A/N: Muito obrigada por todos os comentários! A demora é justificada, pq tive que me afastar do mundo e só estudar para a segunda fase da OAB, por 2 meses, e agora ainda tive semana de prova na facul =p. Mesmo assim, sei que demorou, e peço desculpas! Mas como já disse para vários leitores que me perguntaram, eu posso demorar um pouco, mas nunca deixaria uma tradução descontinuada. Agora falta pouco, a fic está chegando ao final! Aproveitem!
A autora da fanfic original postou um aviso especial nesse capítulo, que acho bom eu reproduzir aqui: "Esse capítulo contém uma cena que é intensa e pode talvez chatear algumas pessoas. Eu já disse isso individualmente para várias pessoas que me enviaram e-mails perguntando acerca do final de Checkmate – vai ficar bem assustador antes de chegar ao final. A parte assustadora começa agora, mas por favor aguentem firme aí. . ."
Ainda, para quem estava confuso sobre os planos do Draco, esse capítulo provavelmente esclarecerá algumas dúvidas, se você ler com cuidado os pensamentos dele!
E, por fim, gostaria de lembrar a todos que essa fanfic segue a linha temporal do quinto livro "Harry Potter e a Ordem da Fênix", portanto, por favor ignorem os acontecimentos dos últimos livros, senão essa história não fará sentido =)
CHECKMATE
PARTE III – FIM DO JOGO
Capítulo 15
When I was 9 I learned survival, taught myself not to care
I was my single good companion, taking my comfort there
Up in my room I planned my conquests
On my own, never asked for a helping hand
No one would understand
I never asked the pair who fought below
Just in case they said no
Quando eu tinha 9 anos eu aprendi a sobreviver, me ensinei a não me importar
Eu era o meu único bom companheiro, retirando conforto disso
Lá em cima no meu quarto eu planejei minhas conquistas
Sozinho, nunca pedi ajuda de uma mão amiga
Ninguém entenderia
Eu nunca pedi para o casal que brigava lá em baixo
No caso de eles dizerem não
Pity the child who knew his parents
Saw their faults, saw their love die before his eyes
Pity the child that wise
He never asked 'did I cause your distress?'
Just in case they said yes
Tenha dó da criança que conhecia seus pais
Viu os erros deles, viu o amor deles morrer diante dos seus olhos
Tenha dó da criança que fica sábia
Ele nunca perguntou 'fui eu que causei a sua angústia?'
No caso de eles dizerem sim
Pity the child who has ambition
Knows what he wants to do
Knows that he'll never fit the system others expect him to
Tenha dó da criança que tem ambições
Sabe o que quer fazer
Sabe que ele nunca vai se encaixar no sistema, como os outros esperam dele
Pity the child but not forever
Not if he stays that way
He can get all he ever wanted
If he's prepared to pay
Tenha dó da criança, mas não para sempre
Não se ele ficar desse jeito
Ele pode conseguir tudo que ele sempre quis
Se estiver preparado para pagar
Letras de "Pity the Child" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus
…
…
"Você fez o quê?" Lucius Malfoy sibilou.
Draco, com a postura rígida em frente da mesa do seu pai, mal conseguia esconder a onda de triunfo que sentia nesse momento. Ele nunca tinha visto seu pai tão chocado.
O Malfoy mais velho tinha chamado o seu filho ao seu escritório assim que Draco tinha chego em casa da viagem de Hogwarts. Agora, Lucius estava sentado atrás da gigantesca mesa de mogno, encarando seu único filho, seus olhos cinzas frios arregalados em silenciosa incredulidade.
"Eu o seduzi," Draco repetiu com um tom neutro, permitindo apenas que um leve sorriso malicioso cruzasse seu rosto. Ele cruzou os braços, sua pose relaxando, e encarou seu pai com orgulho exultante em seus olhos cinza-pálidos. "Foi fácil."
Os olhos de Lucius se estreitaram cautelosamente e sua expressão chocada ficou dura, suspeita. "Fácil?" ele ecoou com a voz gélida e sedosa. "Fácil. . .seduzir outro garoto – Harry Potter – que sempre foi seu pior inimigo?" Ele estudou o Draco em um silêncio imóvel por alguns segundos. "Quão longe essa. . . sedução. . . foi?"
"Tão longe quanto poderia ir," Draco respondeu com satisfação, imensamente feliz por ser essa a verdade, por Harry ter lhe convencido a não esperar, por ele poder jogar tudo na cara do seu pai. "Nós nos tornamos amantes," ele disse, e então se amaldiçoou internamente pelo calor involuntário que subiu por seu corpo quando pensou em Harry na sua cama, sabendo que seu rosto estava corando de um jeito muito revelador. Ele abaixou o rosto, para longe do olhar frio e perceptivo de Lucius.
Lucius se levantou de sua cadeira e desviou graciosamente a mesa para ficar cara a cara com seu filho. Ele apanhou o queixo do Draco com severidade e forçou o garoto a encará-lo. "Você gostou," ele disse seriamente, seu lábio superior curvado em nojo. "Não é?"
"Eu fiz o que foi necessário," Draco disse, afastando-se, engolindo o repentino nó em sua garganta, tentando manter sua voz calma, tentando manter o controle da situação e parecer frio e indiferente, até mesmo enquanto ondas de desejo e amor corriam pelo seu corpo. Ele começou a dar um passo para trás, mas seu pai apanhou o colarinho de sua capa e o manteve no lugar.
"Não minta para mim," Lucius disse com uma ponta de aviso e ameaça em sua voz.
"Eu nunca menti para você, pai," Draco disse firmemente com um tom baixo e ofendido.
"E eu nunca te criei para ser um bicha." Os olhos de Lucius estavam preenchidos de repugnância.
Draco encarou o desgosto cândido nos olhos de seu pai firmemente, seu queixo se levantando com o insulto. "E daí se eu sou?" ele demandou desafiadoramente. "O que importa se eu obtive prazer com ele antes de você apanhá-lo e destruí-lo? O importante é que," Draco disse, recuperando sua confiança, "ele confia em mim agora. Ele virá correndo me encontrar quando eu pedir. E ele virá sozinho. Sem suspeitar de nada."
Lucius fixou o Draco com um olhar pensativo por mais alguns segundos enquanto considerava, então abruptamente riu e soltou o Draco. "Então você vai não apenas ajudar na captura de um inimigo, mas vai também trair um amante," ele disse, sua voz quieta e conivente. Ele caminhou de volta à cadeira atrás de sua mesa e sentou-se, movendo a cabeça pensativamente. "Estou começando a gostar da ideia. Continue," ele disse. "Estou ouvindo. Qual é o resto desse plano brilhante?"
Um pequeno e secreto tremor exultante percorreu Draco. Ele retirou as duas Chaves de Portal do bolso e deu um passo à frente para colocá-las na mesa em frente ao seu pai. "Essas vão nos levar a uma clareira abandonada entre Hogwarts e Hogsmeade," ele explicou. "A clareira está abandonada, esquecida e completamente escondida da estrada. Eu já combinei com o Potter de encontrá-lo lá no dia depois de amanhã, às três horas da tarde. Ele acredita que eu vou voltar mais cedo para Hogwarts, para que possamos ficar juntos." Draco sorriu astuciosamente. "Eu irei primeiro, sozinho, para encontrá-lo e fazer com que ele pense que tudo está bem, e para me certificar de que tudo está como o previsto. Então você aparece alguns minutos depois. Tudo que precisamos é de outra Chave de Portal para trazer nós três de volta depois que você submetê-lo à Maldição Imperius."
Lucius levantou o olhar das Chaves de Portal. "Ele está com o anel?" ele perguntou.
"Sim," Draco respondeu. "Eu o fiz prometer não retirá-lo enquanto eu estivesse longe."
"E você colocou um feitiço nele?"
Os olhos do Draco encontraram os do seu pai calmamente. "Não depois que eu descobri que você já tinha colocado um feitiço de vontade," ele disse.
Com um pequeno balançar da cabeça, em um gesto de aprovação, Lucius apanhou uma das Chaves de Portal e a examinou atentamente, "Eu consigo fazer outra Chave para nos trazer de volta com facilidade, mas de onde essas vieram?"
"Dumbledore fez uma delas para mim," Draco disse. "Eu a dupliquei para fazer a outra."
Lucius levantou o olhar rapidamente e franziu as sobrancelhas. "E por que Dumbledore criaria uma Chave de Portal para você?"
Draco riu. "Porque eu pedi," ele disse com rudeza franca, apanhando-as de seu pai. "Essa é a minha rota de saída emergencial," ele disse, jogando uma delas no ar e a apanhando graciosamente, e então colocando ambas no seu bolso. "Eu disse para ele que estava com medo de ir para casa. Que eu não concordava mais com as suas alianças e não confiava mais em você."
"E ele acreditou em você?"
"Ah, pai," Draco disse rudemente, "essa foi a parte mais fácil. Todo mundo lá acredita que você é um cruel maldito, e eles estão mais que dispostos a acreditar que eu te odeio e que quero mudar de alianças. Bem, com a exceção do Weasley, mas ninguém dá ouvidos a ele."
"E você é um tolo se pensa que pode enganar Alvo Dumbledore tão facilmente," Lucius disse. Ele estudou o Draco, ainda franzindo as sobrancelhas. "Se Dumbledore fez uma dessas, então ele sabe o destino. Você considerou isso?" ele perguntou com raiva crescente. "Se Potter desaparecer, aquele pode ser o primeiro local que eles irão procurar!"
"E vão encontrar o quê?" Draco retrucou calmamente. "O que eu planejei será rápido e indetectável."
"Suspeição irá recair em nós," Lucius fez uma careta, "já que você fez questão de contar ao Dumbledore que eu não posso ser confiado – nem mesmo pelo meu próprio filho."
Draco deu de ombros. "Na verdade," ele disse, "meu pequeno caso de amor é, em si, um álibi perfeito." Ele encarou o descontentamento de seu pai com a compostura perfeita e explicou, "Dumbledore sabe que eu estou envolvido com o Potter e ele acredita que sou completamente sincero – então eu pretendo ficar absolutamente devastado com a notícia do desaparecimento misterioso dele. Se me perguntarem, eu passei o feriado silenciosamente aqui em casa enquanto você estava viajando logo depois do Natal. Eu nunca precisei utilizar a Chave de Portal e eu não faço a mínima ideia do que aconteceu com o Potter." Ele se inclinou para a frente e colocou as mãos na mesa do seu pai. "Pai, eles confiam em mim," ele disse, destacando esse fato. "Não será difícil que eu finja estar chateado de forma credível com o desaparecimento dele e convencê-los que eu não tive nada a ver com a situação." Draco ajeitou sua postura e cruzou os braços. "Mas você, por outro lado," ele continuou, "terá que arranjar outro tipo de álibi imediatamente. Acredito que você vá querer tirar o Potter daqui na mesma hora, então talvez. . .uma viagem a negócios. . . seja uma boa possibilidade."
"Talvez," Lucius concordou após um momento, ainda franzindo as sobrancelhas. Então ele se sentou reto na cadeira e um pequeno sorriso malvado curvou um canto de sua boca. "Tenho que admitir, Draco," ele disse, "Eu estou surpreso. Isso poderia ter funcionado." Então balançou a cabeça. "mas depois de amanhã é impossível," ele disse decisivamente. "Isso não me dá tempo suficiente para realizar os arranjos necessários." Ele olhou para o Draco com frieza e reprimenda antes de apanhar um pedaço de pergaminho na sua mesa. "Você deveria ter me informado sobre isso vários dias atrás. . . como eu pedi que fizesse."
"Mas tem que ser agora," Draco insistiu, "enquanto todos os amigos dele estão longe para o feriado e o Potter está sozinho no castelo. O dia depois do Natal é perfeito – os professores estarão ocupados preparando as salas e os planos de aula para o próximo semestre, não haverá refeições formais – ninguém vai achar estranho se não virem o Potter durante o dia. Demorará horas, ou até mesmo um dia inteiro ou mais, antes que sintam falta dele."
"Isso pode ser verdade," Lucius disse, "mas eu ainda precisava de tempo para checar com os outros que eu planejava incluir – "
"Não!" Draco disse. "Mais ninguém! Esse é o meu plano – nosso plano. Se ele falhar, você pode colocar a culpa em mim e eu vou aceitar as consequências, mas eu não quero mais ninguém envolvido."
"Isso é importante demais para arriscar falhas. O Lorde das Trevas não irá aceitar desculpas. Você sabe que só existe uma consequência possível se você falhar. . ."
"É lógico que eu sei! E estou plenamente preparado para encarar isso. Mas o plano não vai falhar." Draco disse, olhando para o seu pai, a luz de triunfo que era esperada brilhando no seu rosto. "Você realmente quer dividir o crédito, a conquista de capturar Harry Potter para o Lorde das Trevas com outras pessoas?" Ele se inclinou para frente, sua voz suave com animação. "Esse ato por si só garantirá que o nome Malfoy finalmente obtenha seu lugar de direito na história – o lugar que merece há tempos. Pense no que poderá ganhar! A sua lealdade ao Lorde das Trevas será inquestionável, seu lugar ao lado dele assegurado."
Draco pausou por um segundo, e então vagarosamente caminhou ao redor da mesa para ficar ao lado da cadeira do seu pai. "Por favor, pai," ele implorou. "Vamos fazer isso juntos. . . apenas nós dois. Deixe isso ser nosso segredo – até o momento da surpresa ser revelada ao nosso Lorde."
Ele se abaixou em um joelho, sua cabeça abaixada em submissão. "Você pediu que eu elaborasse um plano," ele disse convincentemente, "para provar para você onde exatamente estão minhas lealdades, e eu fiz isso. Eu fiz por você, pai. . . e só por você. . . para te mostrar do que sou capaz. Estou apenas pedindo que você me dê essa chance. Deixe-me fazer do jeito como planejei. Por favor."
"Levante-se," Lucius disse severamente, apenas de seus olhos brilharem com satisfação. "Malfoys se ajoelham perante ninguém a não ser o Lorde das Trevas."
Draco se levantou, seus olhos ainda abaixados. "Nunca acontecerá novamente," ele disse quietamente, e então levantou a cabeça para encontrar os olhos do seu pai. "Eu prometo."
Lucius bateu os dedos em seu queixo e observou o Draco atentamente. "Eu vou considerar o seu plano. Nós teremos que passar pelos detalhes amanhã à tarde depois do baile – ainda têm algumas pontas soltas com que me preocupo. Mas por enquanto, pode ir."
Draco inclinou a cabeça, concordando, e saiu pela porta. Enquanto ele alcançava a maçaneta, seu pai chamou seu nome e ele se virou.
"Draco," Lucius disse, um traço de invejoso respeito em sua voz, "bom trabalho."
…
…
Draco sorriu enquanto fechava a porta do escritório do Lucius e deu um passo para entrar no corredor iluminado, permitindo-se esse momento de exultação enquanto as palavras tão procuradas de aprovação de seu pai ecoavam em seus ouvidos. Apesar de as palavras terem sido oferecidas um pouco relutantemente, Draco se sentiu satisfeito enquanto ia a caminho da sua suíte no terceiro andar – ele tinha feito um bom trabalho. Muitíssimo bom. Agora não apenas todas as partes do seu plano haviam entrado em ação, mas ele ainda tinha obtido essa pequena e previamente elusiva vitória pessoal também.
Não estava tudo pronto, é claro; seu pai ainda não tinha efetivamente concordado em seguir com seu plano, mas Draco estava confiante agora que ele iria. Ele conhecia seu pai bem o suficiente para saber que Lucius nunca concordava com nada de forma imediata – a necessidade dele de reter acordos enquanto considerava tudo era seu jeito de manter o controle sobre qualquer coisa que Draco pudesse ter sugerido. Ele precisava que ficasse claro ao seu pai que era o Lucius que estava no controle e que tomava todas as decisões.
Draco riu para si mesmo diante da maneira perfeita como atuou seu papel. Ele tinha esperado que seu pai discordasse do prazo corrido, mas ele tinha deliberadamente o informado no último minuto para prevenir que ele pudesse formar planos adicionais. Tinha sido um risco calculado e, tirando o fato de que ajoelhar na frente daquele homem tinha revirado seu estômago, Draco tinha preparado seus argumentos em avanço. Era crítico que seu pai concordasse em dar seguimento ao plano agora, porque o feitiço no anel do Harry não era permanente e iria dissipar em força vagarosamente nas próximas duas ou três semanas. Draco reconheceu esse fato com um sentimento contínuo de preocupação. O tempo do seu plano era essencial, e se o seu pai não concordasse em segui-lo no dia depois de amanhã. . .
Pelo menos agora que a entrevista aterrorizante com seu pai tinha terminado, agora que a ansiedade que ele esteve sentindo por dias, imaginando se seu pai iria ao menos considerar seu plano, poderia ser colocada para trás, outras realidades vinham à tona. Era véspera de Natal, já tinha passado do horário da janta, e Draco estava cansado e faminto. A viagem de trem tinha sido definitivamente tediosa e amanhã seria outro dia excruciante e longo – os Malfoys sempre recebiam visitas no Natal, proporcionando um gigantesco banquete seguido de um baile formal. Draco tinha que, de alguma forma, sobreviver ao dia de amanhã, agir convincentemente o papel do anfitrião sorridente e gracioso, e então. . . no dia seguinte – o dia que ele iria ver o Harry pela última vez – chegaria cedo demais. Com esse pensamento, o breve sentimento de triunfo o abandonou. Ganhar o orgulho do seu pai agora, ele admitiu, era uma vitória vazia. Sua satisfação era rápida e artificial, deixando para trás um gosto insatisfeito e amargo.
