INEXPLICÁVEL E INEVITÁVEL

Já passavam das três horas da tarde e Hyoga ainda não havia almoçado; sequer tinha feito um lanche rápido até o momento, ou seja, estava se sustentando apenas com a torrada e o copo de suco de laranja que deixou pela metade, logo nas primeiras horas daquele dia particularmente quente.

Ele não havia parado desde o momento em que se despediu de Thunder. Acompanhou toda a movimentação da polícia até onde pôde, pôs-se a escrever a matéria bombástica logo que chegou ao seu apartamento e fez um esforço descomunal, junto a Seiya, para conseguir que uma edição especial do Skyville Post, com todos os detalhes possíveis, saísse logo cedo. Todo o esforço valeu a pena, já que o pequeno jornal obteve o furo da notícia e bateu seu recorde de vendas.

Após sua missão cumprida, Hyoga teve de passar na delegacia para prestar um depoimento oficial, já que, na noite anterior, devido à adrenalina, não pôde conversar propriamente com o comissário de polícia, Aiolia Kartavas. Depois, deu alguma atenção a alguns jornalistas, ávidos por detalhes do ocorrido. Ser salvo por um justiceiro desconhecido, vítima de uma tentativa de homicídio e testemunha de quatro assassinatos fez do jornalista loiro o segundo homem mais procurado do dia.

Obviamente, o primeiro da lista era o próprio Thunder.

Depois de fazer tudo isso, ele constatou que ainda eram três horas da tarde. Tudo bem que ainda não teve tempo de comer, beber ou nem mesmo de ir ao banheiro, mas ainda haveria tempo para tudo isso. Entretanto, havia uma última tarefa em sua lista: visitar seu amigo e companheiro de trabalho, Shun Amamiya. Aproximou-se muito do rapaz nos últimos tempos e, como acontece com grandes amigos, queria ver como o jovem Amamiya estava, além de ansiar colocá-lo a par das novidades.

Quando chegou, após ser atendido por Shiryu e já a caminho do quarto de Shun, Hyoga deu de cara com Ikki Amamiya, sentado em sua sala. Ele meio que já esperava por isso, mas era sempre uma surpresa encontrar o mais velho dos Amamiya. O loiro nunca sabia quando seria provocado, insultado, ignorado ou simplesmente cumprimentado pacificamente pelo moreno. Em alguns momentos, Ikki sabia disfarçar bem seu desconforto com a presença do jornalista; em outros, simplesmente escancarava seu desagrado sem qualquer pudor. - Oi, boa tarde. - Hyoga o cumprimentou de forma comedida. - Como está?

Ikki estava assinando alguns papéis, compenetrado em sua tarefa, com aspecto bastante sério. Aquilo seria um grande passo que estava dando. Em algumas horas, iria ter uma reunião com o Conselho que cuidava do império Amamiya e daria a eles a notícia mais inesperada que poderia haver: tinha decidido, finalmente, que cuidaria dos negócios herdados pela sua família. Não seria mais apenas o Ikki Amamiya arruaceiro, passaria a se responsabilizar por muitas das questões que envolvessem o nome de sua família. Não poderia, obviamente, cuidar de literalmente tudo, mas desejava ter participação mais ativa diante de tudo o que o Conselho fizesse ou deixasse de fazer. Porém, Ikki sabia muito bem como suas intenções seriam vistas. Achariam que esse seria apenas mais um capricho do primogênito. Possivelmente, uma atitude rebelde de quem não quer mais se submeter a ordens alheias. Certamente, ele seria criticado por todos. Tentariam fazer com que mudasse de ideia, alegando que o mais saudável para os negócios seria de ele se manter à parte, como sempre tinha sido até então. Ikki não se importava com o que pensassem. Na verdade, achava bom que tivessem essa imagem distorcida dele.

Entretanto, realmente não queria mais ter de se submeter a ordens de outras pessoas no que dizia respeito aos negócios de sua família. O ocorrido com Shun tinha lhe feito pensar e repensar muitas coisas em sua vida. E já tinha traçado todo um plano sobre algumas coisas que julgava que teria de fazer daqui para a frente. Porém, era segredo. Ou melhor, a única pessoa que começava a ficar a par de tudo era Shiryu. O herdeiro do império sabia que precisaria da ajuda do mordomo e podia confiar nele. Mas apenas o mordomo saberia e apenas ele.

Estava terminando de organizar alguns papéis importantes, enquanto esperava que Shiryu lhe trouxesse outros documentos. Por isso, surpreendeu-se quando viu Hyoga parado à entrada da sua sala. Imediatamente, talvez por reflexo, logo que viu o loiro ali, dirigiu seus olhos escuros para o jornal do Skyville Post, que estava sobre sua mesa, com a manchete sobre Thunder estampada ali. - Olá. - respondeu com os olhos sobre a matéria escrita por Hyoga - Senhor Yukida. - abriu um ligeiro e discreto sorriso, ainda fitando o jornal - Pelo visto, teve uma noite agitada ontem.

Hyoga também direcionou seu olhar para o jornal e não evitou um sorriso. - É. Sabe aquele lance "Eu rio na cara do perigo"? Não funcionou muito bem pra mim... Se não fosse o Thunder, eu não estaria aqui agora. - o loiro adquiriu um ar pensativo por alguns momentos e, por um instante, chegou a suspirar. - Bom, pelo menos agora nossa cidade tem alguma esperança, não é? - sorriu.

