Notas: Desculpem-me pela demora na atualização! Mas como decidi postar o último capítulo e o epílogo conjuntamente, foram mais de 32.000 palavras e 51 páginas no Words apenas com essa atualização. Quero agradecer muitíssimo a todos que comentaram os últimos capítulos! Vocês são, como sempre, muito valorizados! Agora chegamos ao fim, e que jornada! Espero que o final agrade a todos, e, por favor, façam um último comentário me dizendo o que vocês acharam da história em geral, da tradução, e etc.

Além disso, gostaria de saber qual tipo de projeto vocês gostariam que eu traduzisse a seguir. Gosto muito de fics românticas do gênero Harry Potter e Naruto, o que vocês acham? De qualquer forma, boa leitura, e obrigada por todo o apoio durante esses anos de tradução! Demorou um pouco mais do que eu queria, mas eu prometi que um dia eu terminava xD Os comentários de vocês na minha caixa de e-mail foram o incentivo para todas as atualizações! Obrigada!

PS: caso encontrem erros gramaticais, de concordância, etc., peço desculpas desde já! Os 10 últimos capítulos foram escritos sem beta, e eu mesma apenas passo o olho corrigindo eventuais erros. Mas eu estava tão ansiosa para postar tudo hoje que só dei uma checada rápida! ^^'

CHECKMATE

PARTE III – FIM DO JOGO

Capítulo 18

You and I
We've seen it all
Chasing our hearts' desire
But we go on pretending
Stories like ours
Have happy endings

Você e eu

Nós já vimos de tudo

Correndo atrás dos desejos dos nossos corações

Mas nós continuamos fingindo que

Histórias como a nossa

Têm finais felizes

Letras de "You and I" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus

Harry sentiu a repentina volta da conexão Ti'kira como uma corrente de calor emocional que despejou em seu coração e correu para o resto do seu corpo em ondas de tremores que se prolongavam até as pontas dos seus dedos. Era uma onda de calor, amor e conforto tão familiar, adorada e essencial a ele agora, que fez sua respiração falhar enquanto levava para longe todos os seus medos, preenchendo toda a solidão vazia que havia sentido em sua ausência. Por um brevíssimo segundo, ele visualizou o que enxergaria caso estivesse usando o Aurascópio, e soube com toda certeza que a corda translúcida que o unia ao Draco era agora uma conexão de ida e volta, com pedrinhas brilhantes douradas correndo do seu corpo ao do Draco, e uma segunda corrente de pedrinhas cristais brancas, como pequenos prismas parecidos com diamantes, fluindo do corpo do Draco até o seu. Ele não conseguiu evitar um sentimento de alegria, mesmo enquanto tentava impedir as lágrimas de absoluto alívio de caírem quando o Draco se moveu e suspirou. Harry se levantou em um cotovelo para observar atentamente o rosto do Draco, esperando, desejando, mal conseguindo respirar.

E então o Draco abriu os olhos.

"Harry?" A pergunta do Draco não era nada mais do que um sussurro rouco, quase inaudível, mas estava repleto de curiosidade e confusão. "Onde. . .?"

Por um momento, tudo que Harry conseguiu fazer era simplesmente encarar, mudo, com seu lábio inferior preso entre os dentes, aqueles olhos cinza tão amados. Um arrepio profundo correu por ele diante da visão daqueles olhos, pois tinha quase se desesperado em face da possibilidade de nunca mais vê-los.

"Nós estamos na Ala Hospitalar," Harry disse, finalmente, sua voz rouca com emoção. "Você estava. . . machucado." Ele se lembrou que a Madame Pomfrey tinha separado uma dose da Poção de Revivificação para o caso de o Draco voltar à consciência, e sentou-se. "Vem cá," ele disse gentilmente. "Tente se sentar um pouco. Há uma poção que você precisa beber."

Draco fez uma careta de dor quando tentou se mover, então Harry colocou um braço atrás dos ombros do Draco e devagar e cuidadosamente o ajudou a se sentar, ajustando os travesseiros para que conseguisse se apoiar neles, com o Draco entre suas pernas, encostado no seu peito.

Repentinamente, Draco arfou com força enquanto sua memória voltava. "Meu pai. . .?" ele perguntou em alarme.

"Os Aurores pegaram ele," Harry disse, segurando o Draco apertadamente no círculo dos seus braços. "Você está a salvo."

Draco fechou os olhos por um segundo, obviamente aliviado, e então levantou o olhar para o Harry, um pouco assustado novamente, seus olhos cinza preenchidos com choque e realização enquanto as memórias voltavam. Uma mão trêmula segurou fracamente o braço do Harry. "Como eu. . .?" ele sussurrou.

Encontrando os olhos do Draco com os seus, Harry pensou por onde começar. Havia tantas coisas que nem ele entendia, e olhando dentro dos olhos do Draco, ele sentiu em sua consciência todas as conexões que haviam sido cortadas voltarem, quase esmagadoras em sua intensidade. Ele sentiu as auras mágicas deles voltarem a se unir, bem como a conexão da Ti'kira, ambos tão maravilhosamente bem-vindos, mas nesse momento, também assustadores. A perda dessas conexões e as suas posteriores restaurações eram uma revelação muito vívida do contraste entre sua vida antes do Draco e tudo que havia ganhado. . . e quase perdido.

Harry repentinamente se sentiu dominado pela magnitude de tudo que havia acontecido. Abruptamente, seus braços foram ao redor do pescoço do Draco, como um reflexo a um impulso do qual mal estivera consciente, e ele pressionou seu rosto na lateral da face do Draco. "Nós quase te perdemos," ele sussurrou, agonizado, no cabelo do Draco. Uma pontada de acusação, que Harry queria que tivesse ficado escondida, foi revelada na frase, exposta pelo tom de suas palavras para pendurar suspendida no ar entre eles.

"Sinto muito," Draco disse, um som cru como lágrimas em sua voz.

Harry ouviu o tremor na voz do Draco e se sentou, piscando, sentindo muito também, seu coração muito cheio de emoções conflituosas e seus pensamentos muito confusos com coisas que precisavam ser ditas, mas que tinham que esperar. Ele se refugiou na lembrança do que deveria estar fazendo. Ele alcançou por cima do Draco para pegar o cálice de Poção de Revivificação que a Madame Pomfrey tinha preenchido anteriormente. "Você precisa beber isso," ele disse, forçando uma neutralidade calma no seu tom. "O gosto é terrível, mas ajuda bastante".

Com um braço ainda ao redor do Draco, Harry segurou o cálice, inclinando-o o suficiente para que o Draco conseguisse beber vagarosamente. As sobrancelhas do Draco desceram em um franzido diante do gosto, mas ele não reclamou.

Entretanto, Draco conseguiu beber apenas metade da dose antes de as cortinas serem rapidamente afastadas e a Madame Pomfrey aparecer. "Ele está. . .?" ela começou, e então parou no meio da sentença em surpresa, chocada não apenas em ver seu paciente acordado e sentado, mas também ao ver o Harry na cama com ele. "Harry!" ela exclamou com um sussurro alto. "O que você. . .?"

"Eu. . . eu tive que ajudá-lo a se sentar," Harry gaguejou, pensando furiosamente e corando, igualmente chocado em ser descoberto na cama do Draco com seu braço ao redor do outro garoto. Ele tinha se esquecido completamente da Madame Pomfrey e do Feitiço de Convocação dela. "Ele acordou um minuto atrás," ele explicou rapidamente, "e. . . ele não conseguiu se sentar sozinho. . . para beber a Poção de Revivificação." Então Harry viu que o Draco estava lhe observando de lado, por baixo de seus cílios; viu a pequena indicação de um sorriso divertido em um canto da sua boca, e seu coração ficou repentinamente tão leve que ele teve que suprimir um desejo de sorrir.

Ele retirou seu braço debaixo do Draco e se moveu para permitir que o loiro se inclinasse no travesseiro. "Eu acho que ele está bem agora," ele disse esperançosamente, enquanto a Madame Pomfrey pressionava seus dedos preocupadamente no pulso do Draco e inclinava a cabeça dele para olhar seus olhos. "Não é?" ele perguntou, esperando atentamente a confirmação dela.

"Estou completamente perdida em como explicar, mas sim, ele parece estar bem," a Madame Pomfrey disse, o alívio na voz dela muito audível. "Mas eu acho que ele ficará muito fraco e precisará ficar de cama por alguns dias," ela adicionou, fixando o Draco com um olho rígido, porém gentil. "Eu preciso te dizer que você nos deu um baita susto, meu jovem."

"Sim senhora," Draco disse com um tom bastante suavizado, e ele olhou para baixo em penitência. "Sinto muito."

"Não peça desculpas," ela reprimiu gentilmente. "Apenas beba o resto daquela poção agora. Ela irá te ajudar a recuperar as forças. Todo o resto poderá ser resolvido amanhã." Ela mencionou para que Harry passasse o cálice com a poção para o Draco, mas Harry ainda teve que ajudá-lo a segurar o cálice enquanto bebia.

"Eu quero fazer um exame mais completo com o Aurascópio, mas acho que isso pode esperar até amanhã," a Madame Pomfrey disse para o Harry enquanto ele a entregava o cálice vazio. "E eu quero que você," ela disse para o Draco, "tente dormir um pouco agora."

Draco concordou e se virou para encarar o Harry, um apelo silencioso nos seus olhos.

"Se você acordar e precisar de qualquer coisa," a Madame Pomfrey continuou, "nós dois estaremos por perto para ajudar. Eu estarei no meu escritório e o Harry estará do outro lado do quarto."

"Não o faça ir," Draco disse suavemente, colocando uma mão no braço do Harry como se para segurá-lo ali. Ele olhou para a Madame Pomfrey. "Eu não quero dormir sozinho."

Harry se surpreendeu um pouco com a coragem do pedido, e também se virou na direção da Madame Pomfrey. "Eu posso colocá-lo para dormir," ele voluntariou, na esperança de evitar sua resposta.

A Madame Pomfrey hesitou um momento, olhando de um garoto para o outro, e então concordou, apesar de sua expressão ser de franca confusão. "Vá em frente e use o Feitiço Sopire Diuturnus, Harry. Eu quero que ele durma até o final da manhã, se possível." Ela observou enquanto o Harry gentilmente ajudava o Draco a se deitar e viu os olhos deles se conectarem com um olhar que ela não conseguiu compreender.

E quando Harry lançou o feitiço, havia uma ternura tão suave, sutil, e indescritível na maneira como ele tocou o Draco, que ela se viu inesperadamente sorrindo. Harry lançou o feitiço tão perfeitamente que ela não conseguiu deixar de se sentir orgulhosa, apesar de ele ter ultrapassado o protocolo apropriado ao ter subido na cama junto com o paciente.

"Muito bem feito, Harry," ela disse um momento após, quando o Draco já estava dormindo pacificamente. Então ela o analisou mais rigidamente. "E agora que ele está adormecido," ela disse, "eu acho que está na hora de você me dar uma explicação. Por favor, pode me dizer o que está acontecendo aqui?" Ela balançou a mão em um gesto que parecia incluir não apenas a melhora do Draco, mas também a posição atual do Harry na cama do paciente e a mão do Draco que descansava com uma intimidade possessiva no braço do Harry.

"Eu. . . bem, veja, nós. . ." Harry começou, sentindo sua face esquentar, sabendo que estava corando mais uma vez. Ele precisava dizer a verdade, mas agora que estava nessa situação, como ele conseguiria explicar? Ele olhou para o rosto adormecido do Draco e seu coração se contraiu com afeição e o pouco de medo remanescente. Há poucos momentos atrás ele estivera com medo de que aqueles olhos continuariam fechados para sempre. "Ele vai ficar bem, não vai?" ela perguntou.

"Com alguns dias de descanso, eu acredito que ele vai ficar perfeitamente bem. O pulso está normal e forte agora," a Madame Pomfrey disse, "apesar do fato de quando eu saí daqui da última vez, eu mal conseguia senti-lo." Ela o fixou com um olhar muito direto, apesar de confuso. "Eu não consigo acreditar que a recuperação dele aconteceu espontaneamente, especialmente considerando que nenhum dos feitiços que tentei funcionou. Apenas me diga o que aconteceu, Harry. O que você fez?"

Harry respirou profundamente. Essa pergunta mais específica ele conseguia responder. "Eu usei o método de cura sem varinha que você me ensinou," ele disse, "e eu. . .eu não planejei nada – apenas deu certo – e não foi realmente um feitiço. . . eu apenas pensei que talvez se ele estivesse consciente em algum nível, ele poderia estar sentindo dor ou estar assustado, e eu queria alcançá-lo de alguma maneira, para que ele soubesse que não estava sozinho, e que eu – " As palavras jorraram na pressa do Harry em explicar, até que ele se controlou logo antes de dizer: eu o amo. Ele pausou, procurando outra explicação. "- que. . . que nós estávamos tentando ajudá-lo," ele continuou após um segundo.

A Madame Pomfrey acenou a cabeça, não obstante a explicação não ter feito qualquer sentido para ela. "Continue," ela disse. "Apenas se acalme e me conte tudo do início."

"Tá bom," Harry disse, tentando organizar seus pensamentos. "Eu tinha examinado ele antes com o Aurascópio como você pediu," ele começou. Ele se arrepiou um pouco diante da memória vívida da rede sufocante de luzes verdes que haviam tomado conta do corpo do Draco, bem como do ferimento preto horrível na aura logo acima do peito dele.

"Então você viu o dano terrível que a Maldição da Morte tinha feito na aura mágica dele?"

"Sim," Harry disse. "Eu vi o porquê de você dizer que ele ainda estava morrendo."

"E então o que você fez?"

"Eu lancei o Feitiço Calmante que você me ensinou. E foi durante o lançamento do feitiço que eu o senti respondendo um pouco."

"Você o sentiu responder?" a Madame Pomfrey perguntou, chocada. "Como?"

Harry fechou os olhos, tentando se lembrar exatamente do que havia acontecido a seguir, procurando as melhores palavras para explicar. Muito rapidamente, ele percebeu que não conseguiria explicar tudo sem contar a ela sobre seu relacionamento com o Draco e a maneira como as auras mágicas deles haviam se unido. "Eu acho que devo explicar que o Draco e eu estivemos. . . saindo juntos," ele disse vagarosamente. "Poucas pessoas sabem – não faz muito tempo."

"Saindo juntos?" a Madame Pomfrey repetiu, não entendendo imediatamente. "Você quer dizer. . . romanticamente?" ela perguntou, seus olhos se arregalando primeiramente em surpresa e depois em compreensão repentina, enquanto algumas das peças confusas começaram a fazer sentido.

"Sim," Harry disse. "Eu estava planejando em falar com você sobre isso de qualquer forma, depois do feriado," ele continuou, "porque tem mais uma coisa acontecendo entre nós. . . com nossas auras mágicas. . . que nós não entendemos. Eu consigo ver nossas auras se unindo, e eu consigo senti-lo pela conexão."

A Madame Pomfrey se sentou na cadeira ao lado da cama e observou o Harry com interesse. "E você acha que essa. . . conexão. . . está envolvida na cura do Sr. Malfoy?" ela perguntou.

"Eu não sei se há outra explicação," Harry disse. "Mas tem mais," ele adicionou antes de hesitar, seu rosto corando em face do que teria que contar. "Eu descobri há alguns dias atrás que eu consigo fazer mágica sem varinha com outros tipos de magia, além da cura," ele disse, envergonhado, com a voz baixa, "e sem a utilização de um feitiço."

"Essa é uma descoberta muito significativa," a Madame Pomfrey disse vagarosamente, mas imaginando se o Harry realmente sabia o quão incrivelmente significativa essa descoberta era.

Harry concordou, grato pela resposta calma dela. "Então, quando eu senti o Draco respondendo ao Feitiço Calmante," ele continuou, "eu pensei que talvez ele tivesse funcionado por ser magia sem varinha. Eu sabia que os feitiços típicos que você tinha lançado antes não tinham funcionado. Eu também sabia que não conhecia qualquer feitiço sem varinha que pudesse ajudar, já que são todos tão específicos. Mas eu estava desesperado para fazer alguma coisa, e quando me lembrei que tinha conseguido fazer magia de transfiguração com apenas meu pensamento e não um feitiço, eu apenas reagi. Com todas as minhas forças, eu o imaginei com todas aquelas luzes verdes desaparecendo e com o ferimento curado. Eu o imaginei se recuperando na minha mente e utilizei essa visualização para direcionar a magia sem varinha." Ele pausou por um segundo. "E funcionou," ele disse simplesmente.

"E foi algo extremamente perigoso de se fazer, Harry!" a Madame Pomfrey exclamou. "Tentar algo nunca testado, sem ninguém por perto para te apoiar caso você encontrasse problemas."

Harry desviou o olhar, magoado com a briga repentina dela, e seus olhos foram repousar no Draco, agora relaxado durante o sono. Um pouco de cor já havia retornado ao rosto dele, mas sombras azuis ainda remanesciam embaixo dos seus olhos. "Eu tinha que tentar," Harry disse muito suavemente, lutando contra as lágrimas que mais uma vez se acumulavam em razão da sobrecarga de emoções que sentia. "Não importava o risco." Ele olhou novamente para ela, fungando de forma nada heróica. "Eu. . . eu não podia deixar ele morrer."

A expressão da Madame Pomfrey suavizou consideravelmente. "Não, é claro que você não poderia deixar ele morrer," ela disse. "Mas apenas estou agradecendo todas as divindades no momento pelas suas ações terem dado certo, e por nós não termos perdido vocês dois. Se as auras de vocês estão conectadas, você poderia facilmente ter sido arrastado sob a influência do mesmo feitiço."

Ela viu o Harry balançar a cabeça e impacientemente enxugar os olhos com a manga da sua camisa.

"Harry," a Madame Pomfrey disse gentilmente, "você fez algo incrível e maravilhoso, e sem dúvidas você salvou a vida do Sr. Malfoy nessa noite. Mas, por favor, prometa que não será tão descuidado com a sua própria segurança novamente."

Harry fungou mais uma vez e engoliu o caroço em sua garganta. "Eu prometo," ele disse. O estouro repentino de energia providenciado pela sua exultação diante da recuperação do Draco estava se acalmando. Ele estava se sentindo extenuado; todas as subidas e descidas emocionais do dia, bem como o consumo de sua magia em curar o Draco, haviam cansado-o, e foi isso, ele sabia, mais do que a briga da Madame Pomfrey, que trouxeram as lágrimas de volta. E o feitiço de sono que ele havia lançado no Draco estava provavelmente lhe afetando também, porque ele estava começando a se sentir grogue.

Mas agora que ele havia contado à Madame Pomfrey sobre as auras deles, ele estava muito curioso em saber o que aquilo significava. "Eu nunca ouvi falar em auras se unindo," ele disse. "O que poderia causar isso?"

A Madame Pomfrey balançou a cabeça com um pequeno sorriso, levantando-se, e despejou o resto da Poção de Revivificação no cálice do Harry, passando-o para ele. "Harry, você parece exausto," ela disse. "Eu acho que você deve tomar isso. Eu posso fazer outra dose durante a manhã para o Sr. Malfoy." Ela ignorou a careta dele e esperou enquanto ele bebia. "Eu apenas consigo pensar em uma razão," ela continuou, em resposta à pergunta dele, "apenas um tipo de circunstância, se pudermos assim chamar, em que auras mágicas podem se unir. Mas é realmente, bem. . . muito raro, e eu preferiria consultar o Professor Dumbledore amanhã antes de nos apressarmos com certas conclusões. Ele é a melhor opção para confirmar ou não a minha teoria." Então ela olhou para o Harry com curiosidade. "Por acaso ele sabe sobre você e o Sr. Malfoy. . .?"

"Sim, tenho quase certeza que ele sabe," Harry disse, lutando contra um bocejo. Ele se sentiu muito melhor agora que a poção fez efeito, e com muito mais sono.

"Então amanhã nós resolveremos tudo," ela disse. "Eu acho que você já passou por coisas suficientes por um dia. Uma boa noite de sono é o que você mais precisa."

"Sim senhora," Harry disse, desejando justamente isso, agora que estava seguro de que o Draco ficaria bem. Ele se ajustou na cama, preparando-se para dormir ao lado do Draco.

"Harry!" a Madame Pomfrey exclamou. "Você não pode dormir com ele!"

Olhando para baixo, na direção da mão do Draco ainda descansando no seu braço, Harry decidiu ser assertivo. "Eu quero," ele disse, "se possível. . .e você viu, ele pediu que eu ficasse aqui." Ele voltou os olhos à Madame Pomfrey. "A verdade é que," ele disse, corando levemente, "eu já lancei o feitiço de adormecer nele anteriormente nas ocasiões em que dormimos juntos porque ele tem problemas para dormir. E eu estava. . . bem. . . deitado aqui com a intenção de dormir com ele essa noite quando eu acabei lançando a magia de cura. . . porque eu estava com medo de ficar tão longe."

Ela o observou rigidamente. "Eu não quero nem saber onde vocês conseguiram dormir juntos," ela disse, "mas eu tenho certeza que o Professor Snape e a Professora McGonagall não teriam aprovado se tivessem conhecimento. E esta é uma Ala Hospitalar. É altamente inadequado. . ."

Harry encontrou o olhar estrito dela com firmeza, colocando toda quantidade de súplica que conseguiu em seus olhos. "Por favor," ele disse. "Ele tende a dormir muito melhor quando eu estou com ele, e eu não acho que conseguiria dormir de outra forma. Eu ficaria preocupado demais com a possibilidade de ele ter um relapso. . . sem eu conseguir saber."

"Eu preferiria que você não dormisse aqui," ela disse, e então pausou. "Entretanto, como ele está sob um feitiço para adormecer. . . e considerando todas as outras circunstâncias," ela disse, finalmente cedendo. "Eu permitirei. Mas apenas essa noite," ela adicionou rapidamente quando Harry sorriu em agradecimento.

Após ela ter ido embora e apagado as lâmpadas, Harry finalmente conseguiu se deitar e relaxar. O Draco ficaria bem. O prazer e o alívio que vinham com esse conhecimento correram por ele da forma como a primeira chuva morna lava os últimos vestígios do gelo do inverno. Ele se acomodou na cama ao lado do Draco e gentilmente puxou o outro garoto para perto, dentro dos seus braços. Draco se moveu no sono, não acordando, mas se ajustando no abraço do Harry, sua cabeça no ombro do Grifinório e um braço indo ao redor da sua cintura. Harry suspirou, contente e grato por muitas coisas, principalmente pelo fato desse dia longo e terrível ter chego ao fim. Ele respirou profundamente, sentindo a gloriosa respiração sincronizada do Draco, e deixou o sono o levar.

Harry acordou gradualmente, retirado vagarosamente do sono pelo som baixo de vozes perto dele, sua primeira sensação foi a consciência de calor e o cabelo macio do Draco fazendo cócegas na sua bochecha. Harry reconheceu a voz da Madame Pomfrey.

"Nosso Harry é um curador natural incrivelmente talentoso, Albo," ela estava dizendo. "O que ele fez pelo Sr. Malfoy na noite passada não é nada mais que um milagre. Eu nunca poderia ter feito o mesmo. Na verdade, eu não sei se qualquer outra pessoa poderia."

Harry não se moveu, mas duas coisas repentinamente o acordaram por inteiro. Primeiro foi a percepção de que ele estava na cama, abraçando o Draco de maneira muito íntima, enquanto a Madame Pomfrey e o diretor estavam bem ali do lado. Em segundo foi simplesmente o fato de o Draco estar ali, vivo e quente e o abraçando em resposta. Uma onda de exultação misturada com embaraço correu por ele e ele manteve seus olhos firmemente fechados, torcendo ardentemente que não corasse e, assim, demonstrasse estar acordado e ouvindo a toda a conversa.

"Mas ele me disse a coisa mais confusa na noite passada," a Madame Pomfrey continuou. "Então, além de te cientificar que o Sr. Malfoy está se recuperando muito bem, foi por essa razão que eu pedi que viesse aqui tão cedo na manhã."

Arriscando uma espiadela, Harry abriu os olhos apenas o suficientemente para ver o Professor Dumbledore encarar a Madame Pomfrey enquanto esta lhe passava o Aurascópio. "Como você pode ver, todo o dano oriundo da maldição que vimos na noite passada desapareceu," ela continuou. "Harry me disse que as auras mágicas deles estavam se unindo. Eu mal consegui acreditar, mas é verdade. As auras deles estão unidas – eu as estudei logo antes de você chegar – e a única hipótese que consigo imaginar é a existência de um Vínculo entre Magos. Mas, é claro, considerando como são raros, eu nunca efetivamente vi um. Eu queria sua opinião acerca disso."

