Capítulo 1-Kanaye
–É isso que ele chamou de cidade mais próxima? –Edward pensou enquanto olhava a cidade. Havia algumas pequenas casas, muitas sem paredes e sem teto. As poucas pessoas que estavam à vista possuíam bolsas roxas debaixo dos olhos, uma verdadeira situação de pobreza. Talvez fosse melhor nem ter aparecido ali, mas como já se encontrava, não perderia a viagem e passaria um dia para recuperar as energias.
A situação continuava a mesma adentrando pelas casas. Uma delas deveria estar vazia, mas todas em que entrava, alguém praguejava para que saísse. Deciciu-se por ficar entre as casas, um beco. Afinal não podia ficar em nenhuma, ainda era melhor que o deserto.
Recostou na parede e perguntou para si onde se encontrava, e o que faria quando voltasse para sua aparente casa. Percebeu que algumas pessoas se aproximavam, e como quem não queria ser visto ou percebido, abaixou a cabeça. Uma delas parou na sua frente, e sem ver seu rosto continuou a observá-lo. Aproximou seu rosto dele de modo a identificar algum fio de vida naquele corpo.
–O que está fazendo ai, garoto? Está vivo ainda? –Aquela voz lhe pareceu tão incrivelmente conhecida e levantou um pouco o rosto para vê-la, mas antes de chegar ao rosto, observou que usava duas botas negras e uma calça azul escura, por onde caia a ponta de uma sobretudo da mesma cor.
Três pessoas igualmente vestidas estavam de frente para ele, a frente um homem de olhos finos e frios, mais atrás um homem de porte grande, e uma mulher com duas garotas amarradas junto a si..
O homem de olhos finos estalou o dedo e uma grande chama veio em sua direção, ele correu tentando se proteger, muitas pessoas estavam em volta dos dois, novamente as chamas vieram em sua direção.
–Edward? –a mulher pronunciou com alguma dúvida em sua voz. A própria parecia não acreditar no que dizia, pensava ser traída pelos próprios olhos. O grupo parou imediatamente ao ouvi-la pronunciar tal nome, era como se eles próprios se sentissem desacreditados da situação e devessem verificar com os próprios olhos.
Edward ficara chocado ao perceber que alguém o reconhecera, principalmente quando tanto tempo havia passado. Ainda assim, aquelas pessoas não lhe traziam confortáveis recordações. Deveria fugir deles ou aqueles estranhos ignorariam sua presença. Achava difícil, mas seus pensamentos foram interrompidos pelos passos pesados de um daqueles seres do grupo.
O loiro prendeu sua respiração, numa tentativa de fingir a morte, mas o homem estendeu a própria mão ao rosto de Edward, de maneira a segurar sua face e observá-la. Edward foi rápido, segurou a mão do estranho com bastante força e jogou-a para longe de si. Levantou-se e tentou correr, todavia foi impedido pelas chamas que se formaram à sua frente.
Com o repentino ataque, Edward virou-se para o grupo, não obstante, havia sido tão rápido que não puderam perceber os tratos definidos. Desenhou um círculo de transmutação na areia e tocou-o, fazendo uma parede de pedras surgir e possibilitar sua passagem pelas chamas sem se ferir. Correu antes que fosse atacado novamente, saindo do alcance daqueles desconhecidos.
Sabia que desenhar o círculo lhe faria perder tempo, contudo não poderia deixar que tivessem certeza que era ele naquele local. De outro modo, sua aparência mudara bastante, crescera de um modo relativo, alcançando uma estatura média para alguém de sua idade. Seu cabelo já não era o loiro brilhante e sedoso habitual, estava escurecido pela falta de higiene obrigatória da situação, muito menos estava preso na comum trança. Pelo contrário, estava até curto, não passando da altura de seu pescoço. E ainda, sua face já não era tão infantil, seus traços estavam um pouco mais grossos e definidos.
–Coronel, era ele? –a mulher perguntou duvidando de suas palavras.
–Provavelmente só um refugiado com medo e parecido com ele. –o homem falou como se não se importasse, porém ainda olhou mais uma vez para onde o garoto havia corrido. –Concentrem-se na inspeção! –ordenou ao ver que todo o grupo o qual lhe acompanhava estava parado olhando para onde o garoto fugira.
–Ótimo! Estou perdido novamente! –afirmou para si mesmo ao olhar para os lados e apenas encontrar um deserto sem fim. –Talvez eu devesse voltar e procurar informações. Mesmo assim... Eles ainda estariam lá... -olhou a bolsa de pele escura que aquele homem havia lhe dado, estava quase vazia, uma idéia quase absurda passou pela sua cabeça. Comeu tudo que havia dentro da bolsa de pele e a transmutou em um capuz, que colocou sobre sua cabeça, cobrindo sua face. Agora poderia voltar à cidade sem ser reconhecido por aqueles homens.
Caminhou calmamente em direção à cidade, agora as pessoas pareciam começar a sair de suas casas, e todos se juntavam no centro. Uma fila era formada, aproximou-se de uma mulher e perguntou o motivo da fila, e ela respondera que recebiam um pouco de comida. Sem esperar momento algum, colocou-se atrás dela para esperar receber um pouco de alimento.