– É, eu acho que sim. - acabou se mostrando um tanto pensativo ao responder. E, percebendo isso, tratou de logo se recompor. Levantou-se de trás da grande mesa de madeira e ajeitou a gravata com uma mão. Estava já vestido para a reunião, impecável em sua aparência de homem mais rico e cobiçado de Skyville. Caminhou até a frente de sua mesa, apoiando-se nela enquanto cruzava os braços sobre o peito e encarava Hyoga com alguma seriedade - Mas, independente do que esse cara vá fazer, você deveria ser um pouco mais cuidadoso, não acha? Viu muito bem o que aconteceu com meu irmão, senhor Yukida. Não gostaria de ver o mesmo lhe acontecendo.

Hyoga engoliu em seco quando Ikki se levantou e ajeitou a elegante roupa, que tanto lhe caía bem. Ele era um homem muito bonito, o loiro já havia percebido. Era facilmente compreensível o porquê de o moreno ser um homem tão cobiçado; se não fosse tão intragável, o próprio jornalista se sentiria profundamente tentado a chamá-lo para sair. Porém, Ikki era intragável e beleza alguma suavizaria a péssima impressão que passava a todos.

– Não pensei que viveria para ver você preocupado com minha integridade física! - sorriu, realmente surpreso. - Eu sei o que estou fazendo, senhor Amamiya. Minha profissão exige que eu corra alguns riscos, mas não tenho medo de fazer o meu trabalho.

– Eu me preocupo com a integridade do meu jornal. - revidou rápido - Não parou para pensar que as coisas que faz no Skyville Post acabam envolvendo o nome Amamiya? Afinal, agora eu estou bancando vocês e tudo o que fizerem nesse jornal vai ser rapidamente ligado ao meu nome. Então, é melhor começar a tomar mais cuidado com o que faz, senhor Yukida. A começar por esse justiceiro que você chamou de Thunder. Seria melhor que se afastasse dele. Se o cara pretende fazer justiça com as próprias mãos, como você mesmo escreveu, seguir seus passos para descobrir mais sobre ele não será lá muito seguro. Pelo contrário; será sinônimo de problemas e eu não quero o "meu" jornal envolvido com problemas. - enquanto falava, ia se aproximando de Hyoga, a ponto de, quando terminou o que dizia, encontrar-se tão perto do loiro que sua posição era, ao mesmo tempo, ameaçadora e sedutora.

O loiro incomodou-se de imediato com a proximidade do Amamiya; engoliu em seco novamente, colocou as mãos nos bolsos, mas continuou a encará-lo. A postura do homem o deixou desconcertado por alguns segundos, confuso e quase ameaçado pela densidade daqueles olhos de tempestade. Ikki era tão sensual quanto forte, seu poder de magnetismo parecia aflorar mais a cada dia, a cada momento em que, coincidentemente, esbarravam-se por aí.

Contudo, o loiro nunca foi um bom cumpridor de ordens. Ouvir o que deveria fazer, mesmo de uma boca tão tentadora, nunca lhe foi agradável. Ainda menos se tal ordem contrariava completamente tudo o que ele desejava. Dando um passo para trás, Hyoga sorriu sarcasticamente. - Thunder não é perigoso, ele salvou minha vida ontem à noite. Ele é a única esperança dessa cidade e pretendo lhe dar todo e qualquer apoio que estiver ao meu alcance. - revelou, impondo-se diante do novo dono do Skyville Post. - Olha, eu realmente agradeço por tudo o que você vem fazendo pelo jornal, embora saiba que o fez apenas porque Shun lhe pediu isso. Mesmo assim, agradeço pelos equipamentos, pela sede, pelo dinheiro que investiu e por todo o apoio que nos deu. Mas quero que fique bem claro que não sou bom em receber ordens desse tipo, senhor Amamiya. Escrevo sobre o que quero; meu editor, o Seiya, sabe muito bem disso. Então, se realmente não quer ter seu jornal associado a um homem com coragem suficiente para limpar essa cidade, é melhor me demitir agora.

Num primeiro momento, Ikki abriu sensivelmente mais os olhos, em um gesto de incredulidade. Em seguida, franziu o cenho: - Você está me desafiando, Yukida? - colocou ambas as mãos no quadril, numa atitude ainda mais ofensiva, enquanto inclinava ligeiramente o corpo mais para a frente, provocativo - Ninguém me desafia. E há um motivo para isso, sabia? Comigo, não se blefa. Comigo, não se joga. Se vai me desafiar, saiba que eu vou até o fim. - encarava Hyoga num duelo visual, e reconhecia que estava um pouco surpreso. Normalmente, ninguém conseguia encará-lo por tanto tempo. Sempre vencia rápido seus oponentes, ao lançar seus olhares densos e nebulosos - Esse cara não precisa da sua ajuda. Não estou pedindo muito. Só estou falando para se afastar dele, porque isso pode te trazer problemas. Digo, problemas para o meu jornal. E nem eu nem você precisamos disso.

