Eu não possuo nenhum dos personagens de Naruto. A única coisa que é de minha autoria é a história, portanto, todos os crédito dos personagens de Naruto vão para seu criador, Kishimoto Masashi.


Capítulo Oito

Escuridão

Eu acho que não existe um sentimento pior do que a frustração, unn.

Ao se sentir frustrada, a pessoa perde um pouco, ou quase tudo do interesse em qualquer coisa que esteja fazendo. Eu estava me sentindo assim, frustrado, unn. Frustrado por não ter entendido o que Gaara quis dizer com aquele ar de mistério – na verdade, eu não entendi o mistério mesmo, unn. Frustrado por ter sido fraco e revelado o que de fato eu sentia, pensava, achava, etc sobre Gaara e mais frustrado ainda por não conseguir explicar a mim mesmo o porquê de eu me importar com tudo isso, unn.

Voltei para casa sentindo-me um babaca completo. Estacionei o carro da Konan em minha garagem como de costume – o apartamento dela não tem estacionamento – e subi automático as escadas relativamente íngremes e relativamente escorregadias do edifício. Girei a chave na fechadura até ouvir o ,,click" de destrave da porta. Entrei, encostei a porta atrás de mim – Konan chegaria a qualquer momento mesmo, unn -, pendurei as chaves no claviculário e joguei-me pesadamente no único sofá da sala.

- O que está acontecendo comigo, unn? - disse em voz alta para mim mesmo e levei os dois braços à testa tapando os olhos. – Por que ainda fico pensando naquele moleque, unn? Acabei de deixá-lo em casa, unn!

Levantei-me do sofá num assomo; como se o movimento brusco fizesse cair a idéia fixa que estava grudada em minha mente.

- Pára com essa besteira, Deidara, unn! – adverti a mim mesmo – Gaara é um garoto estranho, que cursa um curso chato, que tem amigos chatos, que fala coisas esquisitas, que foi me visitar na enfermaria, que não teve asco com as bocas nas minhas... mãos...

Interrompi-me. Fiquei olhando para as palmas de minhas mãos longamente, e lembrei-me da sensação de Gaara enfiando os dedos nelas. Nunca ninguém tinha feito algo parecido, aliás, nunca ninguém se aproximava muito de mim por causa disso, unn.

Mas... Para mim aquilo era tão... normal! Não lembrava quando e nem por quanto tempo eu tinha aquelas bocas implantadas lá, tanto, que para mim, elas faziam parte de mim com minhas pernas, pés, ombros ou qualquer outra parte do meu corpo.

- Mesmo assim, Deidara, não devaneie unn. Konan-chan também não sente agonia de você, unn. – relembrei a mim mesmo.

- Mas... É tão diferente, unn. Tudo nele é tão diferente!

Percebi que eu estava sorrindo levemente, absorto em pensamentos e devaneio em relação ao me novo... Amigo, unn? Se era amigo, eu não sei, mas meu novo ,,alguma coisa". Quando realizei que estava com cara de garotinha apaixonada, foi como se um bomba tivesse explodido em mim.

- MAS QUE MERDA EU ESTOU PENSANDO, UNN! – um misto de raiva, vergonha e constrangimento invadiu-me a cabeça. Fiquei andando pela casa em círculos, amassando argila, puxando os cabelos, enfim: fazendo qualquer coisa que tentasse afastar esses pensamentos absurdos.

Tentei esquecer, tentei odiar, tentei enterrar e, por fim, tentei explodir o Gaara em minha cabeça, mas era inevitável.

- É inevitável, unn. – disse e, novamente, larguei-me no sofá – Eu não consigo exorcizar o Gaara de meus pensamentos. – constatei fatigado devido a minha peleja mental contra mim mesmo.

– Preciso vê-lo novamente, unn! – eu disse um tom mais alto e um tom mais entusiasmado do que o normal.

- Precisa ver quem, Deidara-kun?

Era Konan. Ela havia acabado de entrar pela porta e pendurar seu moletom num gancho na parede. Estava mais ruborizada do que de costume.

- N-ninguém! – eu gaguejei mais vermelho do que a coisa mais vermelha que se possa comparar. – Ninguém especial. Mesmo, unn!

- Uh-hum... – ela me olhou com olhos perscrutadores e incrédulos ao mesmo tempo em que, em seus lábios, desenhavam-se um sorriso malicioso. – Você não me engana, Deidara. Eu sei QUEM – e ela enfatizou esta palavra – você precisa ver!