"Ah," Dumbledore disse, observando através do Aurascópio. "Eu não tinha como ter certeza antes, mas já suspeitava disso. Na verdade, foi Fawkes que sugeriu pela primeira vez a possibilidade para mim – talvez ele até mesmo conseguisse ver o início das conexões entre as auras deles – maravilhoso pássaros, as fênix, sabe – mas sim, isso certamente confirma. Não apenas as auras deles estão unidas, mas se você observar de perto, verá pequenas faíscas de energia sendo transferidas entre eles nos locais em que estão se tocando. Essas duas características comprovam definitivamente o diagnóstico."

"Então realmente é um Vínculo entre Magos," a Madame Pomfrey disse. "Eu nunca achei que poderia acontecer entre. . . bem, quero dizer historicamente, eu nunca ouvi falar de um Vínculo entre Magos existindo entre dois homens. As pessoas envolvidas não são geralmente amantes?"

"Sim, sempre são," Dumbledore disse. Ele abaixou o Aurascópio e encarou a Madame Pomfrey. "O vínculo apenas se forma quando um amor excepcionalmente forte é compartilhado entre as duas pessoas envolvidas, e é apenas completamente fixado se o casal se tornar íntimo sexualmente".

"Mas, Albo," ela disse, "até onde eu sei, o Harry e o Draco Malfoy sempre estiveram brigando um com o outro. Mesmo depois do que o Harry me contou na noite passada, de que eles estiveram se encontrando, eu mal acreditei. . ." Ela pausou e se virou para encarar os meninos adormecidos. Distraída em observá-los clinicamente, ela não tinha percebido, mas agora conseguia ver a maneira como eles estavam deitados juntos, e realmente viu como eles estavam se abraçando. Os braços do Harry estavam ao redor do Draco como se fosse um gesto profundamente familiar, confortável e precioso. A face do Draco estava virada na direção do Harry, sua cabeça descansando no ombro do Grifinório, e seu corpo encostado no do Harry como se ele soubesse, mesmo enquanto inconsciente, que pertencia ali. A mão dela subiu para tocar a própria bochecha. "Harry disse que eles haviam dormido juntos, mas eu não imaginei que ele quis dizer. . . Deve ser verdade, então, que eles são amantes."

As sobrancelhas grossas e prateadas do Dumbledore subiram e ele olhou para ela por cima dos seus óculos. "Essa parece ser a explicação mais provável," ele disse com um pouco de comicidade na sua voz. Ele levantou o Aurascópio e olhou através dele novamente. "Muito provavelmente, sim," ele adicionou pensativamente, "especialmente considerando que parece haver uma ligação Ti'kira entre eles."

"Uma ligação Ti'kira? Mas. . . isso é virtualmente um casamento!" A Madame Pomfrey arfou. "Harry disse que ele e o Malfoy estiveram se vendo por pouco tempo. . ."

"Um Vínculo entre Magos também é virtualmente um casamento," Dumbledore disse, ainda olhando através do Aurascópio. "E se a combinação correta de energias estiver presente para criá-lo," ele adicionou, "existem teorias de que leva apenas um primeiro beijo, talvez até mesmo um mero toque, para desencadear os níveis iniciais de junção mágica. Julgando pelos relatos pessoais que já li sobre o assunto, o Vínculo entre Magos em desenvolvimento então se torna intensamente emocional e imensamente forte. Alguns casais com Vínculos entre Magos já disseram que mal conseguiam tolerar ficarem separados. Então a partir do momento em que o Harry e o Draco permitiram que o Vínculo iniciasse, não é uma grande surpresa que o relacionamento deles progredisse naturalmente com muita rapidez. Eu acho que nós devemos ficar gratos por eles terem brigado por tanto tempo. Se isso tivesse acontecido quando eles eram mais jovens. . ."

"Ah, sim," a Madame Pomfrey disse. "Eu não consigo nem pensar nisso."

"As faíscas de transferência de energia estão em sua maioria quiescentes agora enquanto os meninos estão dormindo, mas eu acredito que vejo as cores," Dumbledore disse. "Elas parecem ser douradas e. . . um branco-cristal muito claro. Como você interpretaria essas cores?"

"Diamante e ouro. . ." a Madame Pomfrey disse pensativamente. "Bem, ambos são elementos bastante fortes e puros, apesar de um ser duro e o outro mole. Eu diria que as cores indicam que o poder entre eles é igualmente balanceado. Não há a probabilidade de um superar ou quebrar o outro. Na verdade, eu acho que eles são um bom equilíbrio um para o outro."

"Meus pensamentos são idênticos," Dumbledore disse enquanto entregava o Aurascópio. "Parece que teremos uma situação muito interessante aqui."

Harry sorriu secretamente no travesseiro e se acomodou para mais perto do Draco. Ele não queria que eles descobrissem que ele estava acordado ainda; ele queria ficar aqui perto, segurando o Draco o máximo que pudesse, sentindo o coração forte do outro menino embaixo da sua mão como um grito maravilhoso. Então repentinamente o som da porta do corredor abrindo e passos rápidos se aproximando do Dumbledore e da Madame Pomfrey surgiu por trás das cortinas da cama do Draco. Harry cuidadosamente abriu os olhos, e através da brecha deixada pela saída abrupta do diretor e da enfermeira, ele conseguiu ver o Professor Snape cruzando o quarto na direção deles, seguido de perto pela Professora McGonagall.

"Tenho certeza que pedi que vocês dois me encontrassem no meu escritório. . ." Dumbledore disse com uma pausa significativa. Ele fixou os dois professoram com um olhar moderadamente crítico e inquisidor por cima dos seus óculos de meia-lua.

Snape, segurando um pedaço amassado de pergaminho em um punho levantado, ignorou completamente a censura implícita naquela pausa. "Por que eu não fui avisado disso ontem?" ele exigiu. "Por que estou apenas agora descobrindo que Draco Malfoy foi ferido e trazido para cá?"

Dumbledore levantou a mão para que Snape abaixasse a voz e Harry viu a McGonagall encarar o outro professor com severidade. Ele imaginou se ela teria tentando impedir que ele viesse.

"Eu não te contei até essa manhã," Dumbledore disse muito quietamente, "porque a Madame Pomfrey não queria mais ninguém aqui. A princípio a situação era muito urgente, e depois ela sentiu que era necessário um silêncio absoluto. Eu sei que você se preocupa com ele, Severo. Se houvesse algo que você pudesse fazer, eu teria te chamado imediatamente. De qualquer forma, eu planejava te contar cedo nessa manhã."

Snape fez uma careta e cruzou os braços em seu peito, virando o olhar para a Madame Pomfrey. "Posso vê-lo agora?" ele perguntou com a voz concisa.

"Agora não é um bom momento," a Madame Pomfrey respondeu duramente. "Eles ainda estão dormindo."

"Eles. . .?"

"Sim. Draco Malfoy e Harry Potter estão dormindo e, considerando tudo por que eles passaram, eu não vou deixar que eles sejam perturbados."

"Potter?" Snape falou rudemente. Ele se virou para o Dumbledore. "Sua carta disse apenas que o Malfoy foi trazido aqui na noite passada de Hogsmeade. O que o Potter tem a ver com isso?"

"É uma história longa, Severo," Dumbledore começou. "Certamente nós podemos discutir isso durante o chá no meu escritório. . ."

Mas a Professora McGonagall interrompeu. "Potter está bem, Albo?" ela perguntou, olhando preocupadamente ao redor do quarto. "E onde está ele? Eu não vejo outra cama ocupada. . ."

"Os dois estão ali," a Madame Pomfrey disse, indicando a cama com as cortinas fechadas.

"O quê?" os olhos do Snape se estreitaram furiosamente. "Você os deixou dormirem juntos?"

"Eu também não estava muito feliz com a ideia na noite passada," a Madame Pomfrey disse, defensivamente, "mas eles insistiram, e, bem, considerando as circunstâncias que descobrimos nessa manhã. . ."

"Circunstâncias?" Snape sibilou, sua voz ficando mais alta e mais enraivecida. "Circunstâncias? Que circunstâncias poderiam possivelmente – "

"Severo," Dumbledore disse, "abaixe sua voz. Esse não é o local ou momento apropriado. Se você vier comigo, nós – "

Snape o cortou. "Eu não vou ser despachado para uma trivial festa de chá, Albo! Eu quero aqueles dois separados. Imediatamente. Se o Potter estava envolvido nisso tudo de alguma forma, então não tenho dúvidas de que foi culpa dele o Malfoy ter se machucado, para começar. Eles nunca deveriam ter se envolvido – "

"Severo," Dumbledore repetiu, mais rígido, "é tarde demais para isso. Você não sabe de todos os fatos." Ele pausou. "Veja, o Draco estava bem mais machucado. O Lucius lançou a Maldição da Morte nele."

Houve um silêncio chocado. "Ele está morto?" Snape sussurrou. "Mas você disse – "

"Ele não está morto," a Madame Pomfrey disse, cortando-o com irritação, "mas isso se dá justamente ao fato de o Harry ter intervindo."

Harry ouviu a Professora McGonagall arfar e houve mais um silêncio chocado.

"Então o Potter está morto," Snape disse amargamente. "O que ele fez – agiu como um herói e pisou na frente do feitiço? Ele seria tão estúpido."

"Ninguém está morto, Severo," Dumbledore disse calmamente. "Eu apenas quis dizer que é tarde demais para separá-los. O que eles possuem um com o outro é muito raro – "

"Ah, por favor," Snape cortou. "Não me diga que você foi convencido por uma noção ridícula de romance e caiu pela atitude idiota deles de se recusarem em não se verem mais. Isso simplesmente não pode – não deve – ser permitido. É perigoso demais – como esse incidente prova!"

Dumbledore observou o Snape silenciosamente por alguns segundos, seus olhos mostrando apenas um pingo de divertimento. "E o que você propõe para que nós dissolvamos um Vínculo entre Magos, Severo?" ele perguntou. "Ou uma união Ti'kira?"

Snape encarou o diretor, chocado. "Um Vínculo entre Magos?" ele conseguiu engasgar finalmente. "Uma união Ti'kira?" Ele ficou ligeiramente verde, como se tivesse engolido algo desagradável mais uma vez. "Malfoy e. . . e Potter?"

"Sim," a Madame Pomfrey disse decisivamente. "E foi esse Vínculo entre Magos, junto com o fato de que o Harry é um talentoso médibruxo de classe sete," ela adicionou com muito orgulho em sua voz, "que parecem terem sido os fatores decisivos em salvar a vida do Malfoy."

Houve um terceiro silêncio chocado.

"Eu preciso me sentar," Snape disse com um sussurro fraco.

"Albo, eu realmente acho que você precisa explicar o que está acontecendo," McGonagall disse, seu tom descontrolado, quase em exasperação. "Nem eu sabia que o Potter estava tão avançado em Medicina Mágica."

"Qual seja exatamente o motivo pelo qual eu chamei vocês dois ao meu escritório essa manhã," Dumbledore disse. "Há várias cadeiras muito confortáveis ," ele adicionou, levantando uma sobrancelha na direção do Snape, ". . .e nós podemos todos nos sentar juntos e discutir as implicações dessa ocorrência inesperada enquanto tomamos chá e café da manhã." Dumbledore estendeu os braços e indicou a porta para a McGonagall e o Snape. "Eu chamei vocês dois aqui essa manhã para fazermos justamente isso, porque parece que temos diversas coisas a discutir acerca do futuro desses meninos."

"Eu irei em um momento," a Madame Pomfrey disse, entrando pelas cortinas rodeando a cama do Draco.

Harry a observou colocar o Aurascópio na mesa e ele se sentou, cuidadoso para não acordar o Draco.

"Você ouviu tudo, Harry?" a Madame Pomfrey perguntou quietamente.

"Um pouco," ele disse. "Ouvi algo a respeito de um. . . um Vínculo entre Magos?"

"Estou certa de que o diretor irá querer ele mesmo conversar com você sobre isso, assim que terminar a reunião com os professores, então eu sugiro fortemente que você se levante e se vista antes que ele volte." Ela apanhou o jarro vazio e os dois cálices, e então se virou para o Harry. "Depois da reunião, eu vou descer até as masmorras e fazer mais Poções de Revivificação. Eu quero ter certeza que o Sr. Malfoy beba uma dose quando ele acordar. Você ficará bem aqui sozinho por enquanto?"

"É claro," Harry disse. "Eu devo fazer alguma coisa. . . se ele acordar antes de você voltar?"

"Não. Apenas deixe-o dormir o quanto ele quiser, e o mantenha quieto caso ele acorde. Eu vou pedir que os elfos-domésticos tragam café da manhã."

Harry esperou ela ir embora e então se levantou, saindo cuidadosamente da cama para que o Draco não fosse perturbado. Ele cruzou o quarto e se sentou na cama oposta, puxando os pés para cima e encarando distraidamente o chão, absorvido nos pensamentos sobre a conversa que havia escutado. Ele nunca tinha ouvido falar de um Vínculo entre Magos, e não tinha ideia do que era ou o que significava, mas evidentemente era essa a causa das auras mágicas deles se unindo. As faíscas que havia visto entre eles – faíscas de transferência de energia, como o Dumbledore as tinha chamado – faziam parte desse vínculo também. E ele era, julgando pela reação de todos, algo muito significante.

Um elfo-doméstico apareceu com uma travessa da café da manhã carregando dois pratos de comida e Harry repentinamente percebeu que estava faminto. Ele comeu rapidamente, então se vestiu, desejando que tivesse roupas limpas para colocar ao invés das roupas úmidas e amassadas que estivera usando ontem.

Foi quando Harry terminou de amarrar os sapatos e se levantou para ir ao lado da cama do Draco que a porta da Ala Hospitalar foi aberta e o Professor Dumbledore entrou. "Ah, Harry," ele disse. "Precisamente a pessoa que eu queria ver." Ele cruzou o quarto para ficar ao lado da cama do Harry. "O Draco ainda está dormindo?" ele perguntou.

"Sim," Harry disse. "Eu lancei um feitiço bastante poderoso para ele adormecer na noite passada."

"Ah," Dumbledore disse novamente. "A Madame Pomfrey irá voltar em pouco tempo," ele disse. "Ela foi até o laboratório de Poções para criar mais Poções de Revivificação, mas eu suspeito que agora que o Severo sabe que elas são para o Draco, ele insistirá em fazê-las ele mesmo." Ele criou uma cadeira confortável do meio do ar com sua varinha e se sentou, gesticulando para que Harry fizesse o mesmo.

Harry se sentou na beira da cama e observou o Dumbledore com expectativa, ao mesmo tempo curioso e ansioso com o que o diretor teria a dizer.

"A Madame Pomfrey me contou várias coisas surpreendentes nessa manhã," Dumbledore disse. "Primeiramente o fato de que você foi o responsável pela recuperação incrível do Draco. E em segundo lugar, que você usou mágica sem varinha e sem qualquer feitiço."

"Sim senhor," Harry disse. "Mas eu não sabia com certeza o que eu estava fazendo. Apenas deu certo."

"Sim, ela explicou essa parte também, Harry," Dumbledore respondeu. "Sendo esse o motivo pelo qual eu quero que você comece a trabalhar privativamente com a Professora McGonagall no próximo semestre, ao invés de continuar com suas aulas normais de Transfiguração. O Draco também será convidado a participar, já que nós precisamos não apenas determinar a extensão desse novo talento seu, mas também vocês dois precisam se submeter a um treinamento rigoroso em como usar o Vínculo entre Magos efetivamente."

"Senhor?" Harry interrompeu. "O que é um Vínculo entre Magos? Eu sei que tem algo a ver com as nossas magias se unindo, mas eu nunca ouvi falar dele antes. O que significa?"

"De forma resumida, é muito raro para o povo mágico que pessoas consigam combinar suas energias mágicas," Dumbledore explicou. "Quando isso acontece, nós damos o nome de Vínculo entre Magos, e as pessoas que formam o casal são chamadas de Magos, mas," ele avisou, observando Harry seriamente, "um Vínculo entre Magos não é algo simples." Ele pausou por um momento ao ver a expressão muito confusa do Harry. "Eu sei que você tem várias perguntas, Harry, e assim que o Draco estiver melhor, eu irei me sentar com vocês dois e explicarei tudo em maiores detalhes. É muito importante que vocês dois entendam e aprendam a lidar com segurança com as energias mágicas que vocês agora compartilham. O efeito de magias combinadas pode ser extremamente poderoso e sem o devido controle, pode ser bastante imprevisível. Um de vocês pode ficar criticamente enfraquecido quando o outro utiliza magia."

Harry balançou a cabeça em gesto afirmativo, compreendendo, lembrando-se de como o Draco havia dito que ficou cansado quando Harry inesperadamente transfigurou a bola de neve em borboletas.

"Por enquanto, Harry," Dumbledore continuou, "essa é mais uma coisa que nós precisamos manter apenas entre nós. Como você, eu e o Arthur Weasley discutimos ontem, é importante para a proteção do Draco que nós mantenhamos o envolvimento dele na prisão do Lucius o mais silencioso possível, e o Ministério já concordou nesse ponto. Mais importante ainda, nós precisamos esconder o fato de que a Maldição da Morte foi lançada. Eu expliquei tudo para o Professor Snape e a Professora McGonagall nessa manhã, e é essencial que mais ninguém seja cientificado. Muitas perguntas seriam feitas se todos soubessem, já que o Draco continua vivo. A última coisa que precisamos é que o Profeta Diário obtenha essa matéria."

Harry concordou, lembrando-se das suas experiências estressantes com a Rita Skeeter.

"O Arthur me contatou essa manhã," Dumbledore continuou. "Seus amigos, a Hermione e o Rony, estão implorando para te visitar e eu tomei a liberdade de lhes dar permissão. Agora que a condição do Draco não é mais crítica, eu achei que você gostaria de vê-los."

"Sim," Harry disse. "Obrigado, senhor."

"Mas eu tenho que te pedir que não conte nada nem mesmo para eles. E apesar de eu estar pedindo muito de você, isso inclui manter em segredo a maneira como o Draco foi curado também."

Harry lançou ao Dumbledore um sorriso aliviado. "Não está pedindo muito," ele disse. "Eu realmente preferiria não contar nada para ninguém por enquanto."

"Muito bem então," Dumbledore disse, ainda com o olhar sério, mas também contente. "Agora, deixe-me contar rapidamente tudo que aconteceu desde a noite passada e depois deixar você ver seus amigos."

Harry escutou a explicação brevíssima do Dumbledore dos eventos que haviam ocorrido desde a confrontação na clareira de Chave de Portal, e então a porta da Ala Hospitalar foi aberta em apenas uma brecha. O Rony cuidadosamente enfiou sua cabeça ali. "Já podemos entrar?" ele sussurrou.

Harry concordou, mas colocou seu dedo na frente dos lábios, indicando que eles deveriam falar baixo.

"Senhorita Granger, Sr. Weasley," Dumbledore disse, levantando-se com um sorriso e fazendo sua cadeira desaparecer. "O Arthur me disse que parabéns são necessários."

"Sim senhor," Rony disse, suas orelhas ficando rosa. A Hermione sorriu, mas seus olhos estavam fixados no Harry ansiosamente.

Dumbledore colocou a mão no ombro do Harry por um momento. "Eu avisarei caso surjam mais notícias," ele disse. Com um olhar significativo para relembrá-lo do que haviam combinado, e com um gesto para a Hermione e o Rony, ele foi embora.

"Ah Harry," Hermione disse quando Dumbledore fechou a porta atrás de si. "Nós estávamos tão preocupados." Ela o abraçou com força. O Rony estava com as mãos enfiadas nos bolsos como se não confiasse em si mesmo para não abraçar o Harry também. "Nós queríamos ter vindo ontem depois que o Sr. Weasley nos contou o que aconteceu," Hermione continuou, afastando-se para observar o rosto do Harry. "Você tem certeza que está bem?"

"Estou bem," ele disse. "Agora que eu sei que o Draco está melhorando."

Hermione falou com a voz muito suave. "Sinto muito, Harry. O Sr. Weasley nos contou que ele quase foi morto, e que na noite passada eles achavam que ele não fosse sobreviver. Ele realmente vai se recuperar completamente?"

"Sim," Harry disse. "Parece que ele vai ficar bem."

"Eu sinto muito também," Rony disse, "por ter duvidado dele. Meu pai disse que o Malfoy arriscou a própria vida para expor o pai dele e que agora o Ministério tem ótimas chances de prender todos os Comensais da Morte. Ele está estático e está falando como se o Malfoy fosse um tipo de herói, mas. . ." Rony pausou, sua boca ficando dura. "Eu sei que o que ele fez foi bom, mas meu Deus, Harry, ele arriscou a sua vida, e eu não consigo gostar disso. Eu disse que ele estava aprontando alguma. Ele não estava planejando com o pai dele exatamente, mas ele estava planejando. Então eu estava parcialmente certo."

"Calado, Rony," Hermione disse, puxando a manga dele. "Agora não."

Mas Rony e Harry ambos a ignoraram. "Eu sei," Harry disse, encarando o Rony com seriedade. "Ele mentiu para mim e ele me usou." O tom da voz do Harry estava repleto com uma pontada sutil de raiva. "Por alguns minutos," Harry continuou, "quando o Lucius Malfoy apareceu, eu achei que você estivera completamente certo. Eu realmente achei que ele tinha me traído justamente como você havia dito que ele faria. Agora. . . bem. . . ele tem muito a explicar." A raiva que o Harry estivera sentindo desde a noite anterior voltou à superfície, mas novamente ele a abaixou, colocando-a de lado por enquanto.

"Você sabe que ele te ama, Harry," Hermione disse. "Você não está duvidando disso agora, não é?"

"Não," Harry disse. "Isso não tem nada a ver com amor; é sobre confiança. Eu confiei nele e apesar de ele não ter me traído para o pai dele, ele me colocou. . . colocou nós dois. . . em uma situação muito perigosa. Eu apenas preciso saber se posso confiar nele novamente."

Rony balançou a cabeça. "Bem, se você quer saber o que eu penso, é que confiar em qualquer Malfoy é um erro, então eu ainda planejo manter um olho nele. Mas," ele continuou rapidamente, interceptando um olhar muito pontiagudo da Hermione, "até mesmo eu tenho que admitir que ele provou de qual lado ele está."

"Vocês vão se ajeitar, Harry," Hermione disse, acariciando seu braço. "Tenho certeza. Apenas deixe que ele se explique."

Harry encontrou o olhar preocupado dela com firmeza. Mesmo com tudo que o Draco tinha escrito na carta, Harry ainda tinha várias perguntas remanescentes. Mas ele também se lembrou vividamente da alegria que sentiu quando a ligação Ti'kira entre eles havia sido restaurada e ele se lembrou das promessas que havia feito quando o Draco estava deitado e morrendo. Independentemente do que você tenha feito, independentemente do que aconteça. . . eu continuarei te amando.

"É claro que vamos," Harry disse resolutamente. "Nada mudou. Nós apenas precisamos conversar, só isso."

O Rony se virou enquanto a Hermione sorria de maneira reconfortante para o Harry, e os olhos dele caíram em um estranho objeto de metal preto na mesa de cabeceira. "O que era isso?" ele perguntou, levantando o colar arruinado do Draco para observá-lo.

Harry grunhiu suavemente e estendeu sua mão. Rony despejou o colar na palma do Harry e Harry fechou seu punho ao redor dele. Ele não conseguia olhar para o colar, e de alguma forma ele teria que contar ao Draco que ele estava destruído. "Esse foi meu presente de Natal para o Draco," ele disse quietamente. "Era um colar. Draco o estava usando ontem quando. . ." Harry pausou, lembrando-se que ele tinha concordado em não falar sobre isso.

Mas Rony terminou a frase descontinuada. "Você quer dizer que o feitiço que machucou o Malfoy atingiu o colar e. . . fez isso?"

"É," Harry disse.

Rony assobiou. "Deve ter sido Magia Negra da pesada."

"Graças a Deus vocês conseguiram trazer ele para a Madame Pomfrey a tempo," Hermione disse, parecendo assustada.

"Quase não conseguimos," Harry disse, e essa era a verdade.

Eles ficaram todos em silêncio por um momento, e então a Hermione estendeu uma mão e tocou o punho fechado do Harry. "Deixe-me ver o colar, Harry," ela disse gentilmente. "Talvez ele não esteja completamente arruinado." Harry balançou a cabeça, mas abriu a mão, deixando que ela examinasse a bagunça enrolada pensativamente. "Bem, eu vou começar com a pergunta mais simples," ela disse. "Você tentou lançar Reparo nele?"