– Sabe, durante o dia todo eu tive que lidar com pessoas que veem o Thunder da mesma forma que você. - o loiro não sabia se foi pela experiência traumática ou se pelo fato de ter batizado o justiceiro enigmático, mas falava de seu salvador com uma intimidade tão natural que chegava a se assustar. - Ele não é um "cara que pode trazer problemas" - imitou a voz grave de Ikki. - É apenas alguém tentando ajudar Skyville. Será que sou o único a ver isso? Suas motivações são nobres, isso é o que importa. Ele não vai trazer problemas para o nosso jornal se nós estivermos com boas intenções para a cidade. Eu quero mostrar para as pessoas que o Thunder não deve ser temido pelos bons, entende? - tentou persuadir o outro.

Ikki arqueou uma sobrancelha: - Você mal conhece esse cara. Nem sabe o nome dele. Como pode se preocupar tanto? - sentia algo estranho. Desde que tinham se conhecido, o moreno já sabia, por intermédio do irmão, o quanto Hyoga podia se mostrar apaixonado pela profissão e pelo que fazia, mas o jornalista tendia a ser bem mais frio no que dizia respeito às relações pessoais. Até mesmo com Shun, com quem Ikki percebeu que Hyoga se abria um pouco mais que o normal, o loiro era algo reservado. Mas agora ele se mostrava tão determinado a defender um desconhecido que o primogênito dos Amamiya não soube explicar como se sentia diante disso. O fato é que, independente de ele e Thunder serem a mesma pessoa, o moreno julgava que Thunder não deveria ser receptor de tamanha devoção por parte do loiro. Afinal, Thunder era um desconhecido. Então Hyoga podia ficar assim, tão alvoroçado por qualquer desconhecido? Achou que isso não estava correto - Certo, esse cara parece ter boas intenções. Mas você não o conhece e talvez devesse ouvir ao que todos estão falando... - pensou por um segundo - Aliás, o que as pessoas estão falando dele? - desviou os olhos e, em seguida, deu as costas ao loiro, voltando a caminhar até sua mesa, parando em pé ao lado dela e fingindo interesse em algo ali, para não demonstrar a leve curiosidade que sentiu.

– Bom, a maior parte das pessoas não vê as boas intenções dele. Muitos estão tentando usar a morte dos quatro bandidos para classificá-lo como um mero assassino, não um homem de bem. Outros até acham que ele é um homem corajoso e nobre, mas não acham que ele sozinho será capaz de limpar Skyville. - o loiro explicou, aproximando-se da mesa de Ikki. - Eu o acho impressionante. - emendou. - Quanto às mortes, eu estava lá e posso te garantir que foi inevitável. - Hyoga viu como Ikki parecia entretido com os papéis sobre sua mesa e viu que era a hora de ir. - Desculpe, já entendi que não conseguirei mudar sua opinião a respeito do Thunder.

– Espera um pouco. – o moreno voltou-se rápido, antes que Hyoga se retirasse - Impressionante? É essa a sua visão dele? - falou como se compreendesse algo agora - Ah... - e riu para si mesmo - Entendi. - colocou uma mão no bolso enquanto voltava a se aproximar do loiro, mas, dessa vez, sem a atitude provocativa de antes. Gesticulava com a outra mão, em uma atitude explicativa - Você não está no seu julgamento ideal. Você ficou impressionado com esse cara. Ele salvou sua vida, foi um momento traumático, então você não está conseguindo discernir as coisas umas das outras. Está misturando tudo e só porque ele te salvou, acha que ele é grande coisa. Mas não é bem por aí, Yukida. Como eu disse, você não o conhece. E, se o pensamento geral demonstra não haver grande confiança nele, talvez devesse prestar atenção. Não é uma posição muito racional achar que só você está certo quando todo o mundo pensa diferente, concorda? E, até onde eu sei, você é uma pessoa racional. - silenciou um pouco e continuou, com uma voz mais séria - Aliás, se você mal o conhece, como pode sair afirmando por aí que não era a intenção dele assassinar aqueles quatro caras? Você diz que estava lá e que era inevitável, mas não tem como saber o que se passava na cabeça dele. De todo modo, se ele preferiu agir escondendo a própria identidade, é provável que ele não esteja tão interessado em ser visto como um herói, como você tanto apregoa. É possível que ele seja um assassino frio e que queira apenas alcançar justiça ao seu modo. Então, considerando tudo isso, eu vou dizer mais uma vez. Não quero que você, como jornalista do meu jornal, fique indo atrás de alguém que nem sabe direito quem é ou o que quer. E antes que tente me desafiar novamente, pense a respeito de tudo o que eu falei. Seja mais racional, Yukida.

De certa forma, Ikki tinha razão e Hyoga precisava admitir isso. O loiro não estava sendo totalmente racional, o fato de Thunder ter salvado sua vida o estava influenciando bastante. Porém, havia sentido algo mais no justiceiro aquela noite; Hyoga raramente dava vazão a essas sensações, essas intuições que tinha a respeito de alguém. Contudo, com Thunder, ele não só escutava sua intuição, como agia inteiramente baseado nela.

