O JUSTICEIRO DA NOITE
Após a visita que fez a Hyoga em seu apartamento, Ikki se viu tão confuso diante das palavras do jovem jornalista, que o moreno precisou andar pela cidade, em sua moto, para espairecer. Havia muitos pensamentos para colocar em ordem e sentia que a melhor forma de fazer isso era correndo, à velocidade máxima, pelas ruas da cidade.
Sem saber exatamente como, foi parar perto do cais de Skyville. Gostava de se ver perto da água, era como se isso pudesse acalmar um pouco de seu estado de espírito. Ikki, se tivesse de escolher um elemento que o representasse, seria fogo. Ele era explosivo, temperamental. Sentia-se constantemente como um vulcão em estado de erupção. Por isso, gostava se estar perto da água, especialmente de águas calmas. Isso lhe trazia alguma serenidade. E, naquele momento, era do que mais precisava.
Contudo, Ikki chegou à conclusão de que, mesmo quando não é esse seu interesse, a confusão o encontrava onde estivesse. Estava sentado sobre sua moto, parado próximo a um armazém, oculto pelas sombras da noite, quando ouviu barulhos estranhos vindo de dentro do local que, pelo horário, deveria estar fechado.
A princípio, parecia apenas uma conversa mais inflamada. Entretanto, ouviu o som de tiros; poucos, mas o suficiente para deixar Ikki mais atento ao que se passava. Apurou os ouvidos, aproximou-se do velho armazém e conseguiu escutar uma pesada discussão:
– Porra, cara! Eu já disse que não sei de nada, não é culpa minha! – dizia um homem, sentado e amarrado a uma cadeira.
– É claro que você sabe! Não se faça de desentendido agora! "Ele" não vai gostar nada, e você sabe muito bem disso. Assim como sabe que a pior coisa a fazer é deixar que "Ele" se zangue! Agora, desembucha! Onde tá a grana? – o homem que falava era alto e forte, de aparência rústica e agressiva. Junto dele, e rodeando a cadeira em que estava o homem amarrado, havia mais quatro homens, que pareciam feras prontas para atacar a qualquer momento, a comando do que falava e que parecia ser uma espécie de líder ali.
– Cara, eu tô falando, eu juro, eles nunca me disseram... Eu só conhecia aqueles caras de vista, nunca nem conversei com eles direito e...
– Eu já estou sem paciência! Isso não ficou claro ainda? Quer acabar como seu parceiro? – o homem que parecia ser o chefe daquele bando apontou para um corpo que só agora Ikki, que havia entrado sorrateiramente no local, conseguia enxergar – Nós temos provas de que você não apenas conheceu os caras, como trabalhou com eles no último golpe, antes deles serem mortos por aquele tal de Thunder! Então, anda! Minha paciência já se esgotou! – o homem pressionou o cano de sua arma contra a testa do que estava sentado e amarrado.
– Eu... eu... – o homem estava visivelmente apavorado – Eu trabalhei com eles, mas indiretamente! Só forneci algumas informações e ajudei no planejamento, mas não cheguei a invadir o banco! Essa parte ficou com eles; iríamos repartir o dinheiro depois, mas aí eles foram mortos e... e... Droga, vocês não acham que se eu soubesse onde está a maldita grana, que eu já teria ido atrás dela?
– Não sei... Às vezes, você foi esperto o bastante para aguardar o momento ideal...
– Eu juro que não! Juro que não! Eu juro que...
Antes que o homem pudesse terminar a última frase, o líder do grupo disparou, friamente, um tiro em sua cabeça.
– Chefe! Por que fez isso? – um dos capangas interrogou, olhando incrédulo para o homem que agora estava morto sobre a cadeira.
– Porque ele era um inútil. Deu para perceber que ele realmente não sabia de nada.
– Mas e agora? O que fazemos? Se voltarmos de mãos vazias, "Ele" vai ficar muito nervoso...
– Eu sei, eu sei. – o líder parecia ansioso, enquanto pensava em alguma possível solução.
