justiça com as próprias mãos. É perigoso. - o homem disse, apesar de ser o que aparentemente acabava de fazer - Está muito ferido? - indagou com a voz demonstrando, pela primeira vez, algum acento emotivo, denotando certa preocupação.

– Engraçado você desaconselhar a justiça com as próprias mãos, não acha? - o loiro olhou para os corpos no chão. - E eu estou bem, sinto um pouco de dor, mas nada sério, vou sobreviver. Graças a você! Eu realmente agradeço. - Hyoga sorriu para o desconhecido, espantado com a figura daquele homem.

– Justiça com as próprias mãos deve ser a última opção. O que é meu caso... - a última frase saiu ainda mais baixa, e com um tom um pouco melancólico. O homem deve ter percebido isso, porque logo emendou: - Está bem mesmo? - em sua voz, demonstrava que tinha alguma preocupação em saber se o jornalista conseguiria voltar para casa.

Hyoga estava extremamente curioso, afoito por descobrir mais daquele homem tão misterioso. Entretanto, era um jornalista e não podia negar a matéria de capa que havia diante dele. Ele precisava ficar ali, chamar a polícia, tirar fotos e noticiar o que acabou de viver. - Sim, eu estou bem, não se preocupe. - disse. - Você não me falou seu nome, justiceiro.

Uma vez mais, o misterioso homem não se importou em responder à pergunta do loiro. Parecia querer apenas assegurar-se de que o jornalista estava realmente bem e, constatando que sim, o homem virou-se e começou a caminhar. Porém, como se percebesse os olhos claros de Hyoga sobre si, desejosos de saber algo a seu respeito, o homem parou e virou o rosto para trás: - Skyville já foi uma cidade segura, em que as pessoas não precisavam se sentir obrigadas a fazer justiça com as próprias mãos. Mas as coisas já não são assim. Dizem que essa cidade já foi conhecida por representar um claro e límpido céu azul, mas isso foi há muito tempo. Skyville está tomada pelas trevas. Porém, eu acredito que o período de escuridão já durou demais. - o homem sorriu para o loiro - As pessoas não falam que após a tempestade vem a bonança? Pois bem, Skyville já está com o céu fechado, nublado e pesado há algum tempo. Está mais que na hora de isso virar uma tempestade. E aí, quem sabe... as águas dessa tormenta por que teremos de passar podem vir a lavar a alma e o orgulho de Skyville. - novamente, um tom meio nostálgico, apesar de quase imperceptível - Você ainda me verá de novo. Não pretendo desaparecer enquanto não houver feito justiça a tantos que merecem... - o sorriso tornou-se discreto e algo charmoso, pois agora permanecia apenas no canto dos lábios do moreno - Considere-me o trovão que anuncia a tempestade. Pretendo causar um barulho... ensurdecedor. - dito isso, o homem de sobretudo caminhou para fora do galpão e Hyoga, que havia ficado calado ouvindo a tudo aquilo, pareceu enfim despertar e, compreendendo que o outro estava indo embora, foi atrás, sem saber exatamente o que buscava. Entretanto, quando finalmente alcançou a saída, conseguiu ver apenas como o homem, em uma possante moto, desaparecia de seu horizonte, levantando uma espessa nuvem de poeira que ficava para trás.

ooOoo

– Bom dia, senhor. – Shiryu entrou no quarto, abrindo as cortinas e permitindo que a luz do dia adentrasse o quarto.

– Ah, Shiryu... que droga! Por que você me acorda desse jeito?

– Sinto muito, senhor. – o mordomo respondeu com um sorriso, demonstrando não se afetar pelas palavras de Ikki – Mas já passa das dez da manhã. E Shun está perguntando por você desde que despertou.

Ao ouvir essas palavras, Ikki levantou-se. Estava visivelmente cansado:

– A que horas ele acordou? – indagou enquanto massageava a própria nuca.

– Às oito. E estranhou o fato de o senhor não estar a seu lado, como em todas as manhãs. – Shiryu separava as roupas que Ikki vestiria, colocando-as sobre uma grande poltrona, enquanto falava calmamente.