Elfos-domésticos, frenéticos com as preparações para as festividades do dia seguinte, esquivavam-se e corriam rapidamente por Draco enquanto ele caminhava pelos corredores principais da imensa e opulente mansão que havia abrigado várias gerações de Malfoys. Retratos de seus ancestrais o observavam de todas as paredes, portando olhos astutos, ou expressões vaidosas e insípidas. Eles não tinham sido todos pálidos ou loiros, mas cada um tinha sua própria versão individualizada do distinto sorriso de escárnio dos Malfoy. Draco sentiu aquele sorriso inato curvar os cantos da sua boca enquanto encontrava o olhar de cada retrato audaciosamente. Os olhos deles o seguiam por todos os lugares, sempre incansáveis, procurando, ele pensou, por algum sinal de fraqueza. Do ponto de vista dele, eram todos espiões para o seu pai, e ele os tratava de acordo.
Tudo que ele realmente queria no momento era que a janta fosse enviada ao seu quarto e que fosse deixado em paz pelo resto da noite. Havia coisas sobre as quais queria refletir. Como o quanto sentia falta do Harry. E de fazer amor com o Harry. Ele apenas queria deitar na sua cama e se afundar nas memórias da noite anterior. Ele sentia como se estivesse à milhas e anos distantes daquela manhã, quando tinha abraçado o Harry pela última vez.
Draco pausou por um momento do lado de fora da entrada do salão de baile, e então entrou. Elfos-domésticos estavam correndo em todas as direções, colocando os toques finais nas mesas de jantar e nas decorações de Natal. O chão preto de mármore havia sido polido tão brilhantemente que Draco conseguia ver seu reflexo, como se estivesse caminhando na superfície de uma vasta piscina de água escura. Faíscas brilhantes de luz dourada vindas de centenas de velas flutuavam acima de sua cabeça, e as cores do arco-íris criadas pelas luzes de fadas nas decorações de Natal também refletiam no chão, parecendo estrelas submersas e pequenos cometas multicoloridos. Ele apanhou um dos elfos que passou correndo por ele, carregando guirlandas de azevinho, e mandou-a ir até a cozinha com instruções de encaminhar comida para o seu quarto. Uma coisa boa em estar em casa, Draco pensou enquanto voltava ao seu quarto, era o fato de ele poder comer quando e o que ele desejasse.
Ele não viu mais ninguém até alcançar o segundo andar das escadas de mármore curvadas, e então uma voz chamou seu nome suavemente, como se não quisesse ser ouvida por mais ninguém. Draco se virou e viu sua mãe de pé na frente da porta do quarto dela. Quando ele pausou e saiu das escadas, ela caminhou pelo corredor para encontrá-lo, jogando um lenço fino e transparente sobre o seu longo vestido, seu cabelo loiro caindo solto em seus ombros. Ela lembrava Draco de um fantasma, pálido e insubstancial, deslizando até ele no corredor mal-iluminado. Ela estava magra demais, e o rosto, mais pontudo e magro do que nunca, ainda tinha aquela expressão azeda, aparentemente permanente. Mas ela havia sido linda um dia, Draco pensou tristemente, antes de se casar.
"Você esteve com o seu pai," ela disse quietamente, quase de forma acusatória, enquanto o alcançava. Não era uma pergunta, e ao mesmo tempo era.
"Sim," Draco disse, sabendo imediatamente que ela entendia a significância daquele encontro – que ela estava bem ciente de conflito que estivera crescendo entre seu marido e seu filho pelo último ano e meio, e que desde o verão passado, Draco foi sumariamente banido da presença do seu pai. E Draco sabia, também, que ela estava perguntando o que estava acontecendo. "Aparentemente, fui perdoado," ele disse com uma forçada indiferença casual, em resposta à pergunta silenciosa dela, indisposto a ser mais específico.
"O que só pode significar uma coisa," Narcisa disse com um tom severo e sabido, "- que você cedeu e o obedeceu".
"Mãe," Draco disse um pouco impacientemente, querendo tranquilizá-la e escapar, "não importa – "
A mão de Narcisa se fechou no pulso dele, interrompendo-o; os dedos dela estavam frios e quando ela falou novamente, sua voz estava trêmula. "Escute-me," ela disse urgentemente. Ela hesitou, olhando em volta, então arrastou Draco novamente adentro das sombras do corredor. "Eu não sei o que ele exigiu de você, mas você tem dezessete anos agora," ela disse com uma voz baixa e severa. "Ele esperará que você faça certas. . . escolhas. . . exigirá que você faça coisas. . ." Ela pausou com um tremor pequeno, e então continuou em um sussurro, ". . . coisas. . . que você não deve fazer. . . não importa o que ele diga."
"Você acha que eu não sei exatamente o que ele espera?" Draco sibilou suavemente, seu temperamento piorando rapidamente. "Ou o que ele quer que eu faça?" Onde você estava enquanto ele lançava a Maldição Cruciatus em mim? ele pensou amargamente.
Ela se afastou um pouco, vendo a raiva nos olhos dele. Olhos que eram tão parecidos com os de seu pai e ao mesmo tempo. . . completamente diferentes. . .
"Eu sei o que tenho que fazer," ele disse com indiscutível finalidade.
Foi uma finalidade que a assustou, e ela viu a dor que deitava por trás da raiva nos olhos dele. "Draco, não. Por favor," ela disse, repentinamente abandonando qualquer aparência de rigidez e implorando. "Você é meu único filho. Você é a única coisa nesse mundo que eu já amei. . . e eu sei. . . você tem todo o direito de me odiar. Eu sempre fiz o que ele queria. . . e nunca fiz nada para te proteger dele. Eu tive muito medo." Ela apertou os dedos ao redor do pulso dele. "Eu nunca fui forte," ela sussurrou, seus olhos enchendo de lágrimas. "Mas você é. Não deixe ele te apanhar. Não deixe ele te transformar no monstro que ele é." Ela segurou a mão dele com as suas, desesperada. "Draco, me prometa que você não vai virar o que ele é. Por favor. . . me prometa que eu. . . não vou perder você também."
As últimas palavras saíram com um choro sufocado que foi direto ao coração do Draco, arrancando sua raiva como se fosse uma lâmina, e ele puxou sua mãe em um repentino abraço. Ela parecia frágil e magra em seus braços e aflição o engasgou. Era tarde, tarde demais para isso.
"Sinto muito, mãe," ele disse, sua voz quebrando. Ele a segurou por mais alguns segundos, desejando haver algo mais que pudesse dizer, algum tipo de explicação. "Ele não me deixou qualquer escolha," ele sussurrou finalmente, então abruptamente se afastou, sua garganta bloqueada por uma mágoa dolorida enquanto corria escadas acima até seu quarto.
…
…
Draco entrou na sua suíte, fechando a porta e se inclinando nela, totalmente abalado. Ah, maldição. Sua mãe. Ele nunca tinha a visto chorar. Mas pior que isso, ele nunca tinha reservado um pensamento para ela, nunca tinha considerado se o seu plano poderia fazê-la sofrer. Ele estivera tão concentrado no Harry, preocupando-se com os sentimentos do Harry, tão envolvido com seus próprios sentimentos pelo Harry. . .
"Você é a única coisa nesse mundo que eu já amei. . ."
Ele se afastou da porta e cruzou a sala de entrada para entrar no seu quarto. Fechando com força a porta atrás de si, ele se jogou de costas em cima da sua cama, olhos firmemente fechados, seus braços fortemente abraçando seu peito, segurando a angústia que ameaçava explodir dentro dele. Como poderia ter planejado algo que a deixaria devastada. . . e sozinha?
"Prometa-me que eu não vou te perder."
Draco grunhiu suavemente, horrorizado.
Quando ele elaborou seu plano, ele tinha agido com a crença de que – como um Peão perfeitamente posicionado para fazer um movimento inesperado e essencialmente estratégico para garantir a captura da Rainha do oponente – Draco Malfoy era dispensável. Era a posição do Peão, seu movimento no jogo que era importante, não o Peão em si. O Peão era meramente o meio para se alcançar um fim – ninguém se importaria se ele fosse sacrificado e retirado do tabuleiro. Naquele momento, Draco não era o amor de ninguém; não havia ninguém que iria sentir sua falta ou se importar com o que acontecesse com ele.
Ele não havia considerado os sentimentos da sua mãe em todo seu planejamento, mas mesmo se tivesse, ele não saberia disso – que ela o amava tanto. Ele não fazia ideia antes de ela dizer aquelas palavras nessa noite. E no que diz respeito ao Harry, nunca, em todas suas expectativas de realidade à época, ele considerou que ser amado por Harry Potter seria uma possibilidade. Então essa crença, de que ele estava sozinho, que ninguém se importava, havia lhe proporcionado a liberdade para agir como era necessário. A única coisa que ele teve que superar à época foi seu próprio egoísmo, seu próprio medo. Mas agora. . .
"Você não sabe que se alguma coisa acontecesse com você agora, o que eu me arrependeria pelo resto da minha vida seria o futuro que nós nunca pudemos ter, todas as coisas que nunca pudemos compartilhar?"
As palavras de Harry ecoavam em sua memória com clareza, perseguidoras e tão queridas. . . e quase insuportavelmente de quebrar o coração. A memória de tudo que Harry havia desejado para o futuro deles voltou para ele agora com detalhes agonizantes, e a imensidão do que ele estava prestes a perder desabou sobre si. Lágrimas quentes deslizaram por baixo de seus cílios e correram pela sua testa, até seu cabelo. Ele engoliu com força, contra a constrição dolorosa em sua garganta, e então abriu ligeiramente sua boca, respirando em arfadas curtas e rasas. Essa era a segunda vez que havia sido reduzido a lágrimas. Ele nunca tinha chorado em sua vida antes da última semana, mas agora parecia que não conseguiria parar.
Harry havia aberto-lhe, quebrado suas barreiras internas, expondo-o e fazendo-o sentir. E agora tudo doía, como ácido despejado sobre pele-viva. Ele, ao mesmo tempo, amava e odiava essa mudança em si mesmo. Ela significava que ele finalmente deixou alguém se aproximar, deixou alguém ver por trás de sua máscara, armadura e indiferença. Mas, Deus, por que tinha que ser o Harry? Por que ele tinha que amar a única pessoa em todo o maldito planeta que ele não poderia ter, simplesmente pelo fato de que esse amor por essa pessoa o forçava a uma escolha que certamente iria separá-los. Ele mordeu seu lábio inferior. Por que ele era obrigado a fazer uma escolha tão brutalmente injusta?
Que escolha? Ele pensou então, angustiado. Quando foi que eu tive alguma escolha? Ele claramente se lembrava de quando reconheceu pela primeira vez que sua vida não tinha que ser irrevogavelmente conectada às crenças do seu pai, mas reconheceu também, imediatamente depois, que não importava qual caminho ele seguisse, sua vida ainda era. Ele relembrou aquele verão depois do quarto ano, depois que ele havia confrontado o Harry e foi enfeitiçado no trem, e como ele havia passado o verão se acostumando com seus novos sentimentos pelo Harry. Como o medo súbito e desconcertante pela segurança do Harry gradualmente se revelou como algo ainda mais inexplicável.
Ele havia testado o seu pai então, ultrapassando barreiras, evitando ou recusando alguns dos pedidos do seu pai, provocando as bordas da paciência limitada de Lucius. Foi então que a Maldição Crucio havia começado – o suposto treino para a Marca Negra. E ele tinha suportado tudo, toda a insensibilidade e o abuso do seu pai, endurecendo seu coração para o que viria, esperando. Ele não tinha nenhum plano àquela época, nenhuma esperança. . . nenhuma escolha. Até mesmo agora, com seu plano em movimento, sua única escolha tinha sido atuar ou ser usado – e uma dessas opções era tão completamente impensável que a própria ideia de que ele teve escolha era ridícula.
Mas aqui, nessa noite, sozinho no seu quarto sem o Harry para tocá-lo e acalmá-lo, agora que ele não estava mais sendo distraído e consolado por beijos e palavras doces, e tinha apenas o final mórbido e inevitável da sua escolha encarando-o; agora ele não conseguia mais conter os sentimentos de injustiça e desolação que ele conseguira manter escondidos em Hogwarts, e as lágrimas caíam nele até ele sentir que mal conseguia respirar. Ele pressionou um punho cerrado na sua boca para disfarçar um choro, mas o som saiu de qualquer jeito, e por vários longos minutos ele abandonou todo pensamento e desistiu de lutar, deixando a corrente incontrolável levá-lo.
Ele tinha sido rigidamente ensinado, tinha acreditado, que lágrimas eram um sinal de fraqueza. Mas não eram as lágrimas agora que o tornavam fraco. Era sua inabilidade de parar a dor. E certamente era uma fraqueza ficar se torturando pelo que tinha que ser feito. Por que ele tinha que fazer essa escolha? Porque não tinha mais ninguém que poderia fazer isso, que era tão importante – ele não poderia deixar o sofrimento de ninguém ficar no caminho do plano – não o seu, não o do Harry, nem da sua mãe. Ele sabia a resposta para sua pergunta. Ele sempre soube. Simplesmente não havia outra escolha.
Draco abriu os olhos e observou o dossel escuro sobre a sua cama, respirando profundamente. Impacientemente, ele limpou as trilhas molhadas e indicativas da sua batalha interna com uma mão e com uma manga. Ele tinha se segurado tanto enquanto esteve com o Harry, talvez essa surtada momentânea tivesse sido inevitável. Mas determinação, e sim, resignação também, ambos familiares aliados emocionais ultimamente, estavam controlando seu corpo novamente, reforçando o seu propósito. Ele se lembrou do momento no trem em que seus olhos haviam ardido com lágrimas não derramadas. Mas ele lutou contra elas e tinha que fazer o mesmo agora – tinha que levantar as muralhas ao redor do seu coração mais uma vez e ir em frente.
Ele ouviu a porta externa dos seus aposentos ser aberta. Um segundo depois, houve uma batida tímida na porta do seu quarto. "Eu estar trazendo seu jantar, senhor," disse uma voz pequena e aguda.
"Pode deixar aí fora," Draco respondeu rispidamente, e ele ouviu o suave barulho de uma bandeja sendo colocada no chão e então sua porta sendo fechada novamente. Com esforço, ele se levantou e se sentou na ponta da cama, cotovelos nos seus joelhos e cabeça nas mãos. Ele tinha passado o dia inteiro sem comer, não tendo comido nada no trem, e, antes disso, tendo faltado o café da manhã porque tinha ido lá fora escrever o bilhete na neve para o Harry. O peso no seu peito ficou um pouco mais leve com essa memória, aliviando seus pensamentos escuros por um momento, e um pequeno sorriso curvou os cantos da sua boca, suavizando seu rosto tenso. Ele talvez nunca soubesse se Harry tinha visto, mas tinha sido algo que ele não conseguiu resistir de fazer, apesar de ser bobo – uma última declaração, uma última memória feliz que ele teria, imaginando o Harry encontrando a mensagem, e com sorte algo que Harry lembraria com prazer também. . . um dia.
Levantando, sentindo-se trêmulo e ao mesmo tempo mais confiante, mais certo de seu propósito, Draco fez seu caminho até a sala de entrada e ao seu jantar. Sua mão procurou o pingente que ele vestia por baixo da sua camisa – o presente de Natal do Harry – o presente mais tangível de todos que Harry havia lhe dado. Tocar-lhe o proporcionava tanto conforto. Ainda havia tantas coisas das quais ele queria se lembrar e pensar a respeito. Talvez. . . talvez ele não precisasse armar seu coração ainda. O dia seguinte viria rapidamente. Essa noite, ele se prometeu as memórias.
…
…
Em Hogwarts, sentado em uma das cadeiras na frente do fogo no quarto do Draco, Harry estava sozinho na véspera de Natal pela primeira vez em anos. Anteriormente, Rony, ou Rony e Hermione ambos, tinham passado o feriado com ele, e ele sentia falta deles. Ele sorriu, pensando no Rony, e tentou imaginar como o seu amigo iria fazer para apresentar o anel de noivado para a Hermione. Imaginando os sorrisos dos dois e, sem dúvida, a surpresa satisfeita dos pais deles o deixava muito feliz. . . e imensamente solitário. Ele desejou mais uma vez que Draco não tivesse insistido em ir para casa. Mais do que qualquer coisa, ele estava com saudade do Draco.
A preocupação que ele havia sentido naquela tarde pelo Draco tinha retornado com força. Draco provavelmente já estaria em casa agora, encarando o seu pai. Harry estava muito preocupado com isso, odiando a distância que separava eles e a ansiedade de não saber o que estava acontecendo. Draco estaria a salvo? Ele conseguiria voltar? E se ele encontrasse algum problema e não conseguisse usar a Chave de Portal? Tantas coisas poderiam acontecer, tantos 'se'. Dois dias pareciam uma eternidade para se esperar.
E apesar do Draco ser a prioridade em sua mente, o outro garoto não era a única preocupação do Harry. Ele alcançou dentro do seu bolso e retirou um pedaço de pergaminho dobrado e amassado. Abrindo-o, Harry estudou a carta da Cho mais uma vez. Ele a leu várias vezes nas últimas horas desde que a havia recebido, até ter praticamente memorizado tudo.
Ele a re-leu mais uma vez agora, mordendo seu lábio inferior preocupadamente, alternando entre ficar furioso consigo mesmo por ter permitido que isso acontecesse, e ficar furioso com ela por ter esperado tanto para contá-lo. Ele quase desejava que ela nunca tivesse dito nada. Não, isso não era verdade – ela tinha que contar para ele, é claro que ele percebia isso, mas Meu Deus, isso não deveria estar acontecendo. Havia milhares de razões que tornavam isso tão errado. E ao mesmo tempo – e Harry censurava a si mesmo por causa disso – o início dos sentimentos de animação e adrenalina estava correndo por ele também, quando o choque inicial foi se dissipando.