– Só não entendo por que "Ele" esteja tão nervoso, querendo saber do paradeiro desse dinheiro roubado com tanta ansiedade. "Ele" é rico, não precisa da grana de um banco, roubado por uns bandidos de quinta categoria...
– Ora, não seja tolo. - atalhou o chefe - Acha mesmo que "Ele" está interessado no dinheiro? O que "Ele" quer vai além disso. Acho que aqueles caras, sem querer, roubaram algo importante. E isso deve estar junto da grana. Isso não me espanta, porque há boatos de que "Ele" está querendo...
Nesse momento, o barulho de madeira velha rangendo interrompeu a conversa. Ikki maldisse o passo em falso que acabara de dar, revoltado por não ter conseguido ser mais silencioso. Imediatamente pensou que precisava aprender mesmo algumas coisas com Shiryu. O mordomo era sempre incrivelmente silencioso, sempre conseguindo fazer sua aparição da forma mais discreta e imperceptível possível.
– Tem alguém aqui! Espalhem-se! – o líder gritou e logo os homens seguiram em diferentes rumos.
– Droga. – Ikki resmungou por entre os dentes e se posicionou atrás de algumas caixas grandes e empilhadas. Estava bastante escuro, mas o Amamiya mais velho enxergava as trevas como suas amigas. Tratou de prestar mais atenção aos sons no local e logo conseguiu ouvir alguns passos. Desde criança, quando era um menino rebelde que vivia fugindo de adultos que sempre vinham lhe dar alguma bronca ou castigo, o moreno aprendera a calcular, de forma bastante instintiva, em quanto tempo uma pessoa se aproximaria, a partir do barulho de seus passos. Cada pessoa tinha um andar próprio, uma velocidade sua, e que Ikki aprendera a analisar só de ouvir o caminhar de alguém. Era graças a essa habilidade, a qual foi aperfeiçoando ao longo do tempo, que tinha sido capaz de pregar as mais terríveis peças em criados, governantas e mordomos. E era graças a essa habilidade que conseguiria se dar bem agora.
– Quatro... Cinco... Seis... – Ikki contava em voz baixa, quase inaudível, para si mesmo. E então, certeiro como sempre era, agarrou pelo pescoço o homem que passou a seu lado no instante exato que calculara. Nocauteou-o com um golpe na nuca e deixou o homem desacordado ali mesmo, porque conseguiu ouvir mais passos próximo dali. E assim, desse mesmo modo, conseguiu deixar fora de combate os quatro capangas, restando apenas o líder, que permanecia no centro do local, próximo à cadeira em que ainda se encontrava o homem que acabara de morrer.
– Onde vocês estão? – gritou o líder – O que está havendo?
Certamente, o chefe do bando tinha ouvido os sons de golpes surdos e, não escutando mais nada depois disso, a não ser um silêncio inquietante, o homem começou a se preocupar.
– Quem está aí? – ele perguntou alto.
– Alguém que está interessado no que você tem a dizer.
Ikki tinha aparecido subitamente, por trás do homem. Não o atacou, porque não era de seu interesse deixá-lo inconsciente. Bom, não ainda. Esse homem parecia ter informações importantes. Ele estava falando sobre os assassinos de seus pais e a respeito de um roubo de banco... De fato, Ikki se recordava de ter ouvido algo a respeito, até mesmo lido sobre isso, inclusive no Skyville Post. Mas não tinha sido nada muito digno de atenção, havia parecido ser um caso de roubo como tantos outros que aconteciam com frequência na cidade e, por não ser um banco pertencente a alguma grande corporação, o assalto nem tinha sido muito noticiado. Por sinal, Ikki percebia agora que apenas o jornal de Shun e de Hyoga tinha falado sobre o assunto.
O homem virou-se prontamente ao ouvir a voz rouca do moreno atrás de si:
– Quem é você?
– Alguém que pode lhe dar muito trabalho se não cooperar. Então responda logo: o que há de tão interessante no roubo ocorrido há alguns dias? O que aqueles malditos assassinos tiraram de lá, e que interessa tanto a você?
