A/N: Nossa, adorei a resposta ao Capítulo 16! Passamos de 100 reviews, aeee! Estou muito feliz! Muito obrigada pelo apoio de todos! XD Apesar de ter ficado chocada com o ódio direcionado ao Draco! Haha, achei que todos iriam ficar felizes por ele não ter, no final das contas, entregado o Harry ao Lucius. Devido ao número significativo de implorações, súplicas e mensagens desesperadoras pelo próximo capítulo, aqui está ele! Depois desse há ainda mais um capítulo e o Epílogo, que são gigantes, por sinal. E por fim, por favor, review!
*** Dado interessante: a partir desse capítulo, essa fanfiction é maior do que o Livro 4 – Harry Potter e o Cálice do Fogo! Meu Deus, como eu digitei tudo isso? rsrsrs
CHECKMATE
PARTE III – FIM DO JOGO
Capítulo 17
This is an all too familiar scene
Hopeless reflections of what might have been
From all sides the incessant and burning question:
Essa é uma cena muito familiar
Reflexões sem esperança do que poderia ter sido
De todos os lados vem a pergunta incessante e ardente:
"Bearing in mind your predicament now –
– what you did then –
– we're just dying to know would you do it all again?"
"Tendo em vista seu predicamento agora –
- o que você fez naquela hora –
- nós estamos morrendo para saber, você faria tudo de novo?"
But they know full well
It's not hard to tell
Though my heart is breaking
I'd give the world for that moment with you
When we thought we knew
That our love would last
But the moment passed
With no warning, far too fast
Mas eles sabem muito bem
Não é difícil de ver
Apesar de o meu coração estar quebrando
Eu daria o mundo em troca daquele momento com você
Quando nós achávamos que sabíamos
Que o nosso amor iria durar
Mas o momento passou
Sem aviso, rápido demais
Letras de "You and I" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus
…
…
Além da dor, havia o verde em todo o seu redor, esmeralda e jade, uma espiral vertiginosa de cores que gradualmente criavam forma e se transformavam em folhas e videiras, e crescendo, até arquearem como paredes de floresta. Videiras prendiam suas pernas onde estava ajoelhado, videiras circulavam suas mãos e pulsos, prendendo-o com força, fixando-o no chão da floresta, imóvel. Pingos de chuva, quentes e pesados, caíam das pontas das folhas, corriam pelos seus ombros e pelo seu peito nu para se juntarem com o sangue que corria em rios escuros do ferimento profundo no seu peito. Ele virou seu rosto para cima e fechou os olhos, deixando os pingos correram pelo seu rosto como se fossem lágrimas.
Ele se recordava desse local. . . lembrava do medo. . . lembrava da lança inescapável e impiedosa que atravessava seu coração, na forma de um chifre de marfim, que queimava como fogo e era tão frio quanto o gelo, e ele conheceu novamente a agonia dessa perfuração cruel.
A dor era tudo agora. Radiando do ferimento em seu peito, ela cauterizava sua garganta, corria em ondas excruciantes pela sua coluna e tremia com uma dor pulsante atrás de seus olhos e embaixo de suas unhas. Intensa e brutal, ela o consumia.
Vozes baixas e urgentes sussurravam a todo o seu redor, mas estavam longe demais para que as entendesse, desaparecendo em uma distância remota.
Com a exceção de uma.
Por que você deveria viver? perguntou a memória em uma voz suave e insistente em sua mente, e a floresta chorosa parecia ecoar. . . Viver. . .
Mas a pergunta não tinha resposta, não existia mais propósito para ele. . . nada mais importava. Dor o possuía, preenchia-o, esfaqueava-o sem misericórdia. Ele não conseguia mais lutar e mesmo assim era mantido em cativeiro, sem resistência.
"Deixe-me ir. . ." ele sussurrou, um som seco, nu como osso. "Deixe-me ir. . ."
…
…
Harry estava deitado em uma cama da Ala Hospitalar, seus olhos secos e cansados, encarando o teto, escutando atentamente e se agarrando desesperadamente à consciência daquela única e frágil ligação que ainda segurava – enquanto ele a segurasse, poderia ter esperança. Trazer o Draco novamente para Hogwarts tinha-o deixado exausto, emocional e fisicamente. Ele se sentia fraco e quebrado, vazio por dentro – tinha se sentido dessa forma, agora que pensava nisso, desde o momento em que Lucius havia lançado a Maldição da Morte. Madame Pomfrey, em sua pressa para tratar do Draco, tinha apenas lançado um olhar na direção do rosto chocado e pálido do Harry, mas não deixou de jogar uma barra de chocolate em suas mãos e mandar que se deitasse. Ele tinha comido metade da barra em um transe mecânico e então tinha caído exaustivamente na cama oposta à do Draco. O tempo passou em velocidade agonizantemente devagar. Tudo que ele podia fazer era deitar ali e esperar, chocado e ansioso, enquanto escutava a Madame Pomfrey falando em sussurros baixos e preocupados com o Dumbledore, por detrás das cortinas firmemente fechadas ao redor da cama do Draco.
Quando um elfo-doméstico apareceu segurando uma bandeja de jantar, Harry percebeu que estava faminto e, apesar disso, mal conseguiu comer. Sentar-se o deixava tonto; o frango tinha gosto de cartolina, e as batatas de serragem. Ele tentou comer mesmo assim e conseguiu manter um pouco de comida em seu estômago, juntamente com o resto da barra de chocolate, sabendo que precisaria de todas suas forças para ajudar o Draco. Por um curto momento, ele se sentiu mais forte, mas não demorou muito até que a fatiga se apoderasse dele mais uma vez.
Muitas perguntas ardentes e não respondidas corriam pela sua mente enquanto deitava ali, esperando pelo que pareciam ser horas. Tudo na clareira da Chave de Portal tinha acontecido tão rapidamente. Em um momento, ele e o Draco estiveram unidos, exultantes diante da vitória certa, e no próximo instante, tudo tinha sido quebrado além da compreensão. Uma raiva terrível, também, queimava logo abaixo da superfície dos seus pensamentos. Ele lamentava profundamente a perda da ligação Ti'kira entre eles; sua ausência agora parecia um grande vazio dentro do seu corpo que nunca mais seria preenchido. Mas ele tinha que tentar ignorar tudo isso. Nada importava com a exceção da conexão tênue que tremia, frágil como a asa de uma borboleta, dentro do seu ser.
Era tudo que tinha sobrado das conexões mágicas vibrantes que havia compartilhado com o Draco, e todo pingo de sua energia estava direcionado a salvar esse último precioso vínculo que ainda segurava. Ele o segurou em sua mente como se o estivesse segurando carinhosamente em sua mão, gentilmente capturado e protegido, sustentando-o apenas pela exaustão da sua própria determinação em mantê-lo a salvo, e o esforço estava o cansando mais rápido do que conseguia recuperar suas forças. Ele começou a temer que estivesse rapidamente ficando fraco demais para continuar; a mesma escuridão que havia lhe cercado na clareira parecia pronta para tomar conta dele novamente. Se ele desmaiasse ou involuntariamente deixasse aquela preciosa conexão fugir. . .
Lutando contra o pânico que aflorou com esse pensamento, Harry fechou os olhos e se concentrou naquela conexão frágil o mais intensamente quanto pôde. Ele tinha que se manter forte. Ele não iria soltar.
Sussurrando todo feitiço de fortalecimento que conhecia, Harry batalhou contra sua energia falha. Do outro lado do quarto, ele ouviu o murmúrio dos feitiços lançados pela Madame Pomfrey e o tom barítono da voz do Dumbledore se misturando com a dela. Parecia para o Harry como se uma eternidade tivesse passado nos próximos minutos; a tensão parecia infinita. A Madame Pomfrey estava falando mais alto, urgentemente, e então Harry ouviu um som aterrorizante de tosses.
Ah meu Deus. . .
Lutando para se sentar, Harry se firmou na cabeceira da cama e encarou, concentrado e tenso, o outro lado do quarto, as cortinas escondendo a cama do Draco. O repentino silêncio era horrível. . . e parecia não ter fim. . . E então, como uma respiração profunda, tudo ficou mais leve, e Harry sentiu o escoamento de sua força diminuir. Ele fechou os olhos, sentindo-se tonto e confuso, sem saber o que aquilo significava.
Dumbledore saiu de trás das cortinas, e seus olhos encontraram os do Harry. Os olhos azuis claros estavam tristes, tensos, apologéticos.