Konan saltitou até perto de mim e sentou-se, ou melhor, jogou-se ao meu lado no sofá.

- Conta logo, Deidara. Você está a fim deste cara, não é?

- Como?! – eu disse incrédulo – O que você está dizendo?!

- Ora, não minta para mim. – ela estava segura - Você não é do tipo de pessoa que se preocupa com o que os outros acham ou deixam de achar do seu trabalho. Ademais, todos os problemas nos quais nos metemos em menos de duas semanas, são típicos de pessoa apaixonada.

- Eu não estou apai...

- FORA QUE, eu percebo que toda vez que o Gaara-kun está por perto, você age estranho. Você está obcecada, irremediável e perdidamente apaixonado pelo Gaara-kun! – ela riu de satisfação.

- Você está errada, Konan-chan! Não estou ,,apaixonado" por ele, unn!

- PROVE que você não está!

- Provo sim, unn! Olhe para mim! Eu sou um GA-RO-TO. Não posso estar apaixonado por outro homem, unn! –eu disse triunfante.

- E daí? Garotos não amam outros garotos? O que você me diz daquele casal – notório- lá da sala? O Kamijou-kun e o Nowaki-kun são namorados e se gostam E – ela enfatizou esta conjunção aditiva- são rapazes. Agora, repito: PROVE que você não está apaixonado! - ela estava com o sorriso malicioso de um gato.

- Ele é esquisito e não tem nada a ver comigo!

- Esquisitice por esquisitice, você é um que tem BOCAS nas palmas de suas mãos, isso não é desculpa Deidara.

- Ele fala coisas estranhas, tem um amigo brutamontes, eu nunca sei o que ele pensa, nem o que ele quer. Também não compreendo como ele ,,viu" minha arte se ele é cego, unn! Não gosto dele, definitivamente não gosto, unn- eu acho que estava perdendo o controle... – Você vem aqui e fala o que bem quer e nem sabe de nada, unn! Eu não gosto do Gaara, não mesmo!

- Além do mais, eu não tenho que provar nada a você, unn. – eu disse emburrado e dando as costas para ela.

- Há! Ganhei! Minhas suposições estavam certas!

Acho que se Konan-chan fumasse charuto, ela teria acendido um naquela hora, pois a pose de Sherlock Holmes pós a solução de um caso, ela já tinha, unn.

Fiquei quieto por um tempo, enquanto Konan experimentava a glória de ter tido uma argumentação melhor do que a minha. Mas, por alguma razão, eu não fiquei chateado com aquilo, pelo contrário. Ela, sem querer, ajudou a me livrar de um peso que eu carregava desde a primeira vez que ouvi a voz daquele garoto.

Por algum motivo que eu nunca vou saber, Konan parou de se gabar, levou do sofá e ficou abaixada, na minha frente, com as mãos apoiadas em minhas pernas.

- Deidara, eu sempre vou apoiá-lo em tudo, tudo mesmo. Por isso, quero que saiba que, sempre que quiser falar comigo, eu estarei disposta a ouvi-lo, aconselhá-lo, oferecer um ombro amigo... este tipo de coisa que você já está cansado de saber mas eu faço questão de repetir. –sorriu.

Minha amiga me sorriu de uma maneira sincera e preocupada. A sinceridade em suas palavras sempre me comovia, muito embora eu nunca demonstrasse isso. Konan era minha amiga desde que entrei naquela universidade e, desde então, ela sempre cuidou de mim de todas as formas possíveis. Ela sempre esteve ao meu lado nos momentos mais críticos, nos mais alegres, nos mais tensos. Riu e chorou comigo. Sempre ao meu lado, na saúde ou na doença, na tristeza e na alegria. Era como se fosse minha esposa, muito embora eu sempre a amei como amiga. Não consigo me imaginar tendo relações com ela, no entanto, já dormimos juntos; mas só dormimos unn.

Fiquei olhando minha amiga por um tempo, seguindo-a com os olhos por todo lugar que ela ia. Sei que ela estava ainda falando comigo, pois eu, automaticamente, respondia ,,um-huns" sempre que ela parava de falar. Estava completamente desligado, apenas pensando na Konan. A maneira como ela me olhava, como sorria, a forma de ela passar os dedos em meus cabelos sempre q eu estava mal... Este tipo de coisa carinhosa que as pessoas fazem quando se preocupam com as outras.

