Capítulo2 –Pelos olhos de uma criança, a verdade

–Ed-kun? –Ele abriu seus olhos dourados e se deparou com um rosto sorridente próximo ao seu, que se afastou logo em seguida ao perceber que o jovem acordara. –Já estamos perto! Ou você quer ficar ai dormindo?

Passados os primeiros dias, Kanaye parecia perder o entusiasmo que apresentava assim que se conheceram. Agora fazia menos perguntas e falava moderadamente demonstrando ser uma boa companhia. Não obstante, quando se empolgava com algo, passava horas infindáveis falando sobre o assunto, implicando em repetições cansativas.

Como imaginava, a morena conhecia muito bem as cidades, e ela mesma confessou que sabia muito porque estava sempre andando sem rumo pelo país. De qualquer forma, apesar da miséria daquela pequena cidade no deserto onde se encontraram, era para lá que sempre voltava, mesmo que inconscientemente.

Em alguns minutos caminhando, já podiam ver a cidade, e mais alguns, adentravam por ela. Com o sol que iniciava a aparecer no céu, algumas pessoas se arriscavam a sair de suas casas, porém poucas realmente se encontravam na rua.

Por algum estranho motivo, uma casa em especial chamara sua atenção, e por outra mais anormal, Edward parou em frente a esta. Permanecendo parado a olhar cada detalhe da residência. As paredes e as janelas lhe pareciam tão conhecidas, até mesmo o pequeno caminho que levava até a porta, totalmente preenchido por desenhos infantis cultivaram um breve sorriso em sua face. Incrível como não se recordava, mas o ambiente parecia absurdamente familiar.

Uma menininha loira e de olhos extremamente verdes, aparentava cerca de sete ou oito anos, surgiu vinda do jardim de trás da casa. Ela olhou os dois estranhos parados na frente de sua casa, mas parava seu olhar no loiro, como se o reconhecesse. A pequenina realizou alguns gestos com a mão, chamando alguém, o que fez Edward correr dali, deixando Kanaye confusa.

–Ed, por que fugiu dali deste jeito?

–Ainda não posso aparecer. Não agora, precisamos pegar o primeiro trem para Rizenpool! –ele virava a cada esquina correndo, como se conhecesse toda aquela cidade, ainda que não se lembrasse. De solavanco parou, via algumas pessoas saírem de um edifício. –Volte, por aqui não dá. –quando já ia se virando, sentiu algo segurar seu braço, impedindo-o de continuar.

–Se não me contar o que está acontecendo, vou até eles e digo que está aqui! –Kanaye, ao contrário do normal, não sustentava o sorriso alegre. Este fora substituído por uma expressão obstinada. Estava farta de não compreender quem era Edward e o porquê de seu desespero para sair dali.

–Precisamos ir agora. Eu conto quando estivermos no trem! –no segundo seguinte, a morena gritou, chamando a atenção daqueles de quem Edward fugia. O loiro bateu as mãos e tocou as paredes do beco, uma luz azul clara foi vista saindo dali e um muro se ergueu impedindo a passagem. –Você é doida? Acha que estou fazendo isso por que quero? Caso queira mesmo saber, vai ter de esperar! –ambos ouviram um estrondo e o muro construído há pouco já não existia.

Desatou a correr puxando Kanaye atrás de si, ouvia passos apressados seguindo-os e para impedir aquela perseguição de continuar Edward juntou outra vez as mãos rapidamente e tocou-as na parede, formando pequenas placas de pedra, as quais usou como escada. Ainda segurava Kanaye, o que dificultou um pouco, porém antes que alguém conseguisse alcançá-los, já estavam pulando de telhado em telhado.

– – – –

Uma garotinha estava sentada na frente de casa, especificamente no chão, em uma de suas mãozinhas possuía um lápis amarelo.

–Elysia, mamãe já não disse que você já é grandinha para desenhar no chão? –apesar de estar proibindo a criança de fazer algo, o tom que usava era calmo e doce. Ela se aproximou da menina e se deparou com um desenho intrigante. Mesmo com os traços infantis e trêmulos, podia-se perceber claramente que a menina estava desenhando uma pessoa, e por sinal, possuía olhos e cabelos dourados e no braço algo cinza podia ser visto. –Venha. Mamãe vai buscar uma folha para desenhar. –Segurou a mãozinha da pequena e levou-a para dentro de casa. –há muito tempo que você não faz isso. Por que voltou a desenhar no chão?

–Mamãe, ele veio com uma moça, 'tava machucado! –ela disse calmamente, com os habituais erros na fala que uma pequena criança poderia possuir. Aquilo atraiu a atenção da mãe, que lhe deu uma folha, mas permaneceu pensativa. Aquele só poderia ser Edward, pois era o único que sua filha conhecia. Aqueles traços, o auto-mail, eram os mesmos detalhes.

–Edward? Seria ele? –perguntou a mulher mentalmente. –Não, há muito tempo não temos notícias dele. –ela afagou a cabeça da criança em demonstração de carinho. A mulher possuía um sorriso entristecido na face, era impossível que Edward voltasse depois de tanto tempo, todos os creiam morto. Seria alimentar uma falsa esperança acreditar que ele havia passado por ali.