Harry olhou para ela, surpreso, com repentina esperança se acumulando dentro dele. "Não!" ele disse. "Eu estava muito chateado. Nem pensei nisso."

"Eu conheço uma versão avançada do feitiço. Se isso não funcionar, nada vai." A Hermione puxou sua varinha. "Posso?"

"É claro que sim!" Harry disse avidamente.

"Reficio," ela disse firmemente, com um balançar autoritário de sua varinha.

Por um segundo nada aconteceu, e então saiu um raio de luz brilhante da varinha dela, com um barulho de chiado. Harry sentiu o colar se contorcer na sua mão e no outro segundo ele estava inteiro, com a prata lisa e o cristal brilhante, na palma da sua mão.

"Meu Deus, Hermione," Harry suspirou. "Obrigado!"

"É muito bonito," a Hermione disse, e então riu. "Tem a forma da sua cicatriz, Harry!"

O Rony esticou o pescoço para olhar. "Ei, eu me lembro disso. Então era por isso que você conhecia aquela joalheria," ele disse com um sorriso. Ele se virou para a Hermione e pegou a mão dela. "O Harry foi comigo escolher o seu anel."

Harry colocou o colar no bolso e sorriu quando a Hermione estendeu a mão esquerda para mostrar o anel bonito que ele havia ajudado o Rony a escolher. "Parabéns por oficializar," ele disse, dando um leve soco no ombro do Rony e abraçando a Hermione. Rony corou e parecia bastante satisfeito consigo mesmo.

"É melhor eu voltar e sentar com o Draco," Harry disse. "Eu não quero que ele esteja sozinho quando acordar."

"Nós precisamos voltar à Toca, de qualquer jeito," Rony disse. Ele rolou os olhos. "A mãe convidou toda a parentada nesse final de semana para anunciar nosso noivado."

"Nós voltaremos para te visitar amanhã, Harry." Hermione adicionou com tom apologético. "Pode dizer ao Draco que estamos muito felizes por ele estar bem?" Ela olhou para o Rony com expectativa e levantou uma sobrancelha.

"Ah, certo," Rony disse após um segundo de atraso. "É, estamos felizes."

"Obrigado," Harry disse com um sorriso torto e a Hermione o abraçou brevemente mais uma vez. "A gente se vê amanhã então." Ele entrou pelas cortinas ao redor da cama do Draco assim que eles foram embora. Draco ainda estava dormindo, mas quando Harry se sentou cuidadosamente no canto da cama, ele se mexeu. Um momento depois os olhos deles se abriram.

Draco levantou uma mão e esfregou os olhos, afastou o cabelo dos seus olhos, e levantou o olhar, encontrando o Harry também olhando para ele. Os olhos deles se encontraram, ambos com perguntas a serem feitas. "Você está aqui," Draco sussurrou. "Eu não tinha certeza. . . se tudo tinha sido um sonho."

"Estou aqui," Harry ecoou. Ele havia segurado o Draco a noite inteira, mas agora que o Draco tinha acordado, Harry sentiu uma distância entre eles que não sabia como, ou talvez ainda não estivesse disposto, a cruzar. Seus sentimentos ainda estavam muito inquietos; ele se sentiu repentinamente esquisito, e não se mexeu para tocar o Draco. "Como está se sentindo?" ele perguntou suavemente.

Draco se moveu com a intenção de se sentar, mas então estremeceu de dor e voltou a se deitar. "Como se você realmente tivesse usado aquela colher Trouxa enferrujada em mim, no final das contas."

Harry sorriu suavemente com a resposta. Se Draco conseguia ser espertinho, era um bom sinal. "Você acha que consegue comer alguma coisa?" ele perguntou. "A Madame Pomfrey mandou um pouco de comida para cá. Ela foi embora para fazer mais daquela poção. Ela queria que você a bebesse assim que acordasse."

"A poção horrível?"

"Infelizmente sim."

Harry trouxe a travessa de café da manhã e ajudou o Draco a se sentar, e apesar de as mãos do Draco estarem um pouco trêmulas, ele conseguiu se alimentar sozinho.

"O que aconteceu com o meu pai?" Draco perguntou quando terminou de comer e Harry colocou a travessa de lado. Harry voltou a se sentar no canto da cama.

"O Dumbledore acabou de me contar que ele está sendo mantido no Ministério por enquanto," Harry explicou, "mas ele será encaminhado para Azkaban assim que eles terminarem de questioná-lo. Na noite passada eles usaram Veritaserum nele e nessa manhã eles prenderam quietamente todos os Comensais da Morte que ele mencionou. Ele também nos passou a suposta localização do Voldemort, mas não o encontraram." Harry pausou por um momento. "Draco, você também deveria saber – eles revistaram a sua casa na noite passada, confiscando documentos e outros objetos que pudessem servir como provas. Mas o Dumbledore se certificou de que eles não estragassem nada, por você."

"E a. . . minha mãe?"

"Eles a levaram ao Hospital St. Mungus. Tudo ficou muito confuso na clareira de Chave de Portal depois que o seu pai lançou a maldição. Todos que estavam lá ouviram as palavras da maldição e viram você cair, mas os Aurores estavam muito ocupados em controlar o Lucius e o transportar para verem o que aconteceu depois. O Professor Dumbledore, o Sr. Weasley e eu somos os únicos que sabíamos que você não tinha sido morto. Fomos nós três que trouxemos você de volta ao castelo, usando a minha e a sua vassoura. Infelizmente, quando os Aurores chegaram à sua casa. . ."

Draco fechou os olhos e sua boca se firmou em uma linha dura e sofrida. "Eles disseram à minha mãe que eu estava morto?"

"Sim. Ela desmaiou quando ouviu que o Lucius havia lançado a Maldição da Morte, e quando eles não conseguiriam reanimá-la na casa, eles a mandaram para o hospital. O Dumbledore já mandou uma carta sigilosa para o hospital nessa manhã avisando que você sobreviveu e eles acham que ela vai ficar bem, depois que souber que você está vivo. Mas eles vão manter ela lá por um tempo de qualquer jeito, por proteção, pelo menos até que todas as prisões sejam feitas." Harry conseguia sentir a preocupação do Draco torcendo o seu coração, e tentou soar encorajador. "Assim que você estiver melhor, Dumbledore disse que você pode ir visitá-la."

Draco balançou a cabeça, encarando suas mãos, e não disse nada por um longo momento. Então ele suspirou de forma infeliz. Finalmente ele levantou o olhar, encontrando os olhos do Harry com firmeza, apesar de os seus olhos estarem um pouco cautelosos. "E você?" ele disse com uma voz que tremeu ligeiramente.

"Estou bem," Harry disse, torcendo para que soasse acreditável.

Mas Draco estava estudando o rosto do Harry atentamente. "Não, você não está," ele finalmente disse. "Você está bravo."

Harry exalou em alto som, vagamente irritado em razão de o Draco ter conseguido ler suas emoções. "Isso pode esperar," ele disse com a voz baixa.

"Não, não pode." Draco cruzou os braços de forma protetora. "Eu consigo sentir a sua raiva. E me machuca. Eu preciso entender o que significa." Ele encarou o Harry com uma mistura de súplica, agitação e rebeldia nos seus olhos. "Ontem eu achei que nunca mais iria te ver," ele disse, "mas isso dói mais. Ver você e sentir isso e. . . agora você está sentado tão longe e eu não sei por quê."

"Apenas me diga," Draco disse, quase em um sussurro, "seja lá o que for. Eu preciso saber."

"Quando você iniciou esse jogo comigo," Harry finalmente disse, "você prometeu que seria honesto." A voz dele quebrou ligeiramente, e ele desviou o olhar do Draco. "Ninguém, em toda a minha vida, foi tão honesto comigo quanto você foi naqueles primeiros dias que estivemos juntos. Ou assim eu pensei. Eu confiei em você completamente. E então. . ." Harry parou de falar, um caroço terrível na sua garganta, "então eu descubro que você mentiu. Que você traiu a minha confiança na pior maneira possível. Como você achou que eu iria me sentir? Eu não acho que bravo sequer começa a explicar como eu me sinto no momento." Harry viu Draco se curvar um pouco com as palavras, mas ele estava muito bravo para parar. "E você não esperava ter que lidar com tudo isso, não é?" ele perguntou, aumentando a voz. "Todo aquele papo de 'não pode esperar até eu voltar do feriado?' que você disse para mim. Você não esperava ter que enfrentar tudo isso. Não eu, o Rony, a Pansy, ter que sair do time de Quadribol. . ."

"Não, eu não esperava ainda estar aqui," Draco disse suavemente, ". . . e eu ainda não compreendo. . . eu não sei como isso pode ter acontecido. . ." Ele pausou, olhando para o Harry pela sua franja por um momento, talvez torcendo que Harry respondesse sua pergunta implícita. Mas Harry não disse nada e ele continuou. "No momento, apenas estou tentando não ficar aterrorizado por estar vivo." Draco levantou a cabeça e afastou o cabelo dos seus olhos com uma mão. "Eu não traí apenas o meu pai," ele disse firmemente, "eu fiz os juramentos deles e então traí todos os Comensais da Morte. Tal ato gera uma sentença de morte da qual eu talvez nunca me sinta a salvo."

Um punho gelado parecia ter apertado o coração do Harry. Draco tinha dito algo semelhante na carta dele, mas Harry não tinha realmente absorvido isso. "Você fez os juramentos dos Comensais da Morte?" ele perguntou agora, aterrorizado. "Draco! Você deixou eles te marcarem?"

"Não," Draco disse, seu estômago se revirando com a memória daquela ocasião assustadora e repugnante. "Apenas o Voldemort pode criar a Marca Negra. Meu pai havia planejado para que isso acontecesse quando ele te levasse. Mas. . ." Ele pausou por um momento e uma sombra de apreensão cobriu seu rosto. "Eu não sei quão vinculantes aqueles juramentos são por si sós. O meu pai disse. . . que eles seriam juramentos preliminares. . . que iriam me vincular ao Voldemort depois que eu recebesse a Marca Negra. Talvez os juramentos não tenham um poder real sozinhos; talvez o poder de vinculação se dê apenas pela magia da Marca. Mas e se esses juramentos tiverem poder? E se eu tiver jurado lealdade ao Lorde das Trevas agora? De qualquer forma, eles irão querer punir minha traição. Esse é parcialmente o motivo pelo qual meu pai tentou me matar. E o motivo pelo qual eu não tentei impedi-lo."

"Então você queria morrer?" Harry perguntou em choque.

"Não!" Draco disse, levantando o tom de voz pela primeira vez. "Nada do que aconteceu teve relação com o que eu queria. Você não entende? Eu fui forçado." Ele desviou o olhar por um momento, controlando-se novamente antes de continuar, sua voz cheia de emoção. "Eu fui tão honesto com você quanto eu podia ser. Eu nunca menti acerca dos meus sentimentos por você. Havia apenas. . . algumas coisas. . . que eu não te contei."

"Por que não?" Harry perguntou curtamente. "Eu não entendo. Por que você não podia me contar?"

"Primeiramente, porque o meu pai não é facilmente enganado," Draco disse diretamente. "Você é um péssimo mentiroso, Harry. Você nunca conseguiria ter fingido o olhar no seu rosto naquele primeiro momento em que pensou que eu tinha te traído. Eu sabia que o meu pai esperaria por aquele olhar, estaria observando sua reação de perto. Ele nunca teria se arriscado a lançar a Maldição Imperio em você a não ser que ele estivesse convencido pela sua expressão de que eu tinha feito exatamente o que ele tinha mandado." O queixo do Draco se levantou um pouco. "E em segundo lugar," ele disse com tom de desafio, "eu achei que você nunca concordaria com o meu plano."

"Bem, você com certeza estava certo quanto a isso," Harry disse tensamente. "Mas ignorando por um momento o fato de que você me traiu ao me forçar em uma situação com a qual eu nunca concordaria. . . Mesmo se você não pudesse me contar, Draco, você não tinha que ter feito tudo sozinho. Você não tinha que ter tomado um risco tão grande. Você poderia ter ido ao Dumbledore e pedido por ajuda – "

"Não, eu não podia! Você acha por um segundo que o Dumbledore teria concordado em deixar que eu usasse você como isca para apanhar o meu pai? Que qualquer pessoa deixaria? Mas você era a única coisa pela qual o meu pai se arriscaria. Eu sempre tive a intenção de pedir a ajuda do Dumbledore, assim como eu fiz – no último minuto – depois de já ser tarde demais para ele me impedir."

"Meu Deus, Draco," Harry disse. "Esse é o meu ponto! Você me usou! Como isca! E então arriscou a sua vida daquele jeito – "

"Eu fiz o que tive que fazer," Draco continuou insistentemente. "Eu me certifiquei que você estivesse a salvo. Mas o meu pai tinha que ser impedido. Ele estava completamente obcecado com a ideia de ser o Comensal a te entregar ao Voldemort." Draco encarou o Harry, cada vez mais chateado com a recusa insistente do Harry em entender. "Você não se lembra de quando eu te disse que ele havia me dado um ultimato durante o verão e que ele estava me forçando a provar minha lealdade? Bom, era isso. Eu tinha que elaborar um plano para capturar você até o final do ano ou ele disse que te apanharia de qualquer jeito e entregaria nós dois ao Lorde das Trevas! Minha vida já estava em risco!"

As últimas palavras do Draco pareciam ecoar na Ala Hospitalar vazia e eles ficaram em silêncio por um longo momento.

"Só eu sabia o quão determinado ele estava em te sequestrar," Draco disse, tentando com muito esforço acalmar sua voz novamente. "Na noite em que eu te beijei pela primeira vez, eu percebi que apenas eu poderia impedi-lo. Porque eu te amava, eu precisava impedi-lo. Ele não me deu escolha. Se ele estivesse disposto a deixar você em paz, eu nunca teria feito tudo isso. Mas nenhum de nós poderia ter qualquer tipo de futuro, juntos ou não, enquanto ele estivesse tão determinado a te apanhar. E eu tinha que fazê-lo acreditar que eu estava do lado dele até o momento em que ele fosse desmascarado na frente de testemunhas, ou ele teria colocado aquela Maldição Imperio em mim e teria me forçado a te machucar. Eu preferiria morrer antes que isso acontecesse."

Harry estivera encarando suas mãos enquanto o Draco falava, mas ele arfou ao ouvir aquilo e levantou o olhar.

"Eu não tinha muitos motivos para viver à época em que elaborei o plano," Draco disse mais suavemente. "O meu pai havia deixado muito claro que as minhas únicas opções eram me juntar aos Comensais da Morte ou ser entregue ao Lorde das Trevas como um traidor. Então, querendo eu ou não, eles tinham a intenção de me usar para chegar até você. A morte parecia minha única saída. . . e se eu tinha que morrer, eu queria que fosse com algum propósito. Depois que nós nos envolvemos, é claro que eu não queria morrer. Eu apenas não achava que poderia ser salvo. Eu não achava que alguém tentaria."

"Você não achou que eu tentaria? Ou o Dumbledore?" Harry perguntou, apesar de a verdade nas palavras do Draco arderem. Ninguém otinha protegido.

"Eu não podia depender de mais ninguém," Draco disse defensivamente. "Havia muitas incertezas. Eu já estava tomando um risco terrível, torcendo para que o Dumbledore recebesse minha mensagem e chegasse a tempo. E até mesmo então, eu apenas estava pensando em tê-lo lá como testemunha e para me certificar que você fosse ficar a salvo. Apenas quando eu cheguei na clareira uns cinco minutos antes de você que eu descobri que ele havia antecipado o perigo e havia colocado Aurores lá em avanço."

Draco desviou o olhar da expressão dura e imóvel do Harry por um segundo e respirou fundo. "Você tem que entender," ele continuou resolutamente, "que a única coisa da qual eu tinha certeza era de que eu conhecia o meu pai. Eu sabia que ele iria explodir e tentar matar um de nós ao perceber o que estava acontecendo, e eu não podia presumir que o Dumbledore conseguiria impedi-lo. Considerando o número de vezes que ele ameaçou a minha vida nos últimos anos, eu não tinha dúvidas de que ele tentaria seguir com as ameaças. Eu apenas me certifiquei de provocá-lo o suficiente para que ele definitivamente mirasse a maldição em mim, e não em você." Ele pausou, olhando novamente para o Harry, encontrando o olhar verde irado sem hesitar. "Todo o mundo mágico ficaria fatalmente desmoralizado se ele tivesse te matado, Harry," ele disse corajosamente, "mas ninguém sentiria minha falta."

Harry soltou um som inarticulado. "Eu teria sentido a sua falta! Você realmente achou que você poderia simplesmente. . . se desculpar e. . . e morrer. . . e eu superaria tudo?" ele perguntou incrédulo. "Eu nunca teria superado!"

A fronte corajosa do Draco pareceu desmoronar com as palavras do Harry, seus ombros caíram e ele encarou suas mãos, silencioso por um longo momento. "Eu sei," ele finalmente disse, quieto. "É por isso que eu estava me desculpando. Eu apenas nunca imaginei, quando iniciei tudo isso, que você poderia querer. . . nós. E apenas quando você me contou sobre aquela garota eu percebi o quanto eu estaria te machucando."

"Então seu verdadeiro plano," Harry disse amargamente, "era me usar para criar uma armadilha para o seu pai, que acabasse sentenciando ele à prisão perpétua, para impedir que ele me machucasse. . . sem importar se você morresse no processo porque ninguém ligaria. É isso?"

"Essencialmente sim," Draco disse com um suspiro cauteloso. Ele olhou para o Harry, tristeza torcendo a rigidez de sua boca.

"Draco, o que você planejou teria me machucado mesmo se eu nunca tivesse começado a te amar!" Harry disse, mal conseguindo conter sua necessidade de gritar. "Meu Deus, teria me machucado mesmo se eu não te conhecesse. Eu não quero que mais. . . ninguém. . .morra por mim!"

"Mas pessoas irão morrer nessa guerra, Harry," Draco respondeu suavemente. "Incluindo pessoas que você ama. Um de nós ainda poderá morrer. Você tem que saber disso."

"Eu sei disso! Não significa que eu queira aceitar," Harry disse furiosamente. "Maldição, Draco! Eu não sei com o que estou mais bravo – você ter me usado desse jeito ou você deliberadamente tomando uma chance tão terrível, idiota e impensada com a sua vida!"

"Eu fiz o que acreditava que tinha que fazer," Draco repetiu com uma voz muito baixa e sofrida. Embaixo da tristeza nos olhos cinza do Draco ainda havia uma determinação firme que lembrava aço. "Eu prometo que não foi nada impensado. Mas se você preferir achar que eu fui descuidado e estúpido e. . . e me odiar por tudo, então não é nada mais do que eu já esperava."

Uma onda de calor cruzou o rosto do Harry e ele se sentou encarando o Draco, sem fala.

Durante o longo momento de silêncio que seguiu, eles ouviram a porta do corredor ser aberta e fechada. Alguns segundos depois, a Madame Pomfrey, carregando uma jarra fresca de Poção de Revivificação e um cálice, entrou pelas cortinas da cama do Draco.

"Está acordado, então," ela disse alegremente ao Draco. "Como se sente?"

"Bem, acho," Draco disse com a voz apertada. "Bastante fraco. E dói. . . aqui." Sua mão pressionou um ponto no centro do seu peito.

Harry se levantou abruptamente.

"Bem, era de se esperar," a Madame Pomfrey disse, "considerando que esse foi o ponto de entrada da maldição. A dor provavelmente irá embora em um ou dois dias, mas temo que você terá uma pequena cicatriz ali." Ela encheu o cálice com a poção e o entregou ao Draco. "Aqui. Isso irá ajudar bastante com a dor e a fraqueza."

Mas Draco não pegou o cálice. Com a menção da cicatriz, sua mão havia deslizado a um centímetro da sua clavícula, e ele havia olhado para o Harry com um olhar perturbado nos seus olhos.

"Eu tenho que ir," Harry disse.

A Madame Pomfrey se virou para observar Harry curiosamente.

"Eu. . . eu preciso ir para o meu quarto e. . . trocar de roupa," Harry disse. "Eu só. . ." De repente tudo tinha se tornado opressivo, e ele queria dizer chega. Chega de usar roupas sujas. Chega de ficar na Ala Hospitalar. Chega do Draco. "Eu só preciso ir," ele disse novamente, e sumiu.

"Bem, isso foi um pouco repentino," a Madame Pomfrey disse, ainda segurando o cálice. Ela olhou para o Draco e viu que o rosto dele havia ficado ainda mais pálido do que estivera alguns minutos atrás. "Está tudo bem?"

"Eu acho que ele está muito. . . chateado. . . comigo," Draco respondeu, encarando o espaço vazio em que o Harry estivera. Sua mão ainda estava na sua garganta, deitada vazia e abandonada no local em que o presente lindo do Harry antes estivera pendurado.

"Eu não posso culpá-lo, sabe," ela disse. "Não depois do que você o fez passar na noite passada." Ela estendeu o cálice novamente. "Aqui," ela disse. "Beba isso. Tenho certeza que vai dar tudo certo, você vai ver."

As mãos do Draco tremeram levemente enquanto ele pegou o cálice da Madame Pomfrey. Ele deu um pequeno gole e soltou um arrepio pequeno e involuntário diante do gosto. "Não, não vai ficar," ele disse, muito melancolicamente. "Ele me odeia de novo."

A Madame Pomfrey soltou uma risada curta e leve. "Estou certo de que este não é o caso," ela disse. "Eu acho mais provável que ele esteja apenas agora reagindo ao terrível susto que você o deu. Ele esteve muito ocupado cuidando de você para se deixar pensar no que aconteceu até agora." Ela balançou a cabeça ao ver a expressão triste do Draco, mas sorriu gentilmente. "Vamos, beba tudo. Você vai se sentir muito melhor."

Draco respirou profundamente e virou a bebida rapidamente. O gosto era completamente vil, mas calor e força correram pelo corpo dele enquanto a bebida descia. "Ele realmente ficou. . . para cuidar de mim?" ele perguntou, enquanto passava o cálice vazio.

"Ele fez muito mais do que isso, querido," a Madame Pomfrey disse.

Draco corou em razão da expressão carinhosa inesperada, e ele levantou o olhar para a enfermeira, seu coração em seus olhos. "Você pode me contar o que aconteceu?"

Harry correu o caminho de volta ao dormitório da Grifinória, seus pés pisoteando os corredores desertos e as escadas, seu coração batendo rapidamente, tão alto em seus ouvidos quanto seus passos corridos. Ele soube o exato momento em que o Draco percebeu que o colar havia sumido. Um sentimento arrebatador de perda havia corrido por ele logo antes de o Draco olhar para ele com confusão e melancolia em seus olhos cinza, e Harry repentinamente precisou se afastar. Ele precisava sair da Ala Hospitalar, ele precisava de espaço, ele precisava de tempo para pensar. O fato de que também precisava desesperadamente de um banho e de uma nova muda de roupas na verdade não tinham nada a ver com a sua saída.

A Mulher Gorda pareceu assustada enquanto ele corria, e Harry se lembrou rapidamente que ela não o via desde o Natal. "Pudim de ameixa," ele disse rapidamente, não dando tempo para ela fazer comentários. Ele foi direto ao banheiro dos meninos, despiu-se das roupas que estivera usando desde o dia anterior, e entrou no chuveiro. A água quente estava gostosa; seria até mesmo calmante se ele permitisse, mas não permitiu. Ao invés disso ele se ensaboou e enxaguou o mais rápido que pôde e saiu. Então, com uma toalha em volta da cintura, ele apanhou as roupas e voltou ao dormitório. Ele despejou as roupas sujas no chão no canto da sua cama e colocou roupas limpas do seu baú. Finalmente, ele se sentou no lado da cama, seus cotovelos apoiados nos joelhos, e deixou a cabeça cair em suas mãos. Seu cabelo úmido, que ele nem se importou em escovar, espetava para todos os lados entre os seus dedos. Todos os pensamentos, temores e emoções que ele havia deixado de lado ontem vieram desmoronar na sua mente.

Ele estava furioso com o Draco por tantos motivos: por colocar o Harry em risco, por arriscar sua própria vida, por planejar algo daquele gênero tão secretamente, por assustá-lo de tamanha maneira emocionalmente, e, principalmente, por se recusar a admitir que estivera errado em fazer tudo que fez. Ele se lembrou do que havia dito à Hermione: "Nada mudou. Nós apenas precisamos conversar, só isso." Bem, eles tinham conversado, e apesar de o Harry não ter esperado que a conversa fosse tão curta e volátil, nada havia mudado. Harry queria o Draco nos seus braços, queria falar com ele suavemente e rir com ele e olhar nos seus olhos. Ele queria abraçá-lo e beijá-lo, com toda a intensidade que igualasse sua raiva. Então por que eu fui embora? Ele se perguntou com irritação.