Cho e o novo marido dela tinham arranjado tudo de forma tão organizada – eles tinham sido sensíveis e cuidadosos, e ele tinha que ser grato por isso. Esse tempo todo, entretanto, ele pensou com raiva, por seis meses ela deixou que ele continuasse, felizmente ignorante do segredo que ela carregava. Era mais do que exasperador. Mas talvez ela estivesse certa em fazer isso, ele admitiu finalmente, dando tempo para que ele curasse seus sentimentos magoados. Se ele soubesse antes de agora, antes de entender porque ela tinha dormido com ele para início de conversa, antes de ele perdoá-la. . .
Ele leu um parágrafo próximo ao fim da carta mais uma vez, talvez pela centésima vez:
"Eu realmente nunca imaginei que isso fosse acontecer, Harry, e eu me sinto tão estúpida por não ter feito nada para me prevenir naquela noite. Mas eu quero que você saiba que agora que aconteceu, estou muito feliz. Eu te conheço, e sei o quanto você queria isso, então talvez seja o destino. O Lian e eu queremos que você se envolva, e então, de acordo com a tradição da família dele, nós concordamos que você deve nomeá-la."
Harry dobrou a carta da Cho e a colocou no seu bolso. Ele suspirou profundamente e caiu na sua cadeira, retirando os óculos e virando a cabeça para encarar o brilho borrado do fogo. Estúpido – sim, era exatamente assim que ele se sentia. Incrivelmente estúpido. O que ele queria não era isso, não desse jeito, não agora. Mas. . . ela. . . oh, Deus. Saber disso tornava a situação tão assustadoramente real e inegável – e. . . de tirar o fôlego. Ele teria que contar tudo ao Draco assim que ele voltasse no dia depois de amanhã. . . e essa era outra preocupação. Como Draco iria reagir? Ele entenderia? Harry esperava ardentemente que sim, e então balançou a cabeça com uma risada suave, zombando de si mesmo. Ali estava ele completando o círculo, preocupando-se com o Draco novamente.
Ele tinha decidido que não queria retornar ao dormitório deserto da Grifinória essa noite, preferindo ficar aqui no quarto do Draco. Ele tinha ido ao dormitório brevemente para pegar algumas peças de roupas depois do jantar e o seu quarto tinha parecido frio e escuro e quase estranho sem a presença de todos os seus amigos. Por um momento, também, enquanto retornava à Torre da Sonserina, ele imaginou se deveria avisar a Professora McGonagall onde ele estava. Mas não o fez – contar para ela que ele ficaria no quarto do Draco iria requerer muitas explicações. Se eles não conseguissem encontrá-lo por algumas horas, bem, Harry não iria se preocupar com isso. Ele já tinha o suficiente com que se preocupar. E ele não queria ninguém se sentindo como se tivessem que fazê-lo companhia. Se ele não podia ficar com o Draco, ele queria ficar sozinho para que pudesse pensar no Draco, e ele também não queria ter que explicar isso para ela.
Deus, ele queria saber o que estava acontecendo com o Draco nesse momento – apenas saber se ele está a salvo. Ele fechou os olhos, imaginando o Draco como o tinha visto pela última vez, de pé na porta, sorrindo tristemente, desejando a Harry um "Feliz Natal," então tentou imaginar onde ele estaria, o que ele poderia estar fazendo agora, na véspera do Natal. Como era a casa dele? Será que ele estava com seus pais. . .ou sozinho no seu quarto? Que tipo de quarto ele tinha lá? Todas essas perguntas circulavam pela sua mente e Harry percebeu que havia tanta coisa sobre o Draco que ele ainda não sabia.
Harry se lembrou da sensação que teve mais cedo nessa tarde, de pensar no Draco e repentinamente sentir como se eles estivessem realmente juntos, tão real era a ilusão de toque, da batida daquele coração que ecoava junto ao seu. Imaginando isso agora, curioso, ele respirou profundamente e se concentrou, pensando no Draco, dessa vez deliberadamente alcançando seus pensamentos através de magia. E quase instantaneamente ele sentiu novamente, a proximidade, o eco firme de um segundo coração dentro de si. . . e uma onda de emoções tão fortes. . .
…
…
Draco ficou de pé em frente a uma das janelas ao lado da escrivaninha em sua sala de entrada, seu prato de jantar afastado para um canto da mesa do outro lado do quarto. Estava escuro demais para ver muita coisa lá fora, apenas a neve azul-violeta pálida esticada para longe da casa através dos jardins, mas ele não estava vendo sequer isso. Em memória, ele estava na frente da janela do seu quarto em Hogwarts, olhando a paisagem enquanto a neve caía, revivendo o momento em que Harry tinha dito, "Meu Deus, Draco, como você pode pensar que eu me arrependeria de fazer amor com você? Eu sei quão incertas as coisas são". Então Harry tinha lhe tocado tão gentilmente, as próximas palavras dele quase quebrando o coração do Draco com a percepção de que estivera tão errado – que não tinha como o Harry não se machucar.
Então Harry tinha implorado, com uma voz que era suave e tenra, "por favor não torne isso mais uma coisa que nós nunca pudemos compartilhar um com o outro". Aquelas palavras tinham derrubado todas as boas intenções do Draco, sua resistência evaporando como a névoa antes do sol. . . e Harry tinha vindo aos seus braços, irresistível e convidativo; seu para beijar, para abraçar, para amar. Harry o queria, de qualquer jeito. Draco tinha ficado tonto com esse conhecimento.
Eles se abraçaram por um longo e incrível momento, provocando um ao outro com sussurros, e então Draco tinha beijado o Harry da forma como estivera querendo por tantos dias, sem reter nada, sabendo, sabendo o que iria acontecer e que ele queria. . . queria há décadas, parecia. Harry tinha desabotoado a camisa do Draco, e pequenos tremores de excitação tinham corrido por ele quando Harry tocou sua pele. Ele se sentiu derretido e incapaz de formar pensamentos enquanto Harry pegava sua mão e o levava para a cama.
Isso tinha acontecido apenas ontem. . . mas parecia uma vida atrás. Draco se virou da janela com um sussurro, caminhando até o seu quarto, distraidamente balançando sua varinha para apagar as lâmpadas. Enquanto ele se despia no escuro ao lado da sua cama, outras memórias surgiram – de duas varinhas e um par de óculos descartados apressadamente na cabeceira, de Harry retirando a camisa já desabotoada do Draco de seus ombros enquanto eles se beijavam novamente ao lado da cama.
Com um pequeno arrepio vindo dessa última memória, Draco entrou na cama e deitou de costas, seus braços cruzados folgadamente em cima de seu estômago, e deixou o resto das suas memórias o carregarem para longe. . .
Eles ficaram ao lado da cama por um momento, beijando-se, ambos envergonhados e animados, antecipação e desejo crescendo em ondas de calor entre eles. Draco se sentiu tonto; seu coração estava martelando. Ele sentiu o toque delicado dos dedos do Harry em seus pulsos e nas suas mãos enquanto Harry puxava as mangas da camisa do Draco, retirando-as. Draco colocou seus braços nus ao redor da cintura do Harry e a camisa caiu despercebida ao chão.
Harry se afastou vagarosamente do beijo e então arqueou as costas um pouco dentro dos braços do Draco, suas mãos indo entre eles para desfazer os botões da sua própria camisa. Draco o soltou um pouco e então o ajudou, apanhando a camisa na cintura do Harry e retirando-a de dentro da calça. Um momento depois, a camisa do Harry também caiu ao chão. Draco levantou uma mão e correu seus dedos levemente pelo corpo do Harry, da base da sua garganta até o topo dos seus jeans, um mero sussurro de toque, e ele viu Harry responder a esse toque, fechando os olhos e inspirando rapidamente.
Draco sentiu uma profunda emoção de reverência então, que Harry poderia ser tão afetado pelo seu toque. Harry era incrivelmente atraente – cabelo escuro e bagunçado e cílios pretos em suas bochechas coradas, seus lábios levemente partidos, e enquanto Draco observava, Harry abriu os olhos. Havia tanto amor e desejo naqueles olhos verdes brilhantes que, por um momento, Draco se perdeu neles, tão perdido quanto se sentiu na primeira vez em que Harry o beijou. Nunca na sua vida ele quis ser tanto, ou dar tanto, para outra pessoa. Ele se sentou na beira da cama, dominado pelos seus próprios sentimentos de amor e desejo, e Harry se sentou ao lado dele, puxando-o para outro beijo suave, emocionante e tocante, segurando-o com aquelas mãos incríveis e gentis que conseguiam preenchê-lo com fogo e magia com um mero toque.
Eles se separaram, respirações pesadas, e por um segundo suspenso, os olhos deles se encontraram, e repentinamente eles estavam retirando seus sapatos e jeans e cuecas em uma pilha bagunçada no chão. Harry entrou na cama, movendo-se até o centro para dar espaço enquanto Draco entrava também.
Draco deitou de costas e estendeu uma mão urgentemente para o Harry, querendo pele contra a sua pele, querendo a solidez do peso do Harry em cima dele, precisando que a boca do Harry não ficasse separada da sua. . . talvez para sempre. Harry estava alcançando por ele também, inclinando-se sobre ele, tão perto que os narizes deles se bateram levemente. Mas então Harry se afastou um pouco. Olhando nos olhos verdes, Draco avistou uma pergunta ali, enquanto Harry ficou parado, seu corpo não tocando o de Draco.
"Para sempre?" Harry perguntou com um sussurro sem fôlego, olhos verdes vívidos segurando o olhar do Draco com expectativa, seus dedos vindo desenhar uma carícia tenra na bochecha do loiro.
Por meio segundo, Draco pausou, seu coração voando em mil pedaços quebrados e derretidos. Ele queria desesperadamente dizer que sim, queria jurar como uma promessa inquebrável, mas se ele fizesse, seria uma mentira? Ele apertou os braços ao redor do Harry, puxando-o para baixo, e Harry colocou as mãos embaixo dos ombros do Draco, movendo para se deitar completamente em cima do loiro. O contato corporal entre eles era repentinamente intenso, e Draco segurou com força, seus olhos fechados e seu coração martelando. Harry inclinou a cabeça, descansando sua testa na de Draco por um momento, sua respiração rápida e irregular, então ele levantou sua face e Draco abriu os olhos, encontrando o olhar de Harry firmemente.
"Para sempre," Draco sussurrou em resposta, e ouvindo a certeza em sua própria voz, ele soube que não era uma mentira, que ele seria de Harry totalmente, por todo o tempo que "para sempre" pudesse ser para eles.
Deitado na sua cama em casa, Draco se lembrou disso com uma dor profunda em seu coração; o peso sufocante que sentira mais cedo preencheu seu peito novamente, dessa vez com intensa saudade. Ele se lembrou da maneira profunda como Harry o havia beijado depois que disse isso, como a paixão tinha acendido como desejo-fogo entre eles, e como Harry tinha pressionado-o para baixo, movendo-se contra ele e fazendo com que Draco se movesse da mesma forma, querendo se aproximar ainda mais. A novidade incrível e ardente disso, aumentada e inflamada pelo desejo tão acumulado, correu por ambos em uma corrente crescente de emoções e excitação, levando-os para o fim tão rápido. . . Harry tinha quebrado o beijo abruptamente e escondeu seu rosto na curva do pescoço do Draco com um gemido rouco, no mesmo momento em que Draco arqueou embaixo dele, agarrando o Harry com seus joelhos e mãos, sentindo como se estivesse deslizando pelo aro do universo, seus ossos virando fogo líquido. Abraçando o Harry, segurando firmemente enquanto calor e amor e um tremor satisfeito corriam por seu corpo, Draco ficou ciente de que estava tremendo e Harry, também, estava tremendo nos seus braços.
Draco se virou agora, deitado curvado de lado, desejando que estivesse de volta em Hogwarts, que ele pudesse simplesmente estender sua mão e encontrar o Harry ali para segurá-lo e amá-lo novamente. Ele se sentia vazio e abandonado, repentinamente desesperado pelo toque do Harry, precisando do conforto que apenas o Harry poderia lhe proporcionar. E então, assim que ele desejou, Harry estava ali com ele. A sensação da presença do Harry era tão real, que fez com que ele perdesse o fôlego.
Não era uma presença física do Harry, mas sim a sensação da magia dele que Draco conseguia sentir. Draco conseguia sentir a magia correndo pelo seu ser, calmante e consolativa, como se o próprio Harry estivesse ali com ele. A paz do feitiço o invadiu e o peso que ele estivera sentindo sumiu, deixando-o leve e calmo, parecendo até que poderia flutuar. Fechando os olhos, ele deixou o sentimento acalmar todas as suas preocupações, seus desejos e seus medos. Harry realmente o amava, e ele amava o Harry também, com todo o seu coração. Ele colocou uma mão bem acima do seu coração e seus dedos se fecharam ao redor do pingente que ele usava. "Por favor, se lembre que eu te amava, Harry," ele sussurrou, e então deixou o conforto do feitiço apagar seus pensamentos conscientes, e, finalmente relaxando, ele caiu no sono.
…
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A sensação de estar com o Draco veio ao Harry com facilidade – ele conseguia sentir a vibração que sempre sentia quando lançava a magia no Draco e o eco de um coração logo ao lado do seu, mas dessa vez, embaixo de tudo isso, havia um sentimento profundo de tristeza, de desejo tão intenso que era doloroso.
Draco. . . ah meu Deus.
Harry sentiu a dor dentro de si como se sua fosse, e por um segundo ele foi atacado por um raio aterrorizante de medo de que algo horrível pudesse ter acontecido, de que Draco estivesse encrencado ou até mesmo machucado. Mas um momento depois, ele soube. Ele reconheceu a dor familiar, coração ao coração, como aquele sofrimento profundo de sentir falta de alguém que você ama, e ao perceber o que isso significava, Harry se sentiu emocionado e profundamente tocado. O amor que ele sentia pelo Draco se acumulou dentro dele e, sem parar para pensar se seria sequer possível, ele sussurrou as palavras do feitiço calmante e imaginou o feitiço viajando por seus pensamentos, através da conexão emocional que eles de alguma forma compartilhavam. Ele se imaginou tocando o Draco e deixando o conforto seguro do feitiço de cura correr por seu corpo até o outro garoto, exatamente como se ele estivesse ali com ele. E como se eles estivessem realmente juntos, ele sentiu o feitiço funcionando, rapidamente acalmando e afastando a dor e a solidão, e por um momento era como se eles compartilhassem uma paz profunda um com o outro.
Harry não sabia se o que ele estava imaginando era real – se Draco realmente estava sentindo os efeitos do feitiço, ou se, talvez, ele tivesse apenas lançado o feitiço em si mesmo – mas ele torcia para que, de alguma maneira, Draco tivesse o sentido. Mas um momento depois, ele sentiu uma onda profunda de amor; estava pulsando dentro dele, e Harry conhecia esse sentimento. Era exatamente como naquela primeira noite em que ele lançou esse feitiço a pedido do Draco e, pela primeira vez, experimentou a sensação de ser unido a alguém por magia, quando eles pareciam ter dissolvido um no outro e Harry, lançando o feitiço calmante no Draco, tinha sentido uma onda de amor vinda do outro garoto. Harry sentia a mesma coisa agora, a união, a junção, e o amor que corria entre eles. Não havia qualquer dúvida em sua mente agora de que isso estivesse funcionando. "Eu também te amo," ele sussurrou, seu coração preenchido com uma felicidade quieta em frente a tal milagre, de que eles poderiam estar juntos até mesmo agora, a quilômetros de distância.
Com o decorrer dos minutos, o feitiço vagarosamente se dissipou, e Harry, enormemente assegurado da condição do Draco, foi para a cama e dormiu profundamente.
…
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Draco acordou vagarosamente, seu primeiro pensamento sendo sobre o Harry, e sobre o que teria acontecido na noite anterior. Com certeza tinha sido real, e ele não precisava entender como aquela situação seria possível para saber que, de alguma forma, o Harry tinha conseguido alcançá-lo com o toque de sua magia até mesmo aqui, tão distante. O efeito do feitiço parecia continuar com ele, ou talvez fosse apenas o conhecimento de que Harry poderia continuar tão perto dele, mas havia um sentimento profundo de calma dentro dele nessa manhã, e ele se sentia muito mais preparado para encarar o longo dia à sua frente.
Sentando-se, Draco encontrou a travessa contendo seu café da manhã na mesa de cabeceira. Café da manhã na Mansão Malfoy no dia de Natal era tradicionalmente servido à família nos seus respectivos quartos. Ele comeu um pouco, e então desembrulhou os presentes que encontrou ao pé da sua cama. Do seu pai, ele ganhou livros – primeiras edições de dois livros raros de Poções do século XVII – pelo menos o seu pai o conhecia bem, ele pensou, imaginando, ao mesmo tempo, se qualquer outra coisa além de dinheiro tinha sido empreendido na aquisição daqueles livros. Como sempre, sua mãe o presenteou com uma capa formal que ela esperava que ele vestisse no dia de hoje – azul escura, veludo, com detalhes em prateado e um pouco de renda no punho. Era bonita, mas não tão estilosa quanto as que ele e Harry vestiram para o Baile Anual. Ela também o deu um suéter cinza-claro de caxemira e um par de luvas pretas, feitas de pele de Dragão, para voar. Passando suas mãos pensativamente pelo tecido suave do suéter por um momento, ele decidiu que o iria vestir no dia seguinte para se encontrar com o Harry, e então ele apanhou um dos livros.