Foi quando eu percebi - O que eu já fiz pela Konan, unn? – O pensamento me ocorreu e eu não consegui lembrar uma única vez em que confortei minha amiga, ou que enxuguei suas lágrimas. Eu sempre comemorava suas vitórias e lastimava suas derrotas, mas nunca, repito, NUNCA vi Konan chorar ou queixar-se de qualquer coisa para mim, unn.

Isto me fazia um mau amigo? Isto provava o quanto ela conhecia tudo sobre mim e o quanto eu não conhecia nada sobre ela? Quando foi a última vez que Konan chorou, ou que namorou, ou que saiu com suas outras amigas? Eu não me lembrava de nenhum momento da minha vida sem ela e também não lembrava nenhum momento dela sem mim. Eu estava ,,sugando" a vida particular da pessoa mais importante para mim, unn?

Estes pensamentos corroeram-me o cérebro e comecei a ficar desesperado. Tão desesperado que, ignorando completamente o que ela falava – na verdade, eu não estava prestando atenção mesmo... – disse:

- Konan, eu sou um estorvo na sua vida, unn!

- Como? – ela estava espantada.

- Isso mesmo. Eu... Eu sou um péssimo amigo para você. Você sempre me apóia, ouve-me , mas eu... Eu nunca procuro saber de você, como você está, o que você sente, quem você namora... Fico tão preocupado com meus próprios sentimentos egoístas que nunca incluo você neles unn. Conhecemo-nos a tantos anos, passamos tantas coisas juntos e eu nunca te dei o valor que você realmente merece. E logo você, que é a pessoa mais importante para mim. A minha melhor amiga, a pessoa que eu am...

Não completei a frase. Minha amiga, que esteve olhando-me com olhos tão intensos enquanto eu vomitava tudo o que se passava em minha cabeça, de repente, começou a chorar. Fiquei desesperado! Será que feri os sentimentos dela?

- Konan-chan! Não chore, por favor! Eu te machuquei? Desculpe-me, unn! Sou mesmo um insensível, unn!

Ela limpou as lágrimas e, com um sorriso triste num rosto vermelho, disse-me com a voz embargada:

- Você não fez nada, Deidara. É que... É a primeira vez que você me diz algo assim. Eu nunca pensei que...

Ela fez silêncio.

- Nunca pensou o quê, unn?

- Nunca pensei que você pudesse pensar esse tipo de coisa.

Como, unn? Eu era... Burro, unn?!

- Como, Konan? – disse um pouco ofendido. – Você que eu não tenho capacidade intelectiva de dizer ,,esse tipo de coisa", unn?

Ela sorriu e disse:

- Não é isso, Deidara. Estou apenas surpresa por que... Por que...

- Por que... – fiz menção para que ela continuasse.

- Porque você sempre pareceu alheio às coisas. Sei lá... Algo em sua maneira de ser fazia-me pensar que você jamais sentiria esse tipo de sentimento que acabou de dizer.

Abri a boca para me pronunciar, mas Konan foi mais rápida.

- Obrigada, Deidara. Eu amo você.

Konan me abraçou de uma maneira diferente da de costume. Ela parecia esconder algo em si. Acho que não era nada grave, pois era indubitável a sinceridade de suas palavras. Não a quis expor mais. Sabia que ela não era do tipo que chora facilmente, e isso com razão porque aquela foi a primeira vez em 3 anos que vi Konan chorar, por isso, deixei do jeito que estava e abracei minha amiga da forma mais confortante possível. Mas que ela estava diferente, estava unn.

***

Konan dormiu na minha casa, em minha cama, ao meu lado; como de costume. Acordamos com o despertador e, como ela sempre rebolava mais tempo na cama do que eu fui fazer o asseio matinal e, em seguida, preparar algo para comermos.

Decidi que ia me virar com o que tinha na geladeira e no armário. Fiz uma omelete de queijo, peguei um pacote de bolachas e separei algumas frutas não muito frescas e uma latinha de castanhas. Arrumei a mesa para o café da manhã, passei um café novinho – modéstia à parte, mas sei fazer um café delicioso, unn! – e tirei o leite da geladeira, pois Konan gosta de café com leite e sem açúcar. Já eu, gosto de café sem leite e com MUITO açúcar, unn.