"Eu sinto muito, Harry," Dumbledore disse quietamente, quando alcançou a cama do Harry. "A Madame Pomfrey fez o possível, mas. . ."
Harry ficou de pé, de alguma forma, apesar de suas pernas parecerem imateriais e fracas embaixo de si. "Ele está – " Ele não conseguia dizer, e não podia ser verdade. Ele ainda estava sentindo aquela batida. . .
Dumbledore balançou a cabeça. "Ele continua conosco, Harry. . . mas apenas por pouco. A Madame Pomfrey finalmente conseguiu fazê-lo engolir uma Poção de Revivificação muito poderosa, e isso o estabilizou um pouco. Nós não temos como saber quanto tempo ela vai durar, entretanto," ele disse tristemente. Ele pausou e encontrou os olhos do Harry com sincero arrependimento. "Harry, sinto muito. . . nós estávamos tão concentrados em manter você a salvo. Nós deveríamos tê-lo protegido melhor."
"Sim," Harry disse tensamente. "Vocês deveriam ter." Ele não conseguiu afastar o tom hostil e acusatório de sua voz, enquanto a imagem devastadora do Draco deitado sozinho e abandonado na neve surgiu em sua memória. E com essa memória vieram as perguntas raivosas e grandes que o estiveram incomodando desde que eles trouxeram o Draco à Ala Hospitalar. Ele tentou não pensar nas implicações da presença dos Aurores na clareira, mas. . . "Você sabia do plano dele, não é?" ele perguntou com a voz baixa e furiosa. "Você sabia o que ele estava fazendo! Como você pôde deixá-lo arriscar a própria vida daquele jeito?"
"Não," Dumbledore disse tristemente. "Eu não sabia. O Draco se certificou disso," ele adicionou com um tom quieto e agravado. "Ele me mandou uma coruja com uma explicação e um pedido urgente de ajuda. . . mas apenas no último minuto. Eu suspeitava que ele estivesse encrencado quando ele me trouxe o anel que você está usando antes de ele ir para casa, e felizmente eu decidi tomar certas precauções naquele momento. Eu pedi a um dos Aurores em que confio, que não compartilha da ignorância do Fudge no que diz respeito às alianças do Lucius Malfoy, para que mantivesse guarda na clareira da Chave de Portal, como precaução. Quando eu recebi a carta do Draco, eu imediatamente alertei o Arthur e o Alastor Moody também, mas nós três quase não chegamos lá a tempo."
"Você ainda poderia ter impedido," Harry protestou. "Nós tínhamos nossas vassouras. Tínhamos tempo suficiente para fugir antes que o Lucius Malfoy aparecesse – se eu tivesse sido avisado. . ."
"Estamos em guerra," Dumbledore disse gentilmente, mas com firmeza. "O Draco me disse em sua carta que ele sabia o que estava fazendo e que não correria perigo, apesar de ele também ter me assegurado que iria tomar quaisquer riscos necessários para impedir seu pai e expor os Comensais da Morte. A maior preocupação dele era você – que você ficasse a salvo." Dumbledore pausou. "Nós precisávamos do que ele fez, Harry. Desesperadamente. E quando o Draco me contou que você tinha o anel o qual eu mesmo tinha enfeitiçado e no qual o próprio Draco tinha colocado um avançado Feitiço Afasta-Maldições, eu soube que você estaria a salvo da Maldição Imperius. Eu achei que deveríamos confiar no Draco e deixá-lo provar sem sombra de dúvidas de que lado ele estava. O plano foi brilhante em sua concepção. O pai dele era a chave para o resto dos Comensais da Morte, e ninguém nunca conseguiu chegar perto dele antes. Mas eu temo que apesar dos meus avisos para que você não subestimasse Lucius Malfoy, isso foi exatamente o que eu fiz. Nós deveríamos tê-lo desarmado imediatamente. Eu apenas nunca imaginei que o Lucius realmente pudesse tentar. . . matar. . . o próprio filho."
"Eu acho que o Draco sabia," Harry disse amargamente, lembrando-se da maneira como o Draco tinha encarado seu pai no final, queixo elevado, esperando pela maldição, sem traços de surpresa. "Independentemente do que ele tenha te falado."
"Eu acredito que sim," Dumbledore disse com um suspiro preocupado. "E eu não tenho explicações de como ele sobreviveu àquela maldição. . . embora nós tenhamos encontrado isso." O diretor estendeu sua mão na direção do Harry. Em sua palma estava uma corrente prateada, fios de prata torcidos e queimados, um cristal quebrado e uma pedra fraturada e preta. "Parece que a maldição acertou isso diretamente e então talvez seu poder tenha sido parcialmente desviado, mas eu não entendo como isso pôde ter sido suficiente para salvar a vida dele."
Harry grunhiu e se deixou cair sentado na cama ao ver a corrente arruinada. "Eu dei isso para ele," ele disse com a voz quase inaudível. "De Natal. Logo antes de ele ir embora." Ele estendeu a mão e cuidadosamente apanhou o colar anteriormente tão belo das mãos do Dumbledore, segurando-o em sua palma por um longo momento, e então o deitou gentilmente na mesa ao lado da cama. Parecia um símbolo de tudo que havia sido destruído naquele dia. "Você estava certo," ele disse suavemente ao Dumbledore, "aquele dia, no seu escritório – quando disse que ele seria capaz de me machucar bem mais agora do que antes. Ele disse que me amava e eu confiei nele. . . e agora. . ." A voz do Harry quebrou e ele sentou em silêncio por vários segundos, encarando o colar. "Ele mentiu e. . . ele me usou. Agora. . . eu não sei em que acreditar."
"Há muitas coisas que ele precisa explicar," Dumbledore disse, "e eu não desejo nada mais no momento de que essa chance seja proporcionada a ele. A Madame Pomfrey está fazendo tudo que pode para mantê-lo conosco. Mas eu acho que você pode acreditar que ele realmente te ama muito. Ele estava disposto a morrer para nos ajudar a vencer essa guerra. . . e para te proteger."
Harry virou para o outro lado, sua raiva voltando. . . e a ameaça de lágrimas. Ele mordeu seu lábio inferior para evitar os tremores e não disse nada.
"Considerando que o Arthur Weasley estava lá," Dumbledore disse após um pequeno silêncio, "eu suspeito que seus amigos irão escutar o que aconteceu e vão querer voltar mais cedo para ficar com você."
Harry olhou sem foco para o chão, lutando para manter suas emoções sob controle. "Não," ele disse finalmente. "Eu. . . eu não quero ninguém. Não por enquanto." Ele levantou o rosto e encontrou os olhos do Dumbledore com determinação. "Eu apenas quero ver o Draco agora, por favor."
Dumbledore estudou a face pálida do Harry. Ele parecia exausto e tenso, fato este que fez Dumbledore se lembrar de suas próprias suspeições anteriores com preocupação. Ele achava que o Harry deveria deitar-se, mas ele viu a preocupação e a determinação nos olhos do Harry e concordou. "Eu avisarei à Madame Pomfrey que você pode se sentar com ele por um momento para que ela possa re-estocar seus medicamentos," ele disse, também resolvendo dizer à Madame Pomfrey para que observasse o Harry de perto. "Mas então você precisa descansar, Harry."
Harry não discutiu, apesar de saber que ele nunca conseguiria descansar até ter certeza que o Draco ficaria bem. Ele caminhou com o Dumbledore até a cama do Draco e esperou tensamente enquanto o diretor empurrava uma das cortinas para o lado e falava com a Madame Pomfrey. Harry conseguia ver as roupas do Draco jogadas desajeitadamente em uma cadeira ao lado da cama, a capa de lã preta, o bonito suéter cinza, a ponta de uma das botas preferidas do Draco, aparecendo debaixo de parte da capa que caía até o chão. Um caroço bloqueou a garganta do Harry com dor, e uma repentina chuva de angústia, de desejo, e uma consciência aguda do espaço vazio em seu peito e a necessidade desesperada que o Draco preenchesse esse vazio inundaram sua mente, seguidos rapidamente por uma onda gelada de medo de que ele nunca pudesse segurar o Draco novamente. Ele fechou os olhos por um segundo e engoliu com força, tentando se manter calmo.
Dumbledore deu um passo para trás. "Estarei no meu escritório, Harry," ele disse com a voz baixa. "Eu preciso contatar certas pessoas que precisam saber do que aconteceu nessa tarde. A Papoula irá me informar caso ela precise de mim." ele adicionou, e com um aceno solene, andou na direção da porta.
