Todos os personagens de ,Naruto" pertencem ao seu criador, Kishimoto Masashi.
Capítulo Dois
- Como se Morre-
Acordei numa pequena sala de paredes brancas e teto alto, imediatamente reconheci: estava na enfermaria. O cheiro de peróxido de hidrogênio, rifocina e gesso eram inconfundíveis, e claro, o cheiro do ar condicionado, sangue e luvas de látex misturavam-se num balé olfativo inebriante que não me deixava enganar.
Percorri a língua por meus dentes na esperança de estarem todos os 32 lá, para meu alívio, estavam; não era apenas uma questão de vaidade, mas também de honra, un! Eu sabia que tinha visto um dente no chão quando o moleque do cabelo lambido estava batendo em mim.
Minha próxima preocupação foi com a coluna vertebral, será que eu estava paraplégico?! Ai, não, un! Mexi-me loucamente até que senti as lágrimas brotarem involuntárias de meus olhos pois, de fato, havia quebrado um braço, o direito. Fora isso, tudo bem.
Mal havia checado minhas condições físicas, entra minha amiga Konan com a sutileza de um hipopótamo e a discrição de um pavão.
- Deidara, como você está? – Ela estava visivelmente nervosa, mas teve autocontrole e bom-senso suficientes para não gritar no meu ouvido.
- Estou bem... Acho, un.
- O médico disse que você teve uma fratura umeral e quebrou duas costelas! – ela estava quase chorando.
- OLHA! Foram as costelas flutuantes?
Ela me olhou incrédula por um momento. Continuei:
- Porque se foram, ficarei mais feliz por estar parecido com o Marilyn Manson, un! – Brinquei.
- SEU RIDÍCULO! – ela brigou comigo e me deu um soco.
- AI, MULHER, un! Já não basta ter apanhado do urubuzão, agora vou apanhar de você também, un?! – Choraminguei.
- E eu bateria ainda mais! – ela hesitou – Se ainda houvesse algum lugar para bater... – disse surpresa.
- Então estou tão destruído assim, un?
- Bom... O suficiente.
- Qual é meu quadro geral?
- Braço quebrado, olho roxo, lábio cortado, escoriações, equimoses, costelas quebradas - e não foram as flutuantes, hematomas... Mas nada supera essa sua roupinha de doente! – Ela reprimiu um riso.
- Como? Você só pode estar de brincadeira comigo, un!
- Nunca pensei que sua bundinha fosse tão sexy! – Ela me zoou.
- Mas que porr...
- É que tiveram que te colocar roupa de cirurgia. Sua roupa original já era e, você sabe como é... Faculdade pública, poucas verbas... Mas são se preocupe, já trouxe outra roupa para você! Infelizmente, foi uma de minhas blusas, mas melhor do que nada, certo? – Sorriu-me matreira.
- Eu mereço, un!
Então, tive uma vontade louca de rir. Comecei a gargalhar sem parar, minhas costelas doíam muito, mas a dor só me dava mais vontade ainda de rir.
- O que houve, Deidara? A piada nem foi engraçada!
- Preciso sair daqui agora, un.
Sentir uma pontada fodida quando me levantei, mas não queria ficar lá. Algo dizia – não, GRITAVA - ,Saia já deste lugar!". E foi o que fiz, levantei-me do leito ignorando uma Konan completamente embasbacada com minha atitude, a enfermeira e tudo ao meu redor. De repente, nada mais estava doendo, meu braço havia se curado magicamente e a enfermaria havia sumido. Ao meu redor, o campus; comecei a correr. A voz agora urrava dentro de minha cabeça ,CORRA".
Corri em direção ao meu stand na esperança de ver minha arte e, quando cheguei lá, havia pessoas aglomeradas ao redor dele. Abri caminho por entre os corpos e vi que um homem de média estatura, cabelos grisalhos e ralos, óculos fundo- de- garrafa e uma ridícula gravata-borboleta cor de carne analisava minhas esculturas com interesse, ele levava uma prancheta de acrílico e anotava algo numa folha de papel. Meu sensei estava ao seu lado bem como o Sasori.
De repente, o homem levantou a cabeça e anunciou:
- O artista que esculpiu esta peça, por favor, apresente-se.
- Eu, un! Aqui, aqui! – levantei o braço mais alto que pude e empurrei as pessoas a minha frente.
- Meu jovem, é você Iwagakure no Deidara?
- Sim, sim, eu, eu, un! – estava visivelmente ofegante.
- Bem, Deidara-san, estava analisando sua obra e... bem...
- Anda, desembucha un!
O homem pareceu chocado com minha reação.
- Mas que rapazinho mais insolente!
- O que importa un?! Anda, fala logo! Eu fui aprovado? Vou assinar o contrato com a galeria ,Art Nouveau"? Vomita logo, velho un!
- Ora essa! – ele se enfureceu – Nunca fui tão destratado na minha vida! Por acaso você sabe QUEM eu sou?
- Não faço a menor idéia, un. Pra mim, você é apenas um velho com uma gravata ridícula, un. – dei de ombros
- COMO É QUE É?!