Ele exalou um longo respiro e se deitou na cama, tentando colocar suas emoções em algum tipo de ordem compreensível. Talvez tudo que ele precisasse era tempo sozinho para ordenar tudo na sua cabeça. A coisa mais óbvia que ele estava sentindo era raiva – por todas as razões que havia exposto ao Draco – mas por baixo dessa raiva havia um poço aparentemente infinito de medo e incerteza. Harry se sentiu muitíssimo abalado. O repentino término com a Cho não havia chego nem perto de destruir seu mundo como a morte do Draco teria feito.

A quase morte do Draco havia violentamente catapultado a consciência do Harry quanto à vulnerabilidade deles, dos futuros frágeis e precários deles, para longe daquela ideia de futuro nebuloso, sombrio e desconhecido em um momento futuro o qual Harry havia preferido ignorar até o imediato presente. Teria ele que viver todos os dias encarando o prospecto iminente de que aquele dia poderia ser o último deles juntos? A mera ideia era mais desconcertante do que qualquer outro sentimento. Ele havia dado seu coração completamente – isso não era algo que era facilmente tomado de volta – mas como ele poderia se manter em um relacionamento que poderia quebrar irrevogavelmente seu coração a qualquer momento?

E ao mesmo tempo, como não poderia, quando a separação do Draco era impensável? Mesmo agora, bravo como estava, a distância entre eles o cutucava como um tipo de dor inesgotável que o prendia no lugar. Ele sempre soube dos riscos, e no início ele achava que estava disposto a enfrentá-los. . . mas agora, repentinamente, tudo parecia tão mais perigoso e imprevisível. E ver o Draco tratar a hipótese de sua própria morte de forma tão leve, tão descuidada. . . era como um tapa na cara. Será que ele voltaria a fazer o mesmo? Poderia o Harry voltar a confiar nele para que não fizesse?

Harry se lembrou das vezes em que havia tentado conversar com o Draco sobre suas esperanças e planos para o futuro, apenas para obter a resposta, "Eu tento não pensar no futuro." Harry finalmente entendia a razão por trás da relutância prévia do Draco, mas como Draco se sentia agora? Naquela noite, após eles dançarem a Ti'kira, Draco havia dito, "Eu não consigo me imaginar jamais querendo outra coisa." Seria isso ainda a verdade? Será que Draco ainda queria um futuro com o Harry agora que estava livre do seu pai? Harry não havia lhe dado a chance de dizer, e isso também era muito perturbador.

Outra coisa que o perturbava, Harry percebeu, era simplesmente o fato de o Draco ter sentido a sua raiva tão perfeitamente. Harry estava acostumado a manter seus sentimentos para si mesmo até que estivesse pronto para falar sobre eles. Ter o Draco como alguém para conversar, alguém que manteria as coisas privadas entre eles, era imensamente atraente. Mas havia também o elemento da privacidade. Se ele não queria conversar sobre alguma coisa, ele podia manter isso para si, e o Draco havia sido muito respeitoso quanto a isso. Mas a ideia de ter nenhuma privacidade emocional o perturbava imensamente.

Ele não queria que o Draco soubesse que ele estava bravo – pelo menos não naquele momento. Não logo que ele acordou nessa manhã, pouco recuperado de um machucado quase fatal. Harry se sentia muito mortificado por ter sujeitado o Draco a uma onda de perguntas, atacando-o antes que eles sequer houvessem se tocado. Ele certamente não tinha feito um bom trabalho em manter o Draco quieto como a Madame Pomfrey tinha pedido.

Ele se perguntou se o Draco conseguiria sentir o que ele estava sentindo agora. E se ele se permitisse relaxar e concentrar, conseguiria ele saber o que o Draco estava pensando ou sentindo no momento? De alguma forma isso parecia espionagem e Harry não gostou da ideia. Demoraria para se acostumar ao. . . Vínculo entre Magos. . . se realmente era isso que estava permitindo com que eles sentissem as emoções um do outro tão vividamente.

Por outro lado, Harry pensou com um sorriso muito breve, a experiência de compartilhar os sentimentos do Draco quando Harry lançou a magia, ou especialmente durante o sexo, havia sido incrível. Essa conexão que eles compartilhavam, apesar de ocasionalmente desconfortável, era também incrível e de tirar o fôlego, e não era algo que ele jamais gostaria de compartilhar com outra pessoa. Até mesmo o Dumbledore havia dito quão rara era a conexão. . . e esse pensamento servia apenas para enfatizar o quão insubstituível o Draco era na sua vida.

Pensando novamente no colar, Harry se levantou e encontrou seu par de jeans na pilha de roupas sujas no chão. Gentilmente, ele apanhou o colar do bolso onde o havia colocado enquanto conversava com a Hermione e o Rony, e deitou-o na palma da sua mão. Ele brilhava suavemente na luz solar que vinha da janela ao lado da sua cama, prata fina e cristal claro. O feitiço da Hermione havia funcionado perfeitamente. Vendo-o agora, ninguém imaginaria que ele estivera escurecido e distorcido, quase destruído, e Harry estava muito feliz pelo Draco não ter visto o colar naquele estado. Mas o olhar sofrido do Draco, ao perceber que o colar não estava lá, voltou ao Harry com força e ele se arrependeu por ter permitido que o Draco sofresse daquele jeito. Cuidadosamente, ele dobrou o colar e o colocou no bolso da calça que estava vestindo. Logo, ele pensou, o colar voltaria a estar a salvo em volta do pescoço do Draco, onde pertencia.

Harry se inclinou e apanhou sua camisa do chão, apanhando as duas cartas, uma da Cho e a outra do Draco, de dentro do bolso fronteiro. A carta da Cho ele colocou no bolso da camisa que estava usando, brevemente reconhecendo que ele ainda precisava conversar com o Draco sobre ela.

Voltando à cama, ele desdobrou a carta do Draco e se sentou para ler mais uma vez. O tom da carta era muito mais apologético do que o do Draco nessa manhã. O Draco, Harry percebeu agora enquanto lia, sentira pelo que ele estava fazendo. Sentira muito. Mas a raiva do Harry havia colocado o Draco na defensiva nessa manhã e o Draco, Harry sabia, nunca se entregaria somente porque o Harry estava bravo quanto a alguma coisa. Harry desejava agora que tivesse insistido que conversassem mais tarde, até que conseguisse ajeitar suas emoções. Ele realmente não teve a intenção de deixar as coisas fugirem do controle, mas assim que ele começou a falar, a raiva havia tomado conta de si.

Harry releu o parágrafo que havia o chateado tanto na noite passada:

Eu tentei não pensar na morte, em nunca mais poder ficar com você, mas estava me destruindo saber que isso era o que provavelmente aconteceria, e que você poderia me odiar quando tudo terminasse. Harry, por favor, tente entender. Por favor, não me odeie por ter desejado que você me amasse, por ter desejado ficar com você, mesmo sabendo como tudo terminaria.

Ah, Deus. Harry sentiu aquelas palavras como um imenso peso batendo no seu coração enquanto se lembrava do que Draco havia dito nessa manhã. "Mas se você preferir achar que eu fui descuidado e estúpido e. . . e me odiar por tudo, então não é nada mais do que eu já esperava." Na noite passada, quando havia lido essas aquelas palavras, elas o levaram às lágrimas ao pensar que Draco jamais acreditaria que Harry pudesse odiá-lo. Mas Harry se forçou a reconhecer que, nessa manhã, ele havia agido exatamente como Draco temia. E ele estava horrorizado em pensar que o Draco provavelmente estava deitado na Ala Hospitalar, convencido de que o Harry o odiava.

Eu sempre soube que a minha morte era inevitável – o meu pai teria me assassinado eventualmente, porque eu iria negá-lo a lealdade que ele exigia e teria me recusado a ajudá-lo a te entregar ao Lorde das Trevas. Mas o meu maior medo era que ele, de alguma forma, me forçasse a te entregar, mesmo assim. Eu não conseguiria viver com o conhecimento de que o meu pai tinha te machucado, ou pior, tinha me usado para te machucar.

Draco tinha praticamente dito a mesma coisa nessa manhã e Harry, muito distraído com a sua própria raiva, não tinha escutado. Mas agora, lendo a carta novamente, ele se recordou de algo que o Rony disse alguns dias atrás.

"Eu acho que você não está entendendo", Rony havia dito. "Mesmo que ele não queira, não percebe que eles poderiam forçá-lo? Você não está a salvo com ele. E eu odeio admitir isso, mas se ele não está do lado deles, então ele não está a salvo com você também. O que você acha que eles farão com ele, depois de usá-lo para chegar a você?"

Um sentimento profundo de apreensão preencheu o estômago do Harry. Ele se arrepiou com o pensamento do que poderia ter acontecido com eles caso o Draco não tivesse agido contra o seu pai, e Harry finalmente reconheceu a escolha terrível que havia sido imposta ao outro garoto. O Draco havia sido colocado em uma situação sem lados positivos, e ele havia feito o melhor que pôde.

"Eu fiz o que acreditava que tinha que fazer," Draco havia dito, e Harry finalmente escutou não apenas a devoção nas palavras, mas também o desespero por trás delas. Draco havia sido forçado a escolher o impensável, e havia se mantido forte apesar de sua escolha lhe negar tudo que desejava. Ele havia escolhido proteger o Harry e não ter o Harry, até mesmo sob o preço da sua própria vida. Harry repentinamente sentiu uma emoção tremenda de admiração pelo que o Draco havia feito, pela escolha que havia feito e pela força com que havia persistido, independentemente de toda dor que ele obviamente sofria.

Harry se lembrou de estar de pé na clareira, encarando o Draco e sabendo com toda a certeza do mundo que tinha que ter fé no outro garoto, tinha que confiar nele mesmo quando tudo parecia indicar que não deveria. Ele havia acreditado no Draco naquela hora, e com uma dor crescente na sua garganta, percebeu que não poderia parar de confiar no Draco agora. Com um sentimento repentino de urgência, Harry alcançou seus sapatos. Ele tinha que voltar à Ala Hospitalar.

Ele havia colocado apenas um sapato quando ouviu uma batida insistente na sua janela. Harry levantou o olhar, confuso, e viu algo pequeno e cinza flutuando do lado de fora do vidro. Pigwidgeon? E certamente, quando Harry abriu a janela, a pequenina coruja voou para dentro e circulou a cabeça dele loucamente. Uma pequena carta caiu ao chão no pé descalço do Harry, e com um pio excitado, Pigwidgeon voltou à janela e foi embora.

Harry apanhou a carta e a abriu, surpreso ao ver que vinha da Gina.

Querido Harry,

A Hermione e o Rony acabaram de voltar e disseram que você está bem e que o Malfoy está se recuperando. Depois do que o pai disse na noite passada, eu estava tão assustada por você e por ele, e eu me senti horrivelmente culpada. O Rony talvez nunca pare de suspeitar totalmente do Malfoy, mas eu sinto muito por ter duvidado dele. Eu teria me sentido horrível se ele tivesse morrido. O pai disse que ele arriscou a vida dele para trair o próprio pai e te proteger – e que ele disse na frente de todo mundo que ele te amava. Eu sei que disse que ele teria que provar que merecia seu amor. Eu só queria que você soubesse que eu acho que ele merece. Estou tão feliz por você tê-lo, Harry. Você merece ter alguém que te ama tanto.

Com amor, Gina.

Harry leu a breve carta duas vezes e sorriu com a maneira como a Gina havia super-romantizado a situação, mas ele também se sentiu tocado. Ter a aceitação dela significava muito para ele. E ter o apoio do Sr. Weasley era completamente inesperado e muito, muito bem-vindo. O Sr. e a Sra. Weasley haviam sido como pais para o Harry, e a assertiva da Gina de que eles ficariam chateados com o seu relacionamento com o Draco havia sido um pensamento perturbador e constante no fundo de sua mente. Mas se a Gina e o Sr. Weasley conseguiam aceitar e perdoar o Draco, Harry repentinamente ponderou o que ele estava fazendo aqui no seu dormitório enquanto o Draco estava na Ala Hospitalar sozinho.

Harry pulou de pé. Rapidamente colocando a carta da Gina na mesa de cabeceira, e então redobrou a carta do Draco e a colocou no seu bolso. Eles ainda poderiam discordar da sabedoria do plano do Draco – e o fato de eles amarem um ao outro, Harry sabia, não faria com eles concordassem o tempo todo – mas a Gina estava certa. O Draco merecia o seu amor; ele não merecia ser deixado sozinho, acreditando que Harry o odiava. Rapidamente, Harry correu para colocar o outro sapato, e então saiu rapidamente do dormitório, batendo a porta atrás de si.

Harry correu escadas abaixo, tomando dois degraus por vez, e já estava na metade do Salão Comunal e a caminho do retrato da Mulher Gorda quando ele foi abruptamente parado pela visão inesperada da Professora McGonagall de pé na frente da lareira.

"Potter," ela disse com um tom apertado. "Eu gostaria de falar com você."

"Mas. . . Eu. . ."

"Agora," ela disse com uma voz que não admitia argumentos. Ela gesticulou na direção de uma das cadeiras perto de onde ela estava.

"Sim senhora," Harry disse e sentou-se.

"Eu não sei se fico muitíssimo orgulhosa de você ou chocada além da imaginação. Estou horrorizada por você ter ido encontrar o Malfoy – sem dizer nada a ninguém, sem pensar naquilo que havia lhe sido avisado. Meu Deus, Potter, o que você estava pensando?"

Harry abriu a boca, mas ela balançou a mão retoricamente, o que era ótimo já que ele não tinha uma resposta.

"Esqueça," ela disse amargamente. "Não responda a isso. É bem óbvio que você não estava pensando." Ela pausou, seus lábios pressionados em uma linha apertada de desaprovação. "Você tem ideia de onde você estaria agora se Draco Malfoy não tivesse agindo contra o próprio pai?"

Harry mordeu seu lábio inferior e desviou o olhar, encarando o espaço vazio e frio da lareira. Calor subiu do seu peito até a ponta das suas orelhas e ele se arrepiou com o pensamento do que teria lhe acontecido sob o controle de Lucius Malfoy. "Eu sei," ele disse após um longo momento de silêncio. E lhe ocorreu então que essa era outra razão pela qual ele estivera tão bravo. Draco o tinha assustado também nesse sentido – ele tinha confiado em alguém apenas para descobrir que havia sido enganado com facilidade, o que poderia significar, se as coisas fossem diferentes, o pior tipo de traição imaginável. Era um pensamento extremamente perturbador e desagradável, que quase fez Harry jurar ali mesmo nunca mais sair do castelo.

Ir até a clareira da Chave de Portal tinha sido algo muito estúpido de se fazer, e, mesmo assim, sua confiança no Draco não tinha, no final das contas, sido mal colocada. Harry olhou novamente para a Professora McGonagall. "Eu sei que eu não deveria ter ido, mas eu sabia que podia confiar no Draco. Eu sabia," ele disse. "E eu não estava errado," ele adicionou quietamente.

"O fato de o Malfoy ser ou não digno de confiança não interessa," a Professora McGonagall disse firmemente. "O fato de esse fiasco ter milagrosamente terminado. . . da melhor maneira possível. . . também não interessa. Eu confiei em você para não fazer algo tão incrivelmente estúpido. Vocês dois chegaram muito perto da morte!"

"Eu sei," Harry disse novamente, miserável. A veemência das palavras dela arrancou os últimos vestígios de sua autoconfiança. Ele entendia, entretanto, que ela estava brava com ele pelos mesmos motivos pelos quais ele estivera bravo com o Draco – em razão do choque e do medo do que tinha quase acontecido, e isso era porque ela se importava. "Eu realmente sinto muito," ele adicionou com uma voz muito baixa e arrependida.

"Bom," ela disse, cruzando os braços, "porque você vai sentar aqui pelas próximas duas horas e pensar em quão arrependido você está."

Harry olhou para ela, mal acreditando no que havia escutado. Duas horas! "Mas e o Draco. . ." ele começou a dizer e parou ao ver a expressão dura dela.

"Não pense que o Malfoy vai se safar," ela disse firmemente. "Assim que ele estiver propriamente recuperado, o Professor Snape irá lidar com ele na maneira como julgar adequada. Vocês dois servirão detenção por uma semana e não poderão deixar o castelo sem permissão direta do diretor."

"Não é o que eu quis dizer," Harry protestou. "Ele está sozinho na Ala Hospitalar e eu estava indo lá para ficar com ele agora."

A expressão da Professora McGonagall se suavizou um pouco diante do rosto preocupado do Harry. "Eu acabei de vir de lá, para te procurar," ela disse, "e ele estava bem. A Madame Pomfrey está lá caso ele precise de algo." Ela pausou. "Eu não acho que seria ruim para vocês se passassem algumas horas separados pensando na coisa perigosa e tola que fizeram."

Mas nós acabamos de passar dois dias separados! Harry pensou desesperadamente. Sua necessidade de ver o Draco se tornou irresistível. Se ele não tivesse deixado sua raiva tomar conta. . . Mas a McGonagall não iria ceder nesse ponto, e ele sabia. Ele se deixou cair na cadeira, derrotado. "Sim senhora," ele disse com a voz baixa.

Ela balançou a cabeça. "Eu estou orgulhosa de você, Potter," ela disse com um tom mais gentil. "Todos nós estamos mais do que agradecidos por você ter conseguido salvar a vida do Malfoy." Ela pausou, observando-o com mais gentileza. "Você chegou a almoçar?" ela perguntou.

"Não," Harry disse, sentindo-se muito vazio.

Apanhando sua varinha, McGonagall conjurou um prato de sanduíches de presunto e frango, bem como uma jarra de suco de abóbora, flutuando em uma travessa ao lado da cadeira do Harry. "Duas horas," ela repetiu, caminhando na direção do retrato. "Então você pode ir."

Harry suspirou ao ouvir o retrato fechar atrás dela. Uma semana de detenção para os dois. Sua ideia adorável de eles passarem a próxima semana, a última que eles tinham de férias, descansando juntos havia evaporado. E o Draco estava sozinho nesse mesmo minuto imaginando se o Harry o odiava. Harry suspirou novamente, apanhou um sanduíche e começou a mordiscá-lo. Ele se sentia completamente acabado e muito, muito arrependido. Não demoraria duas horas para que ele percebesse isso.

Draco, também, estava muito, muito arrependido. A enfermeira tinha tentado animá-lo sobre o Harry, e Draco tinha se permitido um pouco de esperança, mas ela também o tinha informado em detalhes pelo que ele fez o Harry passar. Então o Professor Snape e a Professora McGonagall tinham vindo visitá-lo, apesar de a McGonagall ter ido embora quase imediatamente após descobrir que o Harry não estava ali. O Snape, entretanto, havia feito um discurso bastante completo para informá-lo de que ele e o Harry estavam proibidos de deixar o castelo e que haveria detenções a serem cumpridas assim que ele se recuperasse. Nada disso tinha lhe ajudado a se sentir melhor.

Agora, ele estava sentado na cama hospitalar, alternativamente lendo o livro que a Madame Pomfrey havia lhe dado para estudar e apenas o encarando, sem ler nada, sua mente vagando. Draco não imaginava que teria que lidar com a raiva do Harry depois de tudo que havia feito. É claro que ele sabia que o Harry ficaria furioso, mas nessa manhã, tendo que encarar as perguntas e as acusações bravas do Harry, ele se colocou na defensiva. O que a Madame Pomfrey disse fez com que se sentisse muito pequeno e bastante merecedor de toda aquela raiva, e isso acabou o deixando mais desolado e desesperançado do que nunca.

Ele se sentia cru por dentro, e mais do que tudo, ele queria o toque do Harry. Poderia ele torcer para que o Harry o perdoasse e o quisesse novamente? Ele precisava sentir os braços do Harry ao seu redor, sentir aquele sentimento profundo de conforto que apenas o Harry poderia lhe proporcionar. As memórias da noite anterior eram muito nebulosas, mas ele se lembrava que o Harry estivera na cama com ele e havia lhe abraçado desesperadamente assim que ele recuperou a consciência. Ele até mesmo tinha uma memória breve de acordar durante a noite e encontrar o Harry dormindo com ele, abraçando-o. Mas essas memórias faziam pouco para acalmá-lo agora ou diminuir o desejo vazio que sentia como uma pedra pesada no seu coração.

Após um momento, a Madame Pomfrey enfiou a cabeça novamente pelas cortinas para checar sua condição, e um pouco mais tarde um elfo-doméstico lhe trouxe uma travessa de almoço. Draco cutucou a comida, sem apetite, desejando que o Harry estivesse ali para comer com ele. Voltando sua atenção para o livro, ele tentou ler outra página. Se os seus pensamentos não estivessem tão tumultuados, ele acharia o livro bastante interessante. Mas até mesmo a leitura desse livro tinha tudo a ver com o Harry, e sua concentração falhou novamente.

Ele se viu pensando na primeira noite em que Harry foi ao seu quarto, em como o Harry havia dito, "Eu consigo agüentar muito mais do que isso de você, Malfoy." Essa frase tinha significado o mundo para ele. E a noite posterior, ele se lembrou de como a gentileza e compreensão do Harry, suas palavras e toques gentis haviam quebrado todas as muralhas que o Draco havia construído ao redor do seu coração. Não existia outra pessoa, ou outro evento em sua vida, que chegasse perto de ter o impacto que o Harry tinha sobre ele. Antes do seu relacionamento com o Harry, ele nunca tinha verdadeiramente percebido o quão profundamente e terrivelmente sozinho ele era, e ele não queria se ver daquela forma mais uma vez.

Harry tinha aguentado muito dele, já havia perdoado tantas coisas – tinha acalmado suas tempestades. Agora era a vez do Draco. Harry tinha todo direito de ficar furioso com ele, e o Draco apenas teria que aguardar que essa tempestade passasse o mais quietamente e respeitosamente possível. Ele sorriu secamente para si mesmo. Se ele e o Harry realmente fossem ficar juntos, tempestades provavelmente seriam uma ocorrência comum – para ambos.

Mas – se? Deus, como ele podia sequer pensar em se? Agora que ele havia sobrevivido a esse terrível acontecimento que o seu pai havia forçado sobre a sua pessoa, ele não conseguia se imaginar seguindo em frente sem o Harry. Ele teve medo de se deixar desejar um futuro antes, mas agora ele estava vivo e ele sabia que não queria outra coisa. Se ele sobrevivesse, mas perdesse o Harry. . . bem, isso era simplesmente impensável. Ele não conseguiria suportar o conhecimento de que o Harry não o amava mais. Ele tinha que acreditar que o Harry ainda era o mesmo menino que havia dito, "Eu te amo," com suas palavras, seus olhos, seu toque mágico. Ele tinha que ter fé nisso.

Draco suspirou e apanhou o livro novamente. Ele conseguiu ler várias páginas, mantendo-se concentrado em quão importante esse livro era para o novo futuro que ele queria, e então ele ouviu a porta do corredor sendo aberta. Ele congelou, ouvindo atentamente. Passos leves cruzaram o chão na direção da sua cama, e ele sentiu seu coração dar um pulo, reconhecendo o som daqueles passos. Encarando seu livro, sem sequer fingir estar lendo, ele esperou.

Quando o Harry voltou à Ala Hospitalar, a Madame Pomfrey não estava no piso, então o Harry presumiu que ela estava no seu escritório. O cômodo estava completamente quieto e ele imaginou se o Draco estaria dormindo. Mas quando ele entrou pelas cortinas ao redor da cama do loiro, ele descobriu o Draco sentado, inclinando-se em uma parede de travesseiros, olhando um livro.

Draco levantou o olhar e imediatamente colocou o livro de lado. O olhar nos seus olhos cinza enevoados era recluso e triste, apesar de uma pequena faísca de esperança ter acendido quando ele avistou o rosto do Harry.

"Ei," Harry disse muito suavemente, não ficando muito perto.

"Ei," Draco ecoou. A atmosfera esquisita que Harry estava sentido era muito aparente e o Draco abaixou o olhar após alguns segundos, determinado a esperar, a ficar calmo, e deixar o Harry dizer o que ele precisava. Ele resistiu à vontade de cruzar os braços; ele não estava acostumado a se manter tão aberto e vulnerável para ninguém. Era difícil, e machucava. Mas era o Harry, e ele precisava aguentar.