–Quem são eles? –perguntou Edward apontando para o grupo de roupas azuis.
–Você acostuma! –a garota sorriu para ele e continuou –estão sempre nessas cidades de refugiados, sempre inspecionando. Pelo menos é o que dizem, mas o que querem na verdade é uma boa guerra. –a garota parecia dizer tudo como se estivesse acostumada ao que acabara de falar, possuía sempre um tom alegre na voz e um sorriso no rosto.
–Por que vocês não fazem nada para impedir?
–Hehe... Onde você esteve nesses anos? Você não sabe de nada! Eles são do exército, ninguém pode desafiá-los! A cidade seria destruída e as pessoas massacradas!
–O que não se pode fazer é deixar tudo do jeito que está! Desafie-os, mas de um jeito que não possam começar uma guerra!
–Para uma criança, até que você tem boas idéias!
–QUEM VOCÊ CHAMOU DE INSETO INSIGNIFICATE QUE NÃO SE PODE VER NEM SE ESTIVER NA SUA FRENTE? –ele avançou em direção à garota gritando, fazendo com que a mesma temesse um pouco a atitude do garoto.
–Desculpe, mas eu não disse isso! Eu chamo a todos de criança, não que você seja baixo. –disse ela com um sorriso sem graça estampado no rosto, o que fez com que ele reparasse melhor nela. Os cabelos negro-ondulados, que desciam até o meio das costas, harmonizavam com os olhos igualmente escuros. Parecia ser diferente de todos aqueles que viviam naquela cidade, sorria para todos e parecia feliz, ao mesmo tempo em que os outros sempre se olhavam desconfiados e com medo.
–Afinal... Onde nós estamos? Há dias que eu estou no meio do deserto e não encontro nenhuma cidade sem ser esta.
–Esse é o deserto de Takla Makan (1), mas agora que esta aqui, as próximas cidades já não são tão afastadas. Você só está de passagem, não é? – o sorriso que sempre se fazia presente, sumira do rosto da garota.
–Sim, mas eu ainda vou voltar, acredite! –ele pronunciou ao perceber a tristeza da jovem, contudo não tinha a intenção de voltar.
–É que... Poucas pessoas realmente voltam. Geralmente elas esquecem que já passaram por aqui. E... Sabe... -ela parecia estar prestes a dizer algo, mas apenas olhava com ansiedade para Edward –eu poderia ir com você. É claro, se não incomodar! –completou. –não me incomodo se for perigoso, eu só preciso sair daqui! –terminou pegando o prato de comida, pois já chegara sua vez na fila.
O garoto olhou-a sem saber o que responder, ela não sabia de nada pelo que podiam passar, e não tinha medo. Mesmo assim, ela só se tornaria um peso para ele, mas como dizer isso para ela? E como fazê-lo sem que ela se chateasse? Sem outra escolha, tentou fazê-la desistir.
–Por mim tudo bem, mas... Você nem me conhece... E depois eu poderia ser um grande assassino. Talvez o exército esteja atrás de mim e quem sabe você possa ser morta por eles!
–Hahahaha! Você é engraçado. Sou Tesayuki, Kanaye. Realmente não te conheço, mas posso te conhecer, qual o seu nome? –cansado de tentar fazer a garota desistir, respondeu-a.
-Elric, Edward Elric!
–Pronto! Agora já te conheço! Podemos ir? Aonde você quer ir primeiro? Sei onde fica cada cidade no mapa, é só falar! –dizendo isso a garota segurou-o pela mão e foi puxando para algum lugar que Edward acreditou ser o deserto, pois apenas podia ver uma imensidão de areia.
–Ed-kun? Por que você usa esse capuz? –perguntou Kanaye andando na frente dele, ainda assim tentando ver o rosto do garoto. –Você é um fugitivo? Ou tem o rosto desfigurado? Não! Já sei! Você esconde o rosto porque é tão feio que ninguém se aproxima de você com medo!
Com alguns minutos perto daquela desconhecida falando anormalmente, Edward já havia se cansado de suas incessantes perguntas idiotas. Resolveu por respondê-las, caso talvez, assim ela se calasse. Todavia antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, ela novamente se pronunciou.
–Pode tirá-lo? É que eu me sinto estranha falando com alguém que nem conheço o rosto! –Edward percebendo que já estava longe da cidade e que não havia ninguém que pudesse aparecer por ali, retirou aquilo que lhe cobria a cabeça, como Kanaye havia pedido.
–Estamos andando há algum tempo, mas ainda não disse para onde quer ir! Eu sugiro a Cidade Central, porque de lá podemos ir de trem para qualquer cidade, e perdemos menos tempo! E depois... Só fica a cinco dias andando daqui!
–Tudo bem por mim... –Edward concordou porque, apesar de irritante, Kanaye parecia saber bastante sobre todas as cidades da região, coisa que ele desconhecia completamente.