– É. – Ikki grunhiu em resposta, enquanto pegava uma maçã da bandeja de prata e mordia com vontade. Viu que, ao lado do café da manhã, trazido pelo mordomo, estava um jornal do Skyville Post.

– Eu disse a seu irmão que você estava dormindo em sua cama, pois estava muito cansado da noite passada.

– Sei. – Ikki respondeu enquanto abria o jornal – É de hoje? – inquiriu.

– Sim. Pelo visto, o Skyville Post está de pé, definitivamente. E, com essa matéria de capa, parece-me mais consolidado que nunca. Ao que tudo indica, o investimento que fez para o jornal se reerguer foi de suma importância.

– É. – o moreno foi lacônico uma vez mais, enquanto seus olhos passavam pela manchete da primeira página. Um sorriso se formou em seus lábios.

– Já teve de dar satisfação ao conselho que cuida dos negócios da sua família? – o mordomo voltou a chamar a atenção do Amamiya mais velho.

– Por que eu teria de dar satisfação a alguém? O dinheiro é meu.

– Porque o dinheiro que desembolsou para investir nesse jornal não foi pouco, senhor. – Shiryu respondeu pacientemente, observando como Ikki dava outra generosa mordida na maçã enquanto lia a matéria do jornal – E o conselho cuida das finanças do império Amamiya. Certamente, ficarão intrigados com o motivo que o levou a colocar tanto dinheiro em um jornal que estava praticamente fechado e falido.

– Foi a primeira coisa que Shun me pediu, quando finalmente despertou do coma.

– Eu sei, senhor. Mas terá sido apenas isso?

– O que está querendo dizer, Shiryu? – Ikki finalmente levantou seus olhos de tempestade para o mordomo, encarando-o de forma interrogativa.

– Quanto tempo Shun trabalhou nesse jornal antes do atentado? Uns três, quase quatro meses, correto?

– E daí?

– O senhor acompanhou de perto cada passo do seu irmão, assim como as matérias que eram publicadas no Skyville Post.

Ikki mantinha o olhar duro na direção do mordomo.

– E não se intrometeu no que ele estava fazendo, como era de seu feitio.

– Eu tinha prometido que não me envolveria.

– Sim, mas acho que não foi apenas isso. O senhor gostou do que viu. Gostou de ver o que seu irmão e o amigo estavam fazendo. Acho que sentiu orgulho de ver Shun fazer algo tão significativo como aquelas reportagens audaciosas.

– Sinceramente, Shiryu... não sei de onde tira essas ideias. – respondeu com um tom defensivo.

– Eu não tiro essas ideias de qualquer lugar, senhor. Eu apenas percebo o que acontece ao meu redor. E notei, por exemplo, que suas implicâncias com o senhor Yukida até diminuíram. Quero dizer, diminuíram no que diz respeito ao fato de ele ter levado seu irmão para o Skyville Post. Porque, no tocante a outros assuntos, fico impressionado em ver como o senhor parece sempre encontrar algo para provocar o jornalista...

– Como o Shun sempre diz, temos temperamentos muito distintos. Apenas isso. – Ikki bufou e encheu uma xícara de café para si – Aonde quer chegar com essa conversa, Shiryu?

– Acho que o senhor não apenas investiu nesse jornal por pedido do seu irmão. Acredito que o fez por julgar que seja o certo a se fazer. – o mordomo chinês respondeu com um bonito sorriso.

– Que seja. Não precisa fazer grande estardalhaço a partir disso. – mordeu um pedaço de torrada.

– Fico satisfeito em vê-lo agindo assim, senhor. Essa mudança de atitude, pelo menos, não lhe causa mal.

– Como assim?

– Ajudar um pequeno jornal que apenas quer noticiar a verdade em Skyville é o tipo de coisa que pode ajudá-lo a vencer os pesadelos e o passado sombrio que tanto o acometem, senhor. Essa é uma forma de fazer a diferença. Contudo...

– Contudo o quê, Shiryu? – Ikki perguntou, já demonstrando seu característico mau-humor.