Harry hesitou por mais um momento. "Desculpe," ele disse. "Eu queria descer aqui mais cedo, mas a McGonagall me fez sentar no salão comunal da Grifinória por duas horas para pensar sobre a coisa estúpida que fiz." Ele tinha a intenção de falar mais, mas os olhos abaixados e a expressão triste do Draco puxaram urgentemente o seu coração, criando um desejo intenso que ele não tinha forças para resistir. Ele se lembrou de como no dia anterior ele havia segurado tão cuidadosamente, desesperadamente, aquela conexão preciosa e frágil entre eles, frenético para mantê-la a salvo, e ele percebeu que ele segurava o futuro deles em suas mãos exatamente da mesma maneira. Arrependimento estava transparente em toda linha do corpo do Draco e o coração do Harry se revirou. Qualquer raiva remanescente derreteu em um instante. Ele deu os dois passos que o trouxeram ao lado da cama, sentou na beira perto do Draco, e colocou sua mão no pulso do Sonserino.

Draco levantou o olhar e os olhos deles se encontraram. Milhares de coisas foram ditas naquele instante de conexão de olhares, e os braços do Harry foram ao redor do pescoço do Draco, puxando-o para um abraço apertado. A sua própria necessidade desse gesto era tão intensa que ele percebeu que ao dizer, Independentemente do que você tenha feito, não importa o que aconteça. . . Eu ainda vou te amar, não era tanto uma decisão ou até mesmo uma promessa, mas sim um comando imperativo oriundo do seu ser interior. Ele jamais conseguiria parar de amar o Draco agora, ou parar de desejá-lo. Eles pertenciam um ao outro na maneira mais elementar possível. Qualquer dor ou alegria que o futuro deles trouxesse, seja ele longo ou curto, Harry sabia que eles tinham que ficar juntos.

Os braços do Draco vieram ao redor das costas do Harry e ele colocou sua cabeça no ombro do Harry, seu rosto escondido no pescoço do moreno. Por um longo momento nenhum deles falou nada, deixando as batidas dos seus corações falarem por eles, e então o Draco levantou a cabeça e sussurrou no ouvido do Harry.

"Eu não te perdi, então?"

"Não," Harry sussurrou em resposta. Ele levantou uma mão e acariciou o cabelo na nuca do Draco. "Eu só precisava de um tempo. . . para me equilibrar," ele disse.

"E?"

"Eu te prometi para sempre, lembra?"

Draco se afastou para encarar os olhos do Harry, cinza veludoso encontrando verde vívido com uma honestidade cândida e ardente. "Eu me lembro," Draco disse.

"E você me prometeu o mesmo," Harry disse suavemente. E apesar de não ser sua intenção, um pouco de acusação gentil passou pelo seu tom de voz. Esse era o centro de todos os motivos pelos quais ele estivera aborrecido. "Draco," ele disse urgentemente, "Eu preciso saber que você estava falando sério. Que você não vai fazer isso – que você não vai secretamente arriscar sua vida novamente. Eu. . . preciso saber. . .que não vou te perder desse jeito."

Draco olhou Harry nos olhos com firmeza. "Eu sempre dependi apenas de mim mesmo," ele disse quietamente. "Eu nunca confiei em ninguém. Eu nunca quis precisar de outra pessoa." Ele pausou. "Mas eu preciso de você," ele disse com a voz baixa. "Eu preciso de você tanto que me assusta." Ele respirou fundo. "Então, você pode me prometer que não fará o que está me pedindo? Que você não irá desaparecer um dia sem aviso, que o Lorde das Trevas não irá te sequestrar, ou que você não irá morrer nessa guerra?"

"Não," Harry disse com a voz baixa. "Você sabe que não posso."

Draco balançou a cabeça e suspirou. "Eu não acho que um de nós possa prometer isso ao outro," ele disse. "Eu posso prometer que eu quero ficar com você; que eu quero aquele futuro que você deseja – que eu quero todo minuto de cada dia com você por todo o tempo que possamos ficar juntos."

"Isso basta," Harry suspirou, e ele se inclinou para frente para beijar o Draco.

Havia uma hesitação no beijo do Harry que o Draco sentiu imediatamente, mas também havia carinho e perdão nele, e um pedido de desculpas, e a exploração de um novo tipo de confiança, uma confiança que aceitava a incerteza. Draco segurou-se com firmeza e retornou o beijo, seu coração pulando com o conhecimento quieto e profundo de que ambos estavam vivos, de que ele não tinha perdido o Harry, de que pelo jeito eles teriam um futuro, no final das contas.

Harry se afastou do beijo gentilmente. Ele estava sorrindo. "Eu tenho algo que te pertence," ele disse, e ficou em um joelho para que conseguisse alcançar seu bolso. Ele apanhou o colar do Draco do seu bolso e o estendeu, e então o colocou gentilmente nas mãos do Draco.

"Eu senti falta disso," Draco disse, segurando-o cuidadosamente. "Eu achei que ele tinha sido perdido. . . ou pior," ele adicionou suavemente.

"Ele quase foi," Harry disse.

Draco o estendeu, devolvendo-o. "Coloca em mim?"

Harry o apanhou e desfez o fecho, alcançando atrás do pescoço do Draco para fechá-lo. Seus dedos acariciaram a corrente na volta e ele deitou sua mão levemente no peito do Draco, ao lado de onde o pingente brilhante pendurava. "Ainda dói?" ele perguntou.

"Não tanto, agora," Draco disse. "Está bem melhor. Mas. . . Eu vou ter uma cicatriz. A Madame Pomfrey colocou alguma coisa no machucado enquanto você não estava aqui, para anestesiá-lo e fazer com que curasse mais rápido."

Concordando, Harry desfez os dois primeiros botões da camisa do pijama do Draco, para olhar. Logo abaixo de onde deitava o pingente, a pele do peito do Draco estava marcada com uma cicatriz pálida vermelha em ziguezague. Não era a forma de um raio, como a do Harry; era mais parecida como uma letra M torta. Harry ficou repentinamente entretido ao pensar que Draco ficaria marcado com a inicial do seu próprio sobrenome. Ele olhou para o Draco e sorriu. "As garotas realmente vão querer dormir com você agora," ele brincou. "Cicatrizes são irresistíveis, sabia?"

Draco fez uma careta. "Ao contrário de algumas pessoas," ele disse, abotoando sua camisa, "que não têm vergonha e mostram suas cicatrizes para todos, usando-as no meio da testa, eu não tenho a intenção de deixar ninguém ver a minha."

Harry riu, e era ótimo rir. De alguma forma, as coisas haviam voltado ao normal, e isso era maravilhoso. "O que você estava lendo. . . quando eu entrei?" ele perguntou, vendo a borda do livro escapando debaixo do cobertor do outro lado da perna do Draco.

Draco apanhou o livro e o estendeu para que Harry conseguisse ler a capa.

"Ei," Harry disse, surpreso. "Esse é o meu livro de Medicina Mágica."

"Não é," Draco respondeu com um tom possessivo. "É meu. A Madame Pomfrey disse que eu podia ir às aulas com você, se. . ." Ele pausou. "Se você não se importar," ele continuou animadamente. "Eu pensei que se vamos trabalhar juntos, eu deveria saber mais sobre o assunto."

"Draco, isso é fantástico!" Harry exclamou. "É claro que não me importo." Ele deu um largo sorriso. "Você realmente está planejando trabalhar comigo?"

"Eu disse que eu queria, não disse? Se eu pudesse." Draco levantou uma sobrancelha pálida e lançou um olhar provocador ao Harry. "A Madame Pomfrey pareceu bastante aliviada ao descobrir que você não iria fazer suas próprias poções."

Harry apenas sorriu, muito animado para se ofender, e, de qualquer jeito, ele sabia que o Draco estava brincando. "Isso vai somar duas aulas que teremos nós dois sozinhos," ele disse. "O Dumbledore me contou nessa manhã que nós vamos sair de nossas aulas separadas de Transfiguração, para termos aulas privadas com a McGonagall."

"Por quê?"

"Não tenho certeza," Harry disse vagarosamente. "Tem algo a ver com o que eles chamaram de Vínculo entre Magos – que nós precisaríamos de treinamento com isso. O Dumbledore vai conversar com a gente sobre isso mais tarde."

"Um Vínculo entre Magos!" Repentinamente, o pouco de cor que Draco havia recuperado sumiu de sua face e ele parecia chocado. "Nós?"

"É o que o Dumbledore disse nessa manhã. Ele também disse que nós não deveríamos contar a ninguém." Harry percebeu a palidez do Draco. "Por quê?" ele perguntou, repentinamente preocupado. "Qual é o problema?"

Draco parecia incapaz de falar por um momento. Então ele sussurrou. "Meu Deus, Harry."

"O quê?" Harry perguntou, ficando cada vez mais alarmado. "O que significa?"

"É um. . . vínculo entre duas pessoas, fisicamente e emocionalmente através de suas mágicas. . . mas. . . quando você disse que viu nossas auras mágicas se unindo. . . eu nunca imaginei. . ." Draco estava branco. "É um vínculo irreversível para toda a vida, Harry. No mundo mágico, ele é tratado até mais seriamente do que um casamento, por ser tão raro." Sua voz enfraqueceu e ele encarou o Harry, visivelmente atordoado. "Deus," ele disse, sua voz quase inaudível. "Eu sinto muito."

"Você sente. . . muito?" Harry sussurrou.

"Com as nossas magias conectadas, se eu tivesse morrido, talvez você poderia ter morrido também. O que eu planejei poderia ter te matado também!"

"Quase matou," Harry disse solenemente. "Eu senti a maldição, Draco – tudo ficou preto, meu coração parou e eu não conseguia respirar. Nós a compartilhamos entre nós. Mas eu acho que esse também foi o motivo pelo qual você sobreviveu. O feitiço que você colocou no meu anel afastou um pouco do poder da maldição, e. . .isso também pode ter ajudado." Ele alcançou uma mão e passou os dedos pelo colar do Draco. "Mas então eu consegui respirar novamente e eu senti você me deixando. . . e eu não podia te deixar ir. Eu não sei como. . . mas eu apenas segurei."

Draco balançou a cabeça, seus olhos sérios. "A última coisa da qual me lembro," ele disse quietamente, "foi de ver a clareira se iluminar com luzes vermelhas e verdes. Eu achei que talvez os feitiços dos Aurores tivessem interferido com a maldição do meu pai e que por isso a Madame Pomfrey teria conseguido me curar. Mas ela me contou o que você fez." Draco apanhou uma mão do Harry, entrelaçando seus dedos. "Eu não sei o que dizer, Harry. Eu te devo a minha vida."

"Não mais do que eu te devo a minha," Harry disse firmemente. "Se você não tivesse agido contra o seu pai como fez. . ."

". . . nós dois poderíamos estar mortos," Draco disse, terminando a frase sombriamente. Ele levantou o olhar e viu a concordância nos olhos do Harry, sabendo que Harry finalmente entendia. E então outro pensamento lhe veio como uma revelação surpreendente e alegre – se eles tinham um Vínculo entre Magos. . ."Você realmente quer ficar comigo," ele disse, como se estivesse surpreso. Não havia uma pergunta em sua frase, apenas uma assertiva, uma declaração de um simples fato, e repentinamente crença brilhou com força nos olhos do Draco. "Você realmente me ama," ele disse com um sussurro sem fôlego.

"Eu realmente amo," Harry disse com uma leve risada. "Eu fico te dizendo isso."

"Não pare," Draco murmurou, seus lábios encontrando os do Harry.

E Harry não sabia se Draco quis dizer não pare de me amar ou não para de falar que me ama, mas não importava porque o Draco estava lhe beijando com uma intensidade que enviava ondas de choque pelo seu corpo. E repentinamente Harry não conseguia segurá-lo com força suficiente, ou perto o suficiente, ou beijá-lo com profundidade suficiente ou tocá-lo o suficiente. Suas mãos tinham acabado de encontrar seu caminho embaixo da camisa do Draco, palmas percorrendo a pele macia, explorando as curvas atraentes das costas do Draco –

Um barulho alto e inesperado de choque veio do lado da cama, fazendo com que os meninos se separassem rapidamente. Harry se virou e viu a Madame Pomfrey dentro das cortinas com uma mistura de surpresa, vergonha e irritação no rosto dela. Nos braços dela havia uma pilha de livros, dois dos quais agora se encontravam no chão, tendo escorregado do topo da pilha em razão da parada abrupta dela com a visão que havia presenciado. Ela pausou por mais um momento, recompondo-se, e então colocou os livros que estava carregando na cadeira. Apanhando os livros que haviam caído no chão, ela se virou para o Draco com um olhar sabido. "Então," ela disse. "Eu estava certa?"

"Sim," Draco disse, dando um lento sorriso. "Exatamente certa".

"Muito bem," ela disse, colocando os livros novamente no topo da pilha, "talvez você não vá precisar desses livros imediatamente, afinal de contas. Mas," ela adicionou, sua voz implicando uma pergunta, "se você vai estudar Medicina Mágica com o Harry, terá que ler todos."

"Eu vou ajudá-lo a dar conta de tudo," Harry voluntariou-se.

"Que bom," a Madame Pomfrey disse, virando-se então na direção do Harry. "Fico feliz em saber que está disposto a fazer isso." Então ela o fixou com um olhar brincalhão. "E se você puder parar de molestar o paciente por um momento, Harry, você poderia se certificar que ele tome a última dose da poção?"

Harry se sentiu corar. "Sim senhora," ele disse vergonhosamente.

"E se ele estiver se sentindo melhor depois disso," a Madame Pomfrey continuou, "você deveria fazer com que ele se levante e se exercite um pouco."

"Eu vou."

Ela balançou a cabeça em aprovação. "Então eu voltarei mais no final da tarde."

Houve alguns segundos de silêncio após a saída da enfermeira, e então Harry se virou para o Draco. "O que ela quis dizer quando perguntou se estava certa?" ele perguntou.

Draco alcançou uma mão e arrumou os óculos do Harry, pausando por um momento antes de responder. "Eu não tinha certeza se você voltaria," ele finalmente disse. "Eu achei que você me odiava novamente. . . mas ela disse que você só precisava de um tempo para superar o susto que eu te dei."

"Draco, eu acho que eu nunca conseguiria te odiar agora, mesmo se você tivesse me entregado para o seu pai," Harry disse enfaticamente. "Mas você se lembra de quando você me empurrou no chuveiro quando a poção explodiu?" Ele não esperou até o Draco responder. "Você disse que eu te dei o maior susto. Bem, você quase morreu. Você me assustou mil vezes mais."

"Eu sei," Draco disse. Ele se encolheu, parecendo novamente triste.

Com um suspiro, Harry o puxou para um abraço. "Eu não quero que você vá embora novamente, talvez nunca mais," ele disse suavemente.

"Eu não vou a lugar algum," Draco disse.

Harry o abraçou com mais força. "Falando em poções. . ." ele disse, massageando as costas do Draco, e então soltando-o, "você precisa beber esta." Ele se inclinou e despejou o resto da Poção de Revivificação no cálice do Draco.

Draco rolou os olhos, mas apanhou o cálice e após o analisar com grande desgosto por um momento, engoliu tudo. "Uma das primeiras coisas que farei na Medicina Mágica," ele disse enquanto colocava o cálice novamente na mesa, "é encontrar um jeito de melhorar o gosto dessa coisa."

Harry riu com isso. "Ela também me fez beber isso," ele disse, apreciando o Draco com um olhar simpatizante. Mas ele também percebeu que a poção já havia devolvido um pouco de cor à face do Draco. "Vamos então," ele disse, provocando um pouco. "Vamos apostar corrida até a janela lá embaixo e de volta até aqui."

Harry afastou as cortinas ao redor da cama, considerando que elas não eram mais necessárias, e então o Draco se levantou vagarosamente com a ajuda do Harry.

"Parece até que ele lançou uma Azaração das Pernas Bambas, ao invés da Maldição da Morte," Draco disse desdenhosamente, dando seus primeiros passos incertos. Mas a poção funcionou rapidamente, e quando eles chegaram até a janela, Draco já estava se sentindo bem mais forte.

"Você precisa saber que o Dumbledore está se esforçando para manter o que realmente aconteceu em segredo," Harry disse, seus braços indo ao redor do Draco enquanto ambos olhavam pela janela, "então não podemos contar para ninguém que seu pai lançou a Maldição da Morte, ou o fato de eu ter te curado." Estava nevando pesadamente mais uma vez, flocos leves voando com o vento, encostando na beira da janela e derretendo instantaneamente. "Ele está tentando manter o seu envolvimento com a prisão do seu pai o mais sigiloso possível, para a sua proteção. Depois que todas as prisões forem efetuadas, o Dumbledore me disse que o Ministério vai receber todo o crédito público por uma 'brilhante operação policial à paisana' sem mencionar nenhum de nós. Até mesmo o Fudge está de acordo agora. A verdade completa será conhecida apenas pelas poucas pessoas que sentenciarão o seu pai."

Draco se inclinou no Harry, repentinamente sentindo vontade de chorar. Ele não havia acreditado que estaria vivo nesse momento, nos braços do Harry, e mesmo se tivesse, ele nunca teria imaginado que Dumbledore, e até mesmo o Ministério, empreenderiam tais esforços para protegê-lo. A realização que estava crescendo dentro dele desde que acordara na manhã anterior – de que as pessoas se importavam com ele – bateu com força nesse momento, e ele virou seu rosto na direção do Harry, momentaneamente subjugado por essa inesperada reação emocional.

Harry parecia entender e simplesmente o puxou mais para perto, observando a neve cair; sua acumulação silenciosa e contínua apagando todos os traços violentos que eles haviam deixado para trás na clareira da Chave de Portal, cobrindo tudo com um cobertor de puro branco, como um papel de pergaminho em branco no qual o futuro ainda seria escrito.

"É uma pena, entretanto," Harry disse após um minuto. Ele levantou uma mão e acariciou o cabelo do Draco levemente. "Eu teria adorado ver o que o Profeta Diário teria feito com a história. Você poderia ter sido um herói, sabe. O Menino que Sobreviveu, Também. Ou talvez. . . O Menino que Sobreviveu II". Ele estendeu dois dedos, e Draco teve que rir.

Eles caminharam mais vezes para cima e para baixo da Ala, até Draco ficar cansado, mas Harry conseguiu perceber que aquela última dose da poção estava rapidamente o ajudando a recuperar suas forças, e o pequeno nó de preocupação no qual tinha se agarrado se afrouxou e sumiu. Não parecia haver qualquer dúvida de que Draco iria se recuperar completamente.

Uma vez de volta à cama, Draco estava curioso para ler os livros que a Madame Pomfrey havia trazido, então eles passaram as próximas duas horas antes do jantar absorvidos na miríade de mistérios que envolviam a Medicina Mágica. Harry provou que ele conseguia ser um bom professor, mas Draco também era um estudante interessado e entusiástico. Era evidente que ambos iriam adorar estudar a matéria juntos.

Quando o jantar chegou, Draco comeu com apetite e Harry ficou ainda mais satisfeito. Ele se viu torcendo que a Madame Pomfrey liberasse o Draco no dia seguinte. Ele estava achando que eles poderiam passar um tempo juntos e sozinhos afinal de contas, apesar da ameaça de detenções, quando o Professor Snape apareceu.

Ele observou o Harry com olhos estreitos. "Vejo que você voltou," ele disse com um falar lento e desgostoso, seu lábio superior se curvando em desprezo. "Que pena."

Harry estava abrindo a boca para dizer algo quando viu o Draco sorrir maliciosamente para ele. Snape sabia que eles tinham um Vínculo entre Magos, e não havia nada que ele podia fazer a respeito. Harry calou a boca e sorriu em resposta.

"A Madame Pomfrey nos disse durante o jantar que você estava quase recuperado," Snape disse, virando-se para o Draco, "e vejo que realmente está." Ele balançou a mão na direção dos livros espalhados em cima da cama. "O que é tudo isso?"

"Harry está me ajudando a estudar Medicina Mágica," Draco disse. "Estou planejando em trabalhar com ele quando ele virar um médibruxo, como seu mestre de Poções".

"Hmmm," Snape grunhiu. "Outra pena. Muito abaixo dos seus talentos. Apesar de que você certamente irá prevenir vários casos de envenenamento, já que os pacientes não ficarão sujeitos à capacidade inferior do Potter em Poções." Ele puxou sua capa à sua frente e olhou para eles por cima do seu nariz. "Estarei esperando vocês dois no meu escritório segunda-feira, primeira coisa de manhã, para que cumpram suas detenções".

"Sim senhor," Draco disse com um suspiro em sua voz.

"Potter?"

"Sim senhor," Harry disse, um pouco horrorizado ao descobrir que o Professor Snape, e não a McGonagall, serviria as detenções.

"Muito bem," Snape disse tensamente. "Não se atrasem." Ele fixou ambos com um olhar escuro e maligno e foi embora com um jogar de sua capa preta.

Harry e Draco trocaram olhares semelhantes de resignação, e então a realização feliz os bateu de que hoje era sábado e isso significava que eles tinham o dia inteiro de amanhã livre, e eles sorriram.

Draco colocou sua travessa de jantar de lado e apanhou o livro que estivera lendo antes do jantar. Concentrando-se na página ilustrada, ele franziu as sobrancelhas diante do desenho desbotado por um momento. "Eu reconheço isso," ele disse, "mas está quase impossível de ler."

"Bem, é muito velho," Harry disse. "No mínimo alguns séculos."

"Sim, mas eu vi uma cópia ótima e clara em algum lugar recentemente. . ." Ele levantou o olhar quando um elfo-doméstico apareceu para coletar os restos do jantar, e a memória, bem como uma chocante realização, vieram-lhe. "Ei!" Ele disse, olhando novamente para o Harry. "Eu sei onde vi. E agora que o meu pai está preso, eu acho que posso chamar. . ." Fechando os olhos, ele se concentrou por um momento, e –

Bum! Nobby, vestindo uma toalha Malfoy suja e monogramática apareceu ao lado da cama. Ele deu um olhar na direção do Draco e seus olhos quase pularam para fora da sua cabeça.

"Ah, Mestre Draco!" ele exclamou. "Você estar vivo!" Ele caiu de joelhos, segurando os lençóis e começou a chorar. "Nós acreditar que você estar morto!" ele chorou. "Os bruxos horríveis do Ministério dizer isso à Madame quando eles levaram embora os livros e os papéis do Mestre Lucius. Então eles levaram nossa Madame. . ." ele soluçou mais alto. "Nós não saber o que fazer!"

"Pare de chorar!" Draco demandou, completamente surpreendido por esse espetáculo inesperado. "Então," ele disse com uma voz mais baixa quando Nobby finalmente conseguiu se acalmar, apesar do elfo ainda estar fungando altamente de minuto em minuto. "Como você pode ver, eu não estou morto. E," ele adicionou com uma voz muito severa, "eu quero deixar claro que você não deve mais chamar meu pai pelo título de Mestre." Ele observou o elfo-doméstico trêmulo com severidade. "Nunca mais. Você compreende?"

"Eu estar entendendo perfeitamente, senhor," Nobby disse com outra fungada barulhenta. Ele se inclinou para baixo e assou o nariz na barra da toalha que estava ao redor de sua cintura, e então se endireitou. "Senhor Lucius era um homem muito ruim, muito cruel. E apesar de o Mestre Draco enganar e atormentar os elfos quando era criança, nós todos saber que era na verdade ideia do Sr. Lucius. Todos os elfos-domésticos Malfoy estar feliz por ele estar preso. Nós estar muito felizes por servir o Mestre Draco."

Draco ouviu o Harry escondendo uma risada e o lançou um olhar irritado. Então um pensamento lhe ocorreu e um brilho sinistro surgiu nos seus olhos. "Ah, mas essa não é a única mudança que ocorrerá," ele disse com certeza. "De agora em diante," ele declarou, "em adição à minha pessoa, vocês também terão um segundo Mestre. Eu espero que vocês o tratem assim como me tratariam." Draco ficou bastante gratificado um segundo depois quando o Harry parou de rir abruptamente e o olhou com uma expressão ligeiramente horrorizada.

"E quem ser esse novo Mestre, senhor?" Nobby perguntou.

Harry grunhiu. "Draco, não!"

Draco estendeu uma mão na direção do Harry, e Harry relutantemente a apanhou. "Nobby, esse é o Harry Potter," Draco disse. "Nós temos um Vínculo entre Magos. Acho que você sabe o que isso significa?"

Nobby se virou para o Harry e seus olhos ficaram gigantes e redondos. "O Harry Potter, senhor?" ele soltou um gritinho. "Você ter Vínculo entre Magos com o grande e famoso bruxo Harry Potter, senhor?"