Era um texto magnífico, com tabelas, fórmulas, e ilustrações elaboradas de ingredientes de poções, e Draco virou as páginas com cuidado, reverentemente. Era uma perda de tempo, é claro, ler esses livros – mas Draco passou a manhã inteira fazendo isso mesmo assim, incapaz de resisti-los. Eventualmente, um elfo-doméstico apareceu para lhe informar que sua mãe estava o chamando no primeiro andar e ele relutantemente guardou os livros. A manhã que passou lendo seu assunto predileto, entretanto, tinha afastado sua mente de todo o resto, e a sensação contínua de calma com que tinha despertado persistiu enquanto ele se vestia para o banquete.
Quando ele desceu as escadas, a maioria dos convidados já tinha chego, e estavam todos reunidos no salão de baile massivamente decorado e iluminado por velas. Longas mesas estavam cobertas com toalhas finas de mesa de cor de vinho-tinto e carregadas com todos os tipos de iguarias e hors d'oeuvres deliciosos. Pudins e outros doces eram abastecidos em intervalos nas mesas encostadas às paredes. Mesas menores, cobertas de linho cor de vinho e renda branca, cada uma decorada com uma vela acesa colocada em uma guirlanda de azevinho, estavam dispostas ao longo das outras paredes, deixando o centro do salão livre para a dança. Uma pequena orquestra estava tocando uma suave música de ambiente em um canto. Elfos-domésticos, vestindo togas com o emblema Malfoy mantinham as mesas repletas de comidas e bebidas coloridas.
Narcisa ainda estava junto à porta do salão, pálida e com a aparência cansada, em um vestido longo verde-escuro, recebendo os convidados com uma taça de cristal de champanhe em sua mão. Draco passou por ela enquanto ela estava ocupada conversando com a Madame Ramsbotham, uma bruxa idosa e corcunda, andando com o apoio de uma bengala com a decoração de uma cabeça de ovelha, portando uma carranca predatória e um chapéu de pluma de avestruz antigo e roído por traças.
Dentro do salão, ele avistou seu pai do outro lado do cômodo, anfitrião de um grupo de senhores os quais Draco tinha bastante certeza serem todos Comensais da Morte. Ele se dirigiu até as mesas com comidas, com a intenção de comer, deixar seus pais notarem sua presença, preferencialmente sem ter que conversar com qualquer um dos dois, e então, após a dança obrigatória com uma das filhas dos amigos dos seus pais, desaparecer discretamente. A ideia de dançar com aquelas meninas fez ele se arrepiar. Ele temia tal situação porque ele sempre se sentia exposto – as garotas puxando o saco dele, cada uma torcendo ser aquela que iria apanhar o interesse imensamente elegível e rico herdeiro Malfoy. Nesse ano, ele sabia que iria odiar mais do que nunca – porque ele já tinha dançado com o Harry.
Draco se juntou à fila de convidados enchendo seus pratos nas mesas de banquete, acenando para alguns dos amigos de seus pais que reconhecia. Crabbe e Goyle estavam lá com seus pais, e já estavam sentados à mesa, estufando-se de comidas empilhadas nos seus pratos. Ele rolou os olhos quando eles acenaram para ele com seus garfos. Ele se uniu aos dois alguns minutos depois, seu prato contendo porções muito mais moderadas.
Comer com o Crabbe e o Goyle não era uma ideia muito atraente para o Draco, mas ele não queria se sentar sozinho. Isso constituiria um convite aberto para que qualquer menina viesse se sentar com ele, e isso era a última coisa que ele queria fazer. Ele também sabia que seus antigos colegas de dormitório estariam demasiadamente ocupados com seus pratos para se importarem se ele falasse com eles ou não, e essa era outra coisa que ele queria evitar – ele não estava com humor para carregar conversas educadas e sociais com ninguém no dia de hoje.
Entretanto, aproximadamente cinco minutos depois, ele avistou a Pansy sentada com seus pais e congelou por um breve segundo com seu garfo estendido no ar, a caminho da sua boca. Draco proferiu um xingamento em sua mente, imensamente irritado consigo mesmo. É claro que ela viria hoje. Ele não conseguia entender como fora tão estúpido a ponto de ter esquecido isso. Ela tinha finalmente deixado ele em paz na cabine do trem, mas Draco não sofria qualquer ilusão de que, caso tivesse a chance, ela teria deixado aquela conversa para lá.
Enquanto muitos convidados terminavam de comer, Draco viu seu pai dando o sinal para que a música para a dança começasse, e o salão foi consequentemente preenchido com o som de violinos e flautas de uma valsa. Vários casais mais antigos se dirigiram à pista de dança, e Draco ficou com a distinta sensação incômoda em sua nuca, de que várias garotas tinham treinado seus olhos esperançosos nele.
"E aí, quantos corações você acha que ele vai quebrar hoje, Vic?" Gregory provocou com a boca cheia, cutucando Vicente nas costelas com o seu cotovelo e jogando a cabeça na direção do Draco.
Vicente sorriu para o Draco. "Todos," ele disse, comendo uma grande garfada de bolo.
Draco sorriu em resposta e apanhou seu cálice de ponche, levantando-o em um brinde de brincadeira para o Vicente antes de beber.
"Ele não gosta das garotas, o nosso Draco," Vicente disse astutamente para o Gregory enquanto mastigava. "Você sabe disso."
Draco quase engasgou no seu ponche. Ele se virou para observar o Gregory, que estava sorrindo maliciosamente para o Vicente, e sentiu sua face corar. Maldição! Eles realmente sabiam? Ele colocou o cálice na mesa. "Descobriram isso, é?" ele perguntou com o mínimo de interesse quanto conseguiu.
Gregory riu. "A gente viveu com você por vários anos, cara, e com todas as meninas babando em cima de você e você não retornando os sentimentos de sequer uma delas, bem, não precisa ser um gênio para perceber."
"Além do mais," Vicente adicionou, "a Pansy contou para a gente no trem."
"Ela. . . o quê?"
"É," Gregory disse. "Ela achou que seriam Notícias Super Chocantes, as a gente disse que já sabia."
"Isso realmente airritou," Vicente disse com um ronco rude. Ele pausou para morder metade de uma torta de picadinho de carne.
"E então ela disse, com todo um jeito de sabichona, que ela sabia de quem você gosta." Gregory disse, retomando a história.
"E nós dissemos que não ligávamos para quem você gosta contanto que não seja um de nós," Vicente continuou, "e que ela deveria cuidar do próprio nariz."
"E o que ela disse a isso," Draco perguntou, olhando de um garoto para o outro, momentaneamente horrorizado e praticamente segurando a respiração.
"Ela disse, 'Até parece'," Greg riu. "Aí ela fez aquela careta, sabe, que ela sempre faz, e não falou com a gente pelo resto da viagem."
"E nós também não deixamos ela comer os sapos de chocolate que ela tinha reservado para você," Vicente disse.
"Ha!" Draco regozijou. "Excelente." Por um momento era como se estivessem no passado – os três já tinham sido praticamente inseparáveis. Ele sorriu e levantou o cálice para eles novamente, sentindo-se enormemente feliz. Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, como se tivesse sido conjurada do próprio ar, o assunto da conversa deles se sentou em uma cadeira vazia na mesa.
"Ah, olá, Pansy," Greg disse com um ar de tamanha inocência que os três meninos riram. Ela fez uma careta.
"Bem, estou indo," Draco disse rapidamente antes que a Pansy pudesse começar a falar, levantando-se da sua cadeira com um sorriso para os outros meninos. "Tenho que me livrar logo dessa maldita dança," ele adicionou com um tom de mártir, sua expressão previamente entretida agora virando de desgosto enquanto se virava e observava o salão. Se estivesse com sorte, ele pensou enquanto caminhava na direção das mesas do outro lado do salão, ele conseguiria encontrar a Mademoseille Delauncey, uma menina do sexto ano na Beaubaxtons cuja avó tinha sido amiga da avó dele. Ela, pelo menos, sabia dançar corretamente.
Ele tinha dado apenas um passo, entretanto, quando uma mão deslizou entre seu braço, puxando-o para trás.
Era a Pansy.
"O quê?" Draco disse, virando-se e a encarando com irritação.
"Dance comigo, Draco," ela disse com imploração, apertando seu braço. "Eu quero falar com você."
"E o que te deu a ideia de que eu quero falar com você?" ele retrucou com a voz baixa. "O Greg e o Vic acabaram de me contar o que você disse no trem."
"Ah, e daí?" ela respondeu defensivamente. "É óbvio que eu era a única que não sabia." Ela o lançou um olhar feio, recusando-se a soltá-lo. "Eu não disse mais nada, não é?"
Draco desviou o olhar impacientemente, escaneando o salão por alguma desculpa para escapar. Talvez se ele encontrasse a Mademoiselle Delauncey ele poderia alegar um apontamento prévio. Mas ao invés da outra menina, ele acabou encontrando o olhar do seu pai observando-o, franzindo as sobrancelhas em desaprovação. Notando a expressão do Lucius com interesse, ele mudou de ideia. Repentinamente, parecia que dançar com a Pansy traria alguma compensação, afinal de contas. Pelo menos a Pansy sabia a verdade ao seu respeito e sobre onde descansava seu coração, e em adição ao desagrado do seu pai, serviria para manter as outras meninas à distância. Draco sorriu imprudentemente ao seu pai por um segundo, e então se virou para a Pansy. "Vamos então," ele disse bruscamente, e a levou até a pista de dança.
Eles dançaram em silêncio por vários minutos – a Pansy pôde perceber que o Draco ainda estava agindo de forma estranha com ela, e não queria isso. "Desculpe," ela disse finalmente. "Eu não deveria ter dito nada para eles – mas eu estava tão brava com você por gritar comigo no trem – eu só estava tentando ser legal".
"E eu tinha te dito que queria ficar sozinho," Draco disse friamente.
Ela suspirou. Esse negócio de ser amigo seria bem mais difícil do que tinha esperado. Ela imaginava que o Potter não teve que martelar aos poucos a muralha de gelo que o Draco sempre colocava entre ele e ela. E pensar no Potter fez ela se lembrar do assunto sobre o qual queria conversar com ele.
Esperando alguns minutos até que eles não estivessem muito próximos aos outros casais na pista de dança, Pansy vocalizou sua preocupação. "Você contou para o seu pai?" ela perguntou com um sussurro fraco. "Sobre você e o Potter?"
"Sim," Draco disse curtamente. "Assim que eu cheguei em casa na noite passada."
"Eu acho isso difícil de acreditar," a Pansy disse, observando-o com ceticismo, "já que você não aparenta ter sido desmembrado. Nenhuma marca visível de feitiços, também."
"Eu já te disse, estou apenas fazendo o que meu pai mandou."
Ela estudou a face desatenta dele por um momento e balançou a cabeça, nem um pouco enganada pela maneira praticada e falsa dele. "Draco, o que você está realmente planejando?"
"Se eu tenho que dançar com você, eu danço," Draco disse com uma indiferença fria, "mas eu não vou brincar de vinte perguntas."
"Você o ama," ela continuou, ignorando a retrucada. "Você disse você mesmo, e eu vi no seu rosto." Ela soltou um ronco. "Você nem conseguiu machucar os sentimentos dele ao fingir terminar o namoro por cinco minutos sem lançar dicas para que ele soubesse que era mentira! Não negue," ela disse, "eu sei que você fez isso. E agora você está tentando me dizer que apenas esteve agindo de acordo com alguma coisa que seu pai te mandou fazer? Bem, eu não acredito! Então, eu quero saber - o que está realmente planejando?"
Draco a observou seriamente, talvez pela primeira vez em sua vida. "Existe uma guerra começando," ele disse acidamente. "Então me diga Pansy, em qual lado você está? Você está junto com esse rebanho de ovelhas? Ou nos seus próprios pés?"
"Eu consigo pensar por mim mesma perfeitamente bem, Draco, se é isso que está sugerindo," ela disse tensamente. Mas ela estremeceu um pouco com o olhar dele, como se ele não estivesse olhando através dela como sempre, mas sim como se ele finalmente estivesse enxergando-a. "Eu não tenho nenhum motivo para ser leal àquele lunático que eles chamam de Lorde das Trevas," ela disse. "Ou ao Dumbledore, também." Ela abaixou os olhos por um momento, agrupando sua coragem. "Eu ficaria ao seu lado," ela disse suavemente, olhando para ele com determinação, "seja lá onde isso for. . . se você me deixar."
Draco desviou o olhar. Após um momento, ele disse. "Isso não é bom o suficiente. Você ainda está agindo como uma ovelha."
"Eu não sou uma ovelha!" ela disse, indignada. "Estou sendo uma. . . uma. . . amiga, Draco. O Potter disse. . . que se eu me importava com você, eu deveria tentar ser sua amiga. Mas você bloqueia todo mundo," ela adicionou com ressentimento. "Todo mundo, menos ele."
Tomando seu tempo para considerar isso, Draco dançou com ela em silêncio por vários minutos. Pelo menos ela não tinha dito nada ao Vic e ao Greg sobre o Harry. "Se você realmente quer me ajudar," ele finalmente disse, observando-a cuidadosamente, "tem algo que pode fazer." Então um canto da boca dele se levantou em um sorriso entretido. "Mas será muito difícil," ele disse, provocando. "Você não vai gostar."
"O quê?" ela perguntou, ofendida pelo tom dele. "Eu consigo fazer qualquer coisa que você me pedir, Draco."
"O que vai me ajudar mesmo," Draco disse, ficando sério, "é que você fique com a boca fechada e não interfira".
Ela fez uma careta por um segundo, e então tentou se soltar dele com raiva, com a pretensão de sair da pista de dança. Mas o Draco a segurou e a trouxe mais perto, forçando-a a continuar dançando.
"Solte-me," ela disse. "Tudo que você faz é me insultar – "
"Aquilo não foi um insulto," ele a cortou insistentemente. "Foi a verdade."
O tom repentino e urgente na voz dele apanhou a atenção dela e ela parou de se contorcer.
Ele se inclinou para perto, sussurrando na orelha dela. "Pansy, use a cabeça! Se o meu pai suspeitar que você sabe de qualquer coisa, poderia arruinar tudo. Se eu vou confiar em você, eu preciso que jure manter tudo que você sabe em segredo – apenas entre nós dois. Você pode me prometer isso?"
O cabelo dele estava tocando a bochecha dela suavemente e o raspar da boca dele na sua orelha enviada tremores loucamente pelo seu estômago. Ela o deixou girá-la na pista dança antes de dar sua resposta relutante, porém previsível. "Sim," ela sussurrou, e foi presenteada com um sorriso estonteante que roubou seu fôlego e fez ela se esquecer de todo o resto.
Pelo resto da noite, ele dançou com ela, e riu das coisas que ela falava, e a trouxe cálices de ponche rosa e pratos de doces. Os olhares invejosos que ela recebeu de diversas garotas no salão foi a cereja sobre o bolo. Ah, ela riu consigo mesma, incapaz de resistir um pouco de regozijo, se elas soubessem o que ela sabe. Apenas quando ela estava na carruagem a caminho de casa, pensando sobre o estranho olhar solene que estivera presente no adeus do Draco, que ela percebeu que ele não tinha lhe dito nada. Ela jurou silêncio e ainda não tinha nenhuma ideia do que ele estava planejando.
…
…
Draco ficou de pé ao lado do seu pai nas grandes portas de entrada da mansão enquanto o entardecer azul suave caía sobre o gramado coberto de neve e as lanternas altas estavam sendo acesas, dizendo adeus aos últimos convidados que partiam. Ele pôde perceber, pela mandíbula forçada do seu pai, que Lucius estava irritado, mas mesmo assim o Malfoy mais velho estava agindo todo charmoso e gracioso enquanto agradecia seus visitantes pela presença e os desejava um Feliz Natal. Draco não tinha conseguido escapar cedo, no final das contas, e Lucius tinha lhe apanhado do salão para que ficasse ali na porta com ele com a simples e indiscutível frase: "Eu quero você lá comigo. . . agora."
A longa e formal passagem que levava da entrada até a rua, onde as carruagens estavam alinhadas para receber os convidados que partiam, foi delimitada com plantas elegantemente aparadas, e tinha sido limpa de neve. Mas o Draco, observando atentamente o seu pai, percebeu ele lançando vários olhares para o cenário lá fora, seus olhos se estreitando em pensamento, no ponto onde uma das lanternas criava um brilho dourado no terreno coberto de neve. Draco não conseguia ver o que estava atraindo o interesse contínuo do seu pai – a neve não estava nem tão bonita lá já que tinha sido varrida pelos elfos-domésticos que tinham acendido as lanternas.
Mesmo assim, ficou evidente para o Draco que seu pai estava irritado, e ele estava torcendo que não fosse com ele. Bem, tinha sido sua intenção irritá-lo um pouco com a Pansy, mas considerando o que estava em jogo, ele esperava não ter ido longe demais.
Quando o último convidado partiu e os elfos-domésticos começaram a fechar e trancar as portas, Lucius se virou para o Draco com um olhar duro. "Venha até o meu escritório," ele disse em um tom que não permitia qualquer recusa. "Há certas coisas que precisamos discutir."
Draco o seguiu sem dizer uma palavra, seu coração batendo rápido em seu peito. Ao virarem um canto nos corredores, Draco avistou sua mãe de pé em frente a uma porta observando-os, uma mão encostada na porta como se estivesse se estabilizando, e uma taça de champanhe na sua outra mão. Ele se virou rapidamente.
"Eu vi você com aquela garota Parkinson," Lucius disse assim que eles entraram seu escritório e as portas finalmente se fecharam firmemente atrás deles. "E eu vi o jeito com que ela estava se jogando em você enquanto vocês dançavam a noite inteira. Está envolvido com ela?"