- Uau, que banquete!

Konan entrou na cozinha ainda enxugando os cabelos molhando na toalha e com uma cara de sono só dela.

- Bom dia, Konan-chan!

Permanecemos calados por um tempo enquanto comíamos até que ela quebrou o silêncio.

- Deidara, sobre ontem...

- Não se preocupe Ko-chan, eu prometo que não falo para ninguém que você chorou, unn. – sorri e cruzei os dedos bem na frente dela.

Ela sorriu de volta e disse:

- Certo, certo. Mas não é disso que eu estou falando. Estou falando daquilo que eu te disse antes.

- Hein, unn?

- Ahh você não estava prestando atenção... – ela suspirou, revirou os olhos e disse pacientemente – Deidara, ontem, o que eu estava falando enquanto você navegava na maionese é que, quando eu saí para deixar você e Gaara conversando naquele dia, fui para minha casa. No caminho, escutei muito rápido umas garotas comentando algo sobre um seqüestro naquela manhã. Então, mudei de caminho e fui até a faculdade para me informar melhor.

- Quando cheguei ao nosso departamento, encontrei o Sasori-san e perguntei se ele sabia de alguma coisa, então, ele me disse que soube por um amigo dele de Direito que o Gaara, violinista da banda Manchas de Paultauf, havia sido seqüestrado e que Hidan estava pondo a faculdade de cabeça para baixo procurando pelo ,,miserável do artista" – você, claro – que havia levado o garoto. Sasori também disse que ele esbravejava e murmurava umas coisas estranhas e foi direito falar com Tsunade-sama.

- E então, Konan... – perguntei interessanto.

- E então é que, para sua sorte, ninguém leva Hidan muito a sério e eu soube que, no mesmo dia, os irmãos de Gaara falaram para Tsunade-sama que Gaara esteve com eles o dia inteiro, logo depois da apresentação.

- Eles mentiram unn!

- Sim.

- Mas por quê?

- Bom, foi a mesma coisa que eu me perguntei, por isso, corri para procurar os dois, mas não os encontrei.

- Preciso falar com eles, unn! Preciso saber o por quê!

- Eu acho que você deveria ir com calma, Deidara. Se quiser, eu procuro saber disso.

- Não, Konan, você se mete em muita roubada por minha causa. Não quero que aquele troglodita faça nada contra você, afinal, ele sabe que somos amigos e que você me ajudou.

- Mas Deid...

- Não. Por favor, eu peço a você unn.

- Está bem... Se você quer assim... – ela disse resignada.

- Quero unn.

Apesar de eu amar a aula História da Arte, naquele dia não consegui tirar Gaara e seus irmãos da cabeça. O primeiro por que, de fato, eu estava convencido de que estava gostando dele; os segundos, pela atitude inesperada de me acobertarem e protegerem contra a ira iminente de Tsunade-sama.

- Que família esquisita, unn! – disse para mim mesmo num tom audível aos ouvidos de outras pessoas.

- Prestando atenção à aula, Deidara-CHAN? – perguntou Sasori, em voz baixa, com seu tom irônico tão familiar para mim.

- Tanto quanto você, CHIBI Sasori-kun. – sorri entredentes para ele e devolvi na mesma moeda.

- Que bom. Então ambos vamos nos sair muito bem na prova surpresa ao final da aula.

- Prova o QUÊ?! – gritei indignado e levantei da cadeira.

- Pois não, Deidara-san, alguma coisa? – perguntou o professor Miyagi.

- N-nada, Professor. Gomen NE, unn.

- De forma alguma, Deidara-san, eu INSISTO para que tire suas dúvidas.

Fiquei nervoso. A sala inteira olhava para mim. Passei a vista rapidamente pelas anotações no quadro e vi que o professor estava falando sobre as pinturas de Caravaggio, então, formulei uma pergunta da qual eu já sabia a resposta.

- Professor Miyagi, o caravaggionismo influenciou pintores por todo o mundo e até hoje, alguns artistas baseiam suas obras nos contrastes de chiaro/oscuro que ele desenvolveu, mas, de todos seus discípulos, qual foi o que mais se destacou?

Era uma pergunta nada a ver, mal formulada e eu sabia a resposta, mas, na hora do desespero, quando não choro, faço perguntas idiotas...