- Deidara, por favor, mais respeito!- disse meu sensei trincando os dentes e tentando acalmar o homem – Nobunaga-san, por favor, perdoe o Deidara, ele é um jovem assaz impetuoso, não tem NOÇÃO – e ele falou isso olhando duramente para mim – do que está falando, há há há...
- Tenho noção sim, sensei. – juro que eu não estava sendo irônico – Pra mim, não me importa saber quem ele é ou não, só quero saber se vou assinar o contrato, un!
O homem estava vermelho, digo, roxo! Na verdade, ele estava passando por todos os matizes de cores; trincando os dentes tão forte que não sei como não quebraram!
- Deidara, como você é BURRO! – era a voz do Sasori- Ele é o Nobunaga-san, dono da galeria ,Art Nouveau", seu imbecil!
Ups!...
- E o que me importa un?! – fiz pose de superior.
O homem levantou-se decidido da cadeira, ele realmente estava transtornado. Tão irritado estava que quebrou ao meio a caneta de aço que segurava.
- Rapazinho, você esgotou minha paciência. Eu estava procurando um jeito gentil para falar-lhe, mas vejo que isso não será possível, dado que não trato com uma pessoa, mas com um muar!
- Un?! – não entendi. – Burro é o senhor un. Vai falar ou não se fui aprovado?
- Já chega! – ele se enfureceu - Essa porcaria que você chama de arte NUNCA seria aprovada! É feia, primária, sem técnica alguma! Argila?! QUEM hoje em dia ainda usa argila?! Esse monte de nada jamais será considerado arte, é CLARO que lhe atribuí a pior nota possível! E agora, vendo o artista – não, o COITADO – vejo que você dois se merecem!
Comecei a escutar comentários baixos das pessoas ao redor, de repente, todas começaram a rir, e riam cada vez mais alto. O Sasori e até o sensei começaram a rir. O homem começou a crescer ente meus olhos, prostrado, analisando minha reação. Senti as lágrimas em meus olhos novamente.
- Há há há! - comecei a rir, as lágrimas caindo concomitantemente - Como se eu fosse levar à sério um velhote como você, un!
- É claro que você me leva a sério, está até chorando! – e começou a rir.
Não agüentei mais, saí correndo de lá, sem rumo, inteiramente humilhado e com o psicológico completamente fodido. Não sei por quanto tempo corri, passei por árvores muito altas, o Sol brilhava por entre as copas, eu não tinha freios. Minhas pernas estavam começando a enfraquecer, meus pulmões me diziam que não agüentariam suportar mais o que estava demandando deles, mas, mesmo assim, continuei a correr. O vento cortava meu rosto, eu estava quase gritando de dor, mas uma dor muito mais psicológica do que propriamente física - não importava, continuei correndo.
O chão abaixo de meus pés não passava de uma confusão de tons verdes e marrons. Olhava para frente, o mundo quicando, acompanhando minha maratona ensandecida. Estava em meu limite - ,Auto-destruição"- Não pensava em mais nada.
Parei. O ácido lático, produzido pelos meus músculos numa tentativa de me conter de não me jogar da ribanceira mais próxima, estava me avisando que eu ainda era um humano, e não uma bomba.
Joguei-me de costas no chão. Agora, a voz sussurrava: , Você está morto, morto, morto". Comecei a rir. Imagens de muito sangue povoavam minha mente. Vi uma figura alta com uma gadanha imensa. Ela se aproximava de mim lentamente e eu não conseguia mover-me, estava completamente hipnotizado.
A figura parou ao meu lado. Vestia um manto negro com capuz e sua gadanha parecia afiada. Ela se abaixou lentamente até sentar-se perto de mim. Largou o instrumento corto-contundente no chão e voltou o rosto em minha direção. Eu estava imóvel, deitado, olhando aquela estranha figura meio-anjo meio-demônio.
- Oi. – ela disse retirando o capuz.
Não consegui dizer nada. Aquele ser era a coisa mais fantástica que já tinha visto. Pela melodia grave de sua voz, dava para perceber que era homem. A tez extremamente branca contrastava com seu cabelo vermelho-bordô, curto e espetado. Ele usava uma venda negra como suas vestes e mechas de cabelo de sua franja, pendiam displicentes pela testa e por cima da venda, deixando o conjunto inteiro muito perfeito para ser real.
- Você veio me levar. - não era uma pergunta.
Ele virou o rosto para o lado oposto de onde eu estava e pousou a mão direito sobre o olho esquerdo e, lentamente, voltou-se para mim sorrindo.
- Talvez!
Seu sorriso era algo assustador. Duas fileiras de dentes afiados emoldurados por um sorriso que ia de orelha a orelha. A venda apenas deformando-se um pouco nas extremidades. Àquela visão, meu corpo estremeceu com um frenesi estranho, sentei-me abruptamente encarando aquele esgar macabro.
- Então me leva un.
Involuntariamente, como se não tivesse autocontrole, tomei seu rosto entre minhas mãos e o puxei para mim num beijo completamente insano.
- Deidara, mas que diabos você está fazendo?! – uma voz de mulher gritou.
Mas o que era isso, un?! A voz da Konan saindo dos lábios da minha figura perfeita?
Empurrei-a.
- Hmm?