"Não!" Draco exclamou, ligeiramente surpreso pela pergunta abrupta. "Certamente não. A Pansy não significa nad-. . . é uma amiga." Ele encarou seu pai, irritação surgindo em si em uma onda. "Eu já te disse que não gosto de meninas," ele disse firmemente, agravado.
Lucius retornou o olhar insolente do Draco com um olhar gélido e comandante, então virou de costas e cruzou o cômodo para se sentar em frente à escrivaninha. "Eu não ligo para o que você gosta ou não, Draco," ele disse severamente. "mas entenda algo muito claramente – seja lá quais forem as suas. . . preferências, você irá se casar. Você irá produzir pelo menos um herdeiro para continuar o nome Malfoy. E você não irá estragar tudo por se envolver com alguém que está abaixo de você."
Draco endureceu. Ele tinha esperado isso, não que fosse de qualquer importância agora, mas mesmo assim. . . "Então quem é a garota azarada?" ele perguntou curtamente. "Eu assumo que você já tem alguém em mente?"
"Ainda não, mas você pode ter certeza que não será a menininha Parkinson," Lucius disse com uma careta desaprovadora. "Ela é não é nada. . . refinada, e a família dela não está na mesma classe que nós, socialmente ou financialmente. Eu tenho contatos no continente com filhas elegíveis muito mais. . . apropriadas para nossos requerimentos".
Com um bufo que era parcialmente entretido em razão de seu pai e ele concordarem acerca das perspectivas de ele se casar com a Pansy, e parte irrisão pela presunção do seu pai, Draco levantou uma sobrancelha. "Eu estou francamente surpreso pelo fato de você já não ter tudo arranjado," ele disse com ressentimento. "Eu esperei o ano inteiro para ser notificado da minha iminente felicidade conjugal."
"Quando o Lorde das Trevas for vitorioso," Lucius respondeu calmamente, "e nós vermos quem ainda se encontra de pé ao nosso lado, então será o momento para encontrar um par adequado para você."
"Como quiser, pai," Draco respondeu distraidamente, repentinamente entediado com a discussão. Realmente não fazia qualquer diferença. "Eu vou deixar isso em suas mãos muito mais experientes." ele adicionou, surpreso por ter conseguido manter o sarcasmo na sua voz suficientemente suavizado.
"Bom saber," Lucius disse, ignorando a provocação não tão sutil que Draco fez ao estado do casamento dos seus pais. "Agora, precisamos discutir o seu plano." Ele acenou uma mão na direção de uma das cadeiras opostas à sua mesa. "Sente-se."
Draco se sentou encarando seu pai. "Sim," ele disse, seu interesse recapturado imediatamente. Era isso o que ele tinha esperado o dia inteiro. "O que você decidiu?" ele perguntou impacientemente.
"Primeiramente, tem uma coisa que não lhe ocorreu. Uma falha gigante no seu plano. Eu a percebi enquanto estávamos na entrada da mansão". Lucius olhou com expectativa para o Draco, como se esperando para que ele chegasse à mesma conclusão, e uma sombra de desapontamento cruzou sua face quando Draco balançou a cabeça negativamente. "A neve, Draco," ele explicou com exagerada paciência. "Potter irá deixar um rastro óbvio de pegadas se ele caminhar de Hogwarts para te encontrar. O rastro irá liderar qualquer grupo de procura diretamente ao ponto da Chave de Portal, e como Dumbledore sabe que você tem a Chave, você será certamente implicado no desaparecimento do Potter".
Draco proferiu um xingamento em sua mente. Seu pai estava certo; ele não tinha considerado a neve. Pensando rapidamente, ele deu de ombros, despreocupado. "E se ele não caminhar até lá?" ele perguntou. "Eu posso escrever para ele hoje à noite – pedir que ele voe na sua vassoura. Na verdade, se ele fizer isso, acho que ele provavelmente irá sair do castelo pela janela do meu quarto ao invés de passar pela porta principal. Isso irá confundir a busca ainda mais." Ele levantou uma sobrancelha impertinente ao seu pai. "E certamente você conhece um feitiço que possa cobrir nossos rastros no ponto de Chave de Portal antes de irmos embora."
Lucius estreitou os olhos, com a cara de quem tinha acabado de morder a língua para não soltar um comentário maldoso.
"Bem, isso está resolvido," Draco, observando seu pai cuidadosamente, encarando seu olhar sem hesitação. "Mas sinceramente, pai," ele disse com manifesto desprezo, "quão cuidadosos temos que ser? Quando o Potter for capturado, será uma declaração clara de guerra. Se nós tivermos sucesso e pegarmos o Potter, não irá importar, não é, se eles descobrirem os responsáveis?" Ele pausou, inclinando a cabeça levemente. "Ou você ainda está com medo de declarar abertamente o lado em que está?" ele desafiou. "Talvez você esteja planejando invocar a Maldição Imperius mais uma vez."
"Minha intenção é pousar nos meus pés, independentemente de que lado ganhe," Lucius grunhiu. "Eu tenho muito a perder se eu for descuidado." Ele abanou a mão ao redor, indicando o cômodo opulente em que estavam. "E você também, se eu preciso relembrá-lo."
"Eu estou muitíssimo ciente do que eu tenho a perder," Draco disse com a voz baixa.
"Bom," Lucius disse, levantando-se de sua cadeira. "Eu arranjei todos os detalhes para a minha 'viagem a negócios' de amanhã," ele disse enquanto dava alguns passos na direção de um alto e fino gabinete, e abrindo uma gaveta. "Na verdade, eu irei levar o Potter imediatamente para um local em que ele possa ser escondido em segurança por alguns dias até que nós possamos presenteá-lo ao Lorde das Trevas". Ele retirou uma pequena chave preta da gaveta e a trouxe com ele novamente até sua mesa. "Eu ainda fiz a Chave de Portal que irá nos trazer de volta para cá assim que tenhamos o Potter sob controle," ele disse, mostrando a chave ao Draco. "Então escreva para o Potter – diga para ele voar ao seu encontro."
Draco sorriu maliciosamente. "Então você está concordando – em prosseguir como eu planejei? Apenas nós dois, e mais ninguém?"
"Sim, sim, contanto que você arranje esse pequeno detalhe. Eu decidi que quanto menos pessoas estiverem envolvidas, melhor – menor será a chance de sermos descobertos. Entretanto, você deve presumir que o Potter será descuidado e deixará sua carta onde outras pessoas possam encontrá-la depois que ele se for. Certifique-se de não escrever nada que possa demonstrar onde ele foi."
"É claro, pai," Draco disse rapidamente. "Eu vou ao meu quarto escrever a carta agora."
Lucius levantou uma mão para impedir que Draco se levantasse. "Não, isso pode esperar. Nós temos algo mais importante a discutir. Tem uma coisa que eu preciso de você, antes que possamos continuar esse plano."
Draco se sentou, observando o seu pai cautelosamente. "E o que isso seria?" ele perguntou, adivinhando antes que seu pai falasse o que seria, e o que isso significaria.
"Se você vai ficar comigo perante o Lorde das Trevas, então você deve fazê-lo já sob o juramento de ser seu servo. Eu fiz os arranjos nessa manhã. Haverá um ritual de iniciação hoje à noite, aqui mesmo. Então você pode tomar seu lugar de direito ao meu lado. . . como um Comensal da Morte."
O chão parecia ter se deslocado loucamente embaixo dos pés do Draco, e ele inconscientemente apertou suas mãos nos braços da cadeira. "Então eu vou receber a Marca Negra?" ele perguntou. "Aqui, hoje?"
"Não a Marca," Lucius explicou. "Isso deve esperar para ser realizado na presença do Lorde das Trevas em pessoa. Apenas ele pode fazer isso. Mas o ritual de iniciação que deve preceder a tomada da Marca pode ser feito aqui. E isso irá apressar a realização da cerimônia da Marca quando estivermos perante o nosso Lorde."
Draco concordou. Ele sabia que isso era um teste, um teste que ele tinha que passar ou desistir do envolvimento do seu pai no seu plano. Era também um jogo, ele se lembrou. Um jogo de controle – o mesmo que vinha jogando contra seu pai por toda sua vida. Um jogo que ele conseguia jogar agora com tanta habilidade quanto conseguia jogar um jogo de xadrez, em que as estratégias são escondidas, onde o sentido de cada movimento real está oculto por atrás de inteligentes blefes – e em que indecisões poderiam ser fatais. Seu pai estava lhe observando atentamente. Assim como não se deve demonstrar reação perante um movimento fatal de um adversário, Draco fez seu próximo movimento no jogo com calma certeza. "O que devo fazer?" ele perguntou sem hesitação.
"O ritual é simples, apesar de ser. . . desagradável." Lucius disse. "Eu não tenho permissão para lhe dar maiores informações antes da hora. . .mas todos nós passamos por isso. . . e sobrevivemos." Lucius olhou para o Draco com um brilho duro em seus olhos que poderia ser um sinal muito transitório de humor. "E mais importante,"ele continuou com seriedade, "você irá proferir os juramentos preliminares que, assim que você receber a Marca Negra, irão unir sua vida ao serviço do Lorde das Trevas."
Draco concordou novamente, aceitando tudo sem um sinal de vacilo. "Quando?" ele perguntou.
"Eu enviarei meu servo para acordá-lo quando chegar a hora de você descer aqui hoje à noite," Lucius disse. "Ele trará a capa que você deverá vestir com ele."
Draco se levantou. "Até mais tarde então, Pai," ele disse. "Eu estarei no meu quarto pelo resto da tarde, e eu irei jantar lá também. Tenho uma carta para escrever."
…
…
Harry acordou na manhã de Natal e ficou surpreso e feliz ao ver que seus presentes estavam no chão à frente da cama, apesar de ele estar no quarto do Draco. A Sra. Weasley tinha mandado o usual conjunto de torta de carne e um suéter – esse era um vermelho brilhante com um padrão de Pomos-de-Ouro voando na lã. Da Hermione, Harry ganhou uma série de livros nominados: Então você quer ser um instrutor de vôoe Os Pontos Sutis ao Ensinar Quadribol, ambos de Horatio Broomby. O Rony mandou uma nova jarra de polir vassouras da Fleetwood, para substituir seu velho kit de cuidados para vassouras. Harry sorriu um pouco pesarosamente. Como apenas o Draco sabia dos seus planos para ser um Médibruxo, parecia que os seus amigos estavam tentando encorajá-lo no que eles achavam que ele iria fazer após a graduação. O Rony ainda tinha mandado uma caixa gigante de Sapos de Chocolate com um bilhete que dizia, "Obrigado pela ajuda com o anel, Harry." Harry sorriu e teve que reservar um momento para admirar seu próprio anel, tão adorado. Ele decidiu salvar os Sapos para quando o Draco voltasse.
Na hora do almoço, Harry desceu até o banquete natalino no Salão Principal. Todas as decorações do Baile Anual ainda estavam apostas e o cômodo estava brilhante e festivo. Pouquíssimos estudantes haviam ficado no castelo, então todos estavam sentados em uma única mesa com o Dumbledore na ponta e os Professores Snape e McGonagall sentados um em cada lado dele. Harry se sentou ao lado de um Lufa-Lufa do terceiro ano e sorriu quando a Professora McGonagall acenou cordialmente para ele.
Dumbledore puxou um grande e brilhante foguete de Natal, aparentemente não percebendo o desdém do Snape em face de todo o procedimento, e com um alto BANG, ele foi presenteado com uma chuva de Delícias Gasosas e um sombrero de palha com um flamingo rosa brilhante sentado tortamente no topo. Uma franja de pequenas bolas roxas e peludas rodeavam a aba, e elas balançavam para frente e para trás loucamente enquanto o Dumbledore colocou o novo chapéu em sua cabeça. O diretor sorriu alegremente para todos os professores e alunos sentados à mesa. "Sirvam-se, todo mundo!" ele exclamou. "E Feliz Natal para todos!"
Todo mundo imediatamente começou a se servir do delicioso banquete. Harry cortou o peru para os alunos mais novos sentados perto do fim da mesa com ele, e então serviu seu próprio prato. Como ele queria conversar com o Dumbledore, ele começou rapidamente, parte de sua atenção fixada em obsevar a eventual saída do diretor, e o resto da sua mente preocupada em sentir falta do Draco, quem ele suspeitava que iria amar a sobremesa de framboesa e cereja.
Após uma considerável espera, Dumbledore estava se levantando e se movendo vagarosamente na direção da porta, trocando uma palavra ou duas com cada um dos professores enquanto ele passava. Harry se levantou, enfiou os dedos em seus bolsos traseiros porque estava nervoso, e esperou.
"Professor Dumbledore, senhor?" ele disse enquanto o diretor se aproximava. "Podemos falar um momento?"
"Certamente, Harry," ele disse jovialmente, apesar de seus olhos azuis claros estarem sérios.
"Eu... eu só queria agradecer o que você fez pelo Draco," Harry disse suavemente, "- por ter feito aquela Chave de Portal,"
"Era o mínimo que eu poderia fazer, em caso de ele precisar," Dumbledore disse, observando o Harry muito solenemente por cima dos seus óculos meia-lua. "Naturalmente, espero que ele não precise usá-la."
"Ah," Harry disse, e estava na ponta de sua língua dizer ao Dumbledore que o Draco tinha a intenção de usá-la para voltar para Hogwarts mais cedo, mas um desejo repentino de manter isso para si mesmo o impediu. Obviamente eles teriam que avisar o Dumbledore que Draco tinha voltado quando ele chegasse, mas Harry sentia a necessidade de encontrar o outro garoto sozinho. Ele tinha certeza que Dumbledore iria insistir que alguém, provavelmente um professor, acompanhasse Harry ao ponto da Chave de Portal, e Harry queria manter o encontro planejado deles em segredo – especialmente considerando o que ele queria fazer com o Draco assim que o visse, que não é o tipo de coisa que um geralmente fazia na frente de um professor.
"Sim senhor," ele disse ao invés disso, seu rosto corando com a ideia dele vendo e beijando o Draco, e também porque ele se sentia um pouco culpado por manter esse segredo. "Eu espero que ele não precise usá-la também, professor," ele adicionou, e isso era verdade.
Ademais, Harry sabia que teria que contar ao Dumbledore sobre a revelação da Cho, mas ele não conseguia – ainda não – não até que contasse ao Draco. Ele queria que Draco soubesse primeiro, antes que qualquer outra pessoa descobrisse quão estúpido ele tinha sido. Com esse pensamento, ele se sentiu duplamente culpado, e enquanto os olhos de Dumbledore pareciam questioná-lo, Harry, sentindo como se o diretor conseguisse ver dentro de sua cabeça e ler seus pensamentos, corou intensamente.
"Tem mais alguma coisa, Harry, que você deseja me contar?" Dumbledore perguntou suavemente.
"Sim, err, não. . . quero dizer. . . Feliz Natal, senhor," Harry gaguejou.
"Ah!" Dumbledore disse com alegria. "Feliz Natal para você, Harry." Ele inclinou seu chapéu engraçado, fazendo com que todas as bolinhas roxas brilhantes balançassem de um lado para o outro, e então continuou seu caminho para fora do Salão Principal.
Harry afundou miseravelmente em sua cadeira e se serviu um gigantesco pote de pudim de Natal pelo qual, após comer algumas mordidas, descobriu que não tinha qualquer apetite. Ele cutucou o pudim por alguns minutos, e então finalmente desistiu e subiu até o quarto do Draco. Ninguém parecia ter se preocupado com o seu paradeiro na noite anterior, ou sentido a sua falta, então ele decidiu ficar no quarto do Draco novamente essa noite. Pelo menos assim, dormindo na cama do outro garoto, mesmo que sozinho, ajudava-o a se sentir perto e conectado com o Draco, as memórias do que eles tinham compartilhado eram fáceis de reviver naquele ambiente familiar.
…
…
Draco se sentou na escrivaninha em seu quarto. Aos seus lados, havia duas janelas altas e finas que ofereciam uma vista dos jardins, do lago congelado e da floresta coberta de neve. Ele colocou suas mãos na superfície escura e polida da mesa e ficou sentado sem se mover por um longo momento. Ele fechou os olhos, sentindo a madeira embaixo de suas palmas, fria e lisa e sólida. O mundo parecia ter se deslocado embaixo de si nesse momento sem aviso, embora ele soubesse que deveria ter previsto o que seu pai faria. Ele se sentia escuro e vazio por dentro, como se um buraco negro tivesse ocupado o lugar do seu coração.
Mas ele não tinha como saber que a cerimônia da Marca Negra poderia ser dividia, ele se recordou – e então imediatamente afastou essa desculpa. O momento de lutar contra a situação já tinha passado, e nisso seu pai tinha vencido. Draco já tinha sido forçado a desistir de uma esperança seguida de outra, mas agora, com esse ritual de iniciação e a tomada desses juramentos, qualquer faísca remanescente de esperança, o quanto pequena e fraca, tinha sido extinta. O final que tinha imaginado apenas dias atrás enquanto ficava de pé no caminho ao ponto da Chave de Portal, o final que ele sempre soube que seria provavelmente inevitável, era agora inescapável.
Draco se firmou por um mais um momento na firmeza sólida da mesa embaixo de suas mãos, deixando-a trazê-lo de volta à realidade do que precisava ser feito, deixando-a ajudá-lo a se concentrar no presente ao invés de naquela escuridão absoluta que acenava para ele do futuro.
