Capítulo 4-Meia explicação
Edward permanecia deitado no chão, o sol batia fracamente em sua figura, encontrava-se próximo à margem do rio. Podia sentir a leve brisa bagunçar seu cabelo, mas isto não importava, na realidade, ele nem ao menos pensava naquilo. Apenas tinha os olhos fixos no céu, contemplava o infinito.
Há quanto tempo ele não se sentia daquela forma. Não poderia dizer, mas não se recordava de estar tão calmo como naquele momento. Percebeu alguém se aproximando e rolou o corpo, permanecendo de lado. Virou a face a observar e relaxou ao notar que aquela pessoa possuía uma face conhecida, tornou a posição inicial. A jovem permaneceu em pé, ao lado de sua cabeça, e mirava a face do loiro como quem desejava explicações.
-Vai ficar parada sem falar nada? –Edward quebrou o silêncio da loira e soltou um sorriso fraco.
-Não sou eu quem deve falar. É você. –Winry não retribuiu o gesto amigável, apenas sentou-se ao seu lado e abraçou as pernas, apoiando a cabeça nos joelhos flexionados. O loiro resolveu-se por sentar e ficar mirando a face da companheira, o que fez por vários minutos. Daquela forma, sem dizer qualquer palavra e sem qualquer expressão em sua face.
Pensava nela e em como reagiria a tudo que ele contasse. Tentava imaginar o que seria adequadamente exposto. As pessoas que encontrou e os amigos que fizera e perdera, tanto pela guerra quanto por seu comportamento absurdamente tolo. Caso falaria sobre a guerra que lhe fora tão próxima. Contudo, nada disso podia ser dito.
-Eu ainda não consigo compreender direito o que aconteceu, Winry. Há pessoas como aqui e guerras como aqui. Os mesmos motivos, com detalhes e costumes diferentes. É um mundo sem alquimia em que desenvolveram a ciência mecânica. –Edward calou-se com isto, lembrava-se das máquinas de destruição que vira naquela época. Winry parecia não estar satisfeita com suas palavras, pois continuava a olhá-lo em modo interrogativo, esperando maiores explicações. –Sem alquimia, não havia como eu voltar, mas por algum motivo eu fui dormir e acordei no deserto. Onde eu encontrei a Kanaye, que me ajudou. Ela sabe muito sobre rotas e cidades. Estaria perdido no deserto ainda se não fosse por ela.
-Mas... O que realmente aconteceu nestes quatros anos? –Winry largou as próprias pernas, estendendo-as na grama. Voltou seus olhos para o loiro. Edward havia estampado uma expressão de desgosto, como quem se lembrava de algo ruim, ainda que se sentisse aliviado por não mais viver com aquilo.
-Quatro? –ele deu uma leve risada melancólica e passou a mão pelos fios loiros que caiam em sua face. Observava o chão como quem procura as palavras para descrever um fato insuportável. –Dias e noites intermináveis, como eu queria que aquilo acabasse rápido, mas pareceu muito mais do que apenas quatro anos perdidos.
Winry murmurou um "oh", não sabia o que fazer naquela situação. Ela o via tão diferente do que se lembrava e não sabia lidar com aquilo. Nem ao menos compreendia o que se passava com Edward, como poderia fazer algo daquela forma?
-Uhm, Winry? –ela balançou a cabeça, indicando que ele deveria prosseguir. – Transmutação humana pode até obter êxito porque uma vida foi oferecida. Contudo eu ainda estou vivo e o Al também. Não deveria haver algo perdido?
-Então você realmente tentou aquilo... O Alphonse perdeu memória de quando vocês tentavam recuperar seus corpos. Não consegue lembrar de nada do que aconteceu após vocês tentarem reviver a sua mãe.
Edward virou-se rapidamente para ela. Havia cambiado sua expressão outra vez, agora sustentava um pouco de felicidade com a notícia.
-É até melhor que ele não se lembre disso, Winry! –ela sorriu ao observá-lo dar a primeira risada desde que chegara à cidade, e que fosse verdadeira.
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A noite havia chegado e junto a si, trouxera uma chuva inesperada. Todos haviam tentado se abrigar dentro de suas casas, mas Kanaye era a exceção. Permanecia de pé sentindo os grossos pingos de chuva tocarem seu corpo. Em sua face, a alegria era estampada para quem quisesse ver.
-Até quando ela vai ficar debaixo dessa chuva? –perguntou Winry enquanto observava a morena pela janela, assim, Edward resolveu convencê-la a sair dali.
-Garota, você não deveria estar lá dentro?
-Não! Ed, no deserto não é assim. A chuva só trás destruição e você precisa se esconder. Esperar que acabem e que não haja grandes estragos. Mas aqui? A chuva é tão aconchegante que eu poderia passar dias aqui sem sentir o tempo passar.
–Você pode ficar doente e vai sentir. –ele ergueu a cabeça do mesmo jeito que ela, sentindo as gotas caírem em sua face.
–Eu não me incomodo. Eu nunca me senti desta forma, tão sem preocupações, e se eu puder sentir isso por mais tempo, é o que quero fazer. Seria ilusão acreditar que você entenderia, afinal ainda chove para você. Fugindo todo esse tempo, longe de tudo e todos, e sem saber quase nada do que aconteceu com você.
-Talvez ainda não tenha acabado. Só estou um pouco preocupado com isto.
-Você pode pedir a ajuda deles.
-Eles podem continuar acreditando que está tudo bem. É perigoso, Kanaye. Eu estou sendo perseguido e isto basta, eles não precisam passar por coisa alguma outra vez.
-Você tem um modo peculiar de resolver seus problemas, Edward. Você nem sabe o motivo de possuir militares procurando por você, mas eles podem saber. – o loiro ignorou o comentário e apenas observou a mão. Uma luva escondia o auto-mail, mas ele sabia que estava ali.
-Eu só vim consertar o auto-mail e ver como estava tudo. Eu acho que o exército ainda está procurando pela Pedra Filosofal, então é bem provável que estejam me procurando por isto. Preciso acabar com eles e então voltarei. Mas não vou levá-la comigo. Irei sozinho desta vez, não quero alguém para me atrapalhar ou se arriscar.
–Mas... - ela voltara sua face para observá-lo melhor, porém ele apenas olhava o horizonte escondido pelas nuvens carregadas de chuva. –o que você acha que eles vão pensar quando for embora?
–Não faço a mínima idéia, mas deixe-os pensar qualquer coisa. –terminou pegando no pulso da garota e puxando-a para dentro de casa.
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A garota de madeixas loiras olhava curiosamente para os dois debaixo daquela chuva fria, tentando imaginar sobre o que eles falavam. Sentiu que alguém se juntava a ela no sofá, direcionando o olhar para o mesmo lugar.
–Al, você acha que ele vai embora sozinho? –seu tom era triste e seus olhos buscavam uma resposta de seu gosto, porém algo lhe dizia que isso não aconteceria.
–Não sei. –Alphonse respondeu. Não era o que gostaria de ouvir, mas a realidade. Que Edward sairia dali era certo e eles sabiam pelo modo como o loiro agia.
–Ele está mudado, Al. Ele nunca foi de falar com ninguém sobre seus problemas, mas está tão estranho. Hoje, quando conversamos, não parecia aquele Edward que vimos há quatro anos. Estava calmo e pensativo como nunca havia visto, e sua expressão demonstrava que era doloroso permanecer conosco.
–O que ele disse?
–Pouco, e quase nada era verdade. Kanaye sabe o porquê de ele estar assim, é perceptível se observar o modo como conversam, mas duvido que ela nos fale se ele pedir ao contrário. Tenho medo do que aconteceu com ele nesses últimos anos, algo absurdo deve ter acontecido para fazê-lo mudar tanto.
Foram interrompidos pelo barulho da porta se abrindo, seguido de alguns sussurros praticamente inaudíveis. Apenas palavras soltas como "não" e "fugindo" puderam ser ouvidas. Os dois apareceram encharcados e quando viram Winry e Alphonse os olhando, demonstraram surpresa e preocupação pela possibilidade de terem sido ouvidos.
–Depois dessa chuva toda, acho que você vai precisar da Winry-chan! -Kanaye afirmou olhando para o loiro, tentando iniciar algum assunto que não a conversa que acabavam de ter.
–Não tenho problemas com chuva. –ele sabia que Kanaye havia criado um motivo para ele contar à loira o que havia acontecido. Retrucara contrariado.
–Mas em quatro anos, creio que vai precisar de uns reparos. Como você consegue mexer esse braço sendo que nunca cuida dele?
Winry os observou com interrogação, não conseguia imaginar o motivo de Edward necessitar dela após tomar chuva. Em momento algum havia passado por sua cabeça que ele podia possuir o mesmo auto-mail que tinha há quatro anos.
–Vou precisar que você conserte meu auto-mail. –Winry agora o olhava surpresa, acreditava que quando ele voltara para aquele mundo, seu corpo voltara a ser como era antes da transmutação que lhe custara este. –Um amigo soldou uma peça ao pé para que ficasse do meu tamanho, mas acho que vou precisar de você para dar um jeito. Está muito pesado e não tem o movimento natural.
–Ed... Você vai sair, de novo, procurando pela pedra filosofal para tomar seu corpo outra vez?
–Não! –ele afirmou com convicção, mirando-a. –Já não me incomodo em não tê-lo e o Al está bem, não há porque eu continuar a procurar pela pedra.
-Vou pegar as ferramentas, enquanto isso vai se trocando ou vai ficar doente. –ela saiu do quarto velozmente, parecia aliviada ao descobrir que ele não se arriscaria outra vez. Edward trocava a roupa ao mesmo tempo em que lembrava do jovem que lhe fizera aquele e outros favores ainda maiores.
-Ele gostaria de estar aqui. –não havia pronunciado palavra alguma, mas pensava naquilo com força. Gostaria de saber como aquele homem estaria, mas só podia desejar que estivesse bem.
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Capítulo novo, no dia prometido. Espero que estejam gostando
do rumo que as coisas estão tomando. Próxima atualização virá
com dois capítulos, já que são pequenos.
Preview: Doce Ilusão.
Ir embora era inevitável e ele precisava fazê-lo. Fugiria sem saber muito, mas era suficiente.