– Contudo, acordar-me às três horas da manhã, para me fazer cuidar de seus recém-adquiridos hematomas não é o tipo de mudança que pode fazer bem a mim, ao senhor ou a Skyville.

–Você queria que eu fizesse o quê? Que dormisse com esses hematomas? Você mesmo diz que, se demorar para tratá-los, não consegue dar um jeito de sumir com eles. Se eu não te acordasse, Shun me veria todo roxo hoje e eu não queria preocupar meu irmão. – Ikki, já de pé, bebeu um grande gole de seu café.

– Concordo que não devemos preocupar seu irmão. Até porque, se ele soubesse o que levou a ganhar tantos ferimentos... – o mordomo falou, em tom sugestivo.

– Foi uma briga em um bar. Já te disse isso, Shiryu. – o moreno respondeu, cortante.

– Interessante, senhor. Ainda mais interessante é saber que, na mesma noite em que o senhor se envolveu nessa "briga de bar", os assassinos dos seus pais foram mortos por um justiceiro desconhecido, que resolveu fazer justiça com as próprias mãos. – finalizou o chinês, apontando para a manchete do jornal que Ikki tinha em mãos.

Ikki largou o Skyville Post, cruzou os braços e olhou na direção de Shiryu, sério.

Era fácil compreender que o mordomo não havia tido grandes dificuldades para juntar as peças.

– Não conte para o Shun. – foi só o que Ikki disse, ainda sério.

– Não pretendo contar, senhor. Disse a ele que seu cansaço era decorrente de mais uma festa privada que deu ontem.

Ikki sorriu de leve com esse comentário.

– E como ele reagiu?

– Ele sorriu um pouco triste e disse que estava até demorando para o senhor voltar a agir assim. Faz uma semana que ele voltou para casa e, assim como ocorria no período em que ele esteve no hospital, o senhor não saía de perto dele. Shun acostumou-se a vê-lo dormindo na cama ao lado e acho que gostava de acordar e encontrá-lo sempre ali.

– Ele ficou chateado?

– Sim... mas é compreensível, senhor. Afinal, nesse último mês, esteve com seu irmão todo o tempo... ontem foi a primeira vez que não ficou no quarto dele, velando seu sono.

– Como você já percebeu, tive coisas importantes a fazer. – Ikki deixou sua cama e começou a caminhar em direção ao banheiro, disposto a tomar uma ducha.

– O senhor poderia ter morrido. – Shiryu foi categórico nessa afirmação.

O moreno parou a meio caminho do banheiro. Virou-se e olhou para trás, com um sorriso:

– Mas não morri. – viu como Shiryu lhe lançou um olhar altamente reprovador – Ora, não me olhe assim. Você sabe que eu não sou um fraco qualquer. Sei me defender bem.

– O senhor sabe dar socos e golpes a esmo. Típicos de uma briga de bar, de fato. – repreendeu-o o mordomo – O jornal diz que pretende continuar com esse negócio de ser um justiceiro da cidade. É verdade?

– Sim. Meu irmão quase morreu, Shiryu. E quase o assassinaram por ele estar fazendo algo tão... – suspirou – ...útil de sua vida. Não é um paradoxo? – riu de leve, de si mesmo - Por que uma pessoa que faz algo de bom de sua vida quase morre enquanto eu, que levo uma vida tão vazia, permaneço vivo? Não, isso está errado. Eu quero que Shun continue o que faz. Nunca o vi tão feliz. E, se para que ele possa continuar com isso em segurança, eu tiver de me sacrificar... menos mal. Ele é mais útil vivo do que eu.

– Não diga uma coisa dessas, senhor...

– Eu não me importo, de verdade. – Ikki deu de ombros e pegou uma toalha, que jogou sobre o ombro – No final, talvez eu até consiga ter uma existência menos vazia. Você mesmo é quem me diz isso. Claro que nunca fala com todas as palavras, mas sempre me dá a entender que estou desperdiçando minha vida.