Para ele, o justiceiro era muito mais do que alguém de bem e o loiro sentiu, imediatamente, que poderia depositar nele toda a esperança que um dia se viu ameaçada. Thunder era tudo de que Skyville precisava, Hyoga acreditava piamente que ele cumpriria sua missão e limparia aquela cidade. Ele era um herói e merecia ser visto como tal. Então, mesmo depois de considerar as observações de Ikki a respeito da possível vontade de Thunder em se manter às sombras, o jornalista sentiu que precisava continuar, de algum modo, próximo daquele justiceiro. Hyoga aguardou tanto tempo por uma pontada de esperança como essa, que precisava ver bem de perto suas preces serem finalmente atendidas.

Sendo assim, ele continuaria a noticiar sobre Thunder. Mesmo que tomasse o cuidado de não revelar, de fato, quem era o herói, ele precisava se sentir parte daquela mudança que, em breve, ocorreria com a cidade que tanto amava e defendia.

Mas Ikki não parecia compreender isso e não adiantaria discutir agora. Então, Hyoga simplesmente encerrou a conversa, dizendo:

– Vou pensar no assunto, senhor Amamiya. Posso ver o Shun agora? - disse, deixando claro que não adiantaria prosseguir com aquela conversa; ele não mudaria de ideia.

Ikki compreendeu que Hyoga não estava muito disposto a acatar sua sugestão. Mesmo o moreno fazendo com que essa sugestão parecesse mais uma ordem, o loiro preferiu manter sua posição de uma forma hábil, de modo que não parecesse que ele estava deliberadamente desafiando o herdeiro do império Amamiya. Realmente, esse jornalista era muito teimoso... diferente de todos que já tinha conhecido. De qualquer modo, entendeu que aquela conversa não os levaria a qualquer lugar. E agora precisava terminar de se organizar para a importante reunião com o Conselho. Assim, voltou para sua mesa e, sentando-se na enorme poltrona de couro, tomou a caneta de ouro em sua mão e recomeçou a assinar os papéis. - Claro, pode ir. Shun deve estar mesmo esperando por você. Desde que leu sua matéria, ele ficou muito agitado. Quem sabe o meu irmão consegue colocar juízo nessa sua cabeça... - falou, mais para si mesmo, enquanto analisava alguns documentos.

A visita de Hyoga fez muito bem a Shun. Conversaram animadamente, o jornalista russo relatou, com riqueza de detalhes, tudo o que ocorreu até o aparecimento de Thunder, assim como toda a ação do mesmo. Claro que, influenciado pelo relato ainda impressionado do loiro, o jovem Amamiya compartilhou de sua simpatia pelo justiceiro misterioso.

Almoçaram juntos e o loiro pôde finalmente colocar algo em seu estômago. Depois de pouco mais de duas horas de visita, Hyoga deixou a mansão Amamiya e foi para sua casa, onde finalmente poderia descansar daquele dia tão atribulado.

ooOoo

A reunião com o Conselho havia sido exatamente como o previsto. Os importantes homens de negócio que cuidavam do império deixado por Rikki e Shania Amamiya não viram com bons olhos a decisão do primogênito. Da forma mais polida que lhes foi possível, tentaram convencê-lo de abandonar essa ideia, a qual chamaram de absurda, inviável, desnecessária e mais uma série de outros adjetivos pejorativos. Entretanto, nada fora capaz de modificar a decisão de Ikki, que se mostrava irredutível. Shiryu estivera presente durante toda a reunião, e tinha sido apresentado ao Conselho como seu secretário, o que, de fato, o mordomo havia se tornado. E, como o braço direito de Ikki, o chinês fizera todas as anotações necessárias a partir daquela reunião que, por sinal, sequer durara muito. Foi só o tempo de o moreno dar o seu recado e deixar claro que ele tinha poder para fazer o que dizia que faria a partir daquele momento. Todas as decisões mais importantes envolvendo a corporação Amamiya teriam de passar por ele. No final, quando saíram, Ikki e Shiryu deixaram todos aqueles importantes executivos atônitos, com sérias dificuldades para aceitar tudo aquilo. Contudo, momentos depois, todos já começavam a dizer que a inesperada atitude do mais velho dos Amamiya era tão somente um capricho do rapaz e que logo ele voltaria a agir como sempre, de sua forma displicente e despreocupada com todas aquelas coisas que nunca lhe despertaram o interesse antes.

Assim, quando finalmente patrão e mordomo estavam voltando para casa, Ikki, pensativo, não dizia uma palavra. Olhava para fora, vendo a paisagem passar, enquanto Shiryu dirigia.

– Por que parece tão preocupado, senhor? Ocorreu tudo conforme esperávamos. - o mordomo indagou, lançando um olhar curioso para a introspecção em que seu patrão se via, pelo retrovisor.

– Aquelas pessoas realmente não me dão muito crédito... - respondeu Ikki, algo melancólico.

– Bem, o senhor não deveria se surpreender. Sabe muito bem que deu a eles todos os motivos para pensarem todas as coisas negativas que se dizem a seu respeito.

– É, eu sei. E isso é bom, de certa forma. – balançou, de leve, a cabeça, como quem tenta se convencer ou ser convincente – Dessa maneira, jamais pensarão em me relacionar ao... "Thunder".

– Vai mesmo usar o nome que o senhor Yukida criou para você?