Os olhos do Draco foram ao teto e o rosto do Harry ficou decididamente mais rosa. "Sim," Draco disse. "Então você irá tratá-lo assim como me trataria."

"Ser uma grande honra conhecê-lo, Mestre Harry Potter," Nobby disse com uma voz baixa e reverente. Ele bateu as palmas na frente do seu peito. "Meu irmão sempre falava de você com o maior respeito, senhor."

"Seu irmão. . .?" Harry disse, perdido.

"Você libertou meu irmão, senhor," Nobby disse.

Harry encarou o elfo-doméstico. "O Dobby é seu irmão?" ele finalmente perguntou.

Se possível, os olhos do Nobby ficaram ainda maiores, e sua voz ainda mais sussurrada. "Você saber o nome do Dobby, senhor?"

"Dobby?" Draco disse, antes que Harry pudesse responder. "Não é aquele elfo que enfeitiçava a mesa do meu quarto para mim? Ele costumava trabalhar para o meu pai?"

"Sim senhor," Nobby disse solenemente. "Ele era o servo especial do Sr. Lucius antes de mim, até que o Mestre Harry Potter enganar o Sr. Lucius a entregar uma meia ao Dobby."

"Ah meu Deus," Draco disse com um suspiro e começou a rir. "Você realmente fez isso com o meu pai?"

"Sim," Harry disse com um tom bastante martirizado. A situação tinha ficado completamente vergonhosa. "Foi no final do segundo ano. O Dumbledore o deu trabalho nas cozinhas daqui."

Nobby soltou outro gritinho maravilhado. "Dobby estar trabalhando para o grande Dumbledore em Hogwarts?"

"Você não sabia?" Harry perguntou.

"Não," Nobby disse. "Eu não estar vendo meu irmão por quase cinco anos, senhor. Nós apenas saber o lado do Sr. Lucius da história. Dobby não se atreveria a vir nos ver." Ele olhou com imploração entre o Draco e o Harry. "Os senhores permitiriam. . ." ele perguntou tentativamente.

Draco tinha conseguido parar de rir durante essa conversa, apesar de ainda estar imensamente entretido com a ideia de o Harry enganar o seu pai de tal maneira. Lucius Malfoy sempre foi insanamente obcecado com seus servos. "É claro que você pode visitá-lo," ele disse. "Mas antes disso," ele adicionou rapidamente, antes que o sorridente Nobby pudesse desaparecer, "a razão pela qual eu te chamei aqui para início de conversa foi que eu preciso de algo de casa."

O sorriso do Nobby ficou inacreditavelmente largo. "Eu estar pegando qualquer coisa que o senhor quiser o mais rápido possível, Mestre Draco," ele declarou ardentemente.

Harry começou a rir novamente e agora era a face do Draco que tomou um tom rosa.

"Há dois livros no meu quarto," Draco disse. "Eles foram presentes de Natal do meu pai. Você poderia trazê-los aqui?" ele perguntou.

Com um bam o elfo havia desaparecido, e Harry e Draco mal tiveram tempo de respirar fundo e ele já havia voltado, carregando dois livros pesados. Harry pulou da cama para apanhá-los, e Draco permitiu que Nobby fosse visitar o Dobby nas cozinhas.

Então Draco lançou um olhar ao Harry. "Não quis me contar aquela pequena história, é? Realmente, não é um bom tópico de janta."

Harry sorriu. "Eu não queria arruinar o seu bom humor ou o incrível jantar romântico com menções do seu pai. Agora você pode rir. Antes, talvez não fosse ser tão engraçado."

"Verdade," Draco disse. "Ele nunca mencionou uma palavra para mim, mas Deus, ele deve ter ficado furioso. Não me surpreende ele ter te odiado por tanto tempo. Bem, isso e também o fato de te usar para aumentar a ambição excessiva dele de se tornar o Comensal da Morte preferido do Lorde das Trevas." Draco apanhou um dos livros que Nobby havia trazido e o folheou. Após um momento, ele encontrou a página pela qual estava procurando e passou o livro para o Harry com um sorriso triunfante. "Aqui," ele disse. "Eu sabia que já tinha visto."

Harry examinou a figura e ficou corretamente impressionado. "Esses livros são incríveis, Draco. Você disse que eles foram presentes do seu pai de Natal?"

"Sim." Draco suspirou e se inclinou nos travesseiros atrás de si, seu rosto tomando uma expressão distante e triste. "Ele era. . . bom em algumas coisas. . . de vez em quando."

Colocando o livro de lado, Harry se moveu para sentar ao lado do Draco, e colocou um braço ao redor dos ombros do outro garoto. Draco se inclinou nele e eles sentaram em silêncio por um momento, apenas absorvendo conforto na presença um do outro.

"Sinto muito," Harry finalmente disse, sem saber o que mais dizer. Ele não conseguia imaginar a luta interna que o Draco deve ter sofrido até chegar à decisão de trair o próprio pai. "Eu achei que eu entendia," ele continuou suavemente, "o que você tinha passado. Mas agora. . . acho que eu apenas entendia um pouco."

"Você nem imagina quantas vezes eu quis mudar de ideia, quão perto eu cheguei de desistir naqueles últimos dias," Draco disse. "Toda vez que eu pensava na minha morte, em perder você, eu sentia que não conseguiria continuar até o fim. Eu não queria te machucar. Eu não queria te deixar." Ele pausou para respirar fundo. "Mas então a alternativa estava sempre bem ali, me encarando nos olhos – a promessa do meu pai de te entregar ao Voldemort. Eu tive que ficar me relembrando de que nada, a minha dor ou a da minha mãe, ou até mesmo a sua, caso eu morresse, poderia ser pior do que aquilo."

Harry apertou seu braço ao redor do Draco e encostou seu rosto no cabelo loiro suave. "Você estava certo," ele sussurrou. Memórias das conversas que eles tiveram antes de o Draco ir para casa submergiram, e cada vez mais as respostas confusas do Draco faziam sentido agora. "Eu me sinto tão horrível," Harry disse, "por ter estado tão feliz e falando em como nós compraríamos uma casa juntos, e o tempo todo você achou que iria morrer. Por que não me parou?"

"Eu tentei, sabe," Draco respondeu, sua voz mostrando um pouco de seu usual desgosto brincalhão. Então suavizou. "Mas eu gostava de escutar você falando sobre nós."

Sorrindo, Harry levantou a cabeça. "Nós podemos conversar novamente, agora. . ." ele disse. E enquanto as palavras saíam da sua boca, Harry perdeu o fôlego, lembrando-se com a rapidez de um pequeno choque elétrico do que ele ainda precisava contar ao Draco, e estava ainda mais chocado com si mesmo por ter esquecido completamente.

"Bem, você não tem que se preocupar em achar uma casa grande para nós," Draco disse. "O fato de eu ter conseguido chamar o Nobby aqui prova que os terrenos Malfoy já foram passados para mim. Com o meu pai condenado perpetuamente à Azkaban, eu herdo tudo, inclusive a Mansão Malfoy, gostando ele ou não." Ele pausou. "Tem só uma coisa, entretanto. . ." ele disse vagarosamente. "Eu não quero mais morar lá. Eu não acho que conseguiria, depois de tudo. Eu não sei se a minha mãe conseguiria também," ele adicionou com um suspiro. "Se isso for verdade, você pode criar seu orfanato lá. . . se quiser, porque, para ser honesto, eu não acho que eu queria realmente viver com uma casa cheia de crianças. Eu queria isso para você, se não pudéssemos ficar juntos, para que você não ficasse sozinho." Ele encontrou os olhos do Harry com um pedido de perdão. "Se fosse minha escolha, eu gostaria de um lugar pequeno e quieto, apenas para nós dois."

E apesar de estar ansioso diante do que precisava contar ao Draco, um pequeno arrepio de excitação subiu pelo corpo do Harry ao ouvir o Draco falar tão definitivamente sobre eles vivendo juntos. "Eu também gostaria disso," ele disse hesitantemente, "mas. . ." Ele pausou. Era isso aí, então. O momento da verdade.

"Mas o quê?" Draco perguntou, quando o Harry não continuou.

"Eu. . . enquanto você não estava aqui. . . eu recebi uma carta da Cho."

Draco franziu as sobrancelhas. "Não me diga," ele disse sem emoções. "Ela não se casou afinal de contas e quer você de volta?"

"Não, ela se casou, mas – "

"Ela odiou o marido e o deixou. . . e quer você de volta?"

"Não! Ela não me quer de volta. Pára de interromper. Já é difícil te contar para começar."

"Continue então. . ."

Harry respirou profundamente. "Ela está grávida."

Draco deu de ombros. "E? É uma ocorrência revoltosamente comum após uma garota se casar, sabe."

"Mas não aconteceu depois que ela se casou. É isso que estou tentando te contar. O bebê. . . é meu."

Duas sobrancelhas pálidas se elevaram. "Seu? Eles têm certeza?"

"Sim." Harry retirou a carta da Cho do seu bolso. "É complicado," ele disse. "Seria mais fácil se você apenas lesse a carta." Harry suspirou enquanto a entregava. "Algumas partes são bem. . . vergonhosas."

A curiosidade intensa do Draco foi cutucada com essa última afirmação e ele apanhou a carta com interesse ávido. Ele não teve que ler muito para ver o que o Harry estava falando. E isso apenas no primeiro parágrafo.

Então ele leu mais adiante e quase sufocou tentando controlar uma risada alta. "Meu Deus, Harry!" ele disse, levantando o olhar e encontrando a face do Harry ficando um vermelho brilhante. "Ela diz: 'Você não tem que se preocupar com o meu marido, porque ele não vai ficar bravo com a situação. O Lian está na verdade animado por eu ser a mãe do seu bebê. Ele está muito orgulhoso.'" Draco riu. "Ah, isso não tem preço." Ele riu novamente, gostando imensamente do olhar mortificado no rosto do Harry. "Você poderia se alugar," ele disse, brincando. "Eu consigo até imaginar. Filho Autêntico do Menino Que Sobreviveu! Toda mulher irá querer um e os seus esposos não irão se importar!"

"Draco!" Harry arfou, horrorizado. "Isso não é engraçado!" Essa não era a reação que ele estivera esperando. "Você realmente gostaria que eu fizesse isso?"

"É claro que não," Draco disse, ainda rindo. "Mas é engraçado! O mundo mágico inteiro poderia ser dominado por pequenos bebês Potter míopes e com cabelos bagunçados."

"Isso não é engraçado," Harry disse, exasperando-se. "Eu estava realmente preocupado em te contar. Eu achei que você ficaria chateado."

"Por quê?" Draco perguntou, genuinamente confuso. "Aconteceu antes de nós ficarmos juntos. . . e você me disse que queria ter filhos. Era a única coisa de que você afirmou não poder abrir mão. Desse jeito, você consegue a criança que você queria e eu continuo podendo ficar com você. Eu acho que é uma solução perfeita." Ele estudou a face franzida do Harry. "Você não está feliz com a notícia?" ele perguntou. "Você queria isso, não é mesmo?"

"Em algum momento no futuro, sim," Harry disse com um suspiro. "Mas não agora, não desse jeito. Não é certo. Foi completamente irresponsável. . . trazer um bebê ao mundo de hoje. . . com uma guerra começando." Ele hesitou, e então vocalizou seu maior medo. "E se eu morrer?" ele perguntou suavemente. "E se ela me perder da mesma forma como eu perdi os meus pais? Isso não é o que eu queria."

"Mesmo se você morrer," Draco apontou com razoabilidade, "não será a mesma situação. Ela ainda terá a mãe e padrasto. Ela não ficaria sozinha."

"Eu sei," Harry disse. "Eu só. . ." Ele observou o Draco por um momento silenciosamente, e então um pequeno sorriso apareceu no seu rosto. "Você realmente não se importa?" ele perguntou.

"Não," Draco disse. "Na verdade, estou bastante satisfeito – e por motivos puramente egoístas. Eu não terei que me preocupar com você sofrendo por algo que eu não posso te dar."

"Mas assim que a guerra terminar e for seguro, eles vão querer que eu me envolva com ela. Então isso também te afeta," Harry avisou. "Significa que se nós vamos morar juntos, talvez de vez em quando ela venha passar algum tempo conosco."

"Que seja, ela virá fazer curtas visitas," Draco disse. "Então ela irá para casa e será apenas nós dois novamente. Eu acho que consigo lidar com isso." Ele lançou um sorriso brincalhão para o Harry e voltou a ler o resto da carta.

Harry finalmente relaxou e se permitiu absorver a ideia de que teria uma filha. Ele sentia uma mistura tão incrível de animação e preocupação e antecipação.

Draco levantou o olhar após terminar a carta e observou o Harry pensativamente por alguns segundos. "Por mais que eu odeie admitir, eu concordo com o que eles estão fazendo. Eles mantiveram seu envolvimento entre eles e os pais, e eles parecem ter tudo planejado bastante cuidadosamente tendo a segurança do bebê em mente," ele disse. "Ela diz que é tradição na família do marido dela que o pai nomeie o primogênito. Você já pensou em algum nome?"

"Sim," Harry disse. "Minha mãe morreu por mim. . . e eu sempre planejei nomear a minha filha em homenagem à ela. Então eu quero que ela se chame Lily."

(AN: no original em inglês, a mãe do Harry se chama Lily, que significa Lírio ou Flor-de-Lis. Como a tradução para o português é Lilian, resolvi deixar o original para que o trecho seguinte faça sentido)

Draco grunhiu.

"O quê?" Harry disse. "Você acha uma má ideia?"

"Não, não," Draco disse, "não é isso. Eu acho que você – é só que. . . é mais um daqueles malditos nomes de flores."

"E qual é o problema com nomes de flores?" perguntou Papoula Pomfrey, um tom médio de insulto em sua voz enquanto ela caminhava pelo quarto. Os garotos estiveram tão envolvidos em sua conversa que nem a viram entrar. Harry sentiu seu rosto ficar quente, imaginando o quanto ela teria escutado, mas quando ela chegou à beira da cama, ela apenas lançou um olhar confuso ao Draco.

Ambos os meninos a encararam por alguns segundos, e então se tocaram. Draco se virou para o Harry com um olhar hilário de horror em seu rosto que gritava claramente, Meu Deus, esquecemos de um!

"Não há nada de errado com nomes de flores," Harry disse com uma voz presa, tentando muito não rir. "Nós estávamos apenas falando. . . er. . . em quantos têm por aí. Como a minha mãe, Lily, e minha tia, e a mãe do Draco também."

"Não tem como errar com um nome de flor, é o que a minha mãe sempre dizia," ela respondeu, balançando a cabeça. "Eu tenho três irmãs: Amarílis, Íris, e Margarida Rosa."

Draco gemeu suavemente.

"Está se sentindo bem, Sr. Malfoy?" ela perguntou, repentina preocupação aparecendo em seu rosto. "Talvez você tenha se esforçado demais."

"Estou bem," Draco disse. "Mas na verdade, eu estou me sentindo um pouquinho cansado."

"Hmmm," a Madame Pomfrey disse. "Eu acho que talvez você deva dormir cedo hoje, então. Na verdade, todos nós tivemos uma noite muito cansativa ontem e podemos aproveitar um descanso extra." Ela se virou para olhar pontiagudamente para o Harry. "Eu sei que vocês dois têm um Vínculo entre Magos, e eu não sei que não é o que vocês desejariam," ela disse, seu tom ao mesmo tempo compreensivo e firme, "mas isso é um hospital. Então Harry, estou confiando que se você for ficar aqui essa noite, você ficará na sua própria cama."

Harry concordou com relutância, pelo bem do Draco. Ele não queria ir dormir cedo, e ele definitivamente não queria dormir longe do outro, mas o Draco parecia cansado. Aquelas manchas azuladas estavam voltando a aparecer embaixo dos seus olhos.

"Eu vou deixar vocês se arrumarem, então," a Madame Pomfrey disse. "Eu voltarei em alguns minutos para apagar as lâmpadas."

Draco declarou que ele não conseguiria dormir mais uma noite sem tomar um banho e escovar os dentes, então Harry procurou nos armários por um par limpo de pijamas e algumas escovas de dente novas. Mas o Draco insistiu que ele conseguia fazer tudo sozinho, muito obrigado. "Você não é meu maldito elfo-doméstico, Potter," ele disse com uma careta ofendida, quando Harry o seguiu dentro do pequeno banheiro do hospital, evidentemente com toda intenção de ajudá-lo a se banhar. "Eu acho que consigo lidar com um sabonete e uma escova de dente sozinho."

Harry teve que se limitar a discretamente checar no Draco a cada minuto, quietamente enfiando a cabeça pela porta do banheiro, apesar de que tudo que conseguiu obter com isso foram óculos embaçados. Ele finalmente decidiu arrumar a cama do Draco, ao invés disso. Assim que terminou, ele ouviu o barulho do chuveiro parar e a água da pia correndo, e então o Draco saiu, com uma fragrância doce de lavanda e ervas, parecendo refrescado e muito mais contente.

Enquanto Harry rapidamente escovava os dentes, Draco andou até a janela novamente, olhando para fora. As nuvens pesadas de neve daquela tarde já haviam clareado em sua maioria, deixando apenas pinceladas finas e esfarrapadas que se esticavam como véus esvoaçantes pelo céu escuro e cheio de estrelas.

Uma pequena lua crescente liberava uma luz pálida e misteriosa sobre as paisagens cobertas de neve abaixo. Draco colocou suas mãos contra o vidro gelado e sentiu um momento cortante de reverência ao pensar que ele estava ali dentro, aquecido e vivo e amado, quando ele poderia tão facilmente estar deitado lá fora, frio e imóvel, enterrado embaixo da terra e neve. Harry se juntou a ele, seus braços indo ao redor do Draco por trás, e Draco deixou seus pensamentos deprimentes escaparem no conforto daquele abraço.

Por cima do ombro do Draco, Harry observou o cobertor integral de neve e a memória o bateu com uma dor momentânea de perda. "Eu acho que o campo de Quadribol está todo coberto agora," ele disse tristemente.

Demorou alguns segundos para que Draco entendesse o que o Harry estava dizendo, e então ele se virou dentro do círculo dos braços do Harry para encará-lo, seus braços indo ao redor da cintura do Grifinório. "Você viu meu bilhete?" ele perguntou, sorrindo.

"Eu vi," Harry disse, sorrindo em resposta.

"Foi uma ideia boba. . ." Draco disse, mas ele parecia bastante satisfeito.

"Eu amei," Harry disse.

Draco respondeu a isso simplesmente com um beijo.

"Venha," Harry disse, ainda sorrindo, quando eles se afastaram após um momento. "Vamos te colocar na cama."

Harry tinha acabado de cobrir o Draco, quando a Madame Pomfrey entrou no quarto vindo do seu escritório, vestindo sua capa e um gorro de dormir. "Prontos para que eu apague as luzes?" ela perguntou, vendo Harry ainda vestido e sentado na beira da cama do Draco.

"Quase," Harry disse. Ele se virou novamente para o Draco enquanto ela esperava, e sem se importar com o fato de ela estar observando, ele deu um beijo de boa-noite no Draco. "Te vejo de manhã," ele disse suavemente.

Draco segurou a mão do Harry por mais um segundo, e então o soltou, e Harry andou até a cama do lado oposto. "Tá bom," ele disse. "Eu posso me despir no escuro."

A Madame Pomfrey balançou sua varinha e apagou as lâmpadas. "Boa noite, então," ela disse e desapareceu para dentro de seu escritório.

Harry não se preocupou com os pijamas que havia vestido na noite anterior, mas simplesmente ficou de cueca samba-canção e se deitou na cama. Ajeitando-se de costas, ele deitou imóvel, deixando sua consciência se espalhar pelo quarto, sentindo a presença do Draco pinicar seus nervos na forma de estática, flutuando sobre a sua pele, como algo magnético puxando o seu corpo. Ele ponderou se deveria ter lançado o feitiço para adormecer nessa noite, preocupado se o Draco conseguiria dormir bem sem ele. A luz embaixo da porta da Madame Pomfrey se apagou após um minuto, deixando o quarto iluminado apenas pelas piscinas silenciosas de luzes de luar que corriam pelo chão embaixo das janelas, do outro lado do quarto. Ele fechou os olhos, finalmente sentindo o cansaço oriundo do longo dia, e estava começando a cair no sono quando. . .

"Harry?" Um sussurro no escuro. "Está dormindo?"

"Ainda não." Ele ouviu as molas do colchão do Draco rangerem suavemente, e uma forma pálida, quase fantasmagórica na luz do luar, apressou-se pelo quarto para ficar ao lado da sua cama.

Draco ficou ali por um momento, ouvindo, e então rapidamente se juntou ao Harry na cama.

"Draco," Harry protestou fracamente, enquanto se movia para criar mais espaço. "Você não deveria estar fora da cama."

"Tecnicamente falando," Draco disse, ajeitando-se junto ao corpo do Harry, "eu não estou fora da cama."

"Você não deveria estar fora da sua cama," Harry emendou, mas ele não resistiu colocar seus braços ao redor do Draco para puxá-lo para perto.

"Shhh," Draco sussurrou. "Ela não disse que eu tinha que ficar na minha própria cama."

Harry riu muito suavemente. "Eu vou deixar que você explique isso para ela se ela nos apanhar," ele disse.

Draco soltou uma risada curta e quieta. Ele respirou profundamente, soltando a respiração com um suspiro de prazer. "Eu só quero ficar assim com você por mais um tempinho," ele disse, ficando sério, "e então vou voltar." Seus braços se apertaram ao redor do Harry em um abraço. "Eu senti a sua falta."

"Eu também," Harry sussurrou. Ele correu sua mão para baixo nas costas do Draco, escorregando-a embaixo da camisa do pijama, escutando com um pequeno arrepio interno como o Draco respondia com outro suspiro suave ao toque da sua mão. Essa era a primeira vez que eles tinham a chance de ficarem juntos, de apenas se abraçarem, desde que o Draco havia ido para casa passar o Natal, e Harry se sentia imensamente grato por esse momento de calmo prazer. O silêncio do quarto se acomodou ao redor deles, impondo uma sensação de serenidade, confortante em sua simplicidade; uma tranqüilidade nova e muito bem-vinda os preencheu, substituindo todas as inúmeras preocupações e estresses com os quais eles haviam batalhado ultimamente, assim como a paz que vinha depois da tempestade.

"Então," Draco disse com uma voz quieta, finalmente quebrando o silêncio. "Eu vou embora por dois dias e você já está cheio de surpresas. Libertando um elfo-doméstico Malfoy e engravidando garotas. Tem mais alguma coisa que você precisa me contar?" Ele pausou, a qualidade brincalhona da sua voz se transformando em algo mais sério e somente um pouco inseguro. "Alguma coisa com a qual você ainda esteja chateado?"

"Não," Harry disse. "Bem, talvez. . . uma coisa," ele admitiu. "O jogo de xadrez. Você me deixou ganhar. Não, pior que isso, você jogou deliberadamente para me fazer ganhar."

Draco se levantou em um cotovelo para olhar para o Harry. "isso?"

"Não foi justo," Harry disse. "Eu quero jogar de novo."

"Você sabe que eu vou te esmagar, não é?"

"Eu não sei de nada do gênero," Harry disse.

"Vai ser uma partida sangrenta, Harry. Eu sou um jogador muito melhor do que você."

"Você terá que provar isso," Harry desafiou.

"Tá bom, combinado," Draco disse. "E eu vou até deixar você jogar com o branco." Ele sorriu com confiança. "Vá em frente, então," ele disse. "Nós podemos começar agora mesmo."

Harry pensou por um momento. "Peão para C4," ele disse. Ele retirou sua mão debaixo da camisa do Draco e puxou a bainha. "Tira isso," ele disse.

Draco levantou uma sobrancelha, mas se sentou após hesitar por um segundo e começou a desfazer seus botões. "Eu achei que você estava preocupado com a Madame Pomfrey," ele disse, sua voz novamente brincalhona. "E se ela entrar aqui? Ela ficará horrivelmente chocada."

"Ela ficará brava, mas eu sinceramente duvido que ela fique chocada," Harry disse com um sorriso. "Quero dizer, ela te viu sem camisa. De qualquer forma, eu achei que você gostava de chocar as pessoas."

"Isso é verdade," Draco disse. Ele sorriu em resposta e deixou sua camisa cair ao chão. "Minha vez agora," ele disse, deitando-se novamente ao lado do Harry. Dessa vez, ele se ajeitou para que conseguisse descansar sua cabeça no ombro do Harry, e os braços do Harry vieram à sua volta, pele nua tocando em pele nua com uma eletricidade sedosa que fez com eu os dois perdessem a respiração.

