Feliz Ano Novo! E aqui está meu presente.

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"Todas as mudanças, mesmo aquelas pelas quais ansiamos, têm sua melancolia. O que deixamos para trás é uma parte de nós mesmos. Precisamos morrer em uma vida antes de entrarmos em outra." Anatole France

Rachel

Acordei sozinha. Meu corpo estava frio, assim como os lençóis que pairavam ao meu lado. Havia algo diferente nessa vez. Estava no ar. No cheiro. Eu não conseguia descobrir o que era. Apenas me levantei e respirei. Não foi preciso de muito para isso. Meus movimentos são monótonos enquanto me visto, quase como se exigissem demais de mim.

Não sei como segui esse caminho. Não sei nem ao certo em que ponto estou. Essa estrada é confusa para mim, só sinto que estou no fim dela. E não há nada aqui.

"Eu prometi a mim mesmo que nunca iria interferir em sua vida, não até que você precisasse." Viro-me bruscamente em direção a voz, e é meu pai que se aproxima com um sorriso triste em seu rosto. "E você minha filha, está se afogando."

Sento-me na beirada da cama para que ele faça o mesmo. As palavras parecem fugir da mente, e as mentiras flutuam mas são incapazes de serem ditas.

"Eu não quero pai, não quero me sentir assim."

"O que está acontecendo Rachel? Você pode me contar."

"Amanhã eu vou me casar." Minha voz não passa de um sussurro, uma confissão indesejada. Dolorosa aos meus próprios ouvidos. "Amanhã vou me casar e o único motivo para estar fazendo isso é porque é fácil. Fácil e simples. É previsível e está sob meu controle."

Os decibéis de meu tom aumentam gradualmente, torno-me inquieta. Levanto-me e passo andar pelo quarto incontrolavelmente. Minhas mãos tremem juntamente com a voz. É quando as primeiras lágrimas aparecem. Uma declaração. E tudo que meu pai pode fazer é assistir sua filha desmoronar diante de seus olhos.

"E tudo é tão diferente com ela. Complicado. Uma bagunça. Tenho tanto medo do jeito que me faz sentir. Como se tudo que eu sempre fui fosse uma mentira. Ela é capaz de jogar tudo fora em um minuto. Todos meus instintos ficam a amostra. E eu, e e-u..." caio no chão abraçando o joelho dele, tentando me segurar em algo. Estou afundando. E é tão escuro aqui embaixo. "E talvez, seja a mim que ela jogue fora um dia."

Minhas lágrimas parecem incensáveis. Elas carregam uma decisão.

"Amanhã Finn vai se tornar meu marido. E eu vou aprender a amá-lo com o tempo."

Eu queria que meu coração parasse agora. O ponteiro do relógio girou, e ainda estou respirando.

Quinn

Eu a deixei sozinha em meio aos lençóis que cobriam seu corpo nu. Ainda adormecida, não precisei olhar em seus olhos ou ouvir sua voz que me faz ficar. Bloqueei meus sentidos, não vi nem senti. Eu apenas a deixei. Pela última vez.

Foi no primeiro passo dentro de meu apartamento que permitir-me respirar novamente. E deus, o quão dói sentir o ar escapar de meus pulmões. Ninguém te avisa o quanto esse sentimento dói. E eu só quero, por mais uma vez estar entorpecida.

Sempre achei que sabia o porquê de fazer isso, agora não tenho tanta certeza.

Minhas pernas já não são tão firmes enquanto ando até meu quarto. Meu corpo treme, a garganta parece fechar-se, e minha mente pesa querendo libertar-se da invasão de imagens. Querendo apenas ser livre. O sangue corre rapidamente em minhas veias, vibrando, queimando. Não tenho mais controle é o que meu coração avisa a cada batida que parece querer perfurar meu peito, mas a estaca é grossa demais e a única coisa que ela faz é machucar.

Uma vez. Duas vezes. E de novo. E de novo.

Está me matando, mas não há lágrimas em meus olhos.

"Vá em frente. Chore." Giro os calcanhares em direção a porta do quarto ao reconhecer a voz.

"Olivia. O que você está fazendo aqui?" minha voz é dura e meus olhos deixam claro que sua presença não é bem-vinda. Mas ela permanece imóvel, encarando-me. Seus traços tornam-se inexpressivos, e são seus olhos que parecem me desafiar. "Vá embora."

"Não." Seu tom é baixo, o que apenas me irrita. Eu quero fazê-la desaparecer. A ela, A mim. Tudo. A raiva é como vulcão, fica na espreita. Dorme. Mas é só preciso um leve tremor para que exploda. E esse é o único jeito que sei lidar com o desconhecido.

Viro bruscamente segurando o primeiro objeto que minha mão entra em contato. É pesado, mas adrenalina me permite jogar o abajur na direção de Olivia. É por um segundo, porém ela desvia. "Vá embora." Murmuro entre dentes.