- De todos, acredita-se que o maior seguidor do estilo de Caravaggio foi uma mulher. Seu nome era Artemísia Gentileschi e Artemisia Gentileschi (Roma, 8 de julho de 1593 – Napoli, 1653) foi uma pintora italiana. Uma das únicas mulheres a serem mencionadas no ramo da pintura artística no barroco, sendo a primeira a possuir uma posição privilegiada. Dedicou-se a temas trágicos onde suas personagens (femininas) que, no geral, representam papéis de heroínas. Tendo seu ingresso negado nas escolas de arte de Roma (que só aceitavam homens), conseguiu ser aceita como aprendiz do pintor Agostino Tassi, que acabou estuprando-a...

O professor continuou a aula, empolgado, falando sobre Artemísia Gentileschi. Ficou tão empolgado, que a hora dele passou e fomos liberados da prova surpresa. Sasori, um pouco aliviado de não fazer a prova, mas MUITO frustrado por eu ter me safado, comentou, seco:

- Agora vejo que o que você tem de sobra é sorte mesmo...

Resolvi não relevar, afinal, se eu tinha sorte – e tinha mesmo – , o que ele tinha era inveja, unn.

Quando todas as aulas terminaram, resolvi passar no CCJ e ir procurar os irmão do Gaara. Eu não tinha a menor idéia dos nomes, a única coisa de que me lembrava vagamente eram dos rostos maquiados e do penteado extravagante da mocinha loira. Foi quando algo como uma flecha atingiu meus pensamentos: eu iria procurar Itachi-san no departamento de engenharia!

Andei uns bons 3 Km até chegar ao prédio de engenharia. Para minha sorte, Itachi estava saindo e o encontrei na porta.

- Itachi-san! Konich wa!

- Konichi wa, Deidara, o que o traz aqui?

- Você, unn!

- Eu? – ele disse sério – Ih, Deidara... você sabe que eu não gosto dessas coisas... – ele me zoou.

- Baka. – eu disse categórico – Eu não vim para te ver, vim para te perguntar uma coisa.

Itachi ria como nos velhos tempos, em que ficávamos em bando, cometendo delinquências.

- O que você quer perguntar, Deidara?

- Qual o nome daquele garota e da garota que tocam na sua banda?

- Err... temos 6 homens e 2 mulheres.... assim você me deixa confuso, Deidara.

- Pff... – revirei os olhos – Os irmãos de Gaara, unn.

- Ah, sim! Os dois. – ele disse lembrando-se – São Kankurou e Temari. Por que?

- Ah, valeu, cara! Até mais, unn.

Virei de costas e caí correndo sem responder á pergunta de Itachi, afinal, ele iria esquecer o motivo mesmo, unn. De todo o grupo, ele era o mais desligado.

Voltei para o CCJ e, apesar de minha prevenção contra alunos de Direito, perguntei ao maior número possível de gente sobre Kankurou-san e Temari-san, mas aparentemente, ninguém sabia aonde eles estavam; uns até nunca ouviram falar. Já estava perdendo as esperanças quando senti uma mão no meu ombro.

- Posso ajudar – pessoa fez uma pausa – Deidara-san?

Ao som daquela voz, senti um arrepio percorrer minha coluna vertebral, minha voz sumiu e, estranhamente, meu coração começou a bater descompassado.

- G-Gaara-san? – virei em sua direção

- Olá. – ele sorriu em minha direção mas sem olhar para mim.

- Olá. Como você me achou aqui, unn?

- Eu ouvi sua voz e vim.

- Ah... – ruboreci. E mesmo sabendo q ele não podia me ver, olhei para os pés um pouco envergonhado.

- Você quer falar com meus irmãos. É alguma coisa especial? – perguntou curioso.

- Bom... De certa forma é. Eu queria saber...

Olhei para os lados e percebi que, definitivamente aquele não era o melhor lugar para tratar de um assunto daqueles e pelo visto o Gaara também percebeu.

- Eu conheço um lugar mais reservado para tratarmos deste assunto. – ele enfatizou a palavra ,,deste" e entendi que ele sabia muito bem o motivo para eu estar ali, àquela hora e procurando aquelas pessoas.

- Venha comigo, Deidara-san.

- H-hai.

Gaara me guiou – ironia- por um labirinto de corredores largos e lotado de pessoas. Ele desviava dos objetos e virava nas esquinas tão perfeitamente que, por vezes, achei que ele enxergava. O mais incrível é que ele, ao passar, cumprimentava algumas pessoas pelo nome e estas, que geralmente estavam de costas para ele, o cumprimentavam de volta um pouco surpresas.