Harry não observou sua partida, mas imediatamente entrou pelas cortinas. A Madame Pomfrey estava curvada sobre a cama, sua varinha em uma mão, terminando de lançar um feitiço.
"Eu acabei de colocar um Feitiço de Convocação nele," ela disse cuidadosamente, virando-se para encarar o Harry, "que irá me alertar instantaneamente se a condição dele mudar." Ela correu um olhar profissional e rápido pelo Harry e apanhou da mesa ao seu lado um cálice contendo uma pequena quantidade de poção. "Essa é a Poção de Revivificação que eu dei para o Sr. Malfoy," ela disse. "Eu tive que usar um Feitiço de Engolir já que ele continua inconsciente, mas mesmo com isso ele começou a engasgar e eu não consegui fazer com que ele tomasse tudo." Ela passou o cálice para o Harry. "Eu quero que você beba o resto, Harry," ela disse, estudando o rosto dele com preocupação confusa. "Você está quase tão pálido quanto ele."
Harry apanhou o cálice e bebeu. O gosto era terrível, mas fez com que se sentisse um pouco melhor quase que instantaneamente. Então a Madame Pomfrey se afastou ligeiramente da cama e Harry viu o Draco pela primeira vez desde que foi trazido para a Ala Hospitalar. Ela começou a falar novamente, explicando os detalhes dos feitiços que tinha usado no Draco e as razões pelas quais os tinha usado. Ela estava lhe ensinando até mesmo agora, Harry percebeu, e então ele entendeu que ela não sabia o real motivo da presença dele ali. Ela tinha presumido que ele tinha ficado para ajudar porque ele era estudante dela, porque ele estava treinando para ser um Médibruxo e isso era uma emergência. Ele escutou cuidadosamente as instruções dela, mas não conseguia retirar os olhos do rosto do Draco.
Aquele rosto estava completamente ausente de cor, com a exceção dos círculos azuis pálidos embaixo dos olhos. Até mesmo os lábios estavam sem cor, quase cinzas. O coração do Harry se contraiu dolorosamente. Toda a raiva que achava que iria sentia quando visse o Draco novamente tinha evaporado diante da visão da face sem vida do Draco.
"Os efeitos da poção irão passar em algumas horas," a Madame Pomfrey continuou enquanto apanhava as roupas do Draco da cadeira. "Eu não sei se ele continuará estável dessa forma quando isso acontecer ou se ele entrará em crise novamente." Ela pausou e se ajeitou, seus braços cheios das coisas do Draco. "Harry, a verdade é que, mesmo com tudo que eu fiz, mesmo com a Poção de Revivificação, ele ainda está morrendo. Apenas muito mais vagarosamente do que antes. E eu não sei. . ."
A voz dela falhou e Harry levantou o olhar. O rosto dela estava melancólico, nublado com incerteza e grave apreensão.
"Eu não sei se existe algo que possamos fazer para salvá-lo," ela disse suavemente. "Temo que tudo que estejamos fazendo é prolongar o inevitável. É um completo mistério o fato de ele sequer estar vivo."
Harry desviou o olhar antes que o golpe das palavras dela fosse demonstrado em seus olhos. "Mas. . . nós continuaremos tentando, certo?" ele perguntou, sua voz baixa com emoção.
"Sim, é claro que vamos. Você sabe que eu nunca desistira dele," ela respondeu de maneira reconfortante. "Eu vou até o laboratório de Poções agora e vou misturar uma boa quantidade de Poções de Revivificação para termos em mãos. Vai demorar um pouquinho, mas parece que é isso que tem ajudado mais ele."
Harry concordou, seu olhar fixo novamente no rosto pálido do Draco. "Eu vou ficar aqui e observá-lo," ele disse, sentando-se vagarosamente na cadeira ao lado da cama. Ele se sentia amortecido no corpo inteiro e não viu o olhar preocupado e questionador que a Madame Pomfrey lançou-lhe.
"Harry," ela começou, seu tom gentil, porém com censura, "você parece exausto. Eu acho que seria melhor se você deitasse. . ."
Ela não pressionou o assunto quando o Harry apenas balançou a cabeça. Ele estava jogado na cadeira e encarando atentamente o Draco Malfoy de uma maneira que a deixou completamente perplexa. O que teria acontecido lá fora essa tarde? De acordo com o Dumbledore, o Harry não tinha sofrido injúrias de qualquer tipo. Então por que ele parecia tão exausto e pálido? Ela ponderou se talvez ele estivesse se sentindo culpado pela ferida do Malfoy. Isso seria bem típico do Harry, apesar de o Dumbledore, em sua brevíssima explicação, ter deixado claro que o Harry tinha sido um participante involuntário no esquema do Malfoy. Mesmo assim, isso não explicava o comportamento abatido do Harry ou o motivo pelo qual ele continuava a parecer doente mesmo quando não tinha nada de errado com ele. Tudo era um grande quebra-cabeça. Ela certamente iria seguir a sugestão do Dumbledore e iria manter um olho observador tanto nele quando no Malfoy.
Mas já que ele estava determinado a ficar com o Malfoy, ela pensou, pelo menos ele pode aprender alguma coisa ao invés de sentar ali e ficar se preocupando sem motivo. "Eu vim examinando o Sr. Malfoy com o Aurascópio, Harry," ela disse, apontando na direção do pequeno instrumento, que lembrava um par de Onióculos, na mesa de cabeceira. "Se você vai se sentar com ele, eu gostaria que você continuasse a monitorar a condição dele com o Aurascópio. Ele tem apenas um pequeno machucado físico, mas você consegue ver o . . . verdadeiro dano. . . muito claramente com o Aurascópio. Eu apreciaria uma segunda opinião depois que você utilizá-lo." Ela pausou, incerta se Harry estava sequer escutando, mas então ele se virou para encará-la com a primeira faísca de interesse em seus olhos naquela tarde inteira.
"Tá bom," ele disse quietamente, e ela sorriu para ele.
Harry esperou até que a Madame Pomfrey saísse da Ala Hospitalar antes de se mover. Ele estava finalmente sozinho e poderia fazer o que estava desesperadamente querendo e precisando fazer desde o momento que tinha entregado o Draco aos cuidados da enfermeira – tocá-lo novamente. Ajoelhando-se ao lado da cama, ele cuidadosamente acariciou uma mecha do cabelo do Draco, colocando-a atrás de uma orelha, e então apanhou a mão esquerda do Draco com as suas.
Ele acariciou a mão do Draco gentilmente, e por um momento estava cativado como sempre esteve pela sua beleza elegante, mas a visão dos dedos pálidos graciosos que agora curvavam na direção da sua palma, imóveis, rapidamente o preenchia com uma dor quase sufocante de cobiça e saudade. O toque das mãos do Draco era único e insubstituível – ninguém jamais conseguiria tocá-lo da forma como o Draco fazia. Esse toque, por si só, tinha o levado a lugares de profunda calma e então a altitudes vertiginosas de prazer – lugares em que as preocupações de todas as outras horas não conseguiam encontrá-lo. Ele se lembrou, igualmente, enquanto acariciava a pele sedosamente macia do pulso do Draco, como o outro garoto tinha respondido ao seu toque – tinha sido tão encantador, tão emocionante de ver, e Harry ficara sem palavras diante do profundo sentimento de alegria que a experiência tinha lhe proporcionado.
"Não se atreva a morrer," ele sussurrou com a voz falha. "Draco, está me ouvindo? Você tem que viver. Você tem. .."
Não houve resposta. Draco continuava deitado como se estivesse morto. O subir e descer do seu peito enquanto respirava – a única indicação de que continuava vivo – eram em si mesmos quase imperceptíveis. Harry fechou os olhos, sua cabeça abaixada, intensamente desolado, temendo com uma dor profunda e oca de pesar e miséria em seu peito o que ele tanto queria negar – que o Draco já estava longe demais, além do alcance de palavras, além do alcance do seu toque.
Lágrimas ameaçavam cair dos cantos dos seus olhos. Por que você fez isso? Ele queria gritar. Ele visitou suas memórias dos eventos na clareira, torcendo para que se lembrasse de alguma coisa que o ajudasse a compreender. Flashes de memória vieram até ele, todos confusos e fora de ordem – Draco deitado na neve, a horrível luz verde da Maldição da Morte, o fim inesperado e chocante do jogo de xadrez, a repentina aparição dos Aurores, o rosto lívido do Lucius Malfoy e a rendição terrível e calma do Draco. Mas nada realmente ajudou. Talvez se ele começasse do início, desde o momento em que se encontrou com o Draco e seguisse a ordem de eventos. . .