– E sua forma de não mais desperdiçá-la é buscando a própria morte? Senhor, se continuar a ir para as ruas de Skyville atrás de criminosos com seus parcos conhecimentos de luta corporal, não irá durar muito. O senhor treina diversos tipos de luta, mas aprende apenas o que lhe apraz. Sabe bater, porque tem essa absurda necessidade de descarregar a sua fúria. Mas não sabe se defender. Nunca se preocupou em desenvolver bem essa habilidade...

– Então você me ensina. – Ikki virou-se bruscamente para o mordomo – Você sabe muito de artes marciais. Sabe boas técnicas de defesa. Então, pode me ensinar.

– Não. – Shiryu cruzou os braços.

– "Não"? Está se negando a me ajudar?

– Estou. Você quer que eu lhe ensine artes marciais pelo motivo errado. E isso eu não posso fazer, senhor.

– Não é pelo motivo errado, Shiryu.

– Sim, é. O senhor deseja apenas sair por aí, fazendo justiça com as próprias mãos. Matou os assassinos de seus pais porque não conseguiu ser bem resolvido o bastante para lidar com a situação como...

– Como o quê, Shiryu? Como uma pessoa adulta? Como uma pessoa madura? Como uma pessoa que acredita na justiça dessa cidade? Como uma pessoa que acredita que o melhor é aguardar que a justiça seja feita da forma correta?

O mordomo se calou.

– Eu e você sabemos bem que em Skyville a justiça está corrompida! E eu me cansei de simplesmente repetir isso, como se estivesse convencendo a mim mesmo de que isso é algo que temos de aceitar e pronto! O Shun começou a fazer a diferença, e eu vi como isso trouxe vida a ele! Eu vi que, talvez... quem sabe... ainda possa ser possível... para mim... – Ikki não conseguiu terminar o que estava para dizer.

– E a melhor forma de tentar fazer algo é matando todos esses criminosos, senhor?

Ikki permaneceu em silêncio.

– Se sair assassinando todos esses bandidos, não será melhor que eles.

– Bom, então talvez alguém tenha de se afundar junto com essa escória para salvarmos essa cidade. – o tom de voz foi sombrio e os olhos de Ikki se perderam nesse instante.

Shiryu pareceu ficar um pouco tenso. Ikki, percebendo a reação do seu mordomo, silenciou alguns segundos, mas depois voltou a falar:

– De qualquer modo, se serve de consolo a você, eu não estava planejando matar ninguém ontem. Há alguns dias eu venho seguindo e investigando esses caras. Aí descobri que eles estavam diretamente envolvidos com o atentado que quase matou o Shun... isso já tinha sido demais. Eu fui atrás deles ontem à noite porque queria ver medo nos olhos deles. Eu queria... queria que eles sofressem, sim. Queria me vingar, queria que eles se arrependessem amargamente por terem matado meus pais, por quase terem feito o mesmo com meu irmão... queria ouvi-los implorar pelas suas vidas miseráveis, queria enxergar desespero em seus rostos... Mas não havia deliberadamente pensado em matá-los. – Ikki falou, de sua usual forma convincente. Mentia tão bem que, se quisesse, seria capaz de enganar a si mesmo.

Shiryu compreendeu que Ikki estava em uma situação complicada e, pela primeira vez em tanto tempo, o Amamiya mais velho se abria dessa forma. Entendendo que seria sua única chance de ajudar seu patrão, resolveu não fechar essa brecha. Por isso, decidiu que deveria aceder a seu pedido:

– Está bem. Eu vou ajudá-lo, senhor.

Ikki, sorriu satisfeito, mas logo encarou o mordomo:

– E o que vai querer em troca? – o moreno pareceu ler os pensamentos de Shiryu, que sorriu.

– Bem, quero duas coisas em troca. – percebendo que o outro iria reclamar, apressou-se em dizer – Duas coisas em troca, porque são duas as que está me pedindo, senhor.

– Duas? – Ikki franziu o cenho.

– Sim. Está me pedindo para ensinar-lhe as artes marciais que domino muito bem, modéstia à parte... e imagino que também esteja me pedindo para permanecer em silêncio em relação a tudo isso, não contando nada a respeito para seu irmão e para a sociedade de maneira geral.