Harry abraçou o Draco para perto mais uma vez, e o silêncio do quarto agora guardava um ar silencioso de antecipação. Ele sentiu o suspiro suave de exalação do Draco correr pela sua garganta enquanto a mão do Draco, traçando um caminho de brilho branco como cristal, subia pelo seu estômago e peito nus para descansar, inquieta e quente, logo acima do seu coração cativado.

"Peão para E5," Draco sussurrou. Sua voz estava ansiosa agora, toda brincadeira esquecida. "Havia tantas coisas que eu não podia te contar antes, mas que eu queria contar. Eu tinha medo de querer nós demais. . . e eu achei que se te impedisse de se aproximar demais, talvez você não se machucasse tanto no final. Eu sei agora que estava errado, que não haveria como você não se machucar se eu tivesse morrido."

"Eu teria sofrido demais," Harry sussurrou em resposta. "Mas eu nunca teria te odiado. . . ou me arrependido de qualquer coisa."

O Draco novamente se levantou em um cotovelo, seus dedos correndo pelo pescoço do Harry, e então se entrelaçando em cabelos negros. "Obrigado," ele disse muito quietamente. "Isso significa muito para mim." Ele se inclinou para beijar o Harry. Foi um beijo suave, cheio de afeição e gratidão por tudo que o Harry havia feito por ele, mas era mais do que isso. Expressando todo o amor no coração do Draco, o beijo revelava uma devoção completa e honestamente concedida. E foi o suficiente para acordar o desejo que estivera adormecido entre eles desde os eventos devastadores na clareira da Chave de Portal.

O ar parecia ter ficado pesado e trêmulo ao redor deles com antecipação. Harry sentiu seu pulso acelerar, sentiu o Draco estremecer nos seus braços.

"Eu te quero," Draco disse, uma respiração de palavras contra a boca do Harry, antes de ele beijar o Harry profundamente, acendendo aquela faísca inicial em um fogo crescente de paixão entre eles. "Eu te quero," ele repetiu, "não só agora, mas para toda a minha vida." A voz dele estava baixa, quase inaudível de tanta emoção, mas não havia dúvida da certeza que ressonava daquelas palavras. Ele encostou seus lábios nos do Harry novamente, e então abaixou a cabeça para beijar o canto da mandíbula do Harry, sua garganta, sua clavícula.

"Eu também te quero," Harry sussurrou enquanto todo pensamento de objeção, do local em que estavam, da Madame Pomfrey, até mesmo dos machucados do Draco, sumiam de sua mente com os beijos do Draco. "Eu te quero para sempre," ele disse sem fôlego.

Draco levantou sua cabeça para encarar Harry nos olhos, aqueles olhos verdes brilhando com emoção e refletindo a luz do luar. "O resto da minha vida sempre pertenceu a você," ele sussurrou, e sua boca encontrou a do Harry novamente, beijando-a com uma delicadeza gentil que apenas inflamava o desejo que ambos sentiam.

Harry apertou seus braços ao redor do Draco, puxando-o para baixo, para que o Draco se movesse, ficando a deitar em cima do Harry. O peso do Draco o pressionava para baixo e a intimidade do contato deles entre as barreiras finas de tecido que eles ainda usavam fazia com que tremores corressem pelo corpo do Harry.

Draco abaixou sua cabeça, sua boca ao lado da orelha do Harry. "Você vai fazer a magia, Harry?" ele perguntou, sua voz baixa.

"As coisas ficaram um pouco fora do controle da última vez, lembra?" Harry sussurrou. Mas seu coração bateu mais rápido, acelerado pelas memórias daquela noite, de como a magia havia juntado os dois tão próximos que eles pareciam ter derretido um no outro.

"Sim," Draco sussurrou. "É exatamente o que eu quero que aconteça."

As palavras do Draco fizeram com que Harry sorrisse. "Eu também," ele sussurrou e beijou a lateral do rosto do Draco. Fechando os olhos, Harry deixou sua consciência se afogar no centro da sua própria magia em uma fusão fluida de emoções e poder. Sem usar um feitiço, Harry liberou esse poder, deixando-o transbordar por si e através das suas mãos até o Draco. Uma consciência acentuada da presença física do Draco ecoava para ele na batida de dois corações quase idênticos, no ritmo sincronizado se suas respirações. Uma jorrada de amor e magia fluiu por ambos, transbordando de um para o outro em um círculo infinito, através de todos os vínculos mágicos que os uniam.

Fronteiras de individualidade se borravam e se uniam; todo sentimento de separação desapareceu entre eles, e como duas correntes de água correndo juntas, eles se tornaram um. O fogo frio do toque do Draco era indistinguível do toque das próprias mãos quentes do Harry na pele do Draco; o gemido baixo, murmurado do Harry ressonou com o som da voz do Draco. Mãos encontraram mãos, dedos entrelaçaram-se, pulso pressionado contra pulso, e o tempo paralisou enquanto eles se perdiam um no outro e na força de suas paixões compartilhadas. O carinho urgente de seus beijos e o movimento ardente e sensual de seus corpos criaram um calor crescente que queimava em flashes brilhantes de faíscas douradas e diamantes, até parecer que o mundo estava queimando, dissolvendo ossos e derretendo pensamentos.

Eles se seguraram com força um no outro enquanto o mundo gradualmente se esfriava e coalescia novamente no quarto silencioso e iluminado pela luz do luar, enquanto o tempo voltava delicadamente a existir mais uma vez. Respirações e corações acelerados se acalmaram, a magia declinou, e todos os seus pensamentos lhes voltaram por um momento, suspensos naquela sensação nébula de calma, de contente compleição.

Harry finalmente se moveu e beijou o lado da face do Draco que estava pressionada contra a sua. Ele se sentiu profundamente emocionado, profundamente apaixonado, e como se nunca fosse conseguir encontrar modos suficientes de expressar isso. "Eu te amo," ele sussurrou, e o Draco murmurou suavemente em resposta.

Draco beijou o ombro do Harry, levantando sua cabeça para encarar Harry nos olhos. Mesmo no quarto escurecido, o contato visual era intensamente íntimo; tudo que eles haviam se tornado um para o outro sendo expresso profunda e claramente. "Eu também te amo," Draco disse com um suspiro, fazendo seus narizes tocarem.

Um pequeno arrepio correu pelo Harry e seu coração pulou, revirando-se, enquanto ele percebia que aquelas palavras, ditas com tanta simplicidade e genuinamente proferidas, eram suficientes para envolver todas as emoções esmagadoras que sentira agora pouco, porque ele repentinamente soube que o Draco as entendia perfeitamente. Tudo que o Harry sentia, ele via refletido nos olhos prateados do Draco. E Harry soube, também, que nenhum deles teria qualquer arrependimento, não importa quão longo ou curto o para sempre deles fosse.

Por mais alguns minutos eles ficaram deitados juntos em um estado de bêbada felicidade, desejando que o momento inevitável de separação pudesse ser adiado, mas finalmente ambos se sentaram, sabendo que se esperassem mais eles cairiam no sono e a Madame Pomfrey certamente os descobriria juntos durante a manhã. Harry tentou lançar um feitiço de limpeza com magia sem varinha e descobriu que funcionava perfeitamente, o que deu ao Draco mais uma desculpa para beijá-lo.

"Você quer que eu lance o feitiço para adormecer hoje?" Harry perguntou, enquanto o Draco finalmente saía de sua cama.

"Não," Draco disse após um momento de hesitação. Ele se inclinou para apanhar seus pijamas do chão. "Por algum motivo, eu acho que não vou mais precisar deles," ele disse suavemente, dando ao Harry um último beijo longo e demorado antes de cruzar o quarto para voltar à sua própria cama.

Draco acordou lentamente na manhã seguinte enquanto os eventos do dia anterior corriam pela sua mente em pequenas revelações maravilhosas de liberdade. Toda a ansiedade e todo o desespero em relação ao futuro que tinham coberto seus últimos dois dias com camadas de sombras haviam se levantado e voado para longe. Ele se sentia leve e bem; ele estava vivo. A dominação insensível do seu pai finalmente estava quebrada. O futuro se estendia à sua frente agora, limpo e em branco, desconhecido e tremendo com inesperada esperança. Ele pensou nas coisas que o Harry havia dito na noite anterior, especialmente sobre o Vínculo entre Magos. Isso em si o preenchia com um sentimento incrível de excitação. Havia tantas possibilidades emocionantes. E mais importante, significa que ninguém mais iria questionar seu direito de ficar com o Harry.

Ouvindo passos suaves, ele abriu os olhos a tempo de ver a Madame Pomfrey quietamente abrir a porta do corredor e sair. Do outro lado do quarto, Harry também se sentou, como se estivesse esperando por aquele momento. Harry alcançou seus óculos na mesa de cabeceira, colocando-os, e viu que o Draco estava acordado. Eles sorriram um para o outro, seus pensamentos cheios de memórias da noite anterior e de antecipação pelo dia à frente que eles poderiam passar juntos.

Dessa vez foi Harry quem, após rapidamente vestir seus jeans e camisa, foi até a cama do Draco, certo de que agora que amanhecera ele não estaria quebrando sua promessa à Madame Pomfrey. "Como você está se sentindo hoje?" ele perguntou.

"Bem melhor," Draco disse. "Como se eu fosse ficar louco se tivesse que ficar mais um dia de cama. Ou," ele adicionou, puxando o Harry para um beijo, "se eu tiver que ficar, é bom que você também esteja nela."

Harry riu e retornou o beijo. "Vamos conversar com a Madame Pomfrey quando ela voltar."

"Eu estive pensando sobre o Vínculo entre Magos," Draco disse, "tentando me lembrar do que já li sobre o assunto. Além do aspecto emocional do vínculo, eu acho que significa que nós podemos lançar feitiços juntos." Ele levantou uma sobrancelha de forma provocante. "Eu acho que devemos tentar."

"Agora?"

"É claro que agora."

"Eu não sei," Harry disse. "O Dumbledore disse que precisávamos ter cuidado – que a gente precisava de treino para usar o Vínculo corretamente. Lembra de como você se sentiu cansado quando eu transfigurei aquela bola de neve? Você ainda está se recuperando de um terrível machucado na sua aura mágica. Eu não quero fazer nada que possa causar um relapso."

"Eu acho que estou bem o suficiente," Draco disse. "E eu apenas me senti cansado por alguns segundos daquela vez. Dessa vez eu estarei lançando junto com você – isso pode fazer uma diferença. Vamos lançar algo bem fácil."

Harry ainda parecia duvidoso. "Como o quê?"

"Primeiramente, faça algo sozinho – para praticar." Draco observou a cama do Harry do outro lado do quarto. "Você acha que consegue estourar aquele travesseiro lá?"

Harry seguiu o olhar do Draco e lentamente sorriu. "Talvez." Ele fechou os olhos por um momento, atraindo sua concentração para dentro de sua magia. Então imaginando o travesseiro estourando em sua mente, ele direcionou sua magia na direção dele através de sua mão estendida. Houve um pequeno e audível bang! do outro lado do quarto, como o som de uma bexiga estourando. Harry ouviu o Draco prendendo a respiração e soltando uma pequena risada de triunfo, e abriu os olhos. O travesseiro na sua cama realmente tinha estourado, um pequeno rasgo no topo e embaixo fazendo uma cascata de penas cair nos lençóis.

"Funcionou!" Harry disse, virando para o Draco com um largo sorriso, mas sua animação rapidamente virou preocupação. "Te incomodou?"

"Eu senti," Draco disse honestamente. "Mas apenas um pouco – como um pequeno puxão dentro de mim." Ele sorriu em resposta. "Tente novamente, mas dessa vez nós faremos juntos. Talvez se nós dois tentarmos, podemos fazer o travesseiro estourar ainda mais." Então ele olhou o Harry com curiosidade. "O que devo fazer?"

"Hã. . . apenas visualize, eu acho," Harry disse com incerteza. "É o que eu faço, então eu envio a energia mágica para fora como aprendi a fazer com a magia de cura."

Draco apanhou a mão do Harry, entrelaçando seus dedos. "Como eu nunca fiz isso antes, talvez não funcione," ele disse. "É mais uma coisa que terei que aprender. Mas vamos tentar – só para ver o que acontece."

Harry concordou e fechou os olhos novamente. "No três," ele sussurrou, concentrando sua magia novamente.

Draco fechou os olhos também e se concentrou o máximo que conseguia em estourar os travesseiros.

"Um. . . dois. . . três. . ."

KA-BOOM!

Todo colchão e travesseiro no quarto explodiram com um som estrondoso. Uma chuva de penas brancas os cegou em todas as direções.

Por um momento, era impossível de enxergar, e então quando as penas caíram para ficar por cima de tudo, Harry olhou em volta, chocado diante do desastre que haviam acabado de criar na Ala Hospitalar. "Maldição," ele disse com a voz baixa. "Acho que é por isso que precisamos de treinamento."

"Realmente," Draco disse, igualmente chocado. Então ele se virou para o Harry como se tivesse acabado de ter uma revelação chocante. "Você entende o que isso significa, não é?"

"Sim," Harry disse, limpando as penas do seu cabelo. "A Madame Pomfrey vai nos matar."

"Harry, fala sério." Draco disse. "Usando nossas forças mágicas e sua habilidade de lançar magia sem varinha e sem feitiço, você terá uma chance real contra o Lorde das Trevas. Você percebe o quão perigoso você poderia ser agora, não é?"

"Eu não quero ser perigoso," Harry disse com um suspiro profundo de irritação. "Eu já te disse, não quero mais lutar."

Draco lançou ao Harry um olhar calmo, incrédulo e levemente desaprovador. "Você disse que não queria lutar o Voldemort sozinho, e agora não precisará. Será brilhante."

"Não, não será," Harry disse, teimoso. "É você que não entende. Não será brilhante ou glorioso ou nada do gênero. Será horrível e sujo e desagradável."

Draco balançou a cabeça. "É claro," ele disse. "Será tudo isso também. Mas ele tem que ser impedido, Harry."

"Eu sei que ele tem que ser impedido, Draco." Harry olhou para suas mãos, sentindo quase como se elas o tivessem traído. "Eu só. . . por que tem que ser eu. . . ou nós?"

"Você está me dizendo que acabou de se tornar a maio arma secreta que o mundo mágico poderia imaginar e você não quer?" Seu tom era incrédulo.

Harry suspirou novamente. "É isso que estou dizendo?"

"Sim!" Draco alcançou uma mão e apanhou a do Harry, segurando-a com firmeza. "Isso é para sempre," ele disse. "Mas para sempre não vai significar nada depois que o Lorde das Trevas controlar tudo. Ele destruiu nossas famílias. Agora nós realmente temos a chance de fazer algo a respeito, de destruí-lo de uma vez por todas."

"Eu não posso mais lutar por vingança, Draco."

Draco observou o Harry por um longo momento, e então disse com a voz mais gentil. "E quanto ao futuro da sua filha? E quanto à nossa família?" ele perguntou. "Eu quero aquele futuro sobre o qual conversamos, Harry. Eu desisti dele uma vez e não vou desistir novamente. Você não acha que isso merece ser defendido?"

"Sim," Harry disse, muito suavemente. "É claro. Mas. . ." Suas palavras falharam em um silêncio que pendurou entre eles.

"Eu vou lutar com você, Harry," Draco finalmente disse, "e eu vou lutar por você. Mas eu não posso lutar contra você. Eu não posso fazer isso se você não fizer. Nós temos que agir juntos."

Harry encarou as mãos entrelaçadas deles, deitadas no meio do tapete de penas brancas, enquanto escutava as palavras do Draco, e as palavras cutucaram uma memória, fraca e nebulosa a princípio, que repentinamente ficou clara. Harry levantou a mão deles. "Draco," ele disse com uma voz baixa e reverente. "Eu vi isso. Eu sonhei com isso. Acabei de me lembrar. Na primeira vez que passei a noite inteira com você e eu tive um pesadelo. Você me acordou, lembra?"

Com a concordância do Draco, ele continuou. "Eu estava olhando o exército do Voldemort e me sentia tão cansado e enojado com tudo aquilo. . . e tão sozinho e aterrorizado de nunca conseguir lutar contra todos eles. Mas então eu senti alguém apanhar minha mão. . . e uma força e uma confiança incríveis jorraram dentro de mim. . ." Ele levantou o olhar e encontrou os olhos do Draco. "Foi então que você me acordou e você estava segurando a minha mão e eu achei que era essa a razão do meu sonho. . . mas. . ." Harry se endireitou, seus olhos brilhando. "Significa isso aqui," ele disse quietamente. "Eu não tenho mais que lutar sozinho."

"Não," Draco disse. "Você não tem." Os olhos dele encontraram os do Harry com seriedade, um pacto solene se formando entre eles sem palavras, mas um momento depois uma sobrancelha foi erguida e ele lançou ao Harry um sorriso entretido. "Eu não acabei de falar a mesma coisa?"

Harry não respondeu. Ele apenas se inclinou para beijar o Draco.

A porta da Ala Hospitalar foi aberta e eles ouviram alguém arfar. Os garotos se separaram e viram a Madame Pomfrey parada na entrada, uma mão cobrindo sua boca. Penas estavam flutuando aos seus pés e corriam pelo chão com o vento vindo da porta aberta.

"O que aconteceu aqui?" Ela exigiu.

Harry segurou a mão do Draco com mais força, fechou os olhos e, lembrando-se do feitiço que a Hermione tinha usado no colar do Draco, pensou, Reficio! Um furacão de penas instantaneamente preencheu o quarto, acompanhado de um barulho de sucção. Então abruptamente, com um alto POP! tudo estava de volta ao normal.

A Madame Pomfrey, com seu chapéu torto em cima da sua cabeça, marchou até a cama e encarou os dois garotos.

"Desculpe," Harry disse, tentando não sorrir. "Nós apenas. . . hã, meio que descobrimos o que significa um Vínculo entre Magos."

Draco, por outro lado, estava sorrindo sem qualquer fingimento ou desculpa.

A Madame Pomfrey olhou de um garoto para o outro, e então andou até um dos armários e voltou com as roupas do Draco. "Vista-se, Sr. Malfoy," ela disse secamente. "Isso também significa que você está mais do que pronto para ser liberado."

Pouco tempo depois, Harry e Draco estavam caminhando vagarosamente pelo corredor, o braço de um ao redor da cintura do outro, Harry carregando a capa pesada de inverno do Draco e seus dois livros raros de Poções. Eles tinham acabado de sair da Ala Hospitalar e estavam a caminho da Torre da Sonserina quando a Hermione e o Rony aparecerem pela curva no fim do corredor.

As sobrancelhas do Draco se levantaram. "Eu achei que ninguém sabia que estávamos aqui," ele disse com um tom baixo.

Com um pequeno grunhido interno direcionado à sua própria memória, Harry se virou para o Draco, falando rapidamente. "A Hermione foi para a Toca com o Rony durante o Natal para anunciar o noivado deles, então eles estavam presentes quando o Arthur Weasley se envolveu em nos ajudar a tirar você de lá. Ele apenas contou para eles que você foi machucado por uma Maldição Negra. Eles não sabem sobre a Maldição da Morte ou o fato de eu ter te curado." Ele pausou para respirar fundo, e continuou com tom de desculpa. "Eles vieram visitar ontem, também, antes de você acordar, e pediram que eu dissesse que eles estavam felizes por você estar bem. Eu esqueci."

"Os dois?" Draco perguntou, um pouco cético.

"Os dois," Harry repetiu firmemente. Ele iria agora aproveitar todas as oportunidades para encorajar o Rony e o Draco a colocarem o passado para trás, mesmo se tivesse que embelezar um pouco a verdade.

Houve um momento de silêncio desconfortável quando os quatro se encontraram no meio do corredor, e então a Hermione deu um passo à frente. "Ah, maldição," ela disse, "eu não me importo se você não gostar disso," e ela jogou seus braços ao redor do pescoço do Draco, abraçando-o apertadamente. "Estou tão feliz por não termos te perdido," ela disse, sua voz visivelmente trêmula.

Por um momento, Draco ficou paralisado onde estava, chocado, e então se separou do Harry para retornar o abraço. "Também estou feliz," ele disse suavemente.

A Hermione se afastou para olhá-lo nos olhos e ele viu que os cílios dela estavam úmidos. "Se você jamais até mesmo contemplar fazer algo do gênero novamente," ela disse com a sua voz mais poderosa de Monitora Chefe, "eu mesma vou te matar."

"Sim senhora," Draco disse com a voz bastante submissa, mas ele sorriu para ela de forma brincalhona.

"Tá bom então," ela disse, sorrindo em resposta e soltando-o.

Draco se virou para o Rony. "Você poderia agradecer o seu pai por mim?" ele disse. "Eu fiquei sabendo que ele me ajudou quando eu. . . me machuquei."

"Sim," Rony disse, estudando o Draco cuidadosamente, incerto de como interpretar esse novo Malfoy contrito e sério.

"Ah," Draco disse, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa, "e você poderia dar isso para ele." Ele apanhou sua capa do Harry e a revirou até encontrar o bolso correto, e então retirou um pedaço em branco de pergaminho, o qual ele passou ao Rony. "Parece estar branco," ele explicou enquanto o Rony o abria, "mas é uma lista invisível de nomes e endereços de supostos parceiros de negócios do meu pai, pessoas que estavam agindo como álibis para o meu pai enquanto ele trabalhava para o Lorde das Trevas." Ele esperou até o Rony olhar para ele e encontrou os olhos azuis firmemente. "Eu acredito que a maioria dos relatórios secretos do meu pai na mansão esteja sob o mesmo feitiço – para ficarem aparentemente em branco."

"Você sabe como lê-los?" Hermione perguntou.

"Sim," Draco disse, "apesar de ele possivelmente ter mais de um feitiço. Ele não confiava muito em mim com seus segredos. O feitiço nesse é um que nossa família costumava utilizar em mensagens privadas."

"Eu vou passar para o Pai," Rony disse. Ele redobrou a lista e cuidadosamente a colocou no bolso, enquanto o Draco ensinava à Hermione o feitiço que revelaria o texto oculto. "Tenho certeza que vai ajudar," ele disse quando a Hermione memorizou corretamente o feitiço, "mas não ache que eu vou esquecer o fato de que você quase fez o Harry ser morto – não importa de que lado você está."

"Rony, pára," Harry protestou, mas o Draco colocou uma mão no seu braço.

A Hermione franziu as sobrancelhas, pronta para pular e defender o Draco, mas o Rony não olhou para ela. Ele manteve seus olhos fixados no Draco. "Então, na hipótese de você ter outras ideias brilhantes e colocar o Harry em perigo, Malfoy," ele continuou rapidamente, antes que ela pudesse dizer alguma coisa, "eu continuarei te observando."

"É mesmo, Weasley?" Draco disse, retornando o olhar do Rony sem vergonha, um pouco de seu velho e irritante tom de desprezo claro em sua voz.

"É," Rony disse. "Como um falcão."

"Bem," Draco disse, "como eu não pretendo fazer nada para colocar o Harry em perigo, não acho que vou me importar." Ele pausou. "Na verdade," ele adicionou pensativamente, um sorriso safado aparecendo nos cantos dos seus lábios, "você pode me observar o quanto quiser. Mas você pode se arrepender."

"Posso, é?" Rony perguntou com irritação. "E por quê?"

"Porque," Draco disse, seus olhos indo até o Harry, "toda vez que eu te pegar me observando, eu vou fazer isso – " Ele repentinamente colocou seu braço ao redor do pescoço do Harry e puxou o outro garoto para um beijo bastante demonstrativo.

"Arghhh!" Rony gemeu. Ele virou de costas e viu a Hermione assistindo àquele beijo com um sorriso. "Eu aposto que você sabia que ele ia fazer isso," ele acusou. "Não sabia?"

"Eu tinha um palpite," ela disse. "Ele realmente parece gostar de ter uma audiência." Ela riu. "E o Harry certamente parece não se importar."

"Malditos exibicionistas," Rony murmurou.

Com esse comentário, o Harry e o Draco se separaram, não conseguindo deixar de rir.

Rony assistiu ao Draco rindo com o Harry, sentindo uma estranha mistura de ciúmes e descrença. A pontada de ciúmes ele afastou imediatamente – ele realmente queria que o Harry fosse feliz e isso significava que ele tinha que deixar o Harry ficar com a pessoa que ele amava, assim como o Harry havia feito com ele e a Hermione. Mas ele nunca tinha visto o Draco rir daquele jeito e, por um momento, ele simplesmente não conseguia acreditar que esse menino era o mesmo babaca irritante e mimado com quem ele havia brigado desde o primeiro ano. Certamente não seria possível que alguém mudasse tanto. E apesar de ser às custas do Rony, ele conseguia ver que até mesmo a maneira como o Draco ria dele agora era diferente. Toda animosidade de seus anos mais jovens havia desaparecido. Agora era claramente uma provocação inofensiva, sem a intenção de zombar ou magoar.