Ele se lembrou primeiramente de como tinha voado até a clareira da Chave de Portal e o quão animado estivera para ver o Draco novamente; ele se lembrou de como o Draco tinha lhe beijado tão ardentemente mas então tinha inesperadamente pedido perdão. Relembrando-se disso, Harry entendeu agora a desculpa e, com esforço, afastou essa memória para o fundo de sua mente. Se ele pensasse nisso agora, apenas ficaria zangado e agora não era o momento para isso. Em seguida, ele se lembrou que Draco tinha empurrado um pedaço de papel na sua mão –
Ah Deus! Harry se levantou, enfiou a mão em seu bolso e retirou a carta do Draco. Ele tinha completamente se esquecido dela. Com mãos trêmulas ele desdobrou o pergaminho. Ele tinha sido dobrado várias vezes, então demorou a abri-lo. Então, com antecipação e apreensão em seu coração, ele se sentou na cadeira e leu:
Querido Harry,
Eu espero com todo o meu coração, enquanto escrevo essa carta, que você nunca tenha que ler isso. Mas se você está lendo agora, então meu pior medo se concretizou e eu não estou mais com você. Eu sinto tanto, Harry, por tantas coisas.
Eu espero que você possa me perdoar por ter te deixado. Eu nunca quis te machucar – eu nunca pensei, quando eu elaborei o plano para prender o meu pai, que você poderia me amar também. Eu honestamente não achava que você fosse ligar caso acontecesse alguma coisa comigo. Eu apenas queria fazer com que você confiasse em mim, que você estivesse disposto a me encontrar – eu achei que tudo que você desejaria de mim seria informação.
Mas depois que você me beijou, eu queria que você me amasse mais do que tudo – e eu não pensei em como isso poderia te machucar até você me contar sobre aquela garota. Eu soube que você me amava e já era tarde demais. Eu tentei não pensar na morte, em nunca mais poder ficar com você, mas estava me destruindo saber que isso era o que provavelmente aconteceria, e que você poderia me odiar quando tudo terminasse. Harry, por favor, tente entender. Por favor, não me odeie por ter desejado que você me amasse, por ter desejado ficar com você, mesmo sabendo como tudo terminaria. O que eu fiz, eu tive que fazer, não importa qual o risco para a minha pessoa. Eu era o único que poderia penetrar as defesas do meu pai – ele não confiava em ninguém, mas em sua arrogância, ele nunca suspeitou que eu pudesse traí-lo.
Então eu espero, também, se você estiver lendo essa carta, que você esteja a salvo e que meu pai tenha sido impedido. Se eu tive sucesso em conseguir que meu pai seja preso, os Comensais da Morte serão expostos e o apoio ao Voldemort será imensamente enfraquecido. Você não terá que lutar contra todos eles e a minha morte terá servido a um propósito. Eu sempre soube que a minha morte era inevitável – o meu pai teria me assassinado eventualmente, porque eu iria negá-lo a lealdade que ele exigia e teria me recusado a ajudá-lo a te entregar ao Lorde das Trevas. Mas o meu maior medo era que ele, de alguma forma, me forçasse a te entregar, mesmo assim. Eu não conseguiria viver com o conhecimento de que o meu pai tinha te machucado, ou pior, tinha me usado para te machucar. Mas, meu Deus, Harry, essa noite ele irá me forçar a dizer os juramentos para que eu me torne um Comensal da Morte e eu não posso viver com isso. Ele será obrigado a me matar depois que eu trair os votos e eu não tenho a intenção de impedi-lo. Eu não posso, mas pelo menos dessa forma, eu terei dado fim a tudo nos meus próprios termos.
Você me disse que, não importa o que acontecesse, você não iria se arrepender de nós termos feito amor. Eu espero que essa seja a verdade, mas eu também espero que você não se arrependa do tempo que passamos juntos. Meu único arrependimento é que tudo acabou tão cedo. Deus, Harry, eu queria tanto a vida que poderíamos ter tido juntos.
Tudo que está no meu quarto em Hogwarts eu deixo para você, especialmente o tabuleiro de xadrez. Eu quero que você o tenha, para se lembrar de mim. Diga à Pansy que sinto muito, também. Ela estava no nosso lado, no final.
Por favor, nunca se esqueça que eu te amei.
Seu para sempre,
Draco
Harry leu a carta inteira, e então retirou os óculos e limpou as lágrimas que tinham corrido pela sua face enquanto lia. Fechando os olhos para impedir a ameaça de novas lágrimas, ele tentou fazer sentido das inúmeras emoções que estava sentindo. Ele estava profundamente enraivecido e angustiado pelo que o Draco tinha feito, e também emocionado em seu coração de uma maneira que era fisicamente dolorosa, como se o seu coração pudesse realmente quebrar em dois.
Como você pôde pensar que eu não me importaria com o que acontecesse com você. . . ou que eu iria odiá-lo? ele perguntou ao Draco silenciosamente. Mesmo se nós nunca tivéssemos nos tornado amigos. . . eu teria me importado se você morresse dessa forma, lutando contra os Comensais da Morte. . . me defendendo.
Ele queria ao mesmo tempo gritar com o Draco e agarrá-lo em seus braços e nunca mais soltá-lo.
Angustiava-o saber que o tempo todo em que estiveram juntos, o Draco soube que poderia morrer. Doía amargamente, também, saber que o Draco não tinha confiado nele para contar o que estava planejando. Para ser sincero, Harry admitiu a si mesmo, ele nunca teria concordado em seguir com o plano, mas mesmo assim, ele se sentia terrível ao saber que o Draco tinha sofrido o caminho inteiro sozinho. E ele estava furiosamente bravo em razão do Draco ter agido de forma tão descuidada com sua vida. Se ele tivesse ao menos pedido ajuda, certamente um plano poderia ter sido elaborado que não envolvesse um risco tão tolo e desnecessário.
Enxugando as lágrimas que tinham escapado, e então recolocando seus óculos, Harry leu a carta uma segunda vez. Ele voltou à frase, "eu também espero que você não se arrependa do tempo que passamos juntos. Meu único arrependimento é que tudo acabou tão cedo," e então se sentou imóvel por um longo momento, antes de vagarosamente redobrar a carta e guardá-la no bolso da sua camisa. Ele sempre soube o quão incerto tudo era em relação ao futuro deles. Mas de certa forma, os riscos pareciam estar a uma distância tão grande, certamente não tão imediata, e ele sofria pela forma como o Draco deve ter se sentido, sabendo que o fim estava tão perto.
Harry claramente se recordava das palavras que tinha dito ao Draco no dia antes de ele ir embora. "Você não sabe que se alguma coisa acontecesse com você, o que eu me arrependeria pelo resto da minha vida seria o futuro que nós nunca pudemos ter, todas as coisas que nós nunca pudemos fazer juntos?" Sentado aqui agora, encarando a possibilidade muitíssima real de que o Draco talvez não sobrevivesse à noite, que eles não tivessem um futuro juntos, ele percebeu que não se arrependia de nada. Ele entendeu completamente. Se as posições deles estivessem invertidas, Harry sabia que teria feito exatamente o que o Draco fez – ele teria desejado todo minuto que pudessem ter juntos, independentemente de como ou quando tudo terminaria. Harry sabia que ele teria seu coração quebrado pelo futuro que eles talvez nunca compartilhassem, e ele não tinha certeza se algum dia superaria tal perda, mas ao mesmo tempo ele havia recebido um precioso presente e ele sabia que nunca iria se arrepender de um minuto sequer.
Ele se sentia mais forte sabendo disso. Observando a figura imóvel na cama diante dos seus olhos, amor percorreu pelo seu corpo, confortando-o como o toque gentil de um feitiço calmante, e ele respirou fundo. Não, mesmo se o Draco morrer, ele não teria qualquer arrependimento, e mesmo assim. . . o Draco era insubstituível na sua vida. Se o Draco morresse, Harry sabia que nunca mais amaria outra pessoa – não com todo o seu ser – para sempre. Ele simplesmente não poderia deixar o Draco morrer. As palavras da Madame Pomfrey vieram à sua mente, a promessa de que ela não desistira do Draco, e a determinação dele se fixou. Tinha que ter alguma coisa que pudesse fazer – algo que ele pudesse fazer – e ele certamente nunca iria desistir.