Os corredores foram ficando cada vez mais retilíneos e com menos pessoas até que, numa esquina que dobramos, Gaara parou e disse:

- É aqui.

- É aqui o que, unn?

- É aqui onde vamos conversar. – ele olhou em minha direção – pode abrir esta porta á sua esquerda.

- Que por... - De fato, tinha uma porta à minha esquerda e eu nem a vi – Hai.

Girei a maçaneta mas, antes de empurrar a porta para entramos, Gaara disse:

- Só peço que sejamos o mais silenciosos possível, pois aqui é uma biblioteca especial.

- Biblioteca especial, unn?

- Sim. Geralmente, quem frequenta esta biblioteca são pessoas portadores de alguma deficiência.

- Tudo bem a gente conversar aqui? Não vai atrapalhar?

- Bom... Atrapalhar, vai, mas só por um momento, pois eu tenho uma sala privativa aqui. Ela é à prova de som e eu tenho uma chave, então, podemos conversar melhor lá. Só peço que até chegarmos, façamos o menor ruído possível. Nós cegos temos uma audição muito sensível. – ele sorriu para mim e àquele sorriso pareceu que meu coração ia derreter.

- H-hai.

Entramos. Gaara cumprimentou a bibliotecária e esta tocou em seu rosto como retribuição – ela era muda mas não surda. Depois, percorremos algumas prateleiras de livros e, num canto bem reservado no fundo da biblioteca, estava a sala particular do futuro Kazekage da Vila da Areia.

Era uma saleta pequena, com uma mesa quadrada que ocupava quase todo o espaço e, em cada lado da mesa, uma cadeira – talvez Gaara, seus irmãos e Hidan se juntassem ali para estudar. Na parede no lado esquerdo, havia quatro prateleiras abarrotadas de livros de Direito, Biologia e Química. Na parede oposta, uns ganchos presos indicavam que, quem quer que quisesse deixar os casacos em algum lugar, o fizesse pendurando-os lá. Ao fundo da saleta, uma porta com a plaquinha indicativa de ,,WC".

- Como você pode constatar, Deidara-san, nem estudar com as outras pessoas eu posso. – ele disse triste.

- Com assim, Gaara-san?

- Não é nada de mais, Deidara-san, vamos conversar sobre o assunto que o trouxe aqui. – sorriu. – Mas antes, permita-me rancar a porta para assegurar que não seremos imortunados.

Gaara girou a chave na fechadura até trancar a porta, em seguida, exortou que eu me sentasse e puxou uma cadeira para si em seguida. Fiquei tentado a sentar-me ao seu lado, mas achei mais digno que ficássemos um de frente para o outro.

- Gaara-san, Konan-chan disse para mim que seus irmãos livraram meu pescoço da ira certa da Tsunade-sama ao dizerem a ela que você havia passado o dia com eles.

Gaara começou a rir muito.

- Você é engraçado, Deidara-san!

- Hã, unn?

- Que maneira mais direta!

- Ah... – fiquei envergonhado. – Gomen ne.

- Não precisa se desculpar, Deidara-san! Eu gosto muito da sua maneira de dizer as coisas.

Ele apoiou o queixo na mão, em cima da mesa e inclinou levemente a cabeça para o lado enquanto olhava em minha direção. Será que ele não se tocou que, com isto, estava me deixando perturbado, unn?

- Er... Bem, então... Por que? – eu voltei ao assunto principal – Por que eles me ajudaram?

- Que pretensioso você, Deidara-san...

Congelei.

- Meu irmãos não ajudaram você em particular, mas ajudaram a mim! – ele me olhou com um ar quase infantil mas sendo extremamente sério. – É claro que você também contou bastante para que eles me ajudassem, mas isso é outra história. – ele disse sério, mas ao emsmo tempo divertido.

- Como assim, unn? – eu estava um pouco chocado.

- É que meus irmãos odeiam o Hidan pela forma como ele me trata.

- O que não é um motivo muito difícil de entender, unn – interrompi-o claramente aborrecido com Hidan.

Ele sorriu e continuou.

- Então, o que meus irmãos puderem fazer para me manter longe do Hidan, eles farão. Ainda mais se for longe do Hidan e perto de você. – ele disse descaradamente.