Ikki bufou. Shiryu estava certo.

– Muito bem. E o que quer em troca?

– Em primeiro lugar, que tente não matar ninguém. Prometa-me que apenas o fará quando não houver saída. Eu lhe ensino a lutar mais para se defender; não tanto para atacar. E, em segundo lugar... quero que ocupe o lugar que é seu no império Amamiya, senhor. De certa forma, já começou a fazer isso, demonstrando interesse em auxiliar o Skyville Post a se recuperar. Pode fazer muito mais por muitos outros, senhor. É o que seus pais faziam. É o que pode e deve fazer.

– E é só isso que quer de mim?

Shiryu acenou com a cabeça, positivamente.

– Feito. – o Amamiya mais velho respondeu, tranquilamente – Eu já estava pensando em fazer isso, de qualquer jeito... Estou cansado de ficar dando satisfação àquele conselho sobre o que faço ou deixo de fazer com a grana que me pertence. – riu debochado – E quanto a me defender mais que atacar... prometo tentar. Mas não depende só de mim... depende deles... e da situação. Ontem eu não tive muita alternativa. O jornalista intrometido estava lá.

– Eu sei, senhor. Li a matéria que o senhor Yukida escreveu.

– É um pato, mesmo. Como pôde ser tão ingênuo a ponto de cair numa armadilha como aquela? Acho que aquele loiro consegue ser mais ingênuo que o Shun. A diferença é que ele é arrogante e isso leva a uma combinação perigosa.

– Ele ficou muito grato por ter sido salvo pelo senhor.

– Ele deveria era ter ficado mais preocupado. Quase morreu ontem e acho que não se deu conta disso ainda. – Ikki bufou, realmente parecendo nervoso com esse pensamento.

Shiryu percebeu e sorriu discreto:

– O senhor deve ter se preocupado quando o viu nesse tal galpão abandonado.

– Eu fiquei furioso, isso sim. Percebi na hora que ele iria me atrapalhar.

– Não fale assim, senhor. Apesar da intensa e constante troca de farpas toda vez que se encontram, sei que aprendeu a apreciar a presença do senhor Hyoga.

– Do que está falando? Eu não aprecio nada que venha desse cara! Além disso, eu...

– Estou apenas dizendo que o senhor passou a não vê-lo mais como uma ameaça ao seu irmão. – interrompeu Shiryu - No final, é graças a ele que Shun está finalmente se encontrando.

– Ele não é uma ameaça ao meu irmão? Shun quase morreu por culpa dele. Esse jornalista é um encrenqueiro.

– Nós dois sabemos que não é bem assim. – Shiryu notava o tom defensivo de Ikki em relação ao jornalista – O senhor mesmo acabou de dizer que a culpa do que aconteceu com Shun está na forma como essa cidade trata seus criminosos e até estava valorizando o que seu irmão faz, na tentativa de combater e mudar essa história. E o senhor Yukida foi o responsável por ele entrar nesse meio. Aliás, esse "jornalista encrenqueiro" é quem já está nessa luta há mais tempo. Da mesma forma que aprendeu a admirar o que seu irmão está fazendo, não deveria demonstrar o mesmo sentimento pelo talentoso jornalista do Skyville Post?

– O único jornalista talentoso de lá é o meu irmão! – Ikki, parecendo acuado e agindo como sempre fazia ao se ver nessa posição, voltou a seguir caminho para o banheiro, a passadas nervosas, e batendo a porta logo após entrar ali.

Shiryu abriu um sorriso com esse comportamento e então dirigiu-se à bancada, onde havia depositado a bandeja com o café. Ao lado, estava o jornal que trouxera para Ikki. Pegou-o e leu, em voz alta, a manchete da matéria de Hyoga, que estampava a primeira página:

"Thunder – o trovão que antecede a tempestade". – o mordomo sorriu – Thunder. – repetiu – É um bom nome para um herói. E essa cidade realmente está precisando de um... – balançou a cabeça, reflexivo.

Em seguida, deixou o jornal onde estava, pegou a bandeja e deixou o aposento.

Continua...