A porta da Ala Hospitalar foi aberta e a Madame Pomfrey entrou, carregando uma jarra cheia de Poção de Revivificação e um cálice extra que ela colocou na mesa ao lado da cama do Draco. Ela estudou o rosto do Harry seriamente. "Eu quero que você beba uma dose integral dessa poção, Harry," ela disse, enchendo um cálice. "Estou começando a me preocupar com você."
Harry pegou o cálice e deu pequenos goles enquanto a Madame Pomfrey enchia outro para o caso do Draco precisar. Mesmo fresca, a poção ainda tinha um gosto terrível.
"Eu vou tentar dormir um pouco," ela disse, "antes que a última dose da poção do Sr. Malfoy perca efeito. Nós talvez tenhamos que enfrentar uma situação difícil quando isso acontecer, e eu quero estar descansada. O Feitiço de Convocação irá me acordar caso a situação mude," ela assegurou.
A mão dela caiu levemente no ombro do Harry. "Você também deveria dormir um pouco, querido," ela adicionou gentilmente. "Eu vou colocar um par de pijamas para você naquela cama ali."
"Sim senhora," Harry disse, apesar de saber que não poderia dormir. Ele não queria contar para ela seu real medo – que se dormisse, Draco iria morrer.
Por alguns minutos ela andou de um lado para o outro, e então foi até seu escritório, balançando a varinha para apagar as lâmpadas com a exceção de uma ao lado da porta de entrada. "Beba a poção, Harry," ela disse logo antes de fechar a porta do seu escritório.
Ele engoliu a poção o mais rápido que conseguiu, fazendo careta com o gosto. Quando ele colocou o cálice novamente na mesa, ele percebeu o Aurascópio. A Madame Pomfrey tinha pedido que examinasse o Draco com ele, e ele ainda não tinha o feito, tendo-se envolvido na carta do Draco e nos seus próprios pensamentos e emoções tumultuosos. Mas agora uma nova onda de energia correu pelo seu corpo enquanto a poção fazia efeito, e ele se lembrou que também estava ali como um Médibruxo, e que ele deveria estar fazendo todo o possível para ajudar a Madame Pomfrey a encontrar uma maneira de curar o Draco.
Ele se levantou e apanhou o Aurascópio. Ele esteve trabalhando com esse instrumento por dois meses, estudando os padrões elaborados de cores na aura mágica, mas apenas em teoria, combinando-o com simulações mágicas, e nunca com um paciente real. Auras mágicas, geralmente invisíveis ao olho nu, eram emanações de energia mágica que rodeavam o corpo de um bruxo. Tendo em vista que os padrões de cores na aura de um bruxo refletiam não apenas sua personalidade e aptidões, incluindo o poder de sua magia, como também o estado de sua saúde física, mental e emocional, o diagnóstico de problemas médicos complicados era geralmente facilitado pelo exame da aura.
Mas seus estudos não tinham preparado o Harry para o horror que encontrou seus olhos quando ele observou o Draco através do Aurascópio. O choque quase fez com que largasse o instrumento e ele encarou nervosamente, por um longo momento, o outro garoto com seus próprios olhos antes que conseguisse se fortalecer o suficiente para olhar pelo Aurascópio mais uma vez. Quando finalmente o fez, ele não estava nem um pouco menos chocado, mas dessa vez ele continuou olhando e tentou entender o que estava vendo.
Draco estava coberto por linhas de luzes verdes, a mesma luz verde brilhante da Maldição da Morte. Elas se enrolavam no corpo e na cabeça dele, cobrindo até mesmo seu rosto, e o prendiam como uma malha, como videiras, como uma rede sufocante, pronta para engasgar a magia dele e para apertar toda a vida do seu corpo. Aqui e ali, um pouco de azul-violeta era visível, que Harry instintivamente reconhecia como uma das cores verdadeiras da aura mágica do Draco, mas eram espaços borrados e foscos ao invés de vibrantes e brilhantes como deveriam ser.
Mas a coisa mais horrível de todas era o buraco escuro e profundo na aura, no centro do peito do Draco. Desse grande ferimento, vazavam rios de vermelho, não sangue, mas sim energia vital – energia que estava vagarosamente e constantemente vazando no ar, levando a vida do Draco junto com ela. Harry entendeu imediatamente por que a Madame Pomfrey tinha dito que o Draco ainda estava morrendo. Ele estava sumindo diante deles com o passar de cada minuto.
Harry estava prestes a abaixar o Aurascópio em desespero quando percebeu mais uma coisa que saía do lado esquerdo daquele terrível ferimento, do coração do Draco. Era uma corda fina, tênue e translúcida que se esticava do corpo do Draco e, quando Harry olhou mais de perto, viu-a pulsando gentilmente, como a batida de um coração. Um córrego de faíscas douradas corria pela corda, como pedras brilhantes deslizando por um fio, mas ao contrário da energia vermelha que estava vazando, essa energia estava entrando no Draco. Com a respiração presa em sua garganta, Harry seguiu a corda com o Aurascópio. . .e quase derrubou o instrumento pela segunda vez. A corda estava conectada com a sua pessoa! Em seu próprio coração! E as faíscas douradas pareciam se originar da sua própria aura mágica azul e verde brilhantes, antes de serem atraídas pela corda até o Draco.
Mas isso não era tudo. Porque o Harry tinha movido o foco do instrumento para longe do corpo do Draco, na direção do seu próprio corpo, e conseguia ver claramente os cantos exteriores da sua aura mágica. Esses cantos, que eram normalmente suaves, refletindo luz em esferas brilhantes e multicoloridas, como o arco-íris em uma bolha de sabão, agora estavam ásperos e desiguais de um lado, quase como se uma parte tivesse recentemente sido arrancada para fora. Harry se concentrou novamente no Draco, observando os cantos da aura mágica do outro garoto, mas viu com alarme que não existia canto exterior; havia apenas farrapos, como raios finos e iridescentes de luz mortiça que lutavam fracamente para se libertar do sufoco das linhas verdes. Era como se parte da aura do Draco tivesse quase sido rasgada no meio.
Harry se sentou com força na cadeira, chocado e pensando furiosamente. Auras rasgadas sempre indicavam um ferimento potencialmente fatal. Mas Harry não conhecia qualquer feitiço para reparar uma aura. Auras refletiam a energia e a saúde de um bruxo. E não era apenas a aura do Draco que tinha sido rasgada, mas a do Harry também.
Olhando através do Aurascópio novamente, Harry cuidadosamente observou os cantos da sua própria aura mágica, alcançando sua mão na direção de um dos pedaços mais ásperos. Ele tinha visto sua mão anteriormente através do instrumento, mas ele sempre se surpreendia ligeiramente ao vê-las brilhando azul e verde, com as pontas dos dedos turquesa, cada dedo rodeado por um halo de luz branca. Isso, a Madame Pomfrey tinha explicado, marcava-o como uma pessoa com talento nato para cura sem varinha, mais até do que sua nota do exame de classificação. Enquanto observava, ele viu, para seu grande alívio, que os espaços ásperos estavam vagarosamente se tornando mais suaves, reparando-se, provavelmente, ele percebeu, em razão da Poção de Revivificação.
Ele percebeu outra coisa nesse momento. As auras mágicas deles tinham evidentemente se unido antes do ataque, e devem ter sido separadas pela Maldição da Morte. Olhando para trás, Harry se lembrou que ele estivera consciente de que as auras mágicas deles estavam unidas durante a maioria do tempo em que estivera na clareira. Entretanto, agora que analisava, ele não entendia como tal junção poderia ter ocorrido. Ele tinha sentido as auras mágicas deles se unindo quando haviam dividido a cama, mas ele tinha acreditado ser apenas temporário em razão da proximidade entre eles e da magia que estava realizando, e mesmo assim tinha estranhado a natureza inexplicável do que estava ocorrendo. Mas agora, evidentemente a magia deles estava se unindo, independentemente da distância ou da prática de magia.
Repentinamente, várias coisas que o estiveram confundido começaram a fazer sentido – por que ele tinha conseguido lançar o feitiço calmante no Draco apesar de eles estarem a quilômetros de distância, por que ele tinha experimentado aquela sensação de rasgamento quando o Draco foi atingido pela Maldição da Morte, por que ele tinha se sentido tão cansado após o ataque. . . e uma percepção ainda mais chocante – por que ele tinha perdido a visão e sentido seu coração e respiração pararem. Com um sentimento agudo de renovado horror, Harry percebeu que ele, também, tinha possivelmente chegado muito perto da morte.