– Ah. – o homem fez algum esforço para conseguir enxergar a figura envolta nas trevas do armazém – Você é aquele justiceiro? O tal Thunder?
– Ele mesmo. – Ikki respondeu sem hesitar. Já havia abraçado esse nome para valer – E, se você for esperto, vai me dizer logo o que quero saber.
– Eu sou muito esperto. O bastante... – o homem foi rápido e atirou na direção de Ikki. O moreno, entretanto, já previa isso. Era muito ágil e tinha excelentes reflexos, de modo que conseguiu se desviar dos tiros sem grandes dificuldades. Ocultou-se uma vez mais, refugiando-se dos tiros que se intensificavam atrás de grandes lonas que cobriam alguma carga. Atentou para conseguir ouvir com precisão. Sua habilidade era grande, e logo conseguiu escutar os passos do homem, quando os tiros cessaram brevemente. Escalou a lona utilizando a corda que amarrava a carga e, de cima desta, viu o líder do bando exatamente onde seus passos o denunciavam. Ikki saltou sobre ele, imobilizando-o assim:
– Eu disse que seria mais fácil se você me obedecesse de uma vez. Agora, vamos logo com isso. Fale o que eu preciso saber. – disse o moreno, em tom ameaçador, enquanto deixava que o outro sentisse o cano frio de sua arma em seu pescoço.
Contudo, antes que qualquer outra palavra pudesse ser pronunciada, o barulho irritante das sirenes dos carros de polícia invadiam o local. Provavelmente, em virtude dos muitos tiros, a polícia tivesse ido para lá. Se bem que tinha sido muito rápido, e a polícia de Skyville não costumava ser tão prestativa...
– Fala logo! – Ikki se impacientou. Não podia e nem queria ser visto pela polícia. O homem, aprisionado pelo moreno, devia saber disso, por isso blefou:
– Não vou dizer nada! Se quiser, pode me matar! Mas eu não falo nada!
O barulho das sirenes denotava que os carros haviam parado em frente ao armazém. Em segundos, os policiais entrariam no local.
– Merda! – Ikki esbravejou. Engatilhou sua arma, o que fez o homem engolir em seco. Porém, o moreno olhou para o corpo sobre a cadeira e o outro, que devia ser o parceiro dele, caído no chão. Ikki sabia que poderia muito bem matar o homem que segurava à força agora. Poderia matá-lo a sangue frio. Afinal, não era essa sua ideia inicial? Não eram esses os planos?
Mas então recordou-se da promessa feita a Shiryu... E, principalmente, lembrou-se de Hyoga.
Daqueles olhos claros e reluzentes.
E de como o loiro chamou-o de herói.
Heróis não saem matando assim, sem grandes motivos.
E, como se tudo isso pesasse demais sobre si, Ikki terminou por guardar a arma. O homem, como se percebesse esse momento de fraqueza, aproveitou-se de sua força e inverteu a situação. Uma luta ferrenha se travou, em que Ikki, pego de surpresa, teve de se defender muito antes de começar a tentar atacar.
A polícia já tinha entrado no local e, atraída pelo som da briga, correu até onde estavam.
Chegaram a tempo de ver exatamente quando Ikki conseguiu desferir um golpe duro e certeiro no rosto do homem, que caiu desacordado depois disso.
Os policiais, sem saber como reagir, apontaram suas armas para Ikki, que agora se erguia devagar, olhando para o homem caído, mas vivo, a seu lado.
– Quem é você? – perguntou um homem alto, de cabelos castanhos e olhos verdes.
– Não interessa. – respondeu Ikki – Façam o trabalho de vocês. Prendam esse homem. E encontrarão mais quatro caídos por aí.
– Você os matou? – o homem indagou.
Ikki riu de canto, de escárnio – Não. Eu não faço isso.
– Não foi você quem matou aqueles quatro bandidos, outro dia? – perguntou o homem, entendendo que estava frente a frente com o tal Thunder.
– Precisei fazer aquilo. Havia vidas em risco.