Ele respirou fundo e abriu os olhos. Pergaminho caro, embasado com o emblema dos Malfoys, descansava dentro de uma caixa de pau-rosa embutida com arabescos de prata perto de sua mão esquerda. Sua melhor pena, elegante demais para ser usada na escola, estava em um suporte de cristal facetado ao lado da caixa. Levemente, pensativamente, ele correu um dedo pela suave pluma branca da pena antes de apanhá-la. Era tolice, ele pensou, sentir-se triste com a visão desses objetos familiares, mas o conhecimento de que ele nunca mais os veria iniciava dores de reminiscência e perda.
E mesmo assim – ele olhou ao redor do seu quarto – não havia nada ali com que ele realmente se importasse. Ele tinha levado as coisas que amava junto com ele para a escola no começo do ano, escondidas na sua mala. Essa era razão pela qual ele tinha o tabuleiro de xadrez de sua avó com ele, o que ele e Harry utilizaram para jogar xadrez-desafio. O resto das suas coisas, ele pensou agora, surpreendemente sem muito arrependimento, podiam apodrecer ali. Com um inconsciente dar de ombros, ele colocou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha, retirou um pergaminho e começou a escrever:
Feliz Natal, Harry!
Como eu queria poder ter estado aí com você hoje. Ao invés disso, eu tive que dançar a noite inteira com a Pansy. A única coisa boa acerca disso foi o fato de ter irritado o meu pai, que não considera ela um par adequado para mim. Pelo menos nisso nós concordamos perfeitamente.
Estou escrevendo para dizer que estou bem, e que você não precisa se preocupar. Meu pai irá embora a negócios logo após o almoço amanhã, como eu desconfiei que ele faria, então não deve haver qualquer problema. Eu vou te encontrar na estação, exatamente como planejamos. Por favor, venha na sua vassoura e traga a minha com você – eu não quero ter que fazer todo o caminho na neve.
Estou com saudades,
Draco
Draco estudou as palavras cuidadosamente e acenou com a cabeça, satisfeito. Com exceção do uso da palavra estação, a qual poderia momentaneamente confundir o Harry, estava perfeito. E Harry, Draco pensou, provavelmente desconsideraria aquela palavra como simplesmente um erro. O que importava era que nada havia sido dito que pudesse ser interpretado como ameaçador ou incriminador. Na verdade, exatamente o oposto – a carta dava a entender que ele e Harry tinham planos inocentes de se encontrarem na estação de trem de Hogwarts quando ele retornasse, que ele não havia corrido perigo de seu pai e, portanto, não teria tido a necessidade de usar sua Chave de Portal. Mesmo assim, Harry iria entender a mensagem, e achar que Lucius estava viajando iria acalmá-lo. Ele não irá suspeitar de nada – exatamente como Draco queria.
Ele dobrou a carta cuidadosamente e, levantando-se, deu um passo na direção da janela para chamar uma coruja. Uma rajada de vento, frio e forte, soprou assim que ele abriu a janela. Draco ficou de pé por um segundo, respirando profundamente, e isso restaurou grande parte de sua confiança e determinação. Ele realmente era um Peão, mas mesmo um Peão, ele sorriu a si mesmo, poderia apanhar uma Rainha. Ele virou o rosto na direção do vento e assobiou.
Quando a coruja tinha sido despachada com a carta para o Harry, Draco fechou a janela e se sentou novamente em sua escrivaninha. Havia mais duas cartas que precisavam ser escritas nessa noite, e ele sabia que essas cartas seriam as coisas mais difíceis que ele teria que escrever em toda a sua vida. Talvez fosse melhor, ele pensou então, começar com a mais difícil de todas. Ele apanhou outro pedaço de pergaminho e mergulhou a pena no tinteiro, mas antes que ele pudesse começar, veio um suave bater em sua porta.
Ele se virou e gesticulou para que o elfo-doméstico colocasse sua travessa de jantar na mesa.
"O senhor estar querendo mais alguma coisa?" ela perguntou com uma voz trêmula e aguda.
"Apenas providencie para que eu não seja novamente perturbado até que meu pai me chame," ele respondeu.
"Eu estar providenciando imediatamente, senhor," ela disse alegremente, evidentemente feliz por ter recebido uma ordem do herdeiro da casa. Ela se curvou exageradamente e partiu.
Draco se virou novamente na direção de seu pergaminho em branco. O jantar poderia esperar. Após tomar um momento apenas para ficar sentado de olhos fechados, agrupando seus pensamentos, ele escreveu:
Querido Harry,
Eu torço com todo o meu coração, enquanto escrevo essa carta. . .
Demorou quase duas horas para escrevê-la; o buraco que sentava no lugar em que seu coração deveria estar parecia ter se expandido para preencher todo o seu peito, e sua garganta queimava de tanto evitar lágrimas antes que elas caíssem e estragassem a tinta. Mas quando tinha terminado, e ele a releu duas vezes, um leve sentimento de paz o preencheu. Pelo menos. . . pelo menos ele tinha explicado tudo da melhor maneira possível. Harry talvez nunca fosse capaz de perdoá-lo, mas ele tinha dito tudo que poderia dizer.
Harry já tinha perdoado tantas coisas, e isso ainda era uma enorme fonte de surpresa para o Draco. Mas Harry o amava. E Harry disse que nunca iria se arrepender do que eles tinham feito. Draco conseguia se relembrar das palavras perfeitamente, "Meu Deus, Draco, como você pode achar que eu me arrependeria de fazer amor com você? Eu sei o quão incerto tudo é." Um pequeno e novo sentimento de esperança nasceu dentro de si. Será que ele poderia interpretar aquelas palavras em: "Como você pode achar que eu me arrependeria de te amar?" Talvez. . . apenas talvez, Harry pudesse entender e perdoá-lo dessa vez também.
Com um suspiro profundo, ele dobrou a carta, e então, levantando-se para alongar os músculos duros de suas costas e pescoço, avistou seu jantar, esquecido e frio, ainda sobre a mesa. Ele alcançou embaixo de sua mesa, escorregando as mãos embaixo da última gaveta direita até sentir uma pequena endentação. Pressionando-a, uma pequena porta espertamente escondida foi aberta. Draco colocou a carta naquele pequeno compartimento e o fechou. Ninguém poderia ver aquela carta até que ele a entregasse diretamente ao Harry, no dia seguinte.
Amanhã. . .como pode ser tão cedo?
As velas nas lâmpadas tinham queimado e ficado mais fracas; estava ficando tarde e ainda havia outra carta para ser escrita. Ele não fazia ideia de quando seu pai iria chamá-lo e essa carta precisava ser escrita hoje. Mas. . . agora que as cartas para o Harry estavam prontas, ele descobriu que estava com fome. O ritual essa noite seria desafiador, com certeza – ele definitivamente necessitaria de todas as suas forças e toda a sua sabedoria consigo. Ele foi até a mesa, lançou um feitiço para aquecer o prato de comida e se sentou para jantar.
Após um curto momento, ele estava de volta em sua mesa, um terceiro pedaço de pergaminho deitado à sua frente. Ele escreveu rapidamente, mas utilizando de pensamentos calculados. Essa carta não era não emocionalmente desgastante quanto a segunda, mas era um dos elementos mais críticos do seu plano, então era essencial que ele escolhesse suas palavras com deliberado cuidado. O sucesso de tudo que havia planejado dependia dessa carta. Finalmente, ela também estava pronta, examinada cuidadosamente, e escondida.
Draco apagou as lâmpadas com um chacoalhar de sua carinha e foi para a cama. O elfo-doméstico do seu pai iria acordá-lo a qualquer momento, e ele queria dormir pelo menos um pouco antes que tivesse que descer para seja lá o que seu pai tinha organizado. Deitado na cama, ele desejou que Harry estivesse ali para lançar o feitiço para adormecer nele, ou apenas para tocá-lo. Era incrível para o Draco como um mero toque de uma pessoa especial, apenas uma mão deitada quente e gentil na sua pele, conseguia fazê-lo se sentir tão amado. Ele nunca tinha se sentido amado antes, em toda a sua vida. Virando para o outro lado e puxando um travesseiro apertadamente contra seu peito, ele fechou os olhos e torceu que a trégua e o esquecimento do sono viessem logo.
…
…
Harry estava passando uma tarde muito quieta no quarto do Draco, deitado na cadeira em frente ao fogo, lendo os livros presenteados pela Hermione, esperando afastar sua mente de preocupações com o Draco. Ele estava no meio do Capítulo Um, "Sua Vassoura é Sua Amiga" em Então você quer ser um instrutor de vôo, quando ouviu um distinto bater na janela. Harry levantou o olhar, assustado. Uma coruja? Mas quem . . .? ele pensou, e então, com repentina esperança misturada com medo, ele largou o livro correu para a janela, uma das enormes corujas Malfoy pisou na beira assim que Harry abriu a janela, e apresentou uma perna. O coração de Harry estava martelando e seus dedos ficaram atrapalhados em sua pressa e ansiedade em abrir a carta. A coruja foi embora com um farfalhar de asas assim que Harry conseguiu desamarrar a carta, mas Harry mal percebeu, pois ele tinha reconhecido a letra do Draco na frente. Sem sequer se preocupar em fechar a janela, Harry arrancou o selo.
"Feliz Natal, Harry!" ele leu, e sorriu em alívio. Se Draco estivesse encrencado, ele não teria começado com uma saudação tão alegre. Harry leu o resto da carta, franzindo as sobrancelhas na parte do Draco dançando com a Pansy, e sentindo-se profundamente grato por qualquer negócio que Lucius Malfoy tinha que o forçou a deixar sua casa no dia após o Natal. Ele parou na palavra estação, releu-a, e então deu de ombros. O ponto da Chave de Portal era um tipo de estação, de certa forma, mas a parte importante era que Draco estava voltando como eles tinham planejado. E a ideia de voar até lá fez Harry sorrir em prazer. Se Draco estiver disposto, Harry queria que eles fossem voar juntos novamente antes de voltarem ao castelo. Isso tornaria o dia perfeito.
Ele estava muito feliz agora por não ter contado ao Dumbledore que Draco voltaria mais cedo. Desse jeito eles poderiam passar a tarde inteira voando e voltar a tempo para o jantar. Na janta, Harry prometeu a si mesmo, eles iriam explicar ao diretor o que aconteceu. Harry finalmente fechou a janela, e voltou à sua cadeira na frente da lareira. Apanhando seu livro, ele continuou a ler mais um pouco antes de ir dormir, suas preocupações anteriores quase inteiramente esquecidas em sua excitação. Draco voltaria amanhã, a salvo, e tudo ia dar certo.
…
…
Draco foi acordado por várias cutucadas de um dedo magro. Por meio segundo, ele pensou inexplicavelmente que fosse o Harry, mas era apenas o Nobby, o elfo-doméstico particular do seu pai.
"Eu estar acordando você para o Mestre," ele sussurrou. "E você dever vestir essa capa."
Draco grunhiu e procurou cegamente pela sua varinha na mesa de cabeceira. "Lumus", ele disse, e a ponta acendeu-se, iluminando a face ansiosa e os olhos arregalados do elfo-doméstico cujos braços estavam segurando uma capa formal dobrada, cheia de bordados elaborados. Draco suspirou, sentou-se na beira da cama e checou o relógio na cabeceira. Deus, ele apenas tinha dormido quatro horas. Ele passou uma mão em seu cabelo e olhou feio para o elfo. "Quando eu devo descer?"
"Assim que você estar pronto, senhor," o elfo disse. "O Mestre disse vir ao seu escritório e bater na porta. Ele disse que é para você descer imediatamente, assim que você estar vestido."
"Tá bom," Draco disse, sentindo-se longe de preparado para isso, vestido ou não. Ele apanhou a capa do Nobby e o elfo se curvou e deixou o quarto. Com um suspiro profundo para acalmar seus nervos, Draco se levantou e acenou sua varinha para acender as lâmpadas. Ele desdobrou a capa e a deitou na cama. Ela era feita de brocado verde bordado com fios prateados que brilhavam sutilmente na luz. O design bordado no tecido era muito intricado, parecendo, à primeira vista, uma série de círculos e espirais em interseção, mas quando Draco observou mais cuidadosamente, percebeu que estava olhando para uma textura de cobras prateadas entrelaçadas.
É claro, ele pensou, franzindo as sobrancelhas: verde e prateado e cobras. Ele nunca vestia verde, tal cor o deixava pálido, e as cobras eram. . . bem, totalmente excessivas em sua vida. Deixando a capa na cama, ele foi até o banheiro, jogou água em seu rosto e penteou seu cabelo. No espelho, enquanto ele se movia, a luz captava o cristal no pendente que usava, fazendo-o brilhar, e Draco teve um momento de intuição, talvez, de que seria mais seguro retirá-lo nessa noite. Relutantemente ele o retirou e foi até sua escrivaninha, escondendo-o no mesmo compartimento secreto em que estavam as cartas.
Fechar a pequena porta, trancar aquele símbolo da honestidade de seu coração, preencheu-o com uma profunda tristeza. Ele andou novamente ao seu quarto para se vestir, seu humor deprimido, pesado pela seriedade e finalidade do que estava prestes a ocorrer.
Deixando seu quarto nas horas muito iniciais do dia, antes do amanhecer, Draco caminhou sozinho pelas escadas espirais de mármore e pelos corredores escuros da imensa mansão, sua única luz a do luar que caía pelas janelas altas em leves listras arqueadas sobre todo o piso em parquet escuro e pálido, bem como nos antigos tapetes Aubusson. Seus passos silenciosos ecoavam no silêncio dos corredores desertos enquanto ele caminhava propositadamente ao escritório do seu pai. A capa que agora vestia era pesada e desconfortavelmente dura, apesar de ele não permitir que um pensamento tão trivial surgisse totalmente em sua consciência. Toda sua atenção estava concentrada em se manter calmo, em parecer imperturbado e confiante.
Mas andar sozinho no silêncio e na escuridão, a solidão profunda e opressiva dos corredores cavernosos, caíam sobre ele. Um único e traidor desejo, de que ele não estivesse enfrentando esse desafio, que se seguiu instantaneamente de um desejo pelo toque de conforto do Harry, fez com que ele parasse abruptamente na sombra de um ancestral ancião Malfoy, uma mão pálida apoiando-se na superfície fria e pálida da estátua. A compreensão de tudo que Harry havia lhe dado, o milagre do amor e da confiança, preencheu-o mais uma vez, e sua cabeça se curvou com um desejo tão intenso que demorou vários momentos antes que conseguisse dar um passo.
Entretanto, não obstante o quanto significou para o Draco ganhar a confiança do Harry, agora era crítico que ele mostrasse lealdade ao seu pai. Ele se lembrou mais uma vez, e um pouco impacientemente, que essa dedicação ao que estava fazendo agora, a esse plano, ia muito além de seus sentimentos pessoais pelo Harry. Isso era simplesmente o que tinha que ser feito. Isso era guerra. E isso era sua chance, sua melhor e possivelmente sua única chance de causar um efeito significativo na guerra. Não era hora de ser fraco, ou de deixar suas emoções o controlarem. Apesar de ter sido justamente esse amor que tinha o levado a essa situação, ele não podia deixar que o amor influenciasse suas decisões agora. Lembrando-se disso, após um minuto ou dois ele conseguiu reafirmar sua determinação, restabelecer seu autocontrole e sua compostura para continuar.
Ele honestamente não tinha antecipado esse teste, esse último estratagema do seu pai, e uma desconfiança amarga cresceu nele enquanto se aproximava das portas de teca altas e esculpidas do escritório do seu pai. Ele conseguia escutar vozes baixas conversando dentro do cômodo, e um pequeno nó de medo torceu no fundo do seu estômago. Nessa tarde, Lucius tinha dito apenas brevemente o que seria esperado dele essa noite. Lembrando-se muito bem das tardes em que Lucius o tinha utilizado como fonte de esporte e ridículo, algumas vezes até mesmo lançando a Maldição Cruciatus nele, sem dúvida na frente de alguns dos mesmos homens que encararia nessa noite, Draco agora imaginava quais coisas cruéis ou humilhantes ele teria que aguentar antes que a noite acabasse. Ele se lembrou que não importava – seja lá qual demanda, qual custo à sua dignidade, era imperativo que ele fosse reconhecido e merecesse a confiança do seu pai. Se tornar-se um Comensal da Morte hoje era o que seu pai exigia como prova de sua lealdade, Draco prontamente proporcionaria tal prova.
Ele ficou imóvel por um momento na escuridão do outro lado do escritório de Lucius, apenas pelo tempo suficiente para acalmar seus nervos, para arrumar sua capa e se preparar mentalmente para o que lhe esperava atrás daquelas portas fechadas. Então, com um último suspiro profundo, ele colocou seus medos de lado, erguendo uma barreira sobre todos seus pensamentos conflitantes, especialmente os que envolviam o Harry. Ele não podia mais pensar no Harry. Em razão do que seu pai estava exigindo essa noite, qualquer esperança remota que ele tinha guardado em segredo, de que as coisas não fossem terminar como tinha previsto, estava despedaçada. Pois essa noite, ele teria que virar o filho do seu pai. E o preço que pagaria por isso seria irrevocável.
As vozes no escritório se silenciaram com o som da batida leve de Draco, e após um momento a porta foi aberta, Lucius saiu, fechando a porta atrás de si, encarando Draco no corredor sombrio. Ele estava vestindo uma capa encapuzada preta, uma máscara embaixo do seu braço. Em uma mão ele segurava duas velas brancas, apagadas.
"Esse será um dos eventos mais importantes da sua vida," ele disse firmemente, "e o mais sério juramento que você jamais irá proferir. Hoje, você irá se tornar o mais novo membro do grupo mais poderoso e elite de bruxos em todo o mundo." Lucius pausou, estudando o rosto de Draco atentamente, e colocou sua mão livre no ombro do Draco. "Está pronto?"