– Não tenho muita escolha. Ele estampou o nome na capa do jornal; mesmo que eu não goste, o nome já pegou e aí... só me resta aceitar. - bufou, como se estivesse contrariado.

– Do modo como o senhor fala, parece não ter gostado do apelido que ele lhe deu... - os olhos verdes de Shiryu analisavam a figura de Ikki, que agora se via mais inquieto no banco traseiro do luxuoso carro.

– O problema nem é tanto o nome. "Thunder", que seja. Não precisava haver um nome. Não precisava haver nada, porque o Yukida não deveria ter estado lá ontem. Não sei o que ele tem na cabeça. - o moreno falava, mais agitado - O pior é que ele criou uma simpatia irracional pelo "Thunder"... - Ikki dizia como se estivesse falando de outra pessoa - E, teimoso como só ele é, decidiu que seguirá os passos dele, porque quer estar por perto, para ajudá-lo. Ou melhor, para me ajudar. Como se eu precisasse de ajuda! No que ele quer me ajudar? E como? Se brincar, ele acabará correndo outros riscos e eu vou ter que ficar salvando a vida dele... - respirou pesadamente, cruzando os braços sobre o peito, nervoso.

– O senhor teme pela vida dele?...

– Sim. Quero dizer... não. Digo... claro, mas... É que... - Ikki ficou ainda mais agitado, e mexia-se no banco de trás, como se não conseguisse encontrar uma posição confortável - Ele vai me dar trabalho desse jeito. Só isso.

– Então por que o senhor não experimenta ter uma conversa racional com ele, explicando os motivos para ele se afastar? O senhor Yukida sabe ser racional...

Ikki riu alto.

– Acha que já não tentei? Aquele loiro é absurdamente teimoso! Ele não quis me ouvir. Está impressionado demais com o "Thunder"... - bufou e voltou a olhar para a paisagem lá fora.

– Bom, se é assim... - Shiryu abriu um sorriso de leve, discreto – Ele pode não ter dado ouvidos ao senhor... Mas, talvez, o senhor Yukida ouvisse ao "Thunder"...

ooOoo

O calor já estava insuportável quando Hyoga chegou ao seu apartamento. Exausto e com bastante sono, o loiro estava louco para compensar a noite que passou em claro, mas o calor excessivo não o deixava dormir.

Ele tomou um banho gelado, vestiu uma roupa mais confortável e tentou, em vão, ligar o ventilador de teto, quebrado há um mês. Por fim, o loiro resolveu abrir a porta da varanda e se deitar no sofá da sala, onde finalmente pôde relaxar o suficiente para adormecer.

Várias horas se passaram, a noite caiu e, com ela, veio uma torrencial chuva de verão. O ar fresco da noite atingiu seu corpo, arrepiando-o por completo. Um trovão surgiu no céu escuro e, com seu estrondo, acabou por acordá-lo.

Deitado de costas para a porta da varanda, o jornalista se assustou quando o brilho do raio no céu iluminou a sala escura e, ainda sonolento, virou-se para fora. Antes mesmo que seus olhos pudessem captar alguma coisa naquele breu total, sentiu seu coração dar pulos no peito.

– Boa noite. - cumprimentou com uma voz baixa e rouca - Desculpe. Não queria assustá-lo.

Havia chegado há poucos minutos. Bom, talvez, não tão poucos. Era possível que já estivesse ali há uns quinze minutos.

Ikki tinha decidido que falaria com Hyoga novamente, graças à sugestão de Shiryu. De fato, na situação em que o jornalista se via, tão impressionado com o justiceiro que salvara sua vida, somente o próprio "Thunder" poderia mudar sua decisão. Por isso, após regressar à mansão, transformou-se no justiceiro da noite uma vez mais e, acobertado por Shiryu, deixou o local em sua moto, indo para o prédio em que sabia viver o loiro.

Lá chegando, não entrara pela porta do edifício. Como o justiceiro que pretendia fazer justiça com as próprias mãos, necessitava de se manter nas sombras o máximo possível. Por isso, sem grandes dificuldades, escalou o muro do prédio, com auxílio de uma árvore. De lá, alcançou o andar em que vivia jornalista, fazendo uso de suas excelentes habilidades de alpinista escalador. Entrou pela varanda que, felizmente, estava com a porta aberta. Entrou antes de a chuva começar a cair com força. E, vendo o russo adormecido, não soube bem como despertá-lo. Além disso, dormindo daquela forma, Hyoga parecia bem menos irritante. Acabou ficando ali, como estava, à beira da porta, apenas olhando, conhecendo um Hyoga diferente ao que estava acostumado a ver. A expressão serena lhe passava até mesmo uma sensação de tranquilidade. Observava-o detidamente, sem se dar conta de que era isso o que fazia. Só despertou desse momento quando o próprio loiro pareceu acordar, devido ao estrondo de um trovão, em meio à tempestade que caía.

O clarão de um relâmpago serviu para denunciá-lo. E, sem muita escolha, terminou por se revelar, anunciando-se sem saber exatamente como proceder agora, diante daqueles olhos claros que o observavam com tanta curiosidade.

Hyoga se levantou num sobressalto ao notar que tinha companhia. Depois do ocorrido na noite anterior, era natural que estivesse um tanto quanto traumatizado. Estava escuro e, por mais que fosse destemido, não era comum acordar com um estranho parado em sua sala.

