A/N: Fériiiasss! Finalmente! =D E um capítulo novo para comemorar! Espero que todos gostem, mas com certeza muitos vão ficar roendo as unhas com o final do capítulo :D Muito obrigada por todas as reviews que estão sendo enviadas, e pelos elogios e incentivos que as acompanham! Até a próxima! =**
CHECKMATE
PARTE II – O JOGO
Capítulo 13
Don't you know that time is not my friend
I'll fight it to the end
Hoping to keep that best of moments
When the passions start
Heaven help my heart
Não sabe você que o tempo não é meu amigo
Eu irei lutá-lo até o fim
Com a esperança de manter aquela melhor parte dos momentos
Quando as paixões começam
Que o céu ajude o meu coração
Letras de "Heaven Help My Heart" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus
…
…
Uma onda de pensamentos e emoções rodopiou pela mente de Harry enquanto ele se apressava quietamente pelas miríades escadarias deslocáveis que levavam da Torre da Grifinória até o Hall de entrada. Na noite anterior, depois que Rony e Seamus finalmente o deixaram em paz, os mesmos pensamentos o impediram de adormecer. Para começar, ele tinha pensado seriamente na pergunta de Draco – aquela a qual não tinha realmente respondido – aquela envolvendo casamento e crianças.
Com a guerra, e a ameaça pessoal de derrotar Voldemort pairando sobre a sua cabeça, pensar em tais coisas poderiam parecer inúteis e indulgentes, mas Harry ainda tinha esperanças para o futuro. Se fosse possível haver um futuro para ele, se ele sobrevivesse, esse futuro imaginado incluía uma família. Seu parceiro imaginado costumava conter a face de Cho; as crianças pelas quais esperava haviam sido dela. Mas esse futuro tinha sido repentinamente extinto no começo do verão passado, como uma vela abruptamente derrubada e submergida em um poço de água escura, e Harry tinha sido deixado com nada, sem qualquer esperança. Até agora.
Aquele futuro desolador, vazio e solitário que sobreveio com a partida de Cho estava sendo novamente preenchido com a possibilidade de amor e parceria, e apesar de Harry estar bem mais cauteloso agora, sabendo quão incerta era a possibilidade de esse novo futuro vir a se tornar realidade, ele encontrou um ponto de partida, mais uma vez, para a esperança. Esperança, agora, que havia sido descoberta de forma inesperada, encarando-o através de olhos cinza-prateados. Era essa nova esperança que havia dado asas à sua imaginação na noite passada e havia inspirado planos – talvez até mesmo para a formação de uma família – sobre os quais ansiava a discutir com Draco nesta noite.
Havia outras coisas importantes sobre as quais queria conversar com o Draco, mas como não pôde passar a noite passada com o outro garoto, não teve a chance. Na verdade, Draco era o único com quem ele podia conversar sobre quase tudo que estava acontecendo em sua vida. Eles precisavam descobrir o que estava acontecendo com as auras mágicas deles; particularmente, Harry queria saber como ele conseguiu transfigurar aquela bola-de-neve sem lançar qualquer feitiço. Ele também queria convencer Draco a não ir embora.
E ainda havia um jogo de xadrez a ser terminado.
O jogo de xadrez estava começando a se tornar uma coisa relativamente irritante para Harry. No início, o jogo tinha sido uma necessária catapulta para o relacionamento que estavam construindo, e Harry reconhecia com orgulho quão esperto Draco teve que ser para elaborá-lo. Ele fez com que eles conversassem, fez com que eles se abrissem um para o outro, revezando a posição de vulnerabilidade, trocando a oportunidade de elaborar perguntas ou revelar as coisas que mais queriam saber. Considerando o histórico deles, tal jogo poderia ter se tornado desagradável muito rapidamente, talvez até mesmo violento, mas Draco tinha assumido um risco, e Harry não podia deixar de admirá-lo por isso. Mesmo assim, o jogo parecia desnecessário agora, um quadro que tinham ultrapassado, especialmente depois que Draco passou a utilizá-lo como forma de adiar um relacionamento físico entre eles. Harry já estava cansado. Queria que terminasse agora.
Por outro lado, ele também não iria pressionar Draco a dormir com ele. Isso era algo que tinha decidido na noite passada – mesmo que não compreendesse toda a situação inteiramente. Se Draco precisava de mais tempo, então Harry tinha certeza que ele tinha seus motivos, e estava determinado a respeitar isso. Ele já tinha dito várias vezes que estava disposto a esperar – o relacionamento era muito mais importante para ele do que o sexo, e nessa noite ele iria se esforçar para manter sua palavra. Sorriu um pouco para si mesmo. A maneira como se sentia ao redor de Draco não iria facilitar em nada a sua decisão.
Durante todo o dia de hoje, ele teve momentos em que sentiu uma saudade intensa de Draco, uma quase-dor abrupta que apertava seu coração e ameaçava deixar um sofrimento vazio e ansioso para trás. Mesmo assim, todas as vezes que seus pensamentos se fixavam em Draco, aquele sentimento se transformava em algo muito diferente, algo que falava com ele com as palavras da voz baixa e suave de Draco na beirada de uma janela em uma noite escura, algo como tinha se sentido quando tinham voado juntos e seu coração havia se enchido de luz solar e vento gelado e pronto para estourar de tanta alegria, algo que preenchia aquela ânsia vazia até o topo e o fazia sorrir. Naqueles momentos, ele sentia como se Draco estivesse bem ali com ele, tão perto, tão conectado, que podia imaginar sentir o eco de um segundo coração pulsando ao lado do seu.
Então havia outros momentos. Momentos em que suas perguntas tomavam posse, quando suas dúvidas e medos e inseguranças traziam outra realidade em foco. Draco ainda estava determinado a ir para casa, e Harry não conseguia se livrar da impressão de que Draco não estava lhe contando algo. O futuro obviamente não seria tão simples quanto aquele sussurrado eu te amo.
Os corredores e as escadas estavam praticamente desertos enquanto Harry, perdido em pensamentos, apressava-se por eles. Todos estavam se aprontando para o Baile Anual, e apesar de ele sentir grande animação pela noite à frente, quando chegou ao Hall de entrada, parte de sua antecipação havia se transformado em nervosismo. Ele teve que esperar por alguns momentos no início das escadas principais enquanto Hagrid e o professor Flitwick arrastavam uma gigantesca árvore de natal para dentro do Salão Principal, uma das várias que iriam decorar o salão nessa noite. Harry, momentaneamente distraído de suas ideias, sorriu enquanto o pequenino professor, com os braços levantados e sua varinha balançando acima de sua cabeça, levitava a enorme árvore. Hagrid, segurando o fim do tronco, direcionava a árvore flutuante pelas portas do castelo.
Mas ao subir as escadas espirais na torre Sonserina, as perguntas nervosas de Harry voltaram. E se Draco não lhe desse um anel ao final das contas. . . e se o pendente fosse um exagero, muito pessoal? E se Draco não gostasse? Deus, ele pensou, tem minha cicatriz nele. Parecia tão idiota agora que pensou nisso. Por que Draco iria querer usar algo que parece com a minha cicatriz?
Harry parou na frente das escadas e encarou a porta de Draco com toda sua antecipação e perguntas atropelando umas às outras, não resolvidas. Ele respirou fundo e sorriu. Mesmo com todas as perguntas que tinha, ele queria, mais do que tudo, estar ali dentro com o Draco. Aquele algo que era selvagem e emocionante e feliz tomou conta de seu coração mais uma vez, e ele bateu na porta.
…
…
Draco estava sentado no seu quarto, encolhido na poltrona que encarava a porta, encarando o fogo com o corpo tenso. Ele estava vestindo uma camisa branca casual e as calças pretas que faziam parte do conjunto formal que escolhera para ele e Harry vestirem. Ele já tinha duplicado as vestes para Harry usar e tinha as colocado na cama. O anel havia sido retirado da poção e estava agora descansando na elegante caixa preta que tinha comprado em Hogsmeade; a poção tinha sido descartada, a jarra lavada e devolvida ao seu kit de Poções. Tudo estava pronto, estivera pronto há décadas, parecia, mas Harry ainda não tinha chego.
Harry, obviamente, esteve em sua mente o dia inteiro, e a espera durante a longa tarde deixou Draco nervoso e tenso. Às vezes, quando pensava em Harry, sentia que se fechasse os olhos, poderia acreditar que Harry estava bem ali com ele, a sensação da presença do outro garoto era tão forte. A reafirmação vinda disso durou um momento ou dois, mas a impaciência de Draco estava rapidamente retornando. Ele não tinha muito tempo de sobra. Ele queria Harry aqui, agora. Nem mesmo sentar na beirada da janela o acalmou – observar o campo de Quadribol apenas o fazia se lembrar de Harry. Ele tentou ler enquanto esperava, mas não conseguiu concentrar-se, e o livro agora deitava, descartado, sobre a mesa ao lado do tabuleiro de xadrez.
Pensamentos da noite anterior voltaram à superfície, e as lembranças recortadas e fragmentadas de um sonho, como o vidro quebrado de uma garrafa, verdes e pontiagudas, mas incompletas, provocavam as margens de sua mente. Perguntas que achou terem sido respondidas sussurravam irrevogavelmente para que ele as reconsiderasse. E se ele ficasse em Hogwarts e simplesmente não seguisse com o plano – o que aconteceria então?
Abraçando o travesseiro de Harry, ele tentou não escutar àqueles sussurros impossíveis sobre o futuro. Ele pensou sobre o passado, ao invés disso, e deixou-se reviver o vôo, o pôr-do-sol e as palavras de parar o coração que Harry havia proferido. E então, talvez por estar tão cansado, e por precisar tanto do toque de Harry, ele se permitiu imaginar o que poderia ter acontecido caso Harry tivesse passado a noite e eles tivessem feito amor. Alívio através de sua própria mão não era o que ele queria – ele queria o Harry – mas a imaginação podia servir de consolo de sua própria maneira, e concedia-lhe algum conforto, pelo menos o suficiente para que conseguisse finalmente cair no sono.
Mas as dúvidas que haviam vindo à tona na noite passada o acompanharam nessa tarde enquanto esperava; os medos que tentou tão insistentemente destruir voltaram, e quando a batida leve finalmente veio, ele tinha caído tão profundamente em seus pensamentos que se assustou. E quando abriu a porta e não viu ninguém ali, por um segundo pensou que era uma brincadeira da Pansy. Mas então a porta foi repentinamente puxada de seus dedos e rapidamente fechada, e ele se viu envolto em um abraço. Seus braços foram ao redor da pessoa invisível e ele fechou os olhos, sentindo a tensão amontoada derreter no conforto provido pelo toque de Harry, assim como o gelo sob a carícia da chuva morna de verão. Então ele queria ver, queria beijar, e suas mãos estavam puxando a Capa da Invisibilidade, desesperado para que não houvesse qualquer barreira entre eles.
Draco sentiu Harry se afastar ligeiramente, e em um segundo Harry, sorrindo e com o cabelo bagunçado, tinha retirado a capa. Ele a jogou desatenciosamente em uma cadeira próxima, rapidamente retirou sua mochila e a derrubou no chão, e então Draco estava em seus braços novamente, abrindo sua boca em face dos beijos entusiasmados de Harry, pressionando-se apertadamente no corpo do moreno.
"Senti saudades," Harry sussurrou entre beijos.
"Eu também senti," Draco sussurrou em resposta, seu coração torcendo em felicidade com aquelas palavras. Isso era real – ficar junto ao Harry não era mais um sonho abstrato possível apenas na sua imaginação – e, Deus, como queria isso. Ele beijou Harry, um beijo mais longo e demorado, então se afastou para encará-lo nos olhos.
Os olhos verdes estavam brilhando, lindos e convidativos, tentando lhe convencer a ir muito além desse beijo, e mesmo assim Draco apenas tinha que se recordar desses olhos da maneira como os tinha visto naquela primeira noite no corredor, desolados e cheios de lágrimas, para se lembrar de não ir muito longe. Mas doía parar. Ele se afastou gentilmente, viu o raio de desapontamento naqueles olhos, e isso doía também. "Nós devíamos nos vestir," ele disse, sem fôlego, com a voz baixa. Ele se afastou, soltando, mas Harry apanhou seu pulso, segurando-o por um momento.
"Temos que conversar," Harry disse suavemente. "Eu pensei em várias coisas na noite passada. . . coisas que preciso te contar."
Draco concordou com um gesto da cabeça. "À noite," ele disse, "quando voltarmos." Então ele sentiu um segundo de incerteza. "Você vai voltar?" ele perguntou. "Para ficar comigo hoje?"
"Esse era o plano," Harry disse, inclinando a cabeça na direção de sua mochila ao lado da porta. "Se você quiser. . ."
Tinha tanta esperança e desejo na voz de Harry. . . certas coisas Draco simplesmente não conseguia resistir, e ele estava repentinamente de volta nos braços de Harry, segurando com força. Com o resto do mundo, ele conseguia facilmente manter uma distância fria, com sua fortaleza elevada e barreiras intactas. Mas não com o Harry. Um olhar vindo daqueles olhos, certo tom de voz mais suave, e as coisas dentro dele se desmoronavam, os nós se desfaziam, simulações falhavam.
"Eu não consegui dormir noite passada," ele disse, ". . . sem você."
"Tudo bem," Harry disse, massageando suas costas. "Eu estarei aqui hoje. Vou te ajudar a dormir."
Draco virou o rosto para dentro, contra o lado da cabeça de Harry, com os olhos fechados. Ele não queria mais lutar isso. Os pensamentos que tivera na noite passada o levaram a um precipício de indecisão, e ele agora balançava em sua beirada, mais uma vez. As mãos de Harry estavam sólidas em suas costas, calmantes e provocantes ao mesmo tempo; como ele poderia desistir de algo até mesmo tão simples. O sentimento do corpo de Harry contra o seu era tão perfeito e certo. . . e Harry o amava. Era tudo que ele queria. . . tudo pelo qual ele tinha esperado. Ele podia mudar de ideia. Ele podia ceder. . .
Sem outra palavra, mas com um aperto em seu coração, Draco se afastou de Harry, pegou sua mão e o levou até a cama. Ele não confiava em si mesmo para falar, porque se falasse, certamente seria para dizer ao Harry para mandar à merda o Baile Anual e –
"Qual é o meu?" Harry perguntou, vendo as duas vestes formais deitadas na cama.
"Aquele."
Harry o lançou um olhar desapontado enquanto começava a retirar a camisa. "Só você escolheria uma roupa com tantos malditos botões," ele brincou. "Vai demorar uma hora para eu colocar." Então ele sorriu. "Mas nós vamos estar deslumbrantes essa noite."
E o momento de indecisão passou – a realidade da presença de Harry, sua voz e seu sorriso, carregaram Draco pela névoa de incerteza. Ele riu levemente com o último comentário de Harry e sentiu seu caminho, já pré-estabelecido, solidificar-se embaixo de seus pés mais uma vez. Seu pai o havia levado inexoravelmente a isso, havia moldado o futuro de Draco com suas demandas implacáveis e, em resposta, Draco havia feito sua escolha. Era, talvez, uma escolha tão forçada que alguém poderia não considerá-la uma escolha em si, mas apenas e simplesmente o resultado inevitável de circunstâncias incontroláveis, a única coisa que podia fazer considerando quem ele era e como se sentia. A curva na estrada já estava muito para trás, o caminho à sua frente corria claramente reto e à diante. Havia algo que ele tinha que fazer; sofrimento estava enrolado apertadamente nesse ato, mas ele já tinha aceitado isso e iria continuar seguindo em frente, determinado mais uma vez. Ele sorriu para Harry, querendo se segurar em cada um desses últimos minutos e fazer o tempo passar mais devagar, de forma que cada momento pudesse ser plenamente saboreado. "Não demore muito," ele avisou, "ou eu não terei tempo de te entregar seu presente de Natal."
Harry se apressou, e logo eles estavam ambos vestidos e prontos para ir, admirando um ao outro com sorrisos e olhares afetuosos. Enquanto Harry encolhia a Capa da Invisibilidade para que coubesse em seu bolso, Draco foi até a escrivaninha e abriu uma gaveta, então veio se juntar ao Harry na mesa de frente à lareira. A pequena caixa preta de veludo estava em suas mãos. Ele gesticulou na direção do tabuleiro de xadrez. "Você tem que mover uma peça," ele disse, "antes que eu possa fazer meu movimento."
"Ah é," Harry disse, repentinamente nervoso mais uma vez, e animado. Ele moveu seu Peão para B4, o movimento que fizera quando estiveram na neve. Então a memória o captou e ele levantou os olhos para encarar Draco, viu a luz do fogo refletida na face dele, naqueles olhos cinza brilhantes. Naquela primeira noite que veio ao quarto de Draco, eles ficaram em pé exatamente desse jeito, próximos, logo antes de Harry beijar Draco pela primeira vez. E ontem, voando alto sobre um crepúsculo pintado de pôr-do-sol, Harry havia dito as palavras que queria que virassem seu futuro. Ele ficou sem fôlego novamente ao observar Draco agora, assim como tinha ficado naquela noite selvagem e imprudente, enquanto Draco alcançava uma mão para apanhar seu Rei.
"Rei para F1," Draco disse, movendo o Rei diagonalmente para trás, um espaço para a direita. Ele levantou o olhar para Harry, cabelo loiro caindo em sua testa, seus olhos revelando aquela timidez rara e adorável. "Eu não embrulhei a caixa," ele disse suavemente, estendendo-a. "Como você já tinha visto. . ."