Balancei a cabeça incrédulo. O que este cara estava falando?

- Por que ,,perto de mim", unn?

- Porque quando eles souberam o que você fez só para conseguir me livrar do Hidan, eles riram tanto que o consideraram o único que poderia ficar ao meu lado.

Gaara era uma palavra: inocente.

Cheguei à esta conclusão pela maneira como ele falava. Não era possível que ele estivesse falando tudo aquilo de propósito. Sentí-me um velho pervertido que só pensa bobagens...

Fiquei devaneando por um tempo enquanto Gaara ria ao lembrar da maneira tosca como eu e Konan o havíamos sequestrado. Nem bem havia ,, voltado à Terra" quando Gaara pronunciou meu nome:

- Deidara-san...

Ele se levantou da cadeira e, debruçou-se sobre a mesa ficando muito, muito perto de mim. Meu coração começou a bater mais rápido à medida em que ele diminuía os espaços entre nós.

- S-sim, unn? – engoli em seco.

- Você pode ver?

- O-o quê?

Ele parou de se aproximar.

- Os meus olhos.

- Sim, posso. Claro que posso, unn! Que que eles têm de mais, unm?

Gaara franziu levemente o cenho.

- Você prestou atenção no que eu estava falando? – ele fingiu aborrecimento.

- C-Claro que prestei, unn!

- Então... O que você me diz?

- Dizer sobre o quê, unn?

Gaara revirou os olhos mas não deixou de sorrir. De volta ao seu lugar mas sem se sentar na cadeira, erepetiu a história, dizendo que estava tentando me mostrar a cicatriz de uma operação que ele fez no olho esquerdo a dois anos atrás, na tentativa – falha- de voltar a enxergar.

Senti-me um lixo. Novamente eu estava fazendo pouco caso de algo que alguém dizia, e, mais grave ainda: algo importante para aquela pessoa.

- Gomen ne, Gaara-san. – disse muito triste- Sou muito desligado.

- Não tem importância, Deidara-san. O que conta é que, agora, você estava prestando atenção.

- Você é corajoso, unn. Eu que não teria coragem de operar meus olhos, unn!

- Não é coragem, é desespero.

Ele me disse sorrindo mas voltou o olhar para baixo e, por um breve momento, achei que ele estava chorando e, por um momento mais breve ainda, levantei-me de onde estava, fui em sua direção e o abracei instintivamente.

- Mesmo os desesperados são corajosos; pois há muito de coragem no desespero e muito de desespero na coragem, unn.

Continuei abraçado àquele corpo esguio e pouca coisa mais alto que eu e, quando percebi, comecei a chorar novamente.

Não entendi aquelas lágrimas. Elas simplesmente vinham. Chorei de tristeza por ele, pelo vazio que senti em suas palavras, chorei de uma alegria estranha, por tê-lo em meus braços e chorei por mim mesmo.

- Deidara-san, está chorando?

Ele me afastou gentilmente de si e enxugou-me as lágrimas com as pontas frias de seus dedos magros.

- Por que está chorando? – sua voz era calma e gentil.

Aos soluços, tentei responder da melhor maneira possível.

- Eu não sei, unn. Apenas senti um vazio enorme.

- Não sinta isso por mim. – tinha um tom de riso em sua voz de brisa.

- Não é por você. É por nós, unn.

- Por nós? – ele pareceu um pouco surpreso.

- Sim, unn. - afastei meu rosto e o escondi no ombro direito.

- Por que?

- Porque ambos vivemos na escuridão unn...

Não disse mais nada. Gaara me abraçou e, lentamente, tateando e subindo suas mãos pelos meus braços, buscou meu rosto e o reteve entre suas mãos frias. Seus polegares levaram minhas lágrimas até meus lábios. Instintivamente fechei os olhos. Por uma fração de segundo senti-me como ele e, na fração subsequente, senti seus lábios quentes sobre os meus; eles contrastavam com o frio constante de suas mãos.

Inclinei a cabeça levemente para o lado direito, ele quem estava no controle. Aos poucos, seus lábios separaram os meus e pude sentir sua respiração lenta. Levei os meus braços ao redor de seu corpo lânguido e o puxei mais para junto de mim - Como pode alguém ter uma estrutura tão longilínea, unn? – pensei.