Então seu visitante se pronunciou e os olhos do loiro começaram a se acostumar com a escuridão; logo os contornos de Thunder se tornavam nítidos para si.

– Oi. – sorriu. – Está tudo bem, você não me assustou. Quer dizer, assustou sim, mas está tudo bem, eu… Não precisa se desculpar. – estava embaraçado; algo especialmente raro. Hyoga coçou a cabeça e engoliu em seco, tentando manter-se controlado. A presença surpreendente de seu salvador lhe tirava o prumo. Fez uma pausa breve e finalmente perguntou: – O que o traz aqui?

– Precisava falar com você. - não saiu do lugar e estudava as atitudes do loiro. A forma como o jornalista lhe sorriu e o modo como lhe falou eram inteiramente distintos do jeito com que habitualmente era tratado por Hyoga. Mas então Ikki se recordou. Ali, não era Ikki. E, portanto, deveria agir como tal, demonstrando, se possível, alguma indiferença: - Como é mesmo o seu nome?

Bem, ele poderia ser um herói, mas com certeza não lia jornal. Ou, pelo menos, não lia o Skyville Post. A pergunta causou um desconforto no jornalista, certa tristeza por saber-se apenas mais um para o outro. Desde que fora salvo por ele, Thunder havia ocupado uma parcela especial de seus pensamentos e, agora, descobria que o seu salvador sequer sabia seu nome. - Alexei Hyoga Yukida. - respondeu com firmeza. - Eu sou jornalista do Skyville Post. - emendou, como se aquilo fosse de extrema importância. - Mas você pode me chamar de Hyoga. Todo mundo me chama de Hyoga...

– Jornalista? Faz sentido. É por isso que você estava ontem, naquele galpão abandonado? Estava procurando por alguma matéria para publicar no seu jornal? - as palavras vinham em um tom bastante neutro, apesar de parecerem um pouco agressivas. Mas tudo nele denotava muito mais indiferença do que agressividade - Bom, Hyoga... - já que ele pedia para chamá-lo assim, era o que faria - Parece-me que você conseguiu algo sobre o que escrever. Porque eu imagino que tenha aproveitado a ocasião de ontem para servir de base a alguma matéria sua. Estou enganado? - fingiria não ter qualquer conhecimento do que tinha se passado, sobre a matéria no Skyville Post e tudo o que estivesse relacionado a isso. Quanto mais indiferente; melhor.

O que Ikki havia lhe dito mais cedo começou a fazer ainda mais sentido, diante da indiferença de Thunder. Talvez, o homem não estivesse interessado na publicidade que Hyoga queria fazer. - Eu escrevi uma matéria sobre ontem, sim. Precisava noticiar tudo o que houve, queria que as pessoas soubessem que agora a cidade tem um herói. - sua voz soou tão baixa quanto a do justiceiro em sua frente.

– Herói? Quem disse que eu sou um herói? - a pergunta foi um pouco seca.

– Salvou a minha vida ontem, lutou contra bandidos. Você é um herói. - retrucou enfático. - Eu sei que você é um herói. - reiterou e, após pensar um pouco, voltou a falar: - Quer se sentar? Ou quem sabe comer alguma coisa? Nunca recebi alguém como você em minha casa, não sei bem como agir... - sorriu novamente.

– Não quero nada. - respondeu de forma impessoal, enquanto passava o olhar pela sala do apartamento. Não que fosse possível ver muito, já que as luzes estavam apagadas e apenas a claridade que vinha das ruas iluminava aquele apartamento - E eu não sou um herói. Heróis são figuras idealizadas, que tem um nome fantasioso e saem por aí, vestindo alguma fantasia ou máscara. Eu não tenho nada disso. Sou apenas um cara que está querendo dar algumas lições a quem já permaneceu impune por tempo demais. Por isso, vim aqui para te dar um recado. Eu notei que você não ficou tão assustado como deveria com o ocorrido de ontem e isso me fez pensar que você é o tipo de pessoa que gosta de ir atrás de confusão. Bem; vim aqui te pedir para não fazer isso. É perigoso.

– Se essas confusões forem provenientes do meu trabalho, eu as enfrentarei sem pestanejar, Thunder. Não tenho medo de enfrentar o perigo. - disse, enquanto pensava se o outro se importaria se ele acendesse a luz. A curiosidade falava alto e ele queria muito ver o justiceiro sob uma luz decente, com a qual pudesse finalmente identificar detalhes de seu rosto. - Eu vou acender essa luz. – anunciou, já se levantando.

Ikki foi mais rápido e, antes que Hyoga pudesse alcançar o interruptor, o moreno, que vestia seu sobretudo negro, já estava praticamente sobre ele. Havia interceptado o loiro e tinha sua mão por sobre o braço dele, impedindo-o de erguê-lo. - Eu prefiro assim. - estabeleceu com firmeza e posicionou-se em frente ao russo, como uma barreira humana, a fim de impedir que o jornalista saísse do lugar - E por que me chamou de Thunder? - por um lado, fingia desconhecer o nome que Hyoga havia criado para ele. Por outro, tinha certa curiosidade. De onde surgira a inspiração para tê-lo apelidado assim?