Harry percebeu as mãos ligeiramente trêmulas. Seria. . .? Ele abriu a caixa e viu um pequeno, delicadamente forjado dragão prateado deitado no cetim vermelho. Olhos de rubi brilharam na luz da lareira quando ele o apanhou, e ele verificou que estivera certo o tempo todo. Era um anel! Harry o manuseou, maravilhado com os detalhes. "É lindo, Draco," ele conseguiu dizer. Era realmente muito mais do que lindo. "É incrível."
Draco deu um passo à frente. "É uma das minhas possessões preferidas," ele disse. "Eu queria que você ficasse com ele." Ele alcançou e gentilmente pegou o anel. "Você não deve usá-lo na mão que segura a varinha," ele disse, apanhando a mão esquerda de Harry e escorregando o anel no quarto dedo.
Harry sentiu o anel tremer e se agitar em seu dedo, ajustando-se magicamente em um aperto confortável. Ele olhou maravilhado para o pequeno dragão prateado que agora delicadamente circulava seu dedo. Era definitivamente um tesouro Malfoy. Olhou novamente para Draco, bastante impressionado e com a língua um pouco presa.
"É um dragão com olhos vermelhos da Grifinória," Draco disse. "Eu queria que significasse que nós. . . pertencemos um ao outro."
Harry se inclinou e beijou Draco, seu coração revirando. "Nós pertencemos," ele sussurrou.
Draco sorriu, o tipo de sorriso que sempre deixava os joelhos de Harry um pouco fracos. "É sua vez," ele disse.
Harry ajeitou seus óculos, reservando um minuto para estudar a posição de suas peças e o movimento que Draco acabara de fazer. Draco não teve muitas opções em seu último movimento; Harry estava progressivamente apertando a ameaça no Rei de Draco por um lado e, previsivelmente, Draco havia movido seu Rei na direção da única saída. Mas isso não importava – a estratégia de Harry era pressionar o Rei de Draco firmemente pelo lado agora, fazer Draco correr dele e então apanhá-lo do outro lado. Ele quase tinha tudo no lugar – e a julgar pelo último movimento de Draco, parecia que Draco iria cair certinho na sua armadilha. O jogo não iria durar mais muito tempo. E Harry estava ficando cada vez mais confiante em sua vitória.
Levantando o olhar do tabuleiro, Harry não conseguiu esconder sua animação. "Bispo para D3," ele disse, movendo a peça e capturando o Bispo de Draco. Sorrindo para Draco, ele colocou o Bispo ao lado do tabuleiro, anunciando "Xeque." Então sua excitação voltou parcialmente a ser o nervosismo de antes quando encontrou os olhos cheios de expectativa de Draco, lembrando-se do que planejava fazer com seu movimento. "Eu também tenho algo para te dar," ele disse, suas palavras saindo um pouco trêmulas. Ah, Deus, tomara que Draco gostasse. Ele apanhou sua mochila do chão e retirou a caixa de veludo azul-marinha.
"Eu também não embrulhei o meu," ele disse. "Achei a caixa muito bonita para cobrir."
"É mesmo," Draco disse, pegando a caixa de Harry e admirando o azul veludado. Sentiu sua face corar. Ele não sabia o que esperar, mas seja lá o que fosse, era um presente de Harry e significaria tudo para ele. Então ele abriu a caixa e segurou o fôlego, completamente sem palavras.
Levantando o pendente cuidadosamente de sua caixa, Draco deixou-o deitar na palma de sua mão. A prata capturava raios da lareira; luzes âmbar brilhavam por cima da superfície pálida e polida, faíscas rosa corriam pelo cristal claro e pela pedra azul. Draco observou o pendente por um longo, longo momento, então sem soltar uma palavra, olhou para Harry e levantou a outra mão para afastar o cabelo da testa do moreno. Ele observou a cicatriz de Harry por mais um minuto, então abaixou o olhar para encontrar os olhos verdes ansiosos com os seus, que estavam já agora um cinza úmido. "Você encontrou isso. . . naquela joalheria?" ele perguntou.
"Não exatamente," Harry disse. "Eu mandei fazer." Ele pausou, corando levemente com suas palavras. "A pedra azul me atraiu – a cor, de alguma forma. . . me fez lembrar de você."
Vagarosamente, Draco estendeu o pendente para Harry, devolvendo-o, e por um segundo Harry teve certeza que suas dúvidas acerca do presente estiveram corretas, que Draco não tinha gostado. Mas então –
"Coloca em mim?" Draco perguntou suavemente.
Harry desfez o fecho e alcançou em volta do pescoço de Draco com suas mãos para fechá-lo. "Receei que você não fosse gostar," ele admitiu.
"Deus, Harry, é perfeito. Eu amei. É como. . . nós dois. . . juntos." Ele colocou uma mão sobre o pendente por um segundo, então abriu sua capa e o colocou para dentro. "Eu quero mantê-lo perto de mim," ele disse enquanto refazia os botões. "Eu quero que seja privado, algo que só a gente sabe. Você se importaria muito, se eu não quiser mostrá-lo?"
"Nem um pouco," Harry disse, sorrindo. Ele estava satisfeito. O pendente tinha sido uma escolha intensamente pessoal para ele, e o fato de Draco sentir o mesmo, e querer preservá-lo como algo especial apenas entre eles, significava muito.
Draco sorriu e puxou Harry para perto, então o beijou ardentemente, com sorriso e tudo.
Na verdade, Harry ainda estava sorrindo quando Draco finalmente o soltou. Os olhos deles se encontraram, um entendimento profundo e silencioso claro no olhar que compartilhavam, então Harry se virou, corando, para encarar o tabuleiro. "Nós provavelmente temos tempo para você fazer o próximo movimento," ele disse, provocando um pouco, "considerando suas pouquíssimas opções," Draco tinha apenas dois movimentos possíveis, e como apenas um deles, Rei para G2, permitia a oportunidade do Rei de Draco escapar, não havia dúvidas do que ele iria fazer. "Você está em xeque," Harry disse presunçosamente. "De novo."
Draco também estava estudando o tabuleiro, mas lançou um olhar entretido a Harry. "Posso ver isso," ele disse. Ele alcançou calmamente, apanhou seu Rei e o moveu um espaço para a esquerda. "Rei para E1," ele disse, mas continuou segurando a peça, ainda considerando seu movimento, mantendo-o incompleto.
Harry inalou e mordeu seu lábio inferior. Seu pulso acelerou com repentina esperança. Não podia acreditar! Era o movimento errado. Se Draco fizesse esse movimento, o jogo iria terminar. Harry poderia dar xeque-mate nele no próximo movimento, apanhando o Peão de Draco em C2. Por um incrível momento, ele se permitiu pensar no que aconteceria se o jogo terminasse. . .
Mas então Draco moveu seu Rei novamente para sua posição original em F1 e retirou sua mão. Ele olhou para Harry e levantou uma sobrancelha.
Harry exalou. "Isso teria sido bem. . . fatal," ele disse, ainda levemente chocado em face de Draco ter sequer contemplado fazer aquele movimento.
"Realmente, " Draco disse, dando a Harry um olhar astuto e calculista. "Teria sido praticamente. . . suicídio."
Harry alcançou e tocou o braço de Draco. "Não acredito que você quase fez um movimento tão ruim," ele disse. "Mas eu queria que tivesse feito. O jogo teria terminado." Ele deixou seus dedos escorregarem até o pulso de Draco e apanhou sua mão. "Eu quero terminar o jogo, Draco. Não importa quem ganhe."
"Eu me importo," Draco disse seriamente. "E aparentemente a minha estratégia está funcionando perfeitamente."
"Como pode dizer isso?" Harry riu. "Eu já te tive em xeque duas vezes." Ele estudou o tabuleiro por um momento, balançando a cabeça. "Se você tem alguma estratégia secreta que pensa que vai ganhar o jogo para você, não estou vendo."
Draco deu de ombros e se virou com uma expressão enigmática.
"Espera," Harry disse. "Só tem outro movimento que você pode fazer. Por que já não o faz?"
"Não," Draco disse, virando com um sorriso endiabrado, "está ficando tarde. Eu quero descer para nós entrarmos no momento exato em que possamos causar a entrada mais chocante," ele disse maliciosamente. Então sua expressão tomou um ar de vítima totalmente fingido. "E nós precisamos ir agora, já que eu tenho que descer até o Salão Comunal da Sonserina para buscar aquelas garotas que você arranjou para nós."
…
…
Harry esperou no fim das escadas da torre da Sonserina enquanto Draco descia até as masmorras para buscar a Natália e a Violeta. E Harry teve que rir quando eles subiram as escadas, porque com todas as reclamações que Draco havia proferido sobre sair com essas meninas, ele, mesmo assim, era o epítome do perfeito cavalheiro agora, subindo as masmorras com uma menina em cada braço. Natália, com o cabelo loiro escuro arrumado em um rabo-de-cavalo brilhoso, estava usando vestes azul-marinho que acentuavam seus olhos, e Violeta, com o cabelo escuro caindo em ondas em seus ombros, preso com presilhas ametistas, estava vestindo vestes na cor de seu nome.
Quando ela viu Harry, Natália sorriu e deu um passo à frente para segurar seu braço. "Obrigada," ela sussurrou, "por convencê-lo a ir. A Violeta e eu não teríamos ido de outra maneira."
Harry corou. "A gente também não teria ido," ele sussurrou em resposta, "se vocês não tivessem pensado nisso."
Eles caminharam juntos até a entrada do Hall principal, chegando no exato momento em que as portas do Salão Principal se abriram e os estudantes acumulados do lado de fora, que estavam esperando em suspense, finalmente puderam entrar. Mas Draco fez com que eles esperassem até todos terem entrado, e então os fez esperar mais cinco minutos. Finalmente, com um sorriso e uma sobrancelha levantada para Harry, ele decretou que a hora tinha chegado.
Ah meu Deus, Harry pensou enquanto eles entravam pelas portas, é agora!
Harry e Draco entraram no Salão Principal, lado a lado, as garotas em seus braços, e pausaram na entrada. O Salão, decorado para o Natal, era uma visão maravilhosamente festiva. Doze árvores gigantes surgiram no fundo do salão, cada uma coberta com lantejoulas douradas, bolas e pingentes brilhantes, e luzes de fadas brilhantemente coloridas, enquanto guirlandas de azevinho e hera decoravam as vigas. Fileiras de velas flutuantes iluminavam o salão com um brilho suave, e no teto, o céu noturno estava repleto de estrelas que caíam e se transformavam em flocos de neve brilhantes, desaparecendo logo acima da cabeça de todos.
Os estudantes, todos arrumados em vestes coloridas, preenchiam o Salão Principal com sorrisos e excitação; alguns estavam em grupos sociais, mas a maioria estava sentada em pequenas mesas arranjadas pelo cômodo, preparando-se para pedir seus jantares. Demorou um momento até que alguém percebesse a entrada de Harry e Draco, mas então sobressaltos assustados foram seguidos de silêncio chocado que ondulava pelo Salão. Alguém derrubou um cálice, e os garfos de algumas pessoas caíram no chão, o choque da prata com o chão de pedra ressonando altamente no silêncio que possuiu o local.
Harry olhou na direção da mesa dos professores, e viu a Professora McGonagall observando-os com preocupação clara em seus lábios firmemente fechados. Snape parecia ter mordido algo amargo e desagradável. Harry ficou repentinamente contente com o fato dos dois professores chefes de suas Casas já estarem cientes do relacionamento, já que ambos foram imediatamente bombardeados com perguntas vindas dos outros professores. Hagrid, entretanto, estava encarando Harry com a boca aberta, fazendo-o se sentir uma pontada momentânea de culpa. Ele deveria ter avisado Hagrid, mas tudo tinha acontecido tão rápido. Ele prometeu a si mesmo que tiraria tempo para conversar com seu velho amigo durante as férias e explicar tudo. Dumbledore estava observando com uma expressão entretida, mas ao mesmo tempo solene.
Parecia que o ar tinha ficado inesperadamente quente, e Harry se virou na direção de Draco para ver se ele estava pronto para terminar essa entrada dramática e achar uma mesa. Mas antes que pudessem se mover, Dumbledore se levantou e encarou Harry e Draco do outro lado do Salão Principal. "Eu gostaria de ter a atenção de todos por um momento, por favor," ele disse, levantando os braços como em um abraço para o salão. "Tenho um anúncio importante a fazer." Houve um breve farfalhar de vestes e de cadeiras se movendo enquanto os estudantes desgrudavam seus olhos dos dois meninos na entrada para observar o diretor. Ele esperou até o barulho cessar.
"A possibilidade muito real de guerra é algo que todos temos que reconhecer no momento," ele começou. "Seria fácil deixar suspeição e desconfiança nos guiarem, para que imaginemos inimigos em todos os cantos que olharmos." As mangas longas de suas vestes brilhavam com dourado, refletindo as luzes das velas enquanto ele levantava os braços. "Mas o Natal é uma época em que celebramos a paz e o espírito da bondade. É uma época de presentear, perdoar antigas dores e fazer novos amigos." Ele pausou e olhou por cima de seus óculos de uma maneira que parecia avaliar cada estudante no salão. "Às vezes," ele disse, continuando seu discurso com uma voz baixa e confidencial, "é preciso muita coragem para fazer isso." Ele olhou ao redor do salão mais uma vez, então sorriu para Harry e Draco. "Portanto, estou muito feliz em parabenizar dois estudantes por colocarem de lado suas diferenças de tão longa data. Vinte e cinco pontos para Harry Potter e Draco Malfoy, para as casas da Grifinória e da Sonserina, por darem um exemplo tão excelente do espírito natalino!"
Dumbledore começou a bater palmas quietamente, e após um segundo ou dois, a professora McGonagall se levantou e começou a aplaudir também, Snape também se levantou então, de modo a não parecer menos magnânimo do que McGonagall, mas sem se preocupar em aplaudir. Aquela coisa amarga e desagradável que ele tinha engolido mais cedo agora parecia ter criado espinhos e estar firmemente presa em sua garganta. Os outros funcionários se levantaram um momento depois, e Harry ficou aliviado ao ver que Hagrid agora parecia estar orgulhoso dele ao invés de chocado. Cabeças por todo o salão se viraram para encarar Harry e Draco enquanto os estudantes começavam a bater palmas.
Esse aplauso vindo dos estudantes não era particularmente entusiasmado – com a exceção, talvez, de alguns Lufa-Lufas – já que, apesar de o espírito natalino ser ótimo e tudo mais, a maioria dos estudantes não estavam gostando nada dessa revelação, especialmente os Sonserinos. A rivalidade entre Harry Potter e Draco Malfoy tinha se transformado em uma ótima fonte de entretenimento ao correr dos anos, e certamente todos sentiriam sua falta.
Harry tinha começado a corar há um bom tempo, mas a reação de Draco era mista. Ele não tinha certeza se deveria estar feliz com a atenção e os pontos, ou irritado por sua diversão em chocar as pessoas ter sido mais ou menos estragada pela aceitação pública de Dumbledore. Foi o sorriso gigante de Harry que finalmente o convenceu a ficar feliz, e quando os olhos deles se encontraram um momento depois, Draco lançou a Harry um sorriso de tirar o fôlego.
Os joelhos de Harry ficaram um pouco fracos; Draco estava sorrindo para ele daquele jeito, e todo mundo estava olhando para eles, e era incrível o fato do seu cérebro ainda funcionar. Mas com um momento repentino de inspiração, Harry soube o que deveria fazer nesse momento – uma oportunidade estava lhe sendo dada aqui que talvez nunca mais tivesse, de endireitar algo que tinha feito, e apesar de não ter agido erroneamente, tinha machucado o Draco. Harry se virou na direção de Draco e, na frente de todo mundo, estendeu sua mão.
Houve um momento então, quando tudo no salão parecia ter desaparecido com a exceção dos dois, os sons de aplausos silenciaram como se estivessem a uma grande distância, e o tempo parecia ter parado como uma respiração repentinamente sendo segurada, enquanto Draco encarava a mão estendida de Harry. No primeiro ano deles nessa escola, no trem, Harry tinha recusado esse gesto vindo de Draco, colocando em marcha uma série crescente de sentimentos feridos e retaliações que haviam seguido ambos pelos próximos seis anos em Hogwarts. Vagarosamente, com o rosto ligeiramente rosado, Draco alcançou uma mão e a colocou na de Harry. As palmas deles se pressionaram com força, calorosamente, e seguraram-se, e os olhos deles ofereceram desculpas e forneceram perdão no espaço de um segundo. E o tempo e o barulho e o salão voltaram.
O aplauso continuou por alguns segundos, então ele cessou quando os funcionários se sentaram e todo mundo voltou a pedir seus jantares. Harry soltou a mão de Draco com um breve aperto e então gesticulou na direção do salão barulhento. "Estou vendo uma mesa vazia," ele disse. "Bem ali, perto dos fundos."
Eles andaram pelo cômodo, seguidos por sussurros especulativos e alguns risinhos. Harry mal podia esperar para chegarem de uma vez à mesa e se sentarem. Draco podia gostar de ser o centro das atenções e chocar as pessoas, mas Harry não gostava – ele só quis fazer isso para mostrar à escola inteira que eles eram amigos, e se livrar disso de uma vez. E esse objetivo, graças ao pequeno discurso de Dumbledore, tinha definitivamente sido alcançado. Ele estava imensamente grato por isso – pois colocava um tom público à amizade deles que, com sorte, afastaria as piores provocações.