"É isso mesmo! De novo!" ela sorri abertamente, ri até. E eu só quero fazê-la parar. Sei que vou bater nela, toda célula do meu corpo vibra para isso. Meus olhos piscam e em uma fração de segundo sinto-me esmurrar algo. Mas tudo que minha mão encontra é a parede. E logo um soco é seguido de outro e de outro. Já posso sentir minha pele rasgar, o sangue marca a parede e minha pele pálida. O vermelho escorre em forma de lágrimas que meus olhos são incapazes de produzir.

Dói. Mas eu não posso fazer a mim mesma a parar.

"Tente algo melhor dessa vez." Paro por um segundo atraída por sua voz. A vejo levando a mão até suas costas, tira sua arma do coldre. Segurando-a pelo cano ela estende, entregando o revólver para mim. "Aqui. Pega. Eu disse segure!"

"Você acha que eu não faria isso?" com a mão direita, seguro a arma em punho. Meu dedo acomodando-se direto no gatilho.

"Você não ta tão desesperada? Vá em frente. Mate-me ou se mate. Quem sabe não faça até os dois?" as palavras dela penetram minha mente como veneno, e eu me encontro apontando a arma direto para seu rosto. Assisto Olívia aproximar-se sem hesitar, um passo de cada vez, até que o cano encosta em sua testa então arrasta-se até sua garganta. "Um movimento. É só preciso mover seu dedo se você acha que isso vai amenizar a dor."

"Por que você está fazendo isso?" posso sentir minha voz fraquejar, ao mesmo tempo em que meu braço parecer pesar. Mas eu continuo olhando em seus olhos - onde sua o cinza de sua íris parece sorrir melancólico para mim – enquanto aponto um revólver para sua garganta.

"Quando eu te conheci a primeira coisa que pensei foi que era perigoso você portar uma arma. Que você mataria qualquer se tivesse a chance." Um pequeno riso escapa de meus lábios sem permissão, ela sorri como se esse fosse seu objetivo. "Estou falando sério. Eu realmente pensei que você era algum tipo de sociopata. Mas então eu percebi que este era o único jeito que você sabia lidar com tudo. Porque tudo era demais para lidar. Era muito querer, muita paixão e muita dor. Alguns anos atrás você colocaria uma bala na minha cabeça apenas para provar a si mesma que você não sente. Mas agora ela é capaz de libertar tudo que estava sob controle e você. E isso, e isso é o que está te matando."

Eu não tenho forças mais. A pistola cai de minha mão, e meu corpo desaba em joelhos no chão. Sinto os braços de Olívia me envolverem firmemente enquanto um grito atravessa minha garganta incontrolavelmente. E é como se tudo que estivera adormecido em mim todos esses anos viessem a tona.

"Como é finalmente sentir?" sua voz é apenas um sopro em meus ouvidos.

"Dói."

"Vai doer. Até o dia que não doerá mais."

E as lágrimas que nunca caíram tornaram-se incontroláveis. E mesmo que elas nunca parem de caírem, elas lavaram o que tinha apodrecido sob minha pele. Talvez, hoje, eu tenha me tornado humana de novo.

"Atravessamos nossas pontes quando vamos até elas e as queimamos atrás de nós com nada para mostrar nosso progresso exceto a memória do cheiro da fumaça e a presunção de que um dia nossos olhos lacrimejaram." Tom Stoppard

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FIM!

Brincadeira. Claro que não ia terminar tão random assim. Bem forçado as pessoas chegando de surpresa assim, ham? Fazer o que.

Capítulo ridiculamente pequeno, mas importantíssimo. Quinn finalmente se deixando ser. Se isso quer dizer que ela agora persegue Rachel? Nem conto. Parte de Rachel pequena porque o próximo tem ela demais.

Vou responder aos comentários mais recentes, coisa que nunca fiz. Afinal só escrevo por causa dos leitores.

Obrigada Massinee e Coexisto, e realmente é horrível quando isso acontece. ; RChe ah nem se preocupe nessa armadilha não caio, RS. Pensando ainda como as coisas vão se desenrolar já que tenho coisas bem opostas em mente, mas aos que acham que tudo acaba no casamento estão enganados. Enfim, gravei sua fanfic para ler então só esperar que apareço pelos comentários (: ; danigarcez as duas são umas frescas mesmo. Né? Que povo enrolado. Mas fazer o que? Quanto mais complicado o personagem mais legal de escrever. As coisas vão começar a tomar rumo, não sei se é do jeito que você gostaria. ; Squaawks isso é vulnerável o suficiente? Rs. Queria fazer de um jeito que ela surtasse sem fugir da personalidade dela. Espero que tenha sido de seu gosto. ; livelystorm por último mais não menos. Eu sou fã de suas fanfics então is sick ter você como leitora. Espero que a história continue de seu agrado.

AHH, essa coisa de responder é difícil. Até o próximo capítulo e logo adiantando, vai haver um casamento nele :)