Draco encontrou os olhos de Lucius firmemente, imaginando em razão do hábito que veria o usual desprezo nos olhos do seu pai, imaginando também que as próximas palavras que Lucius proferiria certamente seriam o aviso normal e cínico para que Draco não o envergonhasse. Ao invés disso, Draco ficou chocado ao ver o olhar do seu pai cheio de orgulho pelo seu único filho. Draco estava repentinamente ciente de que, talvez pela primeira vez na sua vida, ele tinha toda a atenção e aprovação do seu pai. A ironia disso ardia amargamente e ele teve que engolir a raiva e a dor que queimava no fundo da sua garganta antes que conseguisse responder. "Sim, pai," ele disse, levantando seu queixo. Sua voz parecia clara e confiante, e nenhum rastro de suas emoções o traiu. "Estou pronto."
Lucius apertou o ombro de Draco fortemente, e então o soltou e lhe passou as velas. "Acenda-as," ele disse.
Com um pequeno aceno, Draco retirou sua varinha. "Incendio," ele murmurou, acendendo ambas as velas de uma vez.
"Esse fogo irá selar seus votos," Lucius disse com gravidade formal. Ele colocou sua máscara e levantou o capuz, então pegou uma das velas acesas de Draco. "Siga-me," ele disse quietamente, enquanto abria a porta.
Draco entrou no escritório escuro atrás do seu pai. Altas lâmpadas de vidro verde flutuavam perto do teto, as velas dentro deles iluminavam o cômodo com um brilho esverdeado que não parecia natural, criando sombras assustadoras. Comensais da Morte encapuzados e mascarados estavam de pé, ombro a ombro, em duas fileiras que iniciavam em cada lado da porta, suas máscaras brancas estavam resplandecentes na fraca luz verde. Um homem, vestido completamente de preto, estava de pé atrás da mesa, sem rosto e inescrutável. Em suas mãos, vestidas com luvas pretas, ele segurava uma terceira vela apagada.
Seguindo seu pai e mantendo os olhos fixados firmemente no caminho à sua frente, Draco atravessou vagarosamente o corredor de Comensais da Morte, segurando sua vela acesa firmemente, sentindo como se os olhos dos homens mascarados estivessem observando até os seus ossos, a grandiosidade do que estava ocorrendo criava um arrepio em sua espinha como uma carícia de gelo. Ele alcançou a mesa e ficou ao lado do seu pai na frente dela. Silenciosamente, a figura envolta de preto estendeu sua vela, e Lucius estendeu sua própria vela para frente, sinalizando que Draco fizesse o mesmo. Simultaneamente, Lucius e Draco encostaram suas velas no pavio apagado, suas chamas se juntando para acendê-lo.
Com aquela vela, o homem envolto acendeu uma quarta vela alta que estava no lado esquerdo da mesa. Enquanto ele fazia isso, Draco teve um momento para perceber os outros itens que estavam em cima da mesa. A superfície da mesa em si estava coberta com uma toalha feita de linho, cor de marfim. No centro dela estava um candelabro prateado com três galhos que eram desenhados como cobras complicadamente enroladas, cujas bocas, até agora vazias, segurariam as velas. Ao lado esquerdo do candelabro, estava uma caixa de madeira ornamentada com uma filigrana correndo por sua ponta superior, além de uma pequena e rasa bacia feita de estanho, e uma bacia maior e mais funda feita de prata. Ao lado direito estavam um cálice prateado e uma garrafa de cristal contendo vinho tinto, ambos com cabochões de esmeralda, heliotrópio e ônix fixados em prata em seus lados, e uma pequena jarra de vidro coberta com um tecido firmemente esticado. Na frente de todas essas coisas, Draco viu, com um arrepio, uma longa travessa de prata para dissecação e um punhal com o punho prateado que se assemelhava a um bisturi. Draco olhou para o seu pai. Os olhos de Lucius atrás da máscara refletiam as luzes das velas, mas o diziam nada.
Draco desviou o olhar novamente na direção da mesa, antes que seu pai pudesse ver algo em seus olhos que preferiria manter para si mesmo. Assustou-se, outro arrepio correndo por seu corpo, quando algo escuro se moveu dentro da caixa de madeira, o movimento ligeiro parcialmente visível pelas aberturas da filigrana que circulava os lados. Alguma criatura viva estava dentro daquela caixa.
O homem envolto atrás da mesa falou e Draco arrancou seu olhar da caixa para encará-lo.
"Nós acendemos uma quarta vela nesta noite para honrar e invocar a presença do nosso Lorde ausente," ele disse. Sua voz era profunda, vagamente familiar, mas não o suficiente para que Draco pudesse identificá-lo. Ele levantou uma mão e a estendeu com a palma para cima. "As velas estão acesas, o Ritual de Iniciação foi iniciado," ele disse solenemente. "Que nenhum homem aqui presente se atreva a falar do que hoje ocorrer."
Colocando a vela no galho central do candelabro, ele se virou para Lucius. "Quem traz esse Iniciante aqui, para se juntar a nós em serviço do Lorde Voldemort, Lorde imortal e exaltado Mestre da Ordem Negra?"
Lucius colocou sua vela no candelabro. "Eu trago."
"Indique o nome do Iniciante e seu relacionamento, para que seja registrado."
"Draco Malfoy," Lucius respondeu. "Meu filho e herdeiro."
Virando-se para o Draco, a figura novamente falou. "E você, Draco, comparece aqui de própria e livre vontade, para se juntar a nós neste serviço através da vinculação por esse ritual, jurando eterna lealdade e submetendo sua vida e sua vontade, de agora para frente, ao Lorde Voldemort, Lorde imortal e exaltado Mestre da Ordem Negra?"
Com um gesto positivo de seu pai, Draco depositou sua vela no terceiro galho do candelabro. Ele sentiu um pingo gelado de suor correr em suas costas. "Sim," ele disse firmemente.
"Então por coração e por língua, por dente e sangue, seja como você jurou," disse o homem, levantando os braços como se para abraçar o cômodo. "Que o ritual prossiga." Então ele gesticulou levemente ao Comensal da Morte que estava do lado esquerdo de Draco. "Acorrente-o."
O homem deu um passo à frente e em suas mãos estavam correntes negras de ferro. Elas foram colocadas ao redor dos pulsos do Draco, para que suas mãos ficassem folgadamente acorrentadas em sua frente. Draco sentiu o metal duro e frio das correntes de ferro pressionando contra sua pele, prendendo-o, e ele fechou os olhos por um momento, apreensivo. Quando as correntes foram presas, o homem deu um passo ao lado, e o homem envolto falou novamente, dessa vez para o Draco.
"Essas correntes são um símbolo," ele disse, "de que, de agora em diante, você está vinculado em serviço, um servo da Ordem Negra e do nosso Lorde e Mestre." Ele pausou, e então disse, "o Iniciante irá se ajoelhar."
Draco caiu de joelhos e atrás de si ele ouviu o farfalhar suave de capas enquanto os Comensais da Morte se moviam para formar um círculo fechado ao redor dos três na mesa. Draco manteve seus olhos no homem envolto, pois ele estava movendo os objetos na mesa para o lado, colocando o candelabro no canto direito e trazendo a caixa de madeira para o centro.
Levantando a tampa vagarosamente, o homem pausou por um momento, e então com um movimento rápido de sua mão enluvada, alcançou dentro da caixa e retirou uma cobra viva. A cobra, a qual ele tinha agarrado pela parte de trás da cabeça, contorcia-se no ar e se enrolava no seu pulso.
Draco a reconheceu imediatamente pelo ziguezague negro em suas costas. Era uma Víbora Cornuda, e Draco também entendeu imediatamente o porquê do homem vestir luvas – para se proteger de sua mordida venenosa.
Com sua outra mão, o homem envolto apanhou a jarra pequena e coberta com o tecido, forçando a cobra a morder a beira. Draco observou, fascinado, enquanto gotas de veneno amarelado corriam pelo vidro interior da jarra, acumulando-se no fundo. Quando isto foi posto de lado, o Comensal da Morte que estava do lado esquerdo do Draco, o que tinha acorrentado-lhe, alcançou com uma mão e agarrou a cauda da cobra. Havia um sentimento de expectativa pairando no ar, uma sensação de excitação tácita enquanto os Comensais da Morte ao redor do Draco esperavam, tensos com antecipação, observando com olhos escuros e brilhantes por trás de suas máscaras, e Draco ouviu o suave raspar de suas respirações no silêncio que o rodeava.
Segurada entre os homens, a cobra foi esticada e deitada na travessa de dissecação prateada, seu corpo se contorcendo, sua barriga pálida refletida na superfície brilhante da travessa. O homem envolto levantou a adega e falou.
"Essa cobra é o símbolo do nosso Mestre," ele disse, sua voz baixa ressonando na estática do quarto, "e sua morte, e vida, é o sinal da mestria do Lorde das Trevas sobre a morte, e a prova de Sua Imortalidade." Ele olhou para baixo, nos olhos do Draco, com a adega agora apontada no pescoço da cobra. "A morte você irá comer e em seu corpo você irá compartilhar a ressurreição simbólica do nosso Mestre."
Com essas palavras ele rapidamente cortou a cabeça da cobra e abriu seu corpo, o qual ainda se movia, de ponta a ponta. Em alguns rápidos e praticados movimentos, ele removeu o coração da cobra e o depositou na tigela mais rasa, então ele segurou o corpo decapitado pela cauda, drenando o sangue no cálice de prata. Draco observou tudo isso com uma mistura de nojo e imparcial interesse – tinha sido tudo tão rápido – até perceber que cálices serviam para que deles fosse bebido. . . e seu estômago se revirou e sua boca ficou seca como algodão.
O homem envolto colocou o corpo, agora estático, da cobra novamente na travessa de dissecação e, apanhando novamente a adega, abriu a boca da cabeça e cortou fora a língua da cobra. Essa ele também colocou na tigela mais rasa. Ele gesticulou para o Comensal da Morte à esquerda do Draco, e o homem cobriu os restos da cobra com um pano preto. Então ele gesticulou para o Lucius, que removeu a vela central do candelabro e a passou para o Draco.
Draco segurou as velas com as duas mãos, aliviado ao ver que suas mãos não estavam tremendo visivelmente, apesar de as correntes em seus pulsos se baterem suavemente.
Após depositar o vinho da garrafa de cristal sobre o coração e a língua, o homem envolto gesticulou para o Draco. "Queime-as," ele instruiu, e Draco encostou a chama da vela no conteúdo da tigela. Imediatamente o vinho inflamou e o fogo envolveu o coração e a língua. Lucius retirou a vela das mãos de Draco e a recolocou no candelabro enquanto eles todos assistiam as partes da cobra encolher e ficarem negras até que, após alguns momentos, não havia nada além de cinzas.
"Por coração e língua, por dente e sangue, nós O servimos," falou o homem envolto. Enquanto ele falava, misturava as cinzas e o veneno da jarra com o sangue do cálice, então adicionou o vinho. Ele retirou sua varinha e com um elaborado desenho sobre o topo do cálice, falou as palavras de um feitiço.
"Exvoromors Pariovita," ele disse com uma voz firme e comandante. Uma linha fina e translúcida de fumaça verde correu, como uma cobra, do fim de sua varinha e circulou o cálice, enrolando-se no cálice em uma espiral ascendente até que o cálice inteiro estava envolto nela. Após alguns segundos, a fumaça começou a dissipar e Draco viu um brilho fraco verde emanando do conteúdo do cálice, um brilho que pulsava e borbulhava como se tivesse um coração próprio.
"Irmãos da Ordem Negra, nós somos chamados hoje para presenciar esse Ritual de Iniciação e o tomar do Cálice da Morte e da Vida," o homem envolto disse, sua voz baixa e ressonante no quarto absolutamente quieto. Levantando o cálice brilhante com as duas mãos, ele começou uma invocação.
"Com esse cálice nós engolimos a morte,
com esse cálice nós conjuramos imortalidade,
com esse cálice nos estamos eternamente acorrentados,
com esse cálice, juramos lealdade com nossas vidas,
Somos nomeados."
Draco sentiu os fios de cabelo em sua nuca se levantar enquanto as palavras reverberaram no escritório silencioso, e ele estremeceu. Após pausar por meio segundo, o homem envolto inclinou a cabeça na direção do Draco e disse. "Que o Iniciante se levante."
Suas pernas estavam duras e instáveis por ele ter ficado ajoelhado, e não foi fácil se levantar com a capa longa e pesada e com suas mãos acorrentadas à sua frente, mas Draco se levantou e encarou o homem envolto. O homem balançou a cabeça ligeiramente e continuou o encantamento. Enquanto ele falava, as palavras perfuravam Draco com uma finalidade terrível.
"Pela chama da sua própria punição,
pelo coração flamejante e pela língua consumida,
pelo veneno correndo do dente à veia,
pelo beber do sangue vivo,
Você está reivindicado."
Ele pausou, e então falou novamente. "Draco Malfoy, por sua vida e ao beber desse cálice, você jura estar eternamente obrigado ao serviço do Lorde Voldemort, imortal Lorde e exaltado Mestre da Ordem Negra." Ele passou o cálice para o Lucius. "Você jura?"
"Eu juro," Draco respondeu, e Lucius colocou o cálice em suas mãos. O brilho pulsante tinha diminuído, mas para o Draco a mistura vermelho-escura de sangue e vinho agora parecia preta na luz verde das velas flutuantes, e repentinamente o quarto estava sufocadamente quente. Era difícil respirar. Draco sentiu suas mãos tremerem quando levantava o cálice à sua boca.
Com o primeiro gole, Draco quase vomitou. A poção era grossa e quente, e tinha gosto extremamente doce e metálico em razão do vinho e do sangue, com a textura arenosa provenientes das cinzas. Ele engoliu rapidamente, lutando contra a repulsão e a vontade automática de vomitar. Abaixando o cálice vazio, ele engoliu sua saliva firmemente, e imediatamente se sentiu enjoado. O cálice foi retirado das suas mãos e ele levantou o olhar para ver seu pai colocá-lo na mesa. Então, enquanto Draco observava, o homem envolto apanhou sua varinha novamente e a apontou diretamente para o Draco. Seu pai se moveu perto dele e o leve farfalhar de roupas à sua esquerda mostrou que o homem que o tinha acorrentado tinha feito o mesmo, mas os olhos do Draco nunca deixaram a face escondida do homem à sua frente.
"Exvoromors Pariovita!"
Draco recuou um pouco quanto uma fumaça verde-pálida ondulou como uma cobra na sua direção, mas mãos fortes agarraram seus braços em cada lado e o firmaram no lugar. Ele sentiu um segundo de pânico intenso quando a fumaça o tocou, mas a pressão firme em seus braços impediu com que se mexesse. Ele fechou os olhos, lutando contra a náusea, enquanto o vapor rodeava seu corpo e começou a ondular pelo seu peito, até sua garganta. Uma sensação gelada, molhada e pegajosa se espalhou com o toque da fumaça, como algo frio e morto, mas movendo-se, e Draco teve que se forçar a se manter imóvel enquanto ela se enrolava no seu pescoço.
Quando ela alcançou sua boca, Draco começou a suar frio e a náusea se apoderou completamente. Meu Deus. Alguma coisa parecia estar se batendo e se revirando dentro dele, criando cãibras em seu estômago. Ele nem se importava mais com a fumaça agora – conseguia se concentrar apenas em quão nauseado se sentia. Seus joelhos ameaçavam ceder embaixo de si e ele estava tonto. Abriu os olhos por um segundo e tudo parecia se deslocar e sair de foco; a chama das velas nadava loucamente na escuridão e ele fechou novamente os olhos, sentindo-se ainda pior.
Seu pulso estava acelerando; as cãibras e a dor em sua barriga intensificaram. Ele engoliu seco, mas sua boca ainda tinha o gosto do sangue e. . . ah. . . ah Deus. . . Ele iria vomitar ali mesmo, na frente do seu pai e de todos aqueles homens, e não havia nada que pudesse fazer para impedir. Ele tentou cobrir a boca com as mãos, mas outras mãos apanharam seus pulsos e os afastaram. Algo gelado e metálico bateu em seu queixo, e ele abriu os olhos para ver que alguém estava segurando a tigela grande de prata à sua frente. Ele quase não percebeu uma voz baixa dizendo, "Segurem-no," e as mãos o segurando com mais força, antes de vomitar violentamente na tigela.
A princípio nada saiu, e então algo monstruoso estava subindo a sua garganta. Parecia continuar infinitamente, escorregando, queimando sua garganta, por cima de sua língua e fora da sua boca; era quente e pegajoso e tinha o gosto de sangue e ácido. Draco lutou contra as mãos que o seguravam, suas próprias mãos cerradas em punhos, incapaz de respirar por causa de sua garganta obstruída. Ele abriu os olhos novamente e tropeçou onde estava, horrorizado ao ver o corpo de uma serpente viva saindo de sua boca, para dentro da tigela. Seus joelhos tremeram embaixo de si diante do choque, e ele respirou desesperadamente quando a cauda da cobra finalmente liberou sua garganta. O homem envolto estava falando, mas Draco ouvia sua voz como se há uma grande distância, e foi um grande esforço se concentrar nas palavras.
". . . Ritual de Iniciação está completo. O símbolo imortal do nosso Lorde. . . restaurado inteiro e vivo. . . Nosso mais novo irmão, Draco Malfoy, está diante de nós. . . totalmente investido. . . Comensal da Morte. . .para receber a Marca Negra daqui há três dias. . ."