Todas as noções firmemente estabelecidas do Rony acerca do Sonserino pareciam ter sido sistematicamente desafiadas nos últimos dias e ele viu que estivera longe da verdade. Era muito difícil de engolir – o fato de que ele estivera errado durante todos esses anos – mas ele analisou a felicidade no rosto do Harry e, sinceramente, no rosto do Draco também, e finalmente aceitou a derrota.

"Precisa de outra demonstração, Weasley?" Draco perguntou marotamente. Ele puxou o Harry para perto novamente, sorrindo como se fosse ficar felicíssimo em continuar.

"Não!" Rony disse. "Eu já vi o suficiente." Ele quis parecer bravo, mas percebeu com surpresa que, na realidade, não estava mais tão irritado. De alguma forma, com aquela frase, ele soube que tinha visto o suficiente, o suficiente para eliminar os últimos sentimentos remanescentes de dúvida, abrindo caminho para os primeiros de confiança.

"Que pena," Draco disse, fingindo estar desapontado por um momento e ainda brincando, mas estava claro que ele de alguma forma tinha entendido o significado subliminar nas palavras e no tom do Rony, porque ele sorriu, repentinamente direcionando aquele sorriso genuíno e do coração diretamente para o Rony pela primeira vez.

Aquele sorriso sempre arrancava a respiração do Harry e fazia com que suas pernas virassem gelatina, e apesar de a resposta do Rony nem chegar perto de ser tão emocionalmente intensa, ele estava longe de ser imune aos poderes daquele sorriso.

Independente de sua vontade, ele sorriu em resposta.

Apesar do quanto o Harry e o Draco queriam passar aquele domingo juntos e sozinhos, não foi o que aconteceu. O Rony e a Hermione caminharam com eles até o quarto do Draco. O Rony até mesmo se ofereceu para carregar os livros pesados do Draco escada acima para que o Harry pudesse ajudar o Sonserino a subir as escadas. Bem, quer dizer, ele se ofereceu depois que a Hermione lhe deu uma cotovelada significativa enquanto o Harry e o Draco não estavam olhando. Mas o Rony estava honestamente impressionado com o quarto, e Harry conseguiu mantê-lo longe da janela, para que não percebesse a vista oportuna que o Draco tinha do campo de Quadribol, apontando para o lindo tabuleiro de xadrez. Isso provou ser uma brilhante distração quando o Rony e o Draco se sentaram em cadeiras na frente do fogo, reiniciando o tabuleiro para as posições iniciais, descobrindo uma paixão mútua no jogo.

Rony manuseou cada peça com admiração escrita em todo seu rosto coberto de sardas. "Eu nunca vi nada como isso," ele disse. "Esse conjunto deve ter mais de um século".

"Ele tem," Draco disse com orgulho. "A minha avó herdou o tabuleiro do avô dela, e o passou para mim."

"Talvez a gente possa. . . hã. . . jogar um dia desses?" Rony sugeriu, suas orelhas ficando rosas, surpreendendo todos, inclusive a si mesmo, com sua camaradagem.

Draco deu de ombros, apesar de o Harry perceber que ele estava feliz. "Talvez," ele disse. "Mas você merece saber que eu quase nunca sou derrotado." Ele deu um sorriso secreto ao Harry.

"Bem, você merece saber que isso está prestes a mudar," Rony disse, uma luz de desafio brilhando em seus olhos.

A Hermione e o Harry trocaram olhares bastante satisfeitos.

Eles poderiam ter iniciado um jogo ali mesmo, mas a Hermione relembrou o Rony de que eles tinham que ir. Como o Harry e o Draco queriam conversar com o Dumbledore, os quatro caminharam juntos até o escritório do diretor. O Rony e a Hermione utilizaram o Pó de Flu na lareira gigantesca do diretor e voltaram à Toca. Então o Harry e o Draco se sentaram com o Dumbledore, e enquanto se deliciavam com chá e muffins de framboesa, Harry soltou uma confissão bastante trêmula em relação à sua iminente paternidade.

Dumbledore observou o Harry silenciosamente por cima dos seus óculos de meia-lua, sua expressão bastante enigmática, porque apesar de suas sobrancelhas prateadas estarem franzidas, seus olhos estavam brilhando. Ele concordou quando Harry explicou os planos da Cho. "Até que Voldemort seja derrotado, qualquer criança sua estará em terrível perigo."

"Eu sei," Harry sussurrou. Ele se sentia pronto para escorregar até o chão. O Draco o alcançou e apanhou sua mão.

"Mas você estava certo em me contar," Dumbledore continuou. "Eu vou fazer todo o possível para mantê-la em segurança."

"Obrigado, senhor," Harry disse com gratidão e alívio, sentindo como se isso fosse muito mais do que ele tinha direito de esperar.

Com isso finalizado, o Draco pediu permissão para visitar sua mãe no Hospital St. Mungus, e o Dumbledore usou seu Pó de Flu novamente, acompanhando eles até lá pessoalmente. Foi um encontro curto e emocionante. Narcissa se levantou com dificuldade de sua cadeira quando avistou o Draco e lágrimas correram pelos olhos fechados dela enquanto ela o abraçava firmemente por um longo, longo momento. Ela logo se recuperou e o Draco lhe apresentou o Harry. Ela ficou bastante chocada, entretanto, com expressões de desagrado e descrença correndo pela sua face magra, ao descobrir que seu atraente filho havia escolhido esse menino, cujo cabelo parecia um ninho, como seu parceiro. O fato de o Harry ter sido o responsável por salvar a vida do Draco, no entanto, ajudou muito a suavizar a desaprovação dela. Mas o choque emocional a deixou cansada, e conversas acerca do que seria feito com a Mansão e outros arranjos poderiam esperar até ela estar mais forte. Os garotos a deixaram para descansar e retornaram com o Dumbledore até Hogwarts, para um muito necessitado almoço.

Naquela tarde, enquanto o Draco também descansava, Harry se sentou na escrivaninha do loiro e escreveu uma carta para a Cho. Além de assegurá-la de sua crescente felicidade quanto ao bebê e sua aprovação dos planos dela, ele dedicou grande parte da carta para explicar o máximo que podia revelar acerca do seu novo relacionamento com o Draco. Foi difícil colocar tudo em palavras, e demorou mais de uma hora, mas ele se sentiu aliviado e muito mais tranqüilo depois de terminar. Ele estava agora observando a Edwiges voar para longe com a carta quando outra coruja apareceu, caindo e subindo, voando com dificuldade em uma linha trêmula na direção da janela aberta do Draco.

Harry reconheceu o Errol imediatamente e se esquivou do caminho. A coruja pousou na beira da janela com um só pé, e deslizou até a beira, caindo com um barulho alto e um desesperado farfalhar de asas no chão abaixo. Ele ficou deitado lá de costas com as duas pernas levantadas, um bilhete pendurado em uma delas. Com um olhar profundamente exausto na direção do Harry, ele prontamente caiu no sono. Harry desfez o bilhete e rapidamente o leu, então fechou a janela e foi acordar o Draco. Eles haviam sido convidados para um jantar na Toca.

Dumbledore permitiu que eles fossem e deixou que eles viajassem novamente pelo Pó de Flu do seu escritório. O jantar foi maravilhoso; a Molly se superou com a comida, e o Draco, para seu grande prazer e embaraço, estava conquistado. Felizmente Harry conseguiu interceptar e confiscar a "oferenda de paz" que o Fred e o Jorge haviam entregado ao Draco. "A gente só queria dar boas-vindas à família," eles insistiram com um ar inocente que não enganou ninguém enquanto Harry retornava a caixa de Caramelos Incha-Língua e Cremes de Canários.

Na quarta-feira seria a virada do ano, e a Professora McGonagall deixou o Harry e o Draco saírem antes da detenção. Era na realidade mais uma aula do que uma detenção – ela tinha começado a lhes ensinar a controlar tudo que envolvia o Vínculo entre Magos – mas para manter as aparências, eles chamavam de detenção. Snape tinha escravizado eles nas masmorras durante o dia inteiro na segunda-feira, até a McGonagall descobrir. Com sua firme autoridade de vice-diretora, ela havia insistido que pelo resto da semana os meninos fossem autorizados intervalos adequados, para depois servirem detenção com ela às tardes. Como Harry tinha certeza de que já havia limpado caldeirões queimados e nojentos o suficiente para uma vida inteira, especialmente enquanto o Draco estava simplesmente re-estocando ingredientes de poções no depósito da escola, um trabalho que o Snape declarara que o Harry não era "qualificado" para fazer, ele estava extremamente satisfeito com a intervenção da professora.

Eles aproveitaram completamente a mini-férias e passaram o tempo sozinhos no quarto do Draco, terminando o jogo de xadrez que eles haviam iniciado na Ala Hospitalar, e aproveitando outro jantar privado e romântico. O Dobby tinha se atrapalhado todo para servir "os incríveis e honráveis Magos" desde sua reunião emocionante com seu irmão Nobby, e ao pedido do Harry ele ficou feliz em refazer o feitiço na mesa do quarto do Draco para que servisse automaticamente a comida. Harry tinha a suspeita de que eles haviam ganhado até mesmo sobremesas extra-especiais que nem mesmo as mesas no Salão Principal tinham.

Draco ganhou o segundo jogo deles com facilidade, exatamente como tinha dito que faria, e depois do jantar delicioso à luz de velas, Harry pagou o preço sem reclamações. Deitado agora nos braços do Draco, ele se sentia sem ossos e derretido, derramado quente e lânguido como uma poça de luz solar. Seu pulso cantava em seus ouvidos, calor se concentrava embaixo das suas mãos que estavam descansadas em pele quente, e o ar esfriava sua nuca, onde seu cabelo estava úmido. Ele se levantou com um pouco com esforço e ficou em um cotovelo para observar o rosto do Draco. Sua mão correu levemente pelo peito nu do Draco, criando um rio de faíscas douradas brilhantes por onde passava. Olhos cinza claros, carinhosos e satisfeitos e sonolentos, abriram-se.

"Melhores fogos de artifício de Ano Novo de todos os tempos," Harry sussurrou.

Draco sorriu com preguiça. "Que fogos?"

Harry inclinou sua cabeça e beijou o Draco suavemente. "Esses," ele disse. "Eles foram bastante espetaculares."

"Ah," Draco disse, puxando o Harry para baixo, dando outro beijo mais lento e provocante. "Quem disse que eles acabaram?"

E realmente, era quase meia-noite quando eles finalmente se levantaram e se vestiram rapidamente para se juntarem às festividades do castelo. Draco agarrou as vassouras do canto de sua prateleira e eles voaram pela janela aberta. Era uma noite fria e clara; o ar estava gelado e fresco com neve recente, o céu estava iluminado com estrelas e uma lua brilhante. Eles aceleraram em uma corrida emocionante, perseguindo um ao outro ao redor do castelo, cachecóis e capas flutuando atrás deles, e finalmente parando para pairar a uma pequena distância da Torre de Astronomia.

Uma festa para os funcionários e professores estava bombando dentro das muralhas da Torre da Astronomia. Hagrid, vestindo seu melhor terno peludo marrom e uma gravata listrada laranja, acenou para eles com um frasco enorme de hidromel em uma mão e duas canecas menores de cerveja amanteigada quente na outra. Harry e Draco voaram até ele para pegar as cervejas amanteigadas, mas se recusaram a pousar. Como no ano que vem seriam membros do corpo docente, eles haviam sido convidados, mas nenhum dos dois se sentia confortável ainda com a ideia de frequentar festas com seus professores. Na realidade, o fato de que os professores sequer tinham festas era um choque suficiente, já que isso tinha sido bem escondido dos estudantes.

Pairando logo acima das ameias, Harry e Draco bateram suas canecas em um brinde e as viraram de uma vez, e então colocaram as canecas vazias na beira do parapeito. Harry sorriu ao ver a Madame Trelawney, um copo de xerez na mão e luar refletindo em todas as direções a partir de seus grandes óculos de lentes grossas, dançando com. . . bem. . . ninguém. Ela estava simplesmente balançando e fazendo piruetas alegramente para lá e para cá como se houvesse uma sintonia tranquila que apenas ela conseguia escutar.

Draco puxou o Harry para perto. "Esse trabalho talvez não vá ser tão chato quanto eu pensei," ele riu.

"Eu não sei," Harry riu também. "Assumir as aulas de Poções dos primeiros e segundos ano sob a supervisão do Snape. . ."

Maiores conversas, entretanto, foram impedidas quando os sinos da torre do relógio bateram, sinalizando a hora da meia-noite, e um grande coro de "Feliz Ano Novo!" tomou conta do parapeito. O Flitwick e a McGonagall lançaram grandes faíscas azuis, vermelhas, roxas e laranjas no ar com suas varinhas, os quais explodiram e desenharam no céu violeta-escuro. A Professora Sprout enviou um surto de brilhantes serpentinas verdes que pareciam formar uma videira crescente, que explodiu em flores de faíscas rosas e amarelas. Até mesmo o Dumbledore conjurou um grande dragão de fogos de artifício que decolou ao céu e explodiu em uma chuva de estrelas multicoloridas e chiantes e rodas giratórias. Harry e o Draco deram as mãos e enviaram suas adições mágicas de fogos de artifício ao céu. Uma bola gigante e brilhante de faíscas douradas e cristais estourou acima de todos com um alto estalo, trazendo aplausos entusiasmados da torre.

Outros foguetes e fogos de artifício foram soltos, mas Harry, ainda segurando a mão do Draco, inclinou sua vassoura e levou o Draco mais alto na direção do céu brilhante e escuro.

"M-F?" Harry perguntou com uma voz baixa, quando eles pararam novamente para pairar. "Você acha que nós estaremos aqui ano que vem?"

"Shhhh." Draco o puxou para perto. "Primeiro beijo para o Ano Novo, Harry," ele disse suavemente, inclinando-se para beijar o Harry no mesmo momento em que uma linha de foguetes explodiu acima deles em uma fonte de estrelas coloridas. Harry nunca soube depois se as explosões de luz e os altos barulhos haviam sido fogos de artifício ou simplesmente o impacto daquele beijo e a batida forte do seu coração, mas de uma coisa ele tinha certeza absoluta. Era um ano novo agora, e tudo havia mudado.

"Feliz Ano Novo, Draco," Harry sussurrou, enquanto eles se abraçavam apertadamente acima do castelo que seria, por enquanto, a casa deles.

"Feliz Ano Novo, M-C," Draco sussurrou em resposta.

Era um ano novo cheio de possibilidades ao mesmo tempo excitantes e assustadoras. Mas seja lá o que acontecesse, não importando quão incerto o futuro deles fosse, o Harry e o Draco sabiam sem sombra de dúvida que eles enfrentariam tudo juntos.

Fim do Capítulo 18

Fim da Parte III.

EPÍLOGO

And the appeal, partner
Of this deal, partner
Is we all stand to win
You and me, the lady also

E o apelo, parceiro
Desse acordo, parceiro
É que todos nós temos a ganhar
Você e eu, e a dama também

Who'd ever guess it?
This would be the situation
One more complication

Should be neither here nor there

Quem adivinharia?
Que essa seria a situação
Mais uma complicação
Não deveria ser aqui nem lá

Letras de "The Deal (No Deal)" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus

Muitos dos Sonserinos e alguns outros estudantes de outras casas perderam seus pais, e em alguns casos também suas mães, para a prisão de Azkaban na operação rápida e silenciosa do Ministério para prender os Comensais da Morte listados por Lucius Malfoy. Algumas das prisões foram chocantes, revelando membros importantes da comunidade, enquanto outros não revelaram surpresa alguma. A maioria desses estudantes declinou a oportunidade de retornar à Hogwarts após as festividades de Natal. Os Sonserinos que voltaram, incluindo Crabbe e Goyle, e a Pansy Parkinson – uns dos poucos cujos pais não foram nomeados – se juntaram para formar uma inesperadamente sólida barreira insular ao redor do Draco. A Pansy se tornou uma defensora particularmente fiel do restaurado líder Sonserino. Ela insistiu que todos os Sonserinos remanescentes vestissem um button que alternava uma figura da Marca Negra com uma linha diagonal vermelha e as palavras: Verdadeiros Sonserinos Não São Ovelhas!

O real relacionamento do Harry com o Draco ainda era um segredo para a maioria da escola, mas o fato de que eles agora tinham várias aulas apenas um com o outro fez com que fofocas fossem espalhadas. Então, com a permissão do Dumbledore, eles finalmente explicaram sobre o Vínculo entre Magos e os talentos do Harry com magia sem varinha e Medicina Mágica para seus amigos mais próximos.

E eram esses mesmos amigos próximos que agora sabiam que o Harry dividia um quarto no topo da torre da Sonserina com o Draco. Um feitiço bastante engenhoso havia sido lançado na porta do armário de vassouras da Torre da Grifinória. Dada a senha correta, a porta se abria diretamente no quarto do Draco, de forma que para todo mundo com a exceção dos amigos de quarto do Harry, parecia que o Harry continuava a dormir no dormitório da Grifinória. Infelizmente, o Seamus havia assumido como seu mais novo hobby descobrir a senha.

Uma noite, enquanto o Harry subia as escadas na direção do armário, um terrível barulho foi ouvido. O fato de o estouro ser seguido de um alto "Mãe de Deus!" e uma corrente de coloridos palavrões irlandeses não deixou dúvidas de quem fora o culpado. Harry abriu a porta do armário para encontrar o Seamus, que estivera torcendo escutar a senha enquanto se escondia no armário, caído em uma poça de água e sabão no chão, seu pé preso em um balde e um esfregão molhado sobre a sua cabeça. Depois disso, Harry manteve um olho observador no Seamus quando fazia seu caminho para o armário. Tirando isso, a vida em Hogwarts continuou basicamente a mesma.

O segredo mais confidencial do Harry – o bebê que nasceria em março – era conhecido apenas pelo Dumbledore, Draco, e a Cho, seu marido e parentes.

O Draco foi eventualmente convencido a continuar no time de Quadribol da Sonserina. Harry ficou feliz por o Draco ter resolvido não abandonar o time. Para o Harry era simplesmente uma questão de honra. Ele ficou feliz, também, porque o jogo entre as Casas deles não teria a mesma animação sem a rivalidade antiga dos dois garotos. Mas ele também estava um pouco irritado, porque o Draco tinha visto todas as estratégias secretas do time e saberia o que esperar. Entretanto, Draco manteve sua palavra e nunca contou aos seus companheiros de equipe sobre as manobras surpreendentes que ele havia visto o Harry praticar com o time Grifinório.

Consequentemente, durante o jogo final deles em uma tarde chuvosa no começo de Abril, quando o Draco repentinamente virou sua vassoura e voou atrás do Pomo de Ouro, os Sonserinos estavam apanhando no placar, que mostrava um incrível 230 a 50 em favor da Grifinória. Harry imediatamente foi atrás e os dois sumiram dentro das nuvens baixas e cinzas.

A multidão de estudantes e professores nas arquibancadas e os jogadores circulando o campo todos pararam, bloqueando a chuva com as mãos e inclinando os pescoços, esperando atentamente que os Apanhadores retornassem. A Grifinória estava com a posse da goles, mas todo mundo pausou em antecipação e ninguém tentou marcar pontos. Mas minuto seguido de minuto passou. . . e ainda não havia sinal deles. Altas especulações, e até mesmo apostas, foram passadas nas arquibancadas.

Finalmente, uma figura escura apareceu acima e um silêncio predominou a multidão enquanto todos esperavam para ver quem era. Era o Harry, parecendo bastante bagunçado, quem apareceu primeiro das nuvens. O estado desorganizado de seu cabelo e de suas roupas era provavelmente o resultado de voar em alta velocidade pelas nuvens molhadas. Entretanto, considerando a cor vermelha em suas bochechas e o fato de que ele portava um sorriso bastante bobo e envergonhado, parecia mais como se ele tivesse se amassado com alguém. Ele deu de ombros e balançou a cabeça para seus companheiros de equipe em desculpas.

Um segundo depois, Draco apareceu pelas nuvens, voando diretamente ao centro do campo. Ele pausou, pairando no lugar por meio segundo, e então, com um sorriso de orelha a orelha, deu um soco no ar acima de sua cabeça em triunfo. Preso em seu punho levantado estava um Pomo dourado inquieto. Gritos de alegria irromperam por toda a arquibancada enquanto os torcedores da Sonserina iam à loucura. O time do Draco correu até ele em um gesto maciço de parabéns. A Sonserina pode ter perdido a partida, mas ninguém se importava. Draco Malfoy finalmente tinha apanhado o Pomo de Ouro contra a Grifinória!

Era uma manhã em Maio quando o Professor Dumbledore ficou de pé na janela do seu escritório, acariciando sua longa barba prateada e fingindo observar o contraste bonito feito pelas árvores verdes da Floresta Proibida contra o céu azul claro de verão. Na realidade, ele estava observando o reflexo de três jovens que estavam usando seu escritório como um local secreto para se encontrarem.

"Segura ela assim – deixe seu braço apoiar a cabeça dela," a jovem mulher estava dizendo, e o Dumbledore sorriu por baixo de sua barba e se virou para observar com um brilho especial nos seus olhos azuis enquanto Harry Potter pegava sua filha recém-nascida nos seus braços pela primeira vez.

Harry segurou o bebê adormecido cuidadosamente, estranhamente, com um sorriso confuso e encantado em seu rosto. Draco tinha uma mão nas costas do Harry e estava olhando por cima do seu ombro. O pequeno rosto do bebê estava relaxado no sono, cílios pretos descansando em bochechas rosadas, sua pequenina boca ligeiramente aberta. Se for possível que dois meninos se apaixonassem em dois segundos, eles tinham.

O Draco alcançou uma mão e tocou a nuvem de cabelo preto ondulado que estava no topo da cabeça da Lily. "Ela tem o seu cabelo," ele disse com um sorriso brincalhão.

"Ela tem os olhos dele também," a Cho disse.

"Os olhos da minha mãe," Harry disse suavemente. Ele olhou para a Cho e sorriu. Os braços do Draco escorregaram dos seus ombros para abraçá-lo por trás. Harry se inclinou no outro garoto e sorriu novamente, achando a possessividade inconsciente do Draco charmosa.

"Nós vamos ter que enfeitiçar os olhos dela para que pareçam castanhos, entretanto," Cho disse, "enquanto estivermos longe."

Harry concordou. "Quando vocês vão?" ele perguntou.

"Depois de amanhã," ela disse. "Nós vamos ficar com a família da mãe do Lian até que a guerra termine. . ." Ela pausou e encontrou os olhos do Harry, e então emendou suas palavras. "Até que seja seguro para trazermos ela de volta."

Harry balançou a cabeça. Entendendo o que ela não tinha dito, de que havia a chance muito real de eles não vencerem a luta contra o Voldemort e, dessa forma, que o fim da guerra não trouxesse paz ou segurança. Ele olhou para baixo novamente e arrumou sua filha em seus braços, até conseguir mover uma mão para tocar o rosto dela. "A China é muito longe," ele disse. "Ela pode estar crescida quando eu a ver novamente."

Se eu a ver novamente, ele adicionou silenciosamente, sabendo que talvez não sobrevivesse até o fim da guerra. O futuro se esticava a frente do Harry como uma página grande, misteriosa e branca, em que inúmeros 'talvez' e 'se' poderiam ser escritos, bem como uma tarefa mortal e horrível.

A Cho tocou o braço do Harry. "Nós vamos nos certificar que ela te conheça, Harry. Não importa o que aconteça."

"Obrigado," Harry disse, sua voz ligeiramente trêmula. Ele respirou fundo e olhou para a criança nos seus braços. "Obrigado por trazer ela aqui," ele disse, "para que eu pudesse vê-la."

Cho apertou o braço dele, e nesse momento a Lily bocejou, esticou-se e abriu os olhos.

"Ah," Harry respirou. "Ah meu Deus." Ele observou o rosto doce da sua filha, completamente encantado. "Ela realmente tem os meus olhos!"

E nesse momento, enquanto o Harry se virou para sorrir para o Draco e o Draco o abraçou com força, sorrindo em resposta, todas as incertezas do futuro foram esquecidas, todas as situações potencialmente terríveis a serem enfrentadas não eram nada. Pois enclausurada naquele único momento de tirar o fôlego estava uma eternidade maravilhosa de pura alegria. E ela era perfeita.

O Fim.