– Está bem, se você prefere assim... - o jornalista não se opôs à escuridão imposta pelo outro. - Eu escolhi o nome Thunder, mas fui totalmente inspirado por você. Lembra que ontem, quando perguntei seu nome, você apenas me disse que era o trovão que surge antes da tempestade? Pois então, achei que batizá-lo de Thunder seria perfeito. Você gosta? - Hyoga tinha conhecimento de que não estava agindo como de costume, mas já desistira de agir propriamente quando se tratava de Thunder. Aquele justiceiro estava começando a mexer com ele de uma forma que não compreendia e não fazia tanta questão de entender. Apenas o toque dele em seu braço deixou-o novamente arrepiado, tanto ou mais que o ar frio que o acordou. Aquele justiceiro lhe despertava coisas boas e estava quase cedendo àquelas sensações, sem pensar muito nas consequências desses seus devaneios.

Ikki engoliu em seco. Nunca tinha visto Hyoga daquele jeito... principalmente, nunca ouvira o loiro falar daquele jeito. A voz do jornalista era sempre tão fria e ríspida consigo. Ao menos, quando estava como Ikki Amamiya... Porém, essa era a questão. Ali, não era o herdeiro de um império, era... Thunder. - Eu... gosto. - acabou admitindo enquanto olhava fixamente para o russo. Embora estivesse usando um grande par de óculos escuros, que encobria boa parte de seu rosto, os olhares de ambos se cruzavam de forma intensa, mesmo não se vendo diretamente. - Não pensei que tivesse prestado tanta atenção no que eu disse. - não conseguiu disfarçar um tom mais comovido, nem o breve sorriso que despontou em seu rosto até então frio. Mas então os olhos de Hyoga pareceram fitá-lo ainda mais intensamente e Ikki sentiu que a situação parecia entrar em algum nível mais perigoso, que, se não fosse controlada agora, não teria mais volta. Por isso, desfez o contato entre eles, retirando sua mão do braço do outro - Olha, eu... - virou o rosto na direção da varanda, buscando fugir daqueles olhos claros, que agora pareciam-lhe hipnotizantes - Tem alguma coisa que eu possa fazer para impedi-lo de continuar se envolvendo com problemas?

Hyoga riu com a pergunta. - Você pode acabar com toda a bandidagem e corrupção dessa cidade. - sorriu novamente. - Eu faço questão de ajudar e prometo que vou tentar ter mais cuidado, sim? Não posso prometer muita coisa, pois vou continuar desempenhando meu trabalho e os bandidos dessa cidade não vão muito com a minha cara, mas vou me esforçar para não te dar mais trabalho do que apoio, certo?

Ikki não conseguiu evitar um sorriso. O que Hyoga dizia agora era basicamente o mesmo que tinha dito mais cedo, quando ambos conversaram em seu escritório. Entretanto, a forma como o jornalista lhe falava agora era muito diferente. O tom de voz, o uso das palavras... tudo fazia com que as mesmas coisas ditas há algumas horas parecessem tão mais... interessantes nesse momento - Eu quero tentar limpar essa cidade, mas não pretendo usar de formas muito convencionais para isso, Hyoga. - gostou de chamar o russo por esse nome. Já estava tão instituído entre eles o uso impessoal e distanciado para se tratarem que, algumas vezes, pegou-se invejando Shun, por poder chamar o loiro de Hyoga. Contudo, como Ikki era orgulhoso demais, e considerando que Hyoga nunca lhe dissera para deixar a formalidade de lado, então continuava a chamá-lo de Yukida. Todavia, como Thunder, isso poderia ser diferente - Você mesmo acabou de dizer que não é a pessoa mais querida da escória dessa cidade... Mesmo assim, pretende continuar dando trabalho a eles? - como era possível que, sendo praticamente a mesma conversa de mais cedo, a forma com que se falavam era tão distinta? Toda aquela situação, embora fosse a mesma, era tão completamente outra... Estava já encontrando dificuldades em usar o tom de voz frio e indiferente que havia planejado utilizar...

A postura de Thunder deixou de ser indiferente e isso aumentou a confiança do loiro. - Eu não me importo com o que eles podem fazer comigo! Também quero limpar essa cidade, Thunder. A arma que tenho para fazer isso é o Skyville Post, então... - não concluiu a frase, pois sabia que não era necessarío reiterar mais uma vez que continuaria desempenhando seu trabalho como jornalista. - Acho que você deve estar me achando um chato idealista, não é? - voltou a se sentar no sofá, cruzou as pernas na posição de lótus e sorriu de lado.

Realmente, Hyoga não mudaria de ideia. Nem mesmo como Thunder conseguiria fazê-lo repensar o que dizia. Contudo, não seria capaz de chamá-lo de tolo por ser idealista. Embora fosse esse o pensamento que normalmente tinha de quem agia ou pensava assim, ver o jornalista falando desse jeito consigo fazia tudo parecer mudar de perspectiva. Na realidade, era algo confuso. Não entendia, ao certo, porque tudo parecia tão distinto agora. A única coisa que sabia era que as palavras do loiro, ditas de forma tão apaixonada, mexeram com ele. E, por algum motivo, algo dentro de si achava errado tirar isso do russo - Eu não penso isso de você. Na verdade, você... - fez uma pequena pausa, lançando um olhar analítico para o outro - Você me confunde, Hyoga. - dito isso deu meia-volta e começou a caminhar a passos largos para a varanda, a fim de ir embora.