Olhando para trás, no momento em que a Maldição da Morte tinha sido lançada, Harry se lembrava, agora, que tinha visto uma chuva de raios verdes saindo da sua mão antes de ser tomado pela escuridão. Ele perdeu o fôlego quando a memória fez choques correrem pelo seu corpo. A maldição tinha o acertado também, através da sua conexão com o Draco. Ele levantou a mão esquerda e encarou o anel que estava usando. Draco disse que tinha colocado um avançado Feitiço Afasta-Maldições de Maldições no anel. Isso explicaria por que a Maldição Imperius teve tão pouco efeito e por que. . . o coração do Harry constringiu com o pensamento. . . por que o Draco tinha feito com que prometesse nunca retirá-lo. Harry sentiu um raio de culpa com isso, lembrando-se de que tinha duvidado das intenções do Draco por um momento na clareira. Mas talvez o anel tenha feito mais do que protegê-lo da Maldição Imperius. Talvez o poder da Maldição da Morte não tenha sido suficiente para matá-lo, não apenas por ter vindo de segunda-mão, através do Draco, mas também em razão de o anel ter drenado suficientemente o seu poder para salvar a vida do Harry.
Lembrando-se da sensação que teve durante aquele momento de escuridão, enquanto desesperadamente agarrava e segurava aquela preciosa conexão com o Draco que começava a escapar, Harry se sentiu preenchido por admiração e espanto. Será que essa conexão entre eles, considerando que Harry tinha sobrevivido e foi capaz de usar sua magia de cura naquele momento crítico, tinha salvado a vida do Draco? Ou seria porque eles compartilharam o poder da maldição que Draco tinha sobrevivido? Tudo parecia tão complexo – provavelmente, eles nunca saberiam da verdadeira resposta, mas Harry estava transbordando com gratidão por que seja lá o que tinha salvado a vida do Draco. E apesar de o Draco ter sobrevivido por pouco e sua recuperação ainda ser incerta, pelo menos isso tinha lhes dado um pouco de tempo, e uma chance.
Ele tinha que deixar a Madame Pomfrey saber disso. Talvez a conexão mágica entre eles, se restabelecida, pudesse ser usada de alguma forma para impedir que o Draco morresse. Harry esteve planejando em contar para ela, depois do feriado, sobre a junção das auras mágicas deles, e sobre as faíscas que via enquanto eles se tocavam, mas agora essas informações pareciam vitais.
Ao pensar nas faíscas, Harry alcançou e tocou a mão do Draco. Agora que as luzes estavam tão baixas, ele conseguia ver as pequenas faíscas douradas claramente enquanto seus dedos tocavam a pele do Draco – e ele perdeu o fôlego em surpresa. As faíscas estavam menores e desapareciam rapidamente, mas elas eram definitivamente muito similares com as pedras douradas que viu descendo pela corda do seu corpo até o do Draco. Essa corda fina era importante de alguma forma e ele não entendia o que poderia ser. . . e então, entendeu. Uma união mágica, coração a coração – só poderia ser a união da Ti'kira. Mas. . . ele tinha achado que ela tinha se perdido. Ele não conseguiu senti-la depois do ataque. . .
Ele fechou os olhos, concentrando-se, tentando agora sentir aquela conexão entre eles, uma conexão que antes conseguia sentir tão vividamente. . . e ainda não sentiu nada. Ou. . . não. . . talvez não nada, mas não era o mesmo. Ele sempre sentiu a ligação como um calor íntimo e secreto no seu coração, uma inundação de amor, da sua pessoa para o Draco e vice-versa, e como um juramento mágico solene que os unia naquele amor. Agora, ele não sentia nada em retorno. . . e. . ., meu Deus. . . é claro! A corrente de energia que tinha visto apenas estava fluindo em uma direção – dele para o Draco – porque o Draco estava inconsciente. Harry sentiu um profundo tremor de exaltação com isso. Tudo não estava perdido afinal de contas!
Harry se levantou, observando o rosto pálido e imóvel do Draco, seu coração batendo rápido e um caroço se formando em sua garganta. Essa era a conexão que tinha conseguido agarrar. Aquela que era tão preciosa para ele. A noite da dança voltou à sua memória em toda sua graça brilhante e adorável: o brilho no rosto e nos olhos do Draco, o toque das mãos do outro garoto nas suas, tão firmes e carinhosas enquanto eles criavam padrões de magia juntos, a revelação encantadora das faíscas que os rodearam em uma chuva de pequenas estrelas, e após, a alegria exultante de conhecer a profundidade do seu compromisso com o Draco, de saber que era recíproco. Essa conexão, esse compromisso, significava tudo para ele, e ele não largaria mão dessa conexão, nunca.
Ele retirou seus óculos e se inclinou para pressionar sua face lado a lado com a do Draco em um abraço cuidadoso e amoroso. "Eu não vou te deixar partir," ele sussurrou na orelha do Draco. "Eu te prometo isso. Mesmo se você. . ." Ele teve que parar e respirar profundamente antes que conseguisse dizer, e uma lágrima correu molhada pela bochecha do Draco. "Mesmo se você morrer, Draco, mesmo assim," ele continuou, "eu não vou te deixar partir. Eu te prometi. . . para sempre." Ele tocou seus lábios na lateral do rosto do Draco no mais leve dos beijos, e então se levantou o suficiente para encarar o Draco, e outra lágrima caiu como um pingo de chuva quente no rosto do outro garoto. "Eu vou manter essa promessa," Harry sussurrou. Ele se levantou novamente, seus dedos levemente limpando as lágrimas do rosto do Draco, sabendo que apesar de querer manter essa promessa, ele faria todo o possível para ajudar a Madame Pomfrey e se certificar de que a promessa fosse mantida com o Draco vivo.
Para fazer isso, ele agora reconheceu, para ficar pronto para o momento, provavelmente muito próximo, quando a Poção de Revivificação perdesse efeito e eles tivessem que lutar novamente pela vida do Draco, ele precisava descansar. Por um lado, ele se sentia muito melhor do que quando tinha se sentado ao lado do Draco pela primeira vez. A Poção de Revivificação tinha ajudado muito e ele não se sentia mais doente e cansado. Ele tinha certeza, com base nos seus sentimentos, que o dano à sua aura mágica tinha sido emendado, e sua força mágica estava rapidamente se recuperando. Mesmo assim, o peso emocional e físico do dia tinha lhe deixado exausto. Ele não conseguiria dormir – estava muito antenado e preocupado para isso, mas ele sabia que deveria seguir o exemplo da Madame Pomfrey e descansar agora, enquanto podia.
Ele deixou seus óculos na mesa de cabeceira do Draco – ele não precisava deles para cruzar o quarto escuro e colocar os pijamas que a Madame Pomfrey tinha separado para ele. Ele não precisava deles para subir na cama na frente da do Draco e se deitar com os olhos fechados e com os braços cruzados em cima do peito, pensando. Ele sabia que não conseguiria dormir, mas percebeu que não conseguia sequer descansar. Sua respiração e a batida do seu coração soavam alto demais em seus ouvidos enquanto ele se esforçava para escutar qualquer som, qualquer pequeno aviso de que a condição do Draco estivesse mudando. As memórias dos eventos na clareira de Chave de Portal correram pela sua mente e se repetiam de forma perturbadora por trás de suas pálpebras.
Mas o pior de tudo é que ele se sentia sozinho. E pior, Draco estava sozinho. O medo da solidão era algo que eles compartilhavam e entendiam um no outro, e a memória do Draco, sozinho e deserto, abandonado para morrer na neve da clareira o tinha angustiado profundamente, não o deixando descansar. E se o Draco morresse agora, sem qualquer aviso? Harry tinha visto aquela energia vital vazando – e se o Draco simplesmente escorregasse cada vez mais longe deles até que silenciosamente escorregasse completamente para o outro lado? O pensamento era mais do que Harry conseguia suportar. Ele não podia deixar o Draco morrer sozinho. E ele não podia deixar o Draco morrer e nunca mais ter a chance de segurá-lo em seus braços mais uma vez. A consideração do que a Madame Pomfrey poderia pensar disso cruzou a sua mente com a mesma substância do que uma breve sombra, e ele levantou-se.
O chão estava frio nos seus pés descalços enquanto ele ia nas pontas dos pés ao outro lado do quarto, até a cama do Draco, fechando as cortinas da sua cama atrás de si. Andando silenciosamente até a beira da cama, Harry entrou embaixo das cobertas e deitou ao lado do Draco. Muito cuidadosamente, muito vagarosamente, ele colocou um braço embaixo dos ombros do Draco e se ajeitou até estar deitado de lado com seus braços ao redor do Draco. Gradualmente, ele soltou a tensão em seu corpo, deixando sua cabeça descansar mais confortavelmente no travesseiro, fechou os olhos e soltou a respiração que estivera inconscientemente segurando.
Pela primeira vez na recordação do Harry, o Draco estava frio nos seus braços. O garoto cujas mãos, pés, toque e beijos haviam sempre sido tão quentes, agora precisava do calor do Harry, e ele estava mais que contente em disponibilizá-lo. Recordando-se, com uma dor de saudade, da primeira noite que haviam dormido juntos e como o Draco tinha deixado o Harry esquentar seus pés frios para ele, Harry fez o mesmo agora, pressionando seus pés contra os do Draco, torcendo para que o calor que tinha a oferecer fosse suficiente. Ele se aproximou um pouco, puxando o Draco o mais gentilmente possível contra o seu corpo, para abraçá-lo, talvez pela última vez, e tentou relaxar.
Era difícil não sofrer com a ausência dos braços que não vieram ao seu redor em retorno, difícil não ter saudades desesperadas da maneira como o Draco respondia com beijos e sorrisos. O coração do Harry ainda estava batendo rápido e ele se concentrou em diminuí-lo, e em regular sua respiração por um momento, tentando acalmar-se. Ele concentrou sua atenção naquela outra batida, assegurando-se que ainda conseguia senti-la, pulsando tão perto, como um eco fraco e baixo do seu próprio coração. Com sua atenção em seu coração e sua respiração, foi fácil e natural para ele cair no ritual de concentração da sua magia de cura, o qual tinha praticado tantas vezes que, sozinho, tinha virado uma fonte de refúgio e conforto. Era muito reconfortante deixar sua atenção descansar naquele centro calmo do seu ser e permitir que as sensibilidades aguçadas que experimentava retirassem sua mente de pensamentos perturbantes.
Deitando muito imóvel, Harry primeiramente ficou consciente de quão quieto o quarto estava. Ele conseguia ouvir apenas o murmúrio longe e intermitente do vento do lado de fora da janela, do outro lado do quarto, e o som fraco, quase inaudível, da respiração suave do Draco. O silêncio parecia envolver a ele e o Draco, embrulhando-os juntos como se em um ninho protetor. Sua consciência se alterou então para incluir as energias invisíveis vibrando ao seu redor – a energia potente e contida da Poção de Revivificação no cálice em cima da mesa, e a presença sutil das barreiras mágicas que a Madame Pomfrey havia colocado ao redor do quarto para proteção, incluindo o Feitiço de Convocação que ela havia colocado no Draco.
Deixando o ritual levá-lo mais ao fundo, Harry virou sua consciência para o interior, no centro de sua magia, e sentiu o poder dela gentilmente vibrando dentro de si, pulsando logo abaixo do seu coração, abrindo diante do toque mental de sua consciência. Ele liberou esse poder e sentiu a magia correr pelo seu corpo, ao topo de sua cabeça, para fora de suas mãos, e, para sua surpresa, até seus pés. Isso o deixou forte e inteiro novamente, e mesmo assim. . . ele se viu, por meio segundo, esperando ansiosamente pela resposta da magia do Draco, uma resposta com a qual já havia se acostumado tanto que parecia uma parte integral da sua própria mágica agora. Ele quase segurou sua respiração, querendo tanto escutar o zumbido baixo e musical que sempre significava a união da magia deles, querendo sentir a forma íntima como eles pareciam derreter um ao outro, em um único ser. Mas não houve qualquer resposta e Harry sentiu sua falta significantemente.
Com crescente angústia, Harry percebeu o que havia inconscientemente feito, ficado na beira de lançar magia de cura, sem que houvesse qualquer coisa que pudesse fazer. Ele havia aprendido tantos feitiços de cura, alguns deles bastante complicados, mas todos diziam respeito a injúrias ou doenças muito específicas. Ele não conseguia pensar em nada que pudesse ajudar o caso do Draco. . . e além do que, a Madame Pomfrey tinha usado todo feitiço possível. Ela tinha listado a ele todos os feitiços que havia usado, sem que qualquer um deles funcionasse. Ele pensou no feitiço calmante que tinha lançado no Draco, o que o Draco amava tanto, e ponderou se ele poderia ajudar o Draco de alguma forma. O Draco parecia inconsciente e ausente, mas ele ainda poderia estar ali em algum nível, estar com dor ou assustado. Se esse feitiço pudesse alcançá-lo, Harry pensou, poderia ajudá-lo a se acalmar.
Então Harry se lembrou da onda de amor que havia sido retornado pelo Draco toda vez que ele havia lançado o feitiço calmante,e repentinamente soube que mesmo se não houvesse nada a fazer para curar o Draco, ele poderia fazer isso. A união da Ti'kira ainda estava intacta entre eles, pelo menos de um lado, e se houvesse uma parte do Draco consciente, Harry queria que ele soubesse que não estava sozinho, e que era amado. Harry poderia pelo menos tentar isso.
Colocando sua mão gentilmente embaixo da camisa do Draco, Harry deixou sua mão descansar em cima do coração do outro garoto, seu braço deitado leve e calorosamente no peito e estômago nus do Draco. Com seu corpo pressionado em toda a lateral do corpo do Draco, ele segurou os pés do Draco entre os seus, escondeu seu rosto na lateral da face do Draco, e sussurrou as palavras do feitiço calmante, deixando a magia de cura fluir do seu corpo até o do outro garoto. Então, procurando dentro de si, ele encontrou a união da Ti'kira e visualizou todo o amor que sentia pelo Draco correndo por aquela fina corda entre eles como um rio de faíscas douradas.
"Draco," ele disse com a voz baixa, abraçando o Draco o mais apertadamente que teve coragem, "você me fez prometer que independentemente do que acontecesse, eu sempre me lembraria que você me amava. Por favor. . . me escute agora. Você não está sozinho. Independentemente do que você tenha feito, independentemente do que aconteça. . . eu continuarei te amando." Ele pausou para respirar fundo. "Eu sempre te amarei," ele sussurrou, enviando esse pensamento, essa emoção, o mais forte quanto pôde, desejando que Draco pudesse escutá-lo. . . desejando que o Draco conseguisse sentir o seu amor e a paz calmante do feitiço.
Harry preencheu sua mente com a memória do amor deles, com a memória da paz profunda, fixa e ainda além da sua compreensão, que tinha unido os dois e que havia ressonado em ondas entre eles das últimas vezes em que lançara o feitiço, e então. . . alguma coisa mudou. Em seu estado de elevada sensibilidade, a consciência do Harry incluía todos os movimentos sutis de energia ao seu redor, e ele agora sentia o levíssimo toque de algo contra os cantos de sua aura mágica. Seu coração pulou em exaltação quando ele reconheceu aquele toque como a primeira pincelada leve da mágica do Draco respondendo à sua. Ah meu Deus. Teria o feitiço calmante realmente o atingido? Harry quase queria soluçar em alívio.
Se aquela magia sem varinha tinha alcançado o Draco quando todo o resto tinha falhado, então. . . talvez houvesse algo que o Harry pudesse fazer! Todas as outras vezes ele tinha usado um feitiço para direcionar a magia – para curar coisas específicas – e ele não conhecia nenhum feitiço para curar o Draco agora. . . mas repentinamente ele se lembrou do que tinha acontecido com a bola de neve. Draco tinha mencionado que ele havia transfigurado a bola de neve sem usar um feitiço, apenas com o pensamento. Será que ele conseguiria fazer isso agora? Conseguiria ele enviar a magia de cura para dentro do Draco sem a direção de um feitiço, mas apenas com o pensamento ou o desejo para guiá-la?
Esperança brotou em seu coração com essa ideia. A Madame Pomfrey tinha tentado todo o resto. Harry não hesitou. Talvez essa fosse a única esperança que eles tinham, e ele tentaria de tudo para salvar o Draco. Ele se sentia forte agora, energizado com essa nova esperança, enquanto ele guiava sua concentração no centro da sua magia e no Draco.
Imergindo-se na magia, Harry conseguiu sentir o problema que prendia o Draco – conseguia sentir as linhas de força emaranhadas e sufocantes que o mantinham prisioneiro e o ferimento aberto terrível pelo qual sua vida escapava. Harry colocou uma mão em cima da ferida, e com todo o amor em seu coração, enviou o poder de sua magia para dentro do Draco; ele visualizou, com toda a sua força de vontade, o ferimento curado, a magia do Draco emendada e inteira, imaginou com seu desejo a aura azul-violeta se restaurando e brilhando, fazendo com que a luz verde sufocante falhasse e sumisse. Ele segurou essa imagem em sua mente e a projetou pela magia com todo seu poder. . . e sentiu o vento agitado e emocionante que significa a magia do Draco respondendo.
E o que o Harry desejou se tornou realidade. Entre um momento e o próximo, o ferimento estava curado. A prisão de luz verde havia sumido.
A magia do Harry se uniu com a do Draco e por um momento vertiginoso eles eram um só ser. Conexões que haviam sido cortadas se curaram e os uniram novamente, de forma que não havia mais qualquer barreira entre eles; eles estavam bem e inteiros juntos. Harry sentiu aquela vibração musical maravilhosa rodeá-los, unindo-os; ele sentiu a batida do coração do Draco, sincronizada com a sua, como ritmo e contraponto, forte mais uma vez.
"Draco?" ele sussurrou hesitantemente, e então segurou a respiração quando uma sensação de calor, íntima, amorosa e tão bem-vinda, preencheu seu coração, e o garoto nos seus braços se moveu ligeiramente e suspirou. "Draco?" ele chamou suavemente, mas de forma urgente, enquanto lágrimas de alívio corriam pelo seu rosto. "Draco!"
…
…
O som de passos soou na floresta, leve e sutil, meramente um farfalhar das folhas, mas definitivamente se aproximando. Draco estremeceu e se contorceu contra as videiras que o prendiam. Ele sabia o que isso significava agora; ele se lembrava dessa parte também. Arquejando, ele não tinha fôlego para gritar, mas a dor era mais do que conseguia suportar a esse ponto. . . e os passos o ameaçavam com mais. Um som fútil, um mero gemido, subiu em sua garganta quando o unicórnio apareceu na clareira.
Assim como antes, o unicórnio caminhou delicadamente pelas árvores; seu corpo branco manchado com as sombras das folhas, sua crina longa e pálida caindo como seda esfarrapada até os seus pés. O unicórnio ficou parado por um momento, seus olhos, assombrosamente verdes e luminosos, encaravam o Draco enquanto as gotas d'água caíam no rosto do garoto.
Por que você deveria viver? ele perguntou.
Draco estremeceu com a pergunta, pois sabia que não existia resposta que pudesse dar. Ele havia traído seu pai, abandonado sua mãe e enganado seus amigos. Ele merecia essa dor, essa isolação. E talvez o unicórnio estivesse certo. . . talvez ele não merecesse viver. E mesmo assim. . . como poderia ele dizer as palavras, Não há motivo para que eu viva, e render todas suas resistências a esse julgamento perverso? Ele já estava fisicamente impedido de preveni-lo, mas dizer aquelas palavras iria condená-lo a aceitar a derrota também em sua alma. Como poderia ele responder uma pergunta que lhe exigia isso?
O unicórnio deu um passo à frente. Por que você deveria viver? ele perguntou novamente, insistente, e a floresta ecoou com a palavra. Por quê?
Draco fechou os olhos, mas ele percebeu quando a cabeça do unicórnio se abaixou, sentiu a proximidade perigosa do chifre de marfim enquanto ele cortava o ar que sussurrava seu próprio eco em sua orelha.
Por quê?
Ele deixou a pergunta continuar sem resposta. Como poderia ele deixar seu coração se submeter a essa cruel retribuição e permitir que a besta o perfurasse continuadamente, até arrancar o último pedaço de sua vida. . . quando isso era tudo que lhe restava?
Pense no porquê!Disse a voz do unicórnio, cortante como uma lâmina de marfim em sua mente. Pense!
Draco tentou pensar, mas ele não entendia esse novo comando. Ele estava com muita dor; ela queimava sua mente e seu coração, reduzindo-os a cinzas, deixando-o vazio com seu fogo ardente, e não existia esperança de alívio. Ele não precisava pensar no porquê. Essa dor era o que ele merecia. Ela o segurava e ele se agarrava nela com força, pois ainda era sua própria vida. . . mas. . . meu Deus, ele não sabia se agüentaria muito tempo.
Ele sentiu o arder gelado do chifre de marfim em sua garganta. Ele descansava contra sua pele como uma chama de gelo, pronto, mortal, ameaçando a possibilidade de dor além da compreensão, esperando sua resposta. A pergunta ziguezagueou pela sua mente, distorcida agora pelo tormento incessante de dor. Por que ele deveria viver? Talvez ele não tivesse entendido. Talvez não houvesse qualquer censura na pergunta, mas sim a proposta de libertação. Se ele dissesse as palavras, se ele soltasse. . . Por que ele deveria viver, preso e sofrendo, quando o unicórnio poderia libertá-lo? Uma memória distante veio à sua mente, de que um dia ele havia desejado paz, mais do que sua própria vida. . .
Paz.
A palavra correu como uma névoa fria pela mente torturada do Draco. Como um suspiro suave, paz inesperadamente preencheu o seu coração, diminuindo a dor com seu toque delicadamente calmante. Ela correu pelo seu corpo gentil e vagarosamente, uma carícia líquida que fluía do centro do seu coração e que fez com que todas as pontas afiadas de dor derretessem. Draco a respirou fundo, bebeu-a em seus ossos, afogou-se na sua profundidade e deixou que ela limpasse até mesmo a memória de dor. E quando esse sentimento maravilhoso de paz o preencheu por completo, outro sentimento começou a aparecer no seu coração.
Quente e profundamente confortante, íntimo e muitíssimo querido, esse novo sentimento era algo pelo qual ansiava ainda mais do que a abençoada paz que agora o preenchia. Ele não estava sozinho; ele não estava ignorado e abandonado. Ele era amado.
Draco perdeu o fôlego quando esse conhecimento se fez presente. Amor. A palavra flutuou, criou forma, e atraiu outra palavra em sua mente, um nome. Harry.
"Harry," Draco sussurrou, lembrando-se de neve, vôo e palavras gentis ditas em voz alta no ar de um céu gloriosamente pintado. Ele se lembrou de sorrisos e beijos e toques quentes e sensuais, bem como de mãos gentis que haviam criado um juramento solene no seu coração durante uma dança mágica sob a luz do luar.
Por que você deveria viver? exigiu novamente o unicórnio, e o chifre deslizou para baixo, sua ponta afiada criando um ponto de ardência gelada no peito do Draco.
A pergunta rodeou e se transformou na mente do Draco, evoluindo para criar outro sentido. Por que você deveria viver?
"Porque eu amo alguém," ele disse suavemente, surpreso, enquanto o conhecimento o preenchia com exultação. "E. . . porque eu sou amado." Ele abriu os olhos e viu os olhos verdes brilhantes do unicórnio observando-o com compaixão.
Então viva, ele disse, e com essas palavras, o unicórnio enfiou o chifre no grande ferimento no peito do Draco.
Draco ficou imóvel em alarme, mas não houve mais dor. Ao contrário, um sentimento maravilhoso de leveza se apoderou dele. As videiras ao redor dos seus braços e pernas afrouxaram e caíram. Ele olhou para baixo e viu que a ferida estava curada, apenas com uma pequena cicatriz para mostrar onde uma vez estivera. Draco levantou o olhar e encontrou os olhos verdes líquidos do unicórnio com curiosidade. . .
"Draco?" A voz veio de todos os lados, ecoando fracamente.
Com um suspiro, Draco segurou o rosto do unicórnio com as suas mãos, encostando seu rosto nos pêlos quentes, e fechou os olhos. Era tão gostoso poder tocar e se mexer novamente. "Obrigado," ele sussurrou.
"Draco?" A voz veio novamente, chamando com urgência. "Draco! Acorde, amor. Por favor."
Draco abriu os olhos. Olhos verdes, cheios de amor e brilhando com lágrimas, encaravam-no.
Fim do Capítulo 17