Tinham algumas faces na multidão, entretanto, que estavam mais do que simplesmente chocadas ou surpresas. Rony, agora devidamente curado de todas as suas queimaduras, sentado em uma mesa com Hermione, Seamus e a Gina, parecia muitíssimo estarrecido e chocado. E sinceramente, era difícil dizer o que o chateava mais – que Harry teve mesmo coragem de vir com o Draco, ou o sorriso que Seamus tinha de orelha a orelha.
"Eu falei que ele ia fazer isso!" Seamus falou com satisfação. Ele cutucou Rony com força nas costelas com o cotovelo. "Viu, até o Dumbledore disse que é bom – para manter o espírito natalino e paz na terra e tudo mais. . . ah, santos do Céu!" Ele lançou um largo sorriso na direção de Rony. "Olha para eles! Você viu? Eu não acredito! Eles estão vestidos identicamente!" Ele se virou para observar enquanto Harry e Draco levavam as meninas pelo salão tumultuado, respirando fundo. "E Harry está. . . nossa. . . Harry está ótimo!"
"Ah, cala a boca," Rony murmurou. Ele rolou os olhos enquanto a Hermione o batia levemente no braço. "O quê? já é ruim o suficiente ver Harry fazendo papel de palhaço," ele murmurou defensivamente, "sem que ele piore a situação."
Gina sorriu com incerteza para Seamus, então olhou Rony com simpatia. Ela gostava de Seamus e achava as provocações dele engraçadas, especialmente quando eram dirigidas ao seu irmão, mas nesse caso, assim como Rony, ela ainda se sentia um pouco desnorteada pela aparente traição de Harry. Então ela se virou para olhar para o Harry e se esqueceu disso. Meu Deus, Seamus tinha razão! Harry estava deslumbrante! Deus, e o Malfoy então! Ela sorriu para Hermione, que moveu os lábios em um uau, fazendo com que Rony rolasse os olhos mais uma vez e com que Seamus risse.
Em outra mesa, Pansy estava sentada com Blaise, observando Draco caminhar pelo salão com outra garota em seu braço, e ficou completamente irritada; o punho frio e imperdoável de ciúmes tomou posse violenta de seu coração e o apertou até doer. O fato de ele estar também com Harry Potter não passou despercebido por ela, mas importava muito menos do que o fato dessa menina patética, essa Sonserina do sexto ano, ter não apenas roubado seu lugar de direito no Baile Anual – mas tinha indubitavelmente passado a noite com o Draco, também. Pansy quase nunca era aceita no quarto dele, muito menos para passar mais do que cinco minutos lá. Era demais.
Pansy olhou feio para Draco do outro lado do salão enquanto ele e Potter e aquelas duas meninas insuportáveis se sentavam e pediam o jantar, então ela olhou ao redor do salão. A comoção já tinha passado, o resto dos estudantes novamente interessados em seus próprios assuntos – todo mundo estava ocupado e parecia ter, pelo menos momentaneamente, esquecido sobre Draco e seus acompanhantes. Blaise estava discutindo Quadribol com outro membro do time Sonserino que estava na mesa ao lado, sem prestar atenção nela. Ninguém iria perceber, ela decidiu, se ela fosse fazer uma visitinha ao Draco. Saindo quietamente de sua cadeira, ela se levantou e foi na direção da mesa de Draco.
Ela ficou de pé atrás de Draco por um momento, mãos nos quadris, observando-o rir e brindar seu cálice de ponche com o de Potter. Era enlouquecedor. O ciúmes que havia tomado conta de seu coração o torceu sem dó e ela deu um passo ousado para a frente. "Ah, que acolhedor," ela disse, transpirando sarcasmo. "Harry Potter. . . sentado com os Sonserinos. A seguir, talvez o Diabo vá querer patins de Natal."
Draco se virou e a fixou com um olhar neutro – nada entretido. "O que você quer, Pansy?" ele perguntou, uma pontada de irritação em sua voz.
Pansy ignorou a pergunta de Draco, encarando com raiva a garota sentada ao lado dele. "Então isso é a putinha com que você está transando," ela cuspiu, analisando Violeta da cabeça aos pés. "Meu Deus, Draco. Raspando o fundo do barril, hein? Certamente você conseguiria alguma coisa melhor que isso, até mesmo para uma rapidinha."
Draco a lançou um olhar de indisfarçada animosidade e então virou as costas para ela. "Se está dizendo que eu poderia ter procurado embaixo de uma pedra e encontrado você. . ." ele respondeu por cima do ombro, ". . . não, obrigado."
Pansy ficou perfeitamente imóvel por um momento, sua face queimando enquanto aquelas duas garotas estúpidas riam por trás de suas mãos com as palavras de Draco, então com um clarão rápido de fúria ela apanhou o cálice cheio de ponche de Draco e derrubou todo o conteúdo em uma grande torrente espumosa por cima daquela cabeça loira arrogante.
"Aaaahh!" Draco arfou quando foi ensopado pelo líquido rosa.
Harry encarou a cena com incredulidade por meio segundo, mas então não conseguiu se segurar. Seria ruim para ele, sabia, e realmente tentou evitar, mas começou a dar risada. Draco tinha aquele visual de rato molhado mais uma vez. Uma gota rosa de ponche corria por seu nariz, enquanto outras caíam das pontas de seus cabelos e desciam por seu pescoço. Pedacinhos de gelo e bolhas sentavam como uma coroa no topo de sua cabeça. A face dele era uma figura perfeita de ultraje chocado.
Pansy se virou na direção de Harry em seguida, viu-o rindo, e estava brava demais para se perguntar o motivo. "Ah, cala a sua maldita boca, Potter," ela rosnou, agarrando o cálice de Harry e derramando ponche em sua cabeça também.
Draco ficou se pé instantaneamente e apanhou o braço de Pansy. Naquele momento todas as pessoas nas mesas próximas estavam observando o show em um silêncio chocado, mas muito entretido. Vários estudantes, especialmente aqueles que tinham se sentido um pouco desapontados com a trégua, agora estavam felizes ao descobrir que mesmo se Potter e Malfoy virassem amigos, eles continuariam fornecendo uma maravilhosa fonte de entretenimento.
Rony tinha se levantado, pronto para correr até lá, mas Hermione e Seamus o seguraram, obrigando-o a se sentar. Hermione rapidamente apontou na direção do professor Snape, as longas vestes pretas flutuando atrás dele enquanto ele marchava na direção da mesa de Harry. E, ela o relembrou, depois do fiasco na aula de Poções nessa tarde, Rony deveria ficar bem longe do professor Snape. Rony afundou resignadamente em sua cadeira, obrigado a apenas assistir junto com todo o resto.
"Sr. Malfoy," veio a voz baixa, fria e condescendente detrás de Pansy e Draco. "Explique imediatamente. O que está acontecendo aqui?"
O professor lançou um olhar apressado na direção de Harry, e Harry achou ter visto o canto da boca de Snape contrair. Talvez tivesse sido uma pequena demonstração de divertimento, a contração, mas por outro lado, poderia também ter sido um sinal de azia.
Pansy estava torcendo seu braço na mão de Draco, mas ele continuou segurando. "Ela me atacou com meu próprio ponche," Draco declarou calorosamente. "E o Potter também. Foi completamente sem provocação, senhor. Nós estávamos cuidando das nossas vidas."
"Senhorita Parkinson," Snape disse, virando para Pansy com os olhos brilhando perigosamente. Ele se elevou com os braços dentro de suas vestes, parecendo um morcego gigantesco. "Essa é a segunda vez hoje que você perdeu o controle. Se não tem nada melhor para fazer do que isso, talvez gostaria de passar suas férias aqui. . . trabalhando para mim?"
"Não senhor," Pansy disse miseravelmente. Ela arrancou seu braço do aperto de Draco.
"Então eu sugiro que pare de criar mais perturbações," Snape lecionou. "Imediatamente." Ele a lançou um olhar escaldante. "Antes que eu seja forçado a retirar pontos da minha própria casa."
Pansy colocou seu nariz achatado no ar, e com um último olhar feio para o Draco, ela marchou o caminho de volta à sua mesa sem mais uma palavra.
Draco se virou e teve que sorrir para Harry, que ainda estava tentando limpar ponche de seus óculos com um guardanapo. "Você está ridículo," ele disse.
"Não mais que você," Harry sorriu em resposta, forçando a vista pelos seus óculos, agora secos, porém melecados. "Seu cabelo está rosa. E borbulhante."
As garotas com que estavam não estavam mais chocadas, mas sim rindo incontrolavelmente.
Snape olhou todos eles com nojo. "Malfoy," ele comandou, apanhando sua varinha, "vire de costas e fique parado." Com um movimento rápido e treinado de sua varinha, ele aplicou o mesmo feitiço que usava em sua sala de aula para limpar poções derramadas ou explodidas, apagando qualquer traço de ponche da roupa e da pele de Draco.
"Obrigado, senhor," Draco disse, surpreso e muito satisfeito. A noite, bem como sua roupa, não estava arruinada afinal de contas. A não ser. . .
Com um movimento de sua cabeça, Snape reconheceu o agradecimento de Draco e se virou para voltar à mesa dos funcionários.
"Mas, professor," Draco disse urgentemente. "Espere. E o Potter?"
Snape se virou e analisou o Harry com desdém. "O que tem ele?"
"Você poderia limpá-lo também?"
"Não vejo porque deveria," ele disse com o lábio curvado em desagrado. "Ele não é da minha casa."
"Mas ele é meu par," Draco insistiu com um sussurro baixo. "Você não pode deixá-lo assim!"
O professor hesitou por um longo momento, seus olhos pretos fixados no Draco. "Ah, que seja," ele murmurou acidamente, cedendo. "Levante-se, Potter," ele disse, observando Harry como se aquele espinho estivesse novamente preso em sua garganta.
Harry se levantou e um momento depois ele também estava limpo, com Snape bruscamente voltando ao seu próprio jantar.
O resto da refeição foi calmo e logo as mesas haviam sido empurradas para que encostassem nas paredes, com o início da música e da dança. As Irmãs Esquisitas não estavam disponíveis esse ano, mas a nova banda, As Fadas Berrantes, encontraram rápida aprovação quando começaram sua primeira música estimulante e lamentadora. Harry e Draco chamaram as meninas para dançar e os quatro formaram um círculo apertado na pista de dança.
Um tempo depois, Rony, cujos olhos observadores nunca se afastaram muito de Harry todo esse tempo, repentinamente puxou a manga de Hermione. "Olha!" ele disse com a voz baixa e urgente, aparentando estar novamente chocado. "Harry está dançando com o Malfoy!"
Hermione, que não chegava nem perto da altura de Rony e não conseguia ver por cima da cabeça de todos, ainda assim tentou achar os quatro dançando. O baterista estava batendo um ritmo irresistível, e o salão estava cheio de estudantes dançando com abandono ao som da música. Até mesmo alguns fantasmas estavam flutuando ou girando alegremente no meio da multidão. Pelo que ela conseguia ver, entretanto, parecia que o grupo de Harry estava dançando junto ao invés de em pares. Não era possível afirmar que Harry estava dançando com uma menina e Draco com outra. Parecia sim que os dois garotos estavam virados um pouco mais na direção um do outro, bem como as garotas. Mas, ela percebeu com aprovação, Harry parecia estar se divertindo. Ela balançou a cabeça e se virou para o Rony, que estava ainda alongando o pescoço para observar, conseqüentemente quase pisando no pé dela. "Você pode, por favor, deixar o Harry se preocupar com o Harry," ela disse, irritada, "e prestar mais atenção ao fato de que você está dançando comigo?"
"Ah, foi mal," ele disse, e tentou parar de observar Harry a cada minuto, mas era difícil.
Quando as primeiras músicas terminaram, Harry e Draco, seguidos por Natália e Violeta, deixaram a pista de dança para checar a gloriosa mesa de doces que estava montada perto das portas. Ela estava coberta com pratos e tigelas dourados, cheios de pequenas sobremesas deliciosas e uma vasta diversidade de doces. As meninas experimentaram algumas trufas de chocolate, marshmellow e caramelo em formas de salamandras, mas Draco puxou Harry para o lado. Uma música lenta estava começando. "Você prometeu dançar comigo," ele disse suavemente, lembrando Harry da segunda condição que havia imposto para comparecer ao baile.
Draco estava muito perto, perto o suficiente para que seus dedos encontrassem os de Harry embaixo de suas capas. O coração de Harry bateu um pouco mais rápido enquanto observava o Salão Principal por um local que os proporcionasse maior privacidade. Ele tinha a Capa da Invisibilidade, mas mesmo que não fossem vistos, isso não impediria que trombassem neles. Outros casais já tinham tomado posse dos cantos do salão. . . e então Harry avistou o local perfeito.
"Avise as garotas que vamos sair por um tempo," ele sussurrou para o Draco. "Então me encontre atrás da terceira árvore de Natal, logo ali."
Draco olhou para o local que Harry estava indicando e concordou. Ele foi à direção das duas meninas e Harry começou seu caminho pela multidão de dançarinos. No caminho, ele viu Hermione e Rony sentados em uma mesa e fez um desvio naquela direção.
"Ei," ele disse, sentando-se no assento vazio da Gina. "Eu só posso ficar um segundo. Não está ótimo esse ano?" ele sorriu, gesticulando na direção do Salão.
"Você certamente está ótimo!" Hermione disse, sorrindo. "E parece que você está se divertindo."
"É," Rony disse, sua boca virada em uma pequena careta. "Que entrada que você fez. Quase me deu um ataque no coração."
Harry riu. "Isso, assim como as vestes, foi ideia do Draco." Ele se inclinou para frente e colocou sua mão esquerda na mesa na frente deles. "Eu só queria mostrar para vocês o meu presente de Natal."
Demorou um momento, mas então Hermione arfou em surpresa. "Ah, Harry," ela disse, alcançando para tocar sua mão. "É lindo!"
A boca de Rony caiu aberta, sem fala.
"É mesmo, não é?" ele disse orgulhosamente, levantando-se. "Mas eu tenho que ir. Depois vocês podem ver melhor."
Rony se desleixou em sua cadeira. "Você não acha que ele ficou noivo daquele babaca, não é?" ele gemeu, observando Harry afastar-se.
Hermione teve o bom senso de rir da cara dele.
Mas Rony manteve seus olhos em Harry e o viu fazer a coisa mais curiosa – o viu caminhar até a árvore de Natal e rodeá-la por um momento, como se estivesse admirando os enfeites, e então repentinamente desaparecer atrás de uma e não voltar. Rony se sentou mais reto. O que Harry estava fazendo? Ele queria ver se Harry reapareceria, mas depois um ou dois minutos, ao invés de Harry reaparecer, Malfoy se aproximou e fez a mesma coisa. Então Hermione o chamou para dançar novamente, dizendo que a música era tão lenta e bonita, e Rony decidiu não mencionar nada ainda e ver o que aconteceria. Afinal de contas, Harry estava suficientemente a salvo no momento. O que Malfoy possivelmente poderia fazer em um local lotado como esse. . .?
…
…
Atrás das árvores, com as luzes das fadas criando esferas brilhantes de variadas cores acima deles, Harry puxou Draco para baixo da Capa da Invisibilidade. A música tinha uma melodia triste e um ritmo, uma batida sutilmente sedutora. Os braços de Draco vieram ao redor do seu pescoço, e Harry permitiu que os movimentos mais certos, mais graciosos do outro garoto o guiassem enquanto eles se inclinavam um contra o outro, circulando suavemente. Harry fechou os olhos, deixando a música e o Draco preencherem sue mundo, deixando todo o resto esvair. Sentiu Draco acariciar sua orelha com o nariz, e se virou para que o cabelo loiro fino tocasse sua face.
"Você não é um dançarino tão ruim," Draco disse com a voz baixa na orelha de Harry.
"Você não pode esperar que eu lidere," Harry sussurrou, sorrindo.
Draco o puxou para mais perto, e eles relaxaram um contra o outro, seus corpos balançando juntos ao ritmo da música. Os quadris de Draco estavam ondulando contra os seus e Harry sentiu uma primeira onda de calor tomar conta de si. Ah. Seus braços estavam em volta da cintura de Draco e repentinamente ele queria. . . Ele hesitou por um momento, então vagarosamente desceu suas mãos para baixo, até os quadris de Draco. Ele sentiu a suave inalação de Draco em sua bochecha, e corou novamente.
Harry beijou o lado do rosto de Draco, na frente de sua orelha. Uma das mãos de Draco veio apanhar o cabelo de Harry, e Harry se afastou um centímetro, virando a cabeça para encontrar a boca de Draco com a sua. Então eles estavam se beijando e Draco estava quente, deixando Harry sem ar e fazendo arrepios de desejo correr por seu corpo. Draco quebrou o beijo com um suspiro, e Harry abaixou sua cabeça para pressionar mais um beijo demorado no pescoço de Draco, no ponto macio logo abaixo do ângulo de sua mandíbula. Draco estava tão macio nos braços de Harry, sua pele embaixo da boca de Harry estava quente. Harry sentiu como se seu coração batesse no ritmo da música, sentiu o eco no pulso de Draco embaixo de seus lábios, o toque das mãos de Draco o completando, ao mesmo tempo, com desejo e com um sentimento de pertencimento.