Draco batalhou contra a tontura e o asco que ameaçavam tomar conta de si, tentando manter-se de pé, mas o quarto parecia estar rodando ao seu redor e a luz das velas estava tremendo e diminuindo de intensidade de forma alarmante. Sua garganta estava doída e seus braços e pernas começaram a ficar dormentes. Ele mal percebeu quando as mãos que seguravam seus braços se moveram para apanhá-lo quando caiu, então tudo ficou escuro ao seu redor e ele desmaiou.
…
…
Draco acordou na sua própria cama, um pouco antes do meio-dia no dia seguinte. Ele se sentia grogue e doente, e a luz fraca de inverno que entrava sua janela e cruzava sua cama através das cortinas parcialmente abertas era particularmente ofensiva nessa manhã. O que aconteceu? Por que. . . ele estava nu. . . e na cama? Ele não se lembrava de ter ido dormir. . . E então a memória o serviu – ele tinha desmaiado durante o ritual de iniciação. Ah Meu Deus, não.
Pânico e desespero se acumularam e ele foi preenchido com um sentimento de repugnância por tudo que tinha feito na noite anterior. Sem dúvida ele tinha desgraçado seu pai além do imaginável. E se fosse esse o caso, o que aconteceria com seu plano? Teria sido tudo em vão. . . apenas porque ele tinha sido muito fraco para se manter de pé até o fim? Ele cobriu os olhos com uma mão, bloqueando a luz, querendo apagar essa sensação de futilidade e fracasso. . . Se ele tinha realmente falhado completamente, ainda existia a possibilidade de usar a saída covarde; ainda tinha a Chave de Portal -
A porta do seu quarto foi aberta e ele ouviu passos, sem dúvidas do seu pai, cruzando a sala até o seu quarto. Por um instante ele sentiu uma onda de alarme, sua mão indo até sua garganta, até se lembrar que ele tinha escondido o pingente do Harry. Ele lutou para se sentar, e uma onda de fraqueza e tontura o assaltou, mas com grande esforço, ele conseguiu ficar sentado, apoiando-se na cabeceira da cama, e recolheu seus joelhos ao peito. Se ele tinha que encarar a raiva e o desapontamento do seu pai, não queria estar deitado.
"Draco?" Lucius entrou no quarto e foi direto à sua cama. "Como está se sentindo?" ele perguntou.
Draco olhou para seu pai, confuso. Essa preocupação solícita não era o que tinha esperado, de forma alguma. "Péssimo," ele disse, sua voz saindo rouca. Ele tinha que saber como estava o status das coisas. Seu pai estava bravo ou não? "Eu. . . sinto muito, pai," ele disse, "por ter desmaiado. Temo tê-lo desonrado."
"Não," Lucius disse, "muito ao contrário, você foi muito bom. Todos perdem a consciência – é meramente um efeito do veneno que você bebeu." Um pequeno sorriso brincava nos cantos de sua boca. "Mais do que um daqueles homens que assistiram na noite passada gritaram feito menininhas quando eles passaram pela Iniciação." Ele apertou o ombro do Draco com firmeza. "Eu fiquei orgulhoso de você na noite passada. Você provou ser muito mais forte do que eu esperava."
Draco fechou os olhos e inclinou a cabeça contra a cabeceira, incerto se sentia alívio ou desânimo com essa revelação. Seu plano estava a salvo, mas o pensamento de um momento atrás de usar a Chave de Portal, de fugir de tudo isso, tinha lhe preenchido, por alguns segundos, com esperanças tentadoras. . .
"Obrigado, pai," ele sussurrou.
"Agora venha," Lucius disse, virando-se por um momento e então retornando com um cálice em suas mãos. "Você precisa beber isso," ele disse. "É uma poção restauradora. Foi lhe dado o antídoto para o veneno na noite passada, mas isso irá neutralizar os efeitos remanescentes do veneno e do feitiço de revivificação".
Apanhando o cálice de seu pai com mãos ligeiramente trêmulas, Draco examinou o conteúdo suspeitosamente quando a memória vívida e nojenta da poção verde pulsante que foi forçado a beber na noite passada voltou à sua mente. Mas essa poção tinha uma cor dourada clara, como cidra de maçã, e o cálice estava frio em suas mãos. Ele descobriu com o primeiro tentativo gole que a poção não tinha um gosto tão bom quanto sua aparência, mas ela era fria e acalmava sua garganta doída, então ele deliberadamente bebeu.
"E eu mandei o Nobby trazer um prato de comida," Lucius disse, retirando o cálice de Draco e se afastando. "Você deveria comer alguma coisa e então se arrumar. Mandei que Nobby ficasse para te ajudar."
Draco percebeu a presença do elfo então pela primeira vez, de pé atrás do Lucius, segurando uma bandeja prateada cheia de doces, sanduíches e um bule de chá.
"Sim senhor," Draco disse.
Lucius foi até a porta. "Fique pronto rapidamente," ele disse. "Agora é meio dia. Eu irei te encontrar no primeiro andar no máximo às duas horas para revisarmos o plano. Nós ativaremos as Chaves de Portal no meu escritório." Então ele saiu do quarto, deixando Draco encarando o obediente elfo-doméstico.
"Coloque a bandeja ali," Draco disse, indicando a mesa da sua sala. "Então você pode ir," ele adicionou firmemente. "Eu consigo cuidar de mim mesmo."
"Mas. . . mas, senhor," o elfo disse, sua voz ficando aguda e trêmula, olhos arregalando em algo muito similar a terror diante do repentino e inimaginável dilema de ter dois homem aos quais ele tinha que obedecer sem perguntas proferindo ordens completamente opostas. "Mestre estar dizendo que eu dever ficar e ajudar."
Draco jogou os pés para o lado da cama e levantou-se. A poção tinha realmente agido muito rapidamente e satisfatoriamente. Ele se sentia completamente recuperado. "E eu estou mandando," Draco disse, agarrando a bandeja das mãos do elfo para impedir qualquer argumento, "que você vá." Ele caminhou até a sala segurando a bandeja, com o Nobby seguindo de perto, e então a depositou na mesa e abriu a porta. "Eu não preciso ou quero ajuda nesse momento," ele disse firmemente, mas não de forma grosseira. "Eu quero ficar sozinho. Vá se esconder na cozinha se você não quer que meu pai saiba que você não está aqui. Mas vá."
Com um gemido agudo, Nobby hesitantemente saiu pela porta, torcendo as mãos. "Sim senhor," ele disse enquanto Draco fechava a porta. "Obrigado, senhor. Nobby vai definitivamente esconder na cozinha, senhor."
Sozinho, Draco suspirou e se sentou para comer. Ele se sentia faminto depois do que passou na noite anterior. Deus, que situação horrível e apavorante, ele pensou, e estremeceu. Ele serviu chá e torceu o nariz, desejando que fosse chocolate quente. Por um segundo ele considerou chamar o Nobby de volta. Chá e chiques sanduíches. Ele suspirou novamente e apanhou um doce cheio de geléia, observando-o com desagrado antes de dar uma mordida. Não, não era assim que ele queria ter sua última refeição, de forma alguma.
…
…
Às duas e meia na sexta-feira, o dia depois do Natal, Harry estava no quarto do Draco se aprontando para sair. Ele tinha almoçado mais cedo com o Hagrid, sabiamente recusando uma segunda dose de bolos de Natal, duros como pedra, e agora estava se movimentando, arrumando o quarto, encontrando suas luvas e o par emprestado das botas do Draco. Após acender o fogo na lareira para que o cômodo ficasse quente e receptivo para eles depois, ele coletou sua capa e a vassoura do Draco. Ele estava sorrindo com antecipação, mais animado do que estivera por muito tempo. Mas também havia uma ponta tensa em sua excitação, que ele sabia que permaneceria ali até que Draco estivesse de volta a salvo nesse quarto, e de volta em seus braços.
Finalmente pronto, Harry escancarou as janelas e montou sua Firebolt. Subindo vagarosamente do chão, ele guiou a vassoura com cuidado pela janela. A Nimbus 2001 do Draco estava segura embaixo do seu braço. Pairando do lado de fora, ele alcançou para trás e fechou a janela, deixando-a ligeiramente aberta, assim como Draco tinha feito no dia em que eles tinham ido voar juntos, para que pudessem retornar despercebidos. Então com um largo sorriso, ele coordenou sua vassoura com velocidade pelos campos de Hogwarts, diretamente por cima da floresta, em direção à Hogsmeade. Ele sabia que chegaria um pouco cedo, mas mal podia esperar para rever o Draco.
…
…
Draco ficou embaixo do chuveiro para que a água batesse em sua nuca e pescoço, correndo em jatos quentes por seus ombros e pingando pelas pontas do seu cabelo que caíam em frente do seu rosto. Ele tentou não pensar no corpo do Harry, molhado e quente e ensaboado em seus braços, ou como Harry tinha sorrido e se inclinado contra ele enquanto Draco lavava seu cabelo, ou como seus olhos verdes brilhantes tinham se fechado em prazer quando Draco beijou as gotas d'água do seu rosto. Mas era impossível não se recordar, impossível não desejar que Harry estivesse ali com ele agora, e aquele desejo intenso que tinha se apoderado dele tão profundamente no corredor na noite passada retornou para destruí-lo mais uma vez.
Virando-se para deixar a água bater em sua face, ele pensou na mudança chocante em seu pai. Aquele "bom trabalho" que tinha recebido na noite em que retornou de Hogwarts foi dado relutantemente, mas na noite passada, antes da iniciação, bem como nessa manhã, o elogio do seu pai tinha sido dado sem relutância – tinha sido real e honesto. Draco sequer sabia se o seu pai era capaz desse tipo de sentimento ou expressão sincera, e o gesto tinha ao mesmo tempo lhe deixado emocionado e sofrido. Ele finalmente tinha conseguido o respeito do seu pai – o respeito que sempre quis daquele homem, que acreditava que queria até dois dias atrás quando tinha queimado aquela carta no seu quarto. Era tão irônico, Draco pensou cinicamente, que apenas recebeu esse respeito agora, após ele ter se tornado insignificante, justamente em razão das coisas que teve que fazer para recebê-lo. Fazia com que ele doesse por dentro ao pensar que as coisas poderiam ter sido diferentes. Se apenas o seu pai. . . mas ele se impediu de pensar nisso, também.
Não havia mais tempo para pensamentos, apenas tempo para ações – havia muitas coisas que precisava fazer antes de descer as escadas. Ele se concentrou nisso, portanto, e, ao perceber quão pouco tempo ele tinha, apressou-se ao sair do chuveiro.
Cinco minutos para duas horas, Draco estava de pé em frente à janela do seu quarto, vestido e pronto para ir, observando a coruja que tinha acabado de despachar desparecer na floresta distante. Ele estava vestindo o suéter de lã cinza que sua mãe tinha lhe presenteado e sua capa preta mais quente e pesada. Suas novas luvas de vôo estavam em uma mão; sua outra mão descansava logo acima do seu coração, seus dedos distraidamente traçando o contorno do pingente do Harry que estava embaixo de suas roupas. Guardado dentro de um bolso interno de sua capa estava a carta que tinha escrito para o Harry e, no outro bolso, as duas Chaves de Portal. Ele apenas precisava pegar a chave de retorno do seu pai antes que eles partissem, e ele sabia exatamente como fazer isso. Então tudo que havia planejado estaria pronto; o resultado dependia, depois disso, de outras pessoas.
Assim que a coruja saiu do seu campo de visão, Draco se virou e deixou o quarto. Ele deixou tudo para trás em perfeita ordem, e saiu sem qualquer hesitação, sem qualquer olhar para trás. Ele se sentia notavelmente calmo enquanto descia as escadas até o escritório do seu pai – apenas mais algumas coisas a fazer e ele estaria livre de tudo – livre da dor, da preocupação, livre até mesmo do amor que tinha lhe possuído e encantado e quebrado seu coração em pedaços. O último pensamento o machucava muito, mas era verdade. Nesse momento, mais do que tudo, Draco desejava paz. Com a exceção da ilusão efêmera e sedutora de paz que tinha experimentado quando Harry fazia o feitiço calmante, ele nunca tivera paz em sua vida. Talvez essa fosse a última esperança em que se segurava – que se abrisse mão de tudo, encontraria paz.
Ele entrou o escritório do seu pai sem bater, sabendo que era esperado.
Lucius estava sentado na sua mesa, pena na mão, escrevendo. Ele levantou o olhar brevemente quando Draco entrou. "Está atrasado," ele disse, e continuou a escrever.
Draco deu de ombros e se sentou em uma das cadeiras em frente ao seu pai. "Temos tempo," ele respondeu.
"Não tanto quanto você pensa," Lucius disse, ainda escrevendo, "já que eu tenho algumas questões importantes para discutir com você antes de irmos."
"Sim, pai?" Draco manteve seu rosto cuidadosamente neutro, apesar de seu estômago ter se contraído. E agora o quê. . .?
Lucius abaixou sua pena e olhou para Draco com severidade. "Eu achei que você deveria saber dos meus planos para os próximos dias. É possível que eu precise que você me encontre mais cedo do que discutimos."
Draco gesticulou com a cabeça ocasionalmente, fingindo estar prestando atenção, enquanto seu pai explicava em detalhe onde levaria o Harry e o que seria feito, mencionando nomes e endereços das conexões de negócios que estava usando como álibis e os detalhes da reunião que tinha marcado com o Lorde das Trevas em três dias. Lá, depois de entregar o Harry, Draco iria receber a Marca Negra. Draco escutou com meia vontade, sua mente no Harry – ouvindo, agora, tudo que seu pai planejava fazer com o Harry, ele se sentia enojado. Ele encarou seu pai e viu o homem pelo que, em pouco tempo, ele certamente se tornaria, e imaginou consigo mesmo como ele pôde ter sido um tolo sentimental há uma hora atrás.
"Eu escrevi esses nomes e endereços," Lucius disse, indicando o pergaminho à sua frente. Ele apanhou sua varinha e murmurou um feitiço.
Draco viu a escrita desaparecer da página.
"Espero que você se lembre de como ler isso," Lucius disse, entregando o pergaminho agora em branco para o Draco.
"É claro.""Guarde-o em um local seguro."
Draco dobrou o papel e colocou-o no bolso. "Coloco quando voltarmos," ele disse ao ver a sobrancelha levantada do seu pai. Ele retirou as Chaves de Portal e as colocou no canto da mesa. "A palavra-chave para ativá-las é. . ." ele pausou, ". . . Creme de Chocolate."
Lucius estreitou os olhos enquanto apanhava uma das moedas prateadas. "Ideia do Dumbledore, sem dúvida," ele disse com menosprezo.
"Não," Draco disse, sem emoções. "Minha." Ele apanhou a outra Chave, virando-a em sua mão. Ele a estudou como se estivesse pensando em algo importante. Então ele olhou para o seu pai, sua face séria, preocupada. "Acabei de pensar em algo, pai," ele disse. "Talvez eu deva levar a Chave de retorno comigo agora. . .como forma de precaução. Se alguma coisa der errado, se o Potter não estiver sozinho, ou se ele não tiver voado até o ponto, eu posso voltar e te avisar, para que não venha. Você não deveria ser visto lá se tivermos que adiar o plano." Ele pausou brevemente. "Além do mais, mesmo que tudo ocorra exatamente como planejado, você terá suas mãos cheias com o Potter," ele adicionou. "Será mais fácil se eu me responsabilizar por nos trazer de volta."
Lucius hesitou por um momento. "Muito bem," ele disse. "Eu concordo." Ele apanhou a pequena chave preta do seu bolso e a entregou ao Draco. "A palavra para ativá-la é o nome do meio do meu pai."
Draco concordou, guardando-a com cuidado no seu bolso. Era isso então. Tudo que tinha pretendido fazer estava feito. Não havia mais nada a fazer agora a não ser deixar tudo que ele tinha preparado correr seu curso, até o fim. Ele se levantou, olhando para o relógio grande na parede. Faltavam dez minutos para as três horas.
"Eu acho que vou indo agora," Draco disse. "Isso irá me dar alguns minutos para me certificar que tudo está seguro. O Potter deve chegar às três. Se eu não voltar até cinco minutos depois das três horas, venha atrás de mim."
"Estou ansioso para ver a expressão no rosto do Potter," Lucius disse, um olhar frio e calculista nos seus olhos, "quando ele descobrir que você o traiu."
Draco sorriu internamente. Seu pai tinha feito diversas coisas nos últimos dois dias que foram inesperadas, mas isso ele tinha esperado, tinha até mesmo contado com isso. "Sim," ele disse suavemente. Ele também estava ansioso para ver algo parecido com isso.
Lucius se levantou.
Draco estendeu uma mão, seu punho fechado firmemente em volta da Chave de Portal. Então era isso, ele pensou com um repentino aperto em sua garganta. Ele apenas teria alguns minutos para ficar com o Harry, antes que ele percebesse o que ele tinha feito, antes que Draco tivesse que observar a traição e a dor aparecer nos olhos verdes, antes que não houvesse mais qualquer futuro para eles, e Harry ficasse com um amor transformado em cinzas.
Amor, ele pensou desconsolado, enquanto sussurrava a senha e sentiu aquele puxão vertiginoso agarrá-lo por detrás do umbigo. Amor, absolutamente lindo como tinha sido, também conseguia ser algo cruel e amargo.
Fim do Capítulo 15
Comentários da autora:
"O feitiço de revivificação, Exvoromors Pariovita, é em Latim, e traduz aproximadamente como 'Ao engolir a morte, cria-se a vida'."
"O Ritual de Iniciação dos Comensais da Morte foi baseado em pesquisas que eu fiz em práticas de bebidas de sangue em alguns países asiáticos, e no próprio nome "Comensal da Morte" e no símbolo da Marca Negra – uma cobra saindo da boca de um crânio humano".