– Thunder, espera! - gritou. - Você não pode ir assim, eu... - foi impulsivo ao chamar o outro sem pensar numa desculpa para que ele permanecesse ali. No entanto, já o havia chamado e, agora que tinha sua atenção, não sabia muito bem o que dizer. - Por que eu te confundo? - disse a primeira coisa que lhe veio na cabeça.

Ikki parou e olhou para trás ao ouvir Hyoga chamar por ele. E o nome "Thunder" ia se lhe tornando cada vez mais agradável, especialmente pelo modo como Hyoga pronunciava essa palavra para chamá-lo.

Engraçado era notar como esse mesmo nome tinha-lhe soado tão incrivelmente desagradável, quando ouvira o jornalista utilizá-lo para falar de Thunder como uma outra pessoa. Mas agora que o nome era utilizado para falar consigo, tudo era diferente. - Você me deixou em dúvida. Sobre o meu papel... nessa cidade. - disse em um tom claramente melancólico. Uma grande vulnerabilidade podia ser percebida aí e Ikki não desejava se expor mais do que já estava fazendo. Era hora de ir embora. Atravessou rápido a sacada e pulou, num salto ágil, para fora da varanda, desaparecendo em meio à chuva e à noite.

Lá embaixo, montou rápido em sua moto e saiu a toda velocidade de lá. Sua mente estava povoada de pensamentos confusos e perdidos; precisava colocar as ideias em ordem.

O plano inicial seria de simplesmente conseguir vingança. A escória de Skyville iria pagar por tudo. Haviam matado seus pais e quase tiraram também a vida de seu irmão. Esse havia sido o limite.

O primogênito dos Amamiya sempre se mostrou acomodado com a situação de Skyville, dando a entender que era um playboy desinteressado de qualquer coisa que envolvesse aquela cidade.

Porém, Ikki sempre fora uma pessoa angustiada. Sua raiva, seu ódio, sua frustração costumavam ser canalizados para fora por meio de diversos tipos de luta que praticava, todos muito agressivos. Seus passatempos, por assim dizer, sempre envolviam algo de agressivo para poder descarregar tantos sentimentos negativos e destrutivos que guardava dentro de si.

Também treinava em pistas de corrida, pilotando motos e carros em altíssima velocidade, sempre no limite. Apreciava a sensação de desafiar a morte. Além disso, gostava de atirar e treinava sua mira em diferentes armas com frequência. E, quando todas essas habilidades pareceram tornar-se convenientes em um plano de vingança fria, desenfreada e até mesmo desumana, encontrou-se com Hyoga em um momento não planejado.

O loiro, sem saber, impedira-o de concretizar sua vingança conforme o desejado. Matara os assassinos de seus pais, mas tinha sido uma morte quase acidental, quando, na verdade, o que ele tinha planejado era uma morte lenta e extremamente dolorosa para eles.

Com o jornalista por lá, teve de mudar de planos. Por isso, até se machucara mais do que o necessário.

Felizmente, tinha Shiryu para ajudá-lo. As marcas decorrentes de sua vida como Thunder, que agora se intensificaria, não deveriam aparecer. Não enquanto estivesse sob seu disfarce de Ikki Amamiya. Porque essa era a verdade. Sentia-se muito mais verdadeiro consigo mesmo na figura do justiceiro que na pele do rico herdeiro de um império. E agora pensava que seria bom ter o mordomo ajudando-o não só com os negócios, mas também com esse fardo que trouxera para si mesmo. O chinês poderia lhe ensinar muito de artes marciais, das quais não dominava quase nada. Em troca, Shiryu pedira que ele não saísse matando os criminosos aleatoriamente... Ikki prometera concordar com isso, mas, no fundo, não pensava em cumprir sua palavra.

No entanto, agora, depois dessa curta conversa com Hyoga, Ikki começava a repensar sua posição. Que ironia; havia ido até ali para fazer o loiro repensar o que fazia, mas quem agora começava a repensar a situação era ele mesmo. O jornalista tinha falado com uma paixão que nunca vira no russo, embora Shun já tivesse lhe falado a respeito do modo como Hyoga encarava a própria profissão.

Tinha chegado a ficar curioso para conhecer esse lado do loiro... Pelas palavras que ele usava em suas matérias, imaginava como deveria ser, mas nunca tinha presenciado esse modo tão único do jornalista se expressar.

Aquilo o tinha... encantado. E agora se via confuso. Uma parte sua desejava, mesmo que inconscientemente, ser exatamente o que aquele Hyoga idealista pedia para que ele fosse. Mas a outra parte estava sedenta de sangue e vingança.

Como lidar com tudo isso? Não tinha ideia. Mas precisava ir embora. Se ficasse mais um pouco na presença entorpecente de Hyoga, algo poderia acontecer. Não sabia exatamente o quê, mas tinha certeza de que algo viria a acontecer.

Algo inexplicável e inevitável.

E Ikki sempre receava aquilo que não podia explicar ou evitar.

Continua...