"Vamos lá fora," Draco sussurrou.
…
…
"Eu não acredito que ele veio com aquela menina do sexto-ano, e com Potter!" Pansy reclamou enquanto dançava com Blaise. "Sentados lá juntos, todos tranqüilos e amiguinhos, quando todo mundo sabe que eles se odeiam! O que o pai dele diria?"
Blaise deu de ombros. "Eu vi o Draco com o Potter em Hogsmeade alguns dias atrás no Três Vassouras. Eles não pareciam se odiar nem um pouco." Ele franziu as sobrancelhas. "Mas o Draco me disse que é tudo parte de um plano dele, e ele não quer que ninguém interfira. Você deveria ficar fora disso, Pansy."
Pansy sorriu para ele inocentemente. "Que tipo de plano?"
"Eu não sei," Blaise disse vagarosamente, incerto. "Draco não quer que eu comente nada. Ele foi bem claro em relação a isso."
"Mas você já falou sobre isso, amor." Ela piscou os olhos para ele. "Você pode contar para mim. . ."
Blaise olhou para ela, considerando. Ele esteve muito intrigado quando ela o convidou para o baile. Ela flertava descaradamente com qualquer membro do sexo masculino, mas todos os Sonserinos sabiam que ela só tinha olhos para o Draco, e os flertes dela eram apenas tentativas em vã de apanhar a atenção de Draco ou deixá-lo com ciúmes. Blaise imaginava que hoje não era diferente, mas a situação o presenteava com uma oportunidade da qual estava mais que disposto de aproveitar. E o interesse dela no plano de Draco agora poderia ser justamente a coisa para ajudá-lo. Mas Draco havia deixado uma impressão um tanto quanto temerosa nele, tinha insinuado conexões com poderes que Blaise não queria insultar. Todo o flerte do mundo que Pansy pudesse fazer não valeria a pena. "Não," ele disse. "E ponto final," ele adicionou, vendo-a fazer um bico. "Eu prometi não falar a respeito."
Eles dançaram em silêncio por vários minutos. Blaise estava planejando vários esquemas para que conseguisse levar Pansy até um corredor deserto mais tarde e tentar beijá-la, e se conseguisse, imaginou quão longe poderia levar as coisas. Enquanto isso, Pansy estava imaginando se conseguiria manipular Blaise a beijá-la em uma sala de aula vazia, e se conseguisse, quão longe teria que ir para que ele contasse o plano de Draco. Então algo passou despercebido por eles. Repentinamente, Pansy gritou, pulando em apenas um pé, o outro levantado dolorosamente.
"Que merda, Blaise!" ela arfou. "Você acabou de esmagar o meu pé!"
"Eu não!" Blaise protestou, surpreendido. "Eu sei que não fui eu."
"Bem, quem mais poderia ter sido!" ela sibilou. "Eu certamente não pisei no meu próprio pé!"
"Não fui eu!"
"Foi sim!"
Blaise a encarou com a cara feia, abandonando todos os pensamentos de corredores escuros em um segundo. "Ah, que seja," ele disse, indignado. "Se você vai começar a pisar no próprio pé, pode dançar sozinha também!" Ele marchou na direção de Crabbe e Goyle, que estavam alegremente se estufando de mini tortas, bastão de doces e creme de abóbora na mesa de sobremesas.
Pansy observou as costas dele se afastando, irritadamente massageando seu pé latejante. Ela mancou até a mesa deles e se sentou, esticando o pescoço para ver a mesa de Draco. As duas meninas estavam lá, cabeças próximas em um papo íntimo, mas Draco e Potter não estavam. Ela se desleixou na cadeira, momentaneamente derrotada, mas determinada a esperar. Se as garotas estavam ali, eles voltariam.
Pansy certamente não escutou as vozes invisíveis rindo na entrada do salão, enquanto as portas se abriam aparentemente sozinhas.
"Meu Deus, Draco," disse uma das vozes com um riso sussurrado. "Você vai deixar alguém paralítico um dia desses."
"Ah, ela mereceu," respondeu a voz satisfeita, seu tom cheio de indignação justificada. "Ninguém derruba ponche no meu par – " Então as portas se fecharam e ficou apenas o silêncio no hall.
…
…
Rony, ainda vigilante apesar da desaprovação da Hermione, havia mantido uma observação constante desde que viu Malfoy desaparecer atrás das árvores de Natal. Agora, alertado pelo escândalo feito por Pansy, viu algo suspeito acontecer entre o local em que Pansy e Blaise estavam dançando e as portas do Salão Principal. Alunos estavam dançando, mas eles pareciam ir um pouco para o lado, criando espaço, inconscientemente sentindo outro casal encostando neles ou atrás deles mas sem perceber que não tinha ninguém ali. Do ponto de vista alto e privilegiado de Rony, enquanto dançava com Hermione no outro lado do salão, parecia como se algo invisível estivesse fazendo seu caminho pela multidão, criando um corredor de espaço vazio por um momento, que progrediu em uma linha reta até as portas. Se não estivesse tão familiarizado com a Capa da Invisibilidade de Harry, ele provavelmente também não teria percebido ou não teria dado atenção. No entanto, como ele sabia da Capa, e como ele não estava vendo Harry ou Draco em qualquer lugar, ele chegou a uma rápida conclusão acerca do que estava acontecendo, e ainda mais rapidamente a uma decisão sobre o que fazer a respeito.
Ele parou de dançar e deu um passo para trás, sem soltar Hermione. "Você se importa se formos lá fora," ele disse quando ela o encarou, curiosa. "Eu. . . hã. . . preciso tomar um ar."
…
…
Esse ano, havia sido conjurado logo fora das portas do castelo um jardim mágico de arcos e pequenas mandris cobertos com videiras floridas – jasmins e madressilvas amarelas e glicínias azuis, clematites violeta-escuro, e rosas – um caminho profuso de flores. Trilhas em curvas de pedras brancas serpenteavam pelo labirinto de flores penduradas, e alguns casais, escapando do baile tumultuado, podiam ser vagamente avistados, sentados em bancos ornamentados ou se inclinando juntos em um dos arcos. O ar estava carregado de flagrâncias doces e de luzes piscantes de centenas de pequeninas fadas.
Quase toda a neve já tinha derretido durante o dia, apesar de haver alguns pedaços longos e brilhantes de neve deitados embaixo de arbustos e contra as paredes do castelo em que as sombras haviam abrigado do sol. Harry e Draco caminharam vagarosamente ao redor do lago, de mãos dadas, invisíveis embaixo da Capa da Invisibilidade, deixando a beleza silenciosa da noite envolvê-los. Eles pararam em um pequeno bosque de bétulas, no outro lado do lago.
A pequena clareira estava repleta de luzes oblíquas do luar, bem como de sombras curvadas criadas pelos galhos das árvores; o ar estava frio e agitado, delicioso, ainda com um gosto de neve. A capa brilhava com o reflexo do luar nas mãos Harry, acendendo pontos de cor no ar gelado enquanto eles surgiam debaixo dela, ao encontro da luz pálida e sombras azul-escuras.
Draco balançou seu cabelo, respirando fundo. "Muito melhor," ele disse. "Estava abafado ali dentro."
Harry sorriu e cuidadosamente guardou a capa. Ele deu um passo pelas árvores para ficar na luz do luar na beira da água. Do outro lado do lago, Hogwarts estava iluminada por dentro, luzes douradas vindas das várias janelas corriam, refletidas, pela água do lago, em ondulações, até os pés de Harry. Ele sentiu Draco atrás de si e fechou os olhos, esperando pelo primeiro toque das mãos de Draco, todos seus sentidos concentrados nessa expectativa. Algo que agora era parte dele estava sutilmente faltando até que aquele toque viesse, até que aquela conexão entre eles fosse restaurada. As mãos de Draco escorregaram ao redor da sua cintura por trás, braços o rodeando em um abraço, e Harry se inclinou nele. "Muito melhor," ele ecoou suavemente.
Eles ficaram assim por alguns momentos, observando a água, uma melodia baixa os alcançando da direção do castelo quando alguém abria as portas e saia, a silhueta de um casal por momentaneamente ressaltada na luz que surgia por trás deles, então perdidos novamente nas sombras quando as portas se fechavam.
Draco beijou a curva da orelha de Harry. "Eu queria te ensinar uma coisa," ele sussurrou. "Se quiser."
"Claro." Harry se virou e apanhou a mão oferecida de Draco. "O que é?"
"Chama-se Ti'kira," Draco disse "É um ritual de dança que faz parte dos ritos tradicionais de casamentos bruxos." Ele pausou por um segundo, continuando a explicar. "Os passos e gestos da dança criam um feitiço de magia antiga, um feitiço de união para selar os votos do casal e completar a cerimônia." Draco estudou a face de Harry, seus olhos intensos e claros na luz do luar. "Eu nunca vou dançar isso com outra pessoa," ele adicionou suavemente. "Você quer. . . dançar comigo?"
A voz de Draco segurava uma gravidade solene que fez Harry se arrepiar, compreendendo a seriedade do que Draco estava lhe contando, e do que estava lhe pedindo. "Sim," Harry disse, igualmente sério, mesmo enquanto excitação começava a se acumular dentro dele pelo que estavam prestes a fazer, pelo que Draco iria lhe ensinar e tornar deles hoje. E Harry soube, sem precisar ouvir mais qualquer palavra, que isso seria real para eles, que dois corações seriam unidos tão certamente por consentimento mútuo e pela magia da dança no luar quanto em um casamento de verdade, mesmo que só eles estivessem ali para testemunhar. "Eu danço com você," ele disse.
…
…
Rony e Hermione saíram do castelo e pausaram por um momento do outro lado das portas – Hermione apreciando a beleza dos jardins, e Rony escaneando o terreno por algum sinal de Harry e Draco. Ele tinha certeza do que tinha visto, certeza de que eles tinham saído do Baile por baixo da Capa da Invisibilidade. Ele estava simplesmente adivinhando que eles tinham saído do castelo, é claro – eles poderiam ter desaparecido dentro da escola, ou ido ao quarto de Draco. Então ele avistou um movimento do outro lado do lago, luz do luar em cabelos loiros, e viu uma figura escura se virar e seguir a cabeça loira na direção das árvores do outro lado do lago. Ele sabia!
Nesse momento, Rony decidiu que a honestidade era a melhor e, na verdade, única opção. Hermione era esperta demais para acreditar que eles coincidentemente teriam encontrado o Harry e o Malfoy do outro lado do lago se ele insistisse em caminhar até lá. Ele respirou fundo e confessou o que viu.
A princípio, Hermione se recusou a ir com ele, mas ele continuou firme – não confiava no Malfoy e tinha que checar se Harry estava bem. Ela rapidamente percebeu que ele não iria ceder, e que não teria um momento de paz até que ambos fossem. E ela não se atreveria a deixá-lo ir sozinho – vai saber o que ele poderia fazer. Com um suspiro, ela concordou, e eles iniciaram a caminhada ao redor do lago. Hermione tinha uma ideia do que eles iriam interromper, tendo entrado no quarto de Draco e visto os dois naquela noite, e com um repentino sentimento de justiça perversa, ela pensou que Rony merecia o que estava prestes a presenciar.
…
…
Draco levou Harry novamente até a clareira, e eles ficaram próximos um ao outro no centro, banhados pela luz do luar. "Eu vou começar devagar," ele disse, dando um passo para trás e soltando a mão de Harry. "Tudo que você tem que fazer é me imitar."
Harry concordou, dando um sorriso provocador. "Você vai me fazer dançar a parte feminina, não vai?" ele perguntou.
"Um de nós tem que," Draco disse com um sorriso. "E como eu estou liderando. . ."
"Tá bom," Harry riu. Ele estava animado, com a luz do luar refletindo no ar gelado, com a presença quente de Draco, com a antecipação desse novo tipo de magia. "O que fazemos?"
"É uma dança antiga," Draco disse, "e muito séria. Os movimentos devem ser calmos e reverentes. Então. . ." Ele fez uma reverência graciosa, com um braço dobrado na frente da sua cintura, e o outro estendido em linha reta atrás dele.
Harry imitou o movimento, apesar de ter que sufocar um impulso breve e engraçado de fazer um movimento rotativo com a mão à sua frente. Foi um pensamento ligeiro e ele conseguiu se endireitar e encarar Draco com o nível apropriado de seriedade e respeito para o que estavam fazendo. Especialmente considerando que Draco estava tão bonito na luz do luar, pálido e etéreo, quase como se ele mesmo fosse feito da luz do luar. Outro arrepio correu por Harry – ele conseguia sentir a magia tremendo nos cantos de sua percepção, podia sentir que eles estavam começando a invocar um feitiço muito poderoso, um feitiço que iria intricar o amor que eles sentiam e torná-lo fixo entre ambos.
Draco estendeu suas mãos e deu um passo à frente. Harry repetiu o ato, e eles deram as mãos. Dessa posição, Draco começou a ensinar a dança. O passo básico utilizado em toda a dança era simples – no entanto, as seqüências de passos para frente e para trás e as giradas, combinadas com os movimentos de mãos, necessários à criação do padrão da magia, eram muito mais complexos, e com isso Draco demonstrou que poderia ser um professor muito habilidoso.
Harry seguiu Draco pela dança inteira uma vez, bem vagarosamente. As mãos deles, às vezes dadas e às vazas apenas encostadas palma a palma, estavam quase sempre se tocando. Eles circularam, viraram-se, e circularam novamente, aproximaram-se e depois se afastaram um metro, enquanto suas mãos desenhavam lentos símbolos e linhas e círculos entre seus corpos em arcos graciosos acima de suas cabeças.
Eles praticaram o padrão inteiro duas vezes, e Harry sentiu que tinha decorado tudo ao final da segunda vez. Começando a dança pela terceira vez, ele se sentiu quase como se estivesse flutuando em um sonho iluminado pela luz do luar. Dessa vez era para valer. Ele sentiu a magia se levantando, flutuando com eles, os movimentos iguais e graciosos de ambos traçando os padrões entre eles, tecendo o feitiço perfeitamente. Magia vibrava no ar; um silêncio poderoso os rodeava. Harry olhou nos olhos de Draco, prateado brilhante na luz do luar, sentiu o toque das mãos de Draco nas suas, tão quentes e certas com afeição gentil, e seu coração se preencheu de amor por esse lindo parceiro. A magia o preencheu também, enrolando-se no seu coração e no de Draco, amarrando-os juntos, uma junção de dois corações conscientes. As mãos deles se encontraram e se moveram juntas, e Harry viu as faíscas brancas e douradas brilharem no ar, seguindo o caminho do padrão que eles traçavam.
Então Draco falou muito suavemente para não quebrar o feitiço. "Não pare," ele disse, "mas, nós temos companhia. Parecem ser a Granger e o Weasley."
"O Rony," Harry sussurrou, "provavelmente estava preocupado. Desculpa."
Draco sorriu para ele. "Ah, eu não me importo," ele disse. "Com certeza ele sabe o que estamos fazendo. O que significa que ele vai ter um ataque cardíaco a qualquer momento."
Harry sorriu e Draco sorriu em resposta, aquele sorriso verdadeiro magnífico que sempre deixava Harry sem fôlego.
"Você consegue ver as faíscas, Harry? Entre nossas mãos, como naquela noite?"
"Sim."
"Você acha que conseguiria torná-las visíveis? Se eles vão mesmo assistir, vamos deixar isso espetacular."
…
…
Hermione seguiu o Rony ao redor do lago até o bosque de bétulas em que Draco estava ensinando a Harry os passos da dança. Eles se esconderam nas sombras das árvores, onde, com sorte, eles não seriam vistos. Ela se sentiu bastante relutante em ficar ali, observando, espiando, mas sabia que não poderia deixar Rony sozinho, já que a situação envolvia o Harry e o Draco. Depois de observar por alguns minutos, ela estava prestes a comentar que Harry estava obviamente bem e insistir em que voltassem, quando Rony arfou quietamente.
"Meu Deus," ele sussurrou com um sibilo chocado. "Olhe o que eles estão fazendo!"
"O quê?" Hermione perguntou, confusa e ligeiramente alarmada, parcialmente pelo tom de voz dele e parcialmente por medo de que o sussurro alto dele fosse ouvido. "Parece que Draco está ensinando ao Harry algum tipo de dança folclórica. Não vejo o que -"
"Aquilo não é uma dança folclórica!"
Rony estava obviamente bravo, e Hermione pegou com firmeza o braço dele, com medo que ele saísse dali e fizesse alguma coisa idiota e impulsiva. "O que é então?"
"É um feitiço muito antigo," Rony disse, virando para observá-la, olhos arregalados com preocupação. "A Ti'kira. Você não reconhece?"
"Não," Hermione disse. "Eu nunca ouvi falar disso. O que faz? Por que você está tão chateado?"
Rony grunhiu. "É a dança de casamento. Nós não podemos deixar Harry continuar – ele não sabe o que está fazendo." Ele se moveu como se para ir até lá resgatar o Harry, e Hermione apertou sua mão no braço dele.
"O que quer dizer, a dança do casamento? Rony, explica. O que exatamente Harry está fazendo? Você não quer dizer que ele. . . que ele e o Draco estão. . . se casando, de alguma forma. . . bem aqui, agora."
"Não, não, não casados," Rony gemeu. "Mas é um tipo de feitiço de união e é bem sério, como um juramento, por si só," ele sussurrou, muito transtornado. "Nem mesmo o Malfoy levaria essa dança na brincadeira."