O cheiro dele era muito bom. Lembrava-me um bosque de cedros mas tinha um tom cítrico que não consegui identificar. Abri os olhos lentamente para me assegurar de que aquilo não era um sonho, mas resolvi fechá-los novamente, porque se fosse um sonho, preferi continuar sonhando, unn.

Com algum esforço, levei uma mão até seu rosto. A pele dele era muito macia e levemente fria. Toquei em sua orelha perfeita acompanhando o desenho da concha e detive o dedo indicador no lóbulo por um instante; desci o dedo ao longo da linha de seu queixo delicado, escorreguei pelo pescoço e subi devolta os quatro dedos até eles se prenderem em seus cabelos, na altura das têmporas. Novamente, o cheiro delicioso que emanava dele unn.

Seus lábios afastaram ainda mais os meus e senti sua língua quente invadir minha boca e buscar minha língua. Suas mãos escorregaram de meu rosto para meu pescoço. Uma delas desceu até minhas costas, puxando-me mais para perto dele e a outra subiu até o alto de minha nuca. Seus dedos prenderam meus cabelos com uma leve pressão muito boa. Senti um frenesi percorrer-me o corpo inteiro e não consegui conter um leve e quase inaudível gemido.

- Unnn...

Ele ficou mais empolgado. Levou as duas mãos em torno de meu corpo e me sentou, sem parar de me beijar, em cima da mesa, depois, buscou caminho entre minhas pernas até que senti suas costelas flutuantes entre meus joelhos. Ele ia me deitando devagar, e uma mão sua lia cada parte de mim enquanto a outra lutava para me deitar em cima da mesa. Seus lábios liberaram os meus e desceram pelo meu rosto até meu pescoço. Eu estava apoiado na mesa com um cotovelo pois o outro braço estava ocupado permitindo que minha mão esquerda ficasse em sua nuca e o puxasse mais para mim.

Agora eu estava completamente deitado e ele estava meio que por cima de mim. Senti sua respiração mais forte em meu pescoço e, depois, senti ele mordiscar minha orelha. Aquilo era muito bom, unn. Meu dedão do pé se contorceu involuntariamente gemi levinho novamente.

Ele sorriu.

Eu sorri.

Ele buscou meu rosto novamente e me deu um beijo casto nos lábios.

- Fomos longe demais, Deidara-san.

Ele saiu de cima de mim e me pareceu que ele estava um pouco envergonhado, unn. Confesso que me senti um pouco frustrado porque eu ainda estava ,,no clima", mas depois que o Gaara saiu de cima de mim é que caiu a ficha de que eu QUASE fiz ,,coisinhas" com um HOMEM, unn.

Eu não falei. Estava mudo. Também não precisou.

Saí de cima da mesa e ele me ajudou. Estávamos, os dois, bem constrangidos.

- Eu levou você até a saída, Deidara-san.

- Não precisa, Gaara-san.

- Eu faço questão. – fez um silêncio – Você pode se confundir pelo caminho – ele consertou.

Saímos da biblioteca, passamos pelos corredores-labirinto da faculdade e, quando vimos, já era noite alta. Gaara me acompanhou até depois do portão externo do CCJ, que ficava uns 300m da entrada principal.

A situação continuava esquisita. Nenhum de nós falou o caminho todo, até que resolvi quebrar o silêncio.

- Não se preocupe, Gaara-san, eu não vou mais procurá-lo nem nada.

Vim pensando em dizer isso o caminho todo. Eu sei que Gaara deveria estar tão constrangido quanto eu e, talvez, ele não tivesse coragem de falar. Eu já estava acostumado a perder coisas importantes na minha vida por causa de minhas atitudes impensadas. Perder Gaara seria extremamente doloroso e, só de pensar, meus olhos já ficaram úmidos e senti um nó na garganta, mas era uma dor a mais para minha coleção. Depois, ele também seria superado, unn.

- Então, se você não vai mais me procurar... – ele fez uma pausa longa e se afastou de mim. Senti as primeiras lágrimas caírem. – Eu vou atrás de você.

Com isso, ele me puxou e me beijou novamente.

Não havia mais ninguém naquele portão afastado; somente eu, ele e a escuridão.


Sobre Artemísia Gentileschi, que foi citada pelo Professor Miyagi, vocês podem encontrar no link da Wikipédia: .org/wiki/Artemisia_Gentileschi

O texto foi copiado apenas na 3ª fala do professor.