– – – –

–Agora você pode fazer o favor de me explicar exatamente o que está acontecendo? –Edward se encostou ao banco e se perguntou mentalmente por onde começar. Decidiu-se por começar por onde sabia, porém antes que começasse a falar viu alguns vultos azulados correndo para perto do trem.

–Eles estão vindo –murmurou para a garota, mas ela já tinha percebido. Estava completamente despreparado para se esconder, e não possuía nenhuma idéia de como fazê-lo.

Olhou para os lados, sem poder fazer nada, viu duas pessoas entrarem no trem que se encontrava, olhou pela janela na tentativa de esconder seu rosto. Havia mais deles do lado de fora, praguejava mentalmente por ter sido tão inconseqüente. Levantou-se e andou na direção contrária à que alguns soldados vinham.

–EI! –chamou alguém. Edward sentiu-se gelar, mas não se virou, ignorando aquele chamado e continuou a andar. –Pare! –obedeceu virando levemente o rosto, de modo que parecesse cooperar com o chamado, mas ainda sem deixar ser reconhecido. Ouviu passos se aproximando, pararam bem próximo a ele.

–É comigo que estão falando? –perguntou com um tom seco tentando disfarçar a voz.

–Estamos procurando por um garoto muito parecido com o senhor, porém ele é bem mais baixo. Poderia se virar, por favor?

–Se ele é mais baixo que eu, o que querem comigo? Seu superior vai saber que estão importunando civis. Se for isso, dê-me licença. –olhou rapidamente Kanaye, avisando que ela devia continuar ali e saiu do vagão pela porta que o ligava a outro.

Olhou para o lado oposto e pode perceber que não havia ninguém ali. Deu um salto para o chão, abaixou-se para olhar a parte de baixo do trem, aproximou-se dos trilhos e entrou por um espaço entre as rodas. Pode observar uma coleção de tubos e fios. Tateou por cima dos tubos procurando alguns vãos onde colocar as mãos e se segurar até que todos fossem embora, com uma certa dificuldade, encontrou os tão desejados vãos.

Minutos depois, pode ver pessoas descendo do trem. Observou as botas negras e os uniformes azuis, resolvendo que já era hora de sair dali, ou o trem entraria em movimento e ele ainda estaria naquela desconfortável posição. Saiu e encontrou um rosto conhecido lhe sorrindo sem graça.

–Já revistaram o trem, acho que não tem problema voltar para lá agora, mas pode começar a falar. Tudo! –ela olhava para Edward como se quisesse explicações e ele sabia que ela era louca o suficiente para entregá-lo caso não acreditasse na sua explicação. Havia um detalhe, como ele faria para alguém acreditar numa história que nem ele mesmo acreditava? Começou a falar tentando ser breve, e evitando que ela fizesse perguntas.

–Eu realmente não sei quem eles são, mas estão atrás de mim desde quando cheguei naquela cidade no deserto.

–Eu posso parecer besta, mas eu não sou! E não vou acreditar nessa sua história, até que você me explique tudo direito! –Edward suspirou percebendo que aquilo seria mais difícil do que imaginava e começou a explicar exatamente o que havia acontecido. ao menos tudo aquilo que ele lembrava ter acontecido. Às vezes parava para verificar se alguém se aproximava para escutar.

– – – –

O trem ia diminuindo a velocidade vagarosamente, quase sem se fazer notar. O sol iniciava a brotar por detrás das verdes colinas daquela cidade. Edward sorriria brandamente ao constatar que chegavam, estaria aliviado de ter conseguido chegar até ali.

–CHEGAMOS! –gritou certa garota de cabelos negro-ondulados atraindo a atenção daqueles que estavam no vagão e acordando aqueles que dormiam, inclusive um garoto com um pequeno complexo de "baixísmo".-Vem, Ed-kun! -Kanaye agiu, como sempre que algo novo a surpreendia, puxando Edward pela mão.

–Kanaye! –falava o garoto tentando pará-la, mas ainda sendo puxado com força pela excêntrica garota. –É para o outro lado! Deixa que eu guie agora!

–Certo, Chibi! –Falou com o costumeiro sorriso no rosto.

-QUEM VOCÊ CHAMOU DE FEIJÃO QUE NÃO SE PODE VER NEM COM UMA LUPA? –gritou fazendo com que a garota ficasse surpresa com o seu modo de agir. Logo recomeçaram a andar e chegaram ao topo de uma colina, onde várias lápides se encontravam, uma especialmente chamou a atenção de Kanaye, aquela que Edward olhava fixamente e a qual possuía o nome Trisha Elric.

–Desculpe, Ed-kun. Eu não sabia...


Notas da autora: Bom, espero que tenham gostado.

Preview do próximo capítulo:

Capítulo 3-Rizenpool.

Era um chamado insistente à porta que interrompia sua discussão. Edward temia pelo que poderia ver no momento em que aquela porta fosse aberta.

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