Hermione se virou para assistir aos dois meninos. Harry estava aprendendo bem rapidamente e começando a se mover graciosamente com Draco pelos passos da dança. Havia uma elegância adorável começando a se mostrar nos movimentos espelhados dos dois corpos, nos padrões desenhados entre eles com suas mãos, e um sentimento de profunda intenção na maneira como eles se encaravam. "Você viu aquele anel," ela disse. "Eu diria que o Harry provavelmente sabe exatamente o que ele está fazendo." Ela apertou o braço de Rony como alerta. "E nós não vamos interferir." Ela adicionou com firmeza.
Rony não respondeu, apenas suspirou fracamente em derrota, então se levantou, observando junto com Hermione enquanto Harry e Draco terminavam seu segundo treino e começavam a dança novamente, dessa vez se movendo com uma sincronização perfeita e fluida entre eles. Havia um silêncio no ar agora, como se a magia estivesse traçando um círculo de amor ao redor deles, e alcançando, arrastando até os espectadores em seu feitiço.
"Nós vamos fazer isso no nosso casamento?" Hermione sussurrou, soltando o braço de Rony e escorregando sua mão na dele.
"Sim. E desculpa. Eu teria te contado antes, mas eu esqueci que você não tinha como saber," Rony respondeu, contrito. "É um conhecimento que foi passado apenas por famílias bruxas, não em livros."
"Você terá que me ensinar."
"Minha mãe pode te ensinar – você não deve dançar com seu parceiro antes da hora."
Hermione concordou, virando-se novamente para observar a dança, mesmerizada. "É muito lindo," ela disse quietamente.
Harry estava sorrindo. Draco estava sorrindo também, sorrindo para Harry na luz brilhante do luar com uma genuinidade que era magnífica. Os movimentos deles estavam perfeitamente espelhados agora, os toques de suas mãos eloqüentes com afeição. Repentinamente, pequenas faíscas de luz dourada e prateada caíram em cascata e voaram ao redor deles, seguindo os movimentos de suas mãos. Eles pareciam, por um momento, estarem cobertos de luz. Hermione imaginou que eles poderiam incandescer.
Rony inspirou repentinamente. "Eu nunca vi nada assim." Ele ficou bem parado, incapaz de desviar o olhar, então falou muito suavemente, como se estivesse falando mais com si mesmo do que com a Hermione. "Talvez ele realmente ame o Harry."
"Sim," Hermione respirou. "É isso que todo mundo vem tentando te dizer."
"Mas eles são tão diferentes," ele protestou fracamente.
"E nós não somos?" ela perguntou com uma risada silenciosa.
Rony sorriu para ela e deu de ombros, concedendo esse ponto sem protestar.
"Houve um momento em que eu teria dito que eles são completamente diferentes," Hermione continuou, pensativamente. "Mas agora não tenho tanta certeza. Eles são bem parecidos de algumas maneiras. Eu os vejo não tanto como diferentes, mas sim como duas partes opostas de um todo. Não sei se eles conseguem ficar um sem o outro agora."
Rony considerou isso e teve que finalmente admitir a verdade. "Você vem comigo," ele pediu sem jeito, "quando eu tiver que ir pedir desculpas ao Malfoy?"
Hermione ficou na ponta dos pés e sorriu, beijou-o e deu um passo para trás. "Vamos," ela disse. "Você pode fazer isso amanhã. Eu acho que nós já invadimos a privacidade deles por tempo suficiente." Ela ofereceu uma mão para ele. "Vamos voltar. Eu quero caminhar pelos jardins."
Com um último longo olhar para Harry e Draco, Rony apanhou a mão dela e se permitiu ser conduzido na direção do castelo. "Eu aposto que algumas pessoas vão receber o que estavam desejando essa noite," ele disse pensativamente. Hermione o lançou um olhar reprovador. "Não se preocupe," ele adicionou com a voz baixa, "eu sei que eu não serei uma delas."
…
…
Draco terminou a dança com outra reverência graciosa.
Harry retornou o gesto e ficou observando o loiro. O ar parecia eletrizado com magia. "O que acontece agora?" ele perguntou quietamente, seu coração cheio, um pouco intoxicado com a corrente de poder entre eles. "Na cerimônia de verdade?"
"O anúncio de que o casal é marido e mulher. . ." Draco pausou, trazendo Harry para perto novamente. ". . . e então isso. . ." Por um segundo, ele não se moveu, apesar ficou ali encarando os olhos verdes brilhantes. Ele levantou uma mão para tocar o rosto de Harry, então inclinou sua cabeça para beijá-lo, gentilmente, intensamente, como uma promessa de coisas futuras entre eles.
Os braços de Harry foram ao redor da cintura de Draco e ele segurou firmemente, deixando Draco devorar sua boca e dizer coisas que palavras não conseguiriam expressar. Palavras nunca carregariam o significado dessa respiração quente em sua bochecha, ou do toque dessa mão, ou da batida de dois corações sincronizados.
Draco se afastou um pouco e descansou sua testa na de Harry. "Eu não quero voltar ao Baile," ele disse suavemente, "e todas aquelas pessoas. Eu quero ficar com você, lá no meu quarto. . . só nós dois."
"Eu gostaria disso," Harry disse, sem fôlego, excitação correndo em suas veias com as palavras de Draco. "Vamos encontrar as meninas. Talvez elas queiram ir embora também." Ele relutantemente se afastou do abraço e encontrou a Capa da Invisibilidade. "Você acha que precisamos disso agora?"
"Não," Draco disse. "É melhor você encolher e guardar. Eu acho que ninguém vai perceber a nossa volta." Ele riu endiabradamente. "E se perceberem, e quiserem se chocar, bem. . . está ótimo, também, não é?"
Harry sorriu e fez o feitiço. Então com a capa escondida em seu bolso, eles voltaram ao castelo.
"Pensando bem," Draco disse, desacelerando o passo e se virando para Harry enquanto eles se aproximavam dos jardins perto da entrada do castelo, "talvez precisemos da capa. Mesmo depois de hoje, é melhor que você não seja visto indo para o meu quarto. Depois de pegarmos as meninas, seria melhor que nos separássemos no topo das escadas das masmorras. Eu desço na direção da sala comunal da Sonserina e você sobe como se estivesse indo em direção da Grifinória."
"E eu dou meio volta assim que sair de vista e te sigo usando a capa."
Draco concordou. "Há muitos olhos que podem estar observando hoje." Ele levantou uma eloqüente sobrancelha. "Nós não queremos nenhum gato perdido interferindo dessa vez."
Harry sorriu pesarosamente. Realmente, não queriam.
"E Harry," Draco disse, sua voz baixa, reservada. "Se você chegar antes que eu no meu quarto, a senha da minha porta. . . é o seu nome."
…
…
Pansy saiu de seu quarto e ficou na frente de sua porta, do lado de fora, olhando ao seu redor. Ela tinha certeza de ter ouvido passos subindo as escadas há um minuto, mas ninguém estava ali. Ela estivera escutando de dentro de seu quarto com a porta um pouco aberta, esperando Draco voltar. Franzindo as sobrancelhas, lembrou-se da facilidade com que Draco havia desligado o alarme dela nessa tarde, e como havia colocado um próprio para impedir que ela fizesse outro. Ela se sentou no primeiro degrau e esperou. Não tinha como ele passar despercebido dessa maneira. Draco certamente estaria retornando a qualquer momento – e ela estava determinada a conversar com ele.
Ela tinha o visto deixar o Baile cedo, escapando do Salão Principal com o Potter e com aquelas duas meninas atrás deles. Ela os seguiu tempo o suficiente para ver que eles foram até o topo das escadas das masmorras, e enquanto ela observava, viu Potter saudá-los educadamente e ir em direção às escadas principais enquanto Draco levava as meninas até o dormitório Sonserino. Ele já teve, ela pensou, tempo mais que suficiente para levar aquelas meninas até seus dormitórios, a não ser que. . . Tardiamente, ocorreu-lhe que Draco pudesse ter a intenção de ficar com seu par por um tempo – talvez eles já estivessem se beijando no salão comunal da Sonserina. Ela se arrepiou, mais devido a esse pensamento revoltante do que ao ar gelado da torre.
Ela estava imaginando se teria coragem de ir lá embaixo encontrá-lo, e se conseguiria suportar o que talvez visse, quando ouviu passos rápidos subindo as escadas. Um segundo depois, Draco apareceu por detrás da curva da escada, pulando dois degraus de cada vez. Ela perdeu o fôlego porque nunca tinha visto ele do jeito como estava agora – corado e sorrindo. . . obviamente feliz, maravilhoso em suas roupas formais, seu cabelo jogado para trás por causa da corrida. E um momento depois, quando o rosto dele se transformou ao vê-la, ela sentiu como se tivesse levado um tapa, teve que se segurar para não deixar as lágrimas caírem na frente dele, apesar de saber que elas viriam depois, incessantemente. Levantando-se, ela se abraçou e o encarou, bloqueando seu caminho. "Eu estava esperando por você," ela disse, levantando o queixo.
"Obviamente," Draco disse equilibradamente, mantendo uma distância, cruzando os braços na frente de seu peito. "Por quê?"
Ela quebrou um pouco em face do tom de voz dele – ela havia se preparado para raiva, especialmente depois do que fez no Baile, mas ao invés disso, a voz dele ainda tinha um pouco da excitação e da felicidade que ela tinha visto em seu rosto um momento atrás. Ela não tinha defesa contra ele quando ele estava quieto, quase amigável, desse jeito. "Draco," ela começou, lutando para se manter calma. "Eu te conheço. E ao contrário do que toda a escola acredita, eu sei que você nunca levou uma menina para dormir no seu quarto até duas noites atrás." Ela deu um passo na direção dele, sentiu seu controle quebrando ainda mais ao vê-lo, sabendo que ele estava tão próximo e ao mesmo tempo tão fora de alcance. "É só que. . . eu não entendo o que você pode possivelmente ver naquela menina boba e forçada do sexto-ano," ela disse, seu desespero aparecendo, as lágrimas não derramadas claras em sua voz. "Ela é. . . uma ninguém. Eu não consigo acreditar que ela penetrou aquela parede de gelo atrás da qual você se esconde. . . enquanto eu venho tentando há anos."
"Ah," Draco disse, tão frio e exasperante como sempre, "mas veja bem, você não me conhece tão bem quanto pensa." Ele inclinou levemente a cabeça, analisando-a com intensidade. "E você não iria gostar da verdade mais do que já imaginou."
Ela fechou os olhos por um segundo, engolindo seu orgulho. "Você acha que tem algo pior que você pode me contar. . . do que o fato de você escolher aquela vadia insignificante e não eu?"
Ele pausou, debatendo em sua mente quanto revelar a ela. "Você está completamente enganada a respeito da menina," ele disse após um momento. "Eu nunca deixei uma menina passar a noite no meu quarto – e nunca vou deixar. Não aquela menina do sexto-ano. . . nem você. . . nunca."
Ela tentou ignorar a última parte, porque apesar de ter sido dito quietamente, machucou-a. "Você não pode ficar negando," ela respondeu, indignação permitindo-a um momento de força. "Eu sei que você teve alguém no seu quarto a noite inteira, Draco. Eu posso não ser tão boa quanto você em feitiços, mas eu consigo colocar um alarme perfeitamente."
"Eu não estou negando isso," ele disse sem emoções. "Pansy, pense. Se você sabe que eu tive alguém no meu quarto e eu disse que não é aquela menina, ou qualquer menina. . ." Ele suspirou enquanto ela franzia as sobrancelhas, confusa. "Eu passei a noite com a pessoa que foi meu verdadeiro par nessa noite."
"Verdadeiro par? Mas quem. . .?" Os olhos dela se arregalaram quando um pensamento inteiramente novo e bastante chocante ocorreu-lhe. "Potter?" Ela olhou para o Draco em horror e viu que não havia um fio de negação no olhar frio dele. "Ah meu Deus. . . quer dizer que você está – " Ela se engasgou em descrença. " – dormindo com o Potter?" Ela encarou ele, olhos gigantescos, sua mão subindo para cobrir sua boca por um momento. "Deus, Draco," ela disse finalmente, "como você consegue agüentar isso? O Blaise disse que você estava com ele por causa de algum plano, mas isso já é levar as coisas longe demais, não acha? Quero dizer, forçar-se a dormir com um menino já é ruim o suficiente, mas o Potter?"
Ele a encarou por um segundo, incrédulo com a recusa dela em entender o que ele estava obviamente dizendo. "Ninguém," ele disse, seu lábio curvando em desgosto, "me força a fazer nada. Você, de todas as pessoas, deveria saber disso. Se eu estou dormindo com um 'menino', é porque eu quero, porque é o que eu gosto." A voz dele continha aquela ponta familiar de raiva agora. "E eu não estou 'dormindo' com o Potter. Não que eu espere que você entenda a diferença entre isso e o que é estar com alguém que você ama."
Ele rapidamente deu alguns passos à frente para que eles estivessem muito próximos, então passou encostando nela para subir as escadas. Pausando, com um pé no segundo degrau, ele virou. "Não pareça tão chocada," ele disse, uma faísca de entretenimento clara em seus olhos. "Você não me engana nem um pouco com seu show de nojo. Eu sei muito bem que você não iria jogar o Potter para fora se ele fosse te visitar." Ele se inclinou bem perto, sua voz quente no rosto dela. "Mas ele não irá," ele sussurrou, e tinha um tom escondido de triunfo na voz dele. "Ele está comigo." Então ele sumiu, saltando dois degraus por vez.
Pansy observou ele ir, a verdade repentinamente e vagarosamente se registrando, ao mesmo tempo, choque rolando em ondas poderosas por trás de camadas de percepção rapidamente desaparecidas, e as lágrimas que ela soube que iriam vir começaram antes mesmo que ela chegasse até a porta. Ela fechou a porta atrás de si quietamente e se inclinou contra ela, fechando os olhos, deixando as lágrimas quentes correrem sem restrições. De alguma maneira. . . ela deveria ter percebido, ou pelo menos desconfiado, depois de todos os anos de rejeições, que ele era gay. Mas ela não tinha. Nunca tinha sequer considerado, acreditando que a frieza era parte da natureza de Draco, acreditando que ela o entendia melhor do que qualquer outra pessoa. Acreditando que com o tempo ele perceberia isso, finalmente a perceberia. Por que ele não tinha dito isso antes, ao invés de deixá-la se humilhar correndo atrás dele? Ele e Potter provavelmente tinham dado boas risadas por causa disso.
Então o rosto dela ficou em chamas quando se recordou da última coisa que ele disse. Havia algo familiar naquelas palavras, como se ela as recordasse de algum lugar, mas a memória era fina e passageira e impossível de apanhar. Ela jogou a cabeça para trás em negação, e afastou o pensamento elusivo de sua mente. E daí? Ela pensou. Toda menina que ela conhecia tinha uma paixão secreta pelo Harry Potter ou pelo Draco Malfoy, ou ambos. E daí se ela tinha uma pequeníssima e longe de séria queda pelo Potter. Era o Draco que ela queria, que ela sempre quis. . . Então o pensamento dos dois juntos desabou em cima dela.
Ama, Draco tinha dito, e ela se viu forçada a reconhecer que, realmente, amor era o que tinha visto na face dele nessa noite, subindo as escadas, e ela agora sabia por que nunca tinha visto a expressão antes. E sabia outra coisa também. Ela não estivera enganada quando ouviu passos silenciosos subindo as escadas mais cedo. Potter estava lá agora, com o Draco, e eles. . . ah Deus, ela não queria nem pensar no que eles poderiam estar fazendo. Resolutamente, ela limpou as lágrimas de seu rosto amargo e andou até sua escrivaninha para apanhar um pergaminho e uma pena. Lúcio Malfoy, ela decidiu, poderia se interessar em saber o que o filho dele estava aprontando, e, especialmente, com quem.
…
…
Draco passou pela porta de seu quarto e a fechou atrás de si. As lâmpadas estavam apagadas, então o quarto estava escuro, apenas a luz fraca vinda da lareira o permitindo enxergar. "Harry?"
"Aqui," veio uma voz baixa da cama. "Eu fiquei pronto para dormir enquanto te esperava."
"Eu acabei de fazer uma coisa. . . inesperada," Draco disse como se estivesse surpreso consigo mesmo. Ele andou até a cama, começando a desfazer os botões de suas vestes. "Eu acabei de contar para a Pansy sobre nós – a verdade."
Harry se sentou, inclinando-se na cabeceira da cama, seus joelhos encolhidos embaixo das cobertas.
As vestes que ele havia vestido estavam dobradas cuidadosamente ao lado da cama. "Eu bem que achei que ela poderia estar esperando por você," ele disse. "Ela saiu do quarto dela assim que eu passei pela porta dela – acho que ela me escutou subindo as escadas. Eu tive que parar e retirar as minhas botas antes que pudesse continuar a subir."
Draco se sentou na beira da cama, suas vestes parcialmente abertas, e sorriu conspiratoriamente para o Harry. "Ela realmente achou que eu gostava daquela menina – eu não podia deixá-la acreditar em algo tão revoltante."
Rindo suavemente, Harry disse, "eu achei que essa era a questão de sair com aquelas meninas – fazer as pessoas acreditarem que estávamos com elas." Então ele sorriu secamente. "Certamente ela ficou ainda mais indignada ao descobrir que você estava na verdade comigo."
"Sim," Draco riu, feliz por ter pelo menos extraído um nível adequado de choque de pelo menos uma pessoa. "Ela não quis acreditar, no início."
"Eu queria poder ter te avisado que ela estaria lá."
Draco se levantou e retirou as vestes por cima de sua cabeça. "Não importa," ele disse, despreocupado, enquanto foi pendurar as vestes em seu armário. "Eu consigo lidar com a Pansy." Ele voltou à beira da cama e apanhou as vestes que Harry havia usado, então ficou imóvel por um momento. "Tem outra coisa que eu não esperava. . ." ele disse, hesitando. "Eu me senti muito bem. . . contando a ela sobre nós."
Harry sorriu para o Draco. Então um pensamento preocupante lhe ocorreu. "Você acha que ela vai contar para alguém?" ele perguntou. "Meus amigos concordaram em manter segredo."
Draco deu de ombros levemente e voltou ao seu armário para pendurar as vestes de Harry. "Essa situação a envergonharia também, se ela contasse." Ele sorriu para o Harry. "Afinal da contas, ela vem me perseguindo há quatro anos, e acabou de descobrir que estava apostando no time errado. Ela está brava no momento, mas eu não acredito que ela vá contar a alguém." Ele terminou de se despir até ficar de cueca, então foi até a porta do banheiro e pausou ali. "De qualquer jeito, eu não ligo mais tanto. . . para quem saiba," ele disse com a expressão pensativa enquanto observava Harry. "Eu já volto."
A porta do banheiro se fechou atrás de Draco e, após um momento, Harry escutou água correndo. Ele inclinou sua cabeça contra a cabeceira e encarou a porta fechada, refletindo sobre as últimas palavras de Draco. Era realmente surpreendente, ele pensou, Draco não se importar que pessoas soubessem sobre eles agora. Mas era bom. Harry sorriu e olhou novamente para o anel que estava usando.
Enquanto ele esteve esperando o Draco chegar ao quarto, ficou sentado ali girando o anel em seu dedo, refletindo o quão incrivelmente bonito e delicado ele era, com belíssimos detalhes, bem como o próprio fato dele estar usando-o, para começar. Esse anel, e o feitiço que haviam lançado com a dança nessa noite, levaram a uma conclusão muito séria na mente de Harry – a mesma pergunta, na verdade, sobre a qual ele tinha penado tanto na noite passada. Agora, mais do que nunca, ele queria conversar com o Draco sobre o futuro deles.
E ele queria saber, também, o que essas coisas significavam para o Draco. Ele se lembrava bem do que Draco havia dito na primeira noite em que Harry veio até seu quarto - "Eu queria esperar até que eu amasse alguém, até que alguém me amasse." Isso era verdade agora – as palavras haviam sido ditas, eles tinham acabado de dançar um feitiço de união oriundo de magia antiga, e Harry estava usando o anel de Draco – o que mais ele poderia estar esperando? Essa noite, Harry imaginou, depois de tudo isso, será que Draco ainda iria desejar esperar pelo fim do jogo?
Então quando Draco saiu do banheiro alguns minutos depois, Harry estava cheio de perguntas e coisas importantes para dizer. Mas quando Draco subiu na cama para sentar ao seu lado, usando apenas cuecas, seu ombro nu e joelhos encostando os de Harry, pele macia tocando pele, as palavras pareciam evaporar em um silêncio de expectativa, imaginação e antecipação. Ele se sentia particularmente afetado pela presença de Draco nessa noite – um efeito de tudo que haviam feito nessa noite – então ele ficou sem se mexer, tentando suprimir sua antecipação nervosa, e esperou para ver o que Draco faria.
Draco se virou para Harry, observando-o por um segundo e então balançando a cabeça ligeiramente. "Esses têm que ir embora," ele disse com uma voz baixa e provocadora enquanto alcançava uma mão e retirava os óculos de Harry. Ele os dobrou cuidadosamente e os colocou na mesa de cabeceira atrás de si, virando-se novamente na direção de Harry com um olhar de aprovação. "Muito melhor," ele disse, colocando uma mecha rebelde de cabelo atrás da orelha de Harry.
Harry se sentiu corar com o toque e com a intensidade no olhar de Draco. Ele queria se deitar e conversar, como tinham feito antes, abraçando o loiro, dividindo com ele aquele profundo sentimento de conforto, mas com o jeito com que Draco o estava fazendo se sentir hoje, ele não achava que seria uma boa ideia. Não se queria manter sua promessa. Ele quebrou o contato visual e percebeu um brilho prateado ao redor do pescoço de Draco, e viu com uma pequena vibração interna que Draco ainda estava usando o pendente. Ele estava caindo abaixo da cavidade na base do pescoço, logo acima de seu coração, como um brilho de luzes refletidas reunidas, elegante em contraste com sua pele. Harry o tocou gentilmente, sentindo-o quente. "Isso fica muito bem em você," ele disse, uma pequena falha em sua voz.
"Sim," Draco disse suavemente, pegando a mão esquerda de Harry, entrelaçando seus dedos e virando a mão de Harry para que o anel aparecesse. "E isso fica bem em você."
"É lindo," Harry disse. "Eu não consigo parar de olhar para ele." E não era apenas a beleza física do anel que o encantava – toda vez que o olhava, ele podia ouvir a voz de Draco dizendo, "Eu queria que significasse que nós pertencemos um ao outro." "É muito importante para mim," Harry disse com seriedade, relembrando-se das coisas importantes sobre as quais queria conversar essa noite. Mas Draco estava se inclinando nele, e Harry virou sua face para encontrar o beijo de Draco. Era um beijo bastante parecido com o beijo que haviam compartilhado ao final da Ti'kira, tenro e intenso ao mesmo tempo, com uma promessa de algo mais que gerava um arrepio excitado por Harry. Mas havia uma pequena dose de reserva nele que Harry sentiu também, e isso fez com que se lembrasse de outras perguntas, e do que eles tinham que terminar. Ele se afastou do beijo e encontrou os olhos de Draco. "É a sua vez no jogo," ele disse.
"Isso pode esperar," Draco disse, gentilmente, mas com firmeza, apertando a mão de Harry. "Você disse que queria conversar."
"Eu quero," Harry disse, um vago sentimento de perplexidade nascendo novamente em face dessa evasão. "Mas eu quero terminar o jogo também. Antes que você vá para casa. Nós só temos até amanhã."
"Eu sei," Draco disse despreocupadamente, olhando para baixo e quebrando o contato visual.
E Harry ficou ali, face a face com outra das evasões inexplicáveis de Draco, e com a promessa de que havia feito a si mesmo na noite passada para não forçar o assunto. Um longo momento de silêncio se esticou entre eles enquanto Harry esperava para ver se Draco iria falar mais alguma coisa.
"Estou muito cansado para jogar xadrez hoje," Draco finalmente disse, olhando para Harry mais uma vez. "Mas nós não precisamos jogar o jogo para conversar – não mais."
Harry procurou os olhos cinza de Draco, incerto do que estaria procurando, e encontrando apenas sinceridade. "Eu sei," ele disse, soltando um suspiro interno, sabendo que tinha que ceder e deixar o assunto passar, apenas torcendo que tivessem tempo suficiente para terminar o jogo no dia seguinte. Ele olhou para as mãos entrelaçadas deles, tentando esconder seu desapontamento e reunir seus pensamentos anteriores.
Quando Harry não disse mais nada por um momento, Draco novamente falou, com a voz baixa. "Você disse que pensou bastante na noite passada. . ."
"Sim," Harry disse, mas agora que era o momento de falar tudo, ele não sabia por onde começar. Draco estava massageando levemente a palma de Harry com seu dedão, e Harry pôde ver pequenas faíscas brancas brilhando discretamente em sua pele. "Bem, para começar," ele disse vagarosamente, "eu pensei sobre isso." Ele se inclinou e acariciou o braço de Draco levemente com sua outra mão, observando maravilhado quando uma trilha de faíscas douradas seguiu seus dedos. "Essas faíscas," ele disse, "devem significar alguma coisa. Talvez algo importante." Ele levantou o olhar, encontrando os olhos de Draco. "E isso nunca aconteceu com a Cho ou com qualquer outra pessoa," ele adicionou. "Só com você."
"Talvez você simplesmente não conseguisse vê-las ainda," Draco sugeriu. "E agora que está estudando auras, consegue."
"Não, eu acho que não – eu nunca estudei sobre isso. Isso é alguma coisa relacionada conosco. Eu vi nossas auras mágicas se unindo quando eu fiz os feitiços de cura com você da última vez. . . e isso não deveria acontecer."
Draco franziu as sobrancelhas levemente em pensamento. "A união de auras poderia explicar o que aconteceu comigo quando você transfigurou aquela bola de neve," ele disse. "Eu senti o feitiço, como se minha força tivesse sido drenada por alguns segundos."
Harry franziu as sobrancelhas, repentinamente preocupado. "Você não me contou isso."
Com um leve dar de ombros, Draco tentou aliviar a preocupação de Harry. "Foi apenas por um ou dois segundos, e então fiquei bem. Nós não tivemos a chance de falar sobre isso até agora."
Isso definitivamente era algo que não podiam ignorar. "Nós precisamos descobrir por que isso está acontecendo," Harry disse decisivamente. "Depois do feriado, acho que devemos ir até o Professor Dumbledore e madame Pomfrey e dizer o que está acontecendo."
"O que está acontecendo conosco não é tão importante quanto descobrir sobre a magia sem varinha que você consegue fazer," Draco apontou. "Eu acho que deveríamos falar com eles sobre isso."
Harry concordou. "Eu vou. Vou falar com eles sobre as duas coisas." Ele ficou em silêncio por um momento, ainda preocupado com o que Draco tinha acabado de lhe contar, e incerto de como começar as próximas, e muito mais importante perguntas que queria fazer.
O silêncio se estendeu entre eles por um momento, enquanto sombras do fogo cintilavam até a ponta da cama. "Você disse que essa era a primeira coisa," Draco finalmente disse, sua voz baixa e calorosa. "Então deve ter mais alguma coisa."
"Tem," Harry disse, e pausou. "Eu pensei a respeito. . . do que você disse na outra noite," ele começou hesitantemente. "Você me fez uma pergunta. Sobre casamento. . . e crianças. . . perguntou se eu já tinha pensando sobre o que eu teria que ceder para ficar com você. Eu não cheguei a te responder."
"Você não tem que. . ."
"Eu quero," Harry insistiu. "Você me disse para pensar sobre isso. . . e eu pensei. Eu pensei muito." Ele pausou novamente, procurando pelas palavras certas. "O que nós fizemos hoje. . ." ele disse após um momento, "aquela dança. . . foi real para mim. Você disse que nunca iria dançá-la com outra pessoa. . . e eu não consigo acreditar," ele afirmou com uma certeza quieta "que eu jamais irei também." Então, antecipando os protestos de Draco, ele adicionou, "eu sei o que você disse que eu deveria fazer, e eu sei que nós não podemos planejar nada ainda, mas eu pensei sobre o que eu gostaria que acontecesse. . ."
Ele olhou as mãos deles, dedos entrelaçados, o anel que usava agora um símbolo do que sentiam um pelo outro. "Eu não quero estar com mais ninguém, Draco," ele disse suavemente, levantando o olhar. "Casamento não e tão importante para mim, e eu não me importo com as expectativas das outras pessoas, ou se vão achar que eu deveria ficar com uma menina, ou que eu não deveria ficar com um Malfoy. Eu só quero ficar com você. . . viver com você. . . se nós pudermos, se você concordar. E eu ainda quero trabalhar com você, como eu disse antes." Ele apertou a mão que estava segurando, sentindo o calor firme, a reafirmação vinda dos dedos de Draco apertando os seus em resposta. "Você acha que poderia. . . querer fazer isso. . . quero dizer, viver comigo?"
Draco estava com o rosto virado para o lado, para encarar Harry enquanto falava, mas agora estava olhando para frente com os olhos fechados, um caroço se formando em sua garganta. Ele realmente não deveria responder, não deveria encorajar Harry nessas esperanças impossíveis. "Nós já concordamos o quão improvável seria isso," ele disse quietamente, tristemente.
"Sim," Harry disse com a voz baixa. "Eu sei." Ele estudou a expressão melancólica de Draco por um segundo, então suspirou e virou para o lado oposto, encarando seus joelhos. Com a mão direita descansando em sua coxa elevada, ele seguiu a costura do cobertor com seu dedão. "Eu só queria saber que você iria. . . querer isso," ele finalmente disse.
O tom desesperado na voz de Harry foi direto para o coração de Draco, e arrancou a verdade dele apesar de suas intenções de desencorajá-lo. "Harry," ele disse com a afeição que não conseguia esconder, "Eu acabei de dançar Ti'kira com você. . . e para mim, foi absolutamente real. É claro que eu gostaria de morar com você. Eu não consigo imaginar," ele adicionou solenemente, "eu jamais desejando outra coisa." Ele virou a cabeça, encarando Harry novamente, seus olhos sérios, atentos e contritos. "É só que eu tento não pensar no futuro."
Harry levantou o olhar, seu coração preenchendo-se, exultante com as palavras de Draco, e então um pouco entristecido pela última frase. "Tenho certeza que o Professor Dumbledore vai pedir que você fique aqui para dar aulas," ele disse, recusando-se a ser desanimado. "Se nós dois pudermos ficar aqui depois da graduação, você acha que eles nos deixariam dividir um quarto? Esse quarto, talvez?" Ele colocou uma mão no braço de Draco. "Eu gosto desse quarto."
Draco sorriu, atraído por um momento ao pensamento positivo de Harry. "Você continua me impressionando com suas ideias chocantes," ele provocou. "Nós seríamos o maior escândalo, sabe. Professores não casados morando juntos bem aqui na escola." Ele soltou uma risada curta. "Eu gostaria disso."
Harry sorriu brevemente com o divertimento de Draco, feliz em ter finalmente obtido uma resposta mais otimista, e então falou novamente, com mais seriedade. "E quando a guerra terminar. . . e se for possível. . ." ele disse, adicionando a ênfase para o benefício de Draco, "nós poderíamos comprar uma casa grande juntos. . ."
Draco suspirou. Se as coisas fossem diferentes, ele amaria escutar o Harry falar desse jeito, ele sendo incluído como uma parte definitiva do futuro de Harry, mas ele também se recordou de quando Harry contou que ele e Cho também tinham conversado desse jeito, na noite que eles dormiram juntos, e como tinha se sentido um tolo depois, quando ela o abandonou. Ele realmente não deveria deixar isso continuar. Harry tinha pausado agora, como se estivesse pensando, ou terminado de falar. "Era isso que você tinha a dizer?" Draco disse esperançosamente.
"Não, tem mais," Harry disse suavemente. Ele respirou profundamente. "Eu não sei o quanto você vai gostar dessa próxima parte, no entanto." Ele se mexeu um pouco na cama e se inclinou no Draco, querendo ficar mais próximo, apesar de ainda estar consciente da promessa que havia feito.
Draco soltou a mão de Harry e colocou um braço ao redor da cintura do outro, inclinando-se em Harry também. "Vá em frente, então," ele disse, sua boca agora bem ao lado da orelha de Harry.
Harry fechou os olhos só por um segundo; era tão bom ter o braço de Draco ao redor de si, o conforto de ser abraçado aumentando sua confiança para o que tinha que dizer. Ele apenas teria que tentar ignorar o calor sensual do corpo de Draco pressionado ao seu lado, e a mão elegante que descansava na pele nua de sua cintura como uma tira de fogo. Ele respirou profundamente e pausou, reunindo seus pensamentos. "A razão pela qual quero uma casa grande," ele disse quietamente, "é. . . porque eu quero ter filhos." Ele sentiu Draco ficar tenso em surpresa contra si, mas continuou, determinado. "Eu pensei sobre isso por um bom tempo. Eu não quero largar mão disso – não consigo desistir disso." Virando a cabeça, ele encontrou os olhos cinza surpreendidos de Draco e explicou. "Eu nunca conheci meus pais, nunca tive uma família que me amasse. Eu sempre quis ter a minha própria família – ter minhas crianças. É simplesmente algo muito importante para mim. . . e eu pensei, talvez, em uma forma de conseguirmos isso."
Draco olhou de soslaio para Harry, um pouco abalado por essa revelação um tanto quanto inesperada. Ele não sabia se estava pronto para saber como Harry achava que eles poderiam ter filhos. "Eu não vou concordar em dividir você com alguma menina só para que você consiga fazer bebês, se é isso que tinha em mente," ele disse.
"Não, é claro que não," Harry disse, um pouco chocado com a conclusão imediata de Draco.
"Como, então?" Draco perguntou, completamente perdido, e, para a falar a verdade, um pouco horrorizado, já que isso nunca foi algo que havia considerado.
"Bem, se estivermos juntos," Harry disse, "nós não podemos ter nossos filhos. . . então eu quero adotar. Eu fui órfão – eu sei como é. E tenho certeza que várias crianças vão precisar de lares depois que a guerra acabar. Se eu puder. . ." sua voz fugiu por um segundo. ". . .se eu ainda estiver aqui. . . eu quero encontrar as crianças que não têm para onde ir, e lhes dar um lar. . . conosco." Ele pausou, então continuou, sua voz ficando tentativamente esperançosa. "Você acha que gostaria disso, também?"
Por um momento, Draco hesitou. Mas Harry não estava pedindo promessas, ou perguntado se ele acreditava que o futuro deles poderia ser assim. Draco não teve que utilizar de meias-verdades para responder a pergunta de Harry – ele poderia dar uma resposta com completa honestidade. Pois apesar de ele não conseguir imaginar a si mesmo vivendo em uma casa cheia de crianças, acreditava que isso nunca seria possível, e estava feliz por Harry ter um sonho do futuro que não dependia deles estarem juntos. Ele queria que Harry mantivesse esse sonho, desejava com todo o seu coração que esse sonho se tornasse realidade para ele, que Harry não ficasse sozinho. "Mais do que nada," ele disse suavemente, sinceramente.
"Sério?" Harry perguntou, surpreso e sinceramente emocionado. Ele se moveu, virando para encarar Draco mais diretamente, e colocou sua mão na mão de Draco que estava deitada no cobertor sobre o estômago de Draco. "Eu achava que você não iria querer."
"Eu quero que você tenha," Draco esclareceu. "Quaisquer planos que você tenha, é o que eu quero."
"Não, não são planos," Harry suspirou. "Apesar desejos."
Houve um longo momento de silêncio. "Harry, amor," Draco disse muito gentilmente, tentando novamente distrair Harry do assunto relacionado ao futuro deles, "tudo soa incrível, mas. . . foi um longo dia e eu não dormi bem na noite passada. . ."
"Você não teve mais pesadelos sobre o seu pai, teve?" Harry perguntou, todos os outros pensamentos abandonados, por um momento, em preocupação. Mas, Deus, Draco tinha acabado de chamá-lo de "amor"? O coração dele tinha dado um sobressalto com isso.
"Eu tive sonhos," Draco disse. "Um deles foi particularmente perturbador e estranho – eu não consegui voltar a dormir depois. Eu não me lembro muito bem dele, mas não era sobre o meu pai."
"Eu queria ter estado aqui ontem," Harry disse, ainda se arrependendo da impulsividade que havia resultado na separação deles na noite anterior. "Mas eu posso fazer o feitiço para adormecer em você hoje, se você quiser."
"Você poderia fazer os dois?" Draco perguntou.
"É claro," Harry ainda se sentia alerta, mas Draco, ele agora percebeu, realmente parecia cansado. Lançar os feitiços seria bom para ambos, relaxando Harry e fazendo Draco se sentir melhor. "Vem cá," ele disse, sua voz quieta e carinhosa. "Eu vou fazê-los agora, para que você consiga ir dormir." Ele se mexeu, sentando-se, abrindo espaço para Draco se deitar. "Nós podemos conversar mais amanhã."
Draco deitou de costas, seus braços cruzados levemente em cima de sua barriga, cabelo liso e macio espalhado, parecendo dourado com a luz da lareira que caía em seu travesseiro. Com alívio e então antecipação em seus olhos, ele observou enquanto Harry deitava ao seu lado, encarando-o, e se preparava para lançar os feitiços. Essa magia que Harry podia fazer emocionava Draco. Era tão rara, tão extraordinária, e ser parte disso, tê-la preenchendo-o, correndo por ele como luz solar em água clara, era incrível. Fazia com que esquecesse que aquela escuridão jamais existira. Fazia com que ele de boa vontade cedesse seu coração, sua vida, e oferecê-los humildemente em gratidão ao maravilhoso ente mágico que Harry Potter era. E nunca haveria outra pessoa, Draco sabia com uma certeza irrevogável, ninguém mais jamais iria lhe proporcionar esse tipo de emoção. Nunca. Era só o Harry, apenas o Harry, que ele sempre quis.
Fechando os olhos, Harry concentrou sua atenção para dentro de si, sintonizando-a com a batida estável de seu coração, estabilizando o ritmo de sua respiração, encontrando e centralizando a magia dentro de si. A sensibilização se alterou ao seu redor. Fora de seu ser o quarto vibrava com energia vista e invisível: fogo e sombras cintilantes, luz e ar e calor e magia sutilmente entrelaçados uns aos outros. A magia correu por ele, preenchendo-o, passando em todas as direções a partir do centro abaixo de seu coração, indo até sua garganta e ao topo de sua cabeça, e abaixo, para sua virilha, braços e mãos, como raios gentilmente brilhantes de uma estrela.
Harry abriu os olhos, preparado para lançar o primeiro feitiço, e viu que Draco o estava observando. Ele se levantou em um cotovelo e encarou Draco de cima. Amor e antecipação estavam dançando nos olhos cinza, e o coração de Harry pulou e acelerou, um arrepio de exaltação correndo por si. Colocando suas mãos no peito de Draco, ele recitou as palavras do feitiço calmante, e imediatamente sentiu as auras mágicas dos dois se misturarem, ligando-se, unindo-se. E bem ao fundo dessa conexão, ele sentiu uma nova ligação entre eles, uma ligação de um juramento sinceramente recitado, e soube que era a magia da Ti'kira que haviam feito.
Um sentimento subiu-lhe então, ao mesmo tempo triste e feliz, e ele desejou desesperadamente que as esperanças para o futuro que tinha se realizassem de alguma forma, que nada acontecesse para separá-los. Desejos eram tudo que tinham no momento. . . mas. . . então ele se lembrou do que Draco tinha dito. . . que ele tentava não pensar no futuro, e Harry se viu forçado a fazer uma última pergunta. "Você tem desejos e esperanças por alguma coisa, Draco?" ele sussurrou.
Draco sentiu a magia correndo por dentro de sim, um sentimento profundo de calma e paz preenchendo-o. Ele olhou para cima e encontrou os olhos de Harry, sentiu a magia fluir entre eles como uma corrente sedosa de eletricidade. "A única coisa que eu. . . realmente desejei," ele disse, sua voz baixa com emoção, "foi que você me amasse."
A magia preencheu ambos, a paz do feitiço de Harry, o amor da união da Ti'kira, as emoções acumulando em ambos com a pergunta de Harry e a resposta de Draco, derramando, juntando águas, transbordando.
"E eu te amo," Harry sussurrou. "Demais."
Os olhos deles se trancaram, esmeraldas vívidas e cinza aveludado, e eles eram um só. . . juntos. . .
"Seja lá o que aconteça, Harry. . . prometa que não vai esquecer. . ."
. . . sem barreiras, fronteiras já cruzadas, corações unidos. . .
". . . que eu te amo."
. . . magia pulsando e misturando dentro deles, seus sentimentos e emoções unidos em um reflexo e um eco mutuamente compartilhado entre eles.
Harry se inclinou para perto, sua mão traçando uma carícia brilhante na bochecha de Draco, seu olhar resoluto. "Eu prometo," ele disse.
Então os braços de Draco estavam puxando Harry para baixo, uma onda de desejo maior do que sua auto-imposta abstinência dominando-o, e Harry abaixou a cabeça, sua boca encontrando a de Draco. Os olhos deles se fecharam, e o foco da união deles se tornou o beijo, e nele estava toda promessa e quase-promessa que eles haviam dado e encontrado um no outro. A magia inflamou com o toque deles, ateando-os em chamas.
Desejo correu por Harry como um lento arrepio de um raio de calor através de um céu de verão. E quase que instantaneamento, sentiu Draco se arrepiar em resposta embaixo de si. O coração de ambos batiam em harmonia, seus pulsos cantavam em contraponto, e Harry caiu, de cabeça e sem âncora, no redemoinho de emoções de Draco, sua consciência nadando no vortex rapidamente giratório de amor e de desejo. Harry sentiu esse desejo correr por Draco como se fosse seu próprio corpo, latejando junto com todos seus nervos, implorando para que não parasse. Ele se afastou do beijo, abalado, dominado por seu desejo e o de Draco, e começou a pressionar beijos urgentes, como quentes e insistentes perguntas, pelo rosto e pescoço de Draco. "Draco?" ele sussurrou. Amor? Ah. . . por favor. . . você vai deixar isso acontecer agora? Vai deixar eu te amar? E sentiu a resposta de Draco, na forma de um gemido baixo de prazer, vibrar por ambos.
Draco gemeu suavemente e se arqueou embaixo de Harry, pressionando-se com força contra ele, querendo isso, respondendo ao desejo de Harry por um longo, quente e incontável momento perdido no poder da paixão de ambos. Mas então a memória submergeu, reprimida, fazendo Draco se lembrar de si mesmo, de seu arrependimento e dessa necessidade amarga, porém determinada, de proteger Harry, e uma palavra, uma respiração apenas, escapou como se em resposta ao prévio pensamento de Harry.
"Não."
E tudo desmoronou.
Harry rolou para longe de Draco e se deitou de costas, sem tocá-lo, olhos fechados, mordendo seu lábio inferior, sofrendo com a abrupta reversão das emoções Draco – emoções que havia experimentado como se suas fossem. Ele estava completamente excitado. Pura lava parecia estar circulando dentro do seu estômago. Ele podia ouvir a respiração acelerada de Draco tão próxima, ainda podia sentir os corações deles acelerando rapidamente juntos. Ele respirou profundamente, tentando acalmar-se, procurando pela paz que tinha perdido no meio da paixão, esperando a excitação diminuir.
Eles deitaram um lado do outro por alguns minutos sem se falar, sem se tocar, ambos chocados pelos sentimentos que haviam compartilhado, ambos sem fala com o resultado do que tinha acontecido. Gradualmente, a conexão entre eles começou a desaparecer enquanto a magia se dispersava.
Harry sentiu Draco se mover então, e uma mão apanhou a sua, entrelaçando os dedos, apertando.
"Harry?" a voz de Draco estava ligeiramente trêmula. "Você está bem?"
Tinha um pouco de preocupação naquele tom que deveria ter lembrado Harry do que era realmente importante. Ele respirou profundamente. "Estou bem," ele sussurrou, mas havia uma distinta sobreposição de desânimo e irritação em sua voz.
Harry soltou a mão de Draco e se sentou, suas pernas recolhidas ao peito, seus braços cruzados em cima dos joelhos, cabeça abaixada. Sentia-se desorientado e chateado. Como você pode me perguntar se estou bem? ele queria gritar. Eu estava bem. . . até você. . .Mas ele não tinha certeza do que tinha acontecido, ou de quem era a culpa. Só sabia que ele estivera ótimo até o momento em que Draco o puxou para baixo e a magia que ele tinha começado a fazer fugiu de seu controle. Ele tinha certeza de uma coisa, entretanto – Draco definitivamente estava escondendo alguma coisa. Ele tinha brevemente captado uma impressão forte de Draco, logo antes de Draco ter dito não – um sentimento profundo de arrependimento e. . . proteção, talvez. Me proteger do quê? Ele observou o outro garoto.
Draco tinha jogado um braço sobre seus olhos quando Harry sentou-se, e a linha de sua boca estava fina, esticada e magoada.
O coração de Harry apertou com a cena, e ele percebeu que havia perdido a conexão com os sentimentos de Draco, e que a separação doía mais do que todo o resto. Repentinamente, lembrou-se de que havia prometido duas coisas, esperar até o final do jogo de xadrez e não pressionar Draco. Independentemente de quem tenha sido culpado, ele quase tinha desapontado Draco nas duas.
"Draco," ele chamou quietamente. Ele gentilmente afastou o braço de Draco de seus olhos. Draco manteve os olhos fechados e Harry sentiu outra pontada em seu coração. Inclinando-se, ele beijou uma pálpebra, precisando muito ver qual expressão estava naqueles olhos cinza. "M-F?" Ele beijou a boca de Draco, apenas um toque leve, e disse as palavras que deveria ter dito antes. "Você está bem?" ele perguntou, então ficou observando a face pálida e contraída, esperando.
Draco respirou profundamente e finalmente abriu os olhos, analisando Harry por um longo momento antes de falar. "Você estava bravo," ele disse. "Eu senti." Mas junto com a angústia havia um pouco de admiração silenciosa no tom de sua voz.
Harry não respondeu imediatamente, vários pensamentos e sentimentos circulando por sua mente. "Se você sentiu isso," ele finalmente disse, sua voz constrita, lutando contra a emoção, "então você também sabe porquê. Porque se você sentiu isso, você sentiu todo o resto. E eu senti o quanto você queria, e você ainda disse não."
"E eu te disse, não é que eu não quero."
"Draco, eu dancei Ti'kira com você. Estou usando seu anel. Você sabe como eu me sinto por você e que eu tenho certeza. Pelo que mais estamos esperando?"
"Nós simplesmente não podemos – ainda não."
Harry suspirou. Ele queria desesperadamente perguntar novamente o porquê. Mas não podia. Porque Draco tinha confiado nele e ele não deveria tornar isso uma discussão, após ter dito que iria esperar mais de uma vez, após ter prometido a si mesmo que iria respeitar a decisão do outro garoto. Porque ele já tinha feito e dito o suficiente, e mesmo assim Draco não tinha mudado de ideia. E porque isso não era o que ele queria que estivesse acontecendo. As emoções incríveis que eles haviam compartilhado pareciam perdidas, em cinzas agora, e Harry as queria de volta. Mais do que tudo, ele queria de volta o sentimento de conforto que eles proporcionavam um ao outro, precisavam um do outro.
Ele alcançou a mão e finalmente tocou levemente o ombro de Draco, maravilhado mais uma vez com o brilho das faíscas que seus dedos criavam, "Draco, não importa," ele disse seriamente. "Desculpa. Eu não quis que isso acontecesse. A magia foi esmagadora – eu perdi o controle."
"Não," Draco disse, quase um sussurro. "Não foi sua culpa. Fui eu quem perdeu o controle." Ele fechou os olhos novamente por um momento. "Você teve todo o direito de ficar bravo."
"Eu só estou tentando entender," Harry disse, ainda desesperadamente confuso, mas querendo superar essa situação. Draco olhou para ele, seus olhos cinza contritos, e Harry aceitou as desculpas silenciosas, retornando o olhar de Draco com um pequeno sorriso. "Acho que não devemos nos beijar enquanto estou lançando esses feitiços. . . bem, a não ser. . . que queiramos que isso aconteça," ele disse. Ele hesitou, e então disse honestamente, e um pouco esperançosamente, não conseguindo abrir mão do assunto inteiramente. "Espero que nós. . . queiramos que isso aconteça. . . algum dia." Amanhã, ele pensou.
Os olhos de Draco ficaram nebulosos e tristes, como se ele quisesse fazer essa promessa, mas não se atrevesse. "Você acha que ainda pode lançar o feitiço para adormecer," ele disse, "se eu te der um beijo de boa-noite agora, antes que você comece?"
Havia um pouco de provocação na voz de Draco, dessa vez, deixando Harry saber que as coisas estavam tranqüilas entre eles. Ele sorriu e se deitou, inclinando-se em um cotovelo. "Acho que sim," ele disse, inclinando-se mais perto, beijando Draco uma vez, suavemente.
Draco respirou profundamente e se acomodou ao lado de Harry. "Estou pronto," ele disse, observando Harry com expectativa.
Centrando-se novamente, Harry se preparou para lançar o feitiço para adormecer. "Te vejo de manhã," ele disse suavemente, logo antes de colocar sua mão em Draco e sussurrar as palavras do feitiço. Então ele observou, fascinado, o Draco fechar os olhos e relaxar até dormir sob o toque de seus dedos. Relaxado, Harry pensou, estudando a face adormecida à sua frente. Havia alguma coisa faltando agora naquele rosto, uma pequena e sempre presente indicação de tensão que só reconheceu agora, com a ausência da mesma, enquanto Draco dormia. Ele nunca realmente relaxa a não ser quando eu faço esses feitiços. E Harry sentiu uma onda de gratidão por esse dom que ele tinha, por poder proporcionar isso ao Draco.
Ele se deitou com o apoio de um cotovelo, observando o rosto adormecido de Draco por um longo momento. Ele amava toda linha e curva daquela face, a curva arcada do lábio superior, endiabrado até mesmo durante o sono, o arco escuro das sobrancelhas e dos cílios, a linha reta do nariz que curvava perfeitamente no final. Vagarosamente, e muito levemente, ele afastou uma mecha de cabelo loiro da testa de Draco, seus dedos criando pequenas faíscas giratórias de luz dourada nas sombras de sua mão.
Mexendo-se um pouco para ficar embaixo das cobertas, Harry se deitou de costas e encarou o teto, pensando. Amanhã – eles têm que terminar o jogo. Tinha que ser amanhã – se ele tinha que deixar o Draco ir para casa, ele não queria que ele fosse assim – sem que fizessem amor. De alguma forma isso parecia tão importante para o Harry, e não somente porque queria que fizessem sexo. Ele estava tão apaixonado. E se algo acontecesse com Draco, e Harry nunca tivesse a chance de ter isso com ele? Era uma possibilidade que não queria nem considerar. Quebraria seu coração, ele sabia, sem a possibilidade de conserto. E com esse pensamento, ele repentinamente percebeu que isso deve ter sido o que Cho sentiu. Pela primeira vez, ele pôde entender completamente, e o perdão tomou conta de seu coração pelo que ela tinha feito.
Ele virou a cabeça e olhou para o Draco, então muito gentilmente colocou um braço embaixo dos ombros do menino adormecido e o puxou para perto. Draco se mexeu, virando-se de lado e se acomodando mais próximo de Harry, sua mão vindo descansar no peito de Harry, dedos logo abaixo da concavidade de sua garganta. Harry fechou os olhos e aceitou o simples sentimento de conforto e pertencimento que vinham ao ter Draco em seus braços. O murmúrio musical já familiar os rodeava, tranqüilo, hipnotizante, e Harry sentiu suas perguntas serem aliviadas de sua mente. Ele resistiu por um momento, e então jogou seus pensamentos e esperanças relativas ao dia seguinte para o lado, e permitiu que o consolo estimado do toque de Draco o levasse para longe de tudo, até pegar no sono
…
…
Eles estavam afetuosos, porém controlados um com o outro enquanto acordavam e se preparavam no dia seguinte. Harry observou o Draco quando ele não estava olhando, incerto do que dizer. Hoje era o último dia deles antes que Draco fosse para casa e Harry não sabia o que fazer. Ele desesperadamente queria terminar o jogo de xadrez, mas Draco não estava fazendo qualquer esforço para tanto e Harry estava relutante em pressioná-lo – pelo menos não antes do café-da-manhã. Na noite anterior, ele sentia ter tido muito mais certeza do que queria fazer. Depois que comeram, e voltassem, talvez pudesse. . . mas tentar convencer o Draco a fazer algo que não queria, ele estava percebendo, era praticamente impossível.
"Parece que você recebeu uma coruja," Harry disse.
Draco se levantou e encarou Harry, seu rosto parecia calmo, despreocupado. "Acho que você deve ir na frente," ele disse. "Eu já desço em alguns minutos."
"Tem certeza?" Harry perguntou, percebendo algo no tom de voz de Draco que o preocupou. "Posso esperar."
"Não," Draco disse, aproximando-se para beijar Harry antes que descesse. "Não tem problema. Te vejo lá embaixo."
…
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Pansy não era tão estúpida quando Draco pensava. Ela tinha dito isso a si mesma na noite passada, quando teve sua ideia brilhante, e se parabenizou agora mais uma vez quando seu pequeno plano funcionou perfeitamente. Draco pôde ter colocado um contra-feitiço para que ela não conseguisse colocar um alarme mágico nas escadas do lado de fora da porta dele, mas nada a impedia de colocar outro alarme na noite anterior nas escadas que desciam a partir de sua porta. E como Draco não tinha como descer sem passar pelo quarto dela. . . Ela sorriu diabolicamente.
Sua intenção era conversar com ele nessa manhã quando ele descesse para tomar café-da-manhã, e queria apanhá-lo sozinho. Havia, é claro, a possibilidade de ele e o Potter descerem juntos, mas ela duvidava. Draco ainda estava sendo reservado em relação a esse relacionamento, ou, em caso contrário, não teria fingido ir com aquela menina ao Baile Anual. Logicamente, Pansy havia concluído que eles seriam cuidadosos em não serem vistos juntos. Um momento atrás, o alarme dela tinha disparado – e como tinha adivinhado, apenas uma pessoa tinha descido as escadas da direção do quarto de Draco.
Pansy sorriu maliciosamente. Se apenas uma pessoa tinha descido, tinha que ser o Potter. Draco não teria descido e deixado o Potter sozinho lá em cima. Ela saiu do seu quarto, um pergaminho enrolado em sua mão. Draco provavelmente viria após alguns momentos, e quando viesse, ela estaria esperando.
…
…
Draco abriu um lado da janela e o Lúcifer entrou, suas penas bagunçadas por causa do frio. "Ah, uma mensagem do querido papai," ele disse desdenhosamente. "E antes do café-da-manhã. Que tocante." A coruja piscou seus olhos alaranjados largos e malignos de forma reprovadora para ele e estendeu uma pata. Um pequeno pergaminho estava ali, o qual Draco removeu com dedos trêmulos – dedos que traíam sua ansiedade mesmo que suas palavras não tivessem. Ele espantou a coruja, fechou a janela, e levou a mensagem até sua escrivaninha para ler.
Draco,
Por que não tive notícias suas? Eu lhe dei instruções específicas na minha última carta. Ou você esqueceu como ler? Espero uma resposta imediatamente.
L.M.
O desprezo naquela terceira oração era tão intenso, que Draco conseguia praticamente ouvir a voz de seu pai a cuspindo. Mas demorou uma ou duas batidas intensas de seu coração para perceber do que seu pai estava falando. Ele apenas tinha recebido uma carta de seu pai, e então o anel veio sem qualquer carta. . .ou não? Ah. . . merda. Você esqueceu como ler? Ah, Deus. Draco levantou o olhar. Jogados despreocupadamente em sua escrivaninha estavam os dois papéis que havia retirado do anel. Um deles tinha embrulhado todo o pacote e ele tinha ignorado-o. O outro, por outro lado, tinha sido dobrado e estava, ou ele tinha pensado, em branco. Mas com um sentimento desesperador, Draco soube. Seu pai estava absolutamente correto. Ele tinha esquecido – não em como ler uma mensagem familiar secreta – ele tinha se esquecido de sequer procurar por uma.
Uma vaga emoção de pavor estava crescendo em seu estômago enquanto ele apanhava o papel descartado e o levava até a lareira. Instruções específicas. . . Ele não gostava do som disso. Retirando sua varinha, ele segurou o papel acima do fogo, quase tocando as chamas, sussurrou algumas palavras, e observou com um desânimo sombrio enquanto seus medos eram confirmados. Letras e frases começaram a aparecer em uma letra brilhante e fogosa que corria e piscava na superfície do papel, como se o próprio fogo tivesse escrito a página. Então as letras ficaram negras, queimadas no papel, e Draco começou a ler:
Esse anel é uma herança valiosa dos Malfoy. Eu não aprovo do seu plano de presenteá-lo ao Potter e você será certamente responsabilizado pessoalmente pelo seu retorno. Entretanto, como você mencionou o uso de um feitiço apropriado, eu decidi me certificar de que isso fosse feito corretamente – se fizermos isso, não podem ocorrer quaisquer erros. Eu lancei um feitiço de vontade no anel que irá enfraquecer a resistência de Potter a nós. Ele não interferirá com qualquer coisa que você tenha a intenção de lançar no anel, mas eu acredito que esse feitiço é o mais apropriado, considerando nosso objetivo, e é um feitiço que você não sabe lançar. Informe-me imediatamente por coruja quando você planeja agir – eu preciso laborar meus próprios planos de acordo – e, é claro, destrua essa carta imediatamente.
L.M.
Draco derrubou o papel no fogo como se tivesse sido queimado. E mal percebeu quando o papel pegou fogo e desapareceu. Ele não se importava nem um pouco com as demandas de Lucius em ter o anel de volta. Na opinião de Draco, o anel era seu para dar, e ele queria que Harry ficasse com ele. Mas o feitiço de vontade. . . Draco fechou os olhos enquanto raiva e desespero se acumulavam dentro de si. Enquanto isso confirmava a suspeição de Draco de que seu pai tinha a intenção de utilizar a Maldição Imperio no Harry, um feitiço de vontade era Magia Negra, e muito aquém do seu conhecimento para que pudesse removê-lo. Felizmente, era um feitiço com ação gradual, então em uma noite os efeitos não seriam muito notáveis, mas ele não podia arriscar deixar o Harry sob seus efeitos por muito tempo. E havia apenas uma pessoa que ele tinha certeza que seria capaz de ajudá-lo a remover um feitiço dessa natureza. De alguma forma, ele teria que pegar o anel de volta de Harry e fazer com que Dumbledore retirasse o feitiço sem levantar suspeitas.
Ele já tinha percebido que precisaria da ajuda de Dumbledore com algumas partes de seu plano, e ele tinha cuidadosamente planejado como faria isso – na verdade, ele tinha planejado ir falar com ele nessa tarde. O que ele tinha planejado em pedir pareceria suficientemente razoável e inocente, isoladamente. Mas e se Dumbledore suspeitasse de algo agora, por causa do feitiço no anel? Draco não podia liberar informações ao Dumbledore muito cedo, mas apenas quando fosse tarde demais para que ele impedisse seus planos. Tudo dependia disso.
Ele afundou em uma das cadeiras e fechou os olhos, braços cruzados firmemente em seu peito, suas mãos agarrando seus joelhos. Tinha sido difícil para ele ir até Dumbledore no começo do ano. Tinha tomado toda a sua coragem, e a quantidade de orgulho que tinha engolido quase o tinha deixado enjoado, mas tinha sido necessário. Não havia dúvidas na mente de Draco acerca do poder do diretor como um bruxo. O homem podia agir como um tolo maluco às vezes, mas sua percepção inigualável de coisas escondidas e secretas tinha convencido Draco do contrário. E se Dumbledore percebesse alguma coisa, por causa disso?
Draco estava se sentindo doente. Tudo poderia desmoronar. Maldito seja seu pai até os sete níveis do inferno por sua interferência! Era um insulto à competência de Draco – mostrava muito claramente que seu pai não tinha qualquer confiança nele ou em sua habilidade de pôr em prática sua própria ideia. E, ele pensou com amargura, ironicamente era agora esse feitiço no anel que poderia arruinar tudo o que ele tinha planejado tão meticulosamente. Ele tinha que pensar. . . não podia falhar. . .
Houve uma batida na porta. Draco respirou profundamente e se forçou a relaxar. Provavelmente era Harry, voltando para pegar alguma coisa, ou porque estava preocupado, e Draco não poderia deixá-lo ver o quão chateado ele estava. A batida veio novamente e Draco, torcendo para que conseguisse se manter calmo, foi abrir a porta.
Mas não era o Harry. Assim que Draco virou a maçaneta, Pansy se forçou para dentro do quarto. Ela tinha um pedaço de pergaminho em sua mão; seu rosto estava bravo, porém determinado. "Eu sabia que você estaria aqui em cima," ela disse com satisfação. "Mas eu cansei de esperar que você descesse. Ela balançou o pergaminho embaixo do nariz de Draco. "Isso," ela disse imperiosamente, cortando o protesto irritado de Draco, "é uma carta direcionada ao seu pai. Eu achei que ele poderia se interessas em saber o quão. . . envolvido. . . você está com um certo Harry Potter."
Draco fechou a porta e cruzou os braços sobre seu peito, analisando Pansy com crescente irritação. Deus, ele não tinha tempo para isso. Ele tinha que pensar no que fazer a respeito do anel. "Ah, e daí," ele disse grosseiramente. "Eu estava planejando contar para ele amanhã quando fosse para casa. Vá em frente e manda," ele desafiou. "Tenho certeza que ele ficará animadíssimo em ouvir de você."
Por um segundo, isso paralisou a Pansy. Ela tinha imaginado sem sombras de dúvidas que ele fosse querer esconder isso de seu pai. Mas ela não seria tão facilmente derrotada. Ainda não. Com malícia Sonserina, Pansy mudou de tática. Ela pode não ter percebido que Draco é gay, mas de todo o resto, ela ainda acreditava que o conhecia muito bem. "Mesmo que você queira que o Lucius saiba," ela retrucou, seu queixo se elevando em desafio. "Eu sei que você vai querer contar você mesmo para ele, e não que ele saiba através de uma carta minha."
Os olhos de Draco se estreitaram. Ele pausou por tempo o suficiente até fazer com que Pansy ficasse desconfortável. "Diga o que você quer, então," ele disse impacientemente, cortando qualquer embolação. "Eu imagino que tenha um preço – para que você não envie a carta."
"É claro," ela disse desagradavelmente. "Eu quero ver o Potter sofrendo e sendo humilhado. Seja lá o que você contou para o Blaise acerca de um plano envolvendo o Potter, não pode ser nada ruim, já que você diz que o ama. Na verdade. . ." Pansy pausou com um olhar calculista. "Acho que você inventou isso. . . como uma desculpa, depois que ele viu vocês dois juntos em Hogsmeade. Mas isso não vai funcionar comigo, Draco. Eu quero ver você fazer o Potter sofrer. . . assim como fez comigo. Caso contrário, eu mando a carta."
Draco deu um passo na direção de Pansy e tocou o rosto dela. Seu toque era gentil, mas seus olhos estavam gelados. Quando falou, sua voz era suave e fatal. "Eu nunca te dei qualquer motivo para acreditar que jamais aconteceria algo entre nós. Você realmente acreditou que eu me apaixonaria por alguém tão. . . comum. . . quanto você?" Ele se inclinou mais para perto, perto o suficiente para beijá-la. "Eu nunca quis te machucar, Pansy," ele disse. "Acredite em mim. Se eu quisesse te fazer sofrer, eu teria feito um trabalho muito melhor." Os dedos dele correram pela face dela, desceram até sua mão, e calmamente retirou o papel do punho momentaneamente fraco dela. Com uma pequena risada, ele se virou e caminhou até a lareira, com a carta de Pansy em sua mão. Ele olhou novamente para ela, um sorriso malicioso em seu rosto, antes de jogar o pergaminho no fogo.
"Isso não vai me impedir, Draco," ela sibilou, seu rosto corando quando ela percebeu quão facilmente ele tinha brincado com ela, como ele tinha se aproveitado do efeito que ele tinha nela. "Posso escrever de novo."
Draco considerou, por um momento, as conseqüências de simplesmente lançar outro feitiço de memória nela ou, melhor ainda, socar ela no nariz e então lançar o feitiço. Mas ele precisava de uma desculpa para pegar o anel de volta sem que Harry soubesse a real razão para tanto, e isso poderia ser a desculpa perfeita pela qual estava procurando – uma que ele podia colocar a culpa em outra pessoa. Confie na Pansy para ser a ajuda involuntária que ele precisava enquanto ela tentava com tanta força se vingar dele com chantagem. Era hilário, na verdade. Mas ele não queria que ela soubesse disso.
Ele virou de costas para ela, fingindo ter se rendido, sua expressão dura. "Você não tem que escrever," ele disse. "Tem razão. Eu quero contar para o meu pai eu mesmo." Dando os passos até chegar à mesa, Draco observou o tabuleiro por um longo momento, estudando-o, permitindo-se tempo para pensar. "Se eu anunciar que eu estou transando com o Potter," ele finalmente disse, fixando um olhar gélido nela, "e então terminar com ele na frente de todo mundo da mesa Grifinória no Salão Principal, isso vai te satisfazer?"
Pansy sorriu vagarosamente, com malícia. "Isso seria perfeito," ela disse. "Especialmente porque depois, você vai ter que rastejar atrás dele, implorando que ele te aceite de volta." Então ela franziu as sobrancelhas. "Espera um pouco," ela disse, uma mistura de suspeição e leve esperança se acumulando dentro de si. "Você não estava planejando terminar com ele de qualquer jeito, estava?"
"Não, eu não estava," Draco afirmou com firmeza. "Mas eles não saberão disso, não é?" Uma sobrancelha elegante se elevou em arrogância silenciosa. "E como você disse, eu posso me redimir com ele depois."
"Você é terrivelmente arrogante," Pansy fez uma careta, sua nova esperança arruinada. "E se ele não te quiser de volta?"
"Deixe que eu me preocupo com isso." Então ele sorriu insolentemente para ela. "Quem não iria me aceitar de volta?"
Ela queria socá-lo. Ou se jogar nele e beijá-lo. No momento, não sabia qual era mais tentador. Mas ela deixou a raiva dar-lhe forçar para que não fizesse papel de tola novamente. "Ótimo, então," ela disse. "Quando vai acontecer?"
Draco analisou o tabuleiro novamente, estudando a posição das peças de Harry. Ele apanhou o Bispo branco, a peça que Harry tinha apanhado com seu último movimento na noite passada, e deixou-o descansar na palma de sua mão. É minha vez. Então ele olhou para a Pansy. "Vou fazer agora. Essa manhã, durante o café-da-manhã."
Pansy o lançou outro sorriso traiçoeiro. "Estarei esperando," ela disse, arrogante, enquanto se virava e saía do quarto.
Draco colocou o Bispo novamente na borda do tabuleiro, deixando seus dedos ali por um momento, então ele se virou e foi até sua escrivaninha. Ele apanhou a cata que havia recebido nessa manhã e a leu mais uma vez enquanto a trazia de volta à lareira. Sim, ele certamente queria ele mesmo contar ao seu pai. Eu quero ver o olhar no rosto dele quando eu disser o que eu fiz, ele pensou. Ele me tem completamente subestimado. . . Vagarosamente, com deliberação, ele amassou a carta em seu punho. Ele nunca me respeitou, mas agora ele vai. Draco derrubou o pergaminho amassado no fogo e o observou pegar fogo, observou as bordas curvarem, ficarem pretas e queimarem até que o pergaminho caiu inteiro em chamas na madeira, a raiva em seu coração acompanhando-o. Então ele foi respondê-lo.
Pai,
Por favor me perdoe por não responder sua carta anterior. Eu raramente estive sozinho e não pude correr o risco. Tudo está correndo melhor do que antecipado. Eu explicarei tudo amanhã, em casa.
D.M
Dobrando a carta, ele caminhou até a janela e a abriu. Antes que pudesse assobiar, Lucifer já estava lá, suas asas silenciosas abertas, olhos brilhantes atentos. "Te mandou esperar a resposta, não é?" Draco debochou. Ele amarrou a carta na perna da coruja. "Bem, pode mandar uma mensagem minha para ele," ele disse quase que inaudível, ódio claro em sua língua, enquanto a coruja lançava vôo. "Mande-o ir para o inferno."
Com um suspiro vastamente irritado, ele fechou a janela e se virou para deixar o quarto. Deus, ele estava cansado desses jogos. Ele certamente não estava com fome agora, mas teria que descer até o café da manhã de qualquer jeito. Ele tinha que descer e terminar com Harry Potter.
Fim do Capítulo 13