– E você, por acaso, é algum tipo de justiceiro? – questionou um outro homem, ruivo e de olhos azuis profundos, que deu um passo à frente e colocou-se ao lado do de cabelos castanhos, o qual parecia ser o comissário.
– Talvez. – limitou-se Ikki a responder.
– Se for o caso... Você seria bem-vindo a essa cidade... – disse o de cabelos castanhos.
– Comissário Kartavas! – indignou-se o ruivo – Justiceiros não são muito melhores que os bandidos dessa cidade! Fazer justiça com as próprias mãos é querer estar acima da lei!
– Eu sei que essa pode não ser a melhor solução, detetive Verseau. Mas, por agora, pode ser a única...
Nisso, um dos policiais que tinha começado a percorrer o lugar em busca dos outros capangas disparou um tiro, provavelmente porque o homem tivesse despertado e reagido à prisão. O som do disparo causou breve reação e distraiu a atenção dos homens presentes muito rapidamente.
Mesmo assim, foi o tempo necessário para que Ikki conseguisse sair de lá, sem que pudessem capturá-lo. Na verdade, sequer conseguiram aproximar-se o bastante dele e, antes que pudessem fazer qualquer coisa, o justiceiro da noite havia desaparecido.
– Você não deveria dar confiança para um tipo desses, comissário. – falou o ruivo, em um tom frio de reprovação.
– Detetive, é melhor que cada um faça o seu trabalho. Isso quer dizer que certos julgamentos cabem apenas a mim fazer. E, de você, espero que continue com sua investigação. Sua fonte é boa, trouxe-nos aqui e acredito que isso nos vá render bons frutos. E agora... - o homem percorreu o ambiente com seus olhos verdes e disse, enérgico: - Prendam esses homens, levem-nos logo à delegacia.! Quero interrogá-los o quanto antes! – gritou o comissário, Aiolia Kartavas, para seus homens. Depois, voltou a olhar para o detetive ruivo, Camus Verseau – Vai querer participar do interrogatório, imagino.
– Claro que sim, senhor. – respondeu Camus, prontamente. Estava naquele caso e pretendia seguir nele até o fim. Já tinha até mesmo comprometido um pouco de sua integridade por conta disso, algo que, há algum tempo, seria impensável em sua conduta impecável. Mas os tempos eram outros... E, no final, se tudo desse certo, valeria a pena.
– Entre em contato com sua fonte o quanto antes. Diga que conseguimos prender os homens. De repente, ele pode se sentir mais à vontade agora para não agir mais nas sombras... – falou Aiolia, já se dirigindo para fora do armazém.
– Eu não creio que isso seja possível, senhor. – respondeu Camus – Minha fonte sabe que hoje nós pegamos apenas peixes pequenos. Enquanto não tivermos "o cabeça" de tudo nas nossas mãos, ele preferirá ficar onde está. Escondido e com sua identidade protegida.
– Admiro isso. Sua atitude para com seu informante é muito digna. Você é leal às suas fontes, detetive Verseau. Mesmo em meio a tanta sujeira, você segue um rígido código de honra.
– E poderia ser diferente, senhor? Se não começarmos a fazer o certo por nós mesmos, como poderemos esperá-lo dos outros...? – finalizou Camus, em tom reflexivo.
Continua...
Este capítulo foi escrito por mim, Lua Prateada, como uma espécie de presente de aniversário para a Mamba Negra. Dia 15 foi aniversário dela, e eu queria até mesmo ter escrito uma fic só para a ocasião, o que acabei não conseguindo realizar. Então, acabamos nos encontrando para conversar, pude felicitá-la, embora sem um presente adequado e surgiu em nossa conversa a possibilidade de ressuscitarmos essa fic, uma das que fazíamos em conjunto. O carinho que temos por ela é grande e a história tem um quê de especial, que sempre nos cativou. Resultado: terminei escrevendo um capítulo novo para essa fic e ela se animou em darmos continuidade à história. Por enquanto, estou postando apenas o que escrevi, mas a continuidade virá. E esse capítulo fica sendo meu presente, mais ou menos, para a Mamba. Feliz aniversário, querida!
Lua Prateada. (16/